Subscribe: bay window
http://bay-window.blogspot.com/feeds/posts/default
Added By: Feedage Forager Feedage Grade B rated
Language:
Tags:
até  dia  dos  homem  londres  mais  mãos  nas  neve  nunca  não  olhos  quando  sem    tempo  wimbledon   
Rate this Feed
Rate this feedRate this feedRate this feedRate this feedRate this feed
Rate this feed 1 starRate this feed 2 starRate this feed 3 starRate this feed 4 starRate this feed 5 star

Comments (0)

Feed Details and Statistics Feed Statistics
Preview: bay window

bay window



bay window



Updated: 2015-09-17T07:36:51.263+00:00

 



Cavalos negros

2008-08-14T12:25:59.145+00:00

Quatro cavalos negros cavalgam cerimoniosamente como se soubessem que levam a morte. Foi o compasso dos cascos no asfalto que me fez abrir a janela para ver passar o cortejo fúnebre, mas a visão da carruagem florida não corresponde ao som – desliza como se fosse puxada por cavalos alados. É uma imagem anacrónica.
Um camião das obras e um autocarro desaceleram enfadados. Nos passeios, as pessoas olham desinteressadas e continuam a caminhar como se todos os dias fosse alguém a enterrar. Nos prédios, só eu venho à janela. Dentros dos mercedes negros como o poder, as pessoas permanecem impávidas.
É uma imagem anacrónica, mas a morte é anacrónica. Coroaram os quatro cavalos negros com plumas negras, mas nem isso lhes retira a gravidade.
Quatro cavalos negros cavalgam como se fosse a primeira ou a última vez que alguém morresse. Cada morte é sempre a primeira e a última.



Wimbledon

2008-07-14T23:34:27.121+00:00

A primeira vez que fui a Wimbledon, lembro-me sobretudo dos pormenores até lá chegar. Quando o metro parou na estação de Southfields (sim, não é em Wimbledon que se sai para ir para o torneio de ténis, mas duas paragens antes) não queria acreditar que o chão da estação de metro estava alcatifado – de verde. Começava ali o relvado de Wimbledon.
De um lado da plataforma chegavam pessoas que, depois de um dia de trabalho, tentavam ainda ver um dos últimos jogos antes de escurecer. Do outro lado da plataforma, outras regressavam a casa, provavelmente depois de terem passado todo o dia no torneio. Invariavelmente, as mulheres estavam bem vestidas, com roupas claras de verão, pullovers de riscas, sandálias elegantes, algumas de chapéu. 
Um rapaz indiano, debaixo de um dos vasos com flores que se repetem a cada dez metros a partir daqui, apontava os horários exactos dos comboios que chegavam e partiam e eu não percebi se aquela minúcia tinha alguma coisa a ver com o facto de Wimbledon estar a decorrer ou não; se seria uma espécie de regra antiquada mas persistente, como a mudança dos juízes de linha que, comparou recentemente um cómico inglês, excede o render da guarda do palácio de Buckingham.
Ainda guardo uma recordação da primeira vez que fui a Wimbledon – um guia de “como fazer fila” e um autocolante que diz: “Eu fiz fila em Wimbledon”.
Uma vez lá dentro, a bebida oficial é Pimm's, um clássico do Verão inglês, e a comida oficial morangos com chantilly, tomados com a descontracção de quem bebe cerveja e come batatas fritas de pacote.
Dessa primeira vez, vagueando de corte em corte de entrada livre, estava fascinada por tudo, excepto o jogo de ténis propriamente dito. Distraía-me a observar os rapazes de calções e as raparigas de mini-saia a apanhar as bolas coreografados; e a apreciar a imobilidade e concentração dos juízes de linha, mais uma vez usando a comparação com Buckingham, aposto que se pode fazer caretas mesmo à frente dos juízes de linha que estes não se mexeriam.
Só da segunda vez que fui a Wimbledon comecei a interessar-me pelo jogo. Era Hewitt contra um coreano de quem não me lembro o nome. No corte 1 de Wimbledon percebi a eloquência dos ooohs, aaahs e das palmas de uma audiência de ténis.
Mas foi só à terceira que senti o que é fazer parte do público de ténis, fazer parte de Wimbledon, e até mesmo, de Londres. Não sei bem como é que isto aconteceu, mas na minha terceira vez em Wimbledon - este ano – acabei no Corte Central, e na final.
Passos acertados como soldadinhos, entraram os “caça-bolas”, depois os juízes de linha. E o árbitro sentou-se no seu lugar e deu começo ao jogo entre Roger Federer e Rafael Nadal.
Não foi um jogo mas um duelo. Os rapazes e raparigas com cerimónia passavam as bolas como amunições aos jogadores. E o público assistia como se fosse uma questão de honra, esperando que se fizesse justiça.
Houve momentos em que me senti dessíncrona da multidão, porque claramente a maioria apoiava Federer, mas nunca a multidão deixava de aplaudir quando Nadal fazia um ponto brilhante e derrotava o campeão a que Wimbledon tinha ganho afeição nos últimos cinco anos.
Tapou-se o relvado, abriram-se os guarda-chuvas, fecharam-se os guarda-chuvas, destapou-se o relvado, por duas vezes esperou-se que a chuva passasse. O duelo continuava. Caía o dia. Tínhamos chegado às duas da tarde e continuávamos ali já passava das nove da noite. Caía a luz.
Os últimos pontos foram vividos como se cada um de nós na assistência tivesse também, ali no Corte Central de Wimbledon, alguma coisa em jogo. E quando Federer mandou a última bola à rede, e Rafa se estendeu emocionado no verde de Wimbledon, toda a gente sabia que tinha sido feita justiça. E todos tínhamos ganho alguma coisa.



Duas histórias e uma fotografia de Jan Grarup em Darfur

2008-04-30T18:52:42.082+00:00

Uma história (Não vi a fotografia)
Um dia, repara numa criança a jogar à bola. Tem dois anos, ainda mal sabe andar, mas já dá os primeiros passes. No dia seguinte, volta a ver a mesma criança, está doente. Ao terceiro dia, olha para o menino pela última vez. E enterra-o.

Uma história (Não vi a fotografia)
Uma criança ardeu. A enfermeira diz-lhe: é mau sinal que não grite. Ele olha para a criança tão sossegada: calmamente, o menino tira pedaços de pele do próprio braço.

Uma fotografia (Não ouvi a história)
Na posição em que uma mãe com o filho adormecem juntos à hora de mamar, uma mulher e um bebé estão estendidos no chão entre outros corpos.



Neve II

2008-04-23T20:26:23.590+00:00

Tinha ficado à janela até a neve ser um sonho. O boneco foi a última neve a derreter, como se a forma humana lhe tivesse dado um instinto de sobrevivência. As crianças no jardim, a erguer o boneco de neve com risos; isso, podia – iria – esquecer. Iria, um dia, confundir com filmes, histórias alheias, um sonho. O que não iria esquecer era o boneco de neve a perder forma. Até ser uma pequena poça branca. Até ser nada.



Recreio

2008-03-14T18:13:38.128+00:00

O carrossel continua a rodar se bem que as crianças há muito que regressaram à sala de aula.
Um homem, parado do outro lado da rua, continua a escutar a alegria. Sorri para dentro. Penso que observa uma única criança. Segue-a enquanto ela desce no escorrega. Corre para trás, sobe outra vez os pequenos degraus, e atira-se em nova inesperada descida.
O homem abana ligeiramente quando algum carro passa demasiado rente, demasiado depressa, mas não se mexe. Até que a campainha soa. E as crianças voltam a ocupar o movimento contínuo do recreio da escola.



Augúrio

2008-03-06T18:42:09.179+00:00

Os pássaros começaram a empoleirar-se na árvore. Pombas, corvos, melros, pardais, democraticamente, partilhando troncos e galhos sem olhar a espécie e qualidade de canto.
A árvore curvou-se com o peso. De longe, parecia uma árvore gorda de felicidade; a uma janela, alguém pensou é primavera, sim, está quase.
Os pássaros continuavam a chegar. Submergiam das profundezas do nevoeiro – no céu de hoje vêem-se coisas que não se podem contar sem cegar.
Os pássaros encaixavam-se, sem cotoveladas nem queixas, obedientes como bailarinos de companhia. De alguma forma, é uma coreografia que nasceu com eles, foram treinados toda a vida para este dia.
Uma cegonha colocou-se no ramo mais alto como a estrela das decorações de natal e os pássaros ficaram calados e quietos, só faltavam as águias.
Até que os pássaros, concertadamente, começaram a bater as asas.

A árvore sobrevoou o parque, a estação de metro, a universidade e a rua de compras, atravessou o rio rente ao parlamento e à catedral; e depois deu a volta. Círculo após círculo, os pássaros avisavam a cidade.

Baixo a cabeça. Apenas um ponto no céu, as árvores não voam. E os pássaros há muitos muitos anos que não dizem o oráculo.



Neve

2008-02-20T09:05:44.644+00:00

Um mancha escura avança pela rua. Vêm com ritmo de chuva, até de tempestade de neve. Lá, nesse lugar, neva. Prova física de que existe. Lá, neva.
Enquanto caminham, eu imagino os passos abafados no branco. O branco-“Neve”, de Orhan Pamuk. Essa neve ele inventou, não existe; mas existe o lugar. De um branco tão melancólico e tão belo que paralisa. Esse lugar que vejo aqui.
Tenho medo de mover-me. Como ficou de repente diferente a rua de Stoke Newington, habitualmente com carros de bebé brilhantes e montras para fazer compras elegantes e ainda com tino e ética. Esse lugar está sempre aqui. Aqui, onde nunca a esta hora a um dia de semana a estrada estaria cortada. Aqui mesmo, “nasceu e viveu Daniel Defoe”, também Edgar Allan Poe, mas este só na época de ir à escola, não me lembro que nível da escola.
Há muito tempo já que a neve existe debaixo do alcatrão. As lojas foram abrindo, de mercearia, de fotografia para casamentos, de viagens para onde neva e no Verão, ah que glorioso Verão, não se crê possível que neve exista; e os restaurantes; principalmente os restaurantes.
A gente entra e encomenda mais uma dose de cordeiro bbq na brasa e estufados que dão saudades, a mim de Portugal. E a gente sai com o pão a escorrer o molho da carne sem ter reparado nas letras do menu, às vezes nem no nome em cima da porta, qualquer coisa que diga, de onde vem o que levamos nas mãos embrulhado em papel? E ainda ontem comi entrecosto e pickles, como acontece todas as noites em outras casas aqui do bairro. E eu não sei nada sobre essas casas. Não entendo o que dizem e nunca me passou pela cabeça tentar.
E a neve, a do Pamuk, esconde sangue, divisões. A neve não é só branca e quando cai aqui, também não.
Quando chego perto deles, a procissão está no fim, e só consigo fixar a cara do homem que me entrega o papel a explicar que os curdos reivindicam, escoltados por fluorescentes polícias britânicos, um lugar.
O homem tem um kispo e um gorro grossos, ambos para neve; bigode antiquado, e a expressão – de um silêncio como a neve de Pamuk – também.
Eles passam e rapidamente desaparecem. O chão fica limpo, reflectindo o céu liso que está hoje. Eu caminho e é o momento mais frio deste Inverno. Talvez neve. Eu gostava se nevasse.



Dia de S. Valentim

2008-02-15T18:46:39.560+00:00

Um homem alto, de barba e olhos azuis chamado Tristram segue-me. Eu não sei exactamente para onde vou e talvez por isso, ele segue-me. Eu decido, de repente, só porque alguém me pergunta no meio da rua onde fica a casa do Dickens, que vou procurá-la, e quero entrar, e ele vem comigo.
Alto, de barba e olhos azuis, no tempo de Artur sem armadura. Tristram, nome de cavaleiro.
A praça preferida dele fica ali perto mas está fechada, e eu descubro que há praças com donos, só alguns podem passear as crianças, os cães, as ideias. Eu não, nem sequer Tristram, a praça preferida dele é aquela onde nunca foi.
Descubro também que se pode namorar num cemitério. Tristram, sem nunca me tocar, tenta conquistar-me sobre uma campa, com um anjo a vigiar. No tempo de Artur conquistava-se para a morte.
Está tudo certo com Tristram, excepto qualquer coisa que eu não consigo perceber imediatamente. É o dia certo, dia de S. Valentim, uma tarde de melancolia e a melancolia pode sempre ser romântica; é um homem certo, delicado mas de feições fortes. Mas estamos em tempos desalinhados, eu e Tristram. Tristram pertence a um tempo mais à frente, muito mais à frente, quando se percebe que em tantas coisas temos que viver como se nunca tivéssemos deixado de viver no reino de Artur.
O barulho que me acordou a meio da noite continua. Tenho receio de ir espreitar à janela porque me ocorre que em vez de uma raposa esfomeada, te posso encontrar a ti, Tristram, com essa mesma certeza animal.
Uma mão que acaricia folhas e procura frutos comestíveis, um rosto que se esconde o mais possível da estrada, um corpo a corpo com outros animais nas florestas, que ainda há florestas. Tristram conhece as florestas.
“Invejo-te”, essa é a única palavra que me lembro de tudo o que falámos. Antes de mim, sabias que eu ia escrever-te; e sorriste feliz.
Mas eu não sou pessoa de escrever um homem a esta hora, que só as raposas andam lá fora, agora, Tristram. Ou sou?
Iria acordar para o S. Valentim com o dia já vivido. Foi assim:



No autocarro, a olhar para uma criança

2008-01-17T21:07:16.523+00:00

A irmã adolescente agarra-o pelo braço com imensa doçura mas firmeza, como se nada fosse mais importante do que mudar o irmão de banco. E o irmão devolve-lhe a imensa doçura e segue-a. Depois, senta-se mais crescido do que o corpo, e olha fixamente pela janela durante toda a viagem, pensativamente adulto.
Quis tanto saber o que pensa. Pensei em aproximar-me, fazer uma pergunta casual, a seguir inquirir o nome, small talk... Hesitei o resto da viagem. Acabei por me deixar ficar sentada, silenciosa, simplesmente observando.
Não foi por medo do ridículo ou falta de coragem. Foi por perceber que o mais importante é o desejo em si de ler nos olhos (e escrever na pele). Perceber que cada pessoa é uma história a cada momento, até uma criança.


Por alguma razão misteriosa, em Londres é-me mais fácil escutar essas histórias. É bom estar de volta.



Os outros

2007-10-11T16:05:11.225+00:00

Havia um post com o qual gostava de ter começado o Bay Window. Fui depois fazendo várias tentativas ao longo do tempo de vida deste blogue e nunca consegui escrever esse post.
Agora, a olhar por uma janela que não é em baía para uma paisagem tropical, penso em Londres e percebo que esse post nunca poderia ter sido escrito.
Todo o tempo estava a tentar dizer que Londres é a cidade do outro, uma cidade de encontro com os outros, talvez mesmo de encontro com a própria ideia de alteridade (o post começava até com uma citação do Ryszard Kapuscinski, mestre da “otherness”); e descubro que não posso dizer isto. Em Londres não há um encontro com “os outros”, porque em Londres, os outros somos nós.

Estou a trabalhar em encontros com outros “outros”, bem longe de Londres, noutro continente, noutro hemisfério. Tenho pena de ter que deixar de escrever no Bay Window até ao final do ano. Obrigado a todos os que foram visitando o Bay Window.

O BAY WINDOW VOLTA EM JANEIRO em www.bay-window.blogspot.com



British Library - O leitor

2007-10-01T17:55:49.347+00:00

Tem pedaços de corda por atacadores, um blazer de Verão por impermeável de Inverno, e um saco com rodinhas por casa.
Tem mais ou menos 40 anos.
Tem mãos de escritor que são aquelas que as pessoas costumam chamar erradamente de mãos de pianista. A partir de certa idade, nas mãos não se lê o futuro, mas aquilo que poderia ter sido o futuro.



Actividade ilícita

2007-09-28T23:18:32.920+00:00

“Faltam 15 minutos para encerrar.” P. fecha o computador e dirige-se à casa de banho da biblioteca. Retoque de maquilhagem, mudança de sapatos, blazer, P. sai da casa de banho uma executiva. Chegará a casa vestida como quem veio do escritório onde é suposto trabalhar como consultora. Alguns jovens têm que esconder dos pais que fumam, bebem, tomam drogas, dormem com alguém do sexo oposto, dormem com alguém do mesmo sexo... P. esconde que escreve.



BL

2007-09-25T19:47:23.336+00:00

Sabem aquele desejo de dar um grito num sítio onde não se pode sequer falar alto? Não fui eu, não tive coragem, mas um casal acabou de descer as escadas da British Library aos berros. Quando chegaram à saída iam tão satisfeitos que o segurança não conseguiu fazer mais nada a não ser rir. Por momentos, pensei que também o segurança ia desatar aos berros. Ainda tive esperança que se pegasse.



Special People

2007-09-21T14:43:12.644+00:00

Talvez seja tempo de começar a ler jornais desportivos e tablóides, mas até aqui ainda não ganhei o hábito, e se calhar por isso, o conceito de um José Mourinho odiado pelos ingleses – como no retrato do P2 de hoje - é-me absolutamente estranho.
Não creio que exibir sucessos (ou até vangloriar-se) seja “pena capital” na jurisdição britânica, pelo contrário. A característica que mais me tem custado a entender na mentalidade anglo-saxónica é a falta de humildade, porque isto é extraordináriamente estrangeiro para um português.
Um português em Londres é obrigado a viver com o Mourinho – a associação Português=Mourinho ultrapassa todas as outras, do vinho do Porto ao Algarve. E é obrigado a ver-se no Mourinho.
E o único pedaço verdadeiramente feliz do espelho é a arrogância. Como se o Mourinho representasse a nossa possibilidade de, noutro país, viver esquecidos do nosso destino de humildade.



Almoço no café

2007-09-14T17:15:39.725+00:00

Às 12h vêm as mulheres com filhos – nas mãos, no colo, na barriga – e vão-se.
Às 13h vêm as mulheres sem filhos – estão ainda mais carregadas – e vão-se.
Às 14h vêm os homens – um telemóvel, um jornal, um livro, qualquer coisa para não comer sozinho - e vão-se.
Às 15h até as meninas ao balcão estão ausentes.



149 – a leitora

2007-09-12T11:37:40.227+00:00

Nunca tinha visto ninguém de olhos bem abertos com a expressão de quem os tem fechados. Tenho a certeza que lê, simplesmente não aquilo que está escrito.



149 – o ginasta

2007-08-29T09:49:27.992+00:00

Cospe nas mãos – primeiro uma, depois outra – e esfrega-as uma nas outra. Olha em redor e fecha os olhos. Levanta os braços e volta a baixá-los. Junta os pés. Respira fundo. De expressão concentrada, ainda de olhos fechados, levanta os braços lentamente até que as mão sentem as pegas. Agarra-se e eleva-se. Por instantes, fica absolutamente imóvel no ar, antes das pernas começarem a curva para si próprio. Com o corpo fechado como um bicho de conta, roda até prefazer 360 perfeitos. Chega ao chão suavemente – os pés ainda juntos – pousando sem hesitações. Sobe a cabeça, o tronco, até as costas ficarem direitas. Respira fundo. Levanta os braços e volta a baixá-los e abre os olhos.
No autocarro, ninguém bate palmas.



149

2007-08-22T17:56:35.824+00:00

A crianca é igual à mãe. Vai sentada tal e qual: costas curvadas por uma carga invisível; olhar em frente mas vago para que não se direccione a alguém específico; as mãos espremidas uma na outra sobre o colo.
A crianca está prestes a chorar, e também nisso é igual a mãe: contém um choro adulto.



Atravessar a rua

2007-08-15T20:18:19.166+00:00

O semáforo fica verde. O motorista do autocarro suspira por si e pelos seus passageiros, e não se mexe. Os condutores dos automóveis mexem ligeiramente o pé direito consolados no ruído movimentado do acelerador. Os peões olham para o autocarro e para os carros parados; olham para o semáforo: o homem está iluminado a vermelho; voltam a olhar para o autocarro e para os carros parados; ninguém atravessa.
Há apenas uma figura que se move, vai a meio da passadeira. Todos os olhos se fixam nas pernas que transbordam dos sapatos e nos braços musculados como pernas fincados nas muletas; e acompanham-na pelas riscas brancas da passadeira, cada uma delas agora transformada numa meta.
E a senhora elegantemente não desvia o olhar. Pelo contrário, é tão difícil ter a oportunidade de olhar as pessoas olhos nos olhos porque nunca estão quietas. A senhora olha-me nos olhos e diz: “Leva-me uma semana a atravessar a rua”; e com um encolher de ombros acrescenta: “Têm que esperar.”
Esperamos. A senhora alcança finalmente o passeio e sorri-me. Talvez tenha sido só impressão minha, mas pareceu-me que o sorriso não era apenas de satisfação por ter conseguido completar mais um troço de viagem, mas de gozo. Poucas pessoas possuem um poder assim: fazer parar Londres.



George

2007-08-10T18:21:41.673+00:00

Foram as mãos que o denunciaram. Uma jovem que é velha, uma mulher que é homem, um conquistador que é tímido, um gentleman que é mendigo, uma companhia sã que é louca – são sempre as mãos que denunciam. Quando reparei nas suas mãos, apressei a conversa, menti uma desculpa com uma parte de horas e duas de afazeres, e despedi-me. Sem aperto de mão.
Quando penso em George não o vejo a avançar com ar de quem não sabe o que está ali a fazer para a única pessoa com o mesmo ar – eu. Não vejo a barba branca nem os olhos expectantes por trás dos óculos. Nem sequer me lembro do que conversámos sentados com tempo num palco vazio enquanto à nossa volta, no centro de imprensa, as pessoas que sabiam o que estavam ali a fazer faziam muitíssimas coisas sem tempo nenhum. A dada altura, George abriu o saco (notei que o saco era um saco de desporto e não uma mala de trabalho e estava bastante coçado) e tirou o material de promoção do seu partido – neste caso, justifica-se dizer o “seu partido” porque George era o partido e o partido era George -: papéis, t-shirt, até um cd. Foi aí que reparei nas mãos. E as mãos não condiziam com o resto.
Agora quando penso em George, ele está à janela, em Londres, mais precisamente em Hampstead (tive sempre a certeza que George era do bairro mais intelectual de Londres e acertei, fui pesquisar), com vista para o Heath.
Tem as mãos no parapeito. As tais mãos que o denunciaram – um político que é sonhador. Até que alguém vem fechar a janela porque chove. Talvez uma filha que lhe limpe as mãos que ele nem as notou molhadas. George olha pela janela. Só ele sabe o que vê. Só ele sabe como será o mundo, um dia – muito diferente deste, em que os políticos têm mãos de sonhadores e os sonhadores mãos de políticos.



O pica

2007-08-03T10:47:11.289+00:00

Leva uma bolsa de couro a tiracolo e um boné. Pela forma como vai sem se agarrar, percebe-se que tem pés de marinheiro e o corpo calejado de pára-arrancas. Fala com quem o quiser ouvir, mas ninguém o quer ouvir. Também quer ouvir os passageiros, mas os passageiros não querem falar. Eu ouvi.
Mesmo de rosto voltado para a janela, o homem sabia que eu o iria ouvir. Deixou o seu posto, de pé, à porta traseira do autocarro (não um de dois andares, mas uma destas novas lagartixas), e veio sentar-se a meu lado. E então falou-me sobre as janelas do autocarro, as portas do autocarro e muitos outros pormenores técnicos. Explicou-me com argumentos e contra-argumentos num monólogo aceso o defeito dos novos autocarros: a perfeição. Conhecia muito bem os antigos – as madeiras que rangem, os couros gastos, os barulhos caprichosos do motor, o tecto demasiado baixo, a porta ameaçadora, sempre aberta, sobretudo aos corajosos -: sim, os routemasters eram imperfeitos, mas cheios de personalidade. Ouvia-se, falava-se – não só entre passageiros mas com o próprio autocarro. O tradutor, ou talvez seja melhor dizer, o intermediário do diálogo, era o pica. Confessou-me que tinha saudade. Mas nunca disse que tinha trabalhado num. Não era preciso.
Quando me levantei, o homem veio atrás de mim, saiu mesmo do autocarro e acompanhou-me a uns respeitosos metros de distância pelo passeio da High Street. Não por maldade, mas por instinto, um impulso. Como um cão vadio que segue quem lhe dá comida. A minha esmola tinha sido um sorriso.
Possivelmente há muito tempo que ninguém o olhava nos olhos. Normalmente, os passageiros desviam os olhos do homem que ocupa os dias a andar de autocarro.



horizonte

2007-07-26T22:23:30.846+00:00

Em Londres nunca se vê o horizonte. Foi por isso que quando me deparei pela primeira vez com os homens de pedra, feitos (à sua imagem) por Antony Gormley, no topo dos edifícios, fiquei cheia de inveja.
Mais tarde voltei de propósito ao South Bank e a Waterloo, e andei de pescoço esticado a inspeccionar cada terraço, a examinar cada figura - mãos alinhadas com o corpo, a cabeça numa perpendicular perfeita, as costas a aplacar as nuvens -, a reconstituir cada olhar de pedra. Desta vez, fiquei com pena dos homens de pedra. Em Londres, não faz falta ver o horizonte.



O gato

2007-07-18T14:01:24.725+00:00

O gato é quase tão grande como a raposa. O gato e a raposa nunca visitam o jardim ao mesmo tempo.



Peter O'Toole

2007-07-11T11:08:02.059+00:00

Vi um homem extraordinariamente parecido ao Peter O'Toole. A mesma magreza, a mesma postura, o mesmo tom, as mesmas maçãs do rosto, os mesmos olhos azuis, mas cinzentos.
Saí atrás dele na plataforma, fui atrás dele nas escadas rolantes, segui-o por uma das seis saídas. Calçava sapatos de vela, vestia roupa que também seria adequada para um veleiro, e levava na mão uma mala de computador preta simples. Peter O'Toole podia vestir-se assim. Peter O'Toole até podia andar de metro.
Mas não era Peter O'Toole, e eu sabia. Por isso o segui: por não ser Peter O'Toole mas um homem normal. Perdi-o no topo das escadas, contra o céu.



Primeira bomba em Londres

2007-07-05T17:42:31.959+00:00

Uma pessoa nunca se perde sem razão, e eu andava perdida bem perto de casa. Até que dei com o Nevill Arms e uma placa azul - “primeira bomba em Londres”, li. E durante algum tempo, parada em frente ao pub fechado, esperei ver um zeppelin aparecer no céu.
Veio ameaçador – também belo até ser vergonhoso –, o próprio céu a mover-se.
92 anos, um mês e alguns dias depois, a imagem veio sem som. Tão perto da bomba que não se ouve rebentar.