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troblogdita



Abolindo a hibernação. Esbanjando calorias. A favor dos hidratos de carbono. Contra o materialismo dualista.



Last Build Date: Thu, 07 Jul 2016 21:24:54 +0000

 




Thu, 07 Jul 2016 18:54:00 +0000

este blogue vai desaparecer.

na próxima segunda-feira, todos os textos e imagens que aqui se encontram já não estarão disponíveis neste endereço. continuo a escrever online e suspeito que durante mais algumas décadas. é fácil encontrar-me.
(image)



números que revelam pessoas

Thu, 07 Jul 2016 09:48:00 +0000

Nos anos 80, fazia parte da cultura o horror a ser tratado como um número. A massificação e o uso generalizado dos computadores no processamento dos dados produziu os seus resultados. Clientes e funcionários de empresas viam os seus dados recolhidos e analisados. Um cliché passou para a cultura popular, para a rua, para as conversas.Ser apenas um número. Ser um número num dossier. Ser um número numa ficha. Ser um número num ficheiro de computador. Ser mais um número. Não passar de um número. Era insuportável a ideia de uma pessoa ser apenas um número. De uma vida humana, num ficheiro de computador, poder ser resumida por um número. Cliente número tal. Funcionário x.Isso implicava que a pessoa só valia pelos dados que representava. Pelo dinheiro potencial que poderia dar a ganhar, enquanto cliente. Pela produtividade que se lhe media. Mas não tinha sequer nome. Era uma estatística.Tanto se martelou nesta questão que, sobretudo nos EUA, as empresas tiveram a esperteza de mudar de atitude. Os  funcionários passaram a ter nome. Na verdade, a cultura popular reagiu da maneira como reagiu, porque havia mesmo eventos e situações em que as pessoas recebiam um número que os identificava, ou eram tratadas pelo número. Passou a ser política das empresas que isso não voltasse a acontecer. Os funcionários têm um nome, e deve ser o primeiro. Os clientes devem também ser tratados pelo nome.Nestes anos de 2010, a relação entre números e pessoas é outra.Já nos tratamos pelos nomes. Os funcionários têm geralmente o primeiro nome na lapela. A empresas sabem o nosso nome e sabem a nossa data de aniversário e até o Google na sua página nos dá os parabéns.São os números por detrás do nosso nome que revelam muita coisa sobre nós. Se escutarmos Richard Stallmam e outros, a preocupação hoje deve quais os números que as empresas recolhem sobre nós, sem nos informarem.Agora, inversamente, é um rosto, um nome que tal como no filme Matrix se traduz-se em cascatas de algarismos - se for olhado por quem saiba interpretá-lo dessa forma, por uma máquina ou por um hacker. Uma pessoa significa dados, meta-dados, estatísticas, relações entre números, geo-localização, media, circunstâncias, tags, tudo o que identifica, refere, aponta, relaciona, informa. Sempre que consultamos uma página na internet, que usamos uma aplicação no telemóvel, sempre que fazemos uma pesquisa num browser, uma série de estatísticas e dados são registados e em alguns casos leiloados sobre nós. São esses números que revelam quem somos. Revelam o que somos a outras pessoas e empresas. Porque é valioso esse conjunto de dados. Não porque "somos mais um número". Mas precisamente porque "somos mais uma pessoa". E não são os números que gastam dinheiro, mas as pessoas. [...]



ukemi

Wed, 06 Jul 2016 17:54:00 +0000

Diz a Simone de Beauvoir a certa altura em O Segundo Sexo que as desportistas sentem menos a inferioridade em relação aos homens. Fala nesse trecho e falará muitas vezes sobre a capacidade que as desportistas têm de se afirmarem pelo que são, de não se submeterem a uma passividade que necessita da aprovação masculina para ser valorizada. Mais facilmente vão, pelo mundo, escalam, suam, correm, e isso corresponde a uma forma de se encararem e verem como sujeitos e não como objectos de outrem.Vivi sempre perto de mulheres desportistas. E sei que o que a Simone de Beauvoir escreveu em 1949 se aplica completamente às raparigas e mulheres dos anos 1990, 2000 e 2010 com que fui lidando. As desportistas não têm sequer receio de se baterem com homens. Sabem que se  acontece terem menos altura, rapidez ou força muscular que um desportista isso é apenas uma circunstância mas não determina nenhum tipo de inferioridade natural. Acreditam mesmo que se a altura fosse a mesma, a quantidade de massa muscular se equivalesse os resultados revelariam apenas mérito desportivo, inteligência, capacidade, empenho e não a assimetria morfológica. É que para corpos que são ligeiramente diferentes, os resultados já se aproximam-se e confundem. A tenacidade das desportistas não se deixa quebrar ao olhar para uma circunstância que oferece um adversário maior, mais alto ou com mais músculo. E elas não admitem condescendência ou tratamento diferente - o complexo de cavaleiro andante que quer tratar todas as mulheres como se fossem princesas muito frágeis, incapazes de subir pelo seu próprio pé para o cavalo ou, pior, incapazes de manobrar o cavalo à mesma velocidade e com a mesma destreza.Quando a minha irmã entrou para o basket eu sofria dessa condescendência. Ainda não a tinha visto jogar. Achava que ela era uma rapariguinha delicada e que não estaria à altura da minha competência física. Este meu preconceito era-me natural, nunca sequer o tinha enunciado, porque não me tinha apercebido dele. Quando a fui buscar a um treino, antes de virmos embora, jogámos um para um. E eu tratei-a como a uma rapariguinha delicada. Não me esforcei. Fui para a cesto e fui abafado, quando tentava, com enorme displicência, marcar um cesto em gancho. Para quem jogou basket, sabe que isto é humilhante. Um gancho é supostamente difícil de bloquear. O braço fica longe do defesa. Lança-se assim porque se consegue afastar o lançamento do defesa. E a minha irmã conseguiu saltar o suficiente para chegar com o braço e a mão onde a minha mão e a bola estavam. Era uma criança, 4 anos mais nova que eu, um adolescente cheio de manias. O que fiz a seguir foi, já decidido a não falhar, pegar na bola e mostrar à minha irmã que conseguia marcar aquele cesto. Seria uma lição. Eu ainda sou o irmão mais velho. Tu ainda és uma criança. Mas a minha irmã, cansada de um treino, fez o mesmo, um abafanço. Eu, tentando o meu melhor, não consegui. A lição fui eu que a aprendi. Nunca mais fui condescendente com a minha irmã, nem (conscientemente) com outra rapariga. A minha irmã, ali com uns 10 anos, cresceu com essa noção de que não é, em nada, inferior aos rapazes. Tornou-se uma mulher que sabe que não é em nada inferior aos homens e é assim que se comporta. O desporto sempre lhe deu essa capacidade de contar com ela, com a sua força, com a sua lucidez, e de saber encarar um desafio, um adversário, fosse ele qual for, com o que se é.Todas as semanas, jogo Badmington. Desporto que tinha jogado algumas vezes nas aulas do ciclo preparatório. Foi o desporto escolhido quando se procurou encontrar algo em que pudessem jogar homens e mulheres juntos. Funciona. As assimetrias contam pouco. As mulheres que ali jogam esperam ganhar. Os homens dão lutam. Todos se sentem desafiados. Os homens não jogam frouxo quando jogam com mulheres. Jogamos uns com os outros. E não interessa se o corpo de um é mais ágil, mais alto mais baixo, se tem barriga. Isso interessará [...]



a vida fora da UE - retro-futurologia ou um olhar sci-fi

Fri, 24 Jun 2016 21:55:00 +0000



Resistance (tomo #6 de Orbital, Thierry Cailleteau)
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passaram 1101 dias desde que deixei de fumar

Wed, 22 Jun 2016 21:55:00 +0000

Fumava um maço por dia. €5000 que não fumei. Ou seja, uns escassos 36 meses e 21 dias. 3 anos e 21 dias.(image)



black metal anarquista, queimando bandeiras, segurando a tocha

Wed, 22 Jun 2016 18:59:00 +0000

align="middle" seamless="" src="https://bandcamp.com/EmbeddedPlayer/album=2745335589/size=large/bgcol=333333/linkcol=ffffff/tracklist=false/artwork=small/track=907110210/transparent=true/" style="border: 0; height: 180px; width: 100%;">Panopticon by PanopticonFlag Burner Torch BearerRise up, spirit of my ancestry.Fill me with vigilance again.No longer will we watch from our posts.Torches of war burn this eve.For those who possess undue power lurk in our midst,with innocent blood on their sleeves.Their slaves labor into nothingness,lost in the abyss of factories.The gods are replaced with commoditiesunfit to occupy their thrones.Their rightful place.We bow our heads to mere currency.Our apathy allows capitalism to enslave.The price of our freedom is the essence of our slavery.The master I've served will never repay me.There's poison in the communion wine.In this theocracy we will all die.Worship false idols.Currency in our veins...The bow breaks in this ship of fools.Capitalism enslavesPaid in blood......Tonight, all flags must burn in place of steeples.Autonomy must return into the hands of the people.This is war on our oppressors.The concept of capitalism robs us of our very nature.Destroys our tribes, torn apart our families.Gagged and bound, we slit the throat of the henchmanthen laugh at the contradiction.Falsify our inspiration, numbed by media.The tools for complacency market our fucking rebellion.Behold, the chains of profit.There is nothing sacred!We are convinced that we are free because we are not starving.But our souls starve for something more than profits and convenience.We starve for truth, we starve for earth,we starve for freedom and untainted skies.How long will we swallow the shit that they feed us?How long will they rape our ears with their lies?I will not surrender my heart to anyone but me.There are only a few things that I believe:that people are born freeand slavery is murder,property is theftand government is tyranny:anarchy is liberty.Liberation!Tonight all flags must burn in place of steeples.Autonomy must return to the hands of the people! [...]



o fim da diversidade

Tue, 21 Jun 2016 21:57:00 +0000

Dez anos de Facebook.Em 2006, qualquer pessoa com mais de 13 anos e com um email válido podia criar conta no Facebook. Três anos antes, neste mesmo blogue, eu linkava o site oficial de Dogville. Ao visitar o site, entretanto extinto (há 13 anos atrás), desaparecia - muito surpreendentemente - o browser. Na escuridão, começava-se a desenhar os traços que se vêem no filme. E o filme (a vista a partir de cima) aparecia. As separações eram as opções do menu. Nessa altura, antes de existir Facebook, eram comuns as inovações. Scrolls horizontais, que faziam com que um portfolio de um fotógrafo se apresentasse na horizontal. Cada site era a expressão do seu criador.O iPhone foi lançado em 2007. A ideia de personalizar a experiência na web (e paralelamente, nos dispositivos usados) foi adoptada pelo Facebook, mas com consequências diferentes.A Apple sempre ofereceu produtos consistentes. Um único software, uma mesma experiência, um mesmo ambiente a agregar, conduzir tudo.Na altura em que o Facebook apareceu, existia uma dispersão enorme: o fenómeno das Startups (que na verdade nunca acabaria). Muitos utilizadores sentiam que para usar a web era necessário estar constantemente a criar novas contas e a aprender a usar serviços novos. Era preciso estar sempre a testar novos produtos, a mudar de browsers, de software.Embora a ideia de inovação constante fosse um imperativo do mercado, a ideia de mudar acabou por se tornar um inconveniente.Surgiram automatismos e serviços de conveniência. Alguns serviços, o utilizador nem se apercebeu deles. Outros foram-se tornando obsoletos. Aqui, também o Facebook soube tomar a dianteira. Existiam serviços que permitiam fazer login em várias contas, como o OpenID. O Facebook desenvolveu, através de parcerias um sistema próprio que se tornou tão popular, que chegou ao ponto de ser totalitário e monopolista. Neste momento, vários serviços só se podem usar com conta no Facebook, mesmo se não têm, nas suas características, nada a ver com o Facebook.A internet, que foi descrita como uma verdadeira aldeia global. O sítio onde surgiram neologismos como "glocal", mudou de forma muito rápida. Dizia-se que as pessoas já não se ligavam a quem tinham no seu bairro, no seu país, a quem partilhava a sua cultura. Dizia-se que as pessoas procuravam grupos, indivíduos que partilhavam interesses, que podiam ser muito particulares. Que as pessoas assim se juntavam, independentemente da geografia. E que assim havia uma fragmentação. Nada disso serve para explicar a enorme massificação da cultura mundial, actualmente. Nem nos dias do auge televisivo se viu alguma coisa assim.O Facebook (que geralmente, à laia de eufemismo, se refere como "as redes sociais") permite reunir o maior país do mundo. 1.650 milhões de pessoas (números de 31 de Março de 2016) para 1,339 milhões de pessoas da China (segundo o Censo de 2013). É o país dos "ligados", dos que estão on. Se se falava de info-exclusão, durante décadas, agora existe um tipo específico de exclusão.Uma vez, vi um vídeo no youtube. Era uma música que nunca tinha escutado. Chamava-se "Call Me Maybe." Fui especificamente ao youtube procurar a canção porque tinha visto aquele nome de canção repetido e não conhecia a canção. Depois olhei para o número de vezes que já tinha sido escutada. Passava de 800 milhões. Um número desses é algo assim: 839 619 408. O que pensei foi, 800 milhões de pessoas viram este vídeo antes de mim. (claro que muitas terão visto o vídeo mais que uma vez).O Facebook, eufemizado como "as redes sociais", permite uma massificação impossível antes.Algo cai na rede de ligados. E é como uma pedra num lago. Se as ligações desse lago forem suficientemente fortes, pode espalhar-se a todos os lagos da rede. A velocidade é assombrosa. Todos, parece, ambicionam a que as suas pedras possam se[...]



de entre todos, os roqueiros e os metalheads

Mon, 20 Jun 2016 23:44:00 +0000

Se tiver, de memória que fazer uma lista (sem ordem de preferência) das minhas bandas metal/rock favoritas:SamothraceSleepUsneaCallistoKrallicePanopticonCara Neir Zach Hill & Mick BarrSunn O)))MeshuggahAgora, espreitando a minha página do Bandcamp, porque sei que me esqueci de nomes imperdoáveis:BlackwolfgoatDark Budha RisingSubRosaOcean ChiefDark Castle EarthAddauradeafheaven Linda MartiniCloudkickerTexturesE completando agora com a minha página Last.fm, porque nunca me lembro daquilo que de facto escuto:Dead ComboHellaIntronautPausTera MelosOOIOOMão MortaDerek BaileyLungfishOmOneidaGreenleafRolo TomassiAlvin Youngblood Hart VildhjartaKaki KingYoshimi & YukaUnpersons Liturgy Buzzov•enOsso VaidosoSonic YouthBlack BreathElectric MasadaTorche Marnie SternTool(esta terceira lista teve em conta os nomes mais relevantes das primeiras 10 páginas das actuais 71 do meu perfil na last.fm. as três listas contém nomes que considero serem os que - hoje - me lembro de nomear como os mais interessantes - apenas - no que toca a rock e metal. deixei de fora a grande maioria do que escuto, embora, do que escuto, os sons roqueiros e metaleiros ocupem um lugar de destaque, não são os que contribuem com mais nomes) [...]



a insubmissão do nihilismo

Fri, 17 Jun 2016 16:12:00 +0000

300 by Frank MillerIn 2007, Zizek defended the film adaptation from accusations of being "the worst kind of patriotic militarism". It was quite common to read and hear the adjective fascist back then, from people that felt uncomfortable about the tone of the film, and not just leftists. This has spread to the graphic novel, which was quite popular at the time it was adapted, and so now it is impossible for me to write a review without this in mind.[instead of hiding parts of the text as spoilers, I choose to warn that from this point on, most of what I write will be a big spoiler]Let me start by stating that I feel quite comfortable saying that I don't believe Frank Miller wrote this as a fascist manifest (to think that, after reading it, seems absolutely ridiculous). Even if I don't know Frank Miller personally, or haven’t yet listen to what he said about this work, the content of what I just read has nothing in common with what a fascist would do to promote his ideas. And I would even say that this does not have unintended fascist ideas. Concepts that the author was not aware of and that nonetheless still got through. As for patriotic militarism, that's something else. But a pacifist could write this. So, starting by this. Let's not make this old confusion. George R. Martin is not a violent, amoral person because he writes Game of Thrones. Is he?A book with nazis in it (nazi characters) is not necessarily "a nazi book", promoting nazism. And most of all it does not make the author a nazi. That would mean that we would immediately make assumptions about the character and the intentions of someone because of the theme of the book. So why does a book about Spartans "become" a fascist book?Sparta was an oligarchy, where 90% of the population, the helots, was subjugated by the other - in a class that is in a category that is still the subject of study, somewhere between serf and slave. In the book, Leonidas, when a soldier bravely shouts "We're with you Sir, to the death", he responds, "I didn't ask. Leave democracy to the Athenians."The leader is ruthless. In a scene that is used for several claims against Frank Miller's work, Ephialtes, an unrealistically deformed Spartan asks to join the 300. He looks like a monster, almost mythical, so inhuman he's portrayed. He tells the story of how his mother and father prepared him to fight fiercely, like a Spartan, since he was young. And Leonidas tells him they failed to inform him how their phalanx works. "We fight as a single, impenetrable unit. That's the source of our strength. / Each Spartan protects the man to his left. From thigh to neck. With his shield. A single weak spot -- And the phalanx shatters. From thigh to neck, Ephialtes. / You can't hold your shield high enough. / I'm sorry, my friend. I can't use you." We assume Leonidas pushes off a cliff, when we see his close up face in terror and then his body falling and Leonidas turning his back and saying "Poor soul / May he rest in peace."There are accounts of how Spartans did practice what we would now (with our language would call eugenics). "Shortly after birth, a mother would bathe her child in wine to see whether the child was strong. If the child survived it was brought before the Gerousia by the child's father. The Gerousia then decided whether it was to be reared or not. It is commonly stated that if they considered it "puny and deformed", the baby was thrown into a chasm on Mount Taygetos known euphemistically as the Apothetae (Gr., ἀποθέται, "Deposits")." title="Wiki about Sparta" To portray Spartans as historians usually portray them is not fascist. To survive the Spartan education was hard. Many did not. So, it is not hard to imagine how such a people, that valued strength and brute force and the militaristic hierarchy and regime would look at someone that did survive being "taken c[...]



o materialismo dualista revela-se (texto com spoilers para fãs de BD)

Fri, 27 May 2016 12:13:00 +0000

Volume 2 de Alex + Ada, de  Jonathan LunaAda é uma ginóide, que no mundo de Jonathan Luna é agora uma freedroid, um android que foi "acordado", libertado da limitação (no software) que os impedia de terem consciência de si. O que no mundo anglo-saxónico se diz "to be sentient" e que já tem entrada no dicionário Priberam como senciente, embora a palavra portuguesa, ao contrário da inglesa, não seja de uso corrente. Alex recebeu o android, um caríssimo Tanaka X5 como presente da sua avó. E como alternativa a devolver o presente que não queria, descobriu que havia uma forma de "libertar" a ginóide da sua prisão comportamental que a submetia absolutamente às vontades do seu proprietário. Alex não se sente confortável precisamente com a fantasia masculina da ginóide: um robot que obedece a tudo e que realiza todas as vontades e fantasias do dono. Uma escrava, com a aparência de uma mulher, mas sem vontade própria. Alex quer, inicialmente, emancipar Ada.Neste sentido, Alex + Ada é uma história interessante. O título sugere aquilo que a história, até este ponto revela. Um igualitarismo, que o protagonista utopicamente persegue e que a freedroid representa. Igualdade entre humanos e andróides. E igualdade entre homens e mulheres. Este painel surge a seguir a uma cena típica a uma certa caracterização dos bons rapazes que se nota também em Saga, de  Brian K. Vaughan. Marko, um ex-soldado e que uma vez com seis anos bateu numa rapariga, jurou nunca mais ser violento. Tortura-se porque atirou uma lata à ex-mulher, assim violando duas leis sagradas e tornando-se imerecedor da santidade do casamento, ao ser violento no próprio seio do casamento e ao erguer a mão contra a própria esposa. A ex-mulher escarnece do "pacifismo" dele. Ela e a mãe dele são guerreiras e não têm pejo nenhum em assumir a própria agressividade. Mais tarde sabemos, num flashback como Marko é atormentado pela extrema violência que passou e que fez outros sofrer durante a guerra. Tendo lido cinco volumes de Saga, dá a ideia que Marko é mais complexo, interessante, que Alex. Mas o segundo volume ainda vai a meio e Alex tem tempo para se revelar.O que parece surgir é um dos lados de uma polaridade inevitável e um pouco irritante. Os bons rapazes torturam-se quando lidam com a agressividade, têm relutância em tomar as mulheres quando elas estão disponíveis sexualmente, como é o caso da cena que precede esta. São uma espécie de fotocópia a preto e branco das mulheres, vistas pelos homens. É como uma pequena vingança, mesquinha: isto é o que nos fazem passar, quando estão com o período. Os maus rapazes são como touros, no sentido anglo-saxónico da expressão, bulls, os machos da espécie. Dominadores e sem remorsos, o que em inglês se diz "unapologetic". Como elefantes marinhos, vêm a fêmea e avançam de nariz no ar, levando tudo à frente, esmagando e fazendo fugir. Como pavões, olham a fêmea de frente, rodeiam-na. Sem precisar de espelho para confirmar a saúde das cores da cauda. Como leões, rugem e perseguem e sentem-se no direito de possuir. Não lhes importam as batalhas que percam. Porque haverá fêmeas que os queiram. Os maus rapazes são maus. Fazem coisas más. Os bons rapazes são os que ficam por casa. Os maus são os que andam lá fora. Os bons têm remorsos. Comportam-se como se tivessem hormonas complicadas. Emoções complicadas. Como se compreendessem muitas coisas ao mesmo tempo. Como se não quisessem magoar e como se percebessem quando magoam e como se não quisessem magoar outra vez. Os maus rapazes não ficam para contar a história. Contam histórias espantosas, de aventuras que tiveram, e fazem os olhos de quem escuta brilhar. A simplicidade com que levam as coisas é intruigante e sedutora. Sabem como cativar. E fazem p[...]



o "nós"... empático

Sun, 15 May 2016 20:56:00 +0000

Não usar Facebook permite alguma higiene. Como alguém que nos anos 80 não visse televisão. E assim mantivesse um pensamento muito próprio. Recebesse e transmitisse ideias nos seus ritmos. Sem se afligir demasiado com a cultura de massas. Olhando para a cultura de massas como isso mesmo. Como cultura. E como um fenómeno de massas. Mas sem essa urgência de ter de comentar e reagir e usar e deitar fora e estar à frente, ser o primeiro a já estar farto, ou o último que esteve distraído, quando a coisa afinal não era importante. Ter que descobrir qual o termómetro mais eficaz. Andar à cata de barómetros e gurus, comentadores e regurgitadores eficazes e menos enfadonhos que a inevitável radiação de fundo constante. Agora, que a televisão os jornais e até a rádio, tudo foi engolido pela rede, tudo pulsa em actualizações do Facebook, e quando ainda se assiste, se escuta ou lê, é sempre com o Facebook aberto, para comentar em directo ou não perder, em directo, o que outros vão comentando, agora é tudo muito mais o mesmo. Temos os dedos sempre a ameaçar o teclado. Em vez da preguiça de mexer o comando, quando se abandonou o Zapping. O scrolling infinito, a trazer para diante o sempre-agora, a actualização constante, diz-nos que está sempre a acontecer qualquer coisa. E a única coisa que alguma vez nos pode interessar é isso mesmo: o que está a acontecer. Liga-se um botão e vai-se ao Facebook, se é que alguma vez se fecha sequer a aba do browser, para isso mesmo: ver o que está a acontecer. Quem põe o quê. Toda a gente põe. E não são ovos. Põe naquele sítio, mesmo à frente dos olhos, onde em horas de maior rebuliço não param de ser partilhadas coisas postas, ali, à frente dos olhos. Quando abunda a coisa posta, nem nos lembramos de nós, também, partilharmos alguma coisa, em busca de likes. Quando, afinal, as coisas param, a roda do rato roda e roda e já não põem, lembramo-nos que há silêncio e pensamentos, também, afloram à nossa mente. E as emoções, até, lhes realçam o significado. É então que escolhemos, com dedicada atenção, o que pôr. Acontece, com frequência, pormos coisas da nossa intimidade. Frases, miudezas, imagens, que outros disseram, criaram ou foram já partilhando. E que num instante nos pareceram tão apropriadas. Clicamos e pronto. Se mais ninguém põe, às vezes espreitamos uma e outra vez. Se há um like ou assim. Tudo isto, claro, em frente a um rectângulo. Mais pequeno, afinal que o da televisão. Horas podem passar rodando a roda, espreitando likes que vêm. Ou não. [...]



atenta

Fri, 13 May 2016 20:51:00 +0000

"Her entire life, outsiders have thought of her as chronically distracted.

In reality, she's just focused. Pushing everything else to the background."

MIND MGMT, Matt Kindt
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rumo ao sol

Thu, 28 Apr 2016 21:26:00 +0000

For hours at a stretch I would lie in the sun doing nothing, thinking of nothing. To keep the mind empty is a feat, a very healthful feat too. To be silent the whole day long, see no newspaper, hear no radio, listen to no gossip, be thoroughly and completely lazy, thoroughly and completely indifferent to the fate of the world is the finest medicine a man can give himself. The book-learning gradually dribbles away; problems melt and dissolve; ties are gently severed; thinking, when you deign to indulge in it, becomes very primitive; the body becomes a new and wonderful instrument; you look at plants or stones or fish with different eyes; you wonder what people are struggling to accomplish by their frenzied activities; you know there is a war on but you haven’t the faintest idea what it’s about or why people should enjoy killing one another; you look at a place like Albania—it was constantly staring me in the eyes—and you say to yourself, yesterday it was Greek, to-day it’s Italian, to-morrow it may be German or Japanese, and you let it be anything it chooses to be. When you’re right with yourself it doesn’t matter what flag is flying over your head or who owns what or whether you speak English or Monongahela. The absence of newspapers, the absence of news about what men are doing in different parts of the world to make life more livable or unlivable is the greatest single boon. If we could just eliminate newspapers a great advance would be made, I am sure of it. Newspapers engender lies, hatred, greed, envy, suspicion, fear, malice. We don’t need the truth as it is dished up to us in the daily papers. We need peace and solitude and idleness. If we could all go on strike and honestly disavow all interest in what our neighbor is doing we might get a new lease of life. We might learn to do without telephones and radios and newspapers, without machines of any kind, without factories, without mills, without mines, without explosives, without battleships, without politicians, without lawyers, without canned goods, without gadgets, without razor blades even or cellophane or cigarettes or money. This is a pipe dream, I know. People only go on strike for better working conditions, better wages, better opportunities to become something other than they are.

in The Colossus of Maroussi, Henry Miller, 1941
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fragmentos a meio da caminhada

Sun, 24 Apr 2016 21:25:00 +0000

Vou desfolhando o caderno, à procura da primeira folha disponível. O milagre da sombra verde da garrafa de água das pedras ainda mais fulgurante que uma cintilação de diamante na réstia de água no copo. Bebo o diamante líquido. O pôr-do-sol distante. A Primavera suaviza o ataque frontal do sol. O marulhar das ondas e o vozerio preguiçoso misturam-se. Leio búzios na disposição dos objectos pela mesa. A capa do Austerlitz parece sempre apontar, com o fato branco da criança a rasgar um campo verde obscurecido até ao negro, a capa e o chapéu a sugerirem a forma de uma seta. Sabe-me bem estar só. Sobretudo no meio de pessoas que não estão sozinhas. Gosto da companhia da minha espécie. Desde que conviva com os outros, tudo me parece razoável. O inferno é o isolamento na própria mente, é a insanidade.*Não sinto que tenha de ser aceite. Fora dos limites da violência, parece-me que os outros são livres de me rejeitar. Os outros pensam por si próprios e podem ter bons (e maus) motivos para não gostar das minhas ideias ou da minha companhia.*Admiro muito a liberdade dos que, como Mandela, ficaram presos durante longos anos. Essa autonomia que os muros, os repressores, as ameaças não destroem. Admiro esse reduto que se mantém, que se alimenta, como um eremita em gestação, para que fora já dos muros se queira construir. Não foi a esperança da futura vingança que fez com que não quebrasse a vontade. Antes a crença no futuro. A ideia, simples, que o futuro será melhor. E que vamos lá estar. Ou, pelo menos, que estamos a contribuir para que ele chegue.*É com o mecanismo da marginalização que se discrimina alguém, num grupo, simplesmente por ter um credo, identidade ou cor diferente. Mas é também assim que se impede (marginalizando) alguém de destruir os valores basilares de um grupo. Alguém que, precisamente, discriminasse violentamente uma pessoa pelo credo, identidade ou cor, num grupo onde isso é inaceitável, provavelmente seria rejeitado. Somos sociais. Uma sociedade é por natureza normativa. O indivíduo é por natureza egótico. Um admirável mundo novo à perfeita imagem do indivíduo é uma tirania, que esmaga os muitos para concretizar cada capricho do tirano. Um mundo forjado à medida do colectivo esmaga as aspirações individuais, exigindo que cada um se sacrifique por ideais necessariamente abstractos. O compromisso entre individual e social envolve tensões. Somos indivíduos que vivem em sociedades. Primatas sociais que ganharam consciência de si. Bichos com ego. As tensões talvez sejam uma forma de evitar automatismos, a repetição de repetições repetidas. Assim caídos no humano, imperfeito como acusamos constantemente, despertos, estamos impedidos de viver como simples executores de genes e pressupostos evolutivos. A parte individual cada um terá de fazer por si mesmo. Dar-se conta, já a meio do processo e ainda a recuperar das tempestades adolescentes ou das crises das idades que se seguem, da cultura que é a sua. De que superstições adquiriu. Averiguar quais as suas crenças, as declaradas perante todos e perante si. E as profundas. Decidir, a certa altura, qual o lastro que é melhor abandonar rumo a algo mais essencial e genuíno. Em que é que pretende fazer rupturas, pontes, reinterpretações. O social terá muito de mediação, concessão e a maneira como cada um o vive depende de como se vê política e emocionalmente. *Não tenho maior obra, viagem ou obstáculo a enfrentar que o meu mundo interior. [...]



da singularidade das alíneas

Sun, 10 Apr 2016 09:23:00 +0000

Ainda sobre a peculiaridade das listas, escreve Michel Foucault a propósito do texto de Jorge Luís Borges que originou o seu livro "As Palavras e as Coisas":

Este texto cita «uma certa enciclopédia chinesa» onde vem escrito que os animais se dividem em: a) pertencentes ao imperador, b) embalsamados, c) domesticados, d) leitões, e) sereias, f) fabulosos, g) cães em liberdade, h) incluídos na presente classificação, i) que se agitam como loucos, j) inumeráveis, k) et caetera, m) que acabam de quebrar a bilha, n) que de longe parecem moscas»(image)



Kleist não tinha medo dos títulos grandes (em todos os sentidos)

Thu, 07 Apr 2016 13:51:00 +0000

"Ensaio sobre como encontrar o caminho seguro da felicidade e, sem perturbação - mesmo sob os maiores tormentos da vida -, dela desfrutar!"

É é o título do primeiro ensaio do livro "Sobre o teatro de marionetas" e outros escritos. É desde logo evidente a tremenda ironia de este primeiro ensaio ser designado, como "outro escrito". É assim como ter uma lista de coisas úteis, que incluam "O segredo para a vida eterna", "Tirar nódoas de azeite", "Cozer botões", "Comida saudável", Notas de viagens aos Trópicos", "Bandeiras de países extintos". E chamar-lhe: "Sobre Comida saudável e outras coisas".
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olhos desvendados

Mon, 28 Mar 2016 16:36:00 +0000

Escutamos no início de "Le Genou de Claire" que os heróis de uma história têm sempre os olhos vendados. Quando se escreve, no entanto, é-se obrigado a manter os olhos abertos. Segue-se os impulsos das personagens. "Je n'invent jamais, je découvre."
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ainda, de novo

Sat, 26 Mar 2016 19:50:00 +0000

Somos filhos do tempo. Precisamos de quebrar as ampulhetas para sentir. Até que um dos dois morda o lábio do outro, enfie dedo na boca ou no sexo que não lhe pertence, até que uma frase se interrompa porque caducou a sua precisão, escorre a violência dos relógios. Deixamos que o eixo horizontal tenha horas, sucessivas, em vez de um rasto de peças de roupa, abandonadas segundo um ritmo imprevisível. Falamos. De menos e de mais. É quando calamos a boca ao mundo, com a volúpia toda da nossa carne, que expressamos melhor a urgência da serenidade. No fundo, gostamos de nos encontrar. Não sabemos o que não sabemos.  E por enquanto praticamos uma arte do irreconhecível. Como quem ainda não comparou tatuagens entretanto acrescentadas à carne de cada um.
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a semântica da colisão dos mundos

Thu, 24 Mar 2016 15:00:00 +0000

Uma imagem da ficção científica ajuda-me a explicar a mim próprio como funciono no que toca a reconhecer a realidade. Necessito do confronto, do antagonismo, da colisão de ideias, universos, escolas, ideologias. Quando duas dimensões, numa narrativa sci-fi, entram perigosamente na proximidade uma da outra, por vezes existem fracturas. Quando antes tudo parecia o que era, susceptível de ser descrito apenas pela imaginação e estilo de cada um, variando consoante cada um, a partir da fractura sabe-se que existem duas realidades em colisão. É necessário rever, começar mesmo por aí, a noção de realidade.O momento crucial é a visão da fractura. Realidade, para mim, é ver essa fractura, possível porque entram em colisão dois mundos. Poderia dizer que esses dois mundos são, na metáfora que uso, as descrições, por exemplo, lacaniana e pós-estruturalista. Ou uma ortodoxia marxista e uma apologética neo-liberal. Ou ainda uma visão randiana ou anarco-capitalista da sociedade e uma outra visão, utopista, de inspiração socialista libertária. As colisões não têm de ser de posições simétricas e isso provavelmente não é possível, não existe. Podem colidir mais do que duas posições.Quando dois mundos colidem e são, com honestidade e uma certa ferocidade empenhada, adversários que se querem enfrentar, há necessariamente um esforço de tradução. Isso cria o contorno da fractura. Assim que se vê esse contorno, o local onde vivemos não pode voltar a ser o mesmo. É como quando tenho de traduzir "longing" e opto por dizer "saudades do futuro" em vez de, desonesto, dizer apenas "melancolia" ou fosse ainda mais longe e impingisse, delirante, "esperança triste" ou outra inovação sem qualquer critério ou sentido. Forçosamente, só a maior honestidade possível me permite descobrir na minha própria língua, o que saudade significa, porque um outro idioma me fez olhar com os olhos estrangeiros que não tenho. Traduzir obriga a usar outro olhar, usando de facto o meu. E nesse contacto demasiado próximo de duas formas diferentes de dizer as coisas vejo algo novo, que sempre esteve lá. No limite da linguagem, vou aprendendo a dizer as coisas, com as coisas que digo já. [...]



(o horror) da noite #1

Wed, 23 Mar 2016 21:30:00 +0000

Sou contra o filme Nuit #1, de Anne Émond. Oponho-me a ele com a força com que me oponho ao avanço de uma doença. Uma doença civilizacional. O filme não é a doença, no entanto. Devo até estar-lhe grato, pela forma como carrega a pestilência. Tal como Otto Weininger conseguiu dotar o seu Sexo e Carácter de um pujante anti-feminismo que, no seu tempo, era louvado pelas mentes mais eminentes. Anne Émond fez uma obra que apela, diz-se, à sua própria geração. Aos que, como ela, antes ainda de fazerem 30 anos, estão cansados de um certo modo de vida. Por simplificação e, porque é esse o tema do filme, diremos, do sexo fácil. É talvez a geração que lê e se revê na obra de Houellebecq mais facilmente. Que está cansada antes ainda de esgotar (ou atingir) o fôlego todo.Os anos 60 e 70 trouxeram uma imensa esperança de que o sexo libertasse as pessoas. Houve imensas experiências sociais. Comunas, pessoas a juntarem-se e a criarem os filhos em conjunto. Escolas sem currículo. Todo o tipo de experiências, num ambiente francamente utópico. Geralmente os filhos querem-se revoltar contra os pais. E se os pais foram permissivos, pode acontecer o filho alistar-se no exército, ou ter outro percurso que envolva autoridade, para provar algo. Por vezes a revolta, a forma de uma geração superar a anterior, é ser hipercontrolada, retomar um discurso da crise de valores, muito provavelmente valorizar valores que contradigam os valores da geração dos pais. O puritanismo (e não falo dos Puritanos que fizeram parte dos colonos americanos, apenas da atitude puritana, os americanos dizem "puritanical" para distinguir o adjetivo da pessoa, "puritan") é uma resposta ao que se passa na sociedade. E acredito que estamos em plena onda de puritanismo. A razão por que vi este filme foi porque estar a ser aclamado por críticos e público como uma grande reflexão sobre a sexualidade e o comportamento. E o que posso dizer é que o vejo como mais um sinal da onda de puritanismo - como um sintoma não como parte da reflexão.Um dos comentários no Mubi, "Thought this was going to be gratuitous but turned out to be thoughtful and interesting". O filme tem bastante sexo e inclui sexo explícito. Aquele cinéfilo talvez tenha pensado, ao ver o sexo, "outro filme imundo", mas depois, quando as personagens juntam a culpa ao sexo, e o olhar puritano (puritanical) sobre o sexo começa a produzir discurso (a partir de metade do filme, é só diálogo entre duas personagens, e diálogo depressivo, moralista e auto-recriminador), provavelmente sentiu-se seguro, ou validado.Pelo menos este utilizador recebeu a mensagem mais ou menos como ela foi concebida. Parece-me que será mais provável que a maior parte simplesmente aprecie o sexo e depois coma a refeição puritana. A velha máxima (horrorosa, quem sabe vitoriana): fodes, acordas, sentes-te culpado. O filme é estranhamente comparado por algumas pessoas ao 9 Songs.Esta nova geração, sei que parece estranho dizê-lo enquanto a geração ainda é nova, é puritana  (puritanical). Ou haverá uma tendência puritana, tentações puritanas (puritanical). Não é um apontar de dedos que pretendo fazer. É uma tendência que não depende de uma geração (ou de pessoas específicas). É uma mudança cultural. E um dos exemplos que me lembro aconteceu já na minha geração. É a Tiazinha. A Susana Alves aparecia na televisão encarnando a personagem Tiazinha, uma personagem altamente sexualizada, com máscara e chicote, com um body preto de cabedal a faze[...]



partilhar a falta de horizonte - as heterotopias actuais

Wed, 23 Mar 2016 16:12:00 +0000

As Partículas Elementares de Michel HouellebecqHouellebecq é interessante. Parece um contraponto à esquerda, diria à pós-esquerda que está sempre a um milímetro de ser apolítica. Essa falange que manifesta o cinismo vigente da geração do 11 de Setembro. Os que não conheceram um mundo que não estivesse sempre sob a ameaça terrorista e que se reconhecem mais no discurso populista, anti-sistema e anti-políticos que em quaisquer outros. E cujos heróis usam máscaras, sejam os Anonymous, sejam perfis online, seja a fantasia temporária do revivalismo dos super-heróis, de facto, das séries televisivas. Ou heróis que são hackers, protegidos pela web mais profunda, onde o poder não chega, supostamente. Mas, como no caso da rede Tor, é afinal o poder (o complexo militar norte-americano) que financia e sustenta os corredores mais escuros e anónimos da internet, para se poder ele próprio movimentar sem ser detectado.Este contraponto à cripto-esquerda é uma cripto-direita. Os que seriam de esquerda acabam por apoiar ou pelo menos rever-se, nem que seja tacticamente ou com reservas em fenómenos populistas como o Podemos, os que seriam de direita acabam, imagino, por se rever neste discurso de Houellebecq, que não chega, muitas vezes, a ser considerado de direita. Uns e outros têm os seus momentos, como convém, em que estão para lá dos partidos, ou são sem reservas apolíticos, partilhando uma malaise, um mal-estar civilizacional comum.Se a ex-esquerda está aquém da política, a ex-direita a que Houellebecq se dirige com mais sucesso ou de onde se originou o seu discurso está além da política. Os do Podemos falam da política como algo que suja, em que não se deve meter as mãos (obviamente é algo paradoxal). Houellebecq tem a capacidade de falar com desencanto, como quem já não consegue voltar, depois de ter experimentado (e também é algo paradoxal, porque o seu livro oferece uma solução utópica).Em Portugal, há uma figura intelectual que me veio à cabeça, ao ler “As Partículas Elementares”. A dada altura, na página 210, lê-se:“«Tens uma visão da vida muito sombria...», disse Christiane, acabando com um silêncio que começava a ficar pesado. «Nietzchiana», corrigiu Bruno.”Pedro Mexia, escreve a certa altura num blogue algo como, “O problema de aceitar a divisão de Nietzche entre fortes e fracos é que me encontro entre os fracos”. A citação é escrita de memória, espero não estar muito longe do texto de Mexia, já que não consegui encontrar o texto original.Acerca de Bruno, na página 198, lemos:“«Não sirvo para nada», disse Bruno com resignação. «Sou incapaz de criar porcos. Não tenho a mínima ideia sobre a fabricação de salsichas, garfos ou telemóveis. Sou incapaz de produzir qualquer desses objectos com os quais vivo e que utilizo ou que devoro; nem sequer sou capaz de compreender o seu processo de produção. Se a indústria tivesse de parar, não era comigo que podia contar para recomeçar a produzir. Se me pusessem fora do complexo económico-industrial, não estaria sequer em condições de assegurar a minha sobrevivência. Não saberia alimentar-me, vestir-me, proteger-me dos rigores do clima; as minhas competências técnicas individuais são inferiores às do homem de Neandertal. Completamente dependente da sociedade que me rodeia, não lhe sirvo, em troca, praticamente para nada. Tudo o que eu sei fazer é produzir comentários duvidosos sobre objectos culturais fora de uso. Contudo, recebo um salá[...]



"whatever you've done we know what that was"

Thu, 17 Mar 2016 15:00:00 +0000

O Snowden mantém a lucidez em todas as suas aparições públicas. Eis como responde ao libertário de direita Nick Gillespie, que estava a tentar puxar a brasa à sua sardinha:Nick Gillespie - How should children... what are the texts that they should read, or what are the practices that are good that would give them an independent critical, you know, ability to kind of move into a world which is both nationalistic - in a good sense - you're an american and you seem to be still proud of being an american, and there's something there worth preserving, you know so we can be nationalistic but not statist. Where to we go on the Internet? Where should we be asking our children to be spending some time?Edward Snowden -I think it's less important to go to specific texts as to demonstrate how specific texts are written. If I were a parent trying to help my child understand the internet the key exercize that I would do is: I would go look at cases that are super partisan today, right?, extraordinarily charged. And I would get two radically different re-writtings of the same story and I'd make them read both. And I would do this on a number of different things to show... Because this is something a lot of older people fall prey to who aren't so familiar with the internet and just get their news from their single landing page board or whatever, and also young people who get super filter bubbled because they sort of opt-in to communities that create sort of a group think, where it's always people who are agreeing with what they say, which was not available in the same way 20 years ago, on the Internet, and 10 years ago, really, where there weren't walls that were quite so high separating communities. And the idea here is to show that the thruth lies across the abundance of sources. The beauty of the internet is that you no longer have to relly on a single source. You no longer are vulnerable to the broadcast, that is: this is sort of the voice of thruth, this the voice of facts. But it's important to understand that the sources that you prefer can still be wrong even if they've got the right principles, the right ideas, the right values. Getting the facts right matter more than anything else. [...]



depois da calmia, a Tormenta

Wed, 16 Mar 2016 15:00:00 +0000

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uma lição sobre as várias tradições de tablas com Zakir Hussain

Tue, 15 Mar 2016 21:13:00 +0000


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a minha digestão

Mon, 14 Mar 2016 03:00:00 +0000

Escuto Filho da Mãe. Escuta-se a respiração. Se noto muito incomoda-me. Prefiro reparar no som da guitarra. Escutar e tocar nos meus próprios dedos. Escutar com os dedos, com o peito. Assim, é a minha própria respiração que é entrecortada, o peito que cresce. Sou eu que me interrompo, para escutar melhor a imagem antes de expirar. Assim que reparo muito da respiração dele, fico ansioso. Penso, deve fumar. Respira com dificuldade. Não bate certo. Ou melhor, dói-lhe fazer soar a guitarra assim. Bate certo. Escuto-lhe a respiração e soa à dificuldade de manter o ritmo, aguentar a harmonia. Neste, Mergulho, não há nas primeiras canções aquela obstinação com que se atira às cordas. Uma fome, como se tivesse garras, ou não soubesse mas quisesse saber qual o limite das cordas. A delicadeza sai-lhe cara, geralmente. É o que fica nos intervalos da ânsia. Não uma construção, talvez o resultado de uma fuga. Mas aqui há vestígios de uma dança. Esqueço-me de novo da respiração. Das nossas respirações. E parece-me mais límpida a música. Como se não custasse a expressão. Quando parece nítida, imaterial, som a almejar uma qualquer transcendência, volta o peso da respiração e lembro-me de expirar. Regresso à terra e aos ossos dos meus dedos, ao frio das mãos, aos músculos e à serenidade de me saber sôfrego.
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