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Não Querem Ouvir!



Um blog com um título parvo



Updated: 2015-09-17T01:05:09.954+01:00

 



Os Olhos do Sul: IV - Alianças Indignas

2012-11-28T00:41:03.157+00:00

As "férias" com Willard e Nicholas tiveram o seu final abrupto quando o burburinho na cidade lhes chegou aos ouvidos. Algures na Paróquia de St. Landry, Bayou Teche, Louisianna pode ler-se no cartaz, fixado com uma faca na porta da Igreja: "Descobriram-te. Não tens por onde fugir. Encontramos-nos na ponte velha amanhã à meia-noite. PS: vem sozinho. Ass. U.S. Marshalls". Abaixo, constava a sua fotografia carimbada de "PROCURADO". Não faria sentido não comparecer e chegada a hora haveria de lá estar."Nem olhes para mim. Olha para aqui se quiseres andar à porrada e vais perder, digo-te já. Fala o que tens a falar e cada um de nós segue o seu caminho." rematou Kurt, sem pejo. Não se calou e lançou o dedo encriminador: "Há dias que mais vale deixar as cartas cair... Tens falhas na organização, adianto-te. Bem os vestes como homens, mas nem o cabedal nem as correntes lhes dão tomates de ferro, ou pensas que o miúdo não falou? Sei de tudo. Fica só uma dúvida: mandas alguma coisa ou queres mandar?""A conversa acaba aqui.  Não sei quem julgas ser para desafiares a autoridade como tens feito desde do Texas, mas vais-te por a direito a partir daqui. Nem que tenha de te amarrar à última cadeira na última cidadezinha do Alabama, vais-me entregar o Comanche!" Hawkes, continuou subindo o tom. "Vim para te vir buscar, meu parvalhão. Se queres tornar isto num concurso de bocas bem podes ficar a falar, enquanto te caem em cima. Ou pensas que estou aqui sozinho?!"Como quatro vértices de um quadrado, as motas acenderam os seus faróis e iluminaram a ponte. Cercados, os dois homens baixaram a cabeça e levantaram os braços. No chão, várias sombras se moviam como fantasmas na água, diante de Kurt. Do que conseguiu descortinar, o mesmo se passava nas costas do Sargento Hawkes. O passeio na luz foi subitamente interrompido por dois tiros vindos da penumbra.Kurt Stone continua a disparar. As balas voam directas ao alvo, tal e qual tinha aprendido no bayou: trazer os alvos para a linha de visão e não o contrário; focar os olhos na mira frontal e apontar ao centro do alvo, de modo a ver duas miras frontais e o alvo desfocado; para tiro certeiro, mudar o foco várias vezes entre a mira e o alvo até estar satisfeito; para tiro rápido, baixar a mira traseira em relação à frontal e apontar ligeiramente abaixo no alvo, de modo a obter um encaixe mais eficaz em conjunto com o ritmo da arma. As farpas saltam dos pilares de madeira da ponte coberta.Pouco antes do disparo seguinte reduzir uma das motos a uma pira incandescente nessa noite sem luar, Kurt colou-se à parede e furtivamente se colocou atrás do seu carrasco. Poucas execuções são visíveis no clarão de um disparo, mas a explosão de osso, miolos e sangue foi ofuscante como o fogo em si. Ainda o corpo do primeiro não tinha tremido o chão e Hawkes rodava sobre si próprio descarregando o tambor na última sombra de pé. O impacto dos projecteis ensurdeceu a escuridão e o repetidor calou o silêncio em ritmo tão certo como as batidas do coração. Era um dos motards, indistinguível no meio do breu. Kurt havia-se ocultado, encostando-se à parede e permitindo o embuste.  Todos caíram, excepto os dois pistoleiros. "Acho que vamos ter de resolver isto à maneira antiga..." A cápsula voa e sai-lhe lentamente do ângulo de visão. Segue-se o fumo branco e o cheiro a pólvora. O revólver encravou. O marshall, sendo um homem experiente em lidar com armas, sabia que teria sido do sobreaquecimento: O cilindro de aço inoxidável expande com o calor, e não é possível premir o gatilho, aliás todas as peças parecem estar soldadas. Mal teve tempo de segurar na arma de apoio que foi atingida em cheio, caindo à sua frente. Estava desarmado.Um breve momento de tensão iluminou o olhar dos dois homens enquanto se quedavam impassíveis. A arma jazia a cerca de dois metros e não fosse a idade, Hawkes só precisava de uma distracção para se lançar jogando a sua cartada. Do outro lado, Kurt queria a resposta às suas[...]



Os Olhos do Sul: Intervalo (III - IV)

2012-11-28T00:35:04.513+00:00

- "Existem homens naturalmente maus, pai? O Kurt é um deles?" 
 - "Não, Nicholas. Há homens que vivem para a sua missão, aquela que Deus lhes deu. Nós temos a sorte de estar em constante comunhão com o que Ele pretende para nós. O Kurt precisa de tempo para crescer aos olhos de Deus." 

- "...e o nosso trabalho é ajudar?"
- "É sim, filho. Os homens vêm a nós por ajuda, não por clemência divina, porque para isso vão à cidade, a uma das outras casas de Deus. Nós conhecemos tanto o pecador como o pecado."

- "Foi por isso que o ensinaste a disparar?" 
- "Foi por isso que também te ensinei a ti." 

- "Nós vamos estar naquela ponte com ele, não é?" 
- "Lá perto, o que for preciso para equilibrar as forças."




Os Olhos do Sul: III - Santuário

2012-09-08T23:28:27.669+01:00

Passo a passo, haviam três dias que tinha deixado Texarkana, depois de executar os seus perseguidores. Aos agentes que o escoltavam demonstrou a sua faceta mais misericordiosa e deixou-os na bagageira. Vários anos num buraco tiram o sentido de conforto a um homem, mais a um que não compreende porque está vivo - no entanto, eles pareciam integrados o suficiente para testar a claustrofobia por umas horas. Tomou uma camioneta de transporte de aves, dissimulado na traseira, para em trocar de boleia em Shreveport na direcção de Lafayette, Louisiana.Viajar de noite tem que se lhe diga. Tem até animais no meio da estrada, quem sabe atraídos pela luz dos faróis ou apenas desprovidos do instinto básico, que leva qualquer criatura com ambições de sobrevivência a não se mandar para a frente de um corpo a 75 milhas por hora. Existem picos de sono, queiramos ou não, a meio de uma conversa sem interesse. Essencialmente, tem paragens para descanso e para utilizar os lavabos. Numa dessas paragens, Kurt saiu do carro em direcção ao WC, tal como o condutor da pickup GMC, de seu nome Roland. O sono e a fome só priorizaram sua a necessidade de alívio, a única cuja satisfação era possível na altura. Aquele minuto, desde o desabotoar das calças ao esfregar das mãos é sagrado. Kurt sabia-o e Roland sabia-o. Mais desperto que nunca, abriu a porta com um ar triunfante e realizado, contemplando a área de descanso: Um pequeno parque de merendas a este, a encruzilhada de estradas para oeste e o estacionamento a norte; a carrinha GMC, essa abandonava agora o estacionamento a grande velocidade. Ficou o cheiro a borracha queimada e, pois claro, o pendura.Deixado à sua mercê num estacionamento deserto no meio da noite, pouco depois de Bunkie, Lousianna, decidiu continuar a andar. Não sabia para onde ia, apenas saiu da Interstate 49 e enveredou por outro caminho em direcção a Lafayette. Caminhou por pequenas povoações, mantendo para si que os seus bolsos vazios e a imagem deslavada não lhe permitiam pedir ajuda nem trabalho. Muito menos mendigar. Não o faria, pois não sabia nem tolerava fraquejar dessa maneira. "Que humilhação, ser atirado para berma da estrada por um campónio que tirou partido das suas necessidades básicas" - pensava e repensava, enquanto puxava pelas pernas.Com alguma frequência, quando um sujeito olha para o horizonte quase consegue agarrar as folhas das árvores e pisar a terra, sem que o resto importe. Essa é a vontade e o crer, o espírito do homem de sangue fresco. É, mas está calor, arde na cabeça e pesa no corpo, sem alimento nem descanso. A vontade é quebrada e o crer não levanta os braços à altura dos ombros, quanto mais dar outros dois passos na direcção do abismo horizontal, mesmo diante dos olhos. A obstinação férrea é o que leva ao limite e dá esses dois passos sem pernas, rastejando e percorrendo os centímetros na areia como se fossem metros. - "Olha para ti. Tremes por todo o lado. Há quanto tempo não paras ? Há quantos dias vagueias sem rumo? Descansa e permite-te a pensar no que fizeste..." pregava Sarah num eco constante.- "Cala-te! Deixa-me andar que preciso de andar. Quero andar! Quero, quero ir, estás a ouvir?!" retorquiu Kurt desarticuladamente, num sopro quase tão seco como a sua boca.A aparição foi subitamente interrompida por uma bátega de água fria que se abateu sobre o seu rosto, quase enterrado na areia. Entre urros que não distinguia, ao fundo uma voz de criança exclamava - "ele não acorda pai! e agora?" - E caiu, mais uma vez, a água sobre ele, correndo o fio pelo pescoço abaixo. - "Estou acordado!" bufou. Erguiam-se defronte do seu corpo prostrado duas pessoas: um homem e o seu filho. O pai, era um individuo esguio com barba loura de traços grisalhos, vestia casaco e camisa negros com calças de ganga e botas de trabalho. Já o filho aparentava os traços de uma criança saudável e estava aperaltado com um fato domingueiro. - "É um bêbado, paizinho?" - "Não sei filho...".[...]



Os Olhos do Sul: II - III (Intervalo)

2012-08-18T05:14:35.611+01:00

Dois primos cajun, em passeio com a família pelo Arkansas, acordam sobressaltados pelos eventos da noite passada:

- "Bo' dia Dud, iss' é que fou uma confusion des diabes onté..."
- "Né outra cous' sena' verdade. Aquel' sujeite trouxe o Inferne con el´; Or' vide tu que pega des moçes e quita-lhes a vide sé mais... num se faz."
- "...falo'-me Marie que le matou ca force du demón."
- "Da policie sai' que vai un pendurad' e no últime, assomad' à pont' daqui, que lo sufeco' con óil."
- "Avec huile?! Mon dieu..."
- "É verdad' mon ami... Fue horrível: lo turturrou par l'informaçon e quand na' le diz, le poen óil p'la boca."
- "Nes pa... l' éncontraron les malandres?"
- "Non. É Piore ils pensen que fue un só..."
- "Le fin é próxime, prim' Dud... Tres Próxime"





Os Olhos do Sul: II - Correndo Com o Diabo ou A História de Tommy Livingston

2012-07-06T00:23:37.084+01:00

Calças de ganga Lee 101, T-shirt velha dos Doobie Brothers, botas Chippewa e um casaco de cabedal castanho que nem sequer era dele - "aqui estão os seus pertences" - um relógio Tag-Heuer, literalmente parado no tempo, uma carteira com a carta de condução, 40 dólares e o bilhete de autocarro Interstadual. A roupa ficava-lhe ligeiramente larga - por tudo o que perdera nos últimos cinco anos o peso havia-se transformado em músculo - o relógio já não o servia. - "Tenho tempo de sobra, queres comprá-lo?" perguntou a Gutterson. O guarda fez-lhe sinal para se calar e passou-lhe uma nota de 10 para a mão.Tommy "Crow" Livingston imaginava tudo isto a acontecer, enquanto esperava do lado de fora da cadeia. Acompanhava com o olhar cada passo de Kurt Stone, media-o e ansiava pelo seu confronto. "Meteu-se com o gang e o gang vai deixá-lo no lugar", pensou. À saida de Huntsville, Tommy e três outros motards assistiam ao caminhar de Kurt Stone em direcção ao terminal de autocarros - aos passos lentos e pesarosos, ao ar perdido e destanciado da multidão - "Este tipo parece um zombie! Podemos apanhá-lo mesmo aqui no Texas e despachar a coisa antes do meio-dia!" disse Tommy em tom de chacota e logo ouviu resposta, "Vais fazer como te mandaram e calas-te antes de sequer pensares em abrir a bocarra! Este tipo tem levar com a marca dos Steer Kings e isso acontece onde deve acontecer à hora em que os adultos decidirem, comprende?".O galgo cinzento lançou-se pela autoestrada e os quatro motoqueiros abandonaram a perseguição, a próxima paragem era em Texarkana, Tommy sentia o sacudir do colete à medida que a velocidade aumentava. O Presidente tinha encarregue Aiden "Turk" Moss de "interceptar um certo ex-condenado e passar a mensagem de que os 'Kings não esqueciam nem perdoavam", tudo aconteceria o mais longe possível de casa. Com ele seguiam mais dois veteranos, Bo "Diddley" Jones e Austin "Deuce" Hill, para iniciar o "petiz" numa missão de honra.Junto do terminal a multidão dispersava e apenas Kurt e mais duas pessoas se mantinham sentados. Turk e Bo avançaram pela retaguarda enquanto Tommy e Deuce se picavam com as motas pela frente, em jeito de manobra de distracção. Rodando em círculos, enervavam visivelmente os dois homens junto de Kurt enquanto este se mantinha sentado, impávido.  Tommy estava tão compenetrado nas manobras que mal ouviu o tiro para o ar. Diante dele, o revolver fumegante do agente Morris aconselhava prudência, enquanto o seu parceiro, Duff, apontava a Deuce - "O espectáculo acabou rapazes, está na hora de partirem na direcção do sol poente! Não os quero voltar..." -«Clic»  - "Lamento interromper, mas caso não tenhas percebido, isto foi o cão. E a seguir vem o gatilho. Em que direcção achas que vamos?" interrompeu Turk, surgindo por trás do polícia. Logo Deuce aproveitou a deixa - "Na da bagageira! Ah!" gritou, rindo-se. Como dois cavaleiros pelo asfalto, Tommy e Bo resistiam contra a saraivada de água que caía em Texarkana. Há vários minutos que não ouviam as pancadas dos agentes Morris e Duff, a malfadada escolta. Encafuados como malas velhas, enquanto Turk e Deuce comandavam o autocarro.A tarde passou a noite e o dia não se deixava ver, nem para a frente, quanto mais o fim. Nas palavras do último para Kurt - "Foi uma viagem atribulada, mas só agora começámos". O jovem aspirante pensava no que aqueles dois iriam fazer... sair da cidade era obrigatório, mas o plano era não haver plano.Perto de uma zona florestal, já nos limites da cidade, a caravana pára sem aviso. A porta abre e Turk, seguido de Deuce, saem de mãos na nuca. Bo e Crow nem tiveram tempo de reagir. O refém havia tomado controlo da situação, frio e distante como sempre, segurava a arma no escuro. - "Cheguem-se para debaixo da luz do candeeiro, é já ou não há depois!" ordenou assertivamente, chegando-se para as motas. Sob ameaça de tiro, o gangue assistia à pilhagem d[...]



Os Olhos do Sul: I-II (Intervalo)

2012-06-16T14:26:03.621+01:00

- "Dizem que se foi o Justiceiro Solitário... E já estou à espera da comissão há meses."
- "Que estás para aí a falar?"
- "A minha audiência para o recurso! O meu advogado diz que um tipo à espera de execução há 10 anos tem mais hipóteses de perdão..."
- "E o que tem a ver o tipo do filme?"
- "Qual filme?!"
- "Na'tavas a falar no Cavaleiro Solitário (Lone Ranger) porra?!"
- "...Justiceiro! Vale agora a pena falar contigo! 'Tás bem é com a Biblia pá!"
- "É que nem te atrevas a invocar o nome do senhor em vão! Diz lá que filme é esse então..."
- "Na'é nenhum filme pá! É o gajo que 'tava há anos na solitária!"
- "...e é justiceiro porque tava feito com a mona?"
- "Epá cala-te e ouve! Chamam-lhe justiceiro, porque se passou no Tribunal e encavou os tipos que lhe mataram a mulher!"
- "Limpou-lhes o sebo?"
- "Nada disso! Chibou-se que tava feito com eles e começou a dizer que os conhecia e que mataram a gaja por gozo, tipo ritual motard..."
- "E os gajos vieram dentro, certo? E ele saiu."
- "Até que enfim! Foi isso mesmo, percebeste? O Juiz queria-os dentro e o Juri também, por isso ninguém se incomodou muito."
- "Justiceiro...? Se me 'tivessem quinado a maria não havia justiça neste mundo para os salvar, nem ta'pouco a mim no outro. Era um bilhete de ida pó'Inferno, digo-t'eu".




Os Olhos do Sul: Rude Despertar (I)

2012-05-31T23:14:11.139+01:00

Cinco anos depois, esfacelado pela solidão e trucidado pela culpa, Kurt caminhava lentamente pelo corredor. O guarda Petterson seguia-o, não o escoltava, seguia-o. Em passo firme e pesado percorriam o corredor. Grades e gradeamentos multiplicavam-se em paralelo com a parede de betão, friamente novos para ele, que só tinha conhecido o pátio e a solitária no cárcere em Huntsville. Queria dizer-vos que vi uma figura ou um vulto para o começar a descrever, conferindo-lhe qualquer misticismo barato ao jeito dos filmes, mas quando Kurt surge no raio de visão é impossível não distinguir os traços à partida: estatura média; cabelo negro, tal como se duas vassouras siamesas tivessem procriado com um espanador; olhos profundos e castanhos claros; e a barba irregular, mas grossa em redor do seu maxilar quadrado, fugindo para o queixo. A prisão teria-o mudado por certo, no entanto seria a liberdade que lhe tomaria a alma."Os heróis morreram no dia em que o homem inventou a pólvora" - afirmou solenemente Thomas Hawkes na penumbra da sala de visitas. Os seus olhos brilhavam quase tanto como as correntes de aço que algemavam Kurt, continuando - "sabes que alguns membros dos Steer Kings estão a ser sugeridos para uma amnistia? O Governador vai a eleições e alguns nomes apareceram em cima da mesa. Sabemos que o teu tempo aqui está a chegar ao fim e seria um infortúnio que fosses procurar os tipos perdoados pelo Estado e, à boa maneira do faroeste, encontrasses algum sarilho que deitasse estes anos todos por água abaixo". Kurt ouvia impassível. Os seus nervos, como espasmos, reagiam violentamente, ao escutar na voz do Marshall, o mais leve tom de paternalismo falso. Hawkes não queria saber dele - tinha outros planos e esta conversa, evidentemente pensada, faria parte disso. Como o mais frio dos assassinos escudava a raiva por trás de um exterior calmo. Todos estes anos na solitária aperfeiçoaram essa sua faceta, moldando-a irreversivelmente à personalidade."Nunca apanharam o Comanche, sabias? Estes tipos vão levar-me até ele... Não é pelas mães que vão passar a semana no cabeleireiro para assistir ao discurso do Governador na libertação dos filhos. Esses filhos... e essas putas que os lançaram ao mundo são capazes de estragar tudo o que temos feito, para manter o pobre coitado que paga os impostos descansado à noite. Tu cumpriste a tua parte e fizeste por trazer descanso à sua alma... agora é a minha vez e lidarei com eles da maneira que mais me aprouver. Não te metas no caminho, percebes?" Proferiu, firme, enquanto deixava cair as palmas das mãos sobre a mesa. Onde qualquer um via impassibilidade, Hawkes irritava-se com a apatia de Kurt. Não o conseguia ler correctamente, no seu mundo era imprevisível, talvez tivesse até sucumbido à loucura depois de anos fechado em solitária. "Naquele julgamento todos sabíamos que eras inocente. Foi uma farsa teres dito que estavas com eles... A justiça não era para ser utilizada a teu mando e não foste tu que a mataste, caso estejas a fritar conclusões nessa cabeça louca." - depois de uma longa pausa continuou "O teu tempo está a chegar ao fim e o Tio Sam quer-te num programa de protecção... Eu dei-lhes uma ideia: Vais sair daqui de mansinho, a um mês de hoje, vais encontrar-te com um sujeito em Arab, Alabama. Este tipo, que dá pelo nome de Gutterson, vai ajudar-te. Vais direito ao Centro Cristão de Arab e perguntas pelo Gutterson. Percebeste? Ele tem tudo o que precisas e no dia que saíres os guardas devolvem-te a roupa com um bilhete de ida no bolso das calças. Se me estás a ouvir: a vida é tua, faz o que quiseres." Seco e directo, terminou e levantou-se da cadeira, saindo da sala como se nunca tivesse lá estado. Kurt permanecia imóvel no escuro. Um, dois, três, quatro segundos e o guarda Petterson entrou para o[...]



Playlist: Ponto de Fuga

2012-05-09T21:40:36.491+01:00

A história acabou e fica ainda tanto por contar... Sempre achei que a música fazia parte da história, ouvi-a enquanto escrevi e escrevi algumas canções para as ouvir a ler. Espero que ouçam e gostem. Talvez depois sugiram até algumas e quem sabe, façam a vossa playlist para ouvir naqueles dias de passeio, em que a estrada e a companhia deixam tudo o resto de parte.

1. Ain't No Love In The Heart Of The City - Al Brown
2. Superstition - Stevie Wonder
3. Being With You - Smokey Robinson
4. Never Can Say Goodbye - Isaac Hayes
5. Listen To The Music - The Doobie Brothers
6. Reelin' In The Years - Steely Dan
7. Running On Empty - Jackson Browne
8. Mexico - James Taylor
9. Against The Wind - Bob Seger
10. I Can't Tell You Why -The Eagles







Ponto de Fuga: Epílogo

2012-04-14T19:54:01.901+01:00

Dela sobressaiam os olhos, agora sem vida, vagarosamente cobertos pela bruma gélida que se abateu sobre a noite. Minutos como horas passaram, até sentir os músculos entorpecer, a respiração queimar-lhe no peito e a vida deixando-os lentamente. Não podia existir ali, ao lado do cadáver, sem se tornar um fantasma dele próprio e de tudo o que tinha vivido ao lado de Sarah: a sua cicatriz estava-lhe profundamente marcada na memória. Eram o universo um do outro, as possibilidades que por mero acaso temporal ainda não se tinham concretizado, os tempos presente, passado e futuro convergiram para este espaço e concederam-lhes a imortalidade.Quando o sol se levantou e névoa deu lugar ao orvalho, a sua alma estava tão morta como o corpo dela, perscrutando o mundo pelos olhos incrustados nas cavidades negras de uma caveira pálida. Pelas veias corria-lhe um ténue fio de sangue e o peito empedernido pesava demasiado para se erguer, para voltar a ver, a sentir, a cumprir as regras básicas da existência a que todos os mortais estão adstritos à nascença. Um funeral não seria apropriado, não haveria palavras, rituais ou gestos de paz que pudessem apaziguar as suas almas. A violência da vida ecoa na sua morte, ensurdece o seu sentido e assume essa razão.Há uma luz a guiar-nos durante o caminho que trilhamos, ela pode revestir várias tonalidades, cores e até formas, mas nunca deixa de nos acompanhar. No rescaldo destes acontecimentos, o seu farol mudou muito, no entanto só havia um caminho. Iria percorre-lo estoicamente, na solidão, na pobreza e no vácuo... e arrastaria outros para lá. Reclamaria as suas vidas para instar medo na espinha dos fracos de mente, impotentes para ver a luz. Ela estaria ao seu lado, até as estrelas se alinharem, como sempre esteve e nunca poderia deixar de estar, numa lei não escrita sobre a qual eram, são e serão - cabendo-lhes o céu que libertaria a tempestade que se seguiu.O ponto de fuga é aquele lugar para onde convergem as linhas no horizonte, onde o profundo se perde e o todo se encontra. Somos todos pontos e linhas, que se apagam e pintam com a maior das facilidades. A fuga, o escape, demonstram o nosso significado: de onde vimos e para onde vamos. Em seis fases, Kurt e Sarah, descobriram o seu: primeiro o DESPERTAR, onde passam de um apelo inconsciente de escape para a necessidade e materialização do mesmo; em segundo o VEICULO, pois toda o movimento precisa de um corpo e de uma alma e o 442 confunde-se e impõe-se nos personagens, qual extensão do seu corpo e alma, oferecendo-lhes profundidade; seguidamente a PERSPECTIVA, em que são forçados a definir os seus limites e a sua distância, assumindo o desconhecido e para Kurt e Sarah o limite foi a sua relação, os dois coexistem no mesmo trajecto; para lá de meio o percurso torna-se emocionante e atinge o PICO, mostrando toda a sua beleza para os iludir; a quinta etapa a CONFUSÃO, levando os viajantes por atalhos, deixados à deriva afastados do real propósito e da sua força motriz; até à TRANSCENDÊNCIA, o final aparentemente amargo, onde passado o ponto sem retorno, os confronta com as suas escolhas, encerrando a verdade que tanto esperavam, para continuar a viver sem precisar de fugir.Na realidade, o mais pequeno detalhe pode afectar-nos. Sem dúvida, no entanto é essa a pessoa que queremos ser? Não para o Kurt. Ele quis tomar as rédeas do seu próprio destino: escolheu a rapariga e conduziu o carro. Não fez a viagem perfeita, mas mais ninguém a fez por ele. Esta é a sua história e todos os outros são detalhes, pedras ou almofadas no caminho. Encontrou particular conforto neste pensamento quando, na prisão, rodeado por criminosos, percebeu que podia fazer valer esse tempo. Preparar-se para concretizar o que aprendeu na viagem com Sarah, tomando controlo, deitando as peças deste x[...]



Gostava de ser...

2012-04-09T11:06:11.819+01:00

Que raio de vida é esta, onde já não escrevo, não leio, pouco me rio, e tão pouco passeio?

Já fui um rapaz inspirado, já escrevi umas boas linhas, já tive mais piada, já fui mais satisfeito.

Embora estranha, mas bem presente, esta insatisfação latejante, de uma criatividade encarcerada, de uma criação calejada, de uma vontade em partilhar, em ser, em poder reconhecer e ser reconhecido, num dizer, numa palavra.

Tenho andado cabisbaixo, sem esperança, sem alento, sem qualquer contentamento.

Talvez seja por isso mesmo, por falta de partilha, por falta de criar, de ser, de amar o meu intelecto.

Levei algum tempo, mas acho que hoje entendi. Num mundo mais cinzento em que a vida é quase só trabalho e responsabilidades, a criação de um dizer, de um ditado, de uma singela frase com significado, é a centelha, a mais leve centelha capaz de aquecer algo já há muito esquecido e adormecido.



Ponto de Fuga: ...Onde A Estrada Acaba (VI)

2012-04-06T20:15:09.773+01:00

Recuperava ainda os sentidos lentamente e antes de sequer  abrir os olhos, amargava o sangue ainda fresco nas gengivas. A porta da frente escancarada deixou entrar o bafo quente que me fez levantar de uma vez. Derreado e ferido no orgulho, receava agora qualquer estalo nas costelas, pelo menos aquele que me impedisse de chegar ao telefone. Teria de haver um telefonema. Não. Pregada à ombreira da porta com um punhal, num papel com o número, a mensagem estava entregue. Estes tipos eram negociantes à séria, para seguir à risca. -"Agora já não és tão esperto! Que queres? Queres a tua mulher de volta?" gritava do outro lado do telefone o Comanche - "Que manobra foi essa no Diner?! O teu trabalho é entregar o pacote! Queres entrar na folha de pagamentos, é isso?". Só me restava implorar e suplicar pela segurança de S., enquanto ouvia as suas provocações. Sim, a este ponto rezava para nunca ter acordado dos efeitos da droga e tudo isto não passar de um sonho febril.Abri a caixa, finalmente. Continha um cachimbo, mas procurei dentro do embrulho e lá estavam os papeis, manifestos de carga emitidos pelo Estado do Texas. A minha tarefa era entregá-los ao Armazém na Alameda Avenue, aqui em El Paso. Deveria depois receber novos documentos e entrega-los em Red Rock, no Red Rock Motel, onde - "É ao fim da Main Street e CASO CUMPRAS TUDO À RISCA, até à alvorada de amanhã a encontras viva". Depois de tudo o que tomei por garantido, restava a estrada, essa terra prometida agora nossa salvação.Pisei o acelerador e larguei a embraiagem, naquela fracção de segundo entre movimentos o 442 faz o mundo tremer até desaparecer numa nuvem de pó. A primeira tarefa afigura-se fácil e rápida, no armazém seguem, como formigas no carreiro, sujeitos de tez escura carregando caixotes dos camiões para a zona de descarga. "Boa tarde forasteiro. Faça favor de dizer." inquiriu o indivíduo à minha frente. Suiças e cabelo grisalho escapando-se por baixo do boné, baixa estatura e aparência afável ilibavam Harry de qualquer convivência com actividades criminosas. - "Fiquei de entregar pessoalmente estes manifestos de carga, onde posso encontrar o responsável?" mal acabei a pergunta já a resposta saia cuspida - "Vamos lá para dentro miúdo. O índio não gosta destes negócios debaixo de sol. Queima, se é que me entendes".Aqui começam as complicações, aquelas tão inesperadas e indesejáveis quando a vida quem mais amamos está em causa: Os documentos estavam entregues, mas devido ao seu atraso, teria de entregar a cópia forjada ao camionista que me aguardava numa estação de serviço em West Odessa. Quando está tanto em jogo é complicado racionalizar para procurar a falha no plano e quando não consegues encontrar a falha no plano, simplesmente, falharás. Por muito que conduzisse como fugido do inferno, cortando curvas e batendo no vermelho mais vezes que menos, estava demasiado exposto.O Shooter's Gas and Grill em West Odessa era uma paragem de camionistas no meio do deserto e tirando umas dunas a bons metros, bem como dois ou três poços de petróleo no horizonte, não estava rodeada por nada. Ora, não seria aqui que nos iam apanhar, no céu aberto e ainda à luz do dia. Seria já na noite escura quando investia a cerca de 200 kms por hora em direcção a Bastorp. Cansado e com mais olhos no relógio que na estrada, pensando nela, sofrendo por ela na angústia de não saber, deixado com a ideia de ter sido engolido por uma trama maior que nós os dois. Ao fundo piscam as luzes azuis e vermelhas: estrada cortada, fim da linha e todas as metáforas que não me passaram pela cabeça por ter encontrado naquele borrão de cor lá ao fundo a figura do desespero...Pé a fundo no travão e o carro afunda e contorce-se no asfalto, em câmar[...]



Ponto de Fuga: Datura (V)

2012-01-29T21:39:57.045+00:00

De Las Cruces a El Paso não demorámos uma hora. Até que enfim, o Texas, aquele baluarte histórico do sudoeste americano. A fiesta nunca pára deste lado do Rio Grande e S. queria ficar uns dias para conhecer a cidade e absorver aquela cultura tex-mex. Afinal de que serve correr o mundo se não paramos um pouco para o sentir avançar também. Como uma força imparável que percorre o asfalto, deambulando sem rumo aparente para os que não percebem porquê, os que vivem no medo do seu isolamento ou para os que, simplesmente, não acreditam que haja algo no fim desta jornada.Nos arredores da cidade por entre cactos, nuvens de poeira e pedregulhos, avistamos guarida à lei da estrada. O Beverly Crest Motor Inn é um daqueles locais hitchcockianos, prende-nos desde que o avistamos na estrada, fixando-nos no seu mundo próprio: Três pilares de aço amarelos seguram o seu logotipo de neon em forma triangular; ao lado o edifício da recepção em tijoleira do qual crescem cinco vigas para suportar o avançado que dá guarida ao drive-through; em seu redor ficam os quartos, numa correnteza de casas amarelas dispostas em U; e logo atrás, majestosas e imponentes, as Franklin Mountains. - "Piscina, Televisão, Rádio e Telefone... O nosso pedacinho de céu!" exclamou S., ironicamente, ao ler o sinal.Parámos o carro diante da porta 19 e entrámos. O quarto teria decoração original dos anos sessenta, hoje substituída e renovada, mas manteve o espírito acolhedor. Uma casa-de-banho, uma televisão e uma cama: - "Que surpresa... Não se parece nada com a brochura". Ao olhar para o carro, sorrimos um para o outro - não havia bagagem a carregar - faltava apenas a "encomenda" de J., esquecida na bagageira e irradiando curiosidade. Cúmplices, deixámo-la ficar no cofre, agora era altura de voltar ao volante e partir para as ruas de El Paso.No centro da cidade, por onde Wyatt Earp, Billy "The Kid" ou Pancho Villa caminharam, passeamos pela famosa South El Paso Street. Ao fundo da rua, existe a ponte Santa Fé que liga a Ciudad Juarez, México.  Ao longo do passeio, os prédios antigos partilham a herança cultural latina. Por toda a rua persiste a ideia de nos encontrarmos num colorido mercado ao ar livre. É possível olhar para dentro das lojas e ouvir o dono gritar "Pásale!". Um misto de sabores e aromas paira no ar e tanto cowboys como mexicanos frequentam os passeios lado a lado com homens de negócios e turistas. Por muito que o cenário intrigasse, impunha-se contra a minha natureza: não sou turista, falta-me paciência e inutilidade. Como qualquer homem simples desfaço-me do frete e vou à procura do bar mais próximo. Tragam-me um balcão de madeira, matrículas pregadas à parede e a cabeça de búfalo mais hedionda de todo o Texas que abro lá conta. Ainda assim parece ser impossível de encontrar tal taberna em El Paso: é tudo demasiado ordeiro e para qualquer lado que me vire, eriçam-se os pelos das costas como se andasse a ser seguido. A noite vai caindo nas montanhas e voltamos ao Beverly Crest Motor Inn, cada vez mais longe da folia da cidade, os faróis depressa se tornam uma candeia na escuridão e o roncar do 442 o único barulho de fundo em quilómetros. Empurro a cassete de novo no leitor e suavemente ouve-se o primeiro solo de "I Can't Tell You Why" dos The Eagles. S. encosta-se a mim, trazendo uma sensação de paz e de que tudo está bem com o mundo mais uma vez. Em breve surge à vista o nosso oasis luminoso e, depois de carregados os sacos com vestidos, bugigangas e até um sombrero, fechamos a porta do quarto. - "Querido, quero experimentar uma coisa contigo, só tens de me prometer que não te vais chatear, ok?" confidenciou S.- "Nunca me pediste autorizaçã[...]



Ponto de Fuga: Por Estas Paragens... (IV)

2012-01-21T19:53:07.038+00:00

Sempre achei que não existem estações no Arizona, só o calor algoz do deserto pontuado por raros pingos de chuva. - "Com este calor todo não admira os sacanas gostarem de andar aos tiros!" soltou S. enquanto sacudia o cabelo. O ponteiro marcava 90 mph, mas não sentia uma brisa, como se voassemos numa nuvem de algodão quente. S. tinha uma sensualidade natural: debaixo deste sol queria tirar-lhe os Wayfarers e agarrar-lhe o cabelo, provando-lhe a alma pela pele.  Sentia-me vampiresco, o horizonte parecia um quadro surreal colorido de amarelo torrado com salpicos de verde escuro e toda ela pulsava no vermelho dos meus olhos.- "Não ouviste nada do que eu disse pois não?!" sorria por detrás dos óculos escuros. - "vamos parar nesta bomba de gasolina, refrescamos e chegamos a Tucson à noite. Acordas até lá?". Tinha de fazer algo quanto àquele sorriso gozão.- "Queres-me ver fresco é?" e atirei-lhe com o pouco que restava na garrafa de água.- "Opá cuidado com os estofos!!" guinchou tirando-me a garrafa das mãos para contra-atacar.- "Não te preocupes que caiu tudo em cima de ti!" ria-me com as mãos chegadas à cara e todo encostado, quase fora do carro. Agora sim soprava uma vento agradável...A vida na estrada era assim tão simples: "Reelin' In The Years" no rádio, cerveja na mão e logo chega aquele leve odor a pavimento que, por muito estranho que pareça, foi feito para se beber com malte.Na estrada, as outras pessoas, os outros carros são transeuntes. Alguns acompanham-nos nesta aventura, outros, simplesmente passam ao lado. Aos camionistas que nos apitavam, aos motoqueiros que nos passavam, a todos eles brindámos de Bud na mão.Descendo o Estado pela I-10, Cochise County era o nosso alvo, no entanto caía o entardecer e não tínhamos chegado a Tucson. Um trio de motoqueiros aproxima-se pela retaguarda e no último brinde do dia levanto a garrafa bem alto. Duas chopper e uma Harley. Eles chegam-se demasiado perto, por picardia, por estupidez ou qualquer outra coisa... O maior e mais barbudo solta impropérios que não conheço. Nervosa, S. guina para a direita e a traseira foge. A 160 Km por hora, saímos da berma e a mesma areia quente que abominámos durante o dia voa na direcção das motos, cobrindo-os na cortina. Um despista-se e a força de quatrocentos cavalos do 442 atinge-me em cheio no peito, encostando-me ao banco. Desaparecemos pela estrada fora como sombras na escuridão.Ao pôr-do-sol, saímos da Interstate e enveredamos por uma estrada velha nos arredores de Benson, quando finalmente nos dispomos a entregar o pacote de J., cuja morada remetia a um diner à beira da estrada. Completamente fora do mapa, aguardava-nos uma estrurura em madeira, pintada de modo a imitar aqueles restaurantes típicos dos cinquentas. A pintura desvanecida e seca, tinha estalado e no seu lugar estendiam-se farpas enormes. Em cima o letreiro decalcado em ferro lia "Moonpie Road Stop", ao que à entrada complementava um contraplacado escrito em tinta de spray "Prove a Tarte de Limão em creme merengue: 5$, vale 1$ Gasolina". Para compor o conjunto, dois degraus em escadote cuidadosamente alinhados ao lado um do outro, subiam os clientes à porta.A empregada, equipada com bloco de notas, avental e  rede para o cabelo, era Doris: cinquentona, cansada e ligeiramente áerea, serviu-nos de imediato ainda que não tivéssemos pedido nada. - "Boa tarde meninos, provem um pedaço da nossa especialidade! A tarte lunar leva bolacha, chocolate e..." - o silêncio era desconfortável e assaltou-me a ideia que a cabeleira tipo palha desfeita de Doris tinha razão de ser.- "limão em creme merengue?" vociferámos em uníssono, enquanto a despassarada assentia insistentemente com a cabeça.Não[...]



Ponto de Fuga: O Grande Desconhecido (III)

2012-01-21T12:08:54.824+00:00

“Freedom (n.): To ask nothing. To expect nothing. To depend on nothing.” — Ayn Rand, The Fountainhead

Há uma presença que nos guia, o espectro de um objectivo. Uma atitude. Um modo de estar. Esteve lá desde que nos conhecemos, no entanto levamos anos para o reconhecer. Há um padrão, um circuito de ideias de coisas, atraindo-nos em círculos. Um blusão de cabedal, um olhar de soslaio ou o vento a rasgar aos ouvidos, como agora...

É impossível deixar a grande LA, as saídas multiplicam-se e parece que ficamos no mesmo lugar. A quantidade de caminhos, ramais e junções não parece uma criação humana. Da I-5, pela I-405, fugindo de LAX as estradas são números bem reais. Tantas tentações: Santa Monica, Long Beach, Sherman Oaks, Bel Air ou Beverly Hills. Hollywood é opulento e está presente no imaginário a todo o instante, como se fossemos personagens de todos aqueles filmes... encarnando caras no cenário ou figurantes desfocados.

No rádio vive um pregador, independentemente do posto, forma-se uma amálgama de mensagens com o mesmo destinatário, numa alegre conversa que orquestro com o manípulo: "encontre a luz!; só este fim-de-semana, promoção inédita no hotel Palm Bay; fiquem com a mais recente sensação da pop...; vem daí irmão, abraça a vida; com o patrocínio Dino's Bar & Grill...; ahah e vira-se para mim e chama-me mentiroso!! na cara!!; hoje no Senado...;"
- "pára com isso..." irrompeu S., empurrando a cassete, enquanto a alma de Al Brown profere sem misericórdia "...there ain't no love in heart of the city...". Tão cortantes as suas palavras revelaram a "presença".

Num gesto de necessidade escapista, envolvi-a candidamente num beijo, em que ficámos alheios dos "destinatários", de quem vai para o trabalho, das mães que vão buscar os filhos à escola, das crianças aborrecidas no banco de trás. Já não éramos livres: não pedimos nada, não esperámos nada, mas dependíamos um do outro para fugir. Faz falta alguém em quem tocar para lá da alavanca das mudanças, alguém que nos mude as estacões de rádio, olhando-nos sempre da mesma maneira mesmo enquanto, sujos de escape preto na cara, comemos um hambúrguer gorduroso em cima do tablier.

É um caminho emocionante, ainda que ao mesmo tempo pachorrento, da I-10 em direcção este por Beaumont no Riverside County. Palm Springs mesmo aqui ao lado com as suas moradias de luxo, piscinas e palmeiras enclausuradas no vale. Nunca fui muito do Golf e uma das verdades quase absolutas sobre a California, é que deixando de ver o mar tudo o resto é deserto. O pavimento ferve ao Sol, independentemente dos nomes bonitos, dos centros comerciais e dos aeroportos. Finalmente, o Arizona acolhe-nos pela U.S. Route 60, "The Superstition Freeway".

A estrada é exigente e não nos deixa parar, nem lhe convém, porque à sua berma os cabelos não voam, as mãos não tremem e vida estagna. Com S. ao lado e, finalmente fora da cidade, o ponteiro subia pelos Kms em direcção ao grande desconhecido americano.




Ponto de Fuga: 442 (II)

2012-01-21T12:11:02.484+00:00

Chegados a L.A. o nevoeiro esmaga-nos, assim que se abrem as portas do comboio. A poluição não permanece apenas no ar, corrompe toda a cidade e suas gentes.- "Hey, onde mora mesmo esse teu amigo?" – ela não me ouve e o olhar inquiridor que sobra da minha pergunta desfaz-se num espasmo facial. Não evito o soltar de uma lágrima. Talvez, provocado pelo ar viciado ou quem sabe não seria um pronuncio do que estaria para vir.- "Diz, querido? …o J. mora aqui perto da estação. Não ligues ao que ele diz, ele é mesmo assim".Procurei assentir com o olhar. Não consegui disfarçar a indiferença. A personalidade idiossincrática do J. era mais uma coisa que fazia parte de um mundo onde nem eu nem ela pertencíamos mais. Tudo podia ser ignorado. Em seguida tomámos um taxi.Passámos para um bairro de casas baixas, de grades nas portas e janelas e nitidamente sujo. As casas tinham uma lógica comunitária, havia um pátio grande rodeado pelas habitações de 2 ou 3 andares, a escadaria aberta e os corredores eram de livre acesso. Como as pessoas que lá viviam, o meio parecia descartável e barato.S. esgueira-se pelo buraco de uma vedação de arame que dava para uma parcela de terreno baldio entre 2 prédios. Fugindo pelas ervas e amontoados de lixo, serpenteia até ao outro lado da vedação como se percorresse este caminho todos os dias. Aquela deusa dançando por esse degredo, no seu vestido verde, era uma visão anacrónica de dias de um futuro passado. Dias mais livres, onde a beleza das coisas mais simples era devidamente apreciada.Subimos por umas escadas iguais a tantas por onde passámos e fomos até ao 3º andar. Lá em baixo o pátio dava um aspecto de abandono: a fonte na entrada estava seca e a cor da estátua parecia sumida e seca; a um canto havia uma pilha de ladrilhos, arrancados ou partidos do chão; e dois cactos cresciam no canteiro, cujas rachas deixavam sair fios de terra, estendidos pelas imediações.Enquanto olhava para o pátio, J. assoma-se à porta. Nunca o tinha visto, ainda assim, construí uma imagem dele, ou melhor do que esperava dele: Um ganzado simpático, tipo hippie acabado com filosofias de vida mirabolantes, cabelos e barba compridos em roupão e pijama… Por aí, como se o abandono e degradação do prédio se reflectisse no seu inquilino. No entanto, estava redondamente enganado. J. era um homem careca, de feições envelhecidas para a idade, um dealer excêntrico, mas impiedoso. Os seus óculos e fato de treino de designer deixavam transparecer a sua faceta de pedante.A cumplicidade no cumprimento que dirigiu a S. e a resposta desta aumentou o meu desdém por aquele tipo: “Olá filha!” – “Oi, fofinho…”.Por dentro a casa reflectia um ar espantosamente sóbrio e arrumado, não que estivesse perfeitamente cuidada, no entanto, não havia nada de efeitos zen\new age à drogado místico. Aquele era o lar do “empresário de psicotrópicos e outras substâncias potenciadoras de consciência”, usando a expressão com que J. se caracterizou.“Tens o carro?” – perguntou S. “Claro que tenho! Ainda me ofereceram dinheiro por ele… mas, como era teu…” retorquiu J. em tom fanfarrão.“Já pensaste como vais pagar? Sabes que aos amigos fazem-se favores e tu passaste tanto tempo sem cá vir que nem sei bem se ainda somos amigos” continuou no mesmo tom pedante e fanfarrão.Tive de me conter. Este tipo conspurcava a presença de S. com a sua atitude subtilmente insidiosa. Ela avisara-me antes de sairmos do comboio – “O que quer que aconteça lá tens de ignorar. Só vamos pelo carro. Confia em mim, ok?”. Quando eles entraram para um quarto e fecharam a porta foi a essas palavras que [...]



Ponto de Fuga: Despertar (I)

2012-01-21T12:10:43.290+00:00

Faíscas. Labaredas. Fogo. É isso que dizem quando duas pessoas se envolvem intensamente. Como se existisse uma resistência natural ao acto mais primário da humanidade. Sendo o esforço para o atingir de tal modo avassalador que, logrando-o, tudo o que resta da sua passagem é um rasto de chamas. Acertei? É isso? Ou estou só lá perto? Para mim, nem isso. Mas posso estar enganado, afinal de contas tenho estado a vivê-lo e só agora me apercebi.Com o chiar metálico do comboio nas linhas é S. que me preenche as ideias: espreitando distraidamente pela janela, envolve-me no seu perfume natural de cerejas secas ao sol. Isso existe, ao menos? Se calhar devia. É através dela que contemplo a paisagem, perguntando-me se está realmente a observar o oceano descendo por baixo dos carris, acidentadamente percorrendo a linha costeira. Ou não, estará antes, como eu, absorta em abstracções românticas. Pois, provavelmente não. É disto que falo: não há fogo, nunca houve. Há sim uma segurança e certeza em como viveremos, um no outro. Somos o universo, repleto de possibilidades que já se concretizaram e, só por mera causalidade, o tempo não acompanhou. Ainda. Eis que, para quem recusa a existência de fogo e paixão, parece uma visão bastante calorosa, eu sei.Até no trepidar da carruagem questiono se o balançar dos seus cabelos é real. Quem mais faria isso? Eu não - diria até há pouco tempo. Antes de nos conhecermos, como que entregues a delírios químicos, crispados por ácido e álcool. Vivi o sonho nestas últimas semanas... duas, três... não importa. Ao longo desses devaneios febris construiu-se o meu ideal de mulher. Compondo-se gradualmente até, por fim, acordar ao meu lado.Sei o que estão a pensar: este tipo está completamente apanhado ou claro que a pôs num altar. Nem por isso. Aliás, esta imagem, ideal (ou o que lhe queiram chamar), que apareceu turva e só agora se torna clara e distinta, foi devidamente sujeita a tratamento iconoclasta. Comparada com todas as relações que já vivi e injustamente comparada, visto que se trataram de relações falhadas. Isso devia-lhe ter tirado o encanto. Foi aqui que o fogo ardeu? A paixão? O amor à primeira vista? A atracção fatal?Digo-vos: foi agora, quando candidamente desviou o seu sorriso para a janela e em silêncio descansou a sua mão na minha. Tudo o resto parou para fugirmos, percorrendo o caminho em carris, à beira-mar. Sem horas e sem plano. Paixão? É sonhar e despertar para nos realizarmos no sonho. Tem tanto a ver connosco como com a outra pessoa, consumidos na descoberta e evoluindo com ela. Pedi-lhe reacção e ela ofereceu-a. Naquele dia na esplanada, devo ter corrido todos os lugares-comuns, desbloqueadores de conversa e tudo mais para me fazer ver aos seus olhos. Manteve-se morna e distante, diria até altiva, respondia em monossílabos e escondia o olhar. O meu entusiasmo enfadava-a, queria algo mais: teria concedido a este tipo uma aberta e ali estava ele a pôr-se em bicos de pés e a fazer o pino. - "qualquer um pode dizer essas coisas, é só conversa" pensou, afastando a sua mente para longe do meu paparrear. Como em todos os desastres à espera de acontecer muito depois do choque fica o sofrimento, que durou cerca de vinte minutos, até surgir um daqueles olhares pesarosos para o relógio e o "...vou ter de ir agora, tenho ainda trabalho para acabar hoje. Falamos outro dia". Contam-se dias, meses e anos para evocar um momento excepcional, mas não se contam segundos nem minutos. Os que se seguiram foram determinantes. Peguei num guardanapo e na caneta, escrevinhei: "Pois. Eu também não consegui esperar. Volta para tr[...]



Porque não consigo escrever com regularidade?

2011-10-18T01:09:07.446+01:00

Porque ando tão queimado, que se não fosse saltar à vista a palavra "sexo" nas actualizações dos blogs aqui ao lado, me esquecia de dizer que hoje foi uma p... a pagar-me o almoço. Depois de um post a falar sobre por comer na mesa não sei como ia passando despercebida a ironia.



Condignamente indignado

2011-10-15T21:04:30.283+01:00

Na TV, no FB, na rua, só se fala na crise financeira. Hoje a meio da tarde telefona-me a minha mãe a perguntar se estava bem. Claro que sim, é Sábado, estou em casa deitado e a casa está de pé... porque haveria de ser diferente? "Não ouviste falar na manifestação em Roma? É que estão a haver confrontos com a polícia e cá podia acontecer o mesmo". Realmente, tenho tendência para ignorar as publicações que apelam à revolta popular... não que seja um acomodado, mas que posso eu fazer? Nos últimos anos, antes de se instalar a crise, assisti a dezenas de manifestações, greves e protestos sem consequência prática. Hoje quando Passos e Ciª funcionam a mando de Merkel e Sarkozy Ldª e esses funcionam a toque de caixa da Banca, que por sua vez tem um medo de morte das variações de humor da especulação aka fundos de pensões/grupos de investimento(onde se incluem agências de rating)/grandes grupos económicos, é aqui e agora que pego em mim e vou indignar-me para Lisboa?! Com todo o respeito para quem foi e voltará a ir, não durmo melhor por causa disso, simplesmente porque não se trata de dinheiro.

A crise é uma questão emotiva e pessoal, para quem tem um estilo de vida que lhe está a escapar por entre os dedos, por culpa de quem é pago (e bem pago) para defender os interesses da população. Esses sujeitos/comissionistas são um mal da sociedade moderna. A própria ilusão de que as manifestações dão em alguma coisa é parte do idealismo que nos leva a votar num partido, que até sabemos à partida, não proteger os nossos interesses.

A Democracia é parte da civilização que construímos, parte do estilo de vida que nos levou onde estamos e onde queremos estar. É graças a isso que não andamos a exercer violência para subir na vida, que trabalhamos para comprar comida em vez de a caçar, falamos para ser ouvidos e dormimos com os dois olhos fechados à noite. Não me parece que entrar em confrontos com a polícia e contestar fora de tempo o trabalho que não é o nosso seja o modo correcto de defender um estilo de vida civilizado.

Confesso que não acredito neste regime nem nestas pessoas, mas estar a lutar na rua enquanto eles estão sentados em casa só para os manter lá (saiam estes e entrem outros é igual) é contra-producente. É certo que são corruptos e incompetentes, no entanto, é a corrupção e incompetência que devem ser atacadas, não o cargo. E quer acreditem ou não a única maneira de dar a volta a crise é a lutar no nosso "campo de batalha", a trabalhar honestamente, a inventar modos de produzir bom e barato, a não desistir quando a coisa parece negra e a passar esses valores para os nossos filhos. Vão ressurgir sectores como a agricultura e a pecuária, vamos ter de sujar as mãos e quem sabe trabalhar ao Sábado e ao Domingo, mas vamos construir para nós. A especulação é irreal, a comida na mesa é real. Não há atalhos.   



INCEPTION do ponto de vista da banca.

2011-10-15T20:51:13.959+01:00

Não sou grande fã de teorias da conspiração. Não fico horrorizado ou consternado com as inúmeras teorias do big brother, da manipulação de governos, dos enganos ou esquemas que se montam entre as grandes empresas capitalistas.

Mas fantástico é perceber que só agora é que muita gente começa a acordar do seu sono consumido por uma apatia social embebida no mais profundo mainstream.

Desde que nasci, que o acesso a crédito na banca é como ir encher um copo de água no meio do Furacão Katrina, ou levantar poeira no meio do deserto do Mojave, ou seja e para quem ainda não entendeu a ironia uma coisa tão fácil e previsível como o Marinho Pinto dizer uma idiotice qualquer.

Só agora é que esta maltinha vidrada no consumismo e no facilitismo, começa a entender que a banca andou a emprestar dinheiro que não tinha, e ao mesmo tempo cobrava juros que quem pedia os empréstimos não podia pagar. Nunca ninguém suspeitou que este ciclo vicioso fosse mais dia menos dia descarrilar.

Ora tudo quebra pelo elo mais fraco. E o elo mais fraco é o que estava menos prevenido, e com a cabeça no ar. Como seria lógico a banca não poderia ficar a arder com os juros e os empréstimos que as pessoas não podiam pagar. Então a escapatória é a seguinte, só não obrigam a pagar os valentes montantes de juro, como através do seu fantoche de longa data ao qual chamam de "ESTADO", e da cobrança de impostos acabam por financiar as perdas que têm.

Assim, o Banco A empresta dinheiro ao Sr. B, o Sr. B além de pagar os juros superiores a dois dígitos percentuais, financia a banca através do pagamento dos seus impostos, para que possam continuar a emprestar dinheiro ao Sr. B e à Sra. C, e por ai fora.

Ou seja, esta malta anda há anos a fazer, não de porquinho, mas de vaquinha mealheiro, e a ser bem ordenhada vezes sem conta.

Só começaram a acordar quando as icoisas começaram a ficar caras, e impossíveis de pagar, e ficaram ifodidos, e ilixados com tudo isto, porque começam a prever um ifuturo, no iqueospariu.

Deixem-se estar nos sofás até que os vão ai buscar os senhores de fraque. Deixem-se estar na caminha deprimidos até acabarem por ir dormir na rua, talvez ai acordem para entender que este problema não é de agora, e as soluções nunca são tomadas pelo lado democrata, mas sim por alguém que decide por vós.

Viva a abstenção, o comodismo, e as icoisinhas que vos distraem, enquanto o fantoche dança e a outra mãos vos vai mais uma vez ao bolso.



Getting tired...

2011-10-04T12:51:20.188+01:00

Confesso, tenho saudades do Inverno.

Quando estão 26ºc às 8h30, e agora ronda os 30´s e picos, com vento de leste, em que a brisa se assemelha ao bafo vindo de uma caldeira, não se pode não ter saudades do Inverno.

Quando sou obrigado a andar de fato e gravata o dia todo, deslocar-me a repartições públicas e tribunais, e apenas sinto o latejar no topo da cabeça a escaldar, para além do imenso calor e do inconveniente da humidade, penso....

Porque raio é que as publicidades de desodorizantes são com desportistas? Deviam ser feitas com gajos engravatados a fazer uns km's a pé de tribunal em tribunal ou de repartição de finanças a conservatória do registo civil.

Odeio o calor...com excepção dos dias de praia.



Constatação, sem intenção de ofender.

2011-09-30T14:07:56.126+01:00

As mulheres são um "bicho" muito sério.



Com os cabelos brancos, começam as perdas de capacidades e habilidades.

2011-09-30T14:06:15.724+01:00

A minha masculinidade está intacta, mas o meu bom gosto pelos vistos não.

É recorrente a tentativa de escolher uma peça de roupa, uma jóia, um perfume, ou algo para uma mulher, seja namorada, a amiga, para a mãe ou a irmã, e no fim receber o feedback de um sorriso relativamente simpático ao qual apelidei "não quero ser mal agradecida mas isto não é bem o meu estilo".

Costumo apontar sempre ao lado em relação ao gosto da presenteada, gosto de coisas discretas e com uma certa classe, mas pelos vistos na genese de uma mulher, está o lado chamativo que quer atrair os olhares.

Já tive tempos em que acertava com os gostos, e pensava conhecer minimamente a psique feminina, hoje em dia chego à conclusão que não tenho o mínimo jeito para isto.

Um dia sei que vou chegar a um ponto, aquela maneira de estar de alguns homens que desistem de tentar escolher e limitam-se a sorrir na hora de pagar.

Um dia vou aderir aos vales prenda, e ao pagamento, renego as surpresas materiais, mantenho-me apenas nas emocionais, levo o romantismo meramente para os gestos e acções, e no que diz respeito a prendas e bens materiais, troco a surpresa pela satisfação de poderem escolher algo que gostem.



Retro-introspectiva

2011-05-26T13:28:21.779+01:00

Confesso que se o Zica não tivesse assinalado a data, mais do que provavelmente iria passar-me ao lado. 8 anos. Parece que ainda nos estou a ver (no bar da faculdade, claro) há oito anos, ainda mal sabendo o que era um blog, a falar de "Coisas que os portugueses não querem ouvir...". Hoje em dia já não falamos tanto, porque se calhar também não queremos ouvir. Ouvir, o que já sabemos, o que não queremos saber, pois falta tempo ou estamos cansados ou há quem nos diga ao ouvido. Ainda assim, o blog aqui está e foi resistindo durante oito anos, talvez já mereça reforma, no entanto a ideia de perder esta constante virtual seja demasiado desconfortável.

Este blog é para mim, uma homenagem ao espírito dos tempos em que estávamos juntos todos os dias. Como um Zeitgeist cristalizado no espaço e no tempo, valendo cada post como um desabafo inconformista, não pelo seu conteúdo, ao invés pelo próprio acto de ter uma "personalidade virtual" que fala sem se preocupar com quem ouve. Fossem dirigidos a um político, professor, familiar e até a nós próprios os textos eram despreocupadamente publicados e interpretados.

Digo-vos com saudade que nos gostei de ver crescer na internet, de nos ler a pensar ou a aparvalhar. A cada dia as nossas palavras foram ganhando um pouco mais de eco e cada vez mais merecedoras de serem ouvidas. Por isso, mais ponderadas e sérias, a ficção cada vez mais um reflexo da realidade pensada e o silêncio um escape. Será esse um dos motivos para que o meu primeiro post desde há meses seja um devaneio saudosista. Só interessa a quem dele partilha.

Pela minha parte, e mesmo não fazendo parte do blog durante estes anos todos, mas fazendo deixo um abraço a alguns dos visitantes que por aqui passaram ao longo dos anos: Master_Zica, Pedro, Ganzas, Kikas, Maria, Dexter, Jedi Master Atomic, X-Wife, Tweeny Blue, Bia, Corset, Rui Brás, e tantos outros e outras que me estou a esquecer. Até para o ano!



Amanhecer Sangrento em Red Rock Hills

2011-03-14T18:36:02.193+00:00

Um som agudo e perfurante no altifalante irrompeu pelos ouvidos do comando da Polícia de Bastorp County, para logo em seguida se desfazer em ruído morto… a chuva caía em Red Rock Hills. Estavam presentes o comandante Joe Harding, os tenentes Watts e Bufford e a operadora de rádio Layla Moore. Todos sem excepção sabiam o que aquele blackout electrónico significava: o Detective William “Billy” Gaines estava comprometido…Há meses que o Detective Gaines trabalhava infiltrado no gang de motoqueiros a operar no condado. Relativamente recentes na zona, estes arruaceiros de bar procuravam subir na vida “fiscalizando” a mercadoria dos camiões que saíam da Interstate 75. Eram chefiados por um sacana feio, porco e mau, de nome Don “The Ratchet” Miller. Sob a sua liderança, os “Steer Kings” como se chamavam, duplicaram o número de arruaças nocturnas e sextuplicaram a percentagem de assaltos violentos no Condado. Nessa noite, o trabalho de Billy chegaria ao fim com a apreensão do núcleo duro do gang, que festejava em plena pandêga no "Red Rock Motel", depois se terem apoderado de um carregamento de oxicodona seguindo para distribuição farmacêutica em Dallas. Sequestrando o camionista nesse processo.Billy havia informado a polícia da sua localização e aguardava apenas a confirmação de "The Ratchet", sobre a localização da droga. Com a dança macabra de álcool, violência e deboche, Billy pressiona o líder...- P'ra quê a sede de informação puto?! 'tás a querer mais qua tua parte é?! - vociferava o sujeito grandalhão, já com a veia da testa a pulsar por entre o suor e sebo que lhe caíam do cabelo.- Nada disso! Chibo é que na sou! ...dass 'tou a tentar ajudar... e se nos apanham aqui ca "cena" tamos lixados! Porra que tou nervoso chefe! - retoquiu Billy numa actuação digna de Óscar.- Cab... deste maricas! queres tomar conta da cena vai buscá-la a estes gajos todos! - gritou, apontando para a horda de arruaceiros que povoavam o quarto 10 do Motel - bebe esta m... antes que ta parta na cabeça - e terminou enfiando no peito do Detective uma garrafa de Jack Daniels, com tanta força que lhe partiu o microfone.Segundos depois, Joe Harding dava ordem ataque aos 5 carros patrulha que aguardavam sorrateiramente nas imediações do "Red Rock Motel". Para este polícia frio e calculista, Billy estava em apuros, talvez até morto e tudo indicava que havia vestígios da droga no Motel. Facilmente poderia ligar a mesma ao camião roubado e como bónus, Ratchet cumpria prisão por uma série de crimes, desde roubo a homicídio. Agora que estavam bêbados, drogados e relaxados seria a melhor hora para os apanhar.- Dá a ordem Layla! Vamos para lá! Watts, Bufford... tragam os coletes. - comandou Harding em tom seguro e confiante.Já no estacionamento do Motel, o Sargento Hawkes liderava a operação - É a polícia! Deponham armas e saiam em fila indiana com os braços na nuca! Caso não cumpram em 5 minutos, serão invadidos e forçados a tal!- Agente Mullins! Preparem-se para atirar caso estes atrasados se armem em espertos. O primeiro que sequer mexer os braços ou começar a correr come chumbo! Entendido? - comunicou o Sargento ao subalterno.Lá dentro, Ratchet ignorava por completo quem era Billy e encontrava-se numa fúria cega, arremessando cadeiras, mesas e até membros do gang que lhe aparecessem à frente - Rapazes, irmãos! Fod... esses filhos da p...! Cara... que[...]



Breve reflexão.

2011-01-20T08:51:29.719+00:00

Breves constatações sobre as presidenciais.

Fernando Nobre - Passou-se, a politica claramente não é o seu mundo, começou com palavras mansas sobre a politica do amor, e acaba a pedir tiros na cabeça. Por muito boa pessoa que seja, por muito bem que tenha feito, acabou por se tornar no pior candidato possível, de uma instabilidade e incoerência no discurso, puxando por si para o que não foi feito para ser...político de arraiais.

Manuel Alegre - Cada vez mais pateta, cada vez mais chorão, a campanha de vitimização fica-lhe mal, entrou em danças com o Cavaco numa disputa ali a roçar as brigas do liceu, mas nesses tangos que foram dançados, Alegre foi sempre conduzido pelo Cavaco. Não tem estofo nem perfil para Presidente, falta-lhe agressividade bem direccionada, falta-lhe um lado fuinha de político.
No fundo e por muito mau que seja dize-lo, faltam-lhe tomates.

Cavaco Silva - O profeta da desgraça, é o seu constante papel. Nunca vi ninguém que tivesse contribuído para a crise, e ao mesmo tempo usado e abusado da crise para se promover. É aquele tipo que cria as galinhas desde pintos, para depois as violar. Não passa optimismo, apenas propaga as vozes da crise e da desgraça, mas no entanto acha que pode ser a solução. Era de esperar um pouco mais de maturidade, um pouco menos de política de arraial, poderia e devia transmitir mais segurança, mais estabilidade, mas invés disso, encarna o papel do capitão que abana o barco e ainda sorri quando vai homem borda fora.

Francisco Lopes - Quem?

Defensor Moura - Creepy...

Coelho Tiririca - Bom circo para terminar um dos comícios do Cavaco.

Rato Mickey - Tem desde já o meu voto. RATO MICKEY NA SEGUNDA VOLTA.