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HOTEL LUANDA





Updated: 2017-10-23T11:46:12.294+01:00

 



Luandando

2008-07-11T17:53:19.078+01:00

- Vamos indo, vamos andando.
É costume dizer-se assim por aqui, quase sempre como resposta ao "Bom dia, como vai?" de todos os dias.
E de facto tem sido assim: Vou indo e vou andando. Vou e ando sem contar as horas nem os dias. E muito menos conto os minutos. Não. Penso em grande e conto só as semanas. As semanas que faltam...
Que estranha é a forma da vida. Como ela tudo nos muda e nos faz mudar. É estranho quando há dias em que nem entendo que um dia pensei fazer por cá a minha vida. Ou ir fazendo, ao menos... Ir vivendo por cá, como já pensei e desejei outrora. Mas tem dias. Há uns em que acordo e até o sol brilha, e outros há em que adormeço e a lua nem vê-la. E assim ando neste "gosto, não gosto" de Luanda há já algum tempo... Era decisão nada fácil.
Mas agora a Vida decidiu por mim: - Ah e tal, eu até gosto disto, as coisas em Portugal não estão nada fáceis para quem quer trabalhar, aqui está sempre bom tempo, o combustível está bem mais barato... Mas a verdade é que o caminho não se faz parado, nem a vida se faz apenas com o presente. E a vida é que sabe de nós.
Pois já passou um ano desde que conheci Luanda, e em um ano desconheci-me e reencontrei-me de novo. Foi um ano em que tudo me aconteceu: rodopiei sobre mim mesmo, pairei sobre o meu mundo, ponderei e realinhei a minha vida, como um rio que é capaz de decidir o seu curso. Agora só falta tudo o que mais me falta: o pouco que ainda não tenho.
O tempo as emoções e os dias que tardam mas voam não me permitem actualizar este blog. Juro que não é por falta de tempo nem de emoções... (e nada mesmo no que respeita a emoções vividas!) Mas sobretudo é o meu tempo que é outro. É o tempo voltado para o futuro. É o tempo de pôr um fim no recomeço e um princípio no infinito.
Cá vou indo então por Luanda.
Vou bem, vou luandando.



Com Sabor

2008-05-21T21:46:32.036+01:00

Finalmente escrevo sobre os finest restaurantes aqui em Luanda.Passou quase um ano e a verdade é que já sinto que estou cá há tempo suficiente para ter uma ideia criada (e algo credível) sobre os melhores restaurantes da cidade de Luanda.Tentei então fazer uma lista dos 5 melhores, tendo em conta todas as principais variáveis: o preço, a qualidade, a simpatia, o ambiente e a rapidez no atendimento - esta última é importante para quem gosta de acabar de jantar antes da meia-noite, e isso é bem raro por aqui. Além disso, senti na pele o difícil que é encontrar informações sobre os restaurantes aqui, tal como os contactos… Vai-se á internet e… nada. Mas agora será diferente… É clicar e cá está! Vai dar jeito até mesmo para mim.1. Naquele Lugar (Fortaleza)Coloco-o em primeiro lugar, pelo ambiente magnífico. Ao ar livre, sentimo-nos em casa, com amigos e como amigos, como se estivéssemos no nosso próprio quintal. Com bom atendimento (embora algo demorado) e uma comida divinal. Como prato, sugiro o bife com pimenta, que é verdadeiramente um espanto, ou a massada de lagosta e lulas, que não lhe fica nada atrás. Mas tudo é bom. Muito bom. Música ao vivo todas as 5ªs feiras, o dia que considero ideal para ir lá dar um salto e viajar no espaço no tempo e nos sabores.Embora haja espaço sempre para mais um, convém reservar sempre com antecedência.Preço médio: 35 Usd.Dona Elsa: 926 323 9582. Embaixador (Ingombotas)Elegi-o como o restaurante com a melhor comida de Luanda. É um local fechado, numa rua escondida e escura, mas um restaurante com muita luz, muito português, com requinte e simpatia q.b.. É muito demorado, mas a comida é absolutamente magnífica, onde podemos comer desde um óptimo linguado grelhado a variados pratos de caça. Ao fim de semana, almoço ou jantar, fazem um excelente cozido à portuguesa ou um apetitoso leitão à bairrada.Preço médio: 40 USDRua do Clube Marítimo AfricanoTelef: 923 651 6323. Coconuts (Ilha)Esteve fechado quase um ano. Aliás, quando vim para Angola já estava fechado para remodelações, e assim foi até há umas semanas atrás. Agora sei o que perdi este tempo todo… Para muitos é o melhor restaurante de Luanda, e para mim está claramente na lista dos melhores, pelo prazer que me proporciona. Junto à areia da praia, com pratos que têm tanto de fascinante como de exóticos, é o lugar ideal para um jantar de fim-de-semana ou um almoço antes ou depois de um banho de sol. Música ao vivo às 4ªs feiras.Preço médio: 45 UsdTelef: 222 309 2414. Caribe (Ilha)Talvez o mais famoso restaurante de Luanda. É de facto muito bom, mas para mim tem duas coisas mesmo óptimas: um divinal arroz de cherne e o Chill-Out mesmo ali ao lado. É por isso que o aconselho para qualquer início de noite. Tem também a melhor lagosta da cidade, e o melhor ginacujá, que acompanha bem qualquer refeição. Experimentem pedir.Preço médio: 40 UsdTelef: 222 202 8875. Trinca-Espinhas (Ingombotas)Fica tão escondido que quase nem se dá por ele ao passar. Mas quem o encontra também encontra o sossego e a paz para umas horas de prazer autêntico. Petiscos ou pratos bem requintados, que vão desde as migas de bacalhau com couve até ao bife à negrão, passando pela magnífica açorda de marisco. Para mim é o mais recatado dos restaurantes e temos de oferta a simpatia do Rui Jorge que nos recebe com um requinte de verdadeiro mestre. Todos os pratos são feitos na hora, o que não dá jeito a quem já lá chega com fome e com pressa, mas tem sempre umas óptimas entradas para saborear ao sabor de dois dedos de conversa.Preço médio: 35 UsdMorada: Rua António SaldanhaTelef. 923 448 418Menções Honrosas:Tendinha (Rua da Missão)Tinha de figurar nesta lista, pelos meus almoços de cada dia que passa, e pelos petiscos a acompanhar um bom vinho em qualquer serão durante a semana. Recomendo.Preço médio: 25 UsdTelef: 923 987 084Cais de 4 (Ilha)Pela vista magnífica sobre Luanda.Preço médio: 40 UsdTelef: 222 309 430Poderia falar de muito[...]



Sempre!

2008-05-14T09:08:54.595+01:00

(image)

Hoje é dia 25 de Abril.
Aqui também a madrugada cheira a liberdade... deve ser cheiro que emana de nós mesmos, como sopro e brisa da alma.
Como em todos estes últimos anos que passaram, sempre comemorei este dia com um cravo na mão e na outra mão um amigo. Sempre gritei e cantei à liberdade neste dia e, mais do que isso, brindei à amizade e comemorei a vida.
Há um ano atrás estava longe de pensar que a minha vida pudesse dar tantas voltas, voltas estas que me trouxeram para tão longe e que sem saber me aproximaram de mim mesmo.
Mesmo estando em Angola, não me poderia esquecer deste dia e do significado que ele tem, para mim e para os meus. Não me esqueço de honrar neste dia os que muito lutaram para que a nossa geração e as gerações futuras saibam o que é sentir a Liberdade como eu o sinto...

Sobretudo não poderia deixar de lembrar os amigos que outrora escolhi e que um dia lhes dei a mão para todo o sempre. Aos amigos que com eles comemoro este dia, hoje trago-os comigo também, de mãos dadas.
Passei todo o meu dia ouvindo músicas de outrora que nunca se gastam com o tempo. Músicas que perduram bem vivas desde que nasceu a liberdade. Passei o meu dia em recordações, em revisões da matéria dada de uma vida em constante metamorfose.
Mas para mim este 25 de Abril é único. Porque hoje eu sou uma criança. Sou uma criança pequena e livre, que chora de emoção e que ao mesmo tempo sorri bebendo as lágrimas que vão caindo pelo rosto. Hoje, mais do que ser livre, comemoro a Vida e o seu verdadeiro e único sentido: Ser feliz.

"Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo"

Sophia de Mello Breyner Andresen

Porque hoje faz ainda mais sentido: 25 de Abril, Sempre!




E vão três...

2008-05-09T08:40:27.809+01:00

(image)
Acordo pela manhã e chego bem disposto ao meu carro. Eis que reparo logo que o meu lindo carrinho está estranhamente baixo, tipo carro desportivo. Observo melhor e...
- Boa, mais um furo...!
Não há duas sem três... E assim sendo já lá vão três (!) furos em pouco mais de uma semana. E dois deles em dois dias seguidos, no mesmo carro, e em ambas as rodas da frente.

Para o meu próximo carro acho que vou pedir para que tenha duas rodas sobressalentes, em vez de apenas uma. É que isso dá um certo jeito aqui... Mas a verdade é que até hoje nunca tinha pensado que tal poderia acontecer: um furo já é azar, mas dois é o quê? Será sorte?
Fiquei assim sentado e pasmado de mãos atadas esperando que me viessem trazer um veículo de substituição... E esperei, esperei, esperei até adormecer, encostado ao volante.
Passam mais de duas horas e finalmente chega o homem da empresa de rent-a-car:
- Bom dia! O Sr. está mesmo com azar...
- Duuhh... a sério? Dois furos em dois dias não é sinal de grande sorte não.
- Pois, está ali o seu carro de substituição mas...
- Fixe, vou...
- ... mas fechei-o agora mesmo, sem querer, com a chave lá dentro. Não vai dar, tem de vir outro meu colega com outro carro...
- Não me diga... está a brincar?
- Pois não... é verdadinha mesmo. Mas ele tá mesmo aí a chegar...
- Que m... !
Bem... haja paciência nesta terra. O "tá mesmo aí a chegar" significa que ainda nem seguiu caminho. Por isso só mais duas horas além das duas primeiras, e meio dia de trabalho já perdido, lá veio um outro carro, que pedi para nem desligar a ignição, não fosse acontecer o mesmo... e pude seguir finalmente para a empresa.
NDR: Ainda por cima é azul bébé...



Beleza Interior

2008-05-09T08:40:08.090+01:00

O fim-de-semana grande proporcionou-nos uma viagem em grande de três dias rumo ao incerto desconhecido: a província de Malange, terra da palanca negra gigante, das quedas de Kalandula e das pedras altas de Pungo Andongo. Para muitos, o berço da nação Angolana.Cedo partimos de Luanda, com tempo e com chuva ao romper da aurora. Pela frente esperava-nos uma viagem de mais de quatrocentos quilómetros e com quatrocentos mil buracos na estrada. Ou mais... Estranhamente, ou não, pareceu-me até que atingimos esse número ainda antes de sair da cidade. Com o sol por companhia, o pó de Luanda cede lentamente seu lugar à estrada de pó e ao verde da planície, e a confusão de casas amontoadas transforma-se aos poucos em simplicidade de casas dispersas. Sair da cidade teve também como consequência um furo em uma das rodas de um dos nossos jipes – o meu, claro. Pela primeira vez tive um furo! Incrível... E chato. Mas não sei porquê, parecia-me que este primeiro azar seria um sinal de sorte. Sorri à chuva intensa que veio ajudar e uma hora mais tarde (experimentem substituir uma roda de uma pick-up com um macaco de um automóvel ligeiro...) seguimos de novo viagem.A paisagem é linda. Mesmo. Verde planície que abraça a estrada com desejo de se mostrar. O casario se mostra também aos poucos, ora destruído ou em destruição. Incógnito. O caminho torna-se numa viagem à nossa história, à guerra e ao tempo presente de Angola, numa mistura de deslumbramento e desencanto. Curioso como por entre o pó da estrada e o meio dos destroços nas povoações por onde se passa se descobre destruída a nossa feliz presença e se sente a presença fria da guerra ainda quente. E esta destruição toca-nos, como se estivéssemos numa visita por um museu vivo que emerge aos nossos olhos como poeira que nunca assenta no chão.Almoçamos bem no Cacuso, a cerca de oitenta quilómetros do nosso destino final. O nosso olhar que tanto se prendeu outrora na beira do caminho puxou-nos agora ali para bem perto, até uma enorme igreja em renovação. Quase Sé e único edifício em renovação que, mesmo ainda sem tecto, já desponta a curiosidade futura pela sua incrível beleza e imponência. Naquele lugar sagrado também nós nos tornámos curiosidade, aos olhos de quem passava e nos via ali, ou de quem ouvia nossas vozes cantando e ecoando na nave daquela igreja.Chegamos a Malange já era noite. Desde o Cacuso até à capital da província (os tais oitenta quilómetros) fomos tentando encontrar uma estrada por entre os buracos que nos apareceram pela frente. Em vão. Foi um sacrifício para nós e para os jipes fazer este bocado do percurso, mas de tão ansiosos que estávamos de chegar ao hotel e descansar um pouco da viagem, sorrimos enfim por ver as luzes de Malange ao longe. Chegámos mesmo.Tínhamos quartos reservados na casa dos horrores de Malange... perdão: no Hotel Gigante. Azar, ou apenas destino, não havia mais quartos vagos em nenhum outro hotel de Malange. Não vou alongar-me muito a descrever este antro, pois não merece nem publicidade negativa. Aliás... chamar àquela espelunca de hotel já é um autêntico crime, e de gigante só mesmo as baratas. Merece uma passagem... bem ao largo. Dia 2. Acordámos do pesadelo (quem conseguiu dormir um pouco) e cedo deixamos a cidade de Malange rumo às quedas de Kalandula. O percurso fez-se em constante deslumbramento por entre os buracos da estrada e muitas paragens para contemplar e gravar tantas imagens de rara e enorme beleza. O enorme capim cortado pelas águas de um rio que serpenteia pela planície e que sob ela passa várias vezes, e pelas sanzalas junto à estrada, onde nascem mais olhares de crianças por cada carro que passa. Chegamos enfim a Kalandula. Uma pequena e acolhedora povoação situada no alto de um planalto, imponente como rainha que do seu trono observa suas terras ao longe e bem ao longe de tudo. Conserva ainda algumas marcas do colonialismo, n[...]



Águas Passadas

2008-05-09T08:40:42.445+01:00

(image)
Páscoa. Cumpri feliz a tradição que se cumpre por esta altura da minha terra natal e fui também passar as àguas. Não o fiz propriamente como Moisés, pois não tenho, infelizmente, esse poder nem mandamento. Mas a vontade era essa: abrir um pequeno trilho através do imenso mar, e seguir caminhando, em passos rápidos, a caminho da minha aldeia por estas alturas do ano. Até que tentei... mas não deu: apenas o consegui com o pensamento... Acho que é porque estou em Angola afinal... e vendo bem as coisas, já cruzei o oceano e cheguei à minha terra prometida. Aqui. Por isso digo apenas que fui até junto do mar, passar o fim-de-semana. Apenas para viver e recordar. Apenas para estar mais próximo, por breves momentos.

Ficámos a sul, na praia de Sangano, por dois dias e uma noite. Por dois dias cheios de sol e por uma noite cheia de luar, com a lua deslizando misteriosa e ardente pelo céu, como um foco de luz que nos ilumina em pleno palco.
Artistas. Montámos nossas tendas no final do dia, enquanto se montava o cenário da noite e do mar atrás de nós. Seguiu-se um óptimo jantar no Pirata, o resort ali mesmo ao lado que serviu para nós como autêntico porto de abrigo para as necessidades básicas: comer, beber, e seus derivados.

(image)

Depois foi o acto final, concluído com aplausos em apoteose: um banho de mar à meia noite, assistindo à dança de carangueijos por entre as brancas ondas beijando a areia em suaves e borbulhantes carícias. Eram reflexos de lua em movimento, numa autêntica festa da espuma. E nós éramos ali apenas sombra, seres estranhos invadindo esse rito natural de todas as noites. Mas o mar logo nos convidou a entrar, mesmo sem termos convite. A lua dava-lhe cor e calma, luz e alma, ao mar e a nós mesmos, e fez-nos assim sentir parte viva e integrante deste magnífico palco que é a mãe natureza.
Nesta Páscoa cumpri feliz a tradição e passei as águas mesmo aqui em Angola. Passei as águas e deixei para trás todas as águas passadas.



Regresso

2008-04-03T17:49:35.600+01:00

(image)
Eis que voltei depressa. Meio à pressa e sem pressa. Olhei para trás mais uma última vez, tentando gravar com o olhar todo aquele momento na memória. Guardei cada respirar de emoção e cada olhar de ternura, para recordar depois a vida inteira. Na invulgar e feliz despedida, com um sorriso e um olhar de menino, lá segui confiante a luz do meu novo destino, voltando afinal ao mesmo destino de sempre: Angola.

Confesso que a vontade de ficar era bem mais forte do que tudo: afinal naquele momento o meu mundo estava todo ali... bem presente naquele presente. Por isso, e sem querer, resisti à partida. Hesitei na felicidade, temendo conseguir ser mais feliz. Mas de novo peguei em tudo o que me espera lá bem longe e no tudo que levo comigo, bem pertinho e junto ao peito. E esse tudo é também a ansiosa incerteza do que virá, a meias com a forte certeza de que tudo irá correr bem. Sinto que sim, como sempre. Tem sido assim.

O que mudou é que a palavra regresso sempre teve em mim um destino chamado casa. Tal como em cada um de nós existe sempre um sítio a que chamamos de nossa terra. Regressar a casa sempre me deu aquela prévia ansiedade que aperta forte o coração, sem hesitação, e que me faz sorrir mesmo antes do regresso. Regresso sempre foi para mim um finalmente, um respirar de contentamento, um acabar de sufoco, um voltar e nunca um partir. Mas desta vez, e por vez primeira, sinto ao partir que estou a regressar. Regresso à minha vida, à vida que agora me espera, depois de tanto passado. E agora o meu presente é tudo o que tenho e tudo aquilo que escolhi. O meu futuro é apenas pura incerteza, mas aceito-o confiante e de livre e própria vontade. Não sei se tudo o que acontece nos é afinal predestinado... mas a verdade é que gosto de pensar que sim. Como hoje ouvi de um amigo, afinal o mundo não pára de girar e nós também não podemos parar. E é nesse simples movimento que nos encontramos e desencontramos, entre nós e a nós mesmos.

Deixo lá longe o cais do meu presente e entrego-me inteiro ao sabor das marés que já me conhecem. Regresso por isso a Angola.... pela primeira vez. Encontrando-me.




Até breve

2008-03-31T11:25:10.319+01:00

(image)
Digo adeus à enorme Luanda através da pequena janela do avião. Olho a medo para a cidade lá do alto e sinto e recordo a mesma emoção que senti da primeira vez que a avistei: Luanda é mesmo assustadora. E assustadoramente feia.

Fecho a janela e também os meus olhos, como quem carrega no off de qualquer botão, desligando em urgência as emoções. Respiro só por um largo momento e penso nos momentos que se seguem. Recapitulo os próximos capítulos e revisito em pensamento a minha família. Só ela me preenche e invade de uma intensa e brutal saudade. E aqui a palavra saudade também existe e se sente como tatuagem no corpo: só desaparece se tirarmos uma parte de nós mesmos.
Abro de novo os meus olhos. Sorrio olhando para o lado em contemplação e assim me deixo adormecer, vazio e só feliz por dentro.
Hoje deixo Luanda e volto para casa, em serenos sobressaltos. Deixo Luanda e desta vez digo adeus sem vontade de voltar... Afinal não deixo nada para trás: levo comigo metade do que me importa e parto ao encontro da outra metade de mim. Parto assim sentindo em mim a vida inteira.
Mas sei que vou voltar. Em breve, de novo e como novo. Sei que tenho de voltar... E quero voltar sorrindo e com a mesma alegria com que agora digo adeus. Espero conseguir.
Volto sim... Por agora vou só respirar um pouco de mim. Porque preciso. Porque quero sentir o frio no rosto e o calor no coração. Porque quero abraçar minha família e minha vida. Preciso do seu abraço. Porque preciso agora, mais que nunca. Porque a vida não pára, e não pára de nos surpreender.
Vou por isso libertar minhas amarras e abrir os braços à vida, como a vela de um barco sentindo o vento. Vou e volto... num adeus de até breve.



Que M....

2008-03-25T07:33:33.048+00:00

(image)
17.00: Saio do trabalho e pego no carro. O objectivo é chegar a horas à clínica dentária, cerca de 2 Km e hora e meia de distância. Pouco preocupado com a distância e o tempo, pois afinal tenho 90 minutos para fazer 2 Km... Mais preocupado sim com o resultado final da consulta e com o sofrimento que adiei... até hoje. É que extrair um dente em Angola é mais que motivo para preocupação...

17.30: Reparo que estou ainda no meio do trânsito... Andei 200 metros, se tanto... Mas continuo confiante. Deve ser só aqui a confusão desta rua, depois é sempre a andar...

18.00: Ainda estou na mesma rua e já decorei os anúncios todos nas casas de ambos os lados. Já meti a conversa em dia pelo telemóvel e sintonizei e gravei as estações de rádio que mais me interessam. Cantei um pouco, até reparar que no carro ao lado estavam a olhar para mim e a julgar-me doido. Contive-me. Vi finalmente se a documentação do carro estava ok e repreendi-me quando olhei para a porta e vi o lixo que se acumula, com os pacotes de leite e de sumo vazios que são por vezes o meu pequeno-almoço. Olho para o relógio e apercebo-me incrédulo que em meia hora andei apenas 10 metros. M…

18.30: Já comprei pastilhas a um miúdo que passou, para aliviar o meu stress. O ar condicionado do carro é fraquinho e começo a sentir um calor que nem sei se é do sol ou do nervosismo. Tento não pensar na consulta e no dente que vou extrair, mas acaba por se tornar inevitável. Penso que devia ter tomado o último Clonix, ou alguns comprimidos para dormir, mas que se lixe... Sou forte, não é? Ligo para a clínica, a informar que devo chegar um pouco atrasado... Afinal andei apenas mais 10 metros, mas a rua também está a acabar... Agora é só passar o cruzamento e depois é sempre a abrir. E da clínica respondem-me com o tradicional "- Não há problema”. Relaxo...

19.00: Começo a dizer asneiras. - E os carros não andam porquê? - Tu aí, anda mas é com isso! Passei o cruzamento mas o trânsito continua parado. Estudo outras alternativas, outros caminhos para chegar mais depressa ao mesmo destino... Mas aqui é tudo sentido único, não tenho hipóteses, nem para trás nem para a frente. Bem, o que vale é que liguei para a clínica a dizer que estava atrasado... Não há problema.

19.30: Estou quase, quase a chegar! É já a rua seguinte! Já sorrio, um pouco sem razão, porque afinal vou tirar um dente, não devia estar a sorrir... Mas ao menos saio deste trânsito infernal. E além disso dói-me o corpo de estar tanto tempo sentado no carro. Ai, que vontade de chegar ao dentista! Está quase! Já canto de novo, por entre as asneiras e um trânsito nunca visto...

19.45: Toca o telefone. Olha, é da clínica! Fixe, se calhar estão preocupados comigo... – Senhor, já passou da hora, fechamos às 19.30, não vai dar. - Mas eu estou já aqui! E é só virar a esquina e estou já aí! - Sim, mas o doutor já foi embora... não vai dar. - Mas a senhora disse-me que não havia problema... Eu liguei a dizer que estava atrasado e além disso estive 3 horas no trânsito para cá chegar! - Pois... mas agora só para a semana. - Que m...! Olha, vai… E chamo-lhe alguns nomes e desligo só depois.

20.00: Continuo chamando-lhe nomes enquanto perco a paciência no trânsito intransitável e nas horas intermináveis que me esperaram no ansioso regresso a casa.




Mais...

2008-03-25T07:38:58.714+00:00

Muitas vezes sinto que acabo por me repetir...
É que tudo me parece mais do mesmo: beleza rara e infinda. A verdade é que me sinto fascinado com cada experiência que partilho e com cada lugar que descubro neste pequeno grande recanto do mundo. Angola tem tanto...e tanto mais para descobrir!
Sábado rumámos para norte, rumo incerto à procura de uma praia que se diz quase mítica: a praia de Santiago. Mítica pela sua beleza, que tanto ouvi falar com misterioso brilho nos olhos de quem conta histórias em noites de luar. Mítica porque em tantos e tantos meses ouvi falar dela, mas nunca soube lá ir ter ou chegar. Até hoje, em que finalmente chegou o dia certo e a incerta aventura. Assim partimos sorrindo deixando para trás a confusão de Luanda, seguindo a estrada de tristeza até ao Caxito e virando algures no meio do tempo e da estrada em direcção ao mar a oeste. Seguimos por mais estrada em caminhos de pó. Imenso pó como nevoeiro denso e feito de tão leve poeira, como se fosse apenas vapor de terra. O horizonte indistinto aos poucos foi aparecendo, como se o próprio mar fosse o sol em cada aurora. Os nossos olhares curiosos presos em crescente ansiedade, tentando olhar mais à frente, apressando o deslumbramento. Eis então que a encontrámos, pouco depois, com o mesmo desejo de quem encontra um oásis no meio do deserto. E que linda é a praia de Santiago!
Praia deserta aos nossos olhos, de imensa areia branca e mais suave que o mar. E na areia branca brilham vivas inúmeras estrelas do mar. E no mar escuro brilha a areia branca em reflexo e um sol de meio dia perfeito. E no mesmo mar, velhos e imponentes navios gastos pelas ondas e despidos pelo tempo ali descansam perdidos e esquecidos, até à eternidade.
Certo estou que foram eles que escolheram este lugar para seu eterno repouso. Se eu fosse um navio faria certamente para aqui a minha viagem derradeira.
Ao longe perdem-se na vista muitos outros barcos mudos, junto à praia que nos parece interminável. Umas poucas casas ao longe e outras mais perto de nós, das quais não se distingue nem sombra nem movimento. Para trás ficaram as dunas e um mar de planície que separa a praia do resto do mundo. À nossa frente apenas a calma e a serenidade de um mar sem fim, que nos contagia com as suas próprias emoções.
O silêncio ali é cortado apenas pelas nossas vozes. Apenas nós. E nem o som das vagas ondas se distingue no silêncio daquela praia. Naquela praia, só nós e o tempo que passou.



O Super

2008-02-21T07:10:12.465+00:00

(image)
Sexta-feira é sempre o melhor dia para cometer loucuras, sobretudo depois de uma semana de doidos. Autêntica. Por isso achei por bem ser doido e ir até ao festival Super Bock Super Rock aqui em Luanda. No Estádio da Cidadela. E porque não? E eu que até nem bebo álcool...

Bem, mas umas horas antes até almocei com o João Cabeleira, dos Xutos e Pontapés. Apareceu meio cambaleando e desorientado na Tendinha e acabei por pagar-lhe o almoço e dar-lhe também um autógrafo. Merecido. Pois é, os Xutos também vieram. Mas esses sim são malucos mesmo... em grande.

Ok pronto... a parte do autógrafo é mentira: não tinha caneta comigo.

E assim fui ao início da noite para o fim do mundo. A princípio a medo, por entre os milhares de pessoas que se aglomeravam à entrada do estádio... E Medo porque realmente éramos os únicos algo "diferentes" por entre esses milhares de pessoas, e entre o dobro dos olhos desses milhares de pessoas olhando para nós. Vigiando-nos. Depois sentimo-nos mais confiantes, seguindo as filas indianas que curiosamente as pessoas respeitavam sem qualquer hesitação até à porta de acesso ao estádio. Ok... talvez os polícias com cães de guarda e bastões ameaçando agredir as pessoas para que elas se mantivessem em fila única tivesse ajudado um pouco para isso... Hum... Pois, era isso. Mas lá entrámos cercados, cerca de uma hora depois.

Já dentro do estádio... senti um arrepio. Mais milhares de pessoas enchiam o reduto no relvado (?) e nas bancadas, dando ainda mais calor à noite quente. Resmas de gente, num ambiente colorido e surpreendente. No palco, o grupo angolano Impactus 4 dava o ritmo e o ambiente q.b. para animar a festa. Muito bom!

Conseguimos lugar na bancada, num lugar tranquilo (dentro do possível...) mas longe do palco. Animado. Com o Dj Malvado (um Dj, como é normal num festival de ROCK...) no intervalo, vieram depois os Xutos e Pontapés. E pontapés só no palco mesmo. À nossa volta toda a gente dançou, pulou e cantou todos os êxitos com que eles nos brindaram. E nós brindámos a eles. Epá, é mesmo impressionante como os nossos dinossauros são conhecidos em todo o lado, até mesmo em Angola! Regressei por momentos a Portugal. "À minha casinha". Senti-me lá mesmo. Recuei nostálgico no espaço e no tempo, aos meus tempos de adolescente. Fiquei quase sem voz. Lembro-me que o primeiro concerto que fui na vida foi mesmo de Xutos e Pontapés, há já (...) bem, há bué anos. E desta vez foi como se tudo se repetisse, como uma segunda primeira vez... Entretanto cheguei à conclusão de que sei ainda de cor as letras! "À minha maneira" e "Não sou o único" foram puros exemplos disso. E não era mesmo o único a olhar o céu daquela noite. Foi mesmo um festival com sabor autêntico.

NDR - A parte do "não bebo álcool" é mesmo verdade... E já lá vão 15 dias, um autêntico record pessoal. Senhores artistas, abram os olhos! Para quando o festival Super Sumo Super Rock? Pode ser???




E fui ao Dentista

2008-02-21T08:54:03.600+00:00

É assumido que não gosto de dentistas. Aliás, só a ideia de ir ao dentista assusta-me e faz-me tremer as pernas em qualquer circunstância e em qualquer parte do mundo. Aquele cheiro típico da sala de espera, o fssssssttt arrepiante que provém das salas de tortura e que se ouve enquanto folheamos as revistas do ano passado... Enfim, é mais um dos meus traumas de infância, confesso... Juro sempre para nunca mais!
Mas teve que ser. Um dente com o qual tenho já uma velha relação de inimizade resolveu chatear-me logo agora e dar-me de presente uma dor contínua e insuportável, daquelas que nem dá para pensar. Não. Dei por isso por mim procurando e encontrando farmácias e remédios pela noite na cidade. E encontrei mesmo um spray milagroso que me aliviou a dor por uns... segundos. 10, praí. Recorri então desesperado à caixa de Clonix que tinha na mala, num estojo que nunca abri (o mesmo onde está o Mephaquin, o tal substituto do gin tónico, segundo dizem) e tomei um. Depois mais um. E outro. Em 12 horas foram 4 comprimidos. Não me lembro bem se sonhei ou se vi mesmo elefantes cor de rosa e estrelinhas azuis a flutuar pelo quarto... mas a verdade é que consegui passar bem essa noite. Menos mal.
Acordo decidido e sem alternativas no dia seguinte e vou de emergência a uma clínica dentária. A melhor de Luanda, segundo me disseram. E talvez seja.
Passadas 2 horas e 80 dólares depois, mais uma injecção para as dores e mais antibíóticos e anti-inflamatórios lá deixei de tremer. Mas não me fizeram nada ao dente... Nadinha mesmo.
- Tá inflamado, não pode tratar. Vai levar medicamentos para 5 dias e volta depois. Daqui a 9 dias, que é quando há vaga. Antes não.
Ok, jurei de novo que nunca mais!
E passaram os 5 dias. O antibiótico já era e sobra-me apenas um Clonix. Mas o Clonix não é um comprimido qualquer... está reservado mesmo para emergências emergentes.
E eu cá continuo à espera da consulta. E só eu mesmo, pois a dor felizmente passou. Será que se cansou de esperar pelo tratamento? Epá, só sei é que espero que não volte tão cedo. Oxalá!



Onde o Rio se sente Mar

2008-02-12T07:06:44.113+00:00

Bico do Rio Kwanza. Um braço de areia branca que adia e suaviza o confronto inevitável entre o imenso rio e o mais imenso mar. Foi esse o nosso feliz destino no passado fim-de-semana. Penso que já era esse o nosso destino, mesmo antes de o sabermos... Tem sido assim em tudo o que acontece: simplesmente tudo o que acontece é porque fazemos acontecer.Foi até decisão de última hora, de um último instante para uma viagem inadiável. Isto porque se disse que era uma espécie de santuário de tartarugas e tal, e era agora o momento e ali o sítio certo para as ver no seu demorado ciclo de vida: criando vida. E fomos assim a tempo de dizer "vamos lá!" e comprar e arranjar tudo o mais que precisávamos para dois dias bem diferentes. Incluindo tendas. A verdade é que com toda a vontade e grandes amigos conseguimos tudo. E querer foi mesmo poder. Aconteceu.A verdade também é que a princípio nem sabíamos o caminho. Só mais ou menos… Fomos num confiante "- Iá, acho que é por ali!", mas foi mesmo assim e por isso mesmo uma viagem magnífica. E já quase no fim, no “estamos quase lá!”, os nossos jipes enterraram-se parcialmente na areia quente, querendo ficar mesmo ali. Pensámos sorrindo. Olhámos para o horizonte e convencemo-nos a chegar mais à frente. "- Lá ao longe, mais perto!" Lá mesmo onde o rio se confunde no mar. E com a mesma e renovada amizade e ainda maior vontade, com muito calor de um sol de meio-dia e com menos ar nos pneus (grande ideia!), lá conseguimos alcançar o sítio desejado. E merecido.A tarde passou-se assim merecida entre o mar e o rio. Entre o início do mar e o fim de um rio, numa beleza imprevista e incontável, só vivida pelas ondas daquele mar e pela corrente daquele rio. Nem sei bem qual o mais imponente. E só nós no meio, delirantes. Nós, o sol e a areia quente. E a geleira bem fresca junto ao mar. Ali ficámos assim, em frente ao mar e enfrentando as ondas até ao magnífico pôr-do-sol.Passeio pela praia deserta. Uma tartaruga deu-nos a prova morta de que estávamos mesmo no sítio certo. Era ali! E a noite tornou-se assim inadiável ansiedade… Montámos acampamento e aguardámos em amplos sorrisos, saboreando as estrelas e desafiando desafinados a sua distância com o som das nossas vozes e com o calor da fogueira. Almas aquecidas com um doce sabor a juventude.Veio a noite apressada. Veio os vinhos e os queijos e os grelhados na fogueira. O gin tónico. As mesmas vozes se aqueceram e se dispersaram no silêncio harmonioso das ondas do mar. Depois, um novo passeio pela praia e sob as imensas estrelas. A luz de uma lanterna apontada pela noite e pelo mar adentro não nos deu de volta nenhum sinal de tartarugas… Desilusão? Nem por isso… Foi esta afinal a única coisa que faltou para tornar esta noite perfeita. E é tanto o mais que fica por dizer… Adormecemos e acordámos sorrindo no dia seguinte, ao som das mesmas ondas do mesmo mar, e entregámo-nos de seguida à sua força e ao seu majestoso sabor. Continuação de um sonho, de um fim-de-semana que afinal foi mais que perfeito, e que terminou como já tantos outros, sempre nostálgico em cada inadiável regresso a Luanda. A verdade é que nem sempre o sonho termina… Este continua sempre e bem presente, como um início que agora sinto contínuo. Como o horizonte que observo em cada dia que passa. Como algo interminável, em cada sorriso que dou. Até ao infinito.[...]



Além do Sul... a Porta do Tempo

2008-02-11T11:47:04.503+00:00

Continua faltando-me o tempo. Reparo o meu tempo no presente e este já se encontra no passado. Tem sido assim, uma constante perseguição a alta velocidade. Sei que não o consigo fazer parar. - Ah... e era tão bom! Mas eis que senti que nele recuei, no passado fim-de-semana. Por entre montes e vales e grandes rochedos e floresta cerrada, cheguei à Gabela. E vejo que alguém ali conseguiu o que eu tantas vezes tenho desejado: parar no tempo, por muito tempo. Alguém. Talvez a própria natureza, que enclausura a pequena vila entre as montanhas que nem o tempo atravessa, ou mesmo a guerra que a isolou ainda mais do resto do país por anos e anos. Ou apenas a graça de Deus e dos homens que aqui souberam criar vida escondida do resto da vida e do tempo que passa. Nota-se tanto a presença dos portugueses... Como se ali ainda se vivesse antes de tudo, antes do nada. 30 anos antes. As casas, as ruas térreas, a igreja ao fundo da avenida, o mini-mercado e o café Royal, com os petiscos e a cerveja e o café caseiro servido com chávenas do melhor serviço da casa. E as pessoas que param para nos ver passar, e nos recebem na porta do tempo com um sorriso e simpatia de quem deseja que ali fiquemos por muitas mais horas. Dias até. Sim... Dá vontade.

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No caminho que durou seis descansadas horas, e já bem perto do destino, algures no fim do tempo, paramos em deslumbramento nas cachoeiras do Sumbe. Um espectáculo que a mãe Natureza criou com arte desde o início de tudo, demonstrando aqui a força e a beleza infinda das suas criações. Senti-me pequeno e submisso, impotente e em incontrolável alegria e serenidade. Incrível a paz que vem com a força do rio.

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Hesitando no ficar, acabamos por regressar bem tarde e pela noite dentro. E pela estrada fora nos acompanham milhões de estrelas, bem alto e bem visíveis num céu nunca antes visto, substituindo a luz da lua que hoje não veio ao nosso encontro. Regresso a Luanda a cantar, a sorrir e a sonhar meio acordado. Depois retomo renovado o meu tempo no dia seguinte. Conformado, ganhei ânimo para continuar perseguindo-o.




E o dia começa assim...

2008-02-11T11:47:33.029+00:00


Luanda, 8.00 da manhã. Saio pela porta do 'meu' Hotel Presidente e respiro fundo. Inspiro e admiro incrédulo a imagem.

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Suspiro aliviado...

Ontem cheguei ao hotel e só por acaso não estacionei ali mesmo...

Ah.... e a mancha preta no chão...? É gasóleo sim. Entro apressado no meu carrinho e sorrio, abandonando o local.

Sorte. Hoje só pode ser um dia bom...




Muito...

2008-01-23T13:17:08.516+00:00

... trabalho!
Sinto que nunca estive tanto tempo sem escrever aqui e eu mesmo tenho saudades quando revisito este meu blog e o vejo meio abandonado. Parte de mim abandonada. E tanta coisa para dizer, tanta sensação vivida, tantos pensamentos por escrever... Mas ainda o tempo me consome... e se consome com o passar de cada instante.
Estou bem... Feliz. Como já o sabe quem me sabe sentir. Prometo que em breve recomeço a escrita. E recomeço porque quero e porque preciso de o fazer. Mas só depois. Agora tenho toda a minha vida em recomeço.
Até já.



Ano novo...

2008-01-15T17:22:17.141+00:00

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...Vida nova.
Regresso a Luanda. Uma Luanda calma, sob um céu nublado e cinzento, como um perfeito dia triste. Mas eu sinto-me forte e confiante. Feliz e decidido. Sentindo em mim uma felicidade presente, embora invadida em momentos pelo passado e pela tristeza que deixo em quem deixei. Tristeza que também sinto.
Mas decidido enfrento o novo ano com um novo olhar. E olho assim adormecido sobre a cidade através da janela do meu quarto de hotel. Desta vez vejo o mar e a marginal lado a lado. A calma. Vejo a calma presente nesta cidade no meu primeiro final de tarde e descanso também o meu olhar sobre o horizonte. Fecho os meus olhos com um suspiro e inspiro o ar quente da cidade, preparando-me para mais um desafio, para mais um ano que começa. Também eu começo e renasço. Tudo de novo.
O céu invade-se de cor com o fim do dia, mas o mar continua cinzento como nuvem. Estranhamente belo. Estranho e imenso mar. E contemplo-o com um sorriso tímido e deixo-me assim ficar...

É que mais vale olhar para um mar cinzento, do que um mar cinzento no olhar.




O fim e o princípio

2007-12-24T10:08:12.544+00:00

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É mais um fim. Parece mentira mas é verdade...

Mas é pura realidade. Hoje voo para Lisboa, em mais um final esperado com regresso prometido. É por isso um inevitável dia de vivas recordações em pensamento. E lembro-me tão bem de tudo...

Recordo a lua e as estrelas no Lubango. A imensidão do deserto, a estrada, as rochas, as flores e a restante beleza infinda do contraste das paisagens. O começo de tudo.
Recordo o dia de sol em Sangano na adiada viagem ao Sumbe. A areia branca no Mussulo e o seu mar transparente e infinito. Paraíso. Recordo ainda as belas tardes de praia na ilha e o pôr-do-sol de todos esses dias... esse mesmo sol que encontrei na Barra do Dande, onde há dias fui dizer até breve. Deslumbramento.
Recordo as várias noites de cinema autêntico (ou nem por isso) e o magnífico e impensável concerto de Mário Laginha no Belas Shopping. Viajar longe, para longe.
Não esqueço o meu Chill-Out, onde passei num dia uma noite até ser dia, nem o Miami numa noite após tempestade e gin tónico. Noites em branco.
Recordo agora a chuva intensa, em imensa contradição para os meus sentidos e que molhou alguns planos de final de semana, mas que proporcionou outros bem diferentes e inovadores. Trabalhar.
Ficam presentes em mim os jantares como o de ontem 'Naquele Lugar' e em mais outros lugares, entre os quais me lembro que experimentei um restaurante Chinês e um Indiano... e que no dia seguinte estava bem. Sorte. Os jantares de despedida de quem já foi e não vai voltar, e de outros que foram tristes e voltarão felizes. Bem... agora vejo que sou dos últimos a partir...
Recordo ainda os jantares comigo no meu quarto e os outros mais românticos no bar do hotel, em finais de dias que não foram além da rotina. Magnífica vista sobre a baía.
E recordo as pessoas. As que conheci com prazer, as que ajudei de alguma maneira e as outras que me deram apoio e que me fizeram sentir melhor.
Recordo muito e já com saudade aquelas que conheci ainda mais e que com elas criei amizades fortalecidas. Nostalgia que sinto já.
Lembro-me de tudo isto, como se tudo isto tivesse sido vivido apenas num dia só. Ontem. E como o tempo passou tão veloz! Foi ontem sim, e hoje recordo tudo como se tudo fizesse ainda parte de mim, da minha vivência, do meu hoje.
É Natal. Por isso hoje embarco feliz até Lisboa e levo estas inteiras lembranças comigo. Em Luanda deixo apenas metade de mim.
Um Feliz Natal a todos! Até breve...




Porque aqui tudo acontece

2008-02-11T11:47:33.030+00:00

Sim, aqui acontece de tudo um pouco.
Esta notícia diz tudo. Irreal.
Estamos em Luanda.
Qualquer semelhança com a ficção é pura realidade.



E Voei...

2008-02-11T11:47:04.503+00:00

Como prometi a mim mesmo. Voei baixinho e feliz no sábado, revisitando a belíssima Barra do Dande, uma praia a norte de Luanda, um paraíso descoberto há uns tempos atrás e do qual já tinha muitas muitas saudades. Ou teria ele saudades minhas? Senti isso... Aliás, nem sei sequer se fui eu que o encontrei ou se foi ele que me descobriu nessa altura. E desta vez também... Enfim, foi uma mútua redescoberta num magnífico dia de sol. E de lua também.
Com a mesma lua cheguei no final do dia ao hotel, e nesse final de dia continuei voando, passando pela turbulência da noite em sono profundo. Completo.

(image)
Manhã de domingo. Despertei minh'alma na ilha do Mussulo, nas merecidas calmas e transparentes águas da contra-costa, após uma caminhada de duas horas pela areia quente da praia, quase tão ardente como o sol. Nela me deitei depois e adormeci de novo, com o murmúrio das ondas a embalar meu voo. Quase música.
Atravessámos a ilha de novo de volta à costa, e bebemos à chegada da invulgar simpatia de estranhos, que nos receberam para tomar um copo e matar a sede. Gin tónico, claro. Seguiu-se um almoço tardio ainda na ilha e um profundo corte no pé nas águas tranquilas. Nada mau, como preço a pagar. Nada mau...
Mas o magnífico pôr-do-sol cedo nos anunciou a despedida e assim me fiz à pista, meio contrariado. Mas aterrei feliz deste voo. O último deste ano.
Entretanto faltam cinco dias para voar de novo, e será dessa vez bem além do sonho.
Será voar para a minha ansiosa realidade.



Voa voa

2008-02-11T11:48:26.113+00:00

O tempo voa. Bem alto e bem rápido. Nem olha para mim. Não me vê.
De hoje a uma semana estarei a voar assim também. Tal como o tempo até lá. Com ele. Ele voa feliz e eu vou feliz voando e vamos os dois felizes, lado a lado com a ansiedade. Resta-me tentar acompanhá-lo com a força que me resta e chegar ao mesmo tempo do que o tempo. Ou mesmo antes, sei lá...
Mas porque hoje é sexta-feira, final de tarde, vou voar também para o fim-de-semana. Vou voar e vou viver aquele meu tempo que não quero que voe. O tempo rasteiro que consigo parar com as minhas mãos e controlar.
Por isso vou voar neste voo nocturno, que parte agora já.
E neste voo nocturno sinto que sou mais leve do que o ar...
Falta pouco. Já sinto o coração a planar.



Cinco minutos

2007-12-12T08:26:04.498+00:00

Luanda, 7 da tarde. Noite. Local de trabalho. Superfície. Descanso o meu olhar através da acostumada janela sobre a baía do costume. Descanso a mente também. Sinto uma suave e quente brisa que vem ao meu encontro desejar-me boa noite. Inspiro. Expiro fundo. Flutuo. Cinco minutos.

Pequenas luzes além das luzes dos navios no porto vestem ao longe o hotel Presidente de alto a baixo, transformando-o numa enorme e quase ridícula árvore de Natal.

- É Natal! Recordo-me agora, num estranho misto de alegria e de tristeza. Confuso. Do outro lado vejo mais outra árvore de natal, esta pequena e verdadeira, no cimo mais acima do edifício mais alto de Luanda. Mais luzes aqui e ali por todo o lado brilhando, piscando ou apenas iluminando a época. Sim, é Natal.

Quase que nem sinto o Natal. Sinto que os dias têm passado a correr e tem-me faltado o tempo. Tem-me faltado o tempo para tudo. O trabalho me exige e consome os meus dias e os fins de semana também. Estou exausto.

Hoje é mais uma segunda feira. E foi mais um fim de semana que passou, por onde a chuva passou também mas já partiu (será de vez, desta vez?). Ontem até vi o sol nascer e partir também. E dormi no entretanto, enquanto ele brilhava lá no alto. Descansei.

Conto pelos meus dedos que faltam dez dias para regressar a Portugal. Penso que irei em breve viver o Natal e fechar as portas deste ano. Penso que vou matar as saudades que tenho. Penso depois que volto depois, para um novo início, um último recomeço. Penso que está quase, e assim sorrio de novo.
Suspiro. Fico imóvel por momentos, fixando o meu olhar e sorriso no futuro. Depois desperto, ganho confiança e estalo os meus dedos em sinal de coragem. Bem preciso!
Deixo a superfície. Inspiro por último mais um pouco de muito ar e volto a submergir para o meu mundo dos últimos dias. Está quase!



Vim para ficar

2007-12-06T15:43:37.498+00:00

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Vim para ficar. Parece ser o que ela me quer dizer... Recebo-a feliz todas as noites, pela janela do meu quarto, mas de dia sou eu quem dá o primeiro passo e a visita por acasos momentos, beijando-a quando me cruzo com ela nas ruas que também cruzo. Uma relação com uma semana, quase incessantemente. Quente. E tudo começou por acaso... Eu confesso que nem fiz nada por isso. Não esperava. A verdade também é que já nem me lembro como tudo começou... só me lembro de um céu rosa vivo, mesmo antes de a ter visto de relance pela primeira vez. Se já a tinha visto mais vezes? Sim, foi logo o que pensei... E creio mesmo que sim. Bem, mas ela aproximou-se de mim logo de uma forma muito intensa - no início é sempre assim com todas as coisas que nos surgem de surpresa. Surpreendeu-me a mim e a toda a gente que me rodeia. Mas agora tudo é mais doce... sim, mais duradouro também. Tem vindo todos os dias e ficado por longos minutos. Cada vez passa mais tempo comigo e agora até já corre comigo na marginal ao final de cada dia. Por vezes fico mais feliz, outras mais triste... tem dias. Uma vez me lembro que até me chateei seriamente quando ela me incomodou sem eu querer durante um almoço de esplanada, o que me obrigou a afastar-me um pouco. Decidi-me forçosamente e disse que não a queria mais. Estava farto, pois tudo tem uma hora e um momento para acontecer. Mas depois pensei melhor e desculpei-a, abraçando-a em plena rua. No fundo, temos uma relação igual a tantas outras... Um misto de emoções. Tentativas de equilíbrio. Assim vos digo que faz hoje uma semana que o fazemos todos os dias, e hoje já é quase rotina e até estranho quando acordo e não a vejo ao meu lado. Mas sou feliz sim. E ela também, pois volta sempre depois de cada despedida e de cada beijo molhado. Sim, somos felizes.

Chuva. Faz hoje uma semana que chove em Luanda.

O sol já quase nem o recordo... não o vejo por aqui desde a mesma altura. Dizem as boas línguas que o sol e a chuva partilham uma amizade colorida, e que sempre que se juntam se amam e enchem o céu dessas cores dessa amizade. Mas é raro por aqui... Devem estar chateados. Entretanto já sei que o sol voltará em breve. Sim... vai voltar. Deixou aqui o seu calor.




Despertar

2007-12-04T15:11:05.120+00:00

(image)
http://expresso.clix.pt/gen.pl?p=stories&op=view&fokey=ex.stories/180043


Aqui tão perto de mim. Aqui mesmo ao lado, mas para além do mal que se vê nas ruas por onde passo e do pequeno mundo que observo através da minha janela.
Isto para mostrar que Angola infelizmente ainda é igual a muitos outros países no que respeita ao respeito pelos direitos humanos.

Para vos mostrar também que o silêncio também aqui ainda é a palavra de ordem. Calar ou pagar por isso.

Por isso julguei que devia divulgar a história aqui, para que nada nem ninguém se silencie. Em respeito pela liberdade de imprensa e de opinião. Sobretudo muito respeito e admiração por quem tem a coragem de abrir para o mundo uma janela que ninguém quer espreitar.

Para o António, um grande abraço.




A sério? Epá...

2007-11-28T11:19:39.207+00:00

Ontem mesmo chegou até mim esta notícia.
É. Luanda é a cidade mais cara do mundo.
E eu penso: - Mas será mesmo? Penso nisso logo de manhã, enquanto pago 3 Usd por um café no hotel, depois de uma tosta mista e de um sumo qualquer que paguei antes com 20 Usd.
Será mesmo? Mantenho esse pensamento à hora de almoço, enquanto tento comer alguma coisa à pressa no restaurante mais barato e apressado dos arredores, e onde pago também à pressa 30 Usd pela refeição. Será mesmo? À tarde não lancho e por isso não penso nisso. Mas chega a noite e janto num local mais confortável, e com mais tempo e continuo com o mesmo pensamento enquanto tiro do bolso uma nota de 50 Usd para pagar o jantar. Chego ao parque do Hotel e o segurança (- Tá seguro, chefe!) olha-me com maus modos porque lhe dou apenas 100 Kz. Contando por alto os Kuanzas que ficaram arrumados nos bolsos dos miúdos que encontro durante todo o dia, chego a contar 10 Usd. Isto tirando os jornais que não leio, mais os cafés que não tomo e a água que não compro... enfim, todo um dia de privações.
Eis que me deito à noite no meu quarto de 300 Usd e chego a uma conclusão finalmente: Luanda? A mais cara? Naaaa! Epá, vê-se logo que esta gente que faz estes estudos não percebe nada disto. Vocês sabem onde é que é caro, mas mesmo caro? Mas caro tão caro que até chateia? É em Ermesinde. Acho...