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Farinhada



um blog de idéias.inc - Fazedora de Coisas



Updated: 2017-08-23T10:09:32.079-03:00

 



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2011-07-20T16:12:22.899-03:00

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2011-07-20T15:54:35.161-03:00

Enfim, embora com atraso, o tão bem guardado segredo Antes que me ponha, finalmente, a revelar o tão bem guardado segredo que é a receita obtida por meu tataravô a duras penas nas ilhas geladas na Rondívia em fins do século 18, deixo aqui registrado para toda a não-eternidade que o universo não é composto por terra, água, ar e fogo, como vem da filosofia grega clássica e posteriores.A Rondívia, este país situado em algum ponto a leste da rua Humboldt, cujo único cidadão caucasiano branco bípede com polegares opositores, barba, bigode e cabelo quase nenhum e que algum dia tenha escutado a quinta sinfonia a visitá-lo foi meu tataravô, é pródiga (a Rondívia, caso já tenha se esquecido tão longa foi a frase anterior) na produção de duas coisas: vento e filósofos. Tanto que os filósofos da Rondívia são absolutamente desconhecidos em qualquer parte do mundo mas, caso se desse o contrário e o mundo inteiro tivesse se dobrado à sapiência filosófica desses gênios desconhecidos, diria-se desses serem os filósofos cabeças-de-vento.Os filósofos da Rondívia há muito, desde que o mundo era simplesmente um sonho insano na cabeça desocupada de seu criador, sabem que tudo o que existe, existiu ou haverá um dia de existir é composto por cinco elementos essenciais: sal, peixe, vinho, música e amor. Desses cinco elementos deriva-se todo o universo. O corpo, a pedra, a folha, o mar, o sol, as pilastras dos palácios, os livros, os macacos, as bactérias, e até mesmo os políticos e os árbitros de futebol, acredite, tudo que há, houve e haverá parte desses elementos, o que foi muito tempo depois interpretado um tanto erroneamente por Aristóteles e pelos alquimistas e por Jorge Ben Jor e que gerou os quatro elementos e a quintessência e outros enganos, coisa que deixaremos para comentar em outra oportunidade caso ela ainda nos surja em vida, assim como os motivos e circunstâncias que levaram meu avô a aportar na Rondívia e tudo que sucedeu após esse fenomenal evento.O fato é que o universo é composto por sal, peixe, vinho, música e amor. E é daí que vem a receita mais famosa da Rondívia: dos cinco elementos, mais a sextessência rondiviana, que é o macarrão. Hoje através da ciência pós-moderna sabe-se que o macarrão é fonte de carboidratos que são fundamentais para nossa sobrevivência, e daí se percebe a sabedoria do povo rondiviano transformada em culinária: os cinco elementos essenciais, mais a sextessência, fazem a Bacalhonada, o prato fundamental em torno do qual se reúne todo o conhecimento dos filósofos da Rondívia e, portanto, o conhecimento humano.Tudo isso foi dito para que você perceba a necessidade de reverenciar a receita que se segue, e transformar o ato de prepará-la em evento ritualístico e sua deglutição em uma festa que deve ser anunciada aos quatro ventos antes, durante e após todo o ritual, até mesmo pelo rádio ou, quem sabe, por pombos-correio, muito mais modernos.Uma última observação antes da receita propriamente dita: siga rigorosamente as quantidades determinadas, para não se ter o risco de um resultado absolutamente cartesiano. Assim como na vida, quanto mais se seguem as regras menos se controlam os resultados, e é isso que faz, desse prato, um símbolo indelével da sabedoria dos mais sábios de todos os sábios de toda a história humana. BacalhonadaIngredientes: * 500g de bacalhau em lascas* 1kg de macarrão (qualquer formato, mas preferencialmente talharim para que possam todos se divertir e passar alguma vergonha ao enrolar o macarrão no garfo)* 12 garrafas de vinho (algumas de vinho branco, outras de vinho tinto)* um tantinho de Azeite* algumas cebolas* alho em pasta* uns poucos tomates* um pouquinho de sal* azeitonas sem caroço, pretas e verdes* música a gosto* uma ou mais pessoas as quais se ama Modo de preparo: Mergulhe o bacalhau em lascas (previamente dessalgado mas não muito) em meio litro de vinho branco. Deixe que o bacalhau fique um tanto bêbado, o que deve levar cerca de 45 minutos. [...]



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2011-06-25T12:32:21.638-03:00

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Este é meu primeiro poster, como andrèsz.
Em papel couché fosco, medindo 64x46 cm.
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Custa só 35 reais.
Se eu fosse você, comprava um.
Mail-me: andrepiaui@hotmail.com
tuíte-me: @andrepiaui.



Macarronária

2011-06-18T11:06:58.732-03:00

É tarefa masculina prover o alimento da fêmea, especialmente quando a fêmea faz morada no quarto principal do peito do macho. É tarefa do homem caçar o ex-vivo animalzinho ou tubérculo ou sorrateira raiz, ou usar o cartão de crédito ou a capacidade de realizar o escambo (ou, em último caso, a invasão armada de um depósito de um supermercado qualquer) para transformá-lo em fondues de peito de morango ao chocolate, bife de lontras a escarola, pato com laranjas da Albânia e molho de catupiry ou salada Scafollesi Tontti enfeitada com fios de ovos de crocodilos albinos da Malásia. Ou até mesmo num simples molho a bolonhesa. Mas os tempos modernos fazem crer aos menos ponderados que, pelo fato de todos terem os direitos iguais, homens, mulheres e suas variantes e adjacências, tal fato (o prover da fêmea pelo macho) esteja em desuso. Evidentemente, é de uma grande parvoíce tal assertiva, pois a confecção de pratos coloridos, saborosos e, evidentemente, nutritivos, do homem para a mulher é, no mínimo, sinônimo de boa educação, além, é claro, de servir a objetivos tão nobres quanto o de alimentar, que sejam o de enamorar, de seduzir, de encantar e o de evitar que seres tão encantadores tenham suas delicadas extremidades superiores, vulgarmente chamadas de dedos, cheirando a alho ou com bolhas liquosas causadas pelos inevitáveis acidentes com o calor das panelas. Enfim, está escrito nas Tábuas de Abdalel, no item 14, alínea c: “faz o alimento para o corpo de sua amada, que dela receberás o alimento de sua alma”.
Assim, procede que o homem deverá ter como conhecimento essencial ao menos uma receita que provoque, em seu objeto de adoração: aumento dos batimentos cardíacos, dilatação das pupilas, discreto inchaço ao sul do continente, elevação da temperatura corporal, aumento da salivação e vontade de rodopiar pelo ar ao som do Bolero de Ravel. Evidentemente, a dança varia conforme a música, mas tem-se como parâmetro de qualidade gustativa o NRPS, ou número de rodopios por solfejo. O índice ideal, segundo estudos apuradíssimos do Instituto de Ciências Gastronômicas de Valverdianne, Escolávia, é de 52,876 rodopios por solfejo. Mas houve um caso no ano de 1937, no sul da Lituânia, em que uma jovem donzela se encantou tanto por um singelo bife ao molho preparado pela sua metade da laranja que rodopiou à incrível marca de 682 rodopios por solfejo, marca considerada imbatível e que recebeu a impressionante média de 10,6 pontos no levantamento das placas de pontuação pelos jurados, ainda mais impressionante pelo fato da maior nota possível a cada um ser 10, o que, apesar de certo estranhamento inicial, não obteve maior repercussão diante do espetáculo dos rodopios da jovem em questão.
Dá-se, então, que é preciso ter nas mangas não apenas abotoaduras mas, principalmente, uma receita. Simples que seja, como a obtida a duras penas por meu tataravô durante expedição às ilhas geladas da Rondívia, no século 18, e guardada debaixo de sete chaves no baú da memória da família e que será posta, na próxima quarta-feira, à disposição do mundo em nome da liberdade, da igualdade, da fraternidade e do bom andamento das relações entre os sexos e entre todos os povos.

(publicado originalmente em março/2008)



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2011-02-09T16:53:45.031-03:00

A primeira vez que chorei em ParisVamos pular etapas e chegar ao avião da Tap que sobrevoa o Atlântico a 11 mil metros de altitude. Estamos a noroeste da costa africana, é madrugada (ou seja, nem Deus, se existir, está enxergando alguma coisa) e é mais ou menos na direção de Cabo Verde ou coisa que o valha. E, acredite, nos fones de ouvido toca a Suíte Número 3 para Violoncelo, de Bach, e o avião balança muito, a ponto das belas e elegantíssimas aeroraparigas portuguesascomcerteza suspenderem o serviço de bordo (surpreendentemente bom, apesar das belas moças – bem, algumas nem tão moças nem belas, o que pouco importa - serem absolutamente sérias e pouco sorridentes) e se amarrarem com os cintos de segurança. A única coisa que pensei, numa frieza nunca dantes imaginada, foi que se tivesse de morrer em um acidente de avião que fosse, pelo menos, na volta. E que nada aconteceria porque, ora, aviões não caem quando se escuta a Suíte Número 3 para Violoncelo, de Bach.E estamos em Lisboa, e correndo para a fila da imigração para carimbar os passaportes. Não sei você, mas na fila eu ia ficando cada vez mais nervoso, com medo de alguma coisa dar errado. Sei lá. Implicarem com alguma coisa. Faltarem documentos. Algo, não sei o que. Mas estava tudo ordem. Um casal à nossa frente vai ao guichê. Ela, jeito de uns 40 anos, assim: vestido de onça; botas até os joelhos; absolutamente blondie; uma coisa de veludo (não sei como se chama) sobre os ombros. Ele: gringo, nem brasileiro, nem português (chute: italiano); pelo menos 60 anos; visivelemente nervoso. Ela fala com o agente da imigração algo como “mas nós nos casamos semana passada; vamos em lua de mel”. Retidos. Não embarcaram. Nossa vez. Tudo bem. Carimbo, um certo mau-humor do português. Aí, detector de metais e tal. Olha só o que acontece. “Tens notebook? Tire”. Tiro. “Remova a bateria”. Removo. “Câmera fotográfica”. Câmera. “Tire o cinto”. Tiro. “Tem um tubo na mochila. Abra”. Abro. “Perfume?”. Perfume. “Não passa”. Como assim, não passo? “Perfume. Líquido”. Mas está no limite. “Quanto tem aqui?”. Cem ml. “Como sabes que tem 100ml?”. Ora, está escrito. Silêncio. Observação acurada dos ml. “100 ml. Ok”. Ufa. Então outro diz: “Vocês vão pegar o vôo xxx para Paris?”. Sim, nós, e mais um monte de gente. “Não vão não. Está fechando”. Como é? E, olha. O aeroporto de Lisboa é enooooooooorme. O portão era o 26. Estávamos no portão 1. Vinte e seis portões de correria. Pior. Eu, sem cinto. Ela, correndo na frente. “Corre, corre!”. As calças caindo. Mochila na mão, cinto na outra, outra mala no ombro. Vinte e seis portões. As calças caindo. Pior. Sem roupas de baixo. Ué, queria ficar folgado, o que tem? Mas as calças caindo. “Portão 26, chegamos!”. Arf, arf... Pessoa no balcão: “Vão pegar o vôo xxx para Paris?”. Claro, porra! “Não vai dar. Já vão tirar as mangas”. Quem quer saber de mangas? Que merda de mangas? Correria, calças caindo, entramos no avião quase empurrando a nova aerorapariga. Umas 300 pessoas olham com cara de enfado as duas criaturas suadas e assustadas entrando. As calças caindo. O cinto em uma mão. Deu tudo certo.Uma hora e meia depois, Paris. Muito frio. Na van a caminho do hotel, uma guia brasileira e cerca de dez pessoas, nós inclusos. Todos os outros só perguntavam sobre compras, detaxe, lojas. Nós, mudos, só olhávamos um para o outro. Estamos em Paris. Eram 5 da tarde, fazia frio e escurecia. E nós, mudos e engasgados, olhávamos pela janela para a Paris que ia surgindo cada vez mais iluminada, e olhávamos um para o outro. Quem conseguia falar alguma coisa? Estamos em Paris. Em P-A-R-I-S. Lembro do meu avô e de mais um monte de gente. E vocês, nessa porra de van, calem a boca!Vocês não merecem estar aqui, consumistas burguesinhos do caralho! A van pára para deixar alguns deles em um hotel.[...]



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2011-02-09T15:12:54.210-03:00

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A título de informação

Talvez você ache um saco os posts que vou colocar, a partir de hoje, sobre Paris.
Talvez ache o autor, no caso eu, um deslumbradozinho, um intelectualzinho, um classemédiacontadordevantagensporquefoiaparisumaveznavida.
Talvez você deixe comentários críticos aí embaixo de vez em quando. Talvez você tenha ido e pensado “caramba, era só isso”?
De repente você detestou a comida.
De repente, sei lá, você simplesmente não achou a menor graça. Acho difícil, mas acontece.
Mas pode ser que você se identifique. E se arrepie, ou se emocione, ou chore, ou ria, ou sinta saudades daquela vez que você foi lá e passou três dias.
Pode ser que você lembre de como era viver em Paris quando você foi lá passar dois anos estudando. Pode ser que você ache graça de uma ou outra coisa fora de contexto, ou se sinta representado por esses posts de alguém que foi pela primeira vez
a Paris, sem ser rico, sem saber falar francês, sem fazer pose para colunas sociais e com grande possibilidade de passar perrengue em terras alheias.
Não sei o que você vai achar.
Sei que adiei ao máximo escrever esses posts, e cheguei a jurar que nem os faria. Era minha maneira de guardar, dentro de mim, os lugares, os sentimentos e alegrias e dúvidas, e risos e lágrimas. Pensei que só abriria esses sentimentos para esses que tiveram a oportunidade de ir lá e sentir o que senti. Tem gente que vai e não sente. Tem gente que vai e detesta. Tem gente que vai e morre de amores. Tem gente que vai e não volta. E tem gente que, como eu, vai e, de algum modo, mesmo que rode o mundo inteiro, nunca mais sai de lá.
Se sentir vontade, leia os posts. Você que conhece bem Paris, perdoe eventuais percepções distorcidas, releve algum momento deslumbradinho. Porque foi deslumbre, sim. Nunca um deslumbre cego. Mas um deslumbre de alguém que foi a um lugar onde sempre quis ir, mas que por quase 40 anos acreditou que nunca conseguiria.
Perdoe algum tom exageradamente condescendente, ou até mesmo delirante. Se puder, me ajude a compreender o que é Paris, e onde a Paris real se encontra com a minha Paris (todo mundo que vai passa a ter a “sua” Paris, já comprovei isso). Porque eu vi Paris nos livros, nos filmes, nas fotos, nos sonhos. E, um dia, vi Paris. Fui lá. Toquei nas paredes que antes eram devaneio, e elas existem. São reais. São de pedra. E agora são paredes-lembrança.
Sabe. Eu ainda estou lá. Voltei, mas até agora não saí de lá.
Espero que compreenda.
Foi só pra esclarecer.

*aproveito pra dizer que NÃO, NÃO será um "diário de viagem", apesar de, evidentemente, sê-lo;
**aproveito para dizer que TODAS as fotos publicadas aqui serão as que eu fiz lá, portanto não copie, não use, bláblábla;
***aproveito para pedir que você, tendo ido ou não a Paris, PARTICIPE, comente, opine, critique, sempre naquele nível a que as pessoas costumam dar o nome de "adequado";
****aproveito para dizer que faz (fazem?) 7 meses que não posto nada, e que agora, ahá, vai ter de me aturar.



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2010-07-13T16:15:52.671-03:00

Pelo bem do futebolA vitória da Espanha na Copa do Mundo é um alento. Em tempos onde praticamente todos os países abrem mão de suas características em nome de um pragmatismo que vinha dominando o cenário do futebol, é muito bom que o titulo de 2010 fique nas mãos de um time que joga não apenas um jogo dentro de seu estilo, mas vistoso, com toque de bola, com dribles, com um tipo de emoção que vai além da ?garra? e da força: vem com isso, também, a tal da força. Mas com habilidade e uma certa sensibilidade. A Holanda da África do Sul foi uma espécie de seleção do Dunga que deu certo. Ou quase deu certo. Talvez a melhor definição tenha vindo de Paulo Vinícius Coelho, o PVC: a antiga seleção do futebol total veio disputar o título jogando o anti-futebol total. Um jogo duro, jogado com aquela palavrinha que assusta qualquer um que tenha ainda alguma crença no humanismo: foco. O jogo da Holanda era focado na força, na destruição das jogadas, e cuja maior diferença da seleção dunguista era a presença de dois bons jogadores, em forma e relativamente habilidosos: Sneijder e Robben. E ainda tem um certo Van Bommel, uma espécie de Felipe Melo loiro. Muito pouco para quem já teve Cruyjff, Resembrink e tantos outros.> Para os que dizem que a Espanha é um time de poucos gols, há que se lembrar que em praticamente todos os jogos o time espanhol jogou com um esquema que tinha prioridade na posse de bola, no toque elegante, na troca de passes, e na habilidade de jogadores como Iniesta, Xavi, Villa. Sem deixar de lado a tal da raça, sim, porque quando a habilidade não basta é preciso mesmo um pouco de força. Mas uma força que não é a força bruta e, sim, a força da determinação. Puyol, é o símbolo desse jogador que se não prima pela técnica apurada tem a tal raça, mas jogando limpo, bonito, dando gosto de se ver. Os poucos gols não retrataram a beleza de seu jogo. Mas mostrou que havia equilibrio no time. Fez poucos gols, levou menos ainda. Mas, nunca, abriu mão de jogar para a frente.Há muito tempo uma seleção com essas características não era campeã. O Brasil em 94 foi campeão na base da força, com a diferença que tinha um gênio em campo, o baixinho Romário. Em 98, a França também não jogava com tanta habilidade, mas tinha outro gênio: Zinedine Zidane. Em 2002, de novo a Seleção Brasileira dura, mas com dois craques: Ronaldo e Rivaldo. Em 2006 a feia Itália, marcada pela brutalidade de Matterazzi. Ou seja: há tempos, bastante tempo, criou-se a impressão de que o futebol bonito não ganha mais nada. Idiotas da objetividade, morram com essa.Para o futebol brasileiro, fica a lição espanhola. Um país que cuida de suas categorias de base, que organiza seu campeonato e sua seleção com cuidado, com critério. Um futebol que é rico, mas não é rico por acaso. É rico pela competência de seus dirigentes, e que sabe explorar, no melhor sentido da palavra, o talento de seus jogadores, mesclados com talentos que são adquiridos em outros países e que elevam a qualidade de seus jogadores, coisa que não acontece, por exemplo, na Itália. Para o futebol brasileiro, a lição de que não é preciso abrir mão de suas características, que não é preciso enclausurar seus jogadores em monastérios ou quartéis fechados. Não é preciso ser mal-educado, grosseiro, nem é preciso ter guerreiros em campo. É preciso ter craques. Para vencer no futebol, é preciso ter jogadores, esquemas táticos, técnica, habilidade.Acabou a Copa do Mundo, e o privilégio da África do Sul é grande. Por ter possibilitado ao futebol bonito, bem jogado, renascer. A Copa de 2010, espero, será marcada pelo renascimento da arte no futebol.O futebol do Brasil, agora, tem quatro anos para balançar sua estrutura mofada, suas convicções mesquinhas e reconstruir, no imaginário, aquilo que se perdeu. Com a consciência de que já fa[...]



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2010-07-08T14:35:23.290-03:00

A banalidade do mal é uma expressão de Hannah Arendt, usada em seu livro “Eichmann em Jerusalém”. Arendt faz uma análise de Adolf Eichmann, braço direito de Hitler. Ela mostra que Eichmann não apresentava características que o enquadrassem como doentio, perverso, monstruoso. Ao contrário. Um dos grandes assassinos da história se mostrava funcionário cioso, eficiente, que obedecia, sem questionar, às ordens superiores. O que movia Eichmann era um sentimento de hierarquia burocrática, e o pronto atendimento às ordens era a forma de possibilitar sua ascenção dentro dessa hierarquia. Não havia para ele bem e mal. Considerado um monstro, ele não tinha histórico significativo de traumas ou desvios emocionais. Eichmann era, em tudo, dentro dos padrões.
E então Hannah Arendt mostra que alguns indivíduos agem dentro do sistema em que vivem movidos pelas regras consolidadas dentro desse sistema. O código interno do sistema reduz a percepção individual de bem ou mal, de certo ou errado, de moral ou imoral. Então chegamos ao caso de Eliza Samudio. E então chegamos a algumas questões. Será que o crime aparentemente cometido por um grupo de pessoas, entre eles um atleta famoso, foi cometido por monstros desprovidos de sanidade? Dentro de que sistema de valores eles agem? Porque eles julgam legítimo matar uma pessoa e, com tanta frieza, “resolver o caso” com algo tão horroroso?
Vale a pena pensar um pouco mais sobre isso. Vale a pena pensar se não estamos, todos, construindo um sistema que de alguma maneira legitima comportamentos como o dos assassinos de Eliza, os assassinos de Isabella, os assassinos de João Hélio. É fácil cair na tentação de explicações que, no fim das contas, servem mais de escapismo que de compromisso. Nem todo criminoso é monstro. Nem todo criminoso é doentio. Não é verdade que a pobreza ou a infância sofrida sejam determinantes exclusivas de padrões de comportamento criminosos. A coisa pode ir muito além disso. Mas estamos sempre acreditando que o mal é praticado por bandidos desprovidos de alma, por gente doentia. É mais fácil acreditar que alguém que comete um crime pavoroso seja alguém fora das convenções sociais do que perceber que esse monstro foi concebido dentro das normas estabelecidas por nós mesmos, ou por nossos pares, ou por nossos líderes, ou por nossos ídolos. É mais prático, mais cômodo. Mais simples. Gera menos esforço.
Outra coisa. Atitudes pequenas podem ajudar. Não custa nada pensar, por exemplo, se postar no twitter piadinhas a respeito do caso não nos torna cúmplices deste e dos próximos crimes. Porque a piadinha banaliza a crueldade do ato. A piadinha é quase um álibi que nos coloca em outro lugar no aspecto psicológico, distante do ato em si. Quanto mais distante, mais próximos de nós. Pule a piadinha. Ela é inútil. Ela é tola.
E Hannah Arendt foi tão clara. É tão necessário estarmos atentos à banalidade de atos do mal e evitar sua ocorrência. Tão necessário.



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2010-06-18T11:07:26.322-03:00

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2010-06-05T11:28:40.832-03:00

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"Queridos fotografos Dieci!!!!
Hoje é a abertura da mostra, fizemos a montagem ontem e as fotos ja foram vistas por um monte de gente porque aconteceu uma festa no local.
Ficou tudo muito bonito.
Vamos torcer para ir um mundaréu de pessoas e que tudo seja vendido!!!!
um beijo grande a todos
Paula França e Paolo Vitale

www.fotografosnapoli.blogspot.com
PS.
Fomos noticiados em varios jornais daqui.
"



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2010-06-04T11:43:41.614-03:00

Sobre a utilidade das inutilidades

Há quem diga da poesia: uma inutilidade. Que bobagem. Inútil, na verdade, é acreditar na utilidade de um mundo sem poesia.
Que utilidade teria um mundo absolutamente pragmático, positivo, incontestável, absolutamente concreto e centrado no indelirável? Que utilidade pode haver não apenas em um mundo, mas em qualquer coisa cuja única função seja ser útil? As coisas podem ser, sim, práticas e próprias para utilização em benefício da materialidade humana. Mas, porque não podem ser poéticas? E não é isso, um pouco de poesia no duro mundo do concreto, a existência de tantas curvas em Niemayer? E não seria por isso que, no exercício diário da sobrevivência, o gari samba ou valsa ou tangueia, flanando pelo palco de asfalto abraçado à vassoura em total concubinato com a fantasia, prima-irmã da poesia?
Não é necessário ser um erudito. Não é preciso saber de anapestos, eneassílabos, heterométricos, redondilhas menores nem alexandrinos. Nem é assim tão importante que você escreva alguma. Quase uma heresia, vamos ao extremo de que talvez nem seja necessário que você leia nada. Veja bem. Eu disse talvez. O que não significa nada. A não ser que é possível ver, sentir, admirar a poesia simplesmente abrindo os olhos. Ou fechando. Abrindo os olhos para o que existe além de cada objeto. Fechando os olhos para o que os xiitas racionalistas insistem em colocar por sobre a imanente poesia das coisas. Porque cada coisa guarda, em si mesma, a poesia. Porque tudo é metáfora, mesmo que você não saiba nem o que é metáfora ou, sabendo, assim não o queira. Porque uma cadeira nunca é uma cadeira. Uma cadeira é a metáfora que usamos, na concretude, para descanso. E lembro de Rubem Alves, que com sua pedagogia dos sentidos nos ensina que nosso corpo carrega pela vida duas caixas: uma, a caixa das ferramentas, a caixa das coisas que precisamos para viver. Outra, a caixa dos brinquedos, aquelas coisas inúteis das quais não necessitamos para viver, mas que são imprescindíveis para sermos felizes. É nessa segunda caixa que estão as bolas de meia, os abraços dos avós, o por do sol com os pés na areia e o rodopiar bêbado ao som de uma música qualquer. É nessa segunda caixa que está Cortazar, que nos ensina de forma absolutamente inútil e, por isso mesmo, imprescindível para sermos completos como seres humanos, como pousar tigres na mesa de jantar.
O mundo, caros e caras, talvez seja uma grande inutilidade. Quem sabe sejamos todos pequenas peças inúteis em um grande sistema caoticamente ordenado que tem a mesma utilidade de uma folha de bananeira que balança ao vento. Não nos iludamos com o que é definitivo, palpável, absolutamente racional. A razão está mais próxima da imaginação do que a certeza está próxima da verdade. Não custa nada obter, por exemplo, a sabedoria vegetal. Aquela, de Manoel de Barros, a sabedoria que recebe com naturalidade uma rã no talo.
Existe, diga, algo mais útil do que isso?



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2010-04-17T00:25:17.470-03:00

Não queria que esse fosse um post de um hetero sobre um livro com “temática homo”. Mas, porém. Ele é. Veja aí a primeira frase:“temática homo”. Por mais que me esforce, meu olhar sobre Maurice é um olhar de hetero. Um olhar “de fora”. Sujeito a distorções e a não percepção de nuances que não fazem parte do meu arcabouço imaginário. Mas enfim, aí vamos nós. Vou correr o risco.
Tento imaginar como é gostar de alguém e não poder dar a mão na rua, não poder dizer que ama, não poder ir ao cinema, ao restaurante, à academia, ao clube, ao jogo de futebol, à balada. Tento imaginar olhares lançados sendo interrompidos pelo medo do desprezo, e, pior: tento sentir os olhares de desprezo. Imagino como é sentir amor, sentir tesão, sentir desejo, e ser obrigado a usar em todas as relações uma régua onde cada centímetro vale um quilômetro. A distância que separa as possibilidades de concretização tendem a ser maiores, já que a trena da moral tem marcações muito mais largas quando se está fora da norma. As normas. Os códigos.
Maurice por muito tempo parece confuso. Mas a confusão maior está em Clive. Porque Maurice permanece em conflito. Clive é a desistência. Maurice está em conflito, Clive entra na conformidade. Gosto de pensar que a confusão está, na verdade, no gesto de se conformar. O conflito não é confusão. O conflito é a busca e, se se está em busca, qual é mesmo a confusão? A conformidade é a aceitação de que a confusão está instalada e é melhor deixá-la ali escondidinha, já que o eu-social quer sempre o não-conflito.
Mas percebi em Clive e Maurice alguma coisa que pode ser transposta para qualquer relacionamento. O eterno jogo do perde-e-ganha. O eterno descompasso, mesmo entre os aparentemente afinados. Nas relações hetero, que não são livres de preconceitos – negro-branco, gordo-magro, jovem-velho, rico-pobre - o descompasso acaba fazendo um vencedor aos olhos de quem questiona. A diferença é que Maurice e Clive e quase todo mundo que vive os dilemas particulares de Maurice e Clive são obrigados a fazer do eu-social algo que mata o eu-eu, e isso faz dessas relações, na verdade, um jogo de perde-e-perde. Não há empate. E não há vencedores. Há perdedores, sempre. Porque a moral vigente esmaga as vitórias conquistadas mesmo em ambientes livres, os não-lugares que alguém já citou aqui. Porque o não-lugar é sempre menor que o lugar. A moral derrota em cada olhar de reprovação lançado sobre os envolvidos. Em cada riso disfarçado. Em cada toque de mão evitado, em cada piada sobre a parada gay.
Então, consegui ver em Maurice um pouco do que é viver isso. Um pouco. Uma pequena amostra. Do que é a angústia, a solidão, o sentimento de inadequação, a luta permanente do eu-eu contra o eu-social. Que normalmente vence, seja em qual for o tipo de relação. O eu-eu de Clive perdeu a luta para o eu-social. A família, a moral vigente, a posição na sociedade. São forças extremamente poderosas, e não é qualquer Clive que as supera.
E Clives existem aos montes por aí.
Sim, tem Scudder. Mas isso é para outro post.


(post para o blog Mauricedades - http://mauricidades.blogspot.com/)



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2010-03-25T08:53:12.645-03:00

(image)
(foto: André Gonçalves)



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2010-03-09T15:50:34.692-03:00

(image)



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2010-02-25T00:54:15.406-03:00

Querido Diário

Meu dia hoje foi bastante movimentado.
Pra começar, soprei uma nuvem que ficava em cima da minha cama.
Era uma nuvem preta, com cheiro de cachorro molhado, e que tinha uns olhões, assim, bem grandes, que olhavam pra mim e me faziam ficar espremidinho no meu travesseiro, com as pernas encolhidas e o dedão na boca e os pés gelados e um bolo de cabelo agarrado dentro do estômago. Mas eu lembrei do meu avô e resolvi ser corajoso como ele, e enchi o peito e dei um sopro bem forte nela, a nuvem preta, mas um sopro bem forte, bem forte, aí a nuvem preta arregalou os olhos e tentou gritar alguma coisa, mas ela só tinha olhos e não tinha boca. Aí ela se espichou, como se fosse de borracha e quisesse tentar segurar na cabeceira da minha cama, mas aí eu fiz mais força e soprei mais forte, aí ela não agüentou e, de olhões arregalados, ela foi espichando, espichando, espichando até ficar bem fininha, aí de repente voou todinha embolotada e bateu no vidro da janela e virou água, e escorreu pela parede e o meu quarto começou a ter cheiro de lençol limpo e desinfetante no chão.
O engraçado, Querido Diário, é que os olhões da nuvem preta ficaram grudados na janela, e de vez em quando eu olho pra eles e eles estão olhando pra mim, mas de repente uma lágrima escorre de um dos olhos e, quando eu vejo, os olhos da nuvem preta estão cinza. E eles não param de olhar lá pra fora, acho que os olhões estão esperando alguém que, tomara, chegue logo, porque eu não vou conseguir olhar por muito tempo os olhões cinza da nuvem preta sem ter vontade de contar pra eles as coisas que eu aprendi na escolinha de milk-shake da tia Lourdes. Agora deixa eu terminar porque lá fora tá fazendo sol, e eu preciso catar umas estrelinhas pra colocar no envelope e mandar pra ***, que eu prometi a ela ontem que ia dar o céu pra ela, e preciso começar a cumprir minhas promessas antes que volte a chover.

(publicado originalmente no blog Dois Dedos na Garganta/2009)



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2010-02-23T17:01:55.477-03:00

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2010-02-11T10:54:17.936-03:00

Coisas de Amor Largadas na Noite está disponível para download gratuito no site da Editora do Bispo (a editora mais charmosa do Brasil).
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2010-02-11T10:48:45.997-03:00

Je. veux. que. le. temps. passe. bien. lentement. spécialement. quand. je. t'embrasserai. quand. je. te. regarderai. quand. je. te. toucherai. quand. tu. auras. ce. petit. parfum. de. savon. apres. le. bain. quand. tu. auras. ce. parfum. de. paix. apres. le. sexe. quand. tu. auras. cette. luminosité. dans. tes. yeux. quand. je. dis. je. t'aime. je. veux. que. cette. année. passe. bien. lentement. parce. que. je. veux. profiter. de. chaque. minute. avec. toi. souvenir. de. chaque. mot. que. tu. diras. chaque. folie. chaque. peché. que. je. voudrais. commetre. je. veux. entendre. chaque. fois. que. ton. coeur. battera. je. veux. etre. a. cote. a. chaque. fois. que. tu. respireras. je. veux. que. la. vie. passe. bien. bien. bien. lentement. parce. que. c'etait. tant. tant. tant. de. temps. sans. t'avoir. que. maintenant. je. veux. que. le. temps. s'arrete. que. le. monde. s'arrete. que. tout. absolument. tout. s'arrete. pendant. que. nous. on. marche. comme. qui. marche. dans. une. fabrique. de. chocolats. que. on. court. comme. qui. court. dans. une. pub. pour. le. beurre. que. on. dorme. comme. qui. dort. dans. un. livre. pour. enfants. je. veux. que. le. temps. s'arrete. mais. ce. que. je. ressens. pour. toi. n'en. finisse. pas. c'est. pour. ça. arrete. temps. arrete. monde. arrete. les. gens. de. penser. et. de. penser. que. les. horloges. ont. besoin. de. continuer. que. the. show. must. go. on. que. money. makes. the. world. go. around. que. it's. a. long. way. to. Tiperary. car. il. se. peut. que. tout. ça. soit. vrai. et. que. je. sois. en. train. de. devenir. fou. mais. tout. ce. que. je. veux. vraiment. c'est. que. le. jour. le. mois. l'année. passe. bien. bien. bien. lentement. et. je. jure. si. ça. depend. de. moi. ça. arrivera. le. monde. s'arretera. pour. de. bon. pour. que. jamais. jamais. jamais. meme. un. seul. jour. j'aie. le. besoin. d'etre. loin. encore. loin. de. toi.
(tradução para o francês de Janine Botelho)



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2010-01-30T19:03:34.207-03:00

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2010-01-28T15:58:07.693-03:00

(image) (foto: André Gonçalves)
* +fotos em www.intactaretina.blogspot.com



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2010-01-25T17:02:41.456-03:00

Sobre "Lula, o Filho do Brasil" (terceira e última parte)É impossível afirmar que “Lula, O Filho do Brasil” seja um filme apolítico. Por várias razões.A mais óbvia é a de que é um filme que “conta” a trajetória de um cidadão que se torna presidente da República e está em pleno exercício de seu mandato. O filme É sobre a vida do Presidente da República. E isto já faz, dele, um filme político. Se Lula está na Presidência e tem possibilidades de, em cargo público, interferir em um processo eleitoral, um filme que conta sua vida é instrumento político.Outra razão está no próprio filme, que mostra a trajetória de Lula como sindicalista. Ora, o movimento sindical é um movimento eminentemente político. Se Lula existe no filme como líder sindical que “enfrenta” (enfrenta?) os patrões e a ditadura militar, o filme se torna político. Se Lula aparece em um estádio com cem mil trabalhadores à sua volta gritando palavras de ordem, o filme tem os dois pés no político. O filme sobre Lula só faz sentido tendo em perspectiva a história completa: o menino pobre que sai do sertão nordestino, é líder sindical e chega à Presidência. Não há outra história. Não é um filme sobre Lindu. Não é um filme sobre retirantes. Não é sobre os amores de um homem. É um filme sobre Lula. E Lula só é Lula por sua atuação como sindicalista e homem público. Portanto, o filme só existe pela existência do Lula político. Sim, não há menção ao Lula homem público, com cargo eletivo. E talvez seja essa a principal razão para “Lula, O Filho do Brasil” ser um filme político: seu aparente apolitismo. Um apolitismo cínico. A tentativa de despolitizar Lula é um gesto absolutamente político. A despolitização de Lula serve como tentativa de pacificação de tensões políticas, justificando atos presentes e reinterpretando gestos passados. Tranqüiliza os conservadores e neutraliza e deslegitima os movimentos sociais. Na negação veemente do comunismo pelo personagem Lula está embutida mensagem cara às alas conservadoras da política brasileira: comunistas e movimentos sociais são “inimigos internos”, baderneiros, “esquerda raivosa” e agentes do medo. O “sapo barbudo” é reenquadrado historicamente, e percebido sob a ótica de agente conciliador entre os interesses das classes conservadoras e dos trabalhadores. E não de uma eterna ameaça ao sistema. Há ainda a omissão da fundação do Partido dos Trabalhadores, que aconteceu dentro do período compreendido pelo filme: é a omissão das denúncias e os erros atribuídos ao partido. Lula, sem o PT, é um Lula acima de questões partidárias, um Lula suprapartidário, higienizado, barbeado, perfumado, limpo, puro, o que pode abrir leques de acordos políticos futuros e justificar o abraço dado pela esquerda brasileira no conservadorismo. Já a afirmação de Lula de que não é preciso enfrentar os patrões porque “são eles que pagam nossos salários”, além de vergonhosa e de beirar o patético, transforma o sindicalismo, as organizações sociais e seus assemelhados em movimentos menores, anacrônicos, ultrapassados. E que é ele, o Lula sem bandeiras a não ser a bandeira branca do estadista, o justo, o “cara” ideal para negociar os direitos dos trabalhadores juntos aos patrões gente-muito-boa. Todas essas tentativas de despolitizar Lula, de trazê-lo para o centro, de inseri-lo no senso comum, são atos políticos. Não há ingênuos ao redor de Lula. Nunca houve no B[...]



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2010-01-08T11:46:44.472-03:00

Sobre Lula, O Filho do Brasil - parte II

Impressiona em “Lula, o Filho do Brasil” o uso de recursos os mais batidos para emocionar o espectador médio. Impressiona, inclusive, pela incompetência. Qualquer um que tenha visto qualquer novela reconhece seus truques.
Dona Lindú, mãe de sete filhos, abandonada pelo marido no sertão mais pobre do Brasil, levantando o recém-nascido Lula (o oitavo filho) e dizendo “você vai se chamar Luís Inácio”. A seqüência da morte de Lurdes e do bebê é um desperdício da carga dramática de uma situação como essa. A sequência onde Lula vai ao cemitério se despedir de Maria de Lurdes e diz: “era um menino” é um acinte. E nem mesmo a que mostra como Lula, fazendo hora extra no trabalho e, por cansaço e excesso de dedicação, se acidenta e perde o dedo, consegue ser convincente. Manipulada com inabilidade extrema, o que se perde nessa seqüência é a possibilidade de transmitir dor, desespero, sofrimento, como deve realmente ter acontecido. E fica um gostinho de tentativa de se martirizar o acidentado.
Outro ponto marcante em “Lula, o Filho do Brasil” é a situação da mulher. Existem basicamente quatro mulheres presentes na trama. Dona Lindú, nitidamente colocada como a mãe protetora, acolhedora, compreensiva, lutadora e forte, com a sabedoria de quem sofre com a pobreza mas percebe a grandeza do mundo. Há algo de Nossa Senhora em Dona Lindú. Há, mesmo, durante a seqüência do enterro de Dona Lindú, um flashback de Lula onde as imagens remetem claramente à Pietá, acolhendo em seu peito o filho sofredor.
Há também Maria de Lourdes, primeira mulher de Lula e que morreu no parto. Cuja únicas aparições são na primeira paquera, no momento do pedido de casamento, na lua de mel e em um, digamos, momento “pré-sexo-selvagem” na laje da casa nova, enquanto ela lava roupa. E, claro, na seqüência do parto que termina com a morte de Maria de Lurdes e o filho.
Outra mulher muito presente é Marisa Letícia. A hoje Primeira Dama é retratada como mulher forte, “viúva que cria o filho sozinha”. Sozinha, mas morando com os pais. E, depois, ela só aparece aplaudindo o marido no Sindicato, e de mãos dadas com ele no enterro de Dona Lindú. Ou pouco mais que isso.
Da quarta mulher não se diz o nome. Mas Lula, ainda jovem e solteiro, dança com ela na noite, em um bar ou algo que o valha. Com direito às piadinhas normais de qualquer homem solteiro. No mais, aparecem de relance a irmã de Lula e mais uma ou duas mulheres, como a professora dele. E só.
De resto, não há em quase duas horas de filme uma mulher retratada de maneira diferente do clichê. Parece que na vida do homem Lula nunca houve uma mulher fora dos perfis “mãe/dona de casa/ professora primária/mulher pra casar/mulher pra dançar na noite”.

* aguente firme: no próximo post, o trecho final da série sobre "Lula, O Filho do Brasil"



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2010-01-06T10:50:24.394-03:00

“Toda vez em que penso na minha vida política, penso no Partido dos Trabalhadores, que foi a minha primeira e única experiência de vida partidária”.

Esta frase é de Lula, em 2000, no texto “PT:20 Anos de Cidadania”, que está publicado no portal da Fundação Perseu Abramo (link no final do post).
Logo abaixo, outra afirmação: “Ajudei a fundar o PT com o objetivo de criar uma alternativa concreta de cidadania para milhões de trabalhadores brasileiros. E para mudar o Brasil. Fiz isso juntamente com outros sindicalistas, intelectuais, políticos e representantes de movimentos sociais, lideranças rurais e religiosas”.
Um dos fatos que mais me chamaram a atenção em “Lula, o Filho do Brasil” foi a omissão do momento da fundação do Partido dos Trabalhadores por Lula e outros brasileiros ilustres. Em nenhum momento é citado o desejo de se criar um partido de defesa dos trabalhadores. Nem mesmo de passagem. Não é possível afirmar que essa ausência pode ser explicada pelo fato de o filme se localizar em um período anterior a esse momento. O filme mostra a prisão de Lula, a morte de Dona Lindú, a ida de Lula ao enterro da mãe. E, por sinal, termina aí. Era maio de 1980. O PT foi fundado por Lula antes disso. A primeira reunião histórica do PT aconteceu em 10 de fevereiro de 1980, no Colégio Sion, em São Paulo. Lula já falava do PT em 1978. Mas não há absolutamente nenhuma referência ao partido, ou à intenção de que ele fosse criado. Visivelmente, e sabe-se lá porque, o Partido dos Trabalhadores foi omitido do filme que conta a história de Lula. Só por isso já é possível fazer uma severa crítica a ele (ele, o filme), supostamente biográfico. Mas pode-se fazer outras.
Por exemplo, a ausência de referências a Lurian, nascida em 1974, antes de seu casamento com Marisa Letícia. Portanto, dentro do período compreendido pelo filme. São um romance e uma filha já assumidos por Lula, que causaram toda aquela celeuma com a baixaria de Fernando Collor nas eleições de 1989 mas que, hoje, não representam nada demais. Mais ausências? Aonde estão os intelectuais que também fundaram o PT e tiveram participação decisiva na carreira do político Lula? Antônio Cândido, Frei Betto, Mário Pedrosa, Moacir Gadoti, Lélia Abramo, Sérgio Buarque de Holanda, Apolônio de Carvalho? A única vez, no filme, em que se faz referência a qualquer intelectual é em uma cena onde Lula afirma: “até que para sociólogos vocês são bons desenhistas”. Ou seja: de certa maneira, há aí algo de preconceito. Ou de manifestação de um “viés” populista, buscando afastar do metalúrgico Lula qualquer possibilidade de aproximação com uma ideologia de origem esquerdista clássica. Aliás, não há, em todo o filme, qualquer traço de posição ideológica do político Lula. Ou há: por duas vezes, em situações distintas, ele repete: “Não sou comunista”.
Muito pouco para a biografia do maior líder sindical do Brasil e maior símbolo da esquerda brasileira.

* esse post continua amanhã
** texto de Lula no Portal da Fundação Perseu Abramo



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2009-12-11T10:58:48.528-03:00

das cores
perceba: de cada cor emana um cheiro. verde, por exemplo, cheira a viagem de carro. azul tem cheiro de tranquilidade. o amarelo tem um cheiro inconfundível de vento de praia. e o vermelho? o vermelho, assim o dizem, tem cheiro de coração.



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2009-12-07T17:32:35.121-03:00

Libertadores Quae Sera Tamen.