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letras são papéis



que a chuva molha, que o fogo consome, que o vento leva, que o tempo apaga...



Updated: 2017-11-21T15:17:35.765+00:00

 



Das publicações visitadas

2017-11-20T12:48:44.655+00:00

Sós, eternamente Estamos sós. Não o negues. Os amigos chegam, ruidosos e afáveis, com risos e migalhas de tempo. Partilham memórias de infância, alegrias e angústias presentes. Ofertam fruta e compotas. Sentam-se à nossa mesa para brindar ao amor ou à vida. A felicidade em fatias. Chegada a noite, recolhem escombros e partem. Sós. Eternamente. Como nós. deep, (talvez) Setembro de 2017 Este devaneio, que publiquei aqui no dia 12, tem motivado repetidas visitas a este blogue. Curiosamente, esse post não tem um único comentário. Confesso que fico curiosa sobre os motivos, bons ou maus, que trazem pessoas aqui. [...]



Não quero

2017-11-19T12:55:36.990+00:00

Surripiado do mural de Facebook da autora:
Não quero enganar o tempo,
ser eternamente jovem,
mas envelhecer com calma,
ter raízes e folhas, ser lugar de fazer ninho,
abrigar pássaros, tão frágeis os pássaros,
dar frutos e beijos nas bocas que importam,
perceber como mudam as estações,
fazer as viagens sem pressa,
provar o vento, o mar, a neve, a chuva,
perceber as coisas simples,
as mais difíceis de perceber,
o mistério do amor, da amizade,
dos olhos o brilho e dos sorrisos involuntários.
Não quero ser o primeiro da fila,
um atleta de competição, um funcionário modelo,
não preciso de muitas coisas nem de muitas certezas,
que nas minhas costas, a somar ao lirismo, digam
que não ando em cardume,
que sou uma pessoa decente,
uma pessoa de poucos vícios,
tabaco, livros, discos, gatos, sapatos, amigos,
das que despreza a avareza,
que se comove com a bondade,
com o invisível da beleza,
com a ignorante inocência da adolescência.
E não quero ter vergonha
da minha inexplicável tristeza,
de chorar demasiadas vezes,
de esconder do avesso a dor,
das minhas dúvidas e das minhas dívidas,
de cumprir o que prometo,
do meu perene cansaço,
de me vestir em frente a um espelho,
de perceber o peso das palavras,
de não ter quase nada para dizer,
do tamanho do meu silêncio,
de andar contigo de mãos dadas na rua,
de ter de mim tamanha saudade.

Raquel Serejo Martins



Não é mais nem menos forte conforme as idades

2017-11-16T00:57:40.207+00:00

Palavras de José Saramago, que nasceu num dia 16 de Novembro (1922):
«Aprendi que o sentimento do amor não é mais nem menos forte conforme as idades, o amor é uma possibilidade de uma vida inteira, e se acontece, há que recebê-lo. Normalmente, quem tem ideias que não vão neste sentido, e que tendem a menosprezar o amor como factor de realização total e pessoal, são aqueles que não tiveram o privilégio de vivê-lo, aqueles a quem não aconteceu esse mistério.»



Back in the crowd

2017-11-14T00:13:01.433+00:00

allowfullscreen="" frameborder="0" height="270" src="https://www.youtube.com/embed/ZCbPkr9AEG4" width="380">

If you don't want these arms to hold you
If you don't want these lips to kiss you
If you found someone new
Put me back in the crowd
Put the sun behind the clouds
Put me back in the crowd

There's a battle going on between the blue and the grey
And if you don't want my love; don't make me stay
There's a battle going on between the blue and grey
And if you don't want my love; don't make me stay

Take back your name
Take back these wings
Take my picture from the frame
And put me back in the crowd

Put the sun behind the clouds
Put me back in the crowd
Put the sun behind the clouds
Put me back in the crowd



O soto

2017-11-13T17:54:51.926+00:00

Os pesos da balança do soto da tia Na aldeia havia dois: o soto do senhor A., que herdara do pai, um senhor de cabelos brancos com o mesmo nome, e o soto da tia, a quem todos os sobrinhos nos referíamos por "a tia do soto", uma vez que já geria aquele espaço quando nascemos. No soto, vendia-se um pouco de tudo: mercearia, utensílios de latão e de plástico, lãs, atoalhados, galochas, pregos, produtos de higiene e petróleo para as candeias. No soto também se vendia vinho a copo ou a quartilho, porque ambos os sotos eram também taberna, onde os homens se juntavam e onde, por vezes, iniciavam discussões, que resultavam em pancadaria ou facada. No soto do senhor A., o espaço do comércio e o da taberna eram o mesmo. O soto da tia comunicava com a taberna, através de umas escadas. Os fregueses entravam por uma porta exterior. Neste espaço, feudo dos homens, mulheres e crianças só entravam quando os mandavam comprar vinho. Em ambos os sotos, havia pesados balcões de madeira, aos quais o tempo e o uso tinham desgastado e emprestado um certo brilho, prateleiras até ao tecto, pequenas tulhas, que guardavam alguns produtos a granel. Não faltavam as balanças e os pesos e o papel grosso, por vezes listado, onde se embrulhava o bacalhau, ou o custaneiro, usado para o queijo. Na aldeia, as pessoas tinham preferência por um dos sotos, por simpatia ou lealdade aos propriétários. Quando precisavam de alguma produto que sabiam vender-se num deles, que não era o da lealdade ou simpatia, pediam a alguém que comprasse o que precisavam em segredo, como se fosse para a pessoa, ou iam as próprias, "à escapula", fazer a compra, convictas, como gato escondido com rabo de fora, de que não tinham deixado rasto. Lembro-me que as raparigas um pouco mais velhas do que eu iam ao soto, a medo, comprar pensos higiénicos «Modess». Se calhava estar um homem ao balcão, o que acontecia frequentemente no estabelecimento do senhor A., voltavam para casa com outro artigo. Na semana da Páscoa, quando as mulheres passavam o dia no forno, a amassar e a cozer folares e calços, o soto era lugar que, a pedido das mães, as crianças mais visitavam, para ir buscar manteiga, bicarbonato ou fermento para os folares, ou petróleo para a candeia, quando o trabalho era maior do que o dia. Na porta do soto não havia, como hoje, a indicação da hora de abertura e de fecho. O soto abria, mesmo aos domingos e feriados, quando alguém precisava de alguma coisa. Bastava bater na porta dos proprietários. Durante os dias que passávamos na aldeia, pouco mais de um fim de semana, nas festas, ou quase um mês no Verão, a minha mãe fazia as compras no soto da irmã. Esta tinha, como era então hábito, um livro de deve e haver, onde assentava as compras e os preços. No dia em que regressávamos à vila, a minha mãe costumava ir pagar o que devia e que estava registado no tal livro. Antes de fechar as contas, costumava pedir à minha tia que pesasse bolachas, torradas ou maria, que vinham em caixas e se vendiam ao peso, e queijo, de barra ou de bola.  Entretanto, os sotos fecharam. Estes foram substituídos por uma modesta mercearia e as tabernas pelo café, espaço que homens e mulheres partilham quase em igualdade e onde raramente se vende vinho. Soto - s. m. [Portugal: Beira; Trás-os-Montes] Estabelecimento comercial (Dicionário Priberam) [...]



Fifty-fifty

2017-11-12T19:24:30.140+00:00

Pela metade, quando muito, a fruta:
a metade de maçã, ácida e suculenta,
a metade da laranja,
que dividimos gomo a gomo,
o melão partido em talhadas generosas
nos almoços demorados de verão.
Pela metade
a gulosa fatia de um bolo,
o café bebido a meias.
A metade da cama,
a metade da mesa.
Nunca o amor, nunca a vida,
pela metade.
De ti, não quero a metade do rosto,
a metade da atenção,
a metade dos beijos,
a metade do coração,
a metade de uma canção
que me embale... pela metade.
Quero, de ti, um chocolate
partido ao meio,
fifty-fifty de prazer e sacrifício,

meio doce, meio amargo.

deep, (talvez) Agosto ou Setembro de 2017



Produção caseira

2017-11-12T19:21:18.565+00:00

Sós, eternamente

Estamos sós.
Não o negues.
Os amigos chegam,
ruidosos e afáveis,
com risos e migalhas de tempo.
Partilham memórias de infância,
alegrias e angústias presentes.
Ofertam fruta e compotas.
Sentam-se à nossa mesa
para brindar ao amor ou à vida.
A felicidade em fatias.
Chegada a noite, recolhem escombros
e partem.
Sós. Eternamente.

Como nós.

deep, (talvez) Setembro de 2017



That leaving feeling

2017-11-12T00:11:20.566+00:00

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«We all have dreams of leaving
We all wanna make a new start
Go and pack a little suitcase
With the pieces of our hearts
All those worries and those sorrows
We can just dust them away
Buy a coffee and a paper
And go step on to a train»



A vida dos outros

2017-11-08T21:31:36.203+00:00

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A propósito da queda do muro de Berlim, que se celebra amanhã, fica a sugestão.



Antes fosse passeio

2017-11-05T10:03:59.157+00:00







Com os pés no Outono e as mãos no trabalho...




Tree of life

2017-11-03T08:48:57.081+00:00

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Antes o mito

2017-10-30T19:35:51.085+00:00



(Pintura de Erica Hopper)
Somos muitas vezes Penélope
tecendo, não a esperança,
mas as horas que suprimem
a presença de Ulisses

Não é o herói de Tróia
que esperamos.
Antes o mito.

Deep, março de 2017

Tosco devaneio resgatado do baú...



Livrai-me

2017-10-30T19:17:54.628+00:00

Livrai-me, Senhor,
De tudo o que for
Vazio de amor.
Que nunca me espere
Quem bem me não quer
(Homem ou mulher).
Livrai-me também
De quem me detém
E graça não tem,
E mais de quem não
Possui nem um grão
De imaginação.
Carlos Queirós



3 Comentários

2017-10-30T13:15:52.233+00:00


Samuel, o narrador-protagonista de "A invenção do amor", de José Ovejero, refere-se aos amigos:

«Adoro as nossas discussões inúteis, o gozo da repetição, que nos recorda quem somos. Não conversamos para chegar a uma conclusão, mas para ouvir os outros a rebater qualquer argumento nosso, saber que podemos contar com eles, que não nos vão deixar sozinhos com as nossas contradições.»

«Dá vontade de os abraçar a todos, de os consolar, de os amar por se encontrarem tão perdidos.»



Entre nós e as palavras

2017-10-29T19:02:50.847+00:00

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Cesariny na voz de um amigo, que é também o autor das imagens e de toda a composição.



All girls should...

2017-10-29T14:46:31.500+00:00

All girls should have a poem
written for them even if
we have to turn this God-damn world
upside down to do it.

Richard Brautigan



Ah, um soneto...

2017-10-26T15:58:44.142+01:00

Meu coração é um almirante louco Que abandonou a profissão do mar E que a vai relembrando pouco a pouco Em casa a passear, a passear… No movimento (eu mesmo me desloco Nesta cadeira, só de o imaginar) O mar abandonado fica em foco Nos músculos cansados de parar. Há saudades nas pernas e nos braços. Há saudades no cérebro por fora. Há grandes raivas feitas de cansaços. Mas — esta é boa! — era do coração Que eu falava… e onde diabo estou eu agora Com almirante em vez de sensação?... Álvaro de Campos, Livro de Versos [...]



Cores de outono

2017-10-24T17:36:44.889+01:00





Estou cansada

2017-10-24T16:04:42.946+01:00


«Estou cansada, diz.
São só três quilómetros, diz Elisabeth.
Não me refiro a isso, diz a mãe. Estou cansada do noticiário. Estou cansada do modo como torna espetacularss coisas que não o são e da maneira simplista como aborda o que é verdadeiramente aterrador. Estou cansada do azedume. Estou cansada da raiva. Estou cansada da mesquinhez. Estou cansada do egoísmo. Estou cansada de nada fazermos para lhe pôr fim. Estou cansada do modo cono o encorajamos. Estou cansada da violência que existe e estou cansada da violência que está a caminho, que aí vem, que ainda não aconteceu. Estou cansada de mentirosos. Estou cansada de mentirosos santificados. Estou cansada de como esses mentirosos permitiram que isso acontecesse. Estou cansada de ter de me perguntar se o fizeram por estupidez ou se o fizeram de propósito. Estou cansada de governos mentirosos. Estou cansada de as pessoas não quererem saber se lhes continuam a mentir. Estou cansada de me ver obrigada a sentir-me tão apavorada. Estou cansada da animosidade. Estou cansada da pusilanimosidade.
Não creio que essa palavra exista, diz Elisabeth.
Estou cansada de não saber as palavras certas, diz a mãe.»


Ali Smith, Outono

Trouxe daqui as palavras com as quais, mais do que nunca,me identifico. 

Obrigada, Carriço, pela partilha e... desculpa o roubo!



Cala-te, voz

2017-10-24T00:22:33.878+01:00

Cala-te, voz que duvida
e me adormece
a dizer-me que a vida
nunca vale o sonho que se esquece.
Cala-te, voz que assevera
e insinua
que a primavera,
a pintar-se de lua
nos telhados,
só é bela
quando se inventa
de olhos fechados
nas noites de chuva e de tormenta.
Cala-te, sedução
desta voz que me diz
que as flores são imaginação
sem raiz.
Cala-te, voz maldita
que me grita
que o sol, a luz e o vento
são apenas o meu pensamento
enlouquecido...
(E sem a minha sombra
o chão tem lá sentido!)
Mas canta tu, voz desesperada
que me excede.
E ilumina o Nada
com a minha sede.
José Gomes Ferreira, "Heróicas XXXVI"



Com o tempo

2017-10-22T09:51:59.982+01:00

allowfullscreen="" frameborder="0" height="244" src="https://www.youtube.com/embed/ZH7dG0qyzyg" width="359">

«Avec le temps...
Avec le temps, va, tout s'en va
On oublie le visage et l'on oublie la voix
Le coeur, quand ça bat plus, c'est pas la peine d'aller
Chercher plus loin, faut laisser faire et c'est très bien»


Em repetição por aqui...



Outono

2017-10-22T09:43:17.124+01:00





A espera 2

2017-10-19T21:22:28.425+01:00

Conto até cem e, se não chegares antes dos cem, vou-me embora. Não chegaste antes dos cem. Conto de cem a um e, se não chegares antes do um, vou-me embora. Não chegaste antes do um. Conto dez automóveis pretos e, se não chegares antes dos dez automóveis pretos, vou-me embora. Não chegaste antes dos dez automóveis pretos. Nem antes dos quinze taxis vazios. Nem antes dos sete homens carecas. Nem antes das nove mulheres loiras. Nem antes das quatro ambulâncias. Nem sequer antes dos três corcundas e, entretanto, começou a chover.

António Lobo Antunes

Mais sobre a espera aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aquiaqui e aqui.



A espera 1

2017-10-19T13:31:58.699+01:00

Sentou-se e esperou. Esperou pelo autocarro, esperou que a chuva passasse, esperou que a mulher o visse, esperou que os filhos o compreendessem, esperou que o chefe lhe reconhecesse valor, esperou por dias melhores. Percebeu que estava na paragem errada. Levantou-se e correu. Ainda estava a tempo de se apanhar.

nanocontos



Se eu agora inventasse o mundo

2017-10-17T20:31:09.403+01:00

Se eu agora inventasse o mundo
criaria a luz da manhã já explicada
sem o luto que pesa
na sombra dos homens
- conspiração da noite 
com as pedras.
[...]
José Gomes Ferreira, Elegia fria com lírios inventados