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polegadas





Updated: 2015-09-17T10:57:23.487+01:00

 



serenidade

2011-12-26T19:58:44.324+00:00

é tão estranha, esta sensação de uma corrente eléctrica e permanente funcionamento debaixo da pele, este formigueiro e ao mesmo tempo um medo que paralisa, que encolhe. o coração desnorteado e a vida em câmara lenta, demasiado rápida para absorver. os dias assim passam sem que lhes toque, agarrada a mim com medo de me perder.
agora sei de onde vem isto, sei ao que vem. é um aviso, para ter medo porque posso esquecer-me.
ainda não aprendi o faço para que se vá embora, para que sossegue porque não me esqueci. ainda não me sei confortar. respiro pela serenidade que - sei - virá. entretanto tenho de aguentar, deixar fluir. porque sei que não vai acontecer nada de mau. é só a menina pequenina a lembrar-me de tomar conta de mim.




o novo caminho

2011-04-15T19:56:47.470+01:00

há o meu jardim da árvore gigante, debaixo da qual leio a peça.
há uma boutique pequenina com os meus sapatos.
há uma loja com lápis de cera daqueles que comíamos em miúdos.
há um prédio que é só uma fachada.
há um cão preto e branco que dorme toda a tarde dentro do talho.
há um homem vestido de fraque, com laço preto, no meio da rua a meio da tarde no meio de turistas de calções e bonés e túnicas floridas.
há um  tipo que grita com o mundo enquanto mija na calçada.
há um cheiro a fruta quente, apesar disso.
há uma velha de peruca da cor da bengala de madeira avermelhada.
há um sol de frente que se apaga quando viro a esquina.
há a Mitó nos ouvidos a emprestar-me sentidos.
há uma corrente de ar sempre presente. agora é quente.



porquê? por causa das venetas

2011-03-09T15:48:22.742+00:00

eu estou a recibos verdes. dos verdadeiros, em 70% das situações.o que é que estar a recibos verdes implica?implica tão somente estar à mercê de venetas. a veneta consiste de várias sub-venetas, uma delas é o "nós pagamos este serviço com este valor e pronto, se não quer, há-de haver quem queira".pode ser um "afinal não me apetece trabalhar mais com esta pessoa". e eu não sei de nada, nem sou informada, quanto mais consultada na decisão para tentar negociar, simplesmente de repente não tenho dinheiro para comer.pode ser também o "nós pagamos a 90 dias a partir de uma data que não lhe vamos transmitir. logo mandamos um e-mail e depois logo vê quanto tem a receber". e ai de quem telefone a perguntar para quando está previsto... pode ser que deixe de trabalhar ali...até pode implicar "entrega o seu recibo verde semanas antes de nós procedermos à transferência sob pena de, se não o fizer, não recebe e deixa de trabalhar connosco".depois há o "agora os valores mudaram e não temos nada que avisar ninguém".ou até mesmo "resolvemos 'castigá-lo' por dá cá aquela palha e o valor acordado - verbalmente, claro - foi à vida".e a clássica, a veneta da insistência de não pagar o verdadeiro recibo verde pelo que é, a intermitência. de um serviço especializado.estas venetas, "house rules", fazem com que, na prática, se mantenha uma actividade aberta em meses em que afinal não temos nada a receber, ou, surpresa, uns 20 euros. mas andamos nesses meses a trabalhar para meses futuros, sem vida para estar nas filas da loja do cidadão das 9 às 5 a corrigir burocracia.também fazem com que as empresas, quando resolvem fazer acertos no fim do ano para fugirem aos impostos do que aí vem, resolvam pagar tudo de uma vez. sim, faz falta para o Natal, mas é capaz de lixar o IVA de um momento para o outro.fazem com que o brio profissional seja visto como uma mania.fazem com que passemos meses a trabalhar antes de vermos sequer o primeiro pagamento.fazem com que de repente nos vejamos sem nada.fazem com que não possamos contar com nada.fazem, sim, com que adiemos filhos. e casas melhores. e - para os mais precavidos como eu - consumos mais altos sem ter o dinheiro-todo-líquido na mão. fazem com que se evite todo o tipo de prestação. e com que se evite todo o tipo de pequeno prazer porque esse dinheiro pode fazer falta para qualquer coisa daqui a bocado. quanto mais o futuro.e depois há o pequeno problema de metade do que ganhamos ser completa e imediatamente tragado pelo "Sistema", apesar de em troca não termos direito a nada.nem sequer contamos para um qualquer censo de desemprego quando estamos "entre projectos".e sim, temos de fazer sacrifícios, mas então e todas as despesas não contabilizadas não são já sacrifícios? porque o que o IRS pressupõe que usamos para despesas não está lá muito perto da verdade... a prestação e manutenção do carro, a gasolina, estacionamento e as portagens diárias (porque o meu país chutou-me para o subúrbio em prol de uma cidade de fachadas ocas e morta às 7 da tarde, e não me dá transportes que me permitam andar a correr de estaminé em estaminé em tempo útil - que muitas vezes se estende noite dentro), as refeições fora num algures indeterminado, as chamadas telefónicas para marcar remarcar e desmarcar, a internet para gerir todas as burocracias, as pesquisas, as organizações da vida, e, pois, as águas, vitaminas e quejandos suplementos que me mantêm funcional porque tenho de trabalhar doente, até mesmo certos tratamentos que são considerados luxo e não medicina mas de que necessito para manter a minha actividade, sem falar na formação que não conta para descontos, ou nos cafés para me manter acordada nos dias de 14 horas, os livros para estudar o próximo trabalho... não são 30% do meu rendimento.não, são investimentos da minha parte na produtividade nacional, a cada moeda de 50 cêntimos.no fundo, é outra veneta, a tabelação dos impostos: fomos todos tabelados pelos "[...]



parte um

2011-02-15T18:58:52.744+00:00

isto de ter brio no que se faz é simples.
isto de se tentar fazer o melhor que se sabe e pode, mesmo quando o corpo não colabora, quando a voz se gastou, quando tudo dói e nem conseguimos destrinçar as sílabas, é uma segunda natureza.
isto de se tentar resolver na hora para evitar problemas, mesmo quando não é do nosso departamento, de se esticar horários para lá do suportável, de se ir a correr entre capelinhas, de se galgar os quatro cantos da cidade - e mais além - só para conseguir corresponder ao que se pede, de se engolir sapos para não criar fricções. é tudo normal.
está aqui para se fazer? faz-se. há um problema? dá-se a volta.
é assim que tem de ser.

é tudo o que se tem, quando se depende dos olhos dos outros para conseguir mais trabalho.
é tudo o que se tem, quando antes de deitar levantamos a cabeça perante o espelho.

e quando tudo o que temos é a noção de que não tememos porque não devemos, é inadmissível descobrir que afinal alguém minou por qualquer mesquinhez todo o mundo e conceito que tanto suor custa diariamente para construir, manter, acarinhar, andar de queixo erguido.
quando alguém, por capricho, ímpeto ou medo de qualquer coisa não se apercebeu que comprometeu mais que um nome numa tabela, comprometeu uma pessoa, uma integridade, um sustento, uma família.

e descobrir que apesar de todas as provas provadas, quem devia saber melhor não levantou a sobrancelha para desconfiar de uma precipitação qualquer, nem sequer questionou se seria bem assim, não quis saber o suficiente para apenas perguntar se não era só um engano. um julgamento de carácter tem consequências um bocadinho para lá do despeito. o respeito demora demasiado a construir-se para ser arrasado assim por uns terceiros quaisquer, por um dá cá aquela palha, sem ouvir, considerar, ponderar.

assim se arrasta no chão um corpo de trabalho.
um corpo de vida que tanto dói a criar diariamente.

há quem desista porque não vale a pena.
se de cada vez que não vale a pena eu desistisse, neste momento não estaria aqui.

nada me vem de mão beijada, e o Murphy é a minha sombra. mas ainda acredito que nem tudo tem de correr mal sempre aos mesmos. por isso sei que esta é só a primeira parte.



Um, Ninguém e Cem Mil ou carta a Virgílio Castelo

2011-01-31T00:35:24.318+00:00

caro Virgílio:

venho apenas, deste cantinho obscuro cá muito em baixo, ter o desplante de lhe dar um conselho:
pegue no maravilhoso monólogo de Pirandello, na sua total entrega apaixonada a um personagem que tornou coeso, divertido, triste e fascinante do princípio ao fim, e fuja.

fuja da encenação tristemente pretensiosa [a "arte" forçada, o medo do simples], do ciclorama de projecções mal amanhadas e que são apenas barulho de fundo, da música incongruente que abafa a sua voz e inutiliza qualquer presença de um violoncelo em palco - pancadinhas esporádicas não contam -, do desenho de luz notoriamente improvisado e que o põe a correr desnecessariamente entre pontos tão díspares, que lhe apaga qualquer expressão com sombras e lhe corta a dinâmica com luzes que não acendem a tempo. fuja de roupas e adereços que pouca ou nenhuma falta fazem na história que nos conta. e fuja da incompetência de um teatro impessoal abandonado há demasiado tempo pelas pessoas que faziam dele um teatro.

fuja para uma sala pequena, intimista, traduza o texto para português de Portugal, e faça este monólogo para pequenas plateias que lhe leiam o rosto como merece, durante muitos e longos meses.

mas isto sou eu...

atenciosamente
Polegar



os dedos de uma mão

2010-11-16T19:02:07.469+00:00

feitas as contas, o que são. quantos são, afinal. os rostos, os suspiros, os sorrisos a que recorres quando olhos se encolhem de medo. aqueles que constam do álbum das tuas fotografias, do arquivo que não morreu. os que sabem o caminho. os que o fazem.
conta-os. ou não.

quando arrefece fazes as contas.
sim, sempre. é do frio.
mas conta, sempre agitas os dedos.

e os que vêm quando pedes. ou quando o peito aperta. sabem-te? alguma vez te souberam?
faz um exercício de não respiração. suspende, por um momento, o que vai e o que vem.

fica-te com o que está.
estás triste?
fica-o. és tu, faz as contas.
mas nunca foste grande coisa a matemática.



sorriso leste a oeste

2010-08-25T04:13:23.261+01:00

tenho o peito cheio de coisas. coisas tantas e inomináveis. conto os dias e tenho medo e estou ansiosa por que chegue, por que vá, por que esteja, porque sim. não era eu se não fosse aos pedaços.
desdramatizo respirando como me pediram para ensinar. sim, já ensinei a respirar quem me ensina aos poucos a lembrar-me de o fazer.
reaprendo o meu peito, que desassossega de vez em quando, desabituado de ansiar assim. sem aditivos. e orgulhoso disso e com medo disso.
mas é em frente sempre em frente, nunca fez tanto sentido. sorriso de leste a oeste. o sentido do sorriso.
vincado, fincado, de pés no ar.



das modas

2010-08-18T21:56:14.868+01:00

- boa tarde, queria um par de calças de ganga assim giras...
- pois, olhe, temos aqui umas que já estão a tornar-se um clássico. skinny jeans. justinhas de alto a baixo, é garantido que se tem menos de um metro e oitenta e mais de quarenta quilos vai descobrir pneus que não conhecia e, portanto, ficar sempre com o super fashion ar de bola num espeto, sendo a bola o seu tronco e rabo, e o espeto as suas pernas.
- ah... não tem assim mais nada?
- temos também a nova moda dos bolsos de trás descaídos, disponível em todos os modelos justos. a par com a cintura super-descaída. o que acontece é que o bolso abaixo da zona da nádega vai fazer parecer que o seu rabo está mais em baixo, ao nível da coxa, o que portanto lhe vai dar um ar de anã desproporcional e flácida. o seu tronco vai ficar compridíssimo, as suas pernas vão parecer minúsculas. a cintura descaída consegue destacar cada abanão gelatinoso da zona abdominal, os seus pneus vão saltar! e não há cueca que se consiga vestir, ficam sempre de fora. como imagina, o fio dental e o rego à mostra são sempre sinónimo de piropos. e vai estimulá-la a fazer a depilação todos os dias, porque isto é mesmo muito descaído também à frente.
- hmmm... e uma coisa menos justa, não?
- temos mais ou menos disso. temos uma espécie de boot cut que finge que alarga a partir do joelho, mas se for a ver é justo na mesma, com bolsos em relevo à frente para lhe dar destaque às ancas. e não esqueça os fabulosos brilhantes no traseiro. vai parecer saída da feira ou, num tom mais retro que está tão em voga, dos Porfírios.
- mas isso continua a ser justo.
- ah, não gosta de celulite?! que estranho... mas já sei o que procura! tenho o ideal para si, saído directamente dos desfiles de Paris. as calças largas e descaídas na zona do rabo. são fabulosas. parece sempre que tem uma fralda posta ou que as peles lhe foram parar à altura dos joelhos. ah, e afunilam, ficando hiper-justas na mesma a partir do joelho. continua a ter o efeito chupa-chupa. disponível em todos os tons de azul claro, com rasgões, obviamente. não se esqueça de escolher sempre um modelo dois números abaixo do seu. vai convencer-se que está mais magra sem dieta, e garante-lhe o tão trendy efeito-queque.
- mas olhe... eu precisava era de um corte que me favorecesse...
- ah... pois. disso não temos.



terra molhada

2010-07-30T00:20:47.387+01:00

não há cheiro que me dispa como o da terra molhada numa noite quente. despe-me e dança, devasso e lasso, brinca-me na pele em arabescos do sal que lá se esconde. fora saliva, mas fresca, lamber-me-ia sem vergonha.
e o suor abranda-se. são estes pequenos momentos de paz, enrolada na brisa. são estes silêncios e músicas e.ternas. é a meia luz quente cá dentro e a lua azul pela janela.
é assim que fecho as mãos antes que a sensação se apague.
e perdura, agora.



check-out

2010-06-17T02:19:34.112+01:00

uma sexta-feira, às sete da tarde, tiraram um género de dentro de um chapéu. não gostaram e tiraram outro. Mistério.
levaram uma frase, uma personagem e um objecto obrigatórios.
mandaram um e-mail para o outro lado do Atlântico e do lado de cá começou a espera.
3 horas depois chegou um texto, ligaram-se skypes e chats, distribuíram-se personagens, definiu-se o plano de trabalho, adereços, roupa e marcou-se uma hora para encontro no dia seguinte.
a essa hora estavam lá todos, textos na mão. uns montaram equipamento, outros vestiram-se, maquilharam-se e ensaiaram. depois foi-se gravando, rindo, gravando, enervando, rindo. a avó Fernanda fez o almoço.
às onze da noite foi declarado "that's a wrap" e deu-se o último aplauso no décor.
depois foram para casa, uns dormir, outros editar, tratar som e imagem.
às sete da tarde de Domingo, entregaram uma história com 8 minutos.

na sexta seguinte, chegaram para ver o seu trabalho num cinema. ficaram contentes por o trabalho estar porreiro.
algumas horas depois, estavam em cima de um palco, distraídos. porque tinham ganho prémios por boa fotografia, edição e - a cereja no topo do bolo - a escolha do público, e por isso achavam que já não ganhavam mais nada.
estavam distraídos a olhar para a assustadora cara do projeccionista lá longe numa janelinha por cima da plateia.
estavam tão distraídos que não perceberam logo quando disseram o nome da equipa.

ficaram abazurdidos para o resto da noite, com um cheque gigante tipo os da Bota Botilde encostado à parede, a fazer uma festa que se espraiou pelas escadarias do cinema. a rir meio a chorar para um telemóvel que os ligava ao outro lado do Atlântico.
agora aqueles 8 minutos vão passar lá longe, num festival internacional.

sem cunhas. sem compadrios. puro mérito.

saboreiem bem. não sabem quando uma destas se volta a atravessar no vosso caminho :)



retiro espiritual

2010-05-14T18:45:57.923+01:00



(image)
wish me luck...



vai tudo a eito

2010-05-14T01:34:44.247+01:00

Olá.aqui somos uns fixes, de brandos costumes, afáveis, garridos, pitorescos e temos uma comida do camandro. para não falar do cinema português, que é o supra-sumo da batata, a excelência do umbigo.aqui endividas-te para ter um LCD, um telemóvel topo de gama, ou o carro despesista que aparenta a opulência que nem sabes o que é. aqui não compras o jornal, compras o pasquim. aqui não lês livros, lês palavras já meio deglutidas para não dar trabalho a digerir - os medicamentos estão caros.aqui, os adolescentes passam de ano por saberem quanto é 5+2, e passam mesmo que respondam "cete", deus os livre de terem que saber o que seja para irem para a faculdade, porque o que interessa é mostrar à Europa que temos muitos licenciados. que os licenciados não têm trabalho é outra conversa.aqui, 30% das pessoas queixaram-se num inquérito, desgraçadinhas, que não tinham dinheiro para aquecer a casa num dos invernos mais frios de que me lembro. antes de puxares do lenço, fica a saber que só 9% dos mesmos inquiridos abdicaria de ter carro.aqui é assim. aqui vives de futebol, de, como alguém dizia, milhares de pobres e endividados pagarem quotas e bilhetes, cachecóis e camisolas para assistir a 22 milionários aos pontapés numa bola. ou pelo menos a pagam a prestação do LCD demasiado grande para a sala, para os olhos, para ver a Sport TV - canal de cabo pago à parte, que só passa desporto, sim, mesmo o nacional já não se vê nos canais livres de encargos. mas aqui, fervorosamente, futebol e fátima.aqui o estado tem de ser Pai, fica quase tudo à espera do subsídio, do aumento. e como se sabe que quase tudo vive do subsídio, não te pagam bilhete, não te querem pagar o serviço, não te querem pagar o trabalho.aqui o trabalho teoricamente de altas qualificações, como por exemplo o jornalismo,  é feito por estagiários analfabetos, sem experiência, que correm como sete cães a um osso, geridos por um gestor que, quando chega a altura, os deita fora e substitui por outros, deus o livre de dar emprego, de contratar, que isso desequilibra os lucros e os dividendos pelos sócios, pelos accionistas, pelos iates e as casas de férias.ainda há trabalho. há o trabalho que ninguém quer, vê-se nos pedidos nas montras das lojas.há o que tantos invejam, que são os que podem fazer férias quando o Padre vem: vê-se nas repartições públicas, são as senhoras incomodadas por lhes interrompermos a leitura da Maria, em cima da hora que o sindicato disse que era do chá, vinte minutos depois da hora de almoço e outros vinte antes da hora de esticar as pernas. essas senhoras que não sabem falar, nem tirar dúvidas de quem as tem, não sabem mexer num computador, mas sabem crochet e a arma desarmante do fastio do martírio de te fazer o favor de te atenderem. têm sindicatos que as defendem, que acham que elas não devem ser substituídas, despedidas ou formadas. quem o posto é um posto, que invente o estado pai mais postos destes que é o que se quer, com direito a pontes, greves, décimo terceiro mês, subsídio de desemprego, tudo descontado pelo patrão nos impostos, seja bem ou mal feito o serviço que se chama público.depois, entre meia dúzia de contratados que conseguiram a luz ao fundo do túnel, há o outro trabalho, o independente. chamam-lhe independente porque é conveniente. faz de conta que não tens patrão, que ninguém manda em ti e que trabalhas em casa, quando queres, como queres. e que prestas os teus serviços. agora presta os serviços no horário desse alguém que te compra o serviço, nas instalações desse alguém, segundo as condições desse alguém. afinal tens horários mais complicados e completos que os das senhoras acima referidas mas como és independente ninguém te q[...]



há algo que me rasga

2010-04-05T21:04:36.735+01:00

agito os farrapos.
esbofeteio o ar.
estremeço.
quão frenética me conheces?
agora vibra. agora galopa.
é suor? é sal.
danço.

(object) (embed)
Portishead - Chase The Tear from Mintonfilm on Vimeo.



because people have a way of blinking and missing the moment

2010-03-23T19:37:15.709+00:00

it was awfully nice sharing these most unpleasant milestones with you...
(object) (embed)
. californication .



algo

2010-03-16T00:06:31.143+00:00

algo denso, escuro, escorre nas paredes. acumula-se de baixo para cima, espessando as paredes que incham na direcção uma da outra. algo crepita, vago, ao longe, uma cacofonia desencontrada, desconcertada. vai-se calando devagarinho, desaparece como aquela baforada de fumo no peso de uma manhã fria. é a sensação que fica. um eco, talvez. bata-se na parede e regressará talvez um sopro. pingado. não vale, assim não vale, é preciso barulho e já não há voz. desde quando é preciso nadar para se ficar seco? e quem gostava de, uma vez, ficar quieto?
uma medida. de quantos passos se faz a claustrofobia. já se medem a dedos, não passos. seriam polegadas, eventualmente, no sorriso irónico de quem cá passa.
e de quantos passos se faria o abraço. esses são largos, com botas de sete léguas. afastam-se. pois. afastam-se e o algo escuro e denso escorre goteja agarra-se e fica. já esse, fica.

outro sorriso irónico.
afinal, o abraço é a cura para a claustrofobia.



pequeno almoço

2010-02-27T22:29:52.691+00:00

comme il faut.




coisas que me danam

2010-02-02T20:02:18.048+00:00

esclareça-se: o teatro e a dança são artes vivas [como em "ao vivo"]. contando histórias ou não-histórias, vivem|existem da|na comunicação a outrem-em-massa [chamemos-lhe público]. devem ser, no final de contas, um serviço público não obrigatório e não são totalmente auto-suficientes.
esclareça-se ainda mais: uma grande percentagem das companhias mais badaladas não põe um "ovinho" cá fora [entenda-se por ovinho, espectáculo] sem "choco" valente [leia-se por choco, subsídio].
esclareça-se que os subsídios vêm dos nossos impostos e são distribuídos de acordo com certos e determinados critérios de avaliação em concursos públicos [e não nos alonguemos por aqui, para eu não ficar com urticárias].
esclareça-se ainda que a maior parte das salas de espectáculos de Lisboa [convencionais] são pertença de empresas semi-públicas, públicas, ou das próprias companhias. a programação é efectuada com base em critérios de avaliação que... vamos encurtar - nos ultrapassam a todos mas conhecemos de cor. basicamente relembremos que uma companhia pequena|desconhecida não encontra espaço que não seja no vão de escada de alguma associação recreativa, ou numa sala "convencional" ali entre as 7 e as 8 da manhã de um 29 de Fevereiro. 
esclareça-se que um espectáculo demora meses exaustivos a ser criado, ensaiado, montado, afinado. que o dinheiro de um subsídio desaparece efectivamente - entre cenários e equipamento e divulgação e ordenados [de todos ou só de alguns] -, e que portanto deveria ser do interesse de todos que o espectáculo estivesse pelo menos um mês em cena [para deixar surgir o efeito da divulgação "boca-a-boca" - para vir então o público isento, começar a fazer algum na bilheteira e, obviamente saber o veredicto final: isto interessa ou não às pessoas?].

relembremos antes de avançar que o teatro e a dança devem ser serviço público - é para isso que lhes pagam. e as salas deveriam estar ao serviço do público - é para isso que lhes pagam.

alguém me explica então a nova moda dos espectáculos [das "grandes" companhias - subsidiadas] que estão em cena [nas tais salas grandes, boas, equipadas, sem pulgas e cheias de salamaleques] 3 dias-e-é-se-queres? 




credo

2010-01-31T23:17:48.808+00:00

apercebi-me no outro dia, ao passar numa livraria, que a partir de agora só poderei comprar dicionários em alfarrabistas...



do alcatrão . actualização non troppo

2010-01-31T23:01:24.561+00:00

queria actualizar o post anterior com mais novidades, notícias, avanços.
mas depois do clássico "sacuda a água do seu capote", as notícias cessaram. que isto de serviço público não é para o jornalismo. nem para o site da Brisa.

era aterro, tinha problemas geológicos, mas afinal já sabiam disso tudo, mas ninguém foi ver porque a responsabilidade é sempre de alguém mas de ninguém em especial.
já têm lá as escavadoras e continuam a ver se a terra continua a cair.

agora esperem.
sentados, na segunda circular.
todos vocês, os 40 mil utilizadores.



do alcatrão ou a importância do tom

2010-01-25T23:51:51.390+00:00

a A9 - CREL é, na minha vida, a diferença entre demorar hora e meia ou meia hora a chegar ao trabalho. um percurso entre duas zonas sem transportes públicos que as unam.na passada sexta feira houve um aluimento de terras na dita Cintura Regional Externa de Lisboa, de manhã.soube pela rádio que cortaram uma faixa, no sentido oposto ao que eu seguia.pensei... tudo bem, aquilo com umas vassouradas vai ao sítio até ao fim do dia, logo à tarde estou safa. estúpida. estúpida.no regresso ouço pela rádio - já tarde demais - que afinal já ia em duas faixas cortadas e 4 km de fila.e eu na fila. durante uma hora e vinte minutos.quando finalmente passo pelo "sucedido", vejo primeiro que tudo uma fila de uns trinta - não estou a exagerar - topos de gama lindos e brilhantes estacionados ao longo da berma. mais à frente um ajuntamento de uns trinta senhores e senhoras, de fatos de corte impecável, sapatinho bicudo, pasta no braço e mão no queixo, visual profissionalizado pelo colete amarelo e o capacete da praxe. todos  observavam, sem mexer uma palha, o monte caído no meio da estrada.monte de terra de seu nome, com M de Monte Grande, enorme e que ocupava toda uma faixa de rodagem, numa imagem curiosíssima porque ainda estava coberto de erva tenra verdejante e moitas. parecia que a montanha tinha esticado o pé gigante, para não ficar dormente, e o tinha assentado na faixa da direita.bem, e o grupinho lá observava. nem uma pá à vista. um ancinho, ao menos um serviçal daqueles que fica parado na berma da obra de enxada em punho, qualquer coisa... nada.receosa pelo meu regresso ao trabalho, vou ouvindo na rádio. o monte foi esticando a patinha e já vai na terceira faixa da auto-estrada.bem, mas o que é que vão fazer quanto a isto? ainda não sabem. o tom vago mas assertivo - gostava de saber como se consegue, mas parece-me arte e dom apenas d'Os Escolhidos do Ramo da Análise, Construção e Orçamentação. usam muito os graves para a coisa parecer cabal e séria, mas algo carefree porque, por favor, não podemos falar de prazos numa situação destas...primeiro uns dias para análise da progressão do aluimento. a prioridade é - dizem - o aqueduto das águas livres. percebe-se que não se ataque a coisa à idiota para ser pior a emenda que o soneto [ou a ementa que o cimento], mas nem uma vaga ideia do que vão fazer? não. o plano - assertivamente - é ficar a observar o movimento da terra durante tempo indeterminado. e depois - vai para os agudos, arrasta as vogais - logo se vê. portanto, já vê, - regressa ao assertivo - pelo menos umas semanas de observação.eu penso de mim para mim... então se é assim, se eu mandasse,  os senhores do grupinho ficavam de castigo: sem os popós até resolverem o assunto. só para estimular a análise. e só por ter usado a expressão "derivado a" na rádio,  fica já sem a carta, não vá tentar surripiar o carro da esposa. mas isso sou eu.mas alto, descrentes! para desengano de quem achava que eles não estavam a fazer mais que ver terra mexer, um laivo de esperança, de proactividade:dizem que já contactaram o proprietário do terreno! [do Monte Caído, não da CREL, bem entendido]...pois, é isto...podia parecer que é para terem autorização para acesso à zona para agilizar as obras de limpeza e reforço da estrutura. podia.mas é o tom, senhores, o tom em que o constatam. o tom acusatório e algo consternado de quem acha que o proprietário tem um pacto com extraterrestres; o tom "nós estamos a fazer tudo o que podemos e o que[...]



o bilhete

2010-01-17T22:41:45.335+00:00

entraste, simplesmente. recortaste-te na luz contra a penumbra atrás de ti. a noite já se fundia no céu azul. o outono é assim. recortaste-te não pela tua figura imponente, mas pelo vermelho da gabardine, subitamente incendiado pelos néons do restaurante. olhaste em volta e em cada resquício de movimento li que o sistema da loja não te era familiar. estavas mais próxima, agora. encostaste-te ao balcão. levaste a mão ao bolso enquanto esperavas que a velha dos sacos à tua frente fosse atendida. tiraste um pequeno leitor de mp3 de marca branca e carregaste num botão. levantaste o olhar e o empregado esperava-te. esticaste o pescoço para a frente, levando os dedos aos phones e tirando-os dos ouvidos. fizeste o teu pedido. as bebidas são self-service. seguiste-lhe o dedo indicador espetado e dirigiste-te aos copos, de passo hesitante. uma cola. lá do fundo ele perguntava-te mais coisas. quer queijo? quer salada? a tudo respondias com um sorriso cansado.sentaste-te a comer isolando os olhos do mundo no aconchego familiar de um livro de capa usada, os pensamentos embalaste com essa qualquer música que voltaste a pedir ao leitor. estavas desajustada.dei comigo com a sandes fria, só de ficar a adivinhar-te. não consegui. inventei-te uma história. mas precisava de pormenores.por enquanto digo-te a música: Dead Combo. não tem letra, acompanha as palavras com mais discrição.comeste a sandes com a lentidão suave de quem ainda tem tempo. sei isso porque viste as horas por duas vezes no telemóvel e parecias indecisa, já com o canto do pão na mão, se ficavas ou saías. saíste. e eu contigo, sem me notares porque não se notam tanto os fantasmas quando a música toca alta dentro da nossa cabeça. achei que devias ter medo da cidade à noite, também os ladrões passam mais discretos, assim. radiohead - no surprisessabias para onde ias. paraste nos semáforos vermelhos, mesmo que a estrada não tivesse carros. encostavas-te aos postes, num misto de espera dengosa, cansaço e tempo para consumir. nunca olhaste para trás. percebi onde ias. mas a poucos metros da porta paraste. abriste a mala e do que me pareceu ser uma agenda tiraste um bilhete. o candeeiro explicou-me que havia outro, que ficou ali, preso num clip. percebi-te. chegaste à porta e no mesmo gesto elástico encostaste-te a um separador do passeio. ali puxaste de um cigarro. nouvelle vague - I melt with youviste de novo as horas. e deixaste-te ficar, observando em volta os carros a chegar e parar à porta, largando gente de roupa fina. outros que passavam e abrandavam como se estivessem a ver um acidente no meio da auto-estrada. olhaste com atenção a formação de grupos, as pessoas que entravam orgulhosamente de envelope na mão, como que exibindo um troféu. os casais curiosos, as velhas cheias de laca, as gentes mais novas de roupas pendonas coloridas e penteados despenteados. lado a lado com as meninas de rabos de cavalo, argolas, camisa dentro das jeans e sapato de salto agulha. indiferente às aparências, abanavas agora a cabeça com algo mais mexido com um meio-sorriso irónico nos lábios.divine comedy - generation sexlá dentro, os flashes, o burburinho que não ouvias, a reverência dos porteiros e a agitação que se notava nas janelas de vidro, de mulheres bem vestidas agarradas a telemóveis. apercebias-te de tudo com a naturalidade de quem sabe o que é mas sempre foi transparente. viraste-te de costas para a entrada e olhaste para o céu. ali quis que pedisses um desejo. viste as horas uma [...]



crise no peito

2009-12-22T18:39:23.839+00:00

hoje recebi um postal que me doeu no peito.
a crise em Espanha é tão real que já não se bebe café. e os meus tios, donos de um café, não podem, por isso, vir passar cá o natal este ano. pela primeira vez em... sempre...
a casa vai estar mais vazia. só nós. nós, sós. só.
se calhar não se justifica o bolo-rei. nem talvez a lareira. e a conversa solta perderá as vogais abertas e adocicadas.
não vai haver o momento da corrida para o quintal para ajudar a descarregar as malas, e embrenharmo-nos no perfume forte e na gargalhada da minha tia, nas bochechas frescas e olhos enormes da minha prima, na pacatez sossegada e brincalhona do meu tio. não se afogará a distância de quase um ano num prato de presunto com 1000 quilómetros, cortado por mim com a língua de fora.

inspiro forte e atiro-me à costura. as prendas não se poupam só pela distância. em breve, no correio, um embrulho grande com um bocadinho de amor alinhavado na nova máquina de costura.

um feliz natal para quem está desse lado. espero que estejam com todos aqueles que vos fazem falta.



balançar

2009-12-20T17:02:54.135+00:00

não gostei de dar por mim a fazer balanços quando pisei a terceira década.
de que serve encostar-me à ombreira da porta e olhar para a sala a ver o que lá está e o que sempre pensámos que por esta altura já devia lá estar? sabemos bem que o que está foi o que se conseguiu, que luta não falta por estes lados.

ponho de lado esses balanços e enveredo por outros, que o que me faz falta é rir. nesta vida que se me apresenta, há sempre factos curiosos...

ainda posso fazer compras na secção juvenil, mas quando acho que algo está mal, ainda armo arraial como se tivesse 2 metros de altura
ainda não tenho celulite
apesar de já estar na idade de usar creme anti-rugas, ainda estou a lutar contra o acne eventual
ainda sei de cor grande parte da primeira peça que fiz há... uns bons 10 anos. mas não sei o que é que comi ontem ao almoço. (bem, se calhar foi porque não almocei)
com meia dúzia de anos de vida nas dobragens, já dirigi uma boa dose de dinossauros com resultados extremamente positivos
ainda não me levo demasiado a sério, mas encho-me de medos a cada novo trabalho
ainda morro de medo de cada vez que tenho de cantar em público mas a minha vida não deixou de ser um musical
ainda gosto de cerelac
quando danço ainda faço coup de pied
ainda choro quando vejo um bom espectáculo de teatro
sou adepta ferrenha da utópica meritocracia
ainda prefiro papel e caneta, apesar de ter aderido aos computadores
apesar do facebook, ainda escrevo no blog
da empresa de onde me despedi há três anos - a bem da minha saúde mental e profissional - ainda me telefonam de tempos a tempos para pedir um código de internet que, já avisei mil vezes, não faço ideia de onde ande.



elo

2009-11-03T19:47:20.337+00:00

o regresso a casa faz-se de passos inseguros de quem não toma as coisas por garantidas.
são séculos debaixo dos pés. são vidas na roupa. são palavras que se atropelam à saída.
há um sorriso familiar da parte da tarde, há gargalhadas a que já tínhamos esquecido o gosto.
o corpo frio, falta de treino, estende-se para voltar ao elástico destes dias de pedras amareladas.
tem-se como prenda um encenador que fica e ri.
as articulações doem, estremecem. e a vaga lembrança sorri, cansada: amanhã há mais...



5º aniversário

2009-11-02T16:18:54.886+00:00

este meu bloco de notas nasceu a 11 de Outubro de 2004.
não te arranquei páginas, não te-me escondi, rasuras e tudo, como eu cicatrizes e tudo, o que foi foi para ser o que se é. mudas comigo sem mudar de sítio porque assim sou eu, não fujo, fico, bato o pé e quem vier que venha por bem ou leva porrada. 

polegada há-de ser sempre polegada porque vire por onde virar serei sempre polegar e o meu mundo é uma amálgama de impressões digitais.

para quem cá vem parar por engano, já vai sendo tempo: 1 polegada = 2,54 cm. boa viagem.

para ti, que ficas, que estás, quero que saibas, e apesar da era do facebook ter chegado... gosto-te, blog. parabéns.