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Baixa Fidelidade



Reflexões sobre a música - Olhares sobre o passado e pistas para o futuro



Updated: 2015-09-16T22:06:02.225+00:00

 



Rock # 21 - June Of 44 – “Four Great Points” (1998 Quarterstick)

2011-04-01T21:30:36.829+00:00

(image) Composta por membros ou ex-membros de algumas das mais intrigantes bandas do “underground” americano da última década (Codeine, Rodan, Hoover e Rex), os June Of 44 retiram influências idênticas desses grupos para uma angular, forte e muitas vezes confusa sonoridade que se revela verdadeiramente em casa na editora de Chicago, Quarterstick Records. “Four Great Points” poderá ser considerada a gravação mais acessível da banda, mas também mostra que eles não perderam nenhum do seu carácter aventureiro. Ao manterem as músicas um pouco mais curtas do que as peças épicas que costumavam criar, eles produziram um álbum muito coerente e fluido. Eles surgem aqui como uma versão 4base e desarticulada do “math-rock” “pós-hardcore” dos Slint, mas mais melódicos, com uma instrumentação estelar, suave e indolente, no entanto brilhante e luminosa, que muito beneficia da experiencia em estúdio dos músicos, seja a realmente impressionante bateria de Doug Scharin, sejam as grandiosas linhas de baixo de Fred Erskine. Este “belo ruído” pode intimidar nas primeiras audições, pois as músicas são muito repetitivas, mas eles são suficientemente criativos para modificarem subtilmente o ambiente sonoro das canções enquanto estas progridem. E seja o incrível tema de abertura, “Of Information and Belief”, uma poética e surreal canção que tem os seus momentos de caos presos no seu interior, sejam as súbitas mudanças ao longo da canção de “The Dexterity Of Luck” e “Cut Your Face”, ou sejam as mais ritmicamente fluidas “Doomsday” e “Lifted Bells”, estamos na perante um disco recheado do mais delicioso “math-rock”.




Pop # 17 - Pale Saints - “The Comforts of Madness” (1990 4AD)

2011-03-15T18:22:01.309+00:00

(image) No seu disco de estreia, os Pale Saints, conseguiram misturar o lado mais experimental e atonal do “indie rock” com uma pureza melódica, numa época onde a fusão entre o “dream pop” e um gentil “shoegaze” era bastante comum, mas que poucos o fizeram como eles e essa associação ainda continua única nos nossos dias.
Aqui estamos presente uma matéria-prima energética aliviada por uma pureza pacífica.
Com uma personalidade muito própria, ao invés de apenas criarem um som abafado e atropelado por cascatas de guitarras, deram-nos canções muito elaboradas na sua estrutura, extremamente aconchegantes e onde se nota é visível um verdadeiro esforço em serem algo mais do que apenas uma banda com uma sonoridade etérea. E se é verdade que no espectro do “shoegaze”, os Pale Saints (que sempre pareceram criminalmente sob considerados) estão mais próximos de uns Cocteau Twins - com excepção dos gloriosos sintetizadores que são substituídos por um formato sonoro mais “rock” - existe definitivamente uma sensação “4AD”, mas também há algo verdadeiramente único neste registo.
Assim desde a primeira faixa, “Way The World Is”, eles não parecem seguir uma fórmula, e cada faixa segue para a próxima sem lacunas, pois eles possuem um verdadeiro ouvido para uma musicalidade progressista, e preenchem os espaços muito bem, executando mudanças dentro das canções com uma magistral precisão.
Existe um absoluto equilíbrio entre a excentricidade e a formalidade da estrutura “pop” ao longo do álbum, e em canções como “Little Hammer”, aventuraram-se numa direcção onde provavelmente nenhum dos seus contemporâneos nunca tentaria.
A combinação entre voz incrivelmente doce, misteriosa e assustadora de Ian Masters com o harmonioso trabalho de guitarra produzido por Graeme Naysmith deixou-nos pequenas maravilhas como “Sea of Sound”, “Insubstantial”, “Language of Flowers” ou “Sight of You” que nos guiam numa belíssima e transcendental viagem.
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Wire – “Red Barked Tree” (2011 Pink Flag)

2011-03-02T18:28:47.971+00:00

(image) Ao longo da sua carreira de 35 anos, os Wire sempre se basearam em contrariedades, eles eram suaves e limpos, e rigidamente experimentais numa época em que o “punk” não era nadas dessas coisas. Eles sempre intensificaram os princípios da disciplina formal da arte musical (eles que poderiam ter abandonado após os seus álbuns de 1977-79, e o seu lugar na história já teria sido salvaguardado) e ao longo dos anos foram mergulhando em muitos mares do mais inteligente “indie-rock” – “electro”, “pop-art”, “shoegazing” – e apesar de ser muito mais um álbum de guitarra, “Red Barked Tree”, sente-se como uma amálgama da sua curiosidade. Retomando a partir de onde “Object 47” (2008) tinha terminado, o angular “Red Barked Tree” é um álbum sem remorsos, onde encontramos os Wire a revisitar o seu passado de uma forma simultaneamente familiar e diferente. Aqui temos os Wire antigos e os Wire modernos. “Red Barked Tree” ergue-se à altura da trilogia original melhor que qualquer álbum desde o sinistro “A Bell Is A Cup Until It Is Struck” (1988), e eles parecem francamente entusiasmados, seja na desajeitada e carregada guitarra de “Please Take”, na bombástica e dinâmica “Now Was”, na contemplativa “Adapt”, no forte choque de confrontação presente em “Two Minutes”, nas quentes guitarras “indie” de “Bad Worn Thing”, no excitante e angular “art-pop” de “A Flat Tent”, ou na mistura entre rodopiante e espinhosa guitarra “noise” com a perfeita melodia “pop” realizada em “Smash”, criando 11 faixas de ritmos enganosamente simples, de cintilante instrumentação e com um inabalável propósito que arrasta a sua “antiga” sonoridade para novos domínios.
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Rock # 20 - Fugazi – “Repeater” (1990 Dischord)

2011-02-16T18:54:38.418+00:00

(image) Este foi o real inicio para os Fugazi, após dois registos que foram liricamente e musicalmente desenvolvidos por Ian MacKaye (após o termino da sua antiga banda, Minor Threat), “Repeater” já foi uma junção de esforços de toda a banda, e é assim o primeiro real álbum dos Fugazi. Com Guy Picciotto como segundo vocalista e guitarrista, eles levam a banda a uma estranha dicotomia que tanto sustenta, disputa ou condensa o som em novos arranjos que são simultaneamente familiares e estranhos. Joe Lally e Brendan Canty alimentam-se um do outro e criam uma secção rítmica quase tribal que às vezes se torna tão complexa e unificada que é fácil esquecermos que é apenas um baixo e uma bateria. Angular, “funky”, irregular, emocional, politico, “Repeater” foi o anti-“Nevermind”, uma gravação histórica que mudou o som de uma subcultura sem se submeter as mãos gananciosas das grandes editoras. E apesar de as letras de MacKaye e Picciotto parecerem enfadonhas em alguns aspectos, certas linhas ressonam com a clareza de aforismos verdadeiramente Zen: “You are not what you own”; “Merchandise keeps us in line”; “Never mind what’s been selling, it’s what you’re buying”. Mais do que qualquer outra coisa no catálogo dos Fugazi, estas linhas resumem a postura da banda contra a produção de “hits” pelo “rock corporativo”, a manipulação da indústria publicitária e outros restantes abusos de poder. E em contraste com a mentalidade de escapismo, de ironia ou de vitimização que dominou muitos dos discos de “rock alternativo” da mesma década, “Repeater” mostrou que a paz interior é possível para aqueles de nós dispostos a fazer alguns sacrifícios pessoais.
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Inovadores # 18 - Cluster – “Cluster 71” (1971 Philips)

2011-02-10T18:45:24.655+00:00

(image) “Cluster 71”, foi uma fantástica viagem sonora criada por Dieter Moebius e Hans-Joachim Roedelius no ano de 1971 para a editora Philips, antes de se mudarem para a editora Brain, e sempre foi indevidamente negligenciado na sua carreira, e nem mesmo o sempre constante revivalismo “krautrock” se lembra dele.
Na altura julgado demasiado pesado e teutónico, é um registo presciente pois prefigura muita da música dos séculos XX e XXI, nomeadamente o “illbient” por 20 anos, com partes a soarem estranhamente como DJ Spooky.
Edificado por Conny Plank, as três intituladas faixas formam escuros ecos em torno de frios e repetitivos padrões de sintetizador, com “drones” electrónicos em dissolução e esporádicos sinais de alerta, fundindo as novas possibilidades de produção de ruído electrónico com as repetições e as ressonâncias do “dub”.
Um tipo de “space music” mas com uma grande ressaca, os seus estridentes sintetizadores serpenteiam para as profundezas através de um ofuscante movimento sonoro rotativo, enquanto fragmentos de irregulares batidas evocam um disforme “techno”.
Ao longo dos anos, os muitos que tentaram recriar a vasta solidão do infinito, geralmente surgiram com algo parecido com o que aqui foi realizado. Mas surpreendentemente, este disco atinge a atmosfera e a sonoridade intentada mais do que qualquer equipamento contemporâneo provavelmente conseguiria.
Um disco verdadeiramente absorvente.
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Pop # 16 - Apple Boutique – “Love Resistance” (1987 Creation)

2011-02-04T18:31:43.251+00:00

(image) Lembro-me perfeitamente que foi na nossa querida RTP2, que no final das tardes dos anos 80, passava programas musicais originários de Inglaterra, um deles, às 6ª feiras, era dedicado à música “indie”, e foi aqui que ouvi pela primeira vez, este registo único elaborado por dois ilustres secundários, Philip King e John Mohan, que entre outras bandas, tocaram nos The Servants, Lush e Felt (que curiosamente gravaram uma canção intitulada “Apple Boutique” no seu álbum de 1988, “The Pictoral Jackson Review”).
Aqui brilhantemente cruzaram uma bela melodia com uma letra simplíssima no que iria resultar numa perfeita canção “pop”, que é uma alegria pura ouvir repetidamente.
Destaca-se o excepcional trabalho de guitarra e a interacção entre os instrumentos, numa forma delicada e inspirada de tocar o denominado “jangle pop”, que nos anos 80 era encharcado pela sonoridade das Rickenbacker inspiradas nos The Byrds, mas que aqui se mostrava visionário em comparação com a s maioria das bandas da altura.
O lado B inclui ainda a enorme “The Ballad of Jet Harris”, uma canção quase instrumental que gradualmente cresce até atingir um elegante final (e aqui eles rivalizam com os melhores Felt) e a interessante “I Don’t Even Believe In You”. Um verdadeiro tesouro perdido.
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Rock # 19 - Prolapse – “The Italian Flag” (1997 Radar)

2011-02-04T18:32:30.057+00:00

(image) Sempre evoluindo na muita publicitada tensão entre os seus dois vocalistas, Linda Steelyard e Mick Derrick, a banda de Leicester, seguiu o impressionante disco de 1996, “Backsaturday”, com o igualmente inventivo e igualmente conflituoso, “The Italian Flag”. Ligeiramente menos atolado no lamacento “lo-fi”, “The Italian Flag”, novamente acasala poderosos ritmos com esquizofrenia vocal.
Após meia década a vomitarem reciprocamente acrimônias, a suave Steelyard e o psicótico escocês Derrick ainda possuem ódio e energia suficientes para continuar a dar vida ao seu muito pessoal, torturado e negligente show “a bela e o monstro”. Mesmo quando não se lamuriam (como na doce “Flat Velocity Curve”), eles justapõem as suas vozes num dissonante uníssono. E independentemente das suas características vocalizações, os Prolapse abordam os seus “jams” com uma intensidade desenfreada. O tema de abertura “Slash/Oblique”, divide a melodia bem no centro, fervilhando com a vivacidade de uns Sonic Youth, enquanto a incongruente, mas agradável “Killing The Bland” impele um “power pop” com uma tal abstracção, que se finge que o “new-wave punk” nunca enojou.
Adicionando fúria vocal com uma solidez instrumental, os Prolapse são um tanque multicolorido de prazer, uns mais ácidos Blonde Redhead, infundindo a sua música com a mesma “euro-sublimidade” mas com rajadas muito mais cáusticas.
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Compilações # 9 - The Homosexuals – “The Homosexuals Record” (1984 Recommended)

2011-01-27T18:35:05.933+00:00

(image) Uma das melhoras bandas da primeira geração “punk” nunca editou um álbum legítimo. Esta compilação de 16 temas seleccionados por Chris Cutler para a sua editora, e lançada seis anos após a maioria dos temas ser gravado, reagrupa “singles” e gravações “perdidas” e se pode omite algumas coisas, é na mesma deslumbrante.
Os The Homosexuals foram uma banda extremamente original, inteligente, bizarra e apaixonante, que sempre se esconderam atrás de inúmeros pseudónimos e abraçaram a obscuridade.
Eles representaram verdadeiramente a ética “DIY” do “punk”, ao fazerem um esforço concentrado para evitarem o sucesso comercial, gravando em tempo emprestado nos estúdios dos seus amigos, editando os seus próprios discos e raramente tocando ao vivo.
Extremamente influentes em todas as formas da música “punk” britânicas as suas guitarras angulares, as melodias complexas e as tendências experimentais distanciou-os um pouco do “punk” que estava ser criado pelos seus contemporâneos e cimentou a sua reputação como uns precursores do “pós-punk”.
Apesar destas inclinações externas, a sua música é mais ecléctica do que experimental, pois a maioria dos aspectos experimentais – harmónica dissonante, letras surrealistas, múltiplas mudanças estilísticas e rítmicas dentro das músicas – actuam como um véu para, basicamente, canções de “pop” excêntricas, completas com harmonias vocais, refrão e versos.
Foram muitas vezes comparados com os This Heat, mas os The Homosexuals estavam mais preocupados com a elaboração de canções de uma forma mais interessante do que a desconstrução das mesmas.
Eles foram fortemente influenciados pelo “afro-beat” e pelo “dub”, mas ao invés de assimilarem estes estilos numa sonoridade “punk”, eles criaram um crivo sonoro através do qual essas sonoridades pudessem passar e depois surgirem radicalmente alteradas.
Sublimemente difícil.
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Classic # 29 - Blur – “Parklife” (1994 Food)

2011-01-17T18:04:58.128+00:00

(image) Apenas três meses após o lançamento de “Modern Life Is Rubbish”, os Blur entraram no estúdio de Maison Rouge com o produtor Stephen Street para começarem a trabalhar no próximo álbum. Nesta fase eles ainda eram somente uma pequena banda de culto, essencialmente pelo relativo sucesso dos “singles” “There’s No Other Way”, “For Tomorrow” e “Chemical World” nas tabelas de vendas britânicas. Pois antes de ser tornarem na essência do “britpop” dos nos 90, os Blur eram apenas uns meros pretendentes ao trono, e seria a partir deste disco que se tornariam numa das mais assombrosamente consistentes e audazes bandas das últimas décadas.
Se por um lado “Parklife” é um disco que audaciosamente retrata um período temporal, no entanto este encontra-se a anos-luz da maioria dos discos desse mesmo período. Com uma parte de mordazes comentários sociais, e outra parte de pura extravagância pop “pós-punk”, o disco gerou a mais dançável crítica social com o ultra contagiante e decadente “disco” de “Girls & Boys” e incluía mais 15 outras variadas músicas (desde o ardente “neo-punk” de “Bank Holiday”, passando pelo misterioso “space-rock” de “Far Out”, pelas melódicas harmonias de “Badhead”, até às luxuriantes orquestrações de “To The End”), o terceiro disco do grupo de Londres, misturou um irresistível e contagiante “pop”, com “soul grooves” e belas guitarras irregulares, tudo suportado por irónicas letras que satirizavam todas as coisas verdadeiramente burguesas e britânicas.
“Parklife” extravasa melodias e atmosferas e as letras de Damon Albarn desdobram-se como um grande história, saltando de uma idiossincrasia da sociedade Inglesa para outra. As suas personagens são ricas e complexas figuras, cujas vidas e acções conseguem agarrar a atenção do ouvinte (segundo Damon Albarn, “Parklife” significa “o ambiente onde a normalidade tem a oportunidade de distorcer, mas nunca realmente mudar”).
Apoiado pelas loucas vendas do “single” “Girls and Boys”, este arrebatador disco atingiu o topo das tabelas de vendas e os Blur acabaram por passar de uma banda miserável que estava prestes a ser esmagada pelo “grunge”, para serem aclamados como a melhor banda britânica desde os The Smiths.
Mas talvez a melhor ironia, é que no processo de desvirtuamento dos estereótipos modernos, os Blur não conseguiram evitar de participar numa das mais duradouras instituições britânicas: o “pop” sofisticado.
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Electronic # 19 - Oval – “94 Diskont” (1995 Mille Plateaux

2011-01-11T18:44:27.374+00:00

(image) “94 Diskont” é um daqueles discos que podia e deveria ter mudado a rota da música moderna. Hoje desfruta de um prestígio indiscutível, mas a sua influência na estética contemporânea parece ser inversamente proporcional.
Um trabalho singular, contribuiu para a evolução artística ao utilizar a tradição estabelecida e esmagando tudo em pedaços, numa época em que a maioria dos músicos procurava inspiração nas décadas anteriores, “94 Diskont” surgiu com uma refrescante visão do futuro, não abandonando a música electrónica do passado, mas transformando-a de formas imagináveis.
O tema de abertura “Do While” consegue, em pouco mais de 20 minutos, um ponto culminante e de destilação de todos os anteriores esforços minimalistas na música.
Conscientemente ou não, sintetizou a influência e as melhoras práticas do mais puro minimalismo de Steve Reich ou Terry Riley com essência digital da nova tecnologia “instrumental”.
A partir de detritos digitais, Oval construiu um ressonante holismo de pura beleza cristalina. E se o disco é difícil no seu propósito e metodologia, também não revela as influências e arrisca, agravado por um forte sentimento de melodia e capacidade de composição.
O tempo demonstrou que o trabalho de Markus Popp foi revolucionário, começando com a criação – ou melhor, negação – do facto musical, reduzindo-o a um conjunto de processos e algoritmos, sem aplicações dramáticas ou emocionais. Apesar de intransigente, revela-se mais acessível com subsequentes audições.
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My Favorites # 23 - Wall Of Voodoo – “Seven Days In Sammystown” (1985 I.R.S.)

2011-01-05T18:54:34.205+00:00

(image) Depois do formidável “Dark Continent”, do espantoso “Call of The West”, e com o inesperado sucesso de “Mexican Radio”, muitos pensaram que com a saída do seu principal compositor e vocalista Stan Ridgway, os WOV se iriam afundar.
Mas isso fez com que a banda amadurecesse e seguisse uma nova direcção, pois aqui tudo está em perfeito equilíbrio, através de som exuberante e de uma surpreendente dinâmica para um registo com 25 anos. Gravado em Inglaterra, com Ian Broudie (The Pale Fountains, The Coral) e Gil Norton (Pixies, Echo & The Bunnymen), este é o disco que altera o mecanizado som dos Voodoo, evidente nos sintetizadores muito da época utilizados nos registos anteriores, levando-o para novas áreas sonoras. Aqui a constante foi aquele verdadeiramente único som de guitarra de Marc Copeland, e a habilidade na composição de canções, mas a música possui muito mais conteúdo e substância, nuns tons mais sombrios, mas mais energéticos. Provavelmente mais acessível (dá a impressão de ter sido minuciosamente produzido, mas nunca dá a impressão de ter sido sobre-produzido). Temos de juntar a energia e o carisma trazido pelo novo vocalista Andy Prieboy, que sem comprometer o espírito essencial dos WOV ainda conseguiu contemporizou a sua sonoridade.Apesar dos fãs mais incondicionais acharem que é desrespeitoso dizer que este álbum se encontra no mesmo nível dos registos anteriores (o disco seguinte “Happy Planet” já é bastante irregular), é uma bela, retorcida, romântica e sinistra obra-prima, pois desde a incrível “Far Side Of Crazy”, passando pelo requintado humor de “This Business Of Love”, pela pungente “Faded Love”, pela robusta “Mona”, pela intensa “Big City”, por “Dark As A Dungeon” (popularizada por Johnny Cash), pela extraordinária “Tragic Vaudeville”, até à inesperada (para os fãs WOV) “(Don’t Spill My) Courage”, estamos na presença de um disco muito à frente do seu tempo.
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Best of 2010

2011-01-03T18:20:16.136+00:00

Top 40

Uns dias de férias permitiram uma escuta reforçada das últimas aquisições, e após muita “reflexão”, anexo a sempre polémica lista dos melhores do ano. Como é usual está por “grupos”, para ser mais democrático

Top 3
Deerhunter – “Halcyon Digest” (2010 4AD)
Foals – “Total Life Forever” (2010 Transgressive)
The Black Keys – “Brothers” (2010 V2)

Top 10
Beach House – “Teen Dream” (Sub Pop)
Caribou – “Swin” (Merge/ City Slang)
Four Tet – “There Is Love In You” (Domino)
Midlake – “The Courage Of Others” (Bella Union)
The National – “High Violet” (4AD)
The Soft Pack – “The Soft Pack” (2010 Kemado)
Walls – “Walls” (Kompakt)

Top 40
Actress – “Splazsh” (Honest Jon’s)
Arcade Fire – “The Suburbs” (Merge)
Ariel Pink’s Haunted Graffitti – “Before Today” (4AD)
Barn Owl – “Ancestral Star” (Thrill Jockey)
Edwyn Collins – “Losing Sleep” (Heavenly)
Efterklang – “Magic Chairs” (4AD)
Field Music – “Field Music” (Memphis Industries)
Gil Scott-Heron – “I’m New Here” (XL)
John Grant – “Queen Of Denmark” (Bella Union)
Mark McGuire – “Living With Yourself” (Mego)
Matthew Dear – “Black City” (Ghostly International)
Matthew Herbert – “One One” (Accidental)
No Age – “Everything In Between” (Sub Pop)
Peter Broderick – “How They Are (Bella Union)
Phantogram – “Eyelid Movies (Barsuk)
Rangda – “False Flag” (Drag City)
Richard Skelton – “Landings” (Type)
Sleigh Bells – “Treats” (Mom & Pop)
Spoon – “Transference” (2010 Merge)
Swans – “My Father Will Guide Me Up A Rope To The Sky” (Young God)
Tame Impala – “Innerspeaker” (Modular)
Teenage Fanclub – “Shadows” (PeMa)
The Album Leaf - “A Chorus of Storytellers” (2010 Sub Pop)
The Besnard Lakes - “The Besnard Lakes Are the Roaring Night” (2010 Jagjaguwar)
The Phantom Band – “The Wants” (Chemikal underground)
The Walkmen – “Lisbon” (Fat Possum)
Trentemoller – “Into The Great Wide Yonder” (2010 In My Room)
Vampire Weekend - “Contra” (2010 XL)
Wavves – “King Of The Beach” (2010 Fat Possum)
Women – “Public Strain” (2010 Jagjaguwar)



Canções de Natal IV

2010-12-31T19:11:10.227+00:00

(image)
Eels -"Everything's Gonna Be Cool This Christmas" (1998 do 7" "Cancer For The Cure")

Hawksley Workman - "Merry Christmas (I Love You)" (2001 do álbum "Almost a Full Moon")

Julian Casablancas - "I Wish It Was Christmas Today" (2009 do 7''Homónimo)

Morphine - "Sexy Christmas Baby Mine" (single de 1993 - retirado do "Best Of")

Saint Etienne -"21st Century Christmas" (2006 do CD "Xmas 2006" (fan club)

The Fall - "Jingle Bell Rock" (1994 retirado de "The Complete Peel Sessions")

The Wedding Present -"White Christmas" (2008 da compilação "How The West Was Won")

Yo La Tengo - "Rock'n'Roll Santa" (2002 do EP "Merry Christmas From Yo La Tengo")



Deerhunter – “Halcyon Digest” (2010 4AD)

2010-12-09T18:37:11.301+00:00

(image) Bradford Cox, desde sempre se aventurou regularmente em direcções musicais completamente novas, mas sempre conseguiu ficar completamente consistente, sonoramente reconhecível e sempre demonstrou uma notável capacidade de criar fantásticas canções “pop”.
Divido entre as jornadas propulsoras dos Deerhunter e o docemente sonhador “rock” do seu projecto solo Atlas Sound, as suas ideias continuam a surpreender.
O último dos Deerhunter, será provavelmente menos imediato do que a anterior obra-prima, “Microcastle/Weird Era Cont”, mas “Halcyon Digest” é uma colecção de incrivelmente belas e contagiantes canções “pop”, onde Bradford Cox engloba o núcleo do seu som e todas as suas influências (o ameaçador “psicadelismo”, os “funky drones”, os sonoros congelamentos da mente, e elegante “pop-buzz”) através de sonoridades irregulares e atmosféricas de forma a atingir uma apoteose nesta oferta nebulosa, mas feliz.
Desde o simplista “Earthquake”, com o seu penoso andamento, que desperta o ouvinte para um unificado registo recheados de notáveis momentos estéticos, onde se incluem o saltitante “Don’t Cry, o encantador “Revival”, a florescente excelência de “Sailing”, o estridente “fuzz-pop” de “Memory Boy”, a espiral de linhas de guitarra do melado "Desire Lines", o emproado e surpreendente saxofone presente em "Coronado", o “noise-pop” crocante do mais experimental "Helicopter", até chegarmos aos longos arpejos de fascinantemente amargurada “He Would Have Laughed”, atingimos um universo mágico recheado de histórias honestas e singulares, e onde distintos sons animam estruturas “pop”, em outra obra brilhante na impressionante carreira Cox's. E eu só posso vê-los ficar melhor.
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Do fundo da prateleira # 25 - Papa M – “Whatever, Mortal” (2001Drag City)

2010-11-30T19:23:56.926+00:00

(image) Apesar da sua longa e diversa lista de colaborações em múltiplos projectos, no que toca às suas próprias sonoridades, David Pajo simplifica bastante as coisas e faz música sem preconceitos e sem artifícios
Desprovido de “acordes pop” ou drama narrativo, a atenção dos temas desloca-se para a materialidade do som: a velocidade de um “vibrato” de guitarra, o do deslizar dos dedos nas cordas de metal ou a distância entre as notas de um intervalo. Frases despidas são repetidas lentamente e sombreadas ou alteradas por outros instrumentos, criando teias sonoras, que se entrelaçam entre si.
Música que pode ter uma base “country” e “folk” e um espírito sempre muito americano – a que não são alheias as presenças de Will Oldham, Tara Jane O’Neil e Britt Walford e a omnipresença do banjo – mas que ai muito além, numa fusão das vertentes aérea e terrena que Pajo tem vindo a explorar nos últimos anos. E se “Whatever, Mortal” pode parecer à primeira um disco fechado e obscuro, quando os nossos ouvidos passam por temas como “The Lass of Roch Royal”, “Purple Eyelid”, “Krusty”, “Many Splendorer Thing” ou “Northwest Passage”, para apenas destacar algumas canções, rapidamente nos apercebemos que estamos perante uma obra de arte à leveza e à simplicidade.
Resumindo, música que qualquer mortal irá gostar.
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My Favorites # 22 - Menomena – “Friend and Foe” (2007 Barsuk)

2010-11-26T16:16:55.426+00:00

(image) Desde o seu disco de estreia que os Menomena nos presenteiam com um absolutamente incrível trabalho artístico.
Neste disco apresentaram-nos outro vigoroso exercício, musicalmente como liricamente cheio de ideias, pois é impressionante a quantidade de momentos inteligentes e emocionantes que ficam connosco após a sua audição.
Eles fizeram como o seu foco principal, descarnarem a formula standard de composição e utilizando todos os aspectos da sua música para uma extensão absolutamente máxima de delicias sonoras.
As composições são imprevisíveis e complexas, no entanto as melodias são ágeis e sustentadas, numa muito própria imediata simplicidade, menos angular na sua entrega e isso torna-as mais fáceis de entender. Os seus momentos de quietude são preenchidos com estranhos saxofones, escuros e súbitos traços de piano e esmagadoras guitarras distorcidas, que espreitam a cada esquina, complementando toda a peculiar e divertida estrutura “pop” que a banda toca com perfeição em cada uma das doze faixas. Os Menomena certificam-se que cada instrumento utilizado é especificamente deles, e que o majestoso som de todas as canções é e soa claramente Menomena.A sua “assinatura” do modular “pop” que praticam é visivelmente eficaz no tema de abertura, o intrincado “Muscle’n’Flo”, um verdadeiro carrossel musical, que abre o caminho desta estranha viagem, que demonstra as dezenas de engenhosos e arrepiantes detalhes que são oferecidos no álbum, através do assombroso piano de “Wet & Rusty”, do verdadeiramente único negro “fun pop” de “Weird”, da saltitante linha de baixo e da bateria electrónica de “Evil Bee”, do “pop” fracturado de “My My”, ou do brilhantemente implacável “The Pelican”. E tal como os álbuns anteriores, a embalagem é surpreendente – o artista Craig Thompson fez todos os desenhos (um humorístico e infernal universo “freak”) e a sua sublime arte reflecte perfeitamente o som que o álbum revela.
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Singles # 25 - Oasis – “Live Forever” (1994 Creation)

2010-11-24T18:12:39.555+00:00

(image) Na tarde do dia 9 de Abril de 1993, Noel Gallagher estava em casa quando o telefone tocou. Do outro lado estava Alan McGee. Ele assinou os Oasis depois de ouvir quatro “demos” – uma delas era “Live Forever”.
Sem grande surpresa, “Live Forever” tem as suas raízes noutra canção, Em Outubro de 1991 “Shine On Me” dos Rolling Stones, o seu refrão tem exactamente a mesma melodia que as linhas de abertura dessa canção, e que impulsionou Noel para escrever a primeira música que ele acreditava sinceramente poder ser um futuro clássico.
18 meses depois McGee e a banda estavam de acordo que a canção merecia ser o ser primeiro Top Ten. E se bem que “Supersonic” e “Shakermaker” já tinham construído o perfil da banda, “Live Forever” já constava do reportório dos seus concertos e rapidamente ganhou reputação mediante o aumento do estatuto da banda
Uma espécie de manifesto – apresentando o carácter da banda e estabelecendo tanto de onde eles vieram e ao que estavam a reagir.
Simultaneamente forjaram uma ruptura com a era “grunge” e acenaram à experiencias “acid house” de Noel: : “You and I are gonna live forever”, poderia ter saído da boca de qualquer “clubber” do final dos nos 80.
Em Agosto de 1994, “Live Forever” envolto numa capa que mostrava a casa onde John Lennon passou a sua infância, voou para o Top Ten, e as ultimas dúvidas sobre os méritos musicais dos Oasis (um pouco ocluída nessa altura pelo muito gin, coca e lutas) desapareceram.
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Inovadores # 18 - Tuxedomoon – “Desire” + "No Tears" (1987 Crammed)

2010-11-15T15:51:43.769+00:00

(image) “Desire” foi inicialmente gravado em Inglaterra durante o ano de 1981, quando o grupo de São Francisco se encontrava exilado na Europa, e é o início de um novo ciclo para os Tuxedomoon, pois aqui abandonaram o pós-punk erudito que marcou o seu álbum de estreia na Ralph, inevitavelmente influenciado pelo som dos seus patrões - The Residents - para mergulharem no crepúsculo de uma música que aliava a nostalgia ao futurismo.
O extraordinário “Desire” (aqui reunido com o EP “No Tears”), combina canções letradas e dançantes com peças atmosféricas, utilizando ritmos automáticos, o violino "alien" de Blaine L. Reininger, o arsenal de efeitos electrónicos desconjuntados de Peter Principle e os teclados e sopros de Steve Brown, para criar registos utópicos, como na combinação de sons eléctricos com o clarinete praticada em “East”, que são capazes de se infiltrarem no sangue de um “rock-jazz” doente como um antibiótico, e servem canções sobre a decadência do amor e do Ocidente, através de melodias que capturam a mente e a alma, poemas em vez de letras, e inesperadas passagens musicais.
A maioria das pessoas pode caracterizar os Tuxedomoon como experimentalistas “underground”, mas a caracterização que mais se adequa será de essencialistas.
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Tuxedomoon - Litebulb Overkill



Rock # 18 - Bardo Pond – “Amanita” (1996 Matador)

2010-11-10T14:10:46.998+00:00

(image) São bem evidentes as diferenças sonoras presentes no disco de estreia da banda de Filadélfia para a Matador, em relação a sonoridade tipicamente “basement-tapes” do anterior “Bufo Alvarius”, pois o surpreendentemente brilhante “Amanita” revela uma profundidade e maturidade que todos os seus esforços anteriores apenas insinuavam.
Tal como a maioria dos álbuns dos Bardo Pond, está recheado de intensas sonoridades “fuzzy” que giram e trituram, no entanto por debaixo de tudo isso existe sempre uma deslumbrante melodia como só mesmo eles são capazes de criar.
As influências são notórias: o psicadelismo dos anos 60, os Crazy Horse e claro os Sonic Youth.
Sombrio, pesado e hipnótico, atinge níveis superiores de massacre sonoro, camada após camada, através das trilhas de feedback das guitarras de John e Michael Gibbons e da irradiante flauta fantasmagórica da vocalista Isobel Sollenberger, sempre partindo do nuclear baixo pulsante de Clint Takeda, para criar algum da melhor música “psicadélica” das bandas contemporâneas.
Assim desde a monumental abertura com o denso e complexo “Limerick”, com as suas gritantes guitarras que criam tensão e a ressonante voz feminina, passando pela delirante experimentação sonora de “Rumination”, pela introspectiva e sensual “Be A Fish”, por essa densa valsa nuclear que reside em “High Frequency”, pelas distorcidas sinfonias celestiais de “Sentence”, até à conclusão com as texturas sonoras encharcadas de raiva presentes no tributo “RM”, seremos rapidamente absorvidos no lago (pond) e não sairemos pacificamente.
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Extremos # 11 - Jad Fair And Daniel Johnston - “It’s Spooky” (1989 50 Skidillion Watts/ 1993 Paperhouse)

2010-11-05T17:37:51.690+00:00

(image) O brilhante e mentalmente perturbado Daniel Johnston é tão idolatrado pelos seus fãs como é desconhecido do “mainstream” da cultura “pop”.
As suas auto-editadas k7’s ou são inaudíveis trabalhos de um louco ou o frágil produto de um visionário “pop”, dependendo de quem perguntarmos (se perguntarmos a alguns obsessivos notáveis como Michael Stipe dos R.E.M., Matt Groening – criador dos Simpsons – ou aos vários membros dos Sonic Youth, todos eles dirão que Johnston é um génio. (Kurt Cobain que apareceu muitas vezes em público envergando uma t-shirt Johnston, diria o mesmo). Jad Fair, apesar de mais experiente e estável do que Johnston, é também uma figura de culto. Os Half Japanese, a banda que ele criou com o seu irmão David, foram determinantes para a formação do “punk” e “indie rock”.
Num encontro surreal em 1989, eles decidiram gravar “It’s Spooky”. O disco une as desleixadas emoções entusiasticamente “indie rock” de Fair com a pungência e melancolia que caracteriza a escrita de Johnston, e essa mistura de estilos atinge um efeito dramático em “Summer Tale”.
Mas a influência mais prevalente no disco, é Johnston, que emprega maravilhosamente quer as suas usuais figuras mitológicas quer o seu ameaçadoramente directo “mix” de figuras patetas, especialmente em “Tongues Wag In This Town” e na hilariante “Frankenstein Vs. The World”.
Mas quando Johnston se afasta da fantasia, e restringe-se à descrição anedótica, os resultados são magníficos. Em “I Did Acid with Caroline” descreve uma “trip” com uma amiga, de um forma admirável, que é impossível não sermos atingido pela sua sinceridade. Da mesma foram “McDonalds on the Brain”, um relato do período em que trabalhou na cadeia de “fast-food”, é simultaneamente divertido e indescritivelmente triste.
Em última analise, “It’s Spooky”, faz jus à promessa implícita nesta colaboração, pois quer Johnston quer Fair são tão talentosos e tão destemidos que cada um dos seus registos está inevitavelmente repleto de raros e estranhos tesouros.
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Women – “Public Strain” (2010 Jagjaguwar)

2010-10-28T14:13:36.754+00:00

(image) O disco homónimo de estreia dos canadianos Women, editado em 2008, mostrou muita qualidade com a sua fantástica energia, mas para muitos, o seu nervoso, barulhoso “art-rock” e experimental “pop”, era um pouco pesado no seu casamento entre melodia e abrasão.
“Public Strain” definitivamente não é “Women 2.0”, é mais longo e as maciças ondas sonoras que ainda tentam aperfeiçoar, parecem agora verdadeiramente capazes. Enquanto o primeiro álbum foi coroado com fortes melodias e elevadas, no entanto belas, camadas sonoras, “Public Strain”, tem o seu foco na capacidade de composição e nas firmes melodias, é o som de uma banda a soltar-se e a alargar a sua palete sonora numa muita mais poderosa e coesa visão. Os Women continuam a fugir a uma categorização fácil, e assim é indiferente se os chamarmos de experimentalistas “pop” ou “noisemakers”, uma coisa é clara, o que eles fazem é excelente.
Melodiosos, artísticos e possuindo os impecavelmente cativantes “riffs, soam tentadoramente inovadores e ”refrescantes”, as canções ganham forma através das suas melodias, da impressionante destreza e da intrincada musicalidade da banda, que combina hermeticamente as progressões que soam singularmente livres, nas enormes “walls of sound”.
Eles podem lembrar os Deerhoof ou os Liars, mas o seu “modus operandi” (misturar luz com sombras, “noise” com “pop”) foi praticamente inventado pelos The Velvet Underground. Mas o que é fundamental, é que eles absorveram estas influências, mas sem as imitarem, retirando o que queriam, e destilando-as em algo novo. Ao fazerem isso, eles provam que são uma das mais versáteis e imprevisíveis bandas actuais. E quando chegamos ao épico “Eyesore”, que exibe os variados pontos fortes da banda – a atmosfera dos seus temas “noise”, os “riffs” angulares dos seus números “pop” e aquela pureza “rock” sempre à espreita - só apetece começar a audição novamente.
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Compilações # 8 - Abecedarians – “AB-CD” (1988 Caroline)

2010-10-23T12:02:23.429+00:00

(image) O curioso título desta compilação, que basicamente contém os conteúdos dos dois primeiros álbuns dos californianos Abecedarians, é uma abreviatura do seu próprio nome. Eles foram durante os cinco anos da sua existência, uma das poucas bandas americanas do “post-punk” que deram uma apropriada resposta ao paralelo movimento britânico. E seria uma pena se ficarem na história apenas por terem sido a única banda americana que editou pela Factory Records (o single “Smiling Monarchs”, pois eles tinham uma sonoridade única, extremamente ampla e deserta, que encapsulava elementos do “post-punk”, “dream pop”e “post-rock”. Foram alvo de inúmeras comparações com os melhores do género, mas certamente serão os Echo And The Bunnymen a melhor referência, pelos ritmos enérgicos, pelas ressonantes guitarras, pelo serpenteante baixo e por uma bateria num estilo “jazzistico”, reminiscente dos Can, que impulsionava as músicas de uma forma expansiva, mas desapressada, para criar composições heterodoxas como as impressionantemente hipnotizantes “Soil” e “I Glide”.
Assente nas vocalizações profundas e distintas de Chris Manecke, em conjunção com as exuberantes guitarras submersas em “reverb”, era a robusta secção rítmica que funcionava como a âncora sonora que continha as imponderáveis atmosferas onde as canções se aventuravam. A banda notavelmente intercalava uma quantidade de truques tecnológicos no seu som, alternando entre canções mais optimisticamente “pop” e material mais melancolicamente lento. E assim se as guitarras discordantes do sombrio “Ghosts” relembram os Joy Division, já as “drum-machines” e os sintetizadores presentes em “The Other Side Of The Fence” recordam os Orchestral Manoeuvres In The Dark nos seus primórdios.
Um disco para ouvir lentamente e repetidamente.
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Tributo # 13 - Can

2010-10-23T12:04:29.621+00:00

Os Can surgiram em 1968, na cidade de Colónia. A anarquia, novas liberdades e novas questões estavam no ar. A Europa Ocidental estava a adoptar novas formas de pensar o seu futuro, e os jovens alemães levaram a necessidade de revolução para o coração.O teclista Irmin Schmidt tinha sido aluno do pioneiro da música electrónica Karlheinz Stockhausen, e durante esse período, Schmidt conheceu Holger Czukay, que na altura compunha extremamente complexas peças musicais e que se tornou baixista enquanto ganhava a vida como professor de música.Um dos alunos de Czukay, o guitarrista, Michael Karoli, estava convencido de que os The Beatles e os The Rolling Stones eram melhores do que Stockhausen e Beethoven. Ele demonstrou-o a Czukay ao tocar “I Am the Walrus”, um momento decisivo para Czukay, pois este percebeu que era possível ser-se musicalmente audacioso no contexto de uma canção “pop”. Entretanto Schmidt estava a ficar cada vez mais aborrecido com os seus estudos formais da música e cada vez mais encantado pelos sons radicais provenientes do mundo do “rock”, especialmente, os The Mothers of Invention, os The Velvet Underground e Jimi Hendrix, ou seja, música eléctrica que incorporou improvisação, dissonância, elevados volumes sonoros e, provavelmente o mais importante, o ritmo percussivo – um elemento que a música clássica, mesmo nos seus modelos mais “avant-.garde”, nunca incluiu.Schmidt e Czukay decidiram formar um grupo para criar um novo tipo de música; nenhum tinha muito conhecimento do “idioma rock”, um facto que ambos consideravam uma grande vantagem, pelo facto de assim ser difícil seguir os “rock” clichés. Recrutaram Karoli para tocar guitarra, e completaram o grupo com um amigo de Schmidt – o baterista Jaki Liebezeit - que tocava “free jazz” e “bebop”, e um itinerante artista negro norte-americano chamado Malcolm Mooney, que possuía a rara habilidade de improvisar letras que faziam um muito seu próprio sentido.Os Can queriam fazer um tipo de música que combinasse elementos de “rock”, “jazz”, “r&b”, “world music”, electrónica, mas que no entanto não fosse nenhuma dessas, pois era crucial que essa música fosse apenas deles, caso contrário, não tinha interesse.Liebezeit, também tinha começado a odiar as suas performances de “free jazz”, ele sentiu que o “free”, paradoxalmente, estava actualmente a matar a música, e começou a desenvolver um interesse nos ritmos “naturais” que podiam ser encontrados nas músicas étnicas, ritmos que podem ser multifacetados e complexos e ao mesmo tempo facilmente “sentidos” e “compreendidos” pelo corpo humano.Desde o início que a música dos Can se caracterizou pelos fortes poliritmos da percussão e pela densa interacção instrumental, como é visível nos 20 minutos de “Yoo Doo Right” do primeiro álbum “Monster Movie”.Foi no seu próprio estúdio de gravação situado num velho castelo chamado Schoss Norvenich, a cerca de meia hora de Colónia, que os primeiros álbuns da banda foram gravados (o japonês Damo Suzuki substituiu Mooney após a edição do primeiro). A música dos Can foi construída no princípio de que “everyone solos, no one solos” – ou seja, a música era sobre o “tecido” e não sobre os “tecelões”. As peças têm frequentemente uma “qualidade fabricada” – Czukay, como engenheiro chefe, esculpia as “jams” livres, através da ediçã[...]



Pop # 15 - The Delgados – “Peloton” (1998 Chemikal Underground)

2010-10-14T10:23:58.791+00:00

(image) Antes de chegarem a "The Great Eastern", os The Delgados progrediram brilhantemente do “trash-pop” influenciado pelos Sonic Youth de “Domestiques” (1996) para uma mais detalhada palete sónica em “Peloton”, adicionando flautas, ao estarem recheados de quartetos de cordas e ao incluir o ocasional “sample”, fazendo com que cada canção tivesse arranjos verdadeiramente únicos. E se a isso juntarmos o facto de Emma Pollock e Alan Woodward ao alternam as vocalizações, fazem com que os seus sedutores tons celestiais tenham um efeito paliativo sobre o ouvinte.
O processo de aprendizagem que os levou de um extremo para o outro, desdobra-se diante dos nossos olhos. Os primeiros temas são particularmente bons exemplos – em “The Arcane Model” e especialmente na esplêndida “Everything Goes Around the Water”, existe uma fusão entre o deslocado “pub rock” de “Domestiques” com o estranho tom de suavidade aveludado da sua música posterior.
Pollock surge magnífica nos tons melodiosos da suave “The Actress”, e na viçosa e mágica “Pull The Wires From The Wall” a sua contribuição é particularmente impressionante. A presença da guitarra acústica e do violoncelo na introdução faz evocar Kristen Hersh, mas há também uma pitada de Marianne Faithfull na assustada mas avaliada entrega de Pollock. Mais emocionante ainda é “Blackpool”, um sinistro relato em que as alterações dos tempos são negociados por uma bizarra acrobacia fonética que encanta e confunde o ouvinte. E o francamente mental “Repeat Failure” que soa como se os My Bloody Valentine estivessem a massacrar os Belle And Sebastian, escutado através de um exausto rádio de onda curta.
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Rock # 17 - Hüsker Dü – “New Day Rising” (1985 SST)

2010-10-07T17:26:33.250+00:00

(image) Dos vários “clássicos” editados pelo Hüsker Dü, “New Day Rising” é uma excelente afirmação de intenção e será provavelmente o melhor da sua carreira.
Literalmente esmagador, ele recomeça onde “Zen Arcade” acabou e simplesmente dispara, capturando a banda numa fase onde eles se encontravam a passar do veloz “hardcore” dos discos anteriores para a sonoridade mais melódica dos álbuns que se seguiram. A velocidade das canções é ligeiramente inferior, mas a intensidade do fluxo nunca cessa.
A capacidade conjunta de composição de Grant Hart (provavelmente melhor em “Flip Your Wig”) e Bob Mould nunca funcionou tão bem como aqui, onde o perverso sentido de humor de Hart surge como um contraponto mais ensolarado às escuras e torturadas obsessões de Mould. Tal como os Velvet Underground nos anos 60, eles estavam a re-escrever as regras do “rock” e “pop” mas também do “hardcore” e “punk” de um só golpe.
O disco está recheado de grandes canções, sempre carregadas de emoções, onde a guitarra de Mould é nitidamente ameaçadora e implacável, a bateria de Hart é quase “jazzística”, de fluxo livre e a dirigir velozmente e sem fôlego as canções para a frente e com o baixista Greg Norton a colar as coisas com subtis ganchos melódicos.
Desde a selvagem, incendiária “New Day Rising”, passando pelo brilhante épico “Celebrated Summer”, pela explosiva “I Apologize”, pela vigorosa “Terms of Psychic Warfare”, pela política “Folklore”, pela “trashy” “Punch Drunk”, pela melancólica “Girl Who Lives On Heaven Hill”, pela excelente “Books About UFO’s” até chegarmos ao colapso sonoro de “Plans I Make”, este registo ficará para sempre como uma das indiscutíveis referências do “rock alternativo” americano dos anos 80.
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