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(T)ralha





Updated: 2015-09-17T06:33:09.177+01:00

 



Dicionário

2014-05-14T17:18:50.237+01:00

(Como uma revelação. Como um fado. O dicionário como uma sirene de alarme)pantana1 (pan.ta.na)sf.1. Lus. Pop. Atascadeiro, lamaçal, lodaçal, pântano [Empr. tb. no pl.][F.: Posv. alter. de pântano.]Dar (com algo) em pantana(s)1 Lus. Fig. Perder, dissipar (algo): Achavam que logo daria com a herança empantana.1 Lus. Fig. Falhar, fracassar; arruinar-se.1 Em dificuldade.Dar em pantana(s)Em pantana(s)pantana2 (pan.ta.na)1. Bras. Cap. Golpe de capoeira que consiste em pôr as mãos no chão e dar uma cambalhota com os pés no peito do adversário para derrubá-lo[F.: De or. obsc.][...]



Madrugada

2014-03-12T15:57:53.187+00:00

Provavelmente nem te lembras disto; foi há muito tempo, pode nem ter significado nada para ti. Aquela miúda eu quase já não sei quem ela era, lembro-me dela com um amor infinito, com o mesmo carinho de uma mãe que murmura uma canção de embalar a um filho acabado de nascer, porque aquela sou eu antes de nascer, aquela sou eu antes de começar verdadeiramente a viver, imediatamente antes de tudo de bom e de tudo de mal que se seguiu.Tu foste, vistas bem as coisas e a esta distância, o primeiro sinal que algo de muito importante estava para acontecer. Chegaste-me como a justa indemnização que o destino dá de esmola a todos os desventurados. Bem sei que eu tinha a porta escancarada para que quem quisesse entrar entrasse, para que quem quisesse abancar abancasse, é verdade. Eu já não sei bem como eram todos os pormenores da minha vida naquele tempo, podia ler estes caracteres todos que aqui estão, enterrados, ao abandono, ler concentrada como quem estuda a lição para o teste, tentar vestir-lhe de novo a pele, senti-la na ponta dos dedos, mas não releio nunca o que escrevo, e é cobardia pura: tenho medo de me assustar, de não me reconhecer em toda ou qualquer palavra que juntei caoticamente num quebra-cabeças sem nexo.Mas lembro-me bem desse despudor com que me expunha, o despojamento, toda a minha fragilidade, as minhas fraquezas, os meus defeitos, tudo à mostra, uma sensibilidade brutal, e sei também como era bonita de se ver aquela urgência electrizante que me fazia escrever sem parar até doerem as mãos, até ter o mundo todo aos meus pés. Seduzi sem pensar, joguei todas as minhas cartas, às brancas, porque não sei fazer bluff. Felizmente saiu-me a taluda, tive sorte. E tu vieste de mansinho, mas de surpresa, foi assim que apareceste, se é que isso faz sentido e se me percebes, porque ninguém vem devagarinho causando surpresa ou espanto. Mas tu foi assim que chegaste. Em vez de me desarrumares ainda mais a casa, que já estava em pantanas, tu entraste em pezinhos de lã, sentaste-te na minha sala, enquadrado pela solitária parede laranja onde não chegava a luz da pequenina janela da assoalhada do lado, depois deste-me o colo que eu precisava, quiseste saber quem realmente eu era, à tua maneira tão peculiar, tu foste o único que tentou verdadeiramente que eu parasse de me boicotar. É assim que eu me lembro sempre de ti: o homem que me pediu para eu parar com isso. Nunca ninguém o tinha feito até então, acho que ninguém mais o fez, sequer aqueles que me amam, sabem bem que é um caso perdido, já não se insiste, nem vale a pena o desconforto, é o que é. Mas tu tiveste a coragem de o pedir, de me fazer ver, pela primeira vez, como eu o fazia tão deliberadamente, escavava grandes covas ao meu redor, depois cobria-as muito direitinhas e dedicava os meus dias a cair em buracos. Os meus buracos.Não saberás nunca a importância daquele tempo que me dedicaste, do amor que subtilmente deixaste transbordar à distância de uma secretária partilhada e de uma janela, onde queimámos cigarros proibidos sem fim, que fizeram disparar os alarmes e os ânimos de quem estava ao nosso lado, em piloto automático, a ver a vida a passar.Rebobino tudo para trás. A vida passou rápido demais, parece-me a esta distância que foi há muito tempo, mas a alta velocidade. Já devia ter escrito há muito mais tempo. Agora provavelmente nem te lembras.Os contornos podem até já estar esbatidos, desbotados, mas há coisas que não se esquecem, não se esquecem nunca, levamo-los connosco para todo o lado, como bagagem de uma viagem iminente que pode chegar a qualquer momento; é o que nos resta dos dias estapafúrdios que vivemos a achar que eram os mais importantes da nossa vida. Eu lembro-me assim, diz lá que não era assim: eu mostrava muito as mamas, em decotes profundos, chagas abertas no coração, e ninguém reparava mais do que o contorno do seio, nada mau, vá, podia até ser pior. E à noite eu não dormia porque também levava tudo demasiado a peito. Sempre o peito. A[...]



Grandes Esperanças

2014-01-08T17:08:19.545+00:00

Palácio da Fonte da Pipa (outrora,Quinta das Esperanças), pela lente do Ruin'ArteEu e o abandono, andamos sempre ao lado um do outro, um no encalce do outro, eu sou a medalha e ele o reverso, ele é o roque e eu sou a amiga, ele é a  vidraça e eu sou a areia que se entrega em silêncio à purificação pelo fogo. Não nos procuramos, também não andamos a fugir um do outro, é bastante simples explicar: estamos entrelaçados por entre um labirinto de fios de seda muito finos, mas indestrutível - se formos a ver bem, acho que nos pertencemos, alimentamo-nos um do outro, crescemos um com o outro.Não é bênção, nem é maldição: é o que é, e nem se benzam quando eu escrever, com a solenidade que merece a contricção, que ele revela o melhor que há em mim. Eu sou sua e ele é meu. Eu sou o branco e ele é, naturalmente, o preto. Por vezes encontramo-nos e juntos fazemos muitos cinzentos. É assim que acontece.Lembro-me deste fascínio desde sempre, de me perder a observá-lo suficientemente longe, mas suficientemente perto para sentir a agitação violenta das lagartas que nunca virão a saltar borboletas pelo buraco esculpido na minha barriga.À espreita, como uma criança - mas era mesmo uma criança quando o conheci -, numa esquina à espreita, como a sombra projectada de um poste muito alto que vê o seu reflexo em negativo durante um curto intervalo do dia, quando o sol assim o quer, quando o astro assim o permite.Ao início desta história tão pequenina e sem coragem de o fitar olhos nos olhos, só senti-lo com as antenas, como os gatos, ou a farejá-lo como os cães, aquele cheiro a mofo, a papel empoeirado e a cera há muito entranhada e esquecida nos nós da madeira. Sabê-lo ali mesmo, até de olhos bem cerrados, as pestanas todas numa convulsão, saber que ele está ali em tudo o que se mexe e o que se mantém imóvel também, sentir o ar a despentear os pelinhos do nariz e a viajar até aos pulmões inchando-os como no instante brevíssimo antes em que as pontas dos dedos entram na água, abrindo caminho o mergulho de cabeça em águas tão escuras que não se sabe onde está o fundo. Como uma chicotada nas costas a cada encontro, o coração a viajar até à minha têmpora direita e a latejar como uma bomba-relógio, crescer com ele ao meu lado, ele sempre na outra esquina, sempre mais ou menos desencontrados, sempre desesperadamente à espera um do outro.Bem sei que estava presa por um cordão à minha mãe, no escuro, onde tudo é abafado e morno como um sonho, quando ele apareceu pela primeira vez e eu sorri. Certo dia - e lembro-me muitas vezes ao dia desse dia, visita-me o instante em que tive a coragem e a vergonha imediata de quem revela um segredo passado por um moribundo em confissão - eu disse a alguém que ele era o meu destino. Quem me ouviu alarmou-se, como se eu falasse de uma doença incurável, ou uma tonteria, um delírio, ou uma superstição.Nessa altura eu talvez não soubesse ainda que não era coisa má tê-lo no meu destino. Tinha essa certeza mas não sabia o que significaria na minha vida.É uma pausa: a história continua daqui a instantes. Há-de continuar. Há no abandono grandes esperanças. Grandes esperanças temporariamente em pausa. Momentos, por vezes, ao olho nú, infinitamente congelados. Mas certo dia, mais cedo, ou talvez bem mais tarde, tudo recomeçará. E ele estará sempre ali bem perto, de vigia.Eu sei-o agora, ele é parte de quem eu sou, é quem nós somos: somos seus afilhados, foi ele quem nos juntou - tu já viste que foi ele quem nos juntou? -, conhecemo-lo tão bem, fitámo-lo anos a fio, sabemos de cor todos os seus rostos, farejamo-lo bem longe como o nariz do cão que procura a raposa para a entregar de presente ao seu dono, partimos para uma demanda sem glória ou troféu anunciado, trauteamos de cor a música que emerge no seu silêncio branco, e foi o seu canto que nos juntou. Certo dia estávamos os dois à esquina, sempre à esquina, a vê-lo de longe, fascina[...]



Doc33.docx

2011-07-19T22:21:34.835+01:00

Numa consulta bianual de rotina, na linha de montagem de uma salinha minúscula de uma oftalmologista indiferenciada, num hospital privado qualquer nos subúrbios da cidade, a médica não perdeu mais que três minutos a espreitar por uma lente potente os meus olhos, emoldurados por gigantescas pestanas encaracoladas. Congratulou-se pela acuidade de ave-de-rapina que ainda traziam mais de três décadas depois de se terem expandido pela primeira vez com a claridade de um dia capicua de Julho, espantou-se depois, por breves instantes, com os mil cristais que existem nos olhos azuis da minha filha que lhe transmutam a cor com recurso a toda a paleta do arco-íris conforme os seus estados de alma.Voltou aos meus, castanhos da cor do mogno, iguais a tantos outros que haviam passado por ali desde o início da manhã, e deixou o alerta para a vigilância apertada em relação ao sinal de sangue que se colou à íris do meu olho, como um apêndice, há tantos anos como aqueles que trago em mim, desde aquele dia do calendário gregoriano em que um dois se colou a outro dois num ido sétimo mês. E garantiu que, fosse esse o meu desejo, um mero procedimento em ambulatório restituiria a candura ao globo ocular do meu olho direito, como uma borracha humedecida pela ponta da língua.Poderia ter dito à médica indiferenciada, no hospital privado qualquer do subúrbio da cidade, que partilho o sinal de sangue com a mulher de quem herdei o formato e a cor dos meus olhos, o sobrolho levantado em sinal de quem não está a gostar do rumo da conversa, o olhar grave e por vezes distante, o beicinho proeminente de quem tem sempre alguma coisa a dizer sobre todo e qualquer assunto, o corpo obscenamente arredondado em forma de pêra, o fascínio por coisas brilhantes e bonitas, e, provavelmente, sem lhe chegar aos calcanhares, qualquer coisa da genialidade desse ser maior, de seu nome Isaura.Poderia ter posto mais achas à fábula e dizer-lhe que apesar de ter nascido sessenta anos depois de Isaura uma coisa incrível aconteceu entre avó e neta, porque eu trouxe em mim o mesmo sinal que ela tinha tatuado no olho direito. E a história ganharia contornos sobrenaturais quando eu desvendasse que Isaura não nascera assim, como eu, que só se vira marcada de sangue por ter picado o globo alvo, branco como a mistura de todas as cores, nos anos 30, numa roseira no jardim de uma casa senhorial do Barreiro que o seu pai, António, teimara que um dia havia de oferecer à mãe quando veio para junto do Tejo secar bacalhau sob o olhar atento dos golfinhos que ali animavam a paisagem. Ou assim me contaram – se calhar é lenda, foi história inventada para eu poder agora estar a escrevê-la sem detalhes. A do espinho, da roseira, da Quinta das Canas, a praia de Copacabana no Barreiro.Mas herdei também o tom teatral do meu pai, que hoje não está comigo, apesar de fazer 59 anos. E que está aqui comigo, neste momento, ao meu lado.Disse: é natural que o sinal ali esteja e que seja, passo a redundância um sinal de tudo o que havia de se passar na minha vida. Lamento, mas não há fogo algum que o queime, não há feixe de luz que o apague por magia. Ele está ali, no sítio onde está, nem mais abaixo, nem mais para um lado ou para o outro, para que todos os dias eu me lembre que já vi demasiado, que eu nasci porque havia de ter que ver tudo de bom e tudo de mau. Riu-se. Tem nome a patologia. Está descrita, disse a médica indiferenciada no hospital privado qualquer no subúrbio da cidade. Tem tratamento, acredite, o laser de que falei. É muito simples, indolor, caso queira podemos marcar ainda esta semana. Pois fique com a sua, e eu fico com o humor vítreo do meu olho direito intacto, e com a certeza de que tenho um sinal de sangue porque já vi demasiado. Talvez mais do que poderia aguentar. Por vezes, sinto que foi mais do que eu podia aguentar sem ter que viver com os dias com o reflexo do espelho a lembrar-me, no olho direito, que descaiu um pouco face ao esq[...]



the end

2010-11-12T17:02:37.324+00:00

Um dia acordas e estás sem palavras, esgotaram-se as histórias e os teus sonhos não começam mais por era uma vez.

Mesmo assim, continuas a gastá-las todos os dias, saem-te da boca para fora, só que agora já não brincas com elas, não as vês como um gigante puzzle ou quebra-cabeça que vais conseguir dobrar porque és brilhante, porque sempre conseguiste ordenar o caos e dele fazer qualquer coisa dolorosamente bela. Agora, garantes serviços mínimos, e usas as tuas palavras apenas para vender empresas e produtos, e nem tudo é mau, talvez nem tudo esteja perdido, porque ainda as consegues usar diariamente – antes, elas é que te usavam a ti, aí reside a grande diferença –, e convences sempre, aqui e além, alguém um pouco mais distraído, que é mesmo assim como estás para aí a dizer (nunca é) porque tens que ganhar um salário, para pagar as tuas contas, para dar o melhor aos teus filhos.

(estás tão crescida, nunca achei que te saísses tão bem, apesar dos pesares)

Da tua garganta continua a sair voz, e continuará sempre - mais ou menos sibilante, mais ou menos estridente ou exaltada -, apesar de há muito que dessa voz não saia música. Nada. Silêncio absoluto, apesar de a voz continuar lá e de as palavras também permanecerem por lá guardadas não sei onde.

O processo é idêntico, pensas, enquanto fazes apostas sobre o que virá a seguir – as letras amontoaram-se em palavras e antes de as palavras te terem chegado num momento da maior aflição e, portanto, da maior clarividência, eram as notas, soltas, que teimavam em juntar-se à revelia e faziam comícios mesmo quando estavas de lábios cerrados.

Um dia acordas e não queres mais cantar.
Muitos dias depois, acordas e não queres mais escrever.

Por muitas voltas que dês, é assim que se processa contigo. Todos os dias, sem excepção, matutas nisto – que houve uma voz que, primeiro, te sussurrava cantigas, que, depois, evoluiu para as lenga-lengas, e mais tarde que te ditava contos. E que há muito tempo que não ouves vozes, que a voz (foi sempre a mesma) se calou para sempre, partiu e não há-de voltar.
E a ideia vai ganhando cada vez mais sentido, vai-se pondo cada mais a jeito, avançando um pouco mais junto ao precipício para onde há-de inevitavelmente cair – que não vais mais escrever tal como nunca mais cantaste. E que alguma coisa há-de surgir entretanto. Talvez.
Enquanto esperas fazes renda. E usas as palavras apenas para ganhar a vida. Ainda ordenas o caos, mas sem a mestria de antigamente.
E faz-se silêncio, os maxilares cerram-se por vezes com tanta força que, quando é hora de dizer vamos jantar, vamos vestir, vamos sair, até estalam junto à orelha por se terem desabituado de estar noutro estado que não o de sentinela.

Mas faz-se silêncio absoluto, porque assim talvez oiças alguma coisa a chegar.

Alguns suspiram de alívio e alvitram que estás mais sã, com os pés assentes na terra. Já não és nova. Tens o cabelo coberto de fios brancos. Há linhas que percorrem os teus olhos, o canto dos teus lábios. É tempo, portanto, de deixar ouvir vozes fantásticas que te ditam coisas, que te ensinam canções. Há contas para pagar. Há impostos a declarar. Há filhos que dependem de ti para tudo – sobretudo para dormir serenamente, com a respiração pesada, num quarto forrado com papel de parede pintado por anjos.

E não há sequer um pesar, um lamento, um choro miudinho enquanto molhas o cabelo no duche e, se calhar, também isso acabou, se calhar nunca mais vais chorar enquanto molhas o cabelo que já cobre todas as tuas costas.
Um dia acordaste e simplesmente não conseguias mais escrever.



O Inspector

2010-04-29T12:00:04.807+01:00

Sinto muito a sua dor, começou por dizer o inspector através da ligação de telemóvel que atravessou o rio, que galgou a Baixa Pombalina, e que desceu as escadinhas do metro, abalroou a multidão até às profundezas do cais de embarque.Eu espero que não a sinta mesmo, que seja apenas uma frase de circunstância, Inspector. Desculpe-me se o ofendo, agradeço-lhe de qualquer forma, mas livro-o desse fardo, de querer sentir a minha dor.É que eu venho trabalhar todos os dias, eu obrigo-me todos os dias a vir trabalhar.E fico pacientemente à espera da terceira porta da primeira carruagem no átrio do Intendente, sentido Cais do Sodré, bem atrás da linha amarela de segurança. E eu não sou a mesma desde aquele dia, eu temo nunca mais vir a ser a mesma.Eu fico atrás da linha amarela e penso no dia em que alguém se vai atirar à linha mesmo à minha frente, estou sempre a pensar nesse dia, imagino o som do embate, os travões da carruagem a chiarem, e no silêncio que se vai fazer depois. Eu agora sei que se faz silêncio, como se uma bomba tivesse estoirado mesmo ao nosso lado e só se conseguisse ouvir um zumbido agudo, apesar de as bocas se abrirem para soltar o grito, eu sei que só se ouve silêncio, no máximo só se ouve um zumbido.Eu não sei quando esse dia vai chegar, se vai ser do outro lado do cais, se vai ser à minha frente ou um pouco mais distante, tanto faz, porque eu já vi esse dia acontecer à frente dos meus olhos; esse dia acontece todos os dias à frente dos meus olhos.Eu posso tê-los fechados, eu posso tentar entreter-me, tapar os olhos com as mãos em concha, ou esfregá-los para me livrar dessa imagem, ler o jornal, olhar para as feições das pessoas sentadas ao meu lado, por isso, acredite, inspector, não queira sentir a minha dor, porque se eu não trago o meu crochet que me anestesia, e se por algum acaso a minha mãe não consegue atender-me o telefone quando estou bem atrás da linha amarela de segurança, tudo recomeça de novo à frente dos meus olhos, e eu volto àquele dia, eu estou sempre a voltar àquele dia.E naquele dia fez-se silêncio, e um breve zumbido talvez, e depois, curioso, uma única nota, eu que oiço música na minha cabeça, eu que tenho uma orquestra inteira cá dentro, e só há pouco tempo percebi que nem toda a gente tem música na cabeça, mas naquele dia, e durante tantos outros que se seguiram, eu só ouvi um dó, só um dó, martelou durante tanto tempo, só um dó, durante tantas semanas apenas um dó, e foi a primeira vez que eu não tive uma orquestra na minha cabeça, diga-me, por isso, que não sente a minha dor.Eu continuo a fazer piadas parvas, inspector, eu continuo a fingir que a minha pele é de couro grosso, inquebrável, mas eu assino o meu nome sempre com um travo a sangue, inspector, eu estou espalhada pelo chão, em pequenos estilhaços, e não quero que ninguém se atreva a apanhá-los, eu não quero que os meus filhos me vejam, que o meu marido me abrace, porque fui eu que os arrastei a todos para uma casa assombrada; eu temo não por mim, mas por eles, temo para onde os vou arrastar da próxima vez, e eu lamento ter que o arrastar também a si.Eu fui à lista telefónica. É coisa dos tempos de jornalista ainda, parece que não perco os tiques de jornalista nunca, que isso também nunca vai passar. Nada de Internet, nas Páginas Amarelas há mesmo de tudo, passeamos o indicador de cima para baixo e há notícias a cada folhinha com a gramagem de papel de Bíblia. Disquei o seu número, sem qualquer esperança, eu disquei o seu número como quem disca uma linha de apoio ou de valor acrescentado à procura de consolo ou ajuda.Nunca esperei que me ligasse de volta. E agora não sei bem o que pretendo de si. Não esperava que me ligasse e agora estou no metro, e essa é a fase mais difícil do dia, quando estou no metro, recomeça tudo outra vez.Minto. Eu sei o que quero de si. Queria que me dissesse o que[...]



O fiscalista (Capítulo I)

2010-02-26T15:10:32.307+00:00

Com os olhos esbugalhados, parados na manete das mudanças, quem sabe se tentando hipnotizá-la, o fiscalista, espalmado de perfil como um egípcio, pele enrugada e borrifada de manchas castanhas, longos pelos cinzentos escuros encaracolados, espetados em riste para fora do nariz e das orelhas, declarou não gostar de pessoas que olham para o chão enquanto andam.Porque é que o fiscalista estava dentro do carro, quente da viagem, no lugar do condutor, olhos presos na manete das mudanças, não vem ao caso. E o que esta declaração de interesses tinha a ver com a entrega do IRS do defunto, com a habilitação de herdeiros, eu não sei, não consigo explicar.Aliás, deixei de tentar arranjar explicações, cansei-me, estou mesmo muito cansada. Perdi noites a fio a tentar tecê-las por entre metros de renda, agulha dois presa entre o polegar e o indicador, aprendi a fazer renda sozinha aos 30 anos, num momento de maior aflição, e compreendi nessa altura porque passa a minha mãe todas as noites a tricotar explicações, a exigir à agulha e à lã que façam aquilo que têm a fazer, a ordenar o caos de todas as linhas que se emaranham aos nossos pés ao longo da vida, um labirinto diabólico muitas vezes sem saída.A minha mãe que quando eu era pequenina me pedia para eu segurar as meadas de lã com os pulsos, e que gingasse à vontade as minhas longas tranças para que da meada se fizesse novelo, a minha mãe que sempre me chamou de lolita, que sempre disse à boca cheia que eu tinha nascido com o cu virado para a lua, a minha mãe que sofre por tudo o que já me aconteceu, quisera ela que Deus não tivesse tão grandes planos para mim, que a vida passasse serena como uma meada de lã sem nós cegos.E eu acreditei que uma torrente de pontos altos, pontos altos duplos, correntinhas - e para fechar um ponto baixíssimo -, achei mesmo que o meu pulso haveria de puxar tantas laçadas, tecer tantos pontos altos, pontos altos duplos, correntinhas, fechando tudo com ponto baixíssimo - pega-se na agulha como se pega numa caneta e se começa a escrever, fazer renda é apenas outra forma de ordenar o mundo, de o pôr a rodar direitinho sobre o seu eixo -, eu à espera de uma epifania, de uma reconstrução perfeita de todos os eventos que me trouxeram até aqui, a este momento preciso, e nada: nenhuma explicação a sair-me dos dedos, o pulso dorido, os dedos em sangue e nada, só mesmo renda ao meu colo.Permaneci nas viagens de metro, paralisada, a fixar o meu reflexo e o reflexo dos outros no vidro da carruagem, à espera que o mundo, visto ao contrário dentro de um túnel escuro, me devolvesse todas as respostas aos porquês que esvoaçam esganiçados por cima de mim. Mas em vão.Tudo em vão.Não há livro nenhum da biblioteca que herdei que me possa ajudar, de nada me valem os arquivos poeirentos, as gavetas invioladas há mais décadas do que aquelas que eu levo.Eu entrei na casa que culpo por tudo o que aconteceu, passei o sensor pendurado no porta-chaves e desarmei o alarme, mas todas as sinetas tocavam estridentes dentro de mim, diziam-me para fugir dali, rápido e a bom passo, para nunca mais olhar para trás. Esquecer a mata dos medos, esquecer que ela existe, nunca mais trilhar a estrada de terra batida, apagar todas as memórias, o ford cortina, o citroen visa, esquecer os duelos de espada em noites de luar, as lanternas de pirilampos, os nenúfares e as carpas coloridas, a ponte e o lago, as azedas, os malmequeres azuis e as roseiras bravas, esquecer a Santa que falhou em proteger-nos a todos.Uma casa são só paredes feitas de tijolos, cimento, estuque, mas ela disse-me bem alto para eu ouvir: vai-te embora e não voltes. Ela disse-me isso em tom amigo, mas eu entrei ali, eu tinha que entrar ali, na casa onde ninguém foi feliz, e disse-lhe: tu agora és minha e, por isso, eu estou à espera que me contes tudo o que se passou, rebobina e põe no pla[...]



O dia

2009-11-06T19:19:57.220+00:00

Aquele foi o dia da minha vida, de toda a minha vida, disse-me, grave, narinas hirtas e cana do nariz perfeitamente delineada.Parecia, aliás, que se preparava para debitar um discurso de Estado, com honras de abertura do telejornal das oito: inspirou fundo para ganhar fôlego ou coragem, só que nos olhos azulões já se instalara confortavelmente uma fonte de comoção, os olhos prestes a escorregarem num dilúvio, e tudo isto invertido num pedaço de espelho - olhos molhados, nariz delineado, e pose grave reflectidos no grande retrovisor do táxi, e eu sem conseguir deixar de reparar no desodorizante automóvel de pinheiro, a bambolear numa dança absurda que em nada se adequava ao momento de grande revelação que se seguiria dentro de instantes, ou talvez sim, mas tomara que eu não me tivesse demorado tanto no pequeno pinheiro de cartão embebido em aroma baunilhado, porque, a meu ver, não acrescentou nada à história.Há um dia, menina, muito provavelmente ainda não teve o dia decisivo de toda a sua vida - talvez esteja enganado, penso, sem abrir a boca, porque o palco agora não é meu -, mas há um dia em que as peças todas do puzzle emaranhado que se foi espalhando por todo o lado - sem esperança de se encontrar a peça que o gato levou para brincar, que o bebé meteu na boca aflito dos dentes, o conjunto todo de peças que aparentemente não encaixavam umas nas outras -, há um dia em que tudo se encadeia, pim, pim, pim, zás e, nesse momento - digo-lhe isto com a mesma certeza de que é impossível manter os olhos abertos quando se espirra -, a mandíbula descai um bocadinho e o olhar eleva-se para o céu, e por breves momentos, penso que nem um segundo chega a passar, rebobinamos tudo para trás, todas as pequenas coisas vêm ao cimo como bolinhas de esferovite numa taça de água, e damos por nós, maquinais, magistrais a arrumar tudo no sítio certo para que possamos seguir em frente, e percebemos tudo, o porquê de tudo, por exemplo, eu percebo já porque é que escolhi há instantes cortar para a Columbano Bordalo Pinheiro, em vez de ter seguido para a Estrada de Benfica.E tudo isto começou porque o taxista estranhou o meu pedido. Inclinou os olhos para a direita, espreitou o comprido retrovisor com espelho olho de peixe colado a um canto, para ajudar aos ângulos mortos - mas quem raio é esta gaja? Saio de um hotel de cinco estrelas da cidade, e peço para me deixar ao Intendente. Mas quem raio é esta gaja?Explico-lhe que a minha vida é mesmo assim, repleta de donos do mundo e de putas esqueléticas. Que fui eu que escolhi ser assim, e que todos me vão ensinando, pela estrada fora, coisas preciosas, se bem que as putas me dêem melhores histórias, que pelas putas eu vejo melhor, entendo tudo um pouco melhor. Os donos do mundo são, no fundo, criaturas bem mais tristes que as putas, vejo-os bem, topo-os bem, e talvez seja por isso, talvez seja essa a única razão porque os donos do mundo me importam. No fundo, são tão vítimas do destino, das circunstâncias, tal e qual como as escanzeladas prostitutas do Intendente. Têm mais uns metros quadrados para foder, em lençóis macios e camas que não rangem, cobrem-se com tecidos infinitamente mais quentes e mais frescos consoante as estações do ano, mas apanham a mesma chuva que todos nós, peidam-se tanto quanto todos nós - as trinta e muitas vezes ao dia que o canal de cabo me garante que todos os humanóides descarregam a cada 24 horas -, mas ao fim do dia, acredito que se sintam bem mais vazios que as putas do Intendente. É mesmo por isso que eu amo os donos do mundo, que os estimo como ninguém, e eles gostam tanto de mim como as putas que vou alimentando aos Anjos.Quem raio é esta gaja?Uma pessoa também tem os seus dias maus, diz.Das putas e dos hotéis de cinco estrelas para dias maus e para os dias que mudam uma vida.O dia da minha vida come[...]



Rua dos Anjos

2009-09-15T13:21:05.468+01:00

Eu sou uma boa pessoa.Não tenho medo, nem vergonha de o dizer. Porque razão haveria de ter – não me vou transformar em pó, nem a terra há-de tremer se eu admitir aqui, onde apenas me visita quem procura por uma criança que nasceu com as mãos coladas, que sou uma boa pessoa, escrito mesmo assim, desta forma precisa, muito diferente de escrever até sou uma boa pessoa, sem falsas modéstias, deixando cair o até, que não estaria lá a fazer nada, com toda a presunção, sem nenhuma hesitação, de peito aberto e olhos fixados, algures entre a linha do horizonte e o início do céu - eu sou uma boa pessoa. Não sei de que me vale isto.De que me vale ser uma boa pessoa, de agarrar na mão fria da velha que vê no António as bochechas do seu menino que já morreu. Lembro-me de estar no Parque de Viseu, ainda sem saber quase nada, a não saber nada a não ser a arte de dar às pernas com toda a força, inclinando ao mesmo tempo o corpo para trás e para a frente, e o segredo de fechar os olhos e sentir a música do vento na cara com a trança a voar para os lados quando o baloiço quase chegava ao céu, lembro-me da minha cabeça no colo da minha mãe, saia crepe de seda branca, ela maquinal a fazer cortinas de crochet, e eu horas nisto, a examinar as mãos da minha mãe, e depois a olhar para as minhas, que não conheciam mais do que os lápis caran d’ache da minha avó, quase hipnotizada pelo movimento da mão direita, do fio que saía do saco de plástico e se transformava em renda, e eu a dizer-lhe, junto ao lago, mamã, as minhas mãos não têm estrelas como as tuas, e as estrelas eram o craquilhado junto dos nós dos dedos, e eu pego na mão gelada da velha, agora molhada de lágrimas, e vejo que ela já não tem estrelas nas mãos.Perco tempo, demoro-me, oiço todos, a chaga da perna do homem sujo que me guarda todos os dias o melhor lugar da rua, porque a senhora fala com a gente como se fôssemos gente e não bichos. E percorro as memórias de tanta gente que nem sei o nome, analiso fotos a preto-e-branco, de papel já amarelecido, cantos dobrados, memórias guardadas em sacos de plástico, aproprio-me de tudo o que posso, sou um saco sem fim, uma manta de retalhos de um pequeno resumo da vida dos outros.Apenas esta certeza, que de nada me vale, que se, por um momento, o mundo fosse governado pelas empregadas de limpeza curvadas e pelos porteiros anafados, pelas putas esqueléticas e arrumadores imundos, pelas caixas de supermercado demasiado maquilhadas e pelas tendinites das empregadas de mesa, pelas velhas de luto, com as saias a cheirarem discretamente a urina, se o mundo fosse do elo mais fraco, eu seria grande, intocável.Eu sou uma boa pessoa e temo a Deus, imagino a sua ira em jeito de maremoto, nem tanto quando falho, acima de tudo quando nem tento. A minha puta favorita chama-me um anjo. A minha puta favorita chama-me um anjo nos Anjos e isso tem que pesar. Eu vivo nos Anjos. Vivo há um ano nos Anjos, na avenida do Almirante que deu um tiro nos cornos ao pensar que falhara, e eu não o censuro, penso que faria o mesmo, não para ganhar nome de rua maldita, mas faria o mesmo ao pensar que falhara em tudo, por isso nem tento, melhor assim, mas a ira de Deus sempre aqui ao meu lado, em crescendo, e eu digo a mim própria, eu sou uma boa pessoa, eu pelo menos tento ser uma boa pessoa, isso tem que contar, e fico quietinha no meu canto, que ninguém me bula, porque eu trago em mim os filhos das mães que já morreram, as dores ciáticas, eu trago em mim a fome da minha puta favorita que me chama um anjo apenas porque lhe dou comida de quando em quando, sempre que a encontro – menina, obrigada, muito obrigada, mas de certeza que não lhe vai fazer falta para o bebé; e ela é tão magra, tão magra e o António sorri para um rosto cadavérico que toda a avenida maldita ignora, e el[...]



António

2009-02-16T16:27:40.836+00:00

Os dias que se seguiram amanheceram com uma luz quase perfeita.As manhãs todas apareceram-me como se trazidas pelos olhos do David que vê o mundo como ele é, ao lusco-fusco; há sempre sombra na luz que o David vê, e essa é a verdade mais antiga de todas, da qual nunca duvidei: que a luz precede a sombra e que se lhe sucede a seguir, interminavelmente; que nenhuma existe sem a outra, mesmo nos dias mais claros de todos, e os dias que se seguiram eram de uma luz que não feria ninguém, uma luz que fazia dançar as partículas de pó à minha frente e, se quisesse, poderia até nunca ter fechado os olhos naqueles dias; e nas manhãs todas parecia-me ouvir um estalido pequeno, o pequeno estalido que os ouvidos mais atentos conseguem escutar no momento imediatamente anterior à caixa de música arrancar o primeiro acorde ao rolo dentado onde estão gravadas, a relevo, as mais bonitas melodias.Os dias que se seguiram chegaram-me, também, embaciados por um bafo qualquer, quente, vindo de dentro para fora de mim. E, aparentemente, apesar do ressoar de um longínquo eco, que não nos faria nunca esquecer os dias mais tristes de todos, parecia que, um a seguir ao outro, todos os sonhos voltavam a emergir, violentamente, respingando com uma esperança esmagadora os dias que nos chegavam, banhados com uma luz cada vez mais perfeita.Os dias que se seguiram souberam também à primeira golfada de ar depois de se ter desejado com todo o ser, com toda a força, deixar de respirar, e havia, por isso, neles, também algo de água: todos os sons pareciam abafados por ela, os mais agudos e os mais graves não eram mais do que um sussurro, e nós rodopiávamos, leves, em manobras impossíveis dentro dela – piruetas, cambalhotas, e escarpávamos até às suas profundezas, para desenterrar todos os sonhos, até os mais velhos, os que foram quase esquecidos, e eles vinham à tona sem sequer lhes tocarmos, e nem nos lembrávamos sequer que ali os tínhamos mergulhado porque havíamos desejado deixar de respirar.E por mais tempo que ali estivéssemos, que ali decidíssemos ter estado, as mãos nunca se haveriam de ter engilhado, o ar nunca nos haveria de faltar; ali não eram só os sons que se deixavam abafar por entre líquenes: tudo era morno e a luz, como eu já disse, era quase perfeita; era clara e sombria quando assim era preciso, e aquele sítio, para onde fomos arrastados nos dias que se seguiram, dava-nos tudo, e os sonhos pareciam mesmo saídos dali, de um lago de águas paradas e turvas, que os guardou em segredo, em paz, longe de todos, longe de tudo, e nós sorríamos entre golfões, tufos de lentilhas-de-água e emaranhados de raízes de nenúfares, afastávamo-los a todos como se afasta uma madeixa de cabelo que teima pousar à frente da cara, e banhávamo-nos com aquela luz quase perfeita que nos chegou nos dias que se seguiram.Depois, foi o mais fácil, não foi preciso qualquer esforço, tudo corria de feição, como devia ter sido, como teria sido escrito da primeira vez, e a nossa missão era simples, trazermos os sonhos à deriva e, para grande surpresa de todos, eles estavam intactos, nenhum se esfarelou, nenhum se esborratou pelos dias tristes que agora acreditávamos ter enterrado.E os sonhos pareciam ter sido sonhados a noite passada.Podíamos até contá-los como uma história de encantar, pudéramos tê-los cantado como uma canção de embalar que se entoa, ao fim da noite, à cabeceira de uma criança que ainda não tem medo do escuro; eles voltaram como se os tivéssemos acabado de sonhar, como se ainda trouxéssemos a cara enrugada dos lençóis brancos onde pousámos o corpo durante dias que não foram mais do que noites; e os sonhos traziam em si as metáforas mais bonitas, todas as promessas, os melhores augúrios, e nós éramos heróis em todos os capítulos -[...]



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2008-10-21T13:47:31.615+01:00

Tantas, tantas vezes me aconteceu o mesmo. É por isso que eu digo que não sou bem a filha da minha mãe. Ela nunca se mostraria tão vulnerável, seria mais impensável do que passear pela rua em trajes menores, ela nunca se deixaria paralisar por algo que não fosse francamente aterrador, nem o maior susto da sua vida, talvez nem o seu maior desgosto a fizesse quedar-se e quebrar-se em frente a uma multidão.E ninguém parou, nunca ninguém parou quando tantas, tantas vezes me aconteceu o mesmo; nunca ninguém sequer abrandou, ninguém perguntou se eu precisava de ajuda, nunca ninguém estendeu a mão, ninguém olha para trás, nunca ninguém olha para trás, só para a frente, nunca ninguém saiu do piloto automático quando isto me aconteceu, tantas, tantas vezes.Por isso é que me foi impossível continuar com a minha cómica marcha - um pé inchado atrás do outro, uma coreografia meio grotesca, barriga empinada, caminhar arrastado, bamboleante, gotinhas de suor a deslizarem pelo nariz, outras em fila de espera para andar no escorrega na minha testa. Eu bem que podia ter feito como todos os outros, seguido o caminho das pedras que me leva todos os dias a um sítio onde eu sou um pouco menos eu, onde definho mais um bocadinho, onde experimento o desprezo depois de um nadinha de glória, o desânimo depois da alegria, onde cada vez mais me convenço da máxima maior, que sou boa demais, que sou boa demais para isto e para quase tudo o que já fiz na vida, que anda meio mundo a enganar o outra metade, a enganar sem tão-pouco disfarçar, e a metade enganada sorri, encantada.Eu podia ter fingido que não era nada comigo, que tanto se dá como se me deu, como se ela fosse mendiga, como se ela fosse nojenta, como se estivesse desgrenhada, como se ela tivesse uma doença altamente contagiosa. Pior. Podia ter passado por ela como se ela fosse invisível. Mas não podia ser assim. Porque tantas, tantas vezes me aconteceu o mesmo e ninguém parou, nunca ninguém parou. E só de olhar para ela, ao longe, fiquei tão triste – tinha que parar. E era apenas uma mulher bonita, muito bonita mesmo, que chorava em silêncio, sentada num banco de jardim, e uma multidão imensa passava por ali, um formigueiro que não quer saber, que nunca vai parar, porque é só uma mulher triste a chorar num banco de jardim. Ridícula. A minha mão parada na perna de uma mulher que chorava sozinha num banco de jardim. Se a minha mãe me visse, ia achar que eu sou mesmo filha do meu pai. Eu agachada, com esta barriga toda, à procura do equilíbrio, entre estalidos de articulações que não nasceram para carregar o peso do mundo, que podiam carregar muito bem uma criança mas não toda o excesso de bagagem que trago em mim. Em que é que a posso ajudar, precisa de alguma coisa, quer que eu lhe vá buscar uma água, uma sucessão de perguntas tontas. Não valeu de muito, não valeu quase nada, foi só uma mão em cima de um joelho tapado por uma ganga preta, duas ou três frases de circunstância, atabalhoadas, eu também fiquei tão triste, como se a tristeza se passasse por um qualquer sensor de bluetooth. Mas a mulher sorriu, sorriu de surpresa, eu estou aqui, afinal eu estou aqui, não desapareci, terá pensado ela, e sim, eu teria gostado que, um dia uma alma qualquer tivesse parado também, oferecido um lenço de papel com sabor a alfazema, que me assegurasse que tudo ficaria bem, mesmo desconhecendo que dores de crescimento eram ali curtidas num banco de jardim. E a mim, certamente, ninguém me vai condecorar, nenhuma sessão solene será convocada para elogiar os meus nobres e gloriosos feitos, as minhas incríveis façanhas; não haverá centros de flores em cima da mesa de honra e no palanque, nem medalhas brilhantes com fitas de cetim pa[...]



12 Comentários

2008-10-17T15:41:03.903+01:00

Mamã, e se os números nunca acabam, porque é que nós acabamos?Carolina Ralha, 4 anos, ao calor de 39 graus de febre, e com a garganta forrada a pus, no habitáculo de um Fiat Idea, parado em frente ao nº 19 da Avenida Almirante Reis. Bem vistas as coisas, foi a primeira marca semi-permanente que deixei no mundo, ou no estuque de uma parede. Tanto faz.Para esta, para qualquer outra história não faz grande diferença, e nunca é muito relevante, sequer, saber de que forma é que se fez a ferida, qual foi o barulho do tombo, o tamanho e a forma da cicatriz, ou mesmo como foi e porque artes conseguimos chegar em primeiro, à frente de todos os outros; como é que conseguimos cantar mais alto, correr mais rápido, acertar em tudo o que havia para acertar, e suportámos cair nas graças do mundo, e aguentar até hoje a suportar o peso de todos os olhos pousados em cima de nós.Para aqui pouco importa, só é de tomar nota que este foi um dos primeiros e nem por isso raros momentos em que uma coisa qualquer se serpenteou perto de mim, demasiado perto de mim, e anunciou baixinho que eu sempre caminharia pelos mesmos caminhos dos outros, mas num passo e de jeito diferente.E essa certeza - e isto também não é muito relevante - só me chega agora, vinte anos depois, aparentemente só me chega agora. Sempre soube que esta foi a primeira marca, mas apenas se torna tudo límpido em mais um impasse, em mais uma insónia, em mais uma moinha, já se transformou num incómodo apenas, uma espécie de zumbido, uma comichão, quando essa qualquer coisa se aproxima demais, e me chega mesmo a tocar, e depois recua, claro, queima só um bocadinho, só mais uma pequena picada para me lembrar que há-de ser sempre assim - eu hei-de andar pelo mesmo caminho dos outros mas num passo e de um jeito diferente.Mas, primeiro que tudo, há a festa de Natal da escola no Bairro das Estacas, na sala 7, em frente àquela em que eu aprendia a desenhar os mais belos quês de quá quá, num quadro preto muito grande e que parecia feito de manteiga de ardósia. Na sala 7, o quadro não era negro, nem de pedra arrancada à terra, era verde, de um qualquer composto industrial, naquele quadro as letras recusavam-se a ficar tão bonitas quanto as da sala do quadro preto rugoso da sala em frente - que sorte a minha ter aprendido a desenhar as letras naquele quadro - e foi ali, numa sala que me era estranha que eu ouvi o primeiro guincho de um pau de giz, e eu nunca percebi porque é que o pau de giz partido não guincha, ou pára mesmo de trinar.Os apagadores da Cisne, de desperdício de fibras têxteis compactados, eu consigo ver tudo com demasiada nitidez, talvez me possa baralhar um pouco, efabular um pouco: na carteira para cima da qual me ergueram no encore, as tranças da Minashri e o pullover aos losangos do Pritesh ao meu lado, comigo a cantar a lenga-lenga em francês que a minha mãe me ensinara, muito encolhida. Saint Nicolas va m'apporter une poupée, une poupée, Saint Nicolas va m'apporter une poupée pour m'amuser. Essa foi a primeira vez do conhecimento de muitas coisas importantes, do poder emudecedor do som que me sai muito afinado da garganta, foi o dia em que descobri também que o coração por vezes sai do seu poiso e se faz ouvir em surdina junto à orelha direita. Et des caramels pour les demoiselles, et des grand batons pour les vilains garçons Foi o primeiro trago de uma coisa que a quem chamam espanto, eu espantei-me com o que acabara de acontecer: o silêncio, o medo, as palmas, e depois um rubor nas bochechas e na barriga quando tudo terminou.Mas este momento só foi verdadeiramente relevante para mim, eu hei-de me lembrar da minha primeira canção em frente a uma escola inteira durante toda a m[...]



E nada de extraordinário acontece (uma e outra vez)

2008-04-04T08:46:27.976+01:00

A frase está trocada - eu quero dizer uma coisa, mas digo o seu contrário, não sei bem se é de propósito, mas faço isto a toda a hora, eu desdenho, eu provoco, e eu queixo-me à toa, trago os bolsos cheios de histórias de um cancioneiro que faz cair os queixos e esbugalhar os olhos, eu digo (como é que eu tenha a lata de dizê-lo?): eu só quero uma vida simples, sem sobressaltos. E sento o rabo no sofá da casinha de bonecas da rua do Monopólio (eu vou morar para a avenida maldita, mas ela também está no tabuleiro do jogo da minha infância, sentados em cima do tapete sobre o qual o meu pai morreu, as pernas da mesa enterradas em tacinhas de água por causa das formigas pretas, e eu decido morar na avenida maldita, porque sempre tive queda para acolher as maldições de todo o mundo) – eu sento-me e não posso deixar de pensar que o meu rabo está enorme, que isso não é de hoje, mas que agora já não sei, já não reconheço que corpo é este que arrasto. (e quando o telefone tocou – foi quase há um ano, como é que já passou quase um ano -, junto ao recreio da escola de São Miguel, em frente ao prédio da segurança social, e o meu irmão disse, o Zé Ralha morreu, eu pensei imediatamente que ficaria com os seus olhos; lembro-me de baixar a pála do pára-sol e espreitar a medo se os meus olhos já tinham ficado grandes como bolas de cristal, e se já não eram os meus, umas amêndoas perfeitas, que viam tudo a andar à roda; e isto, todo este medo, porque há muito, muito tempo ele disse-me, na única sombra do terraço de tijoleira escaldante - a glicínia ainda estava em flor-, quando a tua avó morreu - és tão parecida com a minha mãe -, ela deu-me os seus olhos, nesse dia, eu sonhei com uma tangerineira, e acordei com os olhos da minha mãe). Mas eu sento o rabo no sofá - e naquela casa há sonhos novos dentro do estafe de cada parede velha repintada -, e eu digo às minhas vizinhas (querendo acreditar nisto com todo o meu ser): Eu não preciso de mais nada. Acreditem no que vos digo, não quero glória, não posso ousar pedir seja o que for, e mereço todas as agruras; é que não posso mesmo, se ninguém me põe no meu lugar eu mesma me ponho na ordem, eu sei ser humilde, eu sei agradecer de papo cheio ou mesmo quando tudo é deserto, porque quem tudo quer, tudo perde, e porque mais vale um pássaro na mão do que dois a voar; eu tenho tudo o que pedi.Ousei pedir o impossível que se fez possível, eu tenho mais do que poderia ter sequer sonhado, (e tenho só quase trinta anos) eu tenho-o a ele, o meu grande, grande amor, aquele que arrastei para o incrível mundo do nada de extraordinário acontece.Bem, sei, tens toda a razão, a frase devia ser ao contrário - e tudo o que é extraordinário acontece -, eu não sei bem porque é que não escrevo tanto como antes, se é porque tenho medo de ser pobre e mal agradecida, eu não queria mais nada, não preciso de mais nada, só uma vida simples, nas vidas simples os blogues não servem para nada, (escrevo isto e tenho Álvaro de Campos a sair-me da boca para fora, se eu casasse com a filha da minha lavadeira talvez fosse feliz), e visto isto, percebo que não há um pingo de humildade em mim, que digo isto da boca para fora, para ver se de tanto repetir consigo decorar, mas eu quero mais, sempre mais um pouco; há meses, uma boa meia dúzia deles, eu gravei no telemóvel o número de telefone do comendador – porque raio, queres tu o número do comendador, sabe-se lá, e nada de extraordinário acontece, e agora da janela do museu que lhe é homónimo, eu tenho Picasso e Magritte ao meu dispor (e quem haveria de dizer que os Litchensteins são tão grandes), ainda agora, há tã[...]



A escada

2008-03-11T17:46:23.874+00:00

De certeza, a qualquer momento, vou-me esquecer – estou nisto há dois dias –, talvez não seja ainda hoje, mas de amanhã não passa, com certeza, vou-me esquecer, é tão certo como o remoinho da minha franja arrebitar o monte de cabelo sobre a minha testa, e vou levar à boca o copo de água que antes de mim matou a sede à gerbera oferecida pelo Spa das tias, na véspera do dia da Mulher. Mas, inexplicavelmente, deixo-o ficar, aqui, do lado esquerdo. Certamente, talvez aguente até amanhã – ando nisto há quantos dias? –, sou capaz de jurar que não vai demorar muito, semanas no máximo, vou tirar as conchas que me aquecem as orelhas com decibéis acima do que as autoridades comunitárias aconselham, e esqueço os máximos do petróleo, deixo de plantar dezenas de notícias sobre o preço do alumínio, peço desculpa ao meu adorado banqueiro, e agarro no pinheirinho que enquadrei entre as escadas de incêndio e o rio Tejo, saio pela porta sem mais explicações, sento-me num degrau frio da escada que ninguém sobe, que ninguém desce, e começo a cantar. Qualquer coisa, o que me vier à cabeça – quantos gigas tem o lado direito do meu cérebro, eu acho que é do lado direito que guardo todas as músicas, mesmo em cima do olho -, às vezes, só vou lá acima para murmurar baixinho qualquer coisa pelas escadas, pego num cigarro, e vou lá acima, perguntam-me, não vais de elevador, não, não vou, não dou mais explicações, subo pelas escadas porque quero ver o Marquês e para murmurar baixinho qualquer coisa pela escada acima; só por isso é que vou lá acima. Como é que era? Passávamos os intervalos escondidas, no breu, escondidas pelo caracol da escada, eu tinha a voz límpida, e a tua voz por vezes cheirava a mofo, tinha buracos como uma qualquer avenida de Lisboa, e a minha era constante e cristalina, nunca saía de tom, nunca hesitava, parecia tudo uma incrível magia, por vezes, espantava-me a beleza das nossas vozes juntas, tínhamos 14 anos, eu descobri a minha voz às escuras, contigo, a cada intervalo, e lá fora jogava-se à bola, e fumavam-se cigarros junto às casas-de-banho, mas nós fugíamos, não dizíamos nada a ninguém - aquilo era o segredo mais bem guardado, era melhor do que qualquer droga -, nós dávamos as mãos e íamos cantar para as escadas que já ninguém se lembrava. Gostava de voltar àquelas escadas. Provavelmente, ao cimo do caracol, trancados a sete-chaves, ainda estão os xilofones que me faziam rir com a minha própria descoordenação motora, decerto, coberto de pó ainda está o piano desafinado, gostava mesmo de lá voltar contigo para cantarmos músicas de quando ainda não tínhamos nascido. De certeza, eu sinto-me prestes a ceder, não vou aguentar muito mais – estou assim desde que encontrei aquela foto dentro do CD da Elis, eu de cabelo muito ralinho, o maior tesouro da minha herança é aquela foto dentro do CD da Elis, o meu pai guardava-me dentro do CD da Elis, e desde que eu encontrei aquele retrato a preto-e-branco, cabelo em desalinho, a minha boca tão bem desenhada, assim a olhar para cima, todos os sonhos enterrados na covinha da bochecha direita –, já não sei quantas vezes cantei a “Saudosa Maloca”, ou as “Folhas Secas” e o “Cais” desde que encontrei aquela foto; por ora, eu só precisava de umas escadas, umas de mármore, no penúltimo andar de um prédio alto, não preciso de audiência, enquanto uns fumavam charros, enquanto outras descobriam o corpo, eu passava as tardes numa escada a cantar. Sei bem que a Natalina, do sétimo andar, abria a porta devagarinho, e ficava a escutar, sei muito bem. Na altura eu não ria alto, eu não dava nas vistas, e[...]



No dia seguinte

2008-02-18T23:53:24.813+00:00

Eu penso muito nisto, e não fiques já com essa cara, com medo do que aí vem, porque eu sou absolutamente inofensiva; já fiz mal às formigas, mas apenas porque elas não se foram embora da bancada de mármore da cozinha após demoradas conversações, e depois de esgotada toda a diplomacia, ainda esperei três dias, mas em abono da verdade, e em minha defesa - raras vezes, como esta, eu saio em defesa do meu bom carácter -, que fique registado que nunca toquei numa mosca, apesar de descender de uma família de caçadores de varejeiras. E por isso, talvez por isso mas daí talvez não, porque a minha mãe não é do lado da família que apanha moscas qualquer uma das mãos e até de olhos fechados, ela por vezes até me diz que me falta espinha dorsal, e que não me corre sangue nas veias, porque não quero sentir ódio ou amargura porque são sentimentos que me queimam, porque quase sempre ofereço a outra face, porque me vergo, porque não enfrento o touro pelos cornos, porque levo esta vida sem subir montanhas, e o problema, o único problema é que eu penso em tudo, sobre a mais insignificante merda que se me atravessa no caminho. A toda a hora, e não é pêra doce, não é fácil ser eu a toda a hora, e às vezes lembro-me da Tiju a confidenciar-me na assoalhada que fica imediatamente em baixo da outra onde, em tempos tão mais felizes, fazia biscoitos em forma de estrela com a minha avó - os móveis da cozinha eram laranja mas não consigo refazer a copa, tinha uma predilecção pelo armário dos tupperwares que cheirava a plástico velho, mas não consigo ver nada na copa além do sorriso e dos lábios finos da minha avó; e sei que era lá que batíamos nos tachos à janela, quando o ano velho se despedia, mas não me lembro de que cor era a copa onde fazia biscoitos e bebia copos de água com pastilhas de Cecrisina -, a Tiju a dizer-me que o meu pai em tempos lhe disse isso mesmo: que não era fácil ser ele, que por vezes, nem ele tinha paciência para si próprio. E assim, eu tenho a certeza que sou mesmo filha do meu pai, que quem sai aos seus não é de Genebra, ou como raio é o provérbio. Mas, descansa, eu não penso mais em ti do que penso em tudo o resto, não mais do que nas mãos da minha mãe, que estão cada vez mais torcidas como um tronco de uma árvore bonsai, não menos que nos resultados do banco de amanhã, ou nas cores dos azulejos da casa-de-banho nova que não sai do papel, e quase o mesmo do que no buço que só eu vejo reflectido do outro lado do espelho, nos olhos azuis costureira mongol que vive aos pés de Santa Marta, ou na peruca loura e despenteada da vizinha que todas as noites desce ao Andaluz para jantar com o marido gigante sempre com chapéus ascottianos enfiados na cabeça. Mas penso muitas vezes nisto – se ao menos eu tivesse nascido no dia seguinte, naquele que vem depois da capicua 22, talvez fosse mais parecida contigo, talvez nunca reparasse no buço que mais ninguém vê, talvez eu não comesse bolachas de chocolate para esquecer todas as frustrações, muito provavelmente eu não duvidaria que sou mais inteligente do que toda a gente que me rodeia; eu podia reinar, como tu, talvez se eu tivesse nascido no dia seguinte, talvez eu escrevesse o tal livro que toda a gente me pede, se eu tivesse nascido um dia depois era leão como tu; eu penso muitas vezes nisto, que gostava de ser como tu. E toda a gente me fala mal de ti, leãozinho, que és um predador, um mercenário, que não olhas para trás nunca, que traças o teu destino a tira-linhas todos os dias, e que arrasas quem quer que seja que te faça desviar do plano original; que te gabas do teu sucesso, que em tempos des[...]



Quando é que se abre a porta aberta?

2008-02-13T11:02:37.591+00:00

As portas estão todas fechadas, estão sempre fechadas, e quando as encontramos de outra forma, se é que as encontramos de outra forma (as portas não nasceram para estar abertas), estão escancaradas, em deboche; as portas são estridentes, elas nunca se entreabrem de soslaio, as portas nunca deixam ver o que está do outro lado por uma nesga, (essa é a função das fechaduras, as fechaduras só existem para podermos espreitar o que está para lá da porta) não há meio termo, nunca há meio termo, porque ensinaram-nos isto, de pequeninos - fecha a porta atrás de ti, não te esqueças de dar três voltas à chave, e não abras a porta a estranhos, nunca abras a porta. E então, se é assim, se é sempre assim, quando é que se abre a porta aberta? As portas estão sempre fechadas, nem que seja só no trinco, é simples o seu destino, as portas só existem enquanto portas porque devem estar fechadas, cumprem pena pesada, voto de clausura, por um pecado qualquer, por uma promessa qualquer, por um segredo qualquer, por vezes, não guardam nada, não escondem nada, mas, mesmo assim, têm que estar fechadas, com correntes, prisioneiras de aloquetes para os quais nunca foi feita nenhuma chave da salvação. Ensinam-nos isto, que quem anda à chuva molha-se, que quem brinca com o fogo faz xixi na cama, e que as portas estão sempre fechadas, têm que estar fechadas. E então, se é assim, se sempre foi assim, quem é que se lembra de abrir a porta aberta? E talvez sejamos as únicas pessoas desta cidade que puderam acreditar que a porta estava encostada, apenas encostada, fomos os únicos que nos lembrámos de abrir a porta aberta – porque raio, desta vez, não levámos o pé-de-cabra, porque raio não trouxemos o alicate, o escopro e o martelo? (E já pensaste quantos pares de pés passaram pela porta aberta antes de nós?)E quem resisitiria a espreitar, quem não teria entrado também se ela tivesse deixado antever o que estava para lá de si - lá dentro já esperávamos a penumbra, a porta nem sempre fecha todos os segredos; lá dentro, sentia-se cá de fora, nem precisava de estar aberta para o sabermos, para adivinharmos o cheiro, uma mistura de velho com penas de pombo e pó, cá de fora eu ainda descortinava o cheiro da cera de abelha, do chão e das tralhas esquecidas -, mas quem, se não nós, se lembraria de apenas encostar a palma da mão à porta e, sem palavra mágica, sem impressão digital – todos os dias, o meu dedo abre uma porta -, ainda bem que eu acreditei que conseguia abrir a porta aberta, e que fui à frente, sem medo, e que depois pude olhar para trás, e sorrir, e dizer-vos: Já está. A porta está aberta. Eu juro-te, muita coisa mudou desde o último dia do ano, quando tu ficaste atrás de uma porta que eu não vou conseguir abrir apenas com a força que se acumula na ponta dos meus dedos; outros milhares de pares de pés passaram pela porta aberta, depois de lhe termos descoberto o segredo. Sabes, (a Carolina começa todas as frases assim, como eu, sabes?) O meu cão desapareceu no início do ano, não volta mais, o Pax morreu e eu ainda não consegui chorar pela falta que ele me faz. A D. Ilda morreu e eu fui a única a escrever no livro de condolências da Servilusa, eu fui a única a chorar, a chorar como uma criança, a chorar como quando ela me consolava na sala do papel de parede almiscarado (o Valter e a Teresa a falarem dos seus gatos, preocupados com os gatos, que estavam sozinhos há muito tempo, e eu a chorar ao lado do caixão da D. Ilda, e ainda bem que a D. Ilda me deu, era eu tão pequena, o vestido de princesa cor-de[...]



O portageiro feliz

2008-01-29T18:33:31.494+00:00

A Teresa diz que não conhece mais ninguém assim, que se dê ao trabalho, para quê, que bem há-de vir ao mundo, nenhum, nenhum mesmo, muitas vezes é assim – é tão raro, só que há mais gente como eu, a Magui vê trevos de quadro folhas do parapeito da janela do seu segundo andar, e eu vejo histórias que me atropelam porque precisam de ser contadas, cada um com o seu fardo, cada qual com a sua sina. Mas se nada se ganha, também não se perde coisa alguma, não custa muito, um minuto basta para que o mundo dê um soluço (e geralmente alguém tropeça nesse instante). E eu aprendi, eu sei lá bem com quem é que aprendi isto, que devo parar, para recuperar o fôlego, para esticar as pernas e imediatamente a seguir ouvir o estalido do meu joelho doente, devo impor-me uma pausa e pedir ao coração que não me saia da boca para fora, eu devo parar. E às vezes, sou travada, não sou eu que decido parar – às vezes paro para memorizar as janelas do 120 da Duque de Loulé e sou abalroada por gente com pressa de apanhar o 22 –, mas consigo congelar o curso natural das coisas, nesse instante não se ouve senão o ruído fininho do silêncio, apesar de os escapes, esses, continuam a emitir mais CO2 do que o estilete de papel que levo à boca, e que me queima os lábios, e nisto vem um ganido do violino desafinado à saída do túnel da República, e o mais incrível de tudo é o sorriso dourado, doce, eu revejo-me naquele sorriso, do homem que pede esmola à chuva por entre a fila de para-choques sujos. O melhor dos meus dias não tem a ver com os sapatos caros que compro quando estou triste, esvaziada, e que depois me torturam o calcanhar, mas que me fazem a coxa e a barriga da perna perfeitas, deliciosas, por vezes, não é mais do que isto, por acaso, às vezes estou atenta no instante em que coisas raras acontecem (e a minha mãe coloca mais um trevo de quatro dentro da página de algum livro da biblioteca, ao lado dos olhos atentos de vidro das bonecas com pele de porcelana), e raios me partam, às vezes até me passa pela cabeça tirar o estilete de papel, e ter lábios perfeitos, sem quimaduras. A Teresa diz que não conhece mais ninguém assim. Que fale com os portageiros. Mas quem é que se vai dar ao trabalho (e eu sempre com esta – é a pior profissão do mundo), até o motor do vidro eléctrico resmunga a cada área concessionada, desce a contragosto, e o Multijet ronrona lá à frente, dou-lhe uns segundos de descanso, e é por estas e por outras, que, por mais jeito que dê, que mais jeito que viesse a dar, eu nunca vou ter colada uma caixa da Via Verde atrás do espelho retrovisor, eu estico o braço e sai pela borda fora o cartão da águia azul, entre o polegar e o indicador, isto é maquinal, não dura mais que uns segundos, mas o que é que custa – às vezes custa, quando a alma dói –, um sorriso, olá boa tarde, passou bem? (e por vezes sinto-me um operador de call center, mas nunca me sai forçado, e sorrio à espera do que está para vir). Há dias, raros, rarefeitos, incríveis, em que o portageiro sorri também. E diz mais do que um murmúrio inaudível que deveria soar qualquer coisa como boa viagem. E quando isto acontece, continuamos a viagem, e ela é mesmo mais prazeirosa, e pisamos o tabuleiro metálico da ponte sem que nos importe o zumbido do vento que vem dos segredos do Tejo; quando assim é, seguimos um pouco mais felizes porque o portageiro também o é. No tabuleiro da Ponte sobre o Tejo, na cabine 14, tem que se pisar o Bus, seguir sempre pelo Bus, o portageiro feliz ganha a sua vida, fechado num aquário de um metro quadrado, e é ma[...]



Deusdado

2008-01-10T18:30:22.059+00:00

Si Deus Nobiscum quis contra nos, se Deus está comigo quem está contra mim, [Tenho quase a certeza, descambou, até pode ser que não, mas tenho quase a certeza, descambou] debaixo da Ginkgo, porquê debaixo Ginkgo, logo a Ginkgo, na cama, depois do fim, sem perceber porque é que Deus nos abandonou, porque é que perdi o nosso filho debaixo da Ginkgo, porquê debaixo da Ginkgo, aquela do nosso jardim, justamente quando ela dourava o chão de Lisboa, e eu à cata da folha mais pequena sem sequer perceber que o estava a perder debaixo da copa da árvore sagrada que fazia sombra aos dinossauros à milhões de anos atrás, à procura da folha da sorte para ganharmos o Euromilhões e podermos ter a sala grande com três janelas duplas do projecto da Teresa, se ganhássemos o Euromilhões eu continuava a querer viver na Almirante Reis, com vista para o Castelo e para o Intendente, [Depois de levantar os olhos do relatório da urgência, viu-me de olhos raiados, narinas muito abertas, jugular a querer rebentar no pescoço, quero deixar de respirar também, se eu pudesse ter dito alguma era quero deixar de respirar, faz barulho demais se eu respirar, 30 segundos sem respirar, deixar ribombar que já descambou e enquanto isso não respiro, maxilares cerrados, pescoço esticado, nariz empinado, pose de Estado, punho cerrado e unhas cravadas na carne dentro do bolso do casaco que tem o forro descosido, depois de me ver assim, voltou ao relatório, não para escrever que tinha descambado, só para ler, e pela primeira soube que o meu nome era Diana, Diana, repetiu Diana vezes de mais, só se lembrou que era importante saber que o meu nome era Diana antes de me dizer que o meu filho tinha descambado] eu que gosto tanto das Ginkgos, e agora como vai ser a vida sem as Ginkgos douradas no Inverno, na Almirante Reis não há Ginkgos, só tílias, e lódãos, melhor assim, antes disto, um silêncio absoluto, horas, instantes, preces, todas as promessas foram feitas, a todos os Santos, foram invocados todos os Orixás, se Deus está comigo não me vai fazer isto, porque é que ele nos havia de abandonar, [ela está muito nervosa, pelo amor de Deus tenha cuidado a tirar-lhe o sangue, porque ela está muito nervosa, e eu muda, sem respirar, de cabeça encostada à anca da enfermeira que chorou pelo meu silêncio, pelos meus olhos raiados, pelo meu pescoço esticado, a enfermeira que prendeu no quadro de cortiça da urgência, com pionaises dourados, o desenho que a Carolina fez na sala de espera da urgência] só um ganido de dor por nunca mais poder contar com as Ginkgos para nada, nunca mais vou poder gostar das Ginkgos, lamento, não é possível, e se Deus está connosco quem é que tem a ousadia de estar contra nós, fico-me pelos eucaliptos, eu sempre gostei mais de eucaliptos, e de pombos, eu estava a perder o nosso filho debaixo da Ginkgo e as pombas do nosso jardim não me vieram à mão, Deus está comigo, deu-me todos os sinais, não, sinais não, são prenúncios, quando é um aviso de perigo é prenúncio, as pombas que não vieram ter comigo, e o nevoeiro gelado que caiu sobre nós, e logo a seguir a febre da Carolina, e lá em casa, sem eu saber ainda, a rosa de Inverno que perdeu todas as pétalas sem qualquer explicação, [mas o título do post era Esperança, e Deus está sempre comigo de mãos dadas, não há plafond de milagres por ano, pois não, há milagres sempre que é preciso, eu troco o meu cabelo por este filho, ela está muito nervosa, tirem o sangue com cuidado, não a magoem, e se ele ainda cá estiver eu troco o meu cabelo p[...]



Esperança

2007-12-27T18:33:59.732+00:00

Na casa de banho houve sempre, desde sempre, concílios familiares, epifanias, lágrimas e gargalhadas, brushings e borbulhas rebentadas no meio de conversas sérias, decisões para a vida, entre dúvidas metafísicas e mensagens codificadas nos desenhos a bolor do tecto por cima da banheira, nem sempre houve um espelho, mas nunca faltavam fitas de cetim guardadas no armário para as minhas tranças, outrora os azulejos eram brancos, depois começaram a cair e a Magui colou papel autocolante foleiro com gaivotas, a nossa vida, a nossa família, eu, o Leonardo, a Magui, e dúzias de gatos, encontrávamo-nos ali, pela manhã, parecíamos muitos nas manhãs de domingo – um na sanita, um na banheira, a outra a pentear as melenas ou a desenhar um risco de eyeliner por cima das pestanas, foi lá que o meu irmão Leonardo me queimou a bochecha esquerda com o secador de cabelo sem que nunca tenha sido castigado pelo acto vil, também foi ali que me trancaram com a gata Melissa quando a casa estava assombrada e os gatos bufavam ferozmente a seres que nenhum de nós conseguia ver, foi por cima do balde da roupa suja que eu chorei a maior parte das lágrimas da adolescência, era lá, até há muito pouco tempo que a minha mãe me secava o cabelo, cotovelo esquerdo apoiado no lavatório, rabo em cima do banco amarelo de plástico que o senhor Victor nos vendeu a preço de ruptura de stock quando fechou definitivamente as portas da sua loja de acessórios de casa de banho na João XXI, foi lá que, num Natal distante, linóleo cor-de-laranja com pequeno padrão de colmeia por debaixo dos nossos pés, olhos pregados ao janelo de vidro fosco junto à sanita, eu e o Leonardo jurámos ter visto a sombra do Pai Natal a colocar presentes por debaixo do pinheiro feito de escovilhões de plástico verde-garrafa. Já não dá para ler o futuro no bolor do tecto por cima da banheira, até porque já não há banheira, não há linóleo com colmeias por baixo dos nossos pés, algures no subúrbio, a Magui tão cansada de escolher pavimentos, sanitários, sancas, fornos e placas, mármores e granitos, olhou para aquela e disse – quero uma igual –, e eu nem ousei dizer-lhe que tinha escolhido uma casa de banho amarela, por acaso é bem gira, apesar de amarela, lavatório à moda antiga, como em Viseu, sem papel autocolante com gaivotas a segurar os azulejos, não me espanta mesmo nada que a magia tenha acontecido ali, junto à sanita, junto ao janelo de vidro fosco onde outrora eu e o Leonardo vimos a sombra do Pai Natal a deixar presentes debaixo da árvore de Natal feita de escovilhões de plástico verde-garrafa. Não tenho um presente para ti, João. Não faz mal. Não tenho um presente para ti, Diana. Desculpa. Se o Pai Natal existisse mesmo, João, agora descíamos no elevador, aproveitávamos que a Farmácia está aberta a noite toda, arriscávamos, se calhar o Pai Natal, com sorte, até nos portámos bem, João, o Pai Natal ainda nos traz um bebé. Não descemos à Farmácia. Com medo de mais um teste negativo em cima da mesa, da minha cara de sofrimento contido, mandíbula superior a morder o lábio e a desvendar a covinha da bochecha direita, não descemos à Farmácia, sobretudo, por vergonha, por termos uma venda suspensa há mais de quinze dias. Com um dia de atraso, o Pai Natal chegou. Este blogue está grávido de seis semanas. (Naquele dia, tinha que ser naquele dia, em que toda a gente tem esperança, começou a bater em mim mais um coração)[...]



Passaporte

2007-12-19T18:52:00.385+00:00

A Carolina começou a escrever. Timidamente, mesmo antes do seu quarto aniversário, começou por juntar as letras magnéticas que decoram o fiel frigorífico de marca branca em segunda-mão que resgatei por dez contos de réis de um apartamento da Lapa há sei lá quantos anos – e eu a ter que dar a mão à palmatória e a entender a tonta da minha mãe quando chorou pelo pobre caixote do lixo azul e branco que levou com tudo o que não era suficientemente bom para ser ingerido ou guardado nos armários, e que depois de trinta anos de serventia abnegada, por minha causa, por meu capricho, porque estava velho, sujo, a apodrecer, foi parar ao lixo; minimizei a coisa, até fiz um esforço para compreender o ataque de choro, repara, mamã, o céu dos caixotes do lixo, a sua grande viagem, o momento que eles esperam durante toda a sua vida, e que vida longa teve este caixote, é ir para o paraíso, para a lixeira; quantos gagues de almoço domingueiro já fiz eu com o pobre caixote do lixo, e a minha mãe ainda triste por nos termos livrado dele, e agora a perspectiva de abandonar o fiel frigorífico à mercê do seu destino, na rua estreitinha da Santa, começa a aterrorizar-me, apesar do gelo que se acumula no pequeno electrodoméstico onde cabe pouco mais do que um quilo de bifes e um pacote de verduras congeladas.A primeira palavra que disse foi mamã, a primeira que escreveu foi Noddy, nada contra, não sou ciumenta, e o som da letra ípsilon ficou-lhe na cabeça a martelar, sei como é, sei tão bem como é; um mês depois, começou a desenhar letras no papel, agora procura de vez em quando o teclado do computador, gosta do til em cima do a – leia-se o chapéu em cima do triângulo –, não fomentamos o seu interesse pela escrita, a Magui outro dia ensinou-lhe o conceito de infinito, mas não fomentamos, começou a escrever sozinha – Disney é parecido com Diana, mas tem um ípsilon em vez da letra que é parecida com o um, disse ela ainda ontem enquanto brincávamos às artristas das tintas no chão, em frente ao sofá laranja –, 2-2 são zero, o infinito é um oito a dormir, e assim vemos a nossa vida em fast forward à frente dos nossos olhos, e tememos que ela se torne infeliz por ter descoberto cedo de mais o elixir da vida eterna. Só precisamos de escrever, é tão simples quanto isto, o passaporte para a eternidade sai-nos das mãos, a Carolina já percebeu que sim, eu demorei tanto tempo a perceber porque escrevo, porque escrevo mesmo quando me dói o pulso doente da doença profissional que ganhei por levar esta vida a escrever. A Magui diz “Antes de morrer vou escrever apenas esta frase – Eu passei por aqui”, mas não basta, só voltamos a viver de novo, estejamos desfeitos em pó ou ainda em ossadas que teimam em não se desintegrar porque esta terra está cansada de mais de tudo o que se passa por cima de si, se deixarmos tudo escrito, em Viseu a casa está intacta, inviolada desde há cinquenta anos, abrimos as gavetas, abraçamo-nos às latas de Toddy que nos adocicaram a boca na infância, e encontramos a Magui, uma Magui que eu nunca conheci, a Magui antes de ser a minha mãe, a menina que era galanteada por pretendentes mais velhos que estudavam medicina em Coimbra, que serão hoje já avós, que poderiam ter sido os meus pais, ou os pais da criança que havia de vir no meu lugar, a Magui que vivia enclausurada em conventos povoados de freiras maldosas, que lhe cortavam os cabelos loiros por serem tentação demoníaca, que a largavam à noite pelos corredores, a[...]



Carolina e as luzes de Natal

2007-11-26T17:46:11.356+00:00

Foi assim desde sempre - mesmo antes de as minhas cordas vocais vibrarem da boca para fora cascatas de sons cheios de nexo e significado, ou de o meu sistema nervoso central processar pouco mais do que um mundo feito da água de colónia Bien Être da minha mãe muito loira, do Âmbar e as madeiras da roupa da minha avó muito morena, e da lixívia das mãos da minha outra avó, que me embalava todas as noites no seu regaço, ao compasso do seu batimento cardíaco, sentada no sofá de napa laranja: chegava Dezembro, a porta do Ford Cortina branco do meu avô Ralha abria-se, e da Praça Pasteur seguíamos em romaria para ver o Natal nas ruas de Lisboa.O pinheiro comprava-se junto à linha de comboio do Arreeiro, e debulhávamos um pacote de algodão hidrófilo pelas fagulhas, colocando bolas de vidro coloridas nos ramos. A minha avó, que quando não cheirava a lixívia, trazia consigo o aroma de roupa lavada no tanque de betão com sabão azul e branco da Clarim, tirava do porta-moedas uma nota de cinco mil escudos dobrada em quatro, e ditava que o seu destino era para comprar presentes para os meninos. No chão dos bazares da Avenida da Igreja, eu comprava um estojo de canetas da Molin, e tinha ainda dinheiro suficiente para comprar um "Meu Pequeno Ponéi" (lá em cima, na Erasmus, o meu tio Zé já teria comprado a tão desejada Barbie Cintilante, descrita ao pormenor na carta escrita ao Pai Natal).O cabelo muito branco da minha avó muito morena, sentada no banco da frente do Cortina, iluminava-se de muitas cores quando íamos ver o Natal, e quando ela olhava para o banco de trás, os seus olhos, eu não sei se eles não sorriam mais do que os meus, colados à janela esquerda do Ford Cortina, as mãos em pose de ventosa no vidro e a boca aberta de espanto, dos sinos, das estrelas e dos anjos e da alta voltagem do Natal.Nascida e criada no Bairro de Alvalade, apenas uma vez ao ano eu descia com a minha avó muito morena a Avenida da Liberdade. Depois, subíamos o Chiado, voltávamos atrás para o Martim Moniz, seguíamos em frente pela Almirante Reis, torneando a João XXI, e voltávamos à Lisboa que eu conhecia, à Avenida de Roma e Avenida da Igreja, mas o Natal, as luzes mais bonitas, só as podia ver do lado de dentro do Ford Cortina.Com três anos, a minha filha Carolina, nascida primeira semana de Dezembro, já domina conceitos abstractos tão complexos como cidade, país e região autónoma. Tem todos os sonhos deste mundo e sabe que quer ser “artista das tintas” quando for grande, e que, daqui a duas semanas, assim que soprar as quatro velas do seu bolo de aniversário do Noddy e da Ursa Teresa, a vida lhe reserva feitos notáveis, como aprender a andar de bicicleta, ou ir dançar na televisão (não sei como descalço esta bota da televisão).Trauteia Mozart e Rodrigo Leão, mas sabe-se lá porquê, também vem para casa a cantar o jingle das Chiquititas, ou as canções carregadas de conotações sexuais das mini-Doce, a minha Carolina possui uma memória notável - sabe que comeu favas há um ano nos Açores, e já distingue algumas letras, nos anúncios da publicidade, entre as quais, as que compõem o nome do seu ídolo Noddy.Mas não é só: a morte também se aprende em pequenino, e sempre que a minha Carolina vê um pombo esmigalhado na estrada (e nesta família, gostamos de pombos e também de eucaliptos - malfadados e mal-amadas criaturas do reino animal e vegetal), diz "esta pomba está estragada", ou mais recentemente, porque já é uma pessoa em miniatura[...]



O calcanhar (uma espécie de carta para ti)

2007-11-08T12:46:13.123+00:00

Não julgues que já não me dói o passo, que nunca mais me vai doer o passo, às vezes esqueço-me de trazer pensos na mala, o calcanhar fica esfolado, e vou a mancar pelo caminho.Sabes, a Sílvia já não é loira, mas até já há quem nem se lembre de que, em tempos, a Sílvia já foi loira.O presidente do banco fazia o seu melhor, tentava refrescar-me a memória à força, dizia, não podia ser mais gráfico – aquela jornalista ruiva que estava à minha frente –, e eu olhava para cima à espera que a nuvem desenhada no céu me revelasse o rosto da jornalista ruiva, olhava para cima como aquela outra com quem jantei debaixo de um tecto desenhado pelo Keil do Amaral, que falava, falava, tagarelava como poucos, mas não me olhava nos olhos enquanto dialogava sobre banalidades com fervor, fixava os olhos verdes no tecto, como se estivesse a falar com Deus, ou talvez com o fantasma do Keil do Amaral, eu meses depois fazia o mesmo, franzia o sobrolho e depois olhei para cima como ela, na esperança de me lembrar da ruiva (eu sempre adorei ruivos, como não me lembro de uma jornalista ruiva?), e só depois percebi – a Sílvia já não é loira; é ruiva.Mas eu nem reparei, porque para mim, a Sílvia vai ser sempre loira. O que ninguém repara, o que provavelmente ninguém reparou, porque é uma pequena disrupção da realidade aparentemente irrelevante, coisa da moda, é que a Sílvia já não traz na mão direita o cachucho de ouro branco com uma pérola reluzente de que eu tanto gostava.Todos mudámos, e a cor do cabelo da Sílvia é o lado menos visível e menos chocante de toda a mudança. Eu estou à direita do presidente, e à minha frente estão os meus amigos, eu não estou ao lado deles, e na sala do hotel de cinco estrelas perco a manhã a contemplar tudo o que mudou.A maçã-de-adão do Pedro continua nos seus rodopios, aquilo fascina-me verdadeiramente como poucas coisas, a João já não tem um dente encavalitado, mas eu revejo de soslaio no rosto o mesmo sorriso de boneca de porcelana com que ela me recebeu no dia em que me ensinou a fazer as páginas da bolsa do jornal de referência. E a Sílvia já não traz no dedo um pedaço do fundo do mar. Ah, sim, já sabes desde o segundo parágrafo – é ruiva.Não julgues que eu perdoo tudo o que me aconteceu, que compreendo e aceito o meu destino, e que não nunca mais me dói o passo, que nunca mais me vai doer o passo.Eu só queria aprender a tocar piano, era capaz de jurar que desta vez nasci só de propósito para tocar piano. Se quiseres, eu canto-te as mil canções que sei de cor, eu embalo-te baixinho até se pedires, mas só não me perguntes como é que eu sei tantas músicas de cor, porque eu não te sei explicar, não te sei explicar que tudo faz sentido para mim.Mudamos milimetricamente todos os dias. A Sílvia já não traz o anel no dedo direito, a João já não tem o dente encavalitado, o Pedro até já é editor, a tua barba, eventualmente, sufocou-te mais um bocadinho (eu trago na cabeça que essa barba te mata lentamente; se ao menos fosse tudo tão fácil como cortar a barba). Mas não me digas que eu sou outra, lá porque estou ao lado do presidente.Continuo a chorar baixinho sempre que um prédio vai abaixo – porque os prédios, e tu sabe-lo tão bem quanto eu, não são só prédios. Eu contei-te a história do prédio que me chamou durante dias a fio, e eu a pensar que estava louca, porque os prédios não têm voz, e quando tu partiste a janela, escondido pela glic[...]



O presépio do Barreiro

2007-09-27T20:23:27.244+01:00

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Antigamente

2007-09-24T12:45:59.354+01:00

Antigamente, eu não sabia o que era um vereador, não sabia o que era um editor, muito menos me preocupava com as funções de um redactor principal ou com a adequada tradução para a língua inglesa de tão distinta categoria profissional da carreira jornalística, e estava longe de imaginar que existem mais freguesias do que as semanas que completam um ano da minha vida, e nunca tinha pensado que um jornal se "fecha" todos os dias (à chave?), que Benfica ainda é Lisboa, que Carnide também ainda é Lisboa, antigamente eu tinha uma cábula muito bem feita num dicionário de Latim, na página 500 e na página 1000, que me garantiu um notável oito no exame nacional. Antigamente, eu tinha telemóveis caros de última geração que apareciam nas mãos das vedetas dos filmes de Hollywood e, hoje em dia, tenho telemóveis de quinta categoria, só que, antigamente, eu tinha contactos de amigos pelintras em telemóveis caros, e hoje guardo o contacto do Joe Berardo num telemóvel reles. Antigamente, eu não sentia as minhas entranhas a estalar, havia só registo de uma ou outra fissura microscópica, e, então, eu conhecia os limites do meu corpo e ainda conseguia sentir dor e frio nas extremidades, e tudo se resumia ao que vestir com as calças de sarja azuis bebé, com bolinhas brancas microscópicas, compradas no primeiro dia de saldos da Zara. Antigamente, quando as férias de verão se estendiam por três folhas do calendário dos gatinhos amorosos em pose, dentro de cestinhas de verga, eu bebia sumos de laranja com uma pinguinha verde de Pinsang Ambom, no relvado, junto ao poço e ao jardim de cactos, e assistia ao transe conjunto das flores, das palmeiras, dos choupos e dos eucaliptos que mudavam de cor e mudavam de pio ao som hipnótico que vinha lá de cima, muitos decibeis acima do permitido, escorregando directamente do génio do Philip Glass (antigamente ninguém sabia quem era o Glass), e às vezes adormecia e sonhava com as lanternas de pirilampos que ia fazer quando o sol se pusesse na Mata de todos os Medos. Antigamente, eu sincronizava a minha respiração com a da minha avó quando procurava consolo no seu colo fofo, eu encostava o meu ouvido direito à lã grosseira da camisola de gola alta, e ainda não tinha alergias nenhumas, nem às fibras, nem ao pó, nem aos pelos de gato e dos cães, e também ainda não era alérgica à estupidez e à incompetência, eu ouvia o tum tum do coração da minha avó e sincronizava a minha respiração com a dela, e mandava o meu coração bater no mesmíssimo compasso, e sabia que havia de levar aquele momento comigo para todo o sempre (e sabia que o haveria de recordar ao espreitar a rotunda do Marquês por cima de um biombo de secretárias). O anel que eu trago no anelar da mão direita, antigamente morava na Praça Pasteur, dentro da caixa de plástico castanha, junto ao cabide das gravatas do meu avô, e eu arranjava forças sobrenaturais quando alguém tentava apedrejar um pardal (hoje, já mato formigas sem remorsos). Antigamente, a minha mãe recebia no Natal um envelope com cem contos, e cem contos era uma pequena fortuna, juntávamo-nos os três em rodinha, a carpete cinza rato por debaixo dos nossos pés e os olhos brilhavam a contar as notas de cinco contos de reis, e tirávamos uma nota, vestíamos os casacos e as galochas, e fazíamos a Rio de janeiro a pé, depois descíamos a Avenida da Igreja e então aí, onde se vendem trens d[...]



A Herança

2007-09-06T22:54:24.668+01:00

Tenho a casa cheia de fantasmas e a absoluta certeza que descendo em linha directa do santo que desfilou de sandálias de couro pelas ruas de Goa.
São fantasmas da outra margem do Tejo, são fantasmas do outro lado do mundo, fantasmas que eu trazia nas veias e na textura da minha pele sem reparar.

(são fantasmas ultraleves)

Tenho fantasmas e mais fantasmas, e latas de Toddy mais velhas do que eu em cima da mesa de jantar, certidões de óbito, e declarações do modelo 1 do IMI (com o respectivo anexo preenchido em duplicado) junto ao sofá que quando crescer quer ser cama.
Tenho plantas de localização à escala 1/100 de imóveis onde os descendentes do santo com quem partilho um apelido se juntavam numa quinta que se estendia até ao mar, uma quinta onde trepavam canas e roseirais, e onde decerto a minha avó Isaura feriu o seu olho direito numa ferida que nunca mais sarou.
E tenho também registos prediais de pequenas ruínas de uma vila fabril, tenho visões de uma praia de areias finas onde hoje o mar bate sem espuma aos pés de chaminés industriais, mas também tenho um busto de barro do Sá Carneiro que comprei no Barreiro.
Tenho uma queixa à Ordem contra um advogado e que tem que ser redigida o quanto antes, tenho uma convocatória de assembleia de condóminos para tratar, tenho uma bicha xenófoba que ficou com o quintal que devia ser meu e que não gosta dos meus vizinhos uzebeques, sem falar que tenho o grunhido do meu avô Ralha na sala onde o meu pai morreu com ar de espanto.
Mas há pior - tenho o carcinoma do colo do útero da minha avó Isaura guardado num arquivo morto de Chelas, e a tristeza de me ter esquecido que ela também se chamava Faria antes do Xavier e do Ralha. Tenho o Manuel dos Anjos Xavier e a Maria Manuela Faria enterrados nos arquivos poeirentos da Conservatória do Registo Predial do Seixal.
Tenho um presépio minhoto que encontrei na mesma loja do achado extraordinário do busto de Sá Carneiro - e sim, acredito que lhe partissem a montra se o pusesse à vista de todos, e ainda bem que vejo sempre mais além, que nunca presto atenção ao que está à frente mas ao que foi escondido atrás do óbvio, senão não tinha um busto de barro do Sá Carneiro comprado no Barreiro -, e já tenho algum carinho pelo Barreiro, 500 quilómetros depois aprendi a gostar da terra de onde vêm as minhas feições, e enterneço-me pelo facto de a cabeça do menino Jesus do Presépio ser maior do que a da virgem Maria, e de as ovelhas terem um sorriso maroto.
Tenho o presépio montado no janelo da cozinha de Santa Marta porque preciso da fé, da esperança e da luz que inunda toda a gente no Natal (e tenho outra vez uma invasão de formigas, que respeitosamente contorna as palhinhas onde o menino está deitado).
Tenho novas ruas na cabeça, tenho outra vez quilos a mais e cabelos arrancados por um tique nervoso compulsivo.

Esta é a minha herança.