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o bem, o mal e a coluna do meio





Updated: 2017-07-20T08:53:32.970-07:00

 



Vítima

2014-04-11T13:34:44.469-07:00

Tinha um medo secreto de se tornar também uma vítima.
Toda sua vida, ela o sabia, estava comprometida, caso alguma acusação a levasse a Rogério.
Entre o receio que tantas vezes a dominava, fugia cada vez mais da presença daquele homem.
Sentia-se envelhecer, cansada e fraca.



A boneca e o nada

2014-03-19T18:09:16.981-07:00

Dentro da velha casa de bonecasminha predileta está meio desconjuntadabraços de pano pendentescara de nada absoluto.Bobagem ou contradição em termosnão pode ser o nada absoluto se ainda é uma bonecamesmo quase desfeitamas penso:parte dela virou pónão é mais a boneca que foiporque começa a navegar no nada.Triste e um pouco assustadaolho o espelhinho da casa e percebo queo nada absoluto está em meu rosto também.[...]



Exercício da noite

2014-03-10T13:54:13.480-07:00

      Os longos pés de capim acompanhando a estrada do lado direito refletem a luz dos faróis, que lhes dão uma aparência fantasmagórica. Contornando a estrada, muralhas separam o carro da vista da Barra e seus colares de lâmpadas enfileiradas no meio de uma poça de escuridão. Não é fácil conter o engulho de silêncio que faz retroceder tudo que lhe vem à cabeça. Volta-se na direção da noite, respira fundo o ar fresco que chega ainda cheirando um pouco a maresia.Amanhã começo uma nova tela. Amanhã começo outra vida. Amanhã viro outra pessoa e deixo de me arrastar miseravelmente em dependências. Vou voar amanhã. O vento na pele seca os lábios, incomoda os olhos. Mas prefere abrir-se para a estrada como quem toma um novo rumo antes do amanhecer, ainda no escuro. O que está vendo agora é a embalagem do presente que chega amanhã. Impossível ver, mas sabe que é sua nova vida embrulhada em treva. Nenhum prodígio. Nem tarô nem mapa astral. Tudo verdade, aqui e agora, e volta o aperto no esterno, a garganta em nó. Nem sequer pode dizer o que é enquanto viaja ao lado dele. Tem medo que a cabeça não segure tanta coisa ao mesmo tempo, que possa explodir a qualquer momento.Tá com sono? ele pergunta, desinteressado. Já estive, diz, enigmática.Ri em silêncio sem mexer a boca, dentro do plexo, do ventre à garganta. Ainda não é propriamente uma alegria, mas chega bem perto. É outro caminho que se prepara, o caminho escolhido. Uma serpente luminosa no escuro. Vai clarear daqui a pouco.Que que aconteceu? Dessa vez fica difícil segurar o riso. Nada, até aqui não aconteceu nada. Olhar de esguelha. Cê tá calada. Fala alguma coisa aí. Tem vontade de responder que está capinando o terreno do dia seguinte. Nem olha para o lado. Falar é inútil, quando se anda pelo irremediável.Há meses acordava balançando numa rede sobre o abismo, um sonho repetido que a levara de volta à análise. Não havia leite morno ou tranquilizante que a salvasse da inquietação da insônia. Afinal percebeu que suas dores eram provisórias como as dores do parto, mas definitivas como todo parto e seu produto. Tudo porque se recusava a se converter no outro. Durante tanto tempo tentou mostrar, insinuar, explicar com riqueza de detalhes, gritar até ficar rouca. E a resposta, única e cega: mas por quê? Melhor esquecer. Os planos dele só a incluem transformada em outro ele, e isso a aterroriza.O capim parece em busca do céu, num exercício de alongamento. As folhas não veem nem ouvem nem vibram nem choram. Nunca ouvi falar em liberdade para o capim. Mas dentro das moitas até bichos noturnos orquestram suas vidinhas. Durante algum tempo pensou que era livre, mas um dia se olhou no espelho e viu uma figura desprezível. Estava em diluição.Amanhã começa outra vida. Uma vida que rói as vísceras, uma ansiedade florindo em redoma. Como será deixá-lo para trás? Como será deixar de doer em segredo e passar a doer em liberdade rasgada? Agora percebe a vida como miragem que renasce sempre. Talvez descubra que chegou ao fim e não há mais nada a desejar, e afinal possa viver sua própria carne.Mil vezes tramou essa noite. Mil vezes ela foi ensaiada em desespero e paciência e agora irrompe diante dela, saciada de planos e certezas. Um pouco de temor do desconhecido, é verdade. Uma felicidade corrosiva. Minha vida é uma trama oriental, pensa e sorri, e afinal devo boa parte disso a você, que me ajudou a tecer agonias e medo entre os fios. Mas dispenso tua aprovação, não fujo como em outro tempo e também não sofro mais por você. Não te consulto – grande novidade. Estou numa dimensão que você não conhece e não está autorizado a frequentar. Agora me dou ao luxo de preparar painéis e desenhos sem utilidade prática. Ainda não conheço todas as imagens que vão se abrir como um céu, mas você não está nele.Olha o perfil imutável a seu lado. Como você é fútil. Pensa que sabe tudo. Pensa que já decidiu o destino do[...]



Encontros e desencontros

2014-02-28T12:12:28.006-08:00

O modo como as imagens têm sido tratadas em nosso mundo frenético é inadequado e irreverente, porque teima em ignorar a dignidade do que se vê.Na linguagem do sonho as palavras se cristalizam em imagens. É frequente que um sonho apresente uma palavra – às vezes até uma frase – mas o que ela significa pertence à esfera subjetiva de quem sonha. Mistura-se às imagens com um valor equivalente, é parte do enigma do sonho.Se refletirmos nesse fenômeno, fica mais fácil perceber por que uma imagem nunca é a mesma para todos que a veem. Se isso é verdade, não se podem tratar as imagens como objetos fabricados em série. Palavra e imagem têm uma longa história de encontros e desencontros. Ambas estão ligadas à percepção visual e à memória. Ambas vêm impregnadas de sentidos e mensagens de variação infinita – que o digam Andy Warhol e Vick Muniz.A criação literária é o momento privilegiado da palavra, quando se convocam imagens e estados subjetivos em função de uma criação única e intransferível. A obra de criação é autobiográfica como o sonho, ainda que não seja confessional. O que se manifesta na obra de criação tem suas raízes firmemente cravadas na subjetividade. Há sempre um pouco de sonho na obra de criação.Palavra e imagem se fundem num texto que irá afetar de modos diferentes seus leitores. As pesquisas sobre o tema demonstram que a recepção individual do texto literário se dá em uma zona de condensação organizada por um inconsciente e sua subjetividade. Os elementos que contam para o indivíduo que lê vão além dos conceitos vigentes da cultura e dos preceitos de sua sociedade – embora esses fatores sejam de grande importância.A explicação disso se deve em parte à disjunção palavra-coisa. Descobrimos que fomos vitimados por uma série de separações, quando acontecimentos como perdas, mortes ou omissões se reduziam a palavras que deixavam escapar seu verdadeiro sentido. O passado não cabe nas palavras com que o evocamos porque não foi e não será como o recordamos ou falamos dele.Por sua vez, a imagem pode exibir acontecimentos em outra dimensão, mas a ilusão de seu poder também é um risco. Não vale mais nem menos que a palavra: é diferente. Os limites, os vazios, as imprecisões e a multiplicidade das palavras e da linguagem têm uma espécie de contrapartida na imagem. As palavras reduzem e atenuam o real que a imagem resgata. Mas é bom estar atento a um engano também nesse domínio. A imagem reproduzida e divulgada ao ponto que a vemos na propaganda e na mídia se destina a criar novas ilusões, porque a experiência que ela oferece não é a experiência do real. Enquanto representação do real, a imagem merece respeito. Rebaixada a vendedora de ilusões e propagadora da mentira, é uma fraude lamentável, que faz da ilusão uma razão de viver.Como em tudo nesta vida, o real tem que ser a medida de todas as coisas.[...]



Do miniblog

2014-02-23T15:48:12.525-08:00

Solidariedade + empatia + calor humano + cumplicidade = amizade – o metal mais raro e mais imitado na história da humanidade.Eu vi: no meio da cidade violenta, um pombo sozinho atravessando a rua na faixa.To follow, or not to follow, that's the Twitter.De Augusto Monterrosso: "Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá." Prêmio de melhor miniconto.TOC eletrônico é sem remédio. Cada era tem a torre de Babel que merece, né não?Aranha malhada tem pernas grossas (provérbio tibetano).Respeito todas as religiões, mas não entendo nem aceito alguns religiosos que não respeitam as convicções alheias.Autocontrole é saber que espaço cada pessoa pode ocupar em sua vida e que palavras usar para lhe dizer o que pensa sem magoá-la.Você muitas vezes não vê o que pensa que vê, e esse tem sido o motivo de tantos equívocos e desentendimentos entre os humanos. Incentivar a leitura é coisa séria, e no Brasil é uma necessidade - a gente cresce pela leitura.Bom senso informa: nem todo médico faz bem à saúde! Em casos complicados, consulte pelo menos três e adote práticas alternativas.Político honesto é aquele que só se vende duas vezes se o primeiro comprador morrer antes dele.Era uma menina de tornozelo irado, corpo malhado e cabeça feita. O que estragou tudo foi o coração mole.Dentro do Brasil, tantos brasis; nos EUA, tantos euas; na China, tantas chinas. Dentro de cada pessoa, tantas pessoas.Ser gente da melhor qualidade dispensa qualquer rótulo.Ingratidão e burrice são amigas inseparáveis. Pode conferir.Gostar é fácil, mas é preciso mais que isso pra conviver. A rotina carrega uma mochila cheia de camundongos esfomeados. Nada contra a rotina, até gosto dela. Mas que os camundongos são um risco, ninguém pode negar. O nome deles explica: o chefe do bando se chama egoísmo, mas há outros nomes significativos, como grosseria, comodismo, indiferença, interesse e deslealdade.A internet é uma floresta, mas há clareiras que vale a pena conhecer.Baby, flanar não tem nada a ver com flanela.Segredo revelado é uma verdade que usava burca e virou stripper.Testou o equilíbrio quando a megassena acumulada saiu pra ele sozinho. Passou a ter vertigem de altura.Solidão é ver tudo nos lugares e ninguém para desarrumar.Ser simples não é ser primário nem carente nem pobre. Ser simples é um charme que pouca gente conhece. E muitos não conseguem entender. Pena.Arrogância são duas pernas de pau cheias de cupim.A vida é um encontro marcado ao qual é melhor não faltar, porque não há outra chance.Perdeu todas as boas oportunidades por dar importância demais à opinião dos outros. Nesse particular, saber usar a sintonia fina é decisivo.[...]



O planalto, os anjos e as estrelas

2014-02-17T13:58:53.342-08:00

Eu podia falar de cidades velhas, empoeiradas, calçadas de lajes coloniais. Podia falar de um ar transparente, de um céu aceso de crepúsculo, montanhas intermináveis de veludo verde. podia descrever um rio que espelhava o céu, num dia claro ou umas árvores recortadas contra o azul, ou o ballet dos profetas, num balcão de igreja. Podia ainda pôr em meus relatórios um frio translúcido e devassante.
Seria fácil e agradável falar da hospitalidade, do carinho com que um povo recebe seus irmãos de outro estado, do calor e do riso alegre daquela gente. Das ruas, das ladeiras íngremes, das rosas puras, das rosas sensuais, das florinhas inconsequentes. Folhagens sobre o muros seculares. Das ruínas.
Podia falar de tanta coisa...
Mas não quero. O que eu trouxe, aquilo que achei bonito, foi compartilhado palmo a palmo. Foi bem vivido. Serviu de elo entre pessoas, foi comum. Um passo de ligação, que não se pode mais desfazer. Foi vida, mas passou. Teve  seu momento, deixou pegadas; agora há outros momentos, outros dias, outros crepúsculos, outros risos. Outros laços.
Além disso, um momento maior que todos. Este, sobretudo, é preciso calar. Vai perdurar mais, é um eco, além de uma lembrança.

O planalto do cruzeiro fica a umas cinco ladeiras do centro. O cume do mundo. Cinco ladeiras escuras,
onde os casebres vão rareando, os rostos na janela vão ficando para trás. É preciso deixar os rostos e as casas, quando se quer chegar ao planalto.  Um pouco misterioso.
Quando se conquista o planalto, ele está dormindo.
Coberto por um céu próximo, tão próximo que, ao primeiro assobio, toma de repente um sentido. O caminho de estrelas se anima, vibra, cintila, vai chegando mais e mais perto.
As estrelas escolhem modos diferentes de cair no planalto. Na noite em que estávamos lá, escolheram crianças. Eram uns dez ou doze, um número sagrado. Como não houvesse nuvens, vieram da escuridão, com grande alarido. Todos - eram sujos, maltrapilhos, magros. Só um, o menorzinho, era gordo e corado, com arzinho cruel nos olhos brilhantes. Notava-se claramente sua condição de anjo do aleijadinho. Ninguém dizia absolutamente nada.

Ninguém ficaria assustado vendo crianças espalhando pequenas chamas por um planalto escuro. Ninguém ficaria assustado ao ver crianças espalhando. Mas qualquer um desmaiaria de susto. se soubessem que eram anjos semeando estrelas.
Ficamos à volta da chama central. Nossas mãos terrestres são impuras. Mentimos, e vamos morrer nossas estrelas, que morriam a nossos pés. Arrastaram-nos para a borda do planalto, Desse dia em diante, ninguém mais vai se preocupar com um anjo que treme de frio.
Quando descemos já era tarde, bem tarde. As estrelas tinham sono, os anjos murcharam, pouco a pouco. Se o dia nos apanhasse ali, não haveria salvação. O planalto só existe à noite. Um milagre da noite.



Pedra sobre pedra

2014-02-15T14:11:29.761-08:00

Augusto Nunes. A esperança estilhaçada. São Paulo: Planeta, 127p. Leitura fácil, a linguagem jornalística e o estilo sem maiores firulas fazem desse livro uma fonte de informação fácil de consultar e que à primeira vista merece todos os créditos.Nunes traça retratos nítidos e bem-humorados dos personagens dignos de uma ópera bufa, que o PT e o governo trouxeram à cena da política nacional – e não só à cena política, mas também à policial. Paralelamente, faz um relato contundente dos acontecimentos que as CPIs ainda investigam, exprobrando comportamentos duvidosos, narrando cenas, encontros, conversas – enfim, usando de maneira competente e eficaz suas fontes e dados reunidos sobre o período que começa em outubro de 2004 e ainda não se esgotou.Pintado por Nunes como ingênuo, vaidoso e imprudente, o governo foi capaz de se fazer amigo de infância de políticos cuja história de cumplicidade com Collor devia ter falado mais alto que interesses imediatos e no máximo autorizaria a presidente a uma aliança política transitória, nunca a um envolvimento pessoal. Não foram os únicos a merecer sem mérito. Nesses três anos, não faltaram exemplos, como a nomeação de figuras suspeitas ou incompetentes, e o próprio chefe da Casa Civil, José Dirceu, sob cuja gestão se formaram 92 grupos de trabalho sem que nada viesse a ser realizado, além da defesa mais ou menos discreta, mas sistemática, de picaretas e golpistas notórios. Não dá também para esquecer a luta que o governo e o PT travaram para evitar a instauração das CPIs. “O país descobriu se demite algum ministro se o suspeito for para a cadeia”, diz Nunes.Nunes toma uma posição muito clara, sem rodeios nem dúvidas aparentes. Diante dos acontecimentos recentes e dos dados levantados pelas CPIs e pela Polícia Federal, não é difícil chegar a essa visão de contornos claros e firmes. Mas o autor vai mais longe, e faz a ponte que ligaria toda essa cadeia de crimes e corrupção à própria figura da presidente – prudentemente, sem acusações diretas nem reivindicações de impedimento, mas lamentando o triunfalismo que terminou por destruir grande parte do que poderia ter se consolidado como ganho do governo.[...]



A vila

2014-01-26T14:42:40.588-08:00

Esse arzinho úmido de após chuva sempre mexe com a minha alegria número oito, a mais discreta; Uma alegria tão discreta que às vezes fico na dúvida se é mesmo uma alegria. De noite, lembra outras noites muito longínquas. Lembra um chão de cimento rachado. umas poças dágua muito jeitosas, um tufo de mato escapando das rachas, uns muros cobertos de hera...
Naquele tempo, o mundo era limitado por um pomar à esquerda, um casarão à direita e uma rua sem calçamento. Habitavam-no dez pessoas, vizinhos e moleques. Ás vezes havia tios e primos, uma avó de colo gostoso. Também havia uma senhora gorda, que manchava de batom os biscoitos que mamãe lhe servia com café e puxava por uma perna. Havia também um médico de orelhas grandes e olhos pequenos que fazia brincadeiras engraçadas. Suas visitas coincidiam com um céu profundamente azul, que dava um aperto na boca do estômago.
 Havia também uns sapos cantadores, negros, luzidios, de olhos cintilantes, e os fazíamos pular com uma varinha. Isso acontecia nas áreas iluminadas, porque no escuro eles ficavam bravos e podiam jogar um líquido que cega a gente.
Havia estrelas puríssimas. Enfeitavam véus diáfanos, de mistura com lamés e com as roupas deslumbrantes de Monteiro Lobato. Aí aconteciam lances trágicos, suspenses e dramatizações suntuosas em florestas encantadas, dramatizações suntuosas em florestas encantadas, florestas encantadas,  salões de festa. A vila era cemitério à meia-noite, praia ou piscina.
Um dia não me contive e fui lá, rever a vila grande, clara e alegre, cheia de folhas verdes por todos os lados. Fui buscar um sol morno e dourado que me fez feliz como poucas vezes consegui ser depois. Queria ouvir um coro de roda, mergulhar numa noite mágica. Queria ver como estavam as florestas, o castelo, o mar, o cemitério. Espantar sapos encantados.
Acabei chorando naquela vila estreita, suja no chão de cimento. Já não havia plantas, as casas  eram duras, e as janelas me olharam com severidade, as portas sorriam  duras, hostis. Já não crescem estrelas nas árvores...
 



Conversinha

2014-01-20T05:47:35.922-08:00

  Antigamente eu me aborrecia quando o cós de uma saia ficava muito amassado na reentrância da cintura. Agora tenho mais com que me aborrecer.***Hoje encontrei anotado numa orelha de apostila: “o que é espontâneo vive para sempre”.***Naquele dia, precisava assistir ao jornal das quatro, que ia transmitir uma entrevista de Cosme, meu colega de faculdade. Nos tempos da universidade, Cosme era um adolescente magrinho, moreno, descendente de índios do Amazonas; meio rebelde, inquieto, de olhos negros puxados. Naquela altura, porém, já se tornara um caboclo barrigudinho de barbas compridas e grisalhas. O que não me saía da cabeça era que não seria justo deixar de vê-lo naquele dia. Porque talvez ele não vivesse muito mais. Porque talvez eu não tivesse muito mais para viver. Um mês depois recebi a notícia de sua morte.***Tudo que se consegue saber do futuro com relativa certeza é o que a meteorologia prevê. O que é bem pouco, tendo em vista o percentual de erros na previsão do tempo.***O mais alto a que consigo chegar é quando procuro de todo coração entender alguém. Nesses momentos me sinto no nível dos cristais de chuva.***Deve-se perder o presente em nome do futuro?[...]



Um analgésico

2014-01-11T06:11:29.893-08:00

Você estava de cinto? É alérgica a algum medicamento? As duas perguntas, todo o tempo, tempo todo, perfurando, ora uma, ora outra. Como eu só conseguia ver o céu e os tetos, apenas pressentia os perguntadores diferentes. Gastava o pouco fôlego para explicar as dores, peito espremido e ombro esquerdo fisgando a alma, ao perguntador errado. Ainda não era o médico. Este se repetiu como os outros, mas me machucou mais, não por me mudar de posição na maca, e sim por apertar mesmo, e fiquei com muita raiva dele, que nem bicho ferido.Ele sumiu para se vingar da minha cólera, e sabia de tudo, foi o que eu pensei, confusa sobre essa nova relação, nova para mim mas não para médicos ou enfermeiros ou sei lá quem eram aquelas vozes. Fui alegre demais, um fim de semana inteiro, por isso eu estava esquecida agora naquela superfície dura e fria, colar cervical, tentando descobrir se aquilo era um corredor ou uma sala. Um corredor, a fila do raio X, conclui, mas também era o purgatório, eu devia esperar o julgamento para enfim poder respirar, e prometo nunca mais ser tão feliz, pelo menos não um fim de semana inteiro.“Onde está o Alex?” e ninguém me respondeu, mas nele havia sangue, em mim não, então as penitências se cumpriam separadas, era a lógica daquele lugar comprido. “Preciso de um analgésico”, disse humilde quando alguém passou, mas devia ser só um empurrador de macas, que não respondeu, um servente, quantos funcionários pode ter um purgatório? Talvez já tivessem me dado algum analgésico, porque o ritual de tentar pegar a veia, tão fininha, ainda mais com esse pulso, havia acontecido logo que saí da ambulância. Senti uma saudade patética da moça do corpo de bombeiros, ela sim prometendo o fim da dor, provavelmente era uma ou duas costelas quebradas, e tudo iria melhorar no hospital, só que me desviaram para outro lugar, uma conspiração, porque gozar tantas vezes num fim de semana tem seu preço. De repente, ninguém se interessava por mim, não queriam mais saber se eu usava de cinto, se era alérgica. Eu estava sozinha. “Não consigo respirar”, repeti para ninguém, e o limite físico parecia próximo, se fosse um filme eu desmaiaria, se fosse um filme a traição também seria punida.Contei sobre os tetos, depois, para o meu analista. Quando você só enxerga tetos, descobre coisas. Vestígios de sangue escuro em um teto tão alto fazem esguichar pensamentos claros. A dor deixa a pessoa mais viva e achei quase morrer parecido com parir ou fazer sexo. Eu precisaria saber viver depois daquilo, foi o pensamento que quase suplantou a dor, porque no fundo eu sabia que ia viver - eu era um bicho. Luz branca, formas descascadas na pintura velha, manchas nojentas, uma teia de aranha sem aranha. E sangue espirrado. Sangue espirrado fica marrom. Quando meu pai foi encontrado, eu só conseguia pensar na putrefação, quase dois dias, em vez de chorar como os outros. Se fosse possível morrer às vezes para se sentir tão vivo... “O seu amante está sendo operado”, quem me disse foi Afonso, a voz de uma raiva cansada. Eu não precisava pedir desculpas, era a vantagem da dor e de estar na porta do inferno. Ele colocou a mão nos meus cabelos. Eu era um bicho, meu ombro esquerdo saltava para fora do corpo e mesmo assim precisava daquele carinho, qualquer carinho, talvez fosse vomitar. Vamos sobreviver, foi o que ele disse ainda, mas eu sabia que seria por pouco tempo, porque sobrevidas sempre duram pouco. E eu teria que conviver com os tetos manchados, pressentindo aranhas. [...]



Aos pedaços

2014-01-02T12:21:50.345-08:00

"Sofrimento que ninguém descreve,como um peso na alma [...]é a dor das águas que o moinho mói, é a dor que não sabe onde é que dói".Dante MilanoVivemos num tempo de fragmentação cultural e subjetiva. Um tempo em que a dor, a morte, o amor, a alegria, o sucesso e o fracasso das pessoas que a mídia escolhe para melhor vender seus produtos são tratados como peças de um gamede proporções globais. A mesma pessoa, às vezes voluntariamente exposta, outras vitimada ou incensada por alguma espécie de notoriedade que a torna de interesse público, ganha faces diferentes e até contraditórias, segundo o veículo e o repórter ou comentarista.Os fatos são avaliados, analisados, discutidos, dissecados, julgados e definidos por diversos critérios, em polêmicas que parecem sérias, mas na verdade perdem qualquer credibilidade quando se observa com isenção tudo que se comenta e sentencia a respeito. Falta lógica, falta objetividade e, como se o mundo se tivesse tornado uma torre de Babel, cada qual fala uma língua, sem entender nem se preocupar com a do outro, e todos são donos da verdade.A intelligentsia-classe-média, representada pela mídia de mais recursos e poder, toma conta dos assuntos e manipula opiniões, às vezes respeitáveis, para dar ao público uma resposta capaz de aplacar inquietações, dúvidas e escrúpulos. Podemos dormir tranquilos. Afinal, quem somos nós, pobres anônimos, pra pensar diferente? Assim se encerra a polêmica e cada qual veste a opinião alheia a seu jeito, como quem veste uma roupa de segunda mão vendida pelos jornais, revistas, canais de televisão, noticiários radiofônicos.Armado o jogo, vilões, mocinhos, princesas, bandidos, vítimas e algozes ficam nítidos e fáceis de entender. E o drama, a dor alheia, a notícia pungente da primeira manchete ganham um colorido atraente, confortável, divertido até.O príncipe pouco romântico casou com a amante feiosa, mas como ousaram quebrar o padrão consagrado dos amores principescos, caíram num irremediável ridículo.A moça que vegetava (será mesmo que vegetava? Alguém pensou e sentiu com seu cérebro, percorreu as terminações nervosas de seu corpo, experimentou as sinapses que ainda funcionavam nela?), a moça que para todos os efeitos vegetava foi eliminada aos olhos do mundo, sem ao menos gozar da paz e da privacidade que se supõem necessárias a quem vai morrer.O papa Paulo VI entrou no período final de sua vida e foi filmado, fotografado, visto e revisto enquanto a agonia tomava conta dele em plena janela aberta do Palácio do Vaticano, ao vivo e em cores. E quando já nem esse espetáculo angustioso podiam oferecer, filmaram sua oração calada e humilhada de costas para as câmeras. Qual o sentido dessa notícia, dessas imagens? Talvez essas figuras, configuradas para o consumo, travestidas de informação, sirvam como um bom suporte para a projeção das dores de cada um, dos conflitos subjetivos, anônimos, que não têm solução ou impõem tanto esforço, tanto desgaste e sofrimento.Talvez assistindo ao tormento e à agonia alheios, deixando-nos envolver num drama, real ou inventado, que não é nosso, o tempo passe mais depressa e nos poupe de nossa própria dor. Talvez, chorando de pena daquela figura virtual, minha perda fique mais suave, o amor rasgado e o silêncio de uma ausência em minha vida se percam no burburinho que me cerca. Ou o trabalho mal-remunerado, o convívio desgastante, as frustrações, aquilo que grita e pesa dentro de cada um silenciem um pouco.É tão mais duro e tão mais difícil olhar de frente o que se passa em nós! Temos desejos que nunca se realizam. Sentimos hostilidade por pessoas que não podemos agredir ou afastar; é tanta a ansiedade, angústia que não se sabe de onde vem, tristeza, depressã[...]



A paz é uma rua de mão dupla

2013-12-11T12:24:09.008-08:00

A violência não brota do nada. E não tem só uma ou duas causas nem caras. Não pode ser reduzida a fórmulas, como se tende a fazer nas situações limite. Do mesmo jeito esse objeto de desejo de tanta gente que se chama paz. Assim como violência gera mais violência, uma cara cordial, um olhar amigável e um sorriso desarmado convocam a paz no interlocutor. Pode ser impossível em alguns poucos casos; mas na maioria das vezes não só é possível como muito agradável. E faz bem à saúde. As discussões sobre o assunto terminam muitas vezes num charco estéril de narcisismo. Argumentos irredutíveis que perdem de vista a questão concreta não servem para nada. As discordâncias conceituais têm que existir e devem ser debatidas. Mas se vierem pela voz da prepotência e da vaidade, perdem sua razão de ser e servem apenas para engrossar o arsenal das farpas, muito útil a quem pretende aproveitar a crise para se projetar ou – pior ainda – tirar vantagem dela. Será que isso não é manifestação de violência? No imaginário coletivo as represálias e a vingança parecem ter-se tornado recursos legítimos contra quem, com ou sem intenção, cria obstáculos ao interesse de alguém. A primeira atitude das pessoas é o revide, que vai das palavras à agressão física. Refletir um pouco nessas horas é um santo remédio para não pagar mico. Apesar das aparências, quem mantém o autocontrole numa situação de confronto merece o respeito de todos. Violência tem graus mas não escalas que a tornem mensurável. É contagiosa, mas não existe medicamento eficaz contra ela, a não ser que se consiga uma mudança íntima, pessoal, pela qual alguém se disponha a ceder um pouco, ou ao menos mostrar-se aberto a isso, em nome de um entendimento melhor com o próximo. O mundo não se divide em pessoas boas e más como se já estivesse tudo resolvido. Nada está resolvido, nem vai estar nunca. Sempre há o que melhorar em nossa vida. Mas isso só acontece quando estamos convencidos de que a paz resulta de uma atitude alerta para compreender, avaliar com lucidez e livre da cegueira da ira, tão freqüente nestes dias de brutalidade. Se a mudança não começar dentro de cada um, podemos dizer adeus à paz e à esperança de viver melhor.[...]



Biblioteca livre

2013-11-27T13:10:24.085-08:00

Livros que voam como passarinhos, passam de mão em mão, cumprem sua missão de contar histórias, divulgar fatos, levar cultura para quem não tem acesso a eles de outro jeito. Mas não só: pega um livro de sua biblioteca, de que goste muito e escreva nele: ESTE LIVRO FAZ PARTE DA BIBLIOTECA LIVRE.No verso da capa, escreva seu nome. Entregue-o a alguém que, você acredita, vai gostar de lê-lo. recomendando que em uma semana o passe adiante, para que outra pessoa o leia, e assim por diante. Seguindo o teu sistema de colar uma folha com a dedicatória (alguma coisa eu tenho que copiar, não dá pra ser original em tudo) cola-se no livro, no lugar da 1ª folha, um texto explicativo, para orientar os neófitos. Abaixo um exemplo, a título de sugestão:  (para imprimir, recortar no tamanho e colar como se fora a primeira folha do livro) Este é um livro exemplar, porque livre! Seu destino é navegar por muitas mãos, de par em par, que o manterão elevado à sua verdadeira dimensão e o levarão a seu sublime destino, que é ser lido, lido e lido, pois, segundo a opinião de seu libertador ? primeiro nome que consta no verso da capa ? é um ótimo livro. Dele se enamorará teu pensamento e tereis belos momentos juntos. Depois de amá-lo o farás prosseguir, a outras mãos, a outros olhares, a outros pensamentos que dele se enamorem talvez ainda mais, e de onde brotem outros vôos, outras idéias, outras compreensões. Este livro exemplar goza da proteção e dos direitos conferidos pela BIBLIOTECA LIVRE: - O direito de nunca mais ser comprado ou vendido. - O direito de ser liberado tão logo termine a troca de afetividades entre si e o leitor, ou ainda se esta troca, por falta de afinidades, não ocorrer. Um e outro caso comprova-se em uma semana. Mantê-lo por mais tempo é, em qualquer caso, fazê-lo novamente prisioneiro, o que é grave ofensa à liberdade de todos. - Este livro tem o direito de ser bem tratado e cuidado, de obter atenção e respeito. - Tem o inalienável direito de exercer seu destino, que é ser lido, muito lido. - Este exemplar tem ainda o direito de morrer livre, bem velhinho, bem vivido, bem gasto, conhecedor do mundo e das gentes, e feliz, num futuro muito longínquo.Aproveite, caro amigo leitor, que ele está vivo e com você.[...]



Os gatos

2013-11-20T12:21:25.510-08:00

Consultava o céu estrelado sem saber bem o que esperaria ver além das estrelas e dos insetos que costumam cruzar as janelas em setembro. A escuridão por si só não explicaria aquela intensidade que a fazia vibrar como as cordas graves de um violão. Não esperava ninguém, e no entanto toda se voltava para um personagem poderoso do dia que agora dominava sua noite. Não se espantava de ouvir gritos lá fora, gemidos como queixas a atravessar o tempo. A lua estava distante, quase sumida no horizonte.Os gritos dos gatos no jardim a atravessaram. Sempre pensara que a voz dos gatos da noite os transcende, faz deles mais que simples gatos: mesmo no caso dos gatos, o desejo é capaz de criar muito mais do que gatinhos. Sabia o fogo que os consumia – favos retirados da colméia escorrendo no meio da noite bruta. Os gatos lhe haviam feito muito medo na infância porque não conseguia entender o fascínio que lhe causavam. Agora podia conviver com eles na intimidade, pulsar com eles, buscar os frutos que a noite lhe traria se apenas consentisse em se perder. Os gatos cantavam a morte antes de germinar.A escuridão protege formas que ninguém vê à luz do sol. Naquela noite em particular, adivinhava movimentos e atividades ocultos pela treva a sua volta, mas não queria acender as lâmpadas, porque nesses momentos tinha a sensação de ser uma polpa intensa e perfumada, um fruto da noite suportando seus delírios, e muda viajava nesse terror secreto que antecede o gozo.Um sonho lhe havia mostrado mais que imagens enigmáticas: ela as reconhecia nas incertezas do futuro. Sabia que estava a ponto de criar outro rumo para sua vida – e na verdade já traçava esse rumo na fantasia. Mas relutava em deixar que a imagem daquele homem se instalasse de vez no olho do pequeno furacão que se armava, porque com isso estaria mergulhando – quem sabe – no mar em que se afogaria. Secretamente estremecia em seu claustro de semente, sabendo que nada a justificaria senão a perda.Os gestos se alteravam, levava as mãos em concha até a boca e soprava dentro delas para testar o hálito que ele lhe sentiria, e por um segundo esse hálito não foi o seu, mas o do outro ainda oculto. O desejo dele se fortalecia, atravessava seus caminhos, exalava pelos poros e a escravizava. Pulsava imóvel, fixando a nesga de céu que podia alcançar por sua janela aberta, e sabia o que esperar, mas não até quando. Não ia demorar. Os seios intumescidos, uma ânsia em febre que a retorcia, chegaria antes do desejado, pelo sumo que se permitia, sugando os dedos na delícia atroz dessa noite de espera sem chegada. Bem sabia, ia chegar sozinha.Começou a sentir náusea pela escuridão riscada de gritos que a deixavam no cio, que a atingiam como pedaços de vidro vindos de longe a cortar sua carne.O corpo lhe escapava. Um futuro oblíquo já penetrava em seu sangue e se confundia com sua própria pulsação. Não havia mais como mantê-lo à distância. Não queria, não ia ficar sozinha para se deixar resvalar na metade muda de um prazer vazio. Ele estava ali como um ser da noite, na certa pensava nela naquele momento e a queria também. Abandonou então sua própria vertigem à vertigem do desejo dele e deixou que aquele homem secreto a cobrisse e lambesse no pescoço, nos seios, na bunda, na barriga que se arregaçava para que seu falo rijo entrasse e se esfregasse lá dentro entre suas pernas até tocar no mais fundo que a fazia gritar de gozo; que magoasse sua carne macia com as mãos pesadas, apertasse suas coxas até deixá-las marcadas de seus dedos e sugasse suas partes doces e cheirosas, mordesse seus seios e derramasse seu caldo quente dentro dela duas, três, quatro, as vezes sem conta em que t[...]



Liberdade para pensar

2013-11-10T15:29:42.188-08:00

Afinal, penso o pensamento de quem? Se é o meu mesmo, por que recebe tanta influência dos outros? Será que tem que ser sempre assim?Às vezes fico assombrada com a uniformidade de determinados discursos. Vivemos à sombra de um emaranhado de ideias e pontos de vista ditados por interesses que não conhecemos e não são os nossos. Não dá para confundir gestos e atitudes impulsivas com opiniões próprias.Há uma diferença sensível entre o que de fato acontece na vida real e o que chega a nosso conhecimento via mídia. Aderimos um pouco sem sentir à opinião de um ou outro colunista que admiramos, pelo que sabemos dele e por suas ideias. Até aí, tudo bem. Mas é preciso cuidado com o efeito cumulativo desse processo. Acabamos nos condicionando a pensar pela cabeça dos outros, o que não se recomenda, por melhores que os outros sejam.O risco da pressão que a mídia e as opiniões recorrentes exercem sobre nós é maior do que normalmente se imagina. Fica muito fácil pensar como todo mundo – afinal, por que ser diferente? Conheço pessoas que se escandalizam com posições discordantes daquelas da maioria que as cerca. Isso corresponde mais ou menos ao que se costuma chamar de senso comum. No entanto, o senso comum é um dos piores inimigos da liberdade de pensamento e do bom senso, justamente por ser um dos maiores responsáveis por essa cultura deficitária e desfalcada que predomina em nosso país.Sem informação, com a pouca instrução que a escola nos garante e viajando nos universos da tevê e das revistas comerciais e alienadas que nos cercam, como juntar as peças para um raciocínio mais alerta? Como entender realmente os fatos, assumir uma atitude diante deles, ter uma opinião clara e definida?Afinal, penso o pensamento de quem? Se é o meu, preciso ficar alerta para avaliar até que ponto a influência dos outros está me impedindo de pensar e agir de modo coerente com o que realmente desejo e espero da vida.[...]



Nostalgia sem saudade

2013-11-05T11:30:49.335-08:00

Theo G. Alves. A casa miúda. Currais Novos, edição artesanal, 2005. 95 p.O próprio passado, recriado em crônicas e contos de Theo G. Alves, gerou um presente que não fala de saudade – entendendo por saudade o desejo impossível de repetir o que já foi, de reviver a vida da memória. Pode ser que esse jovem do Rio Grande do Norte sinta falta de alguém ou de algum lugar de seu breve passado, mas isso só diz respeito a ele próprio.O mesmo não acontece com o texto de Theo. Para os leitores, A casa miúda – um título alusivo talvez à tenra idade – é produto de experiências poéticas, contatos e percepções reprocessados e reconstruídos. A matéria prima é viva e úmida, mas o produto é nitidamente diferenciado e enriquecido de conquistas e aperfeiçoamento.A escolha dos temas tangencia muitas vezes um memorialismo, que no entanto não se explicaria senão pelo viés poético com que ele os focaliza e que lhes dá uma vitalidade  universal. Theo não narra sua história de vida, ainda muito breve e restrita, mas fala de sua intensa aventura existencial traduzida em narrativas curtas, deliciosas como o “Exercício de poesia nº 26 – Antônio e o escafandro”, plenas de referências como “Meu silêncio é Gregor Samsa” ou personagens marcantes como “João Doido”.Theo G. Alves apenas começa, e começa bem. Certamente muitas outras casas ainda estão por vir. Bem-vindo, Theo.[...]



Nostalgia sem saudade

2013-11-05T11:30:45.695-08:00

Theo G. Alves. A casa miúda. Currais Novos, edição artesanal, 2005. 95 p.O próprio passado, recriado em crônicas e contos de Theo G. Alves, gerou um presente que não fala de saudade – entendendo por saudade o desejo impossível de repetir o que já foi, de reviver a vida da memória. Pode ser que esse jovem do Rio Grande do Norte sinta falta de alguém ou de algum lugar de seu breve passado, mas isso só diz respeito a ele próprio.O mesmo não acontece com o texto de Theo. Para os leitores, A casa miúda – um título alusivo talvez à tenra idade – é produto de experiências poéticas, contatos e percepções reprocessados e reconstruídos. A matéria prima é viva e úmida, mas o produto é nitidamente diferenciado e enriquecido de conquistas e aperfeiçoamento.A escolha dos temas tangencia muitas vezes um memorialismo, que no entanto não se explicaria senão pelo viés poético com que ele os focaliza e que lhes dá uma vitalidade  universal. Theo não narra sua história de vida, ainda muito breve e restrita, mas fala de sua intensa aventura existencial traduzida em narrativas curtas, deliciosas como o “Exercício de poesia nº 26 – Antônio e o escafandro”, plenas de referências como “Meu silêncio é Gregor Samsa” ou personagens marcantes como “João Doido”.Theo G. Alves apenas começa, e começa bem. Certamente muitas outras casas ainda estão por vir. Bem-vindo, Theo.[...]



A Educação segundo Rousseau

2013-10-27T15:49:48.152-07:00

O respeito às diferenças e a obediência às leis da natureza, tanto no sentido genérico como no de diferenças individuais nas diversas fases da existência, foram princípios que o genebrino Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) levou às últimas consequências. Sua crença de que o homem nasce bom e a sociedade o corrompe conduziu um pensamento em que a educação deve livrar o homem das imposições sociais, ensinando-o a viver de acordo com a natureza e em liberdade.A desigualdade entre os cidadãos, devida a circunstâncias sociais, indica as falhas da civilização, que vão do ciúme nas relações amorosas à institucionalização da propriedade privada, pilar do sistema econômico. Para amenizar essas desigualdades, a sociedade criou artifícios como o culto das aparências e a necessidade da polidez. Reconquistar a liberdade seria o primeiro objetivo da educação, a começar pela busca do autoconhecimento. Mas em vez de usar a razão, o educador usaria a emoção, sob a forma de entrega sensorial à natureza. E o primeiro passo nesse sentido seria modificar o relacionamento rígido entre adultos e crianças.A criança deixa de ser um adulto em miniatura. Suas idéias e interesses são diferentes daqueles dos adultos, e o relacionamento rígido entre elas e os mais velhos precisa mudar.A disciplina e a memorização mecânica são impróprias ao desenvolvimento das virtualidades humanas, impondo valores alheios aos interesses genuínos do indivíduo. A educação não deve vir de fora, mas busca a expressão livre da criança em contato com a natureza. Para isso utiliza o brinquedo, o esporte, o trato com a terra, a aprendizagem de vários ofícios e seus instrumentos; a linguagem, o canto, a aritmética e a geometria abrem caminho à adaptação livre da criança a seu meio até os 12 anos, quando prevalecem os sentidos, as emoções e corpo físico, enquanto a razão ainda se forma. A formação moral e política nessa fase são prioritárias, mais importantes que a mera instrução. Nesse sentido, Rousseau precedeu Maria Montessori (1870-1952) e John Dewey (1859-1952). Sistematizou uma nova concepção de educação, depois chamada de ‘escola nova’, reunindo vários pedagogos dos séculos 19 e 20.A opção pela democracia decorreu da defesa da liberdade individual. Seus conceitos sobre educação mostram o processo educativo do nascimento aos 25 anos, enfatizando a fase cognitiva. A infância é um período de virtualidades, indica Freinet, citado por Nascimento (1995): criação, empreendimento, liberdade e cooperação, a partir dos quais o educador visará transformar o educando em um homem e cidadão, antes de fazer dele um “magistrado, soldado ou sacerdote”. E como aponta Peres Pissarra (s.d.), professora de filosofia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, “a dimensão política é crucial em seus princípios de educação.” Rousseau foi acusado de individualismo e de negar a importância da civilização. Mas o mito do bom selvagem, que idealiza o ser humano livre de constrangimentos sociais, deve ser visto como mero recurso teórico. Seu pensamento soava rebelde, numa época de culto à razão. Enciclopedistas e pensadores da Revolução Francesa de 1789 manifestaram seu desacordo quanto a suas teorias e a seu misticismo, defensor de um Deus “que move o universo e ordena todas as coisas”. Isso não o impediu de colaborar na Enciclopédia Iluminista, com o verbete sobre música, e influenciar artistas do Romantismo; mas as dissensões se acentuaram até o conflito aberto.Voltaire chegou a dizer dele que "ninguém j[...]



Leitura perfumada

2013-10-22T12:50:44.168-07:00

Andei relendo as Histórias de cronópios e famas, do Cortázar, autor e livro pelos quais tenho especial ternura. (É engraçado como certos livros ficam amigos da gente – ou a gente deles, talvez seja mais realista dizer assim.) Cronópios então é um de meus melhores e maiores amigos-livros. Assim como os amigos-gente, eles também se mostram um pouco diferentes a cada vez que os encontramos. Não ficam mais gordos ou mais magros, mas envelhecem e amadurecem, física e emocionalmente. À medida que o tempo passa, vão firmando a imagem mental que temos deles, aprofundam os sentidos de seu texto e deixam perceber novos sentidos que antes nos escapavam. Pode-se dizer que vamos conhecendo melhor nossos livros a cada leitura, o que certamente tem a ver com nosso próprio auto-conhecimento e maturidade.Reli as Histórias pela quinta ou sexta vez, e elas sempre me dão um enorme prazer e me fazem rir. Mas nessa última leitura descobri um atrativo inusitado em meu exemplar: sem eu saber como nem por quê, o livro ficou perfumado. Não que o perfume de minhas mãos tivesse passado para ele. O cheiro é outro: é meio madeirado, um pouco sândalo, um pouco poeira, com um toque bem leve de baunilha que o redime e o deixa realmente uma delícia. Um perfume com um bom fixador, porque impregnou o livro inteiro, de capa a capa. Um perfume masculino, com certeza – e que agora associei a Cortázar.[...]



Adélia

2013-10-17T12:48:47.027-07:00

Desde o primeiro livro de Adélia, Bagagem (quem não leu queira ter o bom gosto de ler), me interesso em saber tudo sobre ela. A mídia e o mercado editorial tentaram rotulá-la como uma mística sensual. Adélia é as duas coisas, mas não há rótulo que dê conta de sua obra, de sua personalidade poderosa. Ela transborda, vai muito além e desmancha qualquer pretensão intelectualóide. Interesseira quando escreve ou começa a falar.Primeiro, Adélia Prado é mística na medida do potencial humano, nada além. Sua fé está à flor da pele. Atinge as pessoas de um modo quase desconcertante pela qualidade cristalina que, longe de limitar sua atividade de escritora e sua postura pública, dá força e ilumina tudo que ela diz e faz. Sem proselitismo, sem pose de guru nem sombra de magia esotérica. Como a própria faz questão de deixar muito claro, “a transcendência está entre nós”. Não prega um paraíso futuro e problemático. Não tenta impingir nada: Adélia exerce suas convicções com a mesma naturalidade com que come, dorme, trabalha ou ama.Acredito que chegar a esse ponto de pregnância se deve a alguns fatores que não percebemos de entrada, como a educação e a intensa experiência de vida familiar na infância; a formação filosófica (a que ela empresta pouca importância, mas que certamente pesou para que ela fosse quem é); a estrita fidelidade à busca da beleza e – talvez em consequência - uma forma de engajamento radical no dia-a-dia de que raras pessoas são capazes. A poesia brota desse amálgama como uma planta no chão fértil.Em segundo lugar, a propalada sensualidade que Adélia expressa é, sim, sensualidade. E daí? Quem de nós, dotados de sexo, hormônios e desejos, desconhece a sensualidade e não a aprecia como um dos maiores prazeres da vida? Adélia dá graças a Deus por esse dom e não se envergonha de reconhecer sua prática. Quem pretendia fazer dela uma devassa religiosa, uma espécie de fetiche para vender mais livros, deve ter se frustrado de verde e amarelo, porque o amor celebrado em suas palavras é tantas vezes carnal e natural sem nunca deixar de ser amor – aquele que não polui o coração, não turva a serenidade nem violenta a dignidade do amante.[...]



Poço sem fundo

2013-10-11T18:48:11.013-07:00

Adelaide Amorim                                                           Tu queres ilha: despe-te das coisas,                                                           Jorge de Lima, Invenção de OrfeuOlhou o homem alto de cabelos grisalhos que se aproximava, absorto, os olhos perdidos em algum lugar de tristeza. Rapidamente fixou as mãos dele, os dedos longos e fortes segurando o cigarro.“Não me viu” – pensou, e sem querer completou o pensamento – “e se visse não ia dar a mínima.”Por quê? Por que tinha que ser assim? Os homens só olhavam para as outras. Nesses momentos era a imagem do cansaço, a boca descaía, as rugas ao redor da boca se alongavam, os sulcos fininhos se acentuavam em volta dos olhos. Lembrou os cabelos sem brilho, tinha esquecido de novo de comprar aquele xampu que iria resolver tudo. Ou não.O desalento tomou conta dela, e aí se viu refletida na vidraça da tinturaria antiga da Marquês de Abrantes. Num gesto reflexo levantou a cabeça e ergueu os ombros. Encolheu a barriga o mais que pôde e deu em cheio com o olhar do porteiro do prédio ao lado. O homem percebeu sua confusão e deslizou os olhos sonsamente com um meio-sorriso.Pensamentos misturados e sem palavras a deixavam muito aflita, e acabou tropeçando numa rachadura da calçada. Por que tanta aflição? Sofria como se usasse seios postiços e um deles caísse de repente em plena rua no meio dos passantes. Nada tão grave, só tinha tentado uma postura que não era a dela, nunca ia ser. Só tinha criado um de seus momentos de ilusão, mas logo esqueceria e voltaria a ser ela mesma, curvada e sem jeito. Às vezes achava que sua vida era como uma dessas nuvenzinhas ralas que vagam pelo céu ao sabor dos ventos. Nuvens como as linhas indecisas de sua mão.Não tinha sabido aproveitar as oportunidades. Queria tanto ajudar as pessoas, ser útil e querida, que causava desconfiança ou desconforto aos outros. Vivia contando suas gafes às colegas – por que, se isso só reforçava a imagem que gostaria de desfazer? Precisava ter mais dignidade, parar de contar tudo para todos, de se expor assim ao julgamento de pessoas que nem a conheciam direito, parar de bancar a boba. Além disso pedia licença demais, desculpas demais, preocupava-se demais com o bem-estar dos outros, mesmo dos estranhos que cruzassem seu caminho. Isso não lhe dava nenhum prazer, ao contrário, era como uma obrigação, quase uma compulsão atropelando sua vontade. Qualquer miúdo interesse dos outros era maior que os dela mesma. Sempre se exigia atitudes forçadas, excessivas, por isso vivia tão cansada. Aí entendeu o miolo da coisa: a aflição era justamente ser esse irremediável. “Primeiro é preciso a gente mesma acreditar e depois os outros vão se convencendo”, pensou, e de novo pisou em falso. O pensamento não lhe agradava, antes a fazia sentir-se ainda mais deplorável, como se estivesse recorrendo a expedientes de mentira. Estava so[...]



Que bela gata amarela

2013-10-06T17:16:02.859-07:00

Tomou o metrô na Siqueira Campos à tardinha. Vestia jaqueta de brim cinza, saia de leve algodão florido e sandália de dedo branca e azul. Nos tornozelos, correntes prateadas. Nos dedos – todos – anéis de variados tamanhos e materiais. O cabelo era louro de farmácia, a pele queimada de praia, as unhas pintadas de preto. Óculos escuros tipo deixem-me só. Carregava uma mochila meio ensebada azul-cinza de náilon. Assim que sentou no canto da janela, penúltimo banco, escondeu o rosto no braço, apoiado no rebordo da vidraça, e viajou assim imóvel até a Saenz Peña, só os cabelos amarelos à vista. Esperou que o trem parasse e abrisse as portas, e foi a última a sair. Flutuou na saia leve como se voasse escadas acima, e se alguém fixasse o olhar em seu rosto veria as espinhas, mas isso não aconteceu. Ela foi mais rápida. Cruzou o espaço entre a saída da estação e o microônibus que a levaria até a Usina da Tijuca, acomodou-se no último banco da direita, junto à janela, e tornou a mergulhar o rosto no braço dobrado. Magrinha, miúda, imóvel e secreta.No início da Rocha Miranda, mochila afivelada às costas, montou na garupa da moto do piloto de capacete negro, jaqueta de couro, bermuda jeans e chinelo de dedo.— Tudo certo, gata?— Já é.Na Santa Clara, dona Selma entrava no quarto e encontrava o armário aberto e as gavetas viradas no chão. Logo dava falta das jóias e dos dólares, mais ou menos no momento em que ela chegava ao ponto da Usina.— A desgraçada! A larápia! – vociferou. Nem ao menos sei onde essa infeliz se esconde. No segundo dia de trabalho! Por isso saiu sem se despedir! E eu nem sei onde...[...]



A vida de cada um

2013-10-03T14:41:58.346-07:00

É bem comum as coisas acontecerem fora das grandes linhas, muito mais na cabeça ou na pele das pessoas do que no plano objetivo. Jogando com palavras como quem joga com espelhos, pode-se chamar realidade a um conjunto de planos encadeados onde a imagem que aparece aos olhos do observador é fruto de um intrincado de outras imagens, total ou parcialmente invisíveis, por causa das quais se chega a ver alguma coisa, imagens que no entanto permanecem preservadas na penumbra dos aposentos, nas distâncias do tempo e do espaço e nos limites, voluntários ou não, do silêncio. É provavelmente o plano privilegiado do individualismo, porque é fácil nesse estágio dar de ombros para os outros. É fácil seguir adiante, e até já se consagrou essa atitude com o célebre não tenho nada com isso, e se ensina às crianças não se meterem na vida dos outros.Mas é difícil dizer isso quando se vê adiante, quando se devassa o domínio que está por trás do primeiro plano, da imagem pública. Mais difícil ainda quando a imagem secreta extravasa e se mostra a olhos um pouco menos incautos. O ser humano se identifica na imagem menos exibível do outro, no sofrimento do que poderia ser e não é, inspirado por sentimentos ditos nobres que acionam seus recursos, a bagagem de suas experiências, e o levam a querer resolver problemas que poderiam ser seus – ou aproveitar-se deles em benefício próprio.A fraqueza de alguém serve no mínimo para exaltar o cavaleiro andante que há em cada pessoa. Mas para cada masoquista solto no mundo existe pelo menos um sádico atento. Ninguém é somente uma imagem de primeiro plano. Por trás dessa imagem visível, a dos jornais, a dos olhos alheios, toda uma sementeira se plantou, o caleidoscópio girou muitas vezes, e o que o garimpo do tempo deixou passar foi, no mínimo, uma falsa pepita. Por isso, cuidado. Não se deve deixar grassar o engano.Não se trata do lobo em pele de cordeiro que todos nós somos, ao menos de vez em quando. Trata-se de coisa mais sutil e imponderável. Coisa que pode fazer de um marido de muitos anos um completo estranho; de um amigo dos tempos de escola uma completa surpresa e de um filho um inesperado inimigo.É importante que não se esqueça nunca de ir, progressiva ou retroativamente, colocando na balança os dados novos e tirando dela os que deixaram de existir (às vezes os dados se anulam uns aos outros). Mesmo assim, com todas as precauções, pode-se subestimar ou até deixar de perceber fatores importantes. E ter a surpresa de, na primavera, encontrar uma árvore seca e crestada, e no verão acordar sentindo frio.Por isso é preciso registrar, de vez em quando, que as grandes linhas – nascimentos, casamento, filhos, separações, doenças e mortes – são a um tempo os dados da imagem pública, a biografia do homem civil e o resultado de uma montagem cujas peças começam na cabeça ou na pele das pessoas. Esses fatos civis, universais e noticiáveis têm uma estrutura íntima, imponderável, pessoal e secreta, que resulta em grandes paineis de mosaicos e cores só previsíveis se formos capazes das sutilezas de observação e autoidentificação.Consegue-se tal observação com certa dose de isenção sem indiferença, solidariedade sem pena e lucidez sem frieza excessiva. E acima de tudo com raízes fincadas na certeza fértil de que ninguém é tecido por fio único, tem uma só cor ou brilha sempre com a mesma intensidade. Porque até nosso rosto é se[...]



Vida mansa

2013-09-30T14:25:40.597-07:00

Sentou para escrever e respirou fundo. Mas quando ia começar a pôr na telinha o que lhe ia n’alma – enfim uma chance de usar essa expressão! –, o telefone tocou. Era a Geruza, amiga dos tempos do colegial (colegial era então o nome do ensino médio), que tinha descoberto seu telefone pela Norma, lembra da Norma?, que encontrou no supermercado. Ficou tão contente, a Geruza, e ela também, porque afinal não é todo dia que se recebe uma chamada assim para falar de um pedaço da vida que se desfrutou junto... Aí o celular chama. Pede licença à crise saudosista da Geruza e atende. É o bombeiro avisando que o orçamento do material ficou em seiscentos e oitenta pratas, o que somado à mão-de-obra dá um total de mil e quinhentas pesetas. Despacha o homem sem fechar nada, que isso não é coisa pra ser decidida apressadamente, e volta à Geruza, já recuperada e resgatada da beira das lágrimas (sempre foi tão sentimental, essa minha amiga) e agora conta novidades quentíssimas sobre a Marly, lembra da Marly? Pois é, minha filha, deixou o Leo, lembra do Leo?, e agora está sabe com quem? Você não vai acreditar.Você – no caso ela – nem quer acreditar, porque isso não lhe interessa a mínima. Pra cortar o papo sem empanar muito a alegria da Geruza, diz que está atrasada para a hora do dentista e marca um encontro pro sábado à tarde no shopping.Senta de novo para escrever e respira fundo. Na quarta linha precisa levantar para abrir a porta pra Rosa, a empregada, que esqueceu a chave. Pede a ela que atenda o telefone e a porta e anote os recados.Senta de novo etc. Pela altura da décima linha chega-lhe aos ouvidos um estardalhaço do que parece um tiro, gritos e vidro quebrado que a arranca da cadeira de um salto, achando que chegou sua hora de testemunhar manchete da seção policial do dia seguinte. Corre à janela, mas ainda não vai ser dessa vez. Foi só um pneu estourado, os gritos são de dois motoristas alterados que nem sequer sacaram armas nem têm mesmo cara de quem vai sacar, e os vidros são lanternas em cacos sobre o asfalto.Volta ao escritório e dessa vez respira fundo antes de sentar, pra ver se dá sorte e também pra reduzir o nível da adrenalina. Mais serena, senta de novo. Num relativo e abençoado silência de quinze minutos consegue fechar duas laudas no monitor, mas aí Rosa chama. É o carteiro, tem que assinar. Podia ser você mesma, viu? Quando for pra assinar... – ia dizendo, mas Rosa já sumiu da vista. O carteiro tem pressa e se irrita visivelmente porque ela não trouxe logo a caneta. O senhor não tem? – ela pergunta, e ele nem responde, se limita a lançar um olhar de desprezo de quem ouviu uma bobagem dessas que a gente nem responde. E como Rosa voltou para o tanque e de lá não escuta chamar, ela mesma vai para dentro pegar a caneta que teoricamente fica sempre no bloquinho junto ao telefone, no momento desaparecidos ambos. Procura dali e daqui, percebe que está mais preocupada do que devia com o estresse do carteiro, e resolve não se apressar mais. Como sói acontecer em tais casos, acha a caneta assim que relaxa a musculatura espatular e solta as cervicais. Volta à porta, à qual o carteiro se recostara acintosamente e agora coçava a barriga com aparente volúpia. Pega a folha amassada que ele lhe estende e assina bem devagar, pra ver a reação dele, que lhe dá as costas com a brusquidão de quem odeia.O telefone toca, e como passava p[...]



Conversa sem muito sentido

2013-09-29T18:53:26.860-07:00

Antigamente eu me aborrecia quando o cós de uma saia ficava muito amassado na reentrância da cintura. Agora tenho mais com que me aborrecer.***Hoje encontrei anotado numa orelha de apostila: “o que é espontâneo vive para sempre”.***Naquele dia, precisava assistir ao jornal das quatro, que ia transmitir uma entrevista de Cosme, meu colega de faculdade. Nos tempos da universidade, Cosme era um adolescente magrinho, moreno, descendente de índios do Amazonas; meio rebelde, inquieto, de olhos negros puxados. Naquela altura, porém, já se tornara um caboclo barrigudinho de barbas compridas e grisalhas. O que não me saía da cabeça era que não seria justo deixar de vê-lo naquele dia. Porque talvez ele não vivesse muito mais. Porque talvez eu não tivesse muito mais para viver. Um mês depois recebi a notícia de sua morte.***Tudo que se consegue saber do futuro com relativa certeza é o que a meteorologia prevê. O que é bem pouco, tendo em vista o percentual de erros na previsão do tempo.***O mais alto a que consigo chegar é quando procuro de todo coração entender alguém. Nesses momentos me sinto no nível dos cristais de chuva.***Deve-se perder o presente em nome do futuro?[...]