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O Destro & O Canhoto





Updated: 2018-01-24T08:55:05.977-04:00

 



PAGANDO O PATO

2008-05-19T16:21:22.865-04:00


Desta vez o leitor participa. A última frase do conto está em branco, para quem quiser sugerir. Na primeira consulta que fiz por e-mail, vieram respostas das mais politicamente corretas às mais irônicas. Qual seria a sua frase? O que você diria?


- Eu quero um pato.

Júlia foi enfática, como toda criança birrenta. E não teve Cristo que a fizesse mudar de idéia.

Maldita visita da escolinha ao sítio, pensei.

Geremias logo estava entre nós. Com suas penas delicadas, seu grasnar suave e seu rebolar engraçado, que Júlia imitava o tempo todo. O novo animal de estimação era pura atitude e personalidade. Cagava e andava. Literalmente.

O bicho foi crescendo cada vez mais. E cagando cada vez mais também. E como cagava. Quack, quack, ploft. Quack, quack, ploft. Soltava suas penas enormes, seu grasnado estridente e suas fezes por toda a casa.

Apelei. Disse que ele estava triste, o pobre. Prometi que ele não viraria assado, mas que ele precisava estar entre os de sua espécie. Achei dois livros de histórias infantis que jogaram a meu favor. Júlia acabou aceitando que seus bichos de pelúcia não eram a melhor companhia e, seu quarto, o melhor ambiente para o desenvolvimento da ave.

Marcamos a despedida. Seria no lago do parque, onde viviam muitos outros patos como Gê, mas que não defecavam no meu carpete e nem saltavam do armário quando eu abria a porta.

No dia, Júlia conversou meia hora com Geremias. Entendiam-se bem, os dois. Prometeu vir visitá-lo e tudo mais.

Cumprido o ritual, Júlia colocou o bípede na água, devolvendo-o ao seu habitat natural.

Mal começou a nadar quando os demais patos se aproximaram amistosamente, como se recebendo o novo membro do bando.

Júlia abriu um sorriso e eu suspirei, aliviada.

- Viu só, minha filha...

Antes que eu pudesse concluir a frase, os animais o cercaram e o ataque ao intruso começou. Bicaram Geremias, que agonizou, até a morte.

- ... SUA FRASE AQUI


O Destro




ALMOÇO DE DOMINGO

2008-05-14T12:53:21.960-04:00

A expressão blasé da garotinha não transparecia a força com que agarrara as genitais do tio por debaixo da mesa. A família, reunida para o almoço de domingo, não percebera o que se passava ali. Desde o reencontro com o tio, dias antes, a menina passou a acreditar que tinha anos suficientes para dedicar boa parte das suas horas aos pensamentos que, dali por diante, cultivaria por ele. Túlio, no auge dos seus 31 anos, nem desconfiava das intenções da sobrinha. Até a mão da garota aproximar-se do seu joelho.O reencontro acontecera em uma calorosa tarde do mês de janeiro. O termômetro denunciava 30 graus. Mergulhado sob a água da piscina, o corpo da garota já apresentava os primeiros sinais da puberdade. O almoço de domingo – principalmente a essa época do ano – era motivo de casa cheia. Acostumada, mal percebera a presença de Túlio, o tio, recém chegado da viagem de seis meses pelo exterior. No instante em que o olhar da garota atravessou o pátio e cruzou com o corpo do jovem rapaz, um arrepio correu-lhe a espinha. Apoiada sob a beira da piscina, Joana era a imagem do desconcerto. Algo mudava dentro dela. E, enquanto gotículas d’água escorriam pelo rosto da mocinha, iam embora também seus sonhos de criança. “Pura babaquice”, repetia.Na mesma tarde, em frente ao espelho do quarto, Joana acariciava-se. Pensava no tio. No sol que iluminava a face do tio. Nas mãos fortes do tio. Nos braços que envolveram seu corpo em um longo abraço, logo que ela saiu da água para cumprimentá-lo. Na saudade que nem mesmo ela sabia que sentia dele. E, desde os segundos iniciais daquele instante misterioso – quando algo se modificara –, a garota não barrou um pensamento sequer. Vivia-os. Sentia-os. Como uma jovem donzela. Como tinha de ser.Os dias nasciam e morriam sem que Joana percebesse o real significado daquele desejo. E nem para onde ele a levaria. A cada visita, a cada abraço carinhoso, a cada momento a sós com o tio, Joana consumia-se. Faltava-lhe ar, faltavam-lhe mãos para agarrá-lo e leva-lo para dentro de si. Faltava-lhe coragem. “E aí garotinha, como vai a escola?”, dizia o tio para a sobrinha. Ela odiava que ele a tratasse como criança. Fechava o rosto e respondia, ríspida: “Bem”. Juntava as mãos e apertava os dedos. Puro ódio. Amor puro?O fato é que Joana desabrochara. Para o amor. Mais: para o sexo. E, mesmo sem qualquer experiência, era enfática: “Eu quero”. Determinada, a garota seguiu, dia após dia, até o almoço daquele domingo, quando o tio sentou-se ao seu lado na mesa. Enquanto a família comungava da presença uns dos outros, Joana suava. Pensava. Queria. Trêmula, a mão da jovem encontra o joelho do rapaz. “Tio, me alcança a salada”, disse, deslizando a mão pela coxa e chegando até o pênis do jovem. Túlio ficou imóvel, com o prato de salada em uma das mãos, os olhos arregalados e o rosto vermelho. Por debaixo da mesa, Joana segurava e acariciava aquele objeto de desejo que a fazia arder. Parecendo não crer no que ocorrera, Túlio trouxe o prato de salada para perto de Joana, afastou a mão da garota, olhou no fundo de seus olhos, e saiu.Minutos depois, Joana encarava-se, novamente, no espelho do quarto. A lembrança do olhar de indignação do tio doía e misturava-se às lágrimas que escorriam pelo rosto da menina. Ali, esvaiam-se seus desejos. Foi aí que ela desceu as escadas, atravessou a casa e chegou até a beira da piscina. A família – mesmo sem entender a saída de Túlio – almoçava.Ninguém compreendera a morte da garota. Nem o porquê de não conseguirem salvá-la. Túlio, o tio, sentia-se culpado. Não encontrava razões para explicar esse sentimento. Pelo resto dos dias, aos domingos, aqueles almoços nunca mais foram os mesmos.O Canhoto[...]



CONCLUSÕES DA IDADE

2008-03-17T15:07:39.511-04:00

Acho que o mais intrigante é perceber que, quanto mais o tempo passa, mais duras ficam as pessoas. Sempre fui fiel aos meus pensamentos, mas quando me diziam que eu ainda iria aprender muito sobre essa coisa chamada “amor’, eu virava as costas e tapava os ouvidos – como se eu não precisasse aprender nada com os outros. A essa altura do campeonato, já não sei avaliar se todas as teorias que foram jogadas em meus braços são verdadeiras. Não sei se aquilo que eu acreditava piamente nunca passou de uma grande besteira. Não sei dizer se as pessoas deixam a leveza de certos sentimentos de lado em prol de algum benefício divino.
Vestir uma armadura é mais confortável?
Qual é a graça dessa piada?
Por que o tempo insiste em endurecer o ser humano?

Quando penso na quantidade de vezes que escutei a frase “deixei de acreditar no amor”, saída da boca de pessoas tão diferentes – e TÃO especiais pra mim – nos últimos meses, páro e, por incontáveis segundos, fixo meu olhar em algum ponto qualquer. “Que porra é essa?”, digo. Ok, essa não é a pergunta mais apropriada. Mas, convenhamos: nesse caso, qual é o questionamento mais coerente? Mais sensato? E qual é a melhor resposta?
(image)
Daqui há 13 dias completo trinta anos de vida. Não, não estou em crise. Mas chego a esse ponto de minha estrada com a notória sensação de que amar pode não valer tanto a pena assim. Aos amigos que me lêem e que me conhecem realmente, essa confissão vai soar um tanto quanto estranha, eu sei. Se eu endureci? Não sei. É uma fase? Talvez. É mais um desabafo do Thiago? Sim, mais um! Não gostou? Problema é seu.


Em que momento deixa-se de crer em um sentimento que, por séculos, tem sido taxado e elevado aos céus como “o mais belo” de todos? Juro, não sei. Mas gente, essa é a vida real! Acontece mesmo!! E aqui, à beira de completar três décadas de existência, chego à conclusão de que, sinceramente, eu esperava que isso fosse demorar um pouquinho mais pra acontecer comigo. O fato é que cansei desse meu coração mole. Cansei de escutar “que bacana esse seu jeito intenso de sentir” ou “como é legal amar assim, sofrer assim”. Legal porque não é contigo, ok??? Saturou. Não quero sentir mais nada desse jeito, não pretendo mais dedicar horas a alimentar desejos ou emoções, e nem tenho mais idade pra isso. Sim, estou em crise!! (No comments about that, please!)

Quando eu tinha 18 anos (hã...virou fixação esse papo de idade??) escrevi uma crônica para um jornal cujo título era: “Pra quem não ama”. Nela, apresentava o meu ponto de vista sobre o lado positivo de não amar ninguém. De estar só e feliz. Lembro-me que uma das frases (talvez mais coerente do que qualquer outra que eu já tenha escrito aqui), dizia: “ficar sozinho é ótimo, pois é o melhor momento para você ficar próximo de você mesmo”. Soa piegas? Pode até ser. Mas ameniza um pouquinho desse meu sentimento e de uma certa dor que insiste em martelar aqui dentro.

O Canhoto





Eu não sei mais.

2008-02-14T07:37:51.145-04:00

(image)

Eu não sei mais. Não sei mais se existem problemas. Ou se não existe outra coisa na vida além deles. Não sei mais se resolver uma questão é achar uma solução. E se achar uma solução é vencer, ou morrer. Eu não sei mais. Não sei mais o que me move. Não sei mais se são questões, problemas, soluções ou nada disso. Não sei mais O QUÊ é isso de que falo. Não sei mais se me fechei e me contive, ou se me diluí. Se prendi todo amor do mundo aqui dentro, se ele está todo lá fora e eu não deixo entrar ou se, ao contrário, me abri demais e ele escapou pro infinito. Ou mesmo se ele só existe com a mistura do que está fora com o que está dentro. Ou sequer se ele existe. Não sei mais o que existe ou não. Não sei mais o que me faz feliz, o que me faz triste, o que me faz. Não sei se estou perdido, ou se só se perdendo é possível se encontrar. Não sei se quero ou devo me encontrar, nem se devo procurar. Não sei mais a minha freqüência. Não sei mais meu ritmo, meu pulsar. Eu não sei mais de que lado quero estar. Não sei quantos lados há pra se estar. Não sei mais se equilíbrio é o mesmo que eu já pensei que fosse. E não sei se o que eu pensava sobre ele era mais próximo da verdade do que eu penso agora. Não sei nem se existem verdades. Eu não sei o que você pensa. Eu não sei o que pensar sobre estas palavras. Não sei se elas são confusão, se vão morrer na próxima linha, se vão virar canção. Não sei mais se é razão ou emoção. Não sei mais se essa desorganização é organizada. Se alguma coisa fará sentido. Se existe sentido permanente. Se existe sentido, seja lá o que já se tenha sentido. Não sei o que quero dizer, nem se quero dizer. Não sei se já acabei dizendo sem saber que disse. Não sei se é cedo ou tarde, já que não sei mais em relação a que. Não sei mais se perdi a noção, ou se essa é a única noção possível e autêntica. Não sei se há autenticidade. Não sei mais do que você. Nem menos. Não sei mais se o não saber é ignorância ou sabedoria, ou se esses dois conceitos existem de fato. Não sei mais o que é real, nem se existe realidade, ou se há muitas. Não sei se estou num círculo vicioso, ou se justamente escapei dele e a prova disso é o não saber. Não sei mais o que passa na TV. Não sei mais o que se passa. Não sei o que há.

O Destro



CRÔNICA ATUAL

2008-01-17T21:27:31.796-04:00

Caríssimos, voltei! (alguém ainda por aí? hehe)
A crônica abaixo foi escrita no ano de 2004. Foi publicada em jornais aqui de SC, em uma revista do RS e também apareceu em quatro ou cinco blogs, não tenho certeza (tudo com o devido crédito ao autor que vos fala hehe).
É bem pessoal, de uma época da minha vida, mas....desde quando falar em sentimentos é factual?
Muitas dessas palavras ainda cabem como uma luva para mim. Pra tanta gente.

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Quando se quer fazer alguém feliz*

Como na música de Charlie Brown Jr, às vezes tenho vontade de dizer: "se eu não puder fazer você a pessoa mais feliz, eu chego o mais perto disso possível". Falo de querer fazer feliz a pessoa que amamos. Tomar nos braços, pegar no colo, apertar com força e deixar bem claro que, sim, faremos tudo o que tiver ao alcance de nossas mãos, pés e corpo todo para proporcionar felicidade a ela.

Pouco importa o que os outros pensam, pouco importa se chove ou faz calor. Não queremos brigas, nem discussões, nem bate-bocas e tempestades em copo d'água. Pouco importa se estamos cansados e, de repente, somos surpreendidos por um pedido de massagem. Tanto faz se dormir tarde só para assistir a um filme juntinhos significa, no outro dia, estar terrivelmente cansado para enfrentar um dia inteiro de trabalho. Alguém aí liga pra isso?

Eu, envolto pelo eterno e infinito romantismo que habita e muitas vezes destrói meu coração, preciso fazer alguém feliz. Não que minha total felicidade dependa disso, não que meus objetivos sejam apenas esses. Mas quero abrir meu coração para que alguém habite nele, por inteiro, sem medo, sem receio. Sei que muitas vezes minha carência fala mais alto, mas tenho essa tendência desde sempre: me sinto desprotegido quando olho pro lado e constato que minha vida, nesse aspecto, está cheia de espaços vazios.

A verdade é que todo mundo quer ser feliz, mas nem todos do mesmo jeito. Às vezes, um pedaço da nossa felicidade depende de alguém cujos objetivos, nem de longe, são os mesmos. E isso, meus amigos, machuca. Nos faz sentir menores, faz nosso tão nobre amor parecer lixo cada vez que nos é negada a chance de demonstrar um pouquinho do quanto poderíamos fazer feliz a vida desse alguém, que parece peça fundamental para o bom funcionamento do nosso coração.

Tenho receio em afimar que, de uns tempos pra cá, tem me sido negada a chance de concretizar planos assim. Receio porque, independente disso ou daquilo, essa vontade tão grande de fazer o "meu alguém" feliz existe. E eu não a vejo como tempo perdido, como obra inacabada ou algo do gênero. Respeito, simplesmente. Porque faz parte de mim. Porque, lá no fundo, tenho a impressão de que existe muita gente por aí que procura o mesmo que eu. Embora isso não signifique nada quando você pára e percebe que a pessoa que você mais deseja fazer feliz, já é...e que esse fato não tem nada a ver com você.

*O Canhoto, em agosto de 2004




ENsaio de mim

2007-11-08T19:19:21.123-04:00

...caros leitores... desta vez deixei o conto e a crônica de lado para publicar alguns antigos poemas meus... fiz uma rápida seleção (quem sabe faço ainda outros posts publicando mais alguns)... espero que gostem


Transpareço meu amor
Quando teu olhar me atravessa
______________

Na guerra dos sentimentos
Sou voluntário
_______________

Nem de Estado
Nem de esquerda
O golpe que me derrubou
Foi aquele susto que você pregou
Quando me deixou
_______________

Sou como a lua
Me renovo e cresço
Depois que míngüo quando estou cheio de tudo
_______________

Essa fotografia me deixa irado
Faço cena
Rasgo
Digo que é passado

Mas deixo os negativos
Bem guardados
_______________

Posso
Te causar-te muita dor

Pleonasmo vicioso
Sou muito perigoso
_______________

Se somos iguais
Ou temos semelhanças
Feitos um para o outro
Que festança

Se temos diferenças
Ou mesmo desavenças
E o mundo nos trai
Tudo bem
Os opostos se atraem
_______________

Cadê você?

Não uso magia
Agentes do FBI
Nem consulto o tarot

Pra te localizar
Ligo pro teu celular
Alô?!
_______________

Cadê você? II

Telefone desligado
Ou bateria terminada
Tu tu tu
Sempre a minha desgraça
_______________

Reencontro

Ex toca no coração
Estaca no coração
_______________

Que calor
Essa colcha que me cobre
Volta e meia me bole
Onde está Wally?
_______________

Ao me ver passar maionese no bolo
Fez cara de nojo
Isso te choca?!
Prepare-se para o que virá
Quando trancarmos a porta
________________

Resistiu por muito tempo
Mas depois da amiga ter insistido
Ela ousou sair com aquele decotado vestido
Na frente dos outros: - Era só isso?!
No fundo pensando: - Quanto tempo perdido!
________________

Mudo de opinião
Depende do com
E do sem roupão
________________

Te calo
Ora com a fala
Ora com o falo
________________

Na água do mar
Oculto a ereção
De ver você à milanesa
Sob o sol do verão
________________

Nós no tapete dando giros
Até que alguns espirros
Anunciam

Final triste
Rinite
________________

Derruba a taça cheia sobre mim
E deixa escorrer
Agora vem
Começa a lamber
________________

Pequenos
Curtos
Afinal com quatro letras
Se diz tudo
________________

Bem
São
Benção
________________

E.T.a mundão véio sem portera
________________

- Absinto?
Sinto muito.
Abstêmio.


O Destro



O HOMEM DE TERNO

2007-10-31T22:40:03.020-04:00

- Por favor, eu quero que a minha sepultura seja bem rasa.Ele ergueu os olhos. Ficou ali, estático. E, sem olhar para trás, ouviu, novamente, a voz:- É que eu quero sentir a chuva...eu gosto da chuva.Vagarosamente, o coveiro virou-se. Com a pá na mão viu, na beira da cova, em pé, a figura de um homem. Estava de terno preto. Segurava as duas mãos na altura do peito. Parecia constrangido e assustado.- Você entendeu? A cova....não faça um buraco muito grande...assim eu posso...- Quem é você? – disse o coveiro.- Eu? Eu, bem...não sei se isso faz diferença. A essa altura da minha vida...Foi quando o homem de terno parou de falar. Seus olhos, que antes demonstravam uma dose de “pena de si próprio”, fixaram-se no chão marrom da terra tirada de dentro do buraco. Lembranças invadiram sua mente. A palavra “vida” soou em seus ouvidos de maneira estranha. Ao capotar com o carro em uma estrada, o homem de terno jamais imaginara que, algumas horas depois, estaria ali, de pé, ao lado de sua cova.Ainda sem compreender, o coveiro insistiu: Quem é você?- Eu sou a pessoa que...vai morar aí embaixo....(pausa)....estranho isso, não?- Desculpe, mas eu não estou entendendo. Vou subir aí, porque não consigo ver seu rosto, disse o coveiro, confirmando a total falta de compreensão da situação. Ao aproximar-se, o coveiro girou a cabeça para o lado, desconfiado:- Tenho a impressão que eu lhe conheço...de algum lugar...As mãos do homem de terno pareciam agora querer dizer algo, embora não soubessem como.- Hã....deve ser da capela A?- Olha, até pode ser...se bem que.... – foi aí que o coveiro engoliu seco.- O que foi? Fiz algo de errado? – indagou o homem de terno, dando dois passos para trás.- Você....vo...é o...caixão...eu vi....lá... – as pernas do pobre homem afrouxaram-se. Agarrou-se na pá, que o segurou de seu próprio medo. Ou horror. Ele vira o homem de terno. Duas horas antes. Dentro de um caixão, na capela A. Era o velório de um homem que morrera em um acidente de carro. “Essa vida não vale nada”, pensou, ao olhar o homem no caixão. De lá, o coveiro seguiu para cumprir sua tarefa diária. Abrir covas. - Olha, não quis assustá-lo. É que já é desgastante o suficiente ficar horas encralacado dentro daquele caixão. Se você puder fazer eu me sentir melhor dentro dessa cova, já me ajuda, revelou o homem de terno, com um sorriso amarelo de dar dó.Silêncio.Mais silêncio.- Você...você está com medo né? Bem, eu....que constrangedor. É a primeira vez que me sinto assim. Talvez porque eu nunca tenha morrido antes né?, disse o homem, tentando descontrair o bate-papo com um risinho.Mas a face do coveiro parecia envergar-se de pavor a cada nova palavra saída da boca do falecido. Balançava a cabeça negativamente, como que tentando acordar-se de um pesadelo. Mas ele não estava dormindo. Tremendo, segurou a pá. Respirou longamente e, numa ação mecanizada, começou a jogar a terra para dentro do buraco novamente. O defunto continuava ali. O coveiro, trabalhando com a pá de costas para o homem de terno, sabia disso. De repente, um raio invadiu o céu escuro. E os primeiros pingos de chuva começaram a cair. Tímidos. Depois, ferozes. A face do coveiro, molhada, continuava fixa na pá e na terra lançada para dentro do buraco. Após alguns minutos diminuindo o tamanho da cova, ele virou-se. A visão embaçada pelo temporal – ou pelo temor de olhar novamente para trás – denunciou a ausência do homem de terno. Ele não estava mais lá. Foi quando a chuva cessou. Olhando para dentro da cova, o coveiro, inesperadamente, sorriu.O homem de terno já poderia sentir a chuva.E descansar em paz. O Canhoto [...]



Randômico

2007-10-17T11:40:34.087-04:00

Escolhi o bolo pela cara. Era de milho. Gosto de milho. Podia ser de côco. Eram todos parecidos na vitrine gordurosa. Eu podia, também, ter escolhido pelo sabor e assim solicitar ao atendente. Mas não o fiz. Escolhi aleatoriamente, pela aparência mesmo. Queria o efeito surpresa.Saindo da padaria havia uma bifurcação e eu sempre ia pela esquerda. Não sei por que razão, mas normalmente era assim. Parei diante dela e fui pela direita, como que desafiando o hábito, provocando o cérebro já acostumado a não pensar mais sobre o trajeto já traçado mentalmente.Não que eu nunca tivesse tomado o caminho da direita. Eu o conhecia, mas só ia por ele quando havia uma necessidade de passar por ali, como comprar algo na farmácia, que pelo caminho da esquerda não encontrava, ou quando queria ver, na pet shop, os filhotes de cachorros que lembravam minha infância. A distância era a mesma e a paisagem era até mais bonita. Por que diabos eu nunca ia por ali? Não sei.Quando cheguei na parada de ônibus lembrei que, além de existirem outras duas linhas possíveis para aquele trajeto, ainda havia a opção do metrô, por um preço quase equivalente. Arrisquei o trem. Nada mal. Naquele horário estava até mais vazio que os coletivos urbanos.Desci no meu ponto e entrei na primeira floricultura que encontrei. Normalmente eu levaria rosas. Achei tão previsível que, mais uma vez no mesmo dia, arrisquei. Levei uma única e lasciva orquídea lilás para nosso primeiro encontro amoroso.Após o banho em casa, fiz o mesmo. Deixei de lado a camisa azul passada e separada para o compromisso de logo mais. Vesti a rosa, clarinha, tão elegante nas revistas, mas que eu sempre evitava usar. Sei lá. A azul era tradicional e caía tão bem. Também ousei no perfume. Troquei a confiável fragrância amadeirada por uma cítrica do frasco quase cheio.Conheci Joana quando saíamos do cinema. Era uma comédia romântica. Geralmente não assisto a comédias românticas. Não lembro do título e nem dos protagonistas, mas lembro dela, com seu cabelo longo que, conforme as rajadas do ar condicionado, duas filas diante da minha, revelava um pouco da sua nuca e me causava arrepios.Na saída, simulei um esbarrão e, me desculpando, desajeitado, puxei assunto. Ela sorriu de um modo tão revelador deixando evidente que percebera meu forjado encontrão. Corei. Ela, entretanto, correspondeu e foi delicada. Achou aquilo engraçado, como confessara no nosso primeiro café, no dia seguinte. Falamos por quase uma semana ao telefone, até o dia de hoje.Ela me recebeu deslumbrante num vestido preto, curto, colado. Convidou-me a entrar, colocou a flor sobre a mesa e sugeriu um vinho. Ofereceu-me três opções. Deixei que ela escolhesse. Já confiava no seu bom gosto. Ela serviu camarão e fui obrigado a revelar minha fatal alergia. O susto logo cedeu lugar ao riso e lembramos que ontem mesmo ela havia perguntado sobre alguma restrição alimentar, e eu omiti. Estava me divertindo com tanta novidade e leve por permitir o acaso.Com os corpos colados, mais quentes e audaciosos que quando sóbrios, e antes do primeiro e arrebatador beijo, ela entregou:- Meu verdadeiro nome é Jorge.Pois podia ser João, José, Juvenal, Jurandir. Já não tinha a menor importância.O Destro[...]



Life is a long song

2007-10-02T20:26:18.144-04:00

(image)
Sentado em frente à tela do meu computador, escuto Elliot Yamin.
O nome da música? Wait for you.
A letra é um pouco triste. A voz é de um sentimento sem tamanho. A melodia é poética. Mas quando se fala de amor, como ficar indiferente? E sabe-se lá em que a gente pensa. Em quem a gente pensa. Em quantas noites dormidas longe daquele que habita nossos pensamentos embalados por trilhas incontáveis. Se um dia eu escrevesse uma canção, certamente seria sobre o amor. E, pra ser mais preciso, se fosse hoje, seria sobre a saudade. Pois eu queria estar em outro lugar agora. Talvez escutando Wait for you, mas sem ter que esperar por nada. E depois que a música terminasse, apertar o stop e ganhar um beijo de boa noite.
E isso pra mim é amor.
E esses sintomas são eternos.
Hoje minha trilha sonora diz muito sobre mim. E é tão engraçado, porque a mesma trilha atinge outros de formas tão distintas... Mas estou só em meu quarto. E o significado é só meu. E talvez só eu entenda. E talvez seja pra ser assim. E, mais ainda, talvez minha respiração falhe no meio da música porque tudo o que eu sei seja nada.
Mas, como diz Elliot, “you’re still in love with me”.
E não é a música que me diz isso.
O que sinto é que o tempo não parece ser suficiente para tudo o que eu gostaria de viver...com você. Duro ser romântico, não? E amar alguém. E escutar músicas. E ter a trilha exata do que se vive, do que se sente. Você apareceu na minha vida. E, just like a star, ainda está por aqui.
E, desde esse nosso “sempre”, nossas vidas são embaladas por trilhas incontáveis.
Que (en)cantam a nossa história.

Trilhas que fizeram esse post:
Wait for you – Elliot Yamin
One place – Everything but the girl
Quase um segundo – Os Paralamas do Sucesso
Talulah – Jamiroquai
Like a star – Corinne Bailey Rae


O Canhoto



Cíclope

2007-10-17T11:44:26.992-04:00

Percebera o dom ainda criança. Sentia a tristeza dos olhos perdidos, as dores dos olhos sofridos, o cansaço dos olhos caídos, os desvios dos olhares mentirosos, os anseios vazios dos olhos fúteis.Capturava o interior de qualquer um, desde que conseguisse uma cruzada de olhares, mesmo que por um pequeno instante. O ódio dos olhos fumegantes, a doçura dos olhos que piscavam lentos, a esperança nos que fitavam o horizonte.Saber de tudo isso, desde pequeno, o fez diferente. A extrema sensibilidade do olhar sobre o olhar alheio, o transformou num tímido. Os desejos dos olhos da carne, a insegurança dos olhos nervosos, a força dos olhos maléficos, a tranqüilidade do olhar sereno. Como o de seus pais o botando na cama, todas as noites para dormir.Usava o dom em beneficio próprio, lógico. Não havia como ser diferente, quando percebia o lograr no olho do malandro, o preconceito no olho do ignorante, a ordem no olho do dominante. Mas o fizera também em prol dos amigos, salvando-os dos olhares de encrenca.Precisava apenas administrar o dom. E, já há algum tempo, sentia que, para tal tarefa, precisava, ao menos uma vez por dia, bater o olho num olhar sereno como o que o embalava nos primórdios. Não era difícil.Sentia-se Deus por entender como ninguém do sutil jogo das expressões faciais.Percebera tarde o fardo. Quando não conseguia se desvencilhar da tristeza dos olhares perdidos, das dores dos olhos sofridos, do cansaço dos olhos caídos, dos desvios dos olhares mentirosos, dos anseios vazios dos olhos fúteis. Capturava o olhar alheio e fazia dele, o seu.Começou a andar mais cabisbaixo que de costume, mas a curiosidade e o hábito o faziam levantar a cabeça, achando que o próximo olhar seria sereno, e assim ele terminaria o dia como desejara, como precisava. Era cada vez mais difícil encontrar um. Assim, muitas vezes adormeceu com o olhar dos ansiosos, dos miseráveis. Abusou de outros com olhares malfeitores. Decepcionou-se consigo.Sentia-se Diabo, tamanho sofrer.Percebeu que era uma mistura de olhares de fora para dentro, mas não conseguia descrever o próprio. Quais das características absorvidas pelo dom/fardo eram suas?Fitou-se no espelho por horas. Não entendia suas nuances. Não se enxergava. Não se via. Não se penetrava.Tentou o vídeo, a fotografia. Não se revelava.Foi encontrado caído, sem o olho direito e com sangue nas mãos. Na perícia e autópsia a confirmação. Arrancara o próprio olho e o engolira.- Era louco – saiu pela boca o olhar taxativo do legista.O Destro[...]



Adalgisa

2007-10-17T11:44:04.680-04:00

- Você esqueceu o tom fúcsia cintilante Adalgisa!- Ai, dona Clarice. Eu achei que tivesse trazido, mas andei tão confusa nos últimos tempos.- Pois eu fiquei sabendo. A Joana do 301 disse que da última vez você tremia tanto que arrancou bifes das mãos dela.- Ai, dona Clarice, sabe o que é, eu estava tomando um remédio para síndrome do pânico e ficava tremilica.- Trêmula? Síndrome do pânico? Em que revista de madame você leu isso Adalgisa?- Ai, dona Clarice. É verdade. Foi o doutor que disse, o tal pissiquiatra.- Psiquiatra Adalgisa, com pê mudo.- Ai, dona Clarice. - E desde quando manicure tem dinheiro pra pagar psiquiatra, Adalgisa?- Ai, dona Clarice. Eu faço as unhas da esposa dele e das quatro filhas. Falei pra ele do meu problema e ele topou me ajudar. Trabalhei de graça pra elas durante um tempo para pagar a consulta e os medicamentos.- Permuta entre psiquiatra e manicure é novidade pra mim.- Ai, dona Clarice, mas eu não andava nada bem.- O que aconteceu Adalgisa?- Ai, dona Clarice, tenho vergonha.- Deixa de bobagem, Adalgisa. Conheço sua vida como a palma da minha mão, ou melhor, como você conhece a minha, há 15 anos. Tem a ver com o Chicão?- Não senhora. Quer dizer, sim e não.- Como assim?- Ai, a senhora sabe que eu sempre morei sozinha com a Naninha e que há dez anos eu tentava levar o Chicão lá pra casa. Foram cinco anos pra convencê-lo e mais cinco pra Naninha aceitá-lo sob o mesmo teto.- Sim, sim. Conheço cada capítulo dessa novela.- Ai, dona Clarice. O fato é que desde que ele se mudou pra lá eu não conseguia ir ao banheiro.- Como assim, Adalgisa?- A senhora sabe. Fazer as necessidades. Uma prisão de ventre monstruosa, como se diz. No início era o medo de fazer barulho, o Chicão escutar e perder o tesão por mim. Afinal, foi pela cama que fisguei o homem. Assim, eu esperava ele sair e tudo bem, mas depois nem com ele fora de casa, nem em banheiro público ou da vizinha.- Meu Deus. Era grave mesmo. E o que você fazia?- Eu colocava o relógio pra despertar as três horas da manhã e ia até a horta e, bem, fazia ali mesmo, no canteiro dos temperos. - Adalgisa!- Ai, dona Clarice, não tinha outro jeito. Mas eu já estava até gostando daquilo. Um silêncio absoluto, e a senhora precisava ver, os temperos cresciam que era uma beleza.- Você não está me dizendo que a feijoada que você trouxe...- Ai, dona Clarice. Claro que não.- Hm. Menos mal. E o que disse o doutor?- Então. Me receitou um remédio lá e logo foi passando.- Você nunca pensou que podia ser flagrada nessa situação? Alguém podia atirar em você pensando que fosse um vândalo, um bandido.- Lá na vila não tem disso não. Anoitece e todo mundo se fecha em casa. Mas já passou dona Clarice.- Mesmo?- Sim senhora. Só não posso ver uma horta que fico toda arrepiada.O Destro[...]



Sob a luz do neon

2007-08-03T09:43:25.264-04:00

O azulado da velha cortina que cobria parte da janela misturava-se à visão embaçada, fazendo com que a explosão de cores do neon que piscava na rua e invadia o local parecesse ainda maior. Tentou mover-se. Percebeu uma garrafa de vodka que, ao lado de seu pé esquerdo, equilibrava-se entre copos, cinzeiros e um aparelho de som. "Merda.....", disse, ao perceber a cabeça pesando três toneladas. Queria levantar-se, mas preferiu elevar sua mente a qualquer estado que o fizesse recordar o que exatamente fazia ali. Deitado em uma cama estranha, percebeu a ausência quase completa de roupas. Estava só de cueca. E terrivelmente embriagado. "Maravilha", dizia. “Maravilha...”. Com a velocidade de uma lesma, virou-se. “Merda de bebida....porra....”. Na nova posição que assumira na cama pôde observar o ambiente com mais calma. Suas roupas jogadas no chão. Tentou visualizar o volume da carteira com documentos e grana no bolso traseiro da velha calça jeans que usara na noite anterior. A visão distorcida pelo alto teor alcoólico no sangue não deixou. Mesmo assim, esforçou-se para chegar mais perto. A carteira estava lá. O dinheiro também. E foi ali, com o braço esticado rente ao chão que percebeu o vapor saindo por debaixo da porta. “Tem alguém tomando banho ali”, disse para si mesmo. Olhou mais uma vez ao redor e percebeu que estava em um quarto. Poderia ser um quarto de motel. Ou de hotel. “Dos mais decadentes”, constatou. Ou poderia ser o apartamento de alguém. “Mas quem?”, perguntava-se. Da noite passada lembrava-se apenas de sair para comemorar a “contenção de despesas” da empresa onde trabalhava há mais de cinco anos. E a despesa era ele. Jogado na sarjeta, sem emprego e com a rescisão de trabalho toda na carteira, saiu para beber. Só não imaginava que o fundo do copo não fosse o limite. Ali, de cueca, sem saber onde estava e com o barulho do chuveiro ao lado sendo desligado, ele percebeu: “estou no fundo do poço”. Quando a porta definitivamente se abriu, uma figura loira adentrou o quarto enrolada em uma toalha verde-limão desbotada. Do banheiro até o play do aparelho de som foram só alguns passos. I couldn't resist himHis eyes were like yoursHis hair was exactly the shade of brownHe's just not as tall, but I couldn't tellIt was dark and I was lying downYou are everything, he means nothing to meA figura de cabelos dourados parecia ignorar a presença de um homem só de cueca na sua (?) cama. Foi então que, completamente desajeitado e sem enxergar direito, ele disse: “Isso aí é Amy Winehouse?”. “É. Gosta?”, disse a loira, despindo-se calmamente da toalha. Foi desse momento em diante que ele desejou não ter perguntado. Ou melhor. Não ter nascido. Ou ainda: ter morrido. De boca aberta, observava a cena mais dantesca vivida por ele até então: a moça em questão era uma trava. Uma traveca. Um travesti, que secava os cabelos loiros com a toalha verde-limão desbotada, fazendo passinhos conforme a música e entoando um inglês embromation. Pior que isso, era a pergunta que ele fazia a si próprio: "O que é que eu estou fazendo aqui????"What do you expect?You left me here aloneI drank so much and needed to touchDon't overreact, I pretended he was youYou wouldn't want me to be lonely Àquela altura do campeonato, embriagado pela bebida ou pelo puro absurdo da situação, questionava-se sobre o que teria acontecido, sobre até onde chegara na noite anterior, sobre como fugir dali e fazer com que ela (ou ele) se esquecesse de tudo (ou seria nada?) que tivesse acontecido (ou não) entre os dois. Moveu o rosto para o lado oposto, em direção ao neon que, incansavelmente, derramava suas cores sob o chão do quarto. Lembrou-se da vodka ao lado do pé esquerdo. Não pens[...]



A Vida Tomada de Assalto

2007-08-01T09:33:56.980-04:00

(image)
Oito clientes. Nada mal para uma segunda-feira, pensei enquanto saboreava o expresso na cafeteria que freqüentava regularmente.
Peguei o jornal que estava sobre a mesa e fui direto para as páginas policiais. Li sobre os números da violência no país. A quantidade de assaltos, agressões e mortes me faziam pensar na imensidão de pessoas praticando o mal. Isso sem contar as tantas outras ocorrências não registradas.
Não há escapatória. É uma questão de tempo a violência chegar até você. É estatística, é probabilidade, concluí.
Terminei o café, levantei da mesa, deixei o pagamento e mais um trocado pro garçon que sempre me atendia tão bem e segui o caminho de casa.
Mal comecei o trajeto e observei na minha frente uma senhora, cabelo branco, a passos lentos. Bem arrumada, como tantas que circulavam naquele bairro nobre e residencial, repleto de cafés, lojas de boas marcas e bastante arborizado. Ela segurava sua bolsa sem muita preocupação.
Embora hoje os agressores já não escolhessem muito suas vítimas, aquela era uma presa fácil, sem dúvida. Desatenta. Frágil. Olhei para os lados, ninguém na rua além de nós dois. Como ela pode ser tão distraída?! Tsc, tsc, pensei chacoalhando a cabeça.
Saquei a arma, apontei para a cabeça da senhora e sem deixar que ela se virasse exigi que me entregasse a bolsa e caminhasse sem olhar pra trás. Não poderia perder aquela oportunidade, ainda mais com tanta concorrência por aí.
Hm, trezentos reais, um celular e um par de óculos de grife.
Nove clientes. Nada mal para uma segunda-feira.


O Destro



O amor é um jogo perdido?

2007-07-30T21:29:29.800-04:00

- Casa comigo?Silêncio.- Acho melhor a gente desligar, disse a voz no outro lado do telefone.Silêncio.- Por que?- Porque eu te amo. Mas não consigo avaliar esse amor.Aí eu pergunto: qual é o amor que se avalia? O meu? O seu? O de quem?Amor não é simplesmente...amor? Daqueles que a gente sente e ponto final?É o que acredito. Não tem fita métrica que meça o amor que eu sinto por você. Nem lupa que amplie esse sentimento tão bonito e complicado que une você a mim. Que une pessoas. Que afasta pessoas. E que faz com que essas mesmas pessoas continuem se amando. Às vezes menos. Mas às vezes muito mais.O tempo passa. E, por vezes, nos damos conta tarde demais da dimensão que esse amor ocupa em nossas vidas. Sim, esse mesmo amor que faz com que a gente encha os pulmões e diga “eu não sei o que é”. E quem precisa saber?- Por que?- Eu não sei explicar...Silêncio.- Mas você me ama mesmo?- Você sabe que sim.Conheço pessoas que dizem “invejar” todas as minhas sensações em relação ao amor. Dizem elas que “gostariam de sentir” isso tudo que eu sinto. Mesmo com todas as minhas noites mal dormidas. Mesmo com as lágrimas que já derramei. Mesmo com a saudade diária que sinto do amor que está longe. Mesmo com tudo isso. E eu começo a achar que elas estão certas. Porque mesmo com lágrimas...tenho lembranças que são só minhas. E mesmo com noites a fio olhando para o teto, tenho expectativas em relação ao futuro. E mesmo com essa saudade que não passa, me sinto vivo. Seja por amar alguém...seja por sentir saudades...seja por ter expectativas que podem se concretizar, sim (alguém aí duvida?). - Eu te amo também. Você sabe, né?- Claro que sim. Eu sinto isso.O amor é um jogo perdido? Experimente.- Ta tarde, lindeza...vamos?- Vamos. Boa noite. Dorme com Deus e comigo, ta?Silêncio. Longo suspiro.- Ta bom....te amo.- Eu também te amo.O Canhoto[...]



João x Maria

2007-07-30T21:30:02.791-04:00

João conheceu Maria no colégio. Ela foi sua primeira paquera, seu primeiro trabalho em dupla, seu primeiro beijo, sua primeira ereção, sua primeira namorada, seu único amor. E vice-versa.
O destino tratou de, logo cedo, botar estas almas gêmeas perto uma da outra.
Mas havia entre eles uma peculiaridade incrível, uma rixa que vinha não se sabe ao certo de quando e levaria não se sabe bem pra onde.
Eles combinavam, sem dúvida. Até demais. Possivelmente foi a busca de identidade que gerou o problema. Até da mesma cor gostavam. João adorava roxo. Maria amava o púrpura. João não gostava que apertassem o tubo da pasta de dente no meio. Maria tinha pavor quando o creme dental aparecia amassado na metade.
Apesar dos mesmos gostos, seu problema era outro:
- Alcança-me o óleo – pedia João.
- Aqui está o azeite – retrucava Maria.
Era um problema de linguagem, de nomenclatura. E a implicância se estendia a tudo. Os guardanapos de louça de Maria, os panos de prato de João. O compacto do Roberto, de João, o vinil do Rei, de Maria. Nem interjeições eram poupadas.
- Jesus! – espantava-se João.
- Cristo! – chocava-se Maria.
Era como se falassem dois idiomas, mas, à sua maneira, eles se entendiam. Tanto que a data do casamento estava marcada. Para João, pois para Maria era o dia do enlace. E como nenhum cedia, nem pretendia ceder, a cerimônia teria que ser um pouco diferente, já que o segundo a responder diria algo como "yes, I do" e não iria pegar bem. Além do mais, os dois falavam o bom português e isso não valeria diante das leis de Deus.
E assim foi. No momento crucial, a pergunta foi feita para ambos e só depois eles responderam, em uníssono:
- Sim.
Naquele instante foi como se o mundo todo fizesse dois segundos de silêncio. Foi como se a confirmação do amor viesse naquele momento de trégua, de concordância em relação a uma palavra ao mesmo tempo tão simples e tão carregada de significado.

Na saída da igreja, de João, e do templo, de Maria, ainda comentaram a lua-de-mel:
- Amanhã partimos de aeronave para o Caribe – encerra Maria.
- Sim, vai ser ótimo ir de avião até Cancun – conclui João.
O Destro



Tragédia em dois atos

2007-06-04T09:56:37.130-04:00

Primeiro Ato

- Tragédia!
Afoguei-me com a água quando Luiza entrou em casa gritando e realmente apavorada. Embora seu corpo saltitante e seu traje branco impecável sem nenhuma mancha de sangue mostrasse que fisicamente estava tudo bem, a cara era de quem acabava de ser atropelada. Assim que fiz a varredura e recuperei o fôlego consegui perguntar a ela, que permanecia parada olhando pra mim com os olhos cheios e as mãos à boca:
- O que houve? Joana foi promovida?
Não havia nada mais assustador para Luiza que ver sua colega Joana passar a frente dela na empresa de cosméticos onde trabalhavam. Foi o meu primeiro e natural palpite.
- Muito pior... – Ela respondeu tomando o copo da minha mão e bebendo pelo menos 300ml num único gole antes de completar:
- ...Letícia. – Foi o que ela conseguiu pronunciar antes de cair em pranto e me abraçar.
Puxa, Letícia era uma garota tão simpática, e um sucesso na época da escola, o que teria acontecido a ela pra ter passado desta pra melhor?! Sim, pois além de Joana fazer sucesso na carreira, só uma morte súbita e inesperada e injusta pra deixar Luiza transtornada desta forma. Eu já estava emocionado quando ela se desprendeu e voltou a falar:
- Encontrei Letícia na rua, por acaso, naqueles dias em que nada pode sair errado, em que você espera tudo de bom, quem sabe flores suas quando eu chegasse em casa.
Não faço isso há anos, pensei.
- Mas não. Surge Letícia na minha frente. Com os peitos mais caídos que eu já vi em toda a minha vida. Ela poderia fazer embaixadas com os próprios seios.
Comecei a entender Luiza. Elas tinham a mesma idade, trinta e sete. A lei da gravidade não era condizente com ninguém por muitos anos. Luiza queria ser uma fora-da-lei.
Correu pra diante do espelho e começou a se apalpar sem parar. Nem no exame de mama, onde minha ajuda era requisitada às vezes e acabávamos num sexo enlouquecido brincando de médico, ela se tocava tanto.
- Nossa, isso é mesmo estranho. Letícia era um avião. Não consigo imaginar – concordei ingenuamente.
- Pois agora ela não passa de um teco-teco. E além disso, senhor Gustavo, eu estou arrasada mas consciente. Uma época o avião aqui era eu.
- Você é um hangar inteiro, meu amor – corrigi há tempo de evitar que a raiva pela força gravitacional se voltasse contra mim. Corri a buscar mais água.

Segundo Ato

Quando voltei com a água, desta vez com açúcar, ela já estava ao fone, conversando com outra amiga:
- Guria! Você tem visto a Letícia ultimamente?!
O Destro



29

2007-07-30T21:31:24.255-04:00

Estou prestes a fazer aniversário. Quem consegue não ficar estranho nesta data? Conheço poucos. Parece que tá pesando tanto desta vez que até lembrei que a perturbada da Elizabeth Taylor aniversaria no mesmo dia que eu. Mas também pensei na música do Legião Urbana: “E aos vinte e nove com o retorno de Saturno / Decidi começar a viver...” Eu, que pouco conheço de astrologia, a não ser que sou de peixes e às vezes leio o horóscopo, resolvi pesquisar o que é o tal retorno de Saturno, já que completarei vinte e nove anos. (não deve ser por acaso que, no símbolo do signo, um peixe esteja indo pra cada lado)Pois bem, descobri que entre 28 e 30 anos o planeta se coloca onde estava quando você nasceu e começa uma nova volta em torno do zodíaco. Até aí ok. Mas e as conseqüências disso?Mais responsabilidades do que nunca. (ok já to acostumado – uma ou outra a mais não fará diferença) Doloroso rito de passagem. (normal) O que antes era opção se torna definitivo. (Como assim Bial?!)Pois é. O que vinha enrolado até agora se define e vai impulsionar os próximos 28, 29 anos. E claro, com suas conseqüências mais sérias do que nunca. (Ai que saudade de brincar com meus “comandos em ação”.)Então, o passado se torna apenas passado e influi menos. É um novo começo, mais independência da família e daquelas relações xaropes com infância e adolescência. Autonomia enfim. (Será que vou ser um paciente mais “fácil” na terapia?)Pais mais relaxados em relação à responsabilidade sobre os filhos. (não, não, não aceito.)Cresce a necessidade de ter um lar, ter filhos, educá-los. (ensinar o cachorro a fazer cocô no lugar serve? pula essa)Começa-se a pensar seriamente no futuro. (ta querendo dizer que o que pensava não era sério? Fala sério.)Primeiro contato com a sensação de que a velhice não tarda. (posso jurar que já senti isso ano passado... e retrasado... oh God, cadê meu Renew)Intensificação das cobranças internas. (hã...e isso pode aumentar?)Não é mais tempo para ilusões e sim para definições. (e quem, como eu, precisa de ilusões pra sobreviver como é que fica? Socorro)Você quer agir diferentemente dos seus pais mas acaba se aproximando novamente deles e, paradoxalmente, tomando decisões surpreendentemente parecidas com as deles. (Bah, eu não vou virar um reclamão, que saco, não vou, que droga, jamais, que merda hehe)Nessa época, as pessoas que ainda não se definiram na vida passam a se sentir muito angustiadas, porque o fantasma do fracasso começa a ameaçar. (loser?)Freqüentemente, aos 28 anos as pessoas retomam os estudos, procuram caminhos profissionais definitivos e não mais bicos e trabalhos esporádicos. (por “acaso” olhei um anúncio de pós-graduação no jornal de hoje)A crise provocada por Saturno sempre é complicada, já que mexe com assuntos como o tempo e a idade, fracasso, frustração ou sucesso. Todos estes aspectos são muito angustiantes porque abalam a auto estima de cada um. (nada de novo, todo reveillon é assim)O ciclo dos 28 anos de Saturno é completado quando se pode tomar nas mãos com segurança as rédeas e o controle da própria existência. (hm rédeas da vida e bases sólidas pro futuro. Nada mal. Taí, to mais tranqüilo agora. Ufa)SE BEM QUE A LIZ TAYLOR FOI SEMPRE UMA DESCONTROLADA!!O Destro*informações sobre o Retorno de Saturno retiradas de http://portodoceu.terra.com.br/[...]



A medida da paixão

2007-07-30T21:32:13.126-04:00

(image)

Qual a medida da paixão? Quais os sintomas? Eles são reais ou não passam de mera manifestação de nosso excesso de carência? Quando temos a plena certeza de que estamos apaixonados? Essa certeza existe? A doce sensação de bem-estar que permeia o coração de apaixonados mundo afora é, certamente, o que me cria essa série de indagações....de perguntas sem respostas...Afinal, eu, não vivo se não estou apaixonado.


Às vezes acho que confundo essa "paixão" com excesso de carinho, com gratidão, com carência ou com o beijo na boca que me fez tremer as pernas. Ao mesmo tempo, paixão envolve tudo isso. E um pouco mais. Mais tesão, mais palpitar de corações, mais expectativa. Paixão é uma fase cega (não dizem por aí que o "amor é cego" também?). Bem pensado, aliás: paixão e amor. Um antecede o outro? Um não vive sem o outro? É possível amar sem apaixonar-se antes? Já amei um dia? Sim, amei. E amei apaixonadamente.

O beijo que me fez tremer as pernas pode ter desencadeado essa paixão de hoje. Se estou apaixonado? Já disse antes: não vivo se não estou apaixonado. Mas refletir sobre isso é o mesmo que dar um nó em minha cabeça. Confessar essa paixão – ou qualquer outra – é uma tarefa difícil pra mim. Pois nunca sei até que ponto é verdade ou ilusão...até que ponto me fará bem ou me deixará noites sem dormir. Não consigo medir se meu coração bate pela paixão ou se pela absoluta falta de certeza de tudo (help me please!!).

Q
uando me apaixono viro o cara mais insuportável do mundo – e o mais doce também. É incrível como temos o dom de complicar tudo, não? Mas quem disse que seria fácil? Acredito que apaixonar-se não é pra qualquer um. Paixão exige renúncia. Temos que deixar algumas máscaras de lado – mesmo que momentaneamente. É quando nos mostramos ao outro. Quando abrimos nossa vida e dizemos: “Entre!”.

A dúvida é: será que é isso mesmo? Será que tudo é mais simples do que vejo? Mais palpável do que nos meus sonhos? Mais real do que absurdo? Ou é o contrário?

A medida da paixão não existe. Os sintomas são pessoais e universais. Podem ser reais, sim. E também podem suprir aquela saudade que nos traz um coração vazio de tudo.

Tenho certeza de que estou apaixonado. E não tenho certeza de nada.
Tão certo. Tão errado.
Tão.

O Canhoto




Me, Myself and I

2007-02-01T10:27:13.258-04:00

Passo bastante tempo sozinho. Sou um solteiro, adulto, morando só numa cidade grande(?). Afora companhias eventuais, isso me coloca em milhões de situações solo.

Houve um tempo em que isso me atormentou, assim como sempre são mostradas as pessoas sós nas novelas e filmes. Já sofri muito na companhia dela.

A ironia da palavra companhia acima utilizada não foi em vão. Foi justamente o que levei muito tempo para perceber. A solidão, ou seja, eu mesmo, me fazia (e faço) companhia.

Hoje, não fujo mais da introspecção, tão temida por muitos, especialmente na atual sociedade. Considero-a essencial para o auto-conhecimento.

Quando você imagina a figura de um sábio o que lhe vem à mente? Às vezes penso num filósofo grego e o imagino rodeado de alunos interessados, mas mais freqüentemente, imagino uma figura isolada no alto de uma montanha.

Foram estes momentos de contato com ninguém além de mim mesmo que me fizeram ter certeza de que a sociedade nos obriga a conviver e participar de um imenso discurso vazio de pessoas que não sabem ficar sós e que, portanto, não se suportam.

Já me senti pior que os demais por inúmeras vezes não me achar capaz de sociabilizar. Hoje é o contrário. Onde antes só havia incômodo, se fez encanto.

Eu por vezes me sinto cansado de, em nome do bom senso (seja lá o que determine isso), aceitar passivamente a loucura alheia. Absurdos constantes engolidos em nome da convivência, que sequer permite que sejamos nós mesmos.

Essa percepção machuca. E meu discurso e o de muitos não são bem quistos e causariam repulsa.

Pensar dói para quem não costuma fazê-lo.

Aprendi a ser só e gostar disso. Cada dia aprendo mais e gosto mais. Nem por isso desejo passar a minha vida sozinho, ainda quero ter alguém ao meu lado para dividir o caminho, ou parte dele. Também não vou virar um eremita e me enfiar numa caverna.

Só queria que cada um percebesse a dignidade possível em estar consigo mesmo. Assim talvez conhecêssemos uma sociedade mais autêntica.


O Destro



Tenho saudades da época em que eu era feliz

2007-07-30T21:32:27.559-04:00

(image) Não que hoje eu não o seja. Mas naquela época – quando eu era feliz – a felicidade era algo simples. Palpável. Ao alcance das minhas pequenas mãos. Sim, amigos, falo da infância. A época que passa sem que a gente se dê conta. Passa sem percebermos a dimensão real do quão importante ela é e, mais que tudo, do quanto somos felizes. Naquela época, felicidade fazia parte do meu dia-a-dia. Era algo inerente ao meu estado de espírito. E, digo isso, não pela ausência quase absoluta de responsabilidades. Não! Eu era feliz porque me permitia ser. Era feliz porque sabia que, no fundo, não tinha motivos para não o ser. Me contentava com o simples fato de estar ali. Não me era permitido fazer grandes questionamentos sobre o futuro, sobre o presente e...bem, o passado? Era algo tão recente, não?

Encontrava a felicidade ao brincar na calçada. Encontrava ao tomar vento no rosto, sentado no pátio lá em casa. Encontrava a felicidade ao chegar da escola e poder comer o almoço maravilhoso que só minha mãe sabia fazer. Aos finais de semana, felicidade era dormir até tarde e, no domingo, acordar com o cheiro do churrasco que meu pai preparava com tanto carinho pra toda família. Eu era feliz – e como não seria? – porque ria, e muito, com meus colegas de escola. Porque ao final de cada ano letivo, era o centro das atenções na peça de teatro que minha turma preparava. Eu não questionava tudo. Me chateava, sim, mas não fazia tempestades em copo d’água. Aceitava certos fatores com bem mais tranqüilidade. Meus amigos eram meus amigos – e isso sim era inquestionável.

Em qual esquina da minha vida essa felicidade se perdeu? Em que momento olhei pro lado e não a vi mais caminhando comigo? Crescer é maravilhoso, nos dá um pouco mais de serenidade e uma visão ampla do mundo. Nos permitimos descobrir bem mais a nós mesmos e aos que estão ao redor. Mas é aí que a felicidade passa a ser um objetivo. Não é mais um estado de espírito. Uma companhia. Claro, ser feliz o tempo todo é impossível... Mas falo de algo mais sutil. Falo da certeza que eu sentia. Da sensação de que, mesmo com o mundo contra, a felicidade existia nas pequenas coisas. Hoje, pequenas coisas não me bastam.

Talvez o erro seja exatamente esse. Talvez é por já estar tão “contaminado”, achando que para ser feliz preciso ter tudo, é que a felicidade fique cada vez mais longe de mim.

Quando eu era feliz, tinha tudo, pois me sentia assim.

Preciso descobrir isso de novo.

O Canhoto



Escrever Certo em Linhas Tortas

2007-01-23T08:45:52.036-04:00

(image)

Alguém já distorceu o que você disse? Provavelmente. E como isso cansa. Não estou falando daquela distorção natural, de quando o assunto corre por telefone sem fio. To falando daquela sem intermediários. Aquele algo que você diz diretamente para uma pessoa, face a face, e ela às vezes já na própria resposta mostra que entendeu tudo errado. Ou não te ouviu, ou não quer te ouvir. E olha que eu sou formado em comunicação, sou bastante articulado e sei dizer as coisas e me portar de acordo com o ouvinte.

Claro, às vezes você fala pelas entrelinhas, mas nem todos são suficientemente sensíveis pra perceber. Ou como no caso anterior, não querem perceber. Aliás, muita coisa se diz exatamente ao calar. E ainda tem os casos em que a pessoa está tão alterada por algum fator que absolutamente não ouve nada. Mas eu to falando de algo bem básico, como “por favor, você pode me alcançar o açucareiro?” e a pessoa te passa a jarra de suco.

Bem, trocar o açúcar pelo suco não traz lá grandes conseqüências. Mas se considerarmos algo maior, imagine o perigo.

- “Amor, coloca a camisinha”. – Diz ela na hora H

- “Mas você não disse que era pra tirar a camisinha?”. – Diz ele depois do teste de gravidez.

Ou

- Dobra à esquerda... Eu disse ESQUEEERDA. – Foram suas últimas palavras.

Há quem diga uma coisa, sentindo outra. Mas ok, aí já não é distorção, é dissimulação.

E quando se trata de política então? Isso não cansa, isso exaure qualquer pessoa. É o próprio eufemismo da distorção.

Com tudo isso é bem difícil não se contaminar e se manter no prumo. Espero ter a noção para perceber quando for EU quem está distorcendo tudo e conseguir me conter antes de conseqüências irreversíveis.

O Destro




7 Comentários

2007-01-23T18:51:11.943-04:00

Verão, calor, sol, praia, mar azul, céu mais azul ainda, eu trancado na agência onde trabalho...Pode uma coisa dessas? Sim, meus caros, PODE. Não só pode como ACONTECE. Tenho descuidado um pouco do blog, não sei se pelo excesso de desânimo devido ao calor, não sei se pelo excesso de calor na minha sala SEM AR-CONDICIONADO (uma das únicas da agência...bacana, né?), não sei....Pretendo me retratar (se é que isso é necessário...a essa hora todo mundo deve estar na praia né? Quem é que vai ler o blog???!!!) publicando um conto inédito (hã....no comments), escrito por mim (alguém me conhece?) em outubro do ano passado. Leia e deixe um comentário. Faça um blogueiro feliz (Deus, quanta falta do que dizer...que caloooooooooooooooooooooooooooor).--------------------------Expressos Thiago Toscani10 de outubro de 2006 Estranho, né?, ela disse.O que é estranho?, ele respondeu.Nós dois aqui...eu simplesmente entrei e...veja só.Coincidência, ele completou, simpático.As mãos dela entrelaçadas, nervosa.Ele olhou o relógio. A chuva havia diminuído. Estava com pressa.Ela o observava. O expresso havia esfriado. Estava carente. Naquela manhã um temporal duplicara o caos já diário da cidade. Véspera de feriado, trânsito lento, metrô lotado. Pessoas que, incansavelmente, caminhavam pelas ruas protegidas sob preciosos guarda-chuvas – o que não as livrava de encharcar sapatos em imensas poças d’água nas calçadas, bueiros entupidos pelo lixo urbano e pela própria chuva – que vinha de todos os lados. Ela entrou na cafeteria. Trazia consigo a solidão de uma vida, um semblante sério e a certeza de que aquele temporal acontecia apenas para castigá-la. Sentou-se no fundo, pendurou o casaco molhado na cadeira ao lado, pediu um expresso. O reflexo dos raios que caíam iluminava vez ou outra sua face, denunciando a contrariedade em seu rosto. Algumas quadras dali, do alto de um confortável apartamento, ele observava o céu, cada vez mais escuro. O vento soprava forte, espatifando-se contra a imensa porta da sacada. Rapidamente arrumou-se, beijou a esposa que ainda dormia e saiu. Previa uma estada mais longa pelo trânsito da cidade. Assim foi: quinze minutos após, já dentro do carro, tentava concentrar-se na suave melodia que colocara no som do automóvel – não queria absorver para si o tumulto do engarrafamento. Mas a cidade estava parada. Pensou em tomar um café, mas essa não era uma atividade costumeira. Só estacionou naquela garagem ao lado da simpática cafeteria porque uma placa sinalizava, em letras garrafais, que sobravam vagas. Ninguém parecia perceber isso. Ele percebeu. Foi dentro do café que eles se olharam. Acima da chuva e do transtorno, havia o olhar, acompanhado pelo barulho dos pingos d’água que batiam contra a janela. Foi ela quem sorriu primeiro. Perguntava-se de onde tirara forças para mover os lábios e fixar o olhar na direção daquele homem. Ele retribuiu. Ela, no fundo. Ele, no balcão. Ela saboreava o expresso quando o viu. Ele procurava um lugar para sentar quando a percebeu sorrindo. Estranho momento. Caminho do trabalho, uma manhã. Uma manhã comum, como tantas. Como todo dia. Exceto pelo temporal. Exceto pelo sorriso dela. Ele achou graça. Com o cardápio na mão, pediu um expresso, enquanto observava a mulher simpática ao fundo. Foi ela quem acenou para ele sentar junto dela. Afinal, ela estava só. Sempre estaria. Não fossem as mesas ocupadas. Ele olhou ao redor. Foi. Apresentaram-se, troc[...]



Texto Comum

2006-12-28T11:51:28.103-04:00

Não há nada mais comum que pessoas comuns. Todos somos pessoas comuns, mesmo que não pensemos assim. Cedo ou tarde você vai descobrir que, mesmo na sua individualidade, você ainda é apenas um comum como outro qualquer.

Gente comum é comumente confundida com... gente comum. Você me lembra alguém - diz a senhora. Super comum. Tenho uma camiseta igual a sua (exclusiva, você pagou caro por isso) – diz o amigo.

Gente comum passa por situações comuns, comumente chatas. Fila de banco, sala de espera, ônibus lotado. Tem gente comum que não pega ônibus, mas essa gente comum abastece o carro, como outros tantos comuns.

Pessoas comuns trabalham, comem, dormem, feito gente comum mesmo. É comum também os que não trabalham, os que não têm dinheiro pra comer, os insones. E é super comum querer ter uma vida incomum.

O tradicional é comum, assim como o supostamente original também o é.

Comumente pessoas ficam chocadas com algo incomum. Mas, dura pouco. Coisas incomuns são tão comuns afinal.

É comum ter contas a pagar, é comum conhecer alguém que já foi assaltado, ou ter sido, é comum passar o Natal em família. É comum termos dificuldades de comunicação, nesta ou noutra língua.

E mesmo que no momento você esteja se sentindo carente, ou então com o coração gelado, duro feito pedra, ainda é comum ver casais felizes, gente que ama e é amado.

É por estes sentimentos tão raros e ao mesmo tempo tão comuns, que eu, de tão comum que sou, não deixo de acreditar que a mesmice tem seu valor.


O Destro




bastiDORES

2006-12-22T13:52:03.533-04:00

Além de escrever eu também gosto de cantar. Um belo dia eu resolvi admitir esse desejo e comecei a fazer aulas de canto. Desde então melhorei bastante minha técnica vocal. Passei no teste para o coral da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, mas acabei desistindo logo após alguns encontros onde a desorganização e o desinteresse prevaleciam. Optei então por seguir com as aulas particulares, onde eu era o foco e o rendimento, portanto, maior. Um dia, quando fui assistir a um recital do meu professor de canto, surgiu numa conversa com outra aluna, que até então eu não conhecia, a possibilidade de inscrição para o programa Ídolos do canal SBT (a versão nacional do American Idol), que estava começando as audições para sua segunda edição. Ela já estava inscrita e sugeriu que eu fizesse o mesmo. Conversei com meu professor e em poucos dias havia efetuado a inscrição para a cidade de Florianópolis, a mais próxima de Porto Alegre dentre as opções disponíveis. A audição estava marcada para o dia 18 de novembro. Cheguei dia 17 e me hospedei na casa do Canhoto. Rimos, matamos a saudade e ele saiu com amigos enquanto eu ficava em casa para poupar a voz. Afinal era para isso que havia viajado. Dia 18, lá estava eu às 7h da manhã. Fui um dos últimos a chegar, embora estivesse programado para começar às 8h. Com certeza havia pessoas há muitas horas por lá. Encontrei a colega e ficamos juntos na imensa fila que devia ultrapassar as 3 mil pessoas. Ficamos cerca de 6 horas envolvidos com o que foi nada mais do que a confirmação de inscrição. Toda esta demora por que a produção do programa precisava filmar e pedia que todos gritassem, forjassem animação e abanassem e sorrissem para as câmeras. Nós ficamos de canto o máximo possível. Desconectados. As grosserias na produção eram constantes. Uma produtora perguntou a uma candidata o seu nome, ao qual ela respondeu Schanna, soletrando. A tal produtora imediatamente começou a gritar dizendo que ela não era uma artista e que deveria dar o nome real e não o artístico por que ate então ela era apenas uma qualquer numa fila de desesperados. A garota apenas repetiu, intimidada, “meu nome é Schanna”. Constrangimentos como este não faltaram, como quando pediam às pessoas para ter em mãos o documento de identificação e outro produtor berrava num megafone: “se eu disse em mãos é em mãos e não na bolsa”. O que era totalmente desnecessário, até por que as inscrições mesmo não duraram mais de meia hora, o resto todo foi baboseira fake para um programa de TV que estava se revelando extremamente fajuto. Saímos dali com uma pulseira no braço e mais uma grosseria na cara: “não tirem a pulseira nem para tomar banho ou dormir, se o lacre for rompido vocês estão fora”. A menina que estava comigo já desistiu imediatamente. Resolvi ficar até o dia seguinte quando então teríamos que cantar para um produtor que diria se poderíamos cantar para os jurados (aquela parte que se vê na TV) durante a semana (de segunda à quinta). Era final de semana mesmo e voltar pra Porto Alegre no dia seguinte não faria a mínima diferença. Mais uma vez evitei de sair com meus amigos para poupar a voz. Desta vez já sem a mesma convicção. No domingo cheguei uma hora antes. E novamente fui um dos últimos. Todos tiveram a mesma idéia. Chovia muito e fazia frio. Logo deixaram que todos ent[...]



Eu: meu maior inimigo (?)

2007-01-23T19:10:28.760-04:00

(image) Vivo me sabotando. Tenho o dom. Caio em armadilhas que preparo, com o maior cuidado, pra mim mesmo. Sou o meu maior inimigo (?). Gosto disso? Não. Detesto. Creio que não há nada pior. Peco pelo excesso de cobrança que tenho comigo mesmo. Não consigo relaxar e esperar até a página seguinte. Já corro pro final do livro. E geralmente não tem final feliz algum. Princesa? Nada. Beijo o sapo e ele continua sapo. Me olhando, com aquela cara de...sapo!

Já disse isso outras vezes e, definitivamente, não há nada mais difícil do que lidar com o ser humano. Quando o ser humano em questão é você – no meu caso, eu – aí o negócio complica. Pergunto: por que reclamo tanto? Porque muitas vezes não sei ficar só, na minha, sem encher o saco dos outros que nada tem a ver com minhas pendengas? Por que não consigo acreditar quando alguém me diz “Ei, você é um cara legal”? Por que sou tão complicado, porra??

Acho sadio, hoje em dia, me questionar sobre esse tantão de coisas. E até mesmo compartilhar com outras pessoas. Porque geralmente a imagem que temos de nós mesmos é muito diferente do que os outros vêem. E por muito tempo me achei muito correto, muito centrado, muito independente, muito insensível e até muito fácil de lidar. Me enganei, muitas vezes. Hoje, por mais difícil que me é, acho importante o feedback de quem me vê de fora. Só assim descobri que não sou tão insensível quanto achava que era. E que tem horas que saio do meu centro por pura bobagem. Independente? Nem tanto. Fácil de lidar? Coisa nenhuma.

E, mesmo me conhecendo cada vez mais (o tempo passa e a gente tem que aprender algo, né?), continuo ali, na tênue linha que me torna, às vezes, meu maior inimigo. Tem horas que acho que se eu fosse o Superman, batata: guardaria a kriptonita no bolso. Só pra sofrer. Porque é exatamente isso que faço. Vou atrás de sarna pra me coçar. Procuro pêlo em ovo. E com uma lupa, que é pra ter mais chance de encontrar algo.

Mas, a gente aprende... Fosse o contrário, essas linhas não existiriam. Tenho feito a coisa certa ao perceber e refletir sobre erros como esse. Assim, day by day, vou amenizando a dor que causo àquele que, antes de qualquer coisa, sempre foi e será meu melhor amigo: eu mesmo!

O Canhoto