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O Melhor Amigo





Last Build Date: Sun, 18 Feb 2018 04:45:32 PST

 




Sat, 17 Feb 2018 08:20:13 PST


(image)





Sat, 17 Feb 2018 08:20:49 PST


Que vergonha sem nome me traz
que corpo indo ao fundo, puxou com ele
a época, e o que me diz esta doce agonia
quando o riacho toca violino
além de que ninguém mais bebeu dele
eu bebo o meu gole, sei-me ferido
de uma morte natural, o chato é que
não aprendi nada, não sofro
tão belamente quanto os demais
é sórdido aqui, a cama assusta, desce-se
pelas escadas de um arrepio, aquilo deu
em escavação arqueológica e eu
múmia lá em baixo nuns trapos mijados
as eras zumbindo à cabeceira
um frasco de trevas mexendo
asas, livros, as voltas de um vento-fera
que eu acirrava com um pau
é um teatro o escuro, acelerado
o público há-de esconder o rosto morto
e que se ofenda à vontade agora,
de joelhos, benza-se, à minha mercê
ou se revolte puxe fogo, mas arda,
já aqueço o meu pote nessas chamas,
faço planos em cima disso,
das cinzas dele crescerão outras flores
o galo rodando a cena grita e consegue
o ouvido de cada pedra daqui
até à antiguidade (os clássicos todos
sentindo o fio puxado por um novo dia)
conto com forças lá de trás, instintos,
corpos inventando-se, tudo cozinhado
no lume de um gozo lento, fornicação
filho de um embate imundo nasço ainda
nessa noite em que eles se vestiam
um brilho suado com os passos
erguendo da terra a humidade
a luz ficando fraca, entre as ervas altas
ritmos caçavam, o sol guinou, eram as sete
ou oito, os passos soltos, a rua tão dispersa
que uma hora depois me achava reunido
a fome como minha única medida
e temperei-a com o sal e o nervo
dos grandes mares, escutando no porto
canções de barco que me levaram rumo ao Leste,
os campos de batalha esperavam
com marcações onde devíamos cair, sangrar
e nem sei em nome de quê, porque cobríamos
a terra dessa malha negra de últimos fôlegos
mal dei pela vida, e no momento final vi
um mosquito bêbedo trocar um olhar
com a eternidade, num pasmo
coberto pela seiva que me escorria pelo verso.




Se eu fosse...

Fri, 16 Feb 2018 06:12:07 PST

Crónica de António GuerreiroSe eu fosse paneleiro — na verdade, ninguém pode garantir que eu não seja, não tenha sido ou não venha a ser — e ocupasse um cargo político nunca aceitaria o protocolo da confissão, dizer o que se é àqueles que o não são. Não para manter o “segredo”, mas para não me submeter à regra da autentificação pelo discurso da verdade, tão aplaudido pelos que acham que a sua verdade é diariamente autentificada pelas evidências. Se eu fosse paneleiro — para usar uma forma especulativa que pode referir-se ou não a um estado de facto — também amaldiçoaria o dia em que, por palavras ou actos, me deixasse sujeitar pelo discurso odioso dos que descobriram que o seu alto teor de aceitação da homossexualidade é uma marca de distinção — de modernidade, de progressismo, de “estilo” — e um capital cultural para ser exibido publicamente, sobretudo quando lhes é oferecido o exemplo do homossexual bonzinho e ao serviço da homonormatividade, o amigo gay que todos temos. Se eu fosse paneleiro — e, dizendo isto, não estarei já a inscrever-me numa “homossexualidade molecular”? — o que eu não riria da homofilia editorial do Expresso, que anunciava a “confissão” do dirigente do CDS como uma notícia que não devia ser notícia mas que ainda tem de ser notícia. O que se pode ler nesta fórmula retorcida é que obter de alguém a afirmação “eu sou gay” merece sempre uma nota editorial, que é a notícia da notícia, ou a notícia que reflecte sobre si própria para dizer que aquilo só é notícia para alguns atrasados, ignorantes e preconceituosos que a vão tratar como tal, apesar de ela ser feita por quem acha que não devia ali haver notícia alguma. É notícia porque “o mundo é o que é, o país é o que é, a sociedade em que estamos inseridos é o que é”, reafirma um jornalista noutra página do mesmo jornal, também a propósito de Adolfo Mesquita Nunes. Se eu fosse paneleiro e pleno de perfídia — hoje, contraí um apego aos atributos que começam por “p” — diria gentilmente ao simpático autor desta proposição lógica que aquilo a que os franceses chamam “bêtise” (e que eu não vou traduzir por “estupidez” porque seria uma tradução pouco correcta e indelicada para o visado), pode ser exemplificado — dizem os tratados sobre tal matéria — pelo uso abusivo e hiperbólico do princípio da identidade, exibindo-o de maneira peremptória, como na frase “O mundo é o que é, o país é o que é”. E o que é um gay hoje, daqueles que fazem os jornais, as revistas e as televisões olharem para si próprios com orgulho por estarem tão à frente do país que “é o que é”? É uma marca, uma sexualidade branca ou um turista do sexo, conforme a um modelo unissexual. Se eu fosse paneleiro e político — malditos “pês”, que afluem como em hora de ponta, salvo seja — ficaria sempre calado para não ser transformado num estereótipo do homossexual de Estado, a não ser que aspirasse precisamente a essa condição. O que o Expresso revelava este fim de semana como uma verdade de primeira página é afinal uma mentira: Adolfo Mesquita Nunes não assumiu nada porque também não há nada a dissimular, não mostrou nada porque já não há nada a mostrar. O único objectivo que alcançou foi ter deixado que fizessem dele um cromo do ideal do Kitsch. Se eu fosse paneleiro — estribilho infame a que vou pôr fim — teria exultado com o que vi este fim-de-semana: o “orgulho gay” instalado em jeito de parada no Expresso, reivindicado no editorial, e gritado como palavra de ordem pela presidente do CDS. NOTA: No título, a palavra “paneleiro” é substituída por três pontos. Não por motivos de censura ou auto-censura, mas porque seria um foco de atracção dos clicks. Antes paneleiro que populista. [...]




Thu, 15 Feb 2018 15:07:15 PST


Se o que se quer é escrever correctamente poesia
não chega a sensação de se desfalecer no jardim
sob o peso concertado da alma ou seja o que for
e do célebre crepúsculo ou coisa que o valha.
O coração é pobre de vocabulário.
O seu labirinto: um jogo para atrasados mentais
em que dá vontade de rir vê-lo mover-se como um boi
um leitor integral de romances por catálogo.
Desde o momento em que chega ao rosto o violino
nem sequer a triste Valsa de Sibelius
permanece na sala que se enche de tango.

Salvo honrosas excepções as poetisas uruguaias
ainda confundem a poesia com um baile
num mórbido clube recreativo,
ou confundem-na com o sexo ou confundem-na com a morte.

Se o que se pretende é escrever correctamente poesia
seja de que jeito for há que levá-lo com calma.
Antes de tudo: sentar-se e amadurecer.
O ódio prematura à literatura
pode até dar jeito para não se passar no exército
por maricas, mas o mesmo Rimbaud
que mostrou odiá-la foi um rato de biblioteca,
e essa náusea gloriosa veio-lhe de a roer.

O xadrez é jogado
com as palavras até para uivar.
Equilíbrio instável da tinta e do sangue
que deves manter de um verso ao outro
sob pena de rasgares os papéis da alma.
Morte, loucura e sonho são outras tantas peças
de marfim e de corno ou seja o que for;
o importante é movê-las no jardim regrado
de forma a que o peão que baila com a rainha
não lhe perdoe o menor passo em falso.

Esses que insistem em chamar as coisas pelos seus nomes
como se fossem claras e simples
enchem-nas simplesmente ne novos ornamentos.
Não as expressam, giram em torno do dicionário,
tornam o idioma cada vez mais inútil,
chamam-nas pelos seus nomes e elas respondem pelos seus nomes
mas onde se despem para nós é em recantos escuros.
Discursos, orações, jogos de mesa,
todas estas coisitas em que as vamos gastando.

Se o que se quer é escrever correctamente poesia
não ficaria mal baixar um pouco o tom
sem adoptar em seu lugar um silêncio monolítico
nem se ficar por murmúrios.
É um peixe ou algo do género o que tentamos pescar,
algo vivo, rápido, que se confunde com a sombra
e não a sombra em si nem o Leviatã inteiro.
É algo que mereça ser recordado
por alguma razão semelhante a nada
mas que não é nada nem é o Leviatã inteiro,
nem exactamente um sapato nem uma dentadura postiça.

- Enrique Lihn



“Canícula” de Daniel Jonas, recensão crítica de João Oliveira Duarte

Thu, 15 Feb 2018 09:11:26 PST

[Publicado originalmente na Colóquio Letras, n.º 197]Falando sobre a “perda da auréola” por parte do poeta – que vive, doravante, numa época em que se verifica a “impossibilidade de legar o nome à posteridade”[i] –, Manuel de Freitas confere a este uma espécie de última vocação: perdendo a auréola, de forma significativa, enquanto saltitava, “o poeta (sem maiúscula) extrai riqueza e sentido da penúria, «associando-se» a um olhar deliberadamente «pobre»”[ii]. Em causa, neste olhar, está também, mas não só, uma cesura entre o poeta e o seu tempo, como se, depois de Baudelaire, o lugar do poeta fosse infinitamente problemático e ele se encontrasse obrigado a dar conta desse mal-estar, mesmo quando o denega. Há uma grande diferença entre este “olhar deliberadamente pobre” e a exuberância que a poesia de Daniel Jonas tanta vez demonstra, ao ponto de, numa entrevista recente, esboçar uma crítica a um gesto “neo-neo-realista” que traz para o poema o «táxi», o «cigarro», o «bar»[iii]. O que torna tanto mais interessante, exactamente por causa dessa crítica, que este recente livro de Daniel Jonas retome uma tradição da qual parecia afastado ou à qual seria, em última análise, estranho: a tradição poética que toma a cidade enquanto objecto – e que faça chegar alguma coisa a um campo de investigação que parecia esgotado.São vários os lugares, na sua obra anterior, onde figuras míticas ou bíblicas são convocadas. A título de exemplo, podemos referir a forte presença da herança clássica, tanto grega quanto romana, em Sonótono– mas também John Milton, traduzido por Daniel Jonas, é aí explicitamente convocado –, a presença, de caracter “confessional”, da história bíblica de Jonas em Nó (“Do ventre da baleia ergui meu grito:/ Senhor! (dizer teu nome é bom),/ Em fé, em fé o digo, mesmo com / um coração pesado e contrito/ que és tudo verdade e não mito (…)”[iv] ou mesmo a convocação, também em Nó, da figura de Jó. Apesar de a história bíblica de Jonas também surgir em Canícula, de forma não explícita (“A casa é o ventre do grande cetáceo/ e eu o insignificante arpoador/ acupunctor de imenso/ lombo nórdico, mínima paisagem/ na acumulação dos mares” (13), as figuras com maior predominância em são, por um lado, Sísifo, cuja tradição literária, mas não só, é convocada e, por outro, a história bíblica de Isaac e Abraão, em que este último oferece o filho a Deus em holocausto como prova de fé (num sacrifício que nunca o chegou a ser). De forma implícita (“eu suo a Bica…/ vou joeirando a água da fronte/ com o pano supino de dedos” (19) ou expressamente convocado (“Sísifo subindo S. Paulo/ chorando o vinagre da agonia” (24), Sísifo comparece no mais longo poema e aquele que, de certa forma, marca o tom de Canícula.“É então quando ascendo ao topo do turistavindo do sopé de mim e da tardeque me alcandoro por momentos na realização de Sísifochorando sobre o seu Evereste de postal” (44)É interessante sublinhar o uso do gerúndio, espalhado um pouco por todo o poema – “Vou subindo vagaroso/ vou escalando a custo rumo a todo o lado” (44), logo no início, repetindo pouco depois, “Vou subindo vagaroso./ Vou subindo a contragolpe do sol” (45) e, por fim, conferindo-lhe uma ligeira modificação “vou subindo por mim mesmo/ cantarolando de mim mesmo” (47). Este uso do gerúndio acaba por ser uma decorrência do próprio trabalho interminável de Sísifo, que, também ele, não vê fim para o seu martírio. Mas aquilo que poderia servir na poesia de Daniel Jonas como um elemento heróico, em que o poeta, “solitário, taciturno, mastigante” (45) encontraria um lugar “onde preencher a bazófia lírica que te reclamas/ à janela de ti mesmo” (41), acaba por se transformar num gesto irónico – a lembrar certos elementos presentes em Baudelaire, em particular ess[...]



Phantom Thread (2017)

Wed, 14 Feb 2018 11:11:33 PST



10/10





Wed, 14 Feb 2018 05:47:04 PST





Fri, 16 Feb 2018 16:51:51 PST


É feio o céu daqui e uma outra terra
descolou já desta, levou a rosa
de que o vento colheu a forma
e foi pelo deserto comendo gafanhotos
Eis que damos uns pelos outros
rindo desses rapazes adoidados que
por um fio de guita parecem seguir
algum continente perdido, o meu
é um Noé dos fundos, dos bichos
de escritório e seres de conta perdida
que outros matam sem remorso mas ele
cuida, povoando o seu infantário

Em algum momento suspeitamos
que isto virou, as leituras proibidíssimas
de outrora, quando a casa inteira sucumbia
dão-se a ler hoje desdenhosas
e os gatos que antes vinham
só nos deitam miradas trocistas
não há como nem assunto e parece
que por nada deste mundo voltaremos
a discutir em voz alta nos cafés

A carne também foi muito cedo
logo se fartou de nós
das nossas tristes paixões tão breves
e agora só picadas de abelha
algum corte fresco a incham
nos recordam o gosto, a cama e o pão
entre os quais partimos o mundo
Estão quase ilegíveis
os velhos apontamentos sujos de vida
como as medidas tomadas
nalgum quarto mais fundo, com uma lanterna
arrancando as pétalas da noite

mas abro um lenço antigo teu
espalho as migalhas da lua
e as sombras do meu trabalho devoram-nas
quase imploro abençoa-me luz enraivecida
possa um verso com o escândalo inteiro
da tua despedida, lembrar-me a cintura
que me fez passar noites a meio das escadas
emagrecido alto com alfinetes entre os lábios
e em baixo o silêncio como um coro
até que o anjo de um desesperado instante
viesse buscar-me

ouço os meus passos, descansam-me
há uma rua lentíssima nesta história
onde todos já me conhecem
onde se é feroz ficando ali imóvel
amachucado pelo vento e
como no verso de Emundo de Ory
gemendo em cima da rosa




A arte sacra de Mumtazz (António Barahona)

Wed, 14 Feb 2018 05:22:02 PST



(abre as imagens noutro separador para as ampliares)




Entrevista a Álvaro Domingues

Mon, 12 Feb 2018 05:03:53 PST



(abre as imagens noutro separador para as ampliares)






Mon, 12 Feb 2018 10:17:17 PST


A raiz desta ausência toda, a fonte, por assim dizer, de tudo quanto falta, às vezes é mais fácil explicar com a humilhação de todo aquele que chegou aí e aguarda, vê a esperança que trazia ser sovada até ficar por um fio, o que tem envenenado a época, deram com Ele, uns séculos já passados sobre a certidão do óbito, o corpo largado de borco, numa região pantanosa, tomado de silvas, insectos gordíssimos, grandões, picando e brilhando, lá estava o fabuloso cadáver já avançado no estado de decomposição, mas produzindo ainda um certo tremor na paisagem, como se ela mesma tivesse dificuldade em engolir. E foi um miúdo, seis anos, com uma ligação fraca mas teimosa à net quem, desde o Paquistão, varando terrenos através do Google Maps, foi dar com aquela sinuosa saliência, e o baile selvagem armado ao seu redor. Fino como só eles, o puto tomou as precauções, e reclamou o tesouro, tirou as coordenadas precisas, rapou o cabelo, montou uma campanha, com boné dos Phillies, e fez-se passar por um puto americano, montou uma campanha, pedindo donativos, era um rim, uma leucemia, sei lá, editou um vídeo com gente chorando, montagem dos atentados, coisa e tal, pôs até uma música discreta, estendendo a mão, e sacou o suficiente para comprar o tal terreno, junto à problemática fronteira com a Índia, só confiou aos pais o achado quando tinha a coisa já bem encaminhada, e foi então garantir-se de que não havia sido tudo uma miragem internáutica. Quando o mundo soube, como era demasiado o afã de todos, um braço-de-ferro entre aranhas começou, e foi preciso vencer as injunções, providências, já tinha doze anos quando se saiu do outro lado da montanha jurídica que lhe meteram no caminho, nisto sempre enxotando as milionárias propostas das farmacêuticas, doidas por espiolharem os restos (afinal) mortais do Grandioso, e houve também, pelo meio, as associações de menores querendo tirá-lo dos pais, os membros mais velhos da comunidade querendo dar conselhos, e a ganância da família, que entretanto se tinha estendido pelo menos para o dobro. Em volta da propriedade havia uma sucessão de fitas, como na cena de um crime, e os terrenos em volta tinham sido hiperloteados, vendidos por fortunas, condomínios de gente revezando para deitar uma vista da janela, os satélites chocando lá em cima, o governo paquistanês, proibiu os drones num raio de quilómetros, enquanto isto a comunidade científica, os diversos ramos académicos trepavam uns pelos outros numa histeria insuportável, eram as questões éticas, os desafios morais da descoberta, as implicações para o mundo religioso, em polvorosa, os receios quanto a instauração de uma segunda e lutuosa Jerusalém, as intifadas ao puto, seitas nascidas em torno de ameaças de morte, o anti-Cristo, anti-aquela-coisada-toda, e o miúdo, Misbah (perdoem, tinha-me esquecido de dizer o nome), não dava entrevistas, embora, de quando em vez, ainda respondesse a alguns emails. O que todos queriam saber era o que faria quando finalmente pudesse reclamar o prémio. Ninguém nunca parecia satisfeito com a resposta, a insistência dele em que não tinha grandes planos, que tudo partia do desejo de chegar mais perto, mas que, além disso, queria dar-Lhe um enterro digno, e, por cima, só imaginava um jardim no qual, com todo aquele brilho, desse para ler de noite.




Poemas de Joyce Mansour

Thu, 15 Feb 2018 15:31:45 PST

Sonho com as tuas mãos silenciosasQue vogam sobre as ondasRugas caprichosasE que reinam sobre meu corpo sem procurar ser justasEstremeço e acabo por murcharPensando nas lagostasDe antenas ambulantes e ávidasQue raspam o sémen dos barcos adormecidosPara estendê-lo tão-logo sobre as cristas do horizonteAs cristas espreguiçando polvilhadas de peixesNas quais eu me vou saciando todas as noitesA boca cheia as mãos cobertasSonâmbula de mar salgada de lua----As cegas maquinações das tuas mãosSobre os meus seios estremecidosOs movimentos lentos da tua língua paralisadaNas minhas orelhas patéticasA minha beleza íntegra afogada nos teus olhos sem pupilasA morte no teu ventre devorando-me o sexoTudo faz de mim uma estranha donzela----Chove na carapaça azul da cidade.Chove e o mar lamenta-se.Os mortos choram incessantemente sem razão e sem lenço.Contra um céu viajante recortam-se as árvoresexibindo os seus membros tesos aos anjos e aos pássarosporque chove e o vento se calou.Gotas loucas limpas da sujidadecaçam gatos pelas ruase o cheiro peganhento do teu nome expande-sepelas veredas e o asfalto.Chove meu amor sobre o campo devastadoonde os nossos corpos tombados germinaramalegremente todo o verão.Chove ó minha mãezinha e nem tu podes coisa nenhumaporque o inverno caminha solitário sobre a extensão das praiase Deus esqueceu-se de fechar a cancela.----Um velho e a sua velha ocultos debaixo da terramão apodrecida com mão putrefacta, confortáveis na sujeirafalam-se sem lábios e entendem-se sem palavrasouvem o canto lento e grave da terra nutridae em seus corações perguntam-sese algum irão morrer.----Roubei o pássaro amareloque habitava no sexo do diabo.Ele há-de ensinar-me a seduzirhomens, cervos, anjos de asas aos pares.Ele levará a minha sede, a minha roupa, as minhas ilusõesEle irá dormirmas o meu sono irá pelos telhadossussurrando, gesticulando, fazendo amor violentamentecom os gatos.----Moscas sobre a camano tecto na tua boca nos teus olhosencostado a elas com o lençol até ao pescoçoo homem impotente astuto ignoranteDeixa-me a peleDeixa-me o ventre intacto.----Quero dormir contigo, a teu ladonosso cabelo entrelaçadonossos sexos unidoscom a tua boca na almofadaquero dormir contigo, de costas coladassem respiração que nos separesem palavras que nos distraiamsem olhos que nos mintamsem roupa.Dormir peito contra peitotensa e suandobrilhando de mil tremoresconsumida pela louca e estática inérciaestendida na tua sombramartelada pela tua línguaaté morrer no dente apodrecido de um coelhofeliz----O SOL EM CAPRICÓRNIOTrês dias de descansoE porque não o túmuloAfogo-me sem a tua bocaEsperando o amanhecer recém-nascido derramar-seE as longas horas detidas na escadariaCom o cheiro a gásComo uma máscara para o rosto aguardo a manhãVejo a tua pele brilharNa fenda negra da noiteO lento aparecimento da luaNo mar interior do meu sexoO pó sobre o póO martelo sobre o colchãoO sol sobre um tambor de chumboMesmo sorrindo a tua mão golpeia indiferenteVestida de crueldade inclina-se para o vazioDizes não e o objecto mais pequeno o corpo de uma mulher pode abrigar-seDobrar-seBeleza artificialPerfume sintético no sofá por uma horaPor que girafas pálidasDeixei eu BizâncioA solidão fedeUma opala é um quadro ovalOutro ataque de insónia com rigidez articularUma vez mais uma adaga vibra na chuvaDiamantes e delírio são os desideratos do amanhãSuor das praias de tafetá sem abrigoLoucura da minha fé perdida.----Vivemos colados ao tectoSufocados pelos vapores rançosos que se desprende da vida quotidianaVivemos incrustados nas mais baixas profundidades da noiteNossas peles ressequidas pelo fumo das paixõesGiramos em torno do pólo lúcido da insóniaSustidos pela angústia separados pelo êxtaseV[...]



Ocupar espaço

Tue, 06 Feb 2018 07:56:49 PST


* O que eu chamo de “ocupar espaço” está, de certa maneira, naquele “Teorema” de Pasolini. Também não seria aquilo, se a gente quiser assim, uma transa de vampiro, um filme de terror? Melhor: uma história de terror? 
* Ocupar espaço, num limite de “tradução”, quer dizer tomar o lugar. Não tem nada a ver com subterrânea (num sentido literal), e está mesmo pela superfície, de noite e com muito veneno. Com sol e com chuva. Dentro de casa, na rua. 
* Ocupar espaço, criar situações. Ocupa-se um espaço vago como também se ocupa um lugar ocupado: everywhere. E aguentar as pontas, segurar, manter. Ou, como em “Teorema”, aplicar e sair do filme. Tiro um sarro: vampiro. O nome do inimigo é medo. Meu nome ninguém conhece. Moro do lado de dentro e nasci na Chapada do Corisco – carrego isso. Plano geral na parede: numa encruzilhada vista do alto as pessoas se movem e correm atrás de algo. Não sei se é uma pelada, não sei se é outra coisa. Corta e lemos a palavra: DESÇA. Fim do cinema, início do cinema. O espaço desocupado, ocupação do espaço. Filmes. 
* Sem começo e sem fim, mas mesmo assim: pelas brechas, pelas rachas. 
* Ocupar espaço: espantar a caretice: tomar o lugar: manter o arco: os pés no chão: um dia depois do outro. 
  
- Torquato Neto
(Terça-feira, 30 de novembro de 1971)






Serve de resposta a este como a outros desses justiceiros do 'estou-me-cagandismo'

Mon, 05 Feb 2018 13:09:47 PST


Este tem a vantagem de ser um chato convicto. Acha-se um caçador de mitos da crítica literária portuguesa, e, realmente, até levanta algumas questões. Só é pena não passarem de bagatelas, questões de pronúncia. Como vive na realidade do um, como não faz puto de ideia nem lhe interessa o que sucede para lá da sua redoma, nada lhe faz comichão. No fundo, tanto se lhe dá. Ao contrário de ti, creio que ele está perfeitamente contente com a sua situação. O propósito dele é mostrar o vício de alguns raciocínios costumeiros, e nisso terá sempre alguma razão. É verdade que muitas vezes cedemos a um azedume um tanto genérico ao confrontarmo-nos dia sim dia sim com o desinteresse geral pelas obras e autores que nos encantam. É um pouco como estar apaixonado pela noiva-cadáver. É difícil levá-la para o salão onde triunfam as coquetes banhadas nas emulsões de cada estação. Mas prefiro estar deste lado, ser um pouco histérico e absurdo no meu romantismo, até ridículo, a ser uma betoneira literata como este tipo. Sendo tão chato lê-lo, seria igualmente chato tentar responder-lhe. Porque é difícil sentirmo-nos compelidos por um argumento tão sensato, tão "baixem os braços que me estão a atrapalhar a visão periférica". No fundo, temos aqui a avózinha que nos vem dizer que se não temos cuidadinho eventualmente iremos partir uma perna nos saltos que damos de uns telhados para os outros. Mas antes andar com os membros ao ombro, de muletas, o raio, antes isso do que viver de espinha imobilizada, numa cadeira de rodas preventiva. Como árvore de rotunda, dessas que nascem atadas a um pau que lhes dita a direcção. Este tipo é um velhinho com a sua cartilha do bom senso. Agora: é falso o que diz? Não. Tem alguma relevância no que toca a acompanhar os abalos e debilidades próprias de uma época? Também não. É uma espécie de grilo imortal. Há-de ter sempre alguma razão. Mas é aquela razão que não adianta, aquela que nos convida a calarmo-nos e a pensar que, no fim, está tudo bem. Somando e subtraindo, no fim, dá sempre zero, neste tempo ou noutro qualquer. Não há motivos para andarmos para aqui angustiados seja com o que for. Se vires bem, o que subjaz à argumentação dele é qualquer coisa nesta linha: Não sois eternos, portanto, alegrem-se em ser passageiros... ou matem-se. Mas nunca, por nada, deixem que vos aflija a dor de sentirem que o mundo está de costas voltadas para vós, e, pior, que com o passar dos anos ainda mais se distancia.





Sat, 03 Feb 2018 09:50:10 PST







Sat, 03 Feb 2018 09:45:24 PST


Manhã cedo, larga os sonhos
de barba a pingar já chaleira ao lume,
sai mostrando ao sol algumas passagens
anteriores às primeiras línguas e
isolado dos deuses, na sua oficina,
vai povoando o mundo

Abriu um buraco ali, servindo
de poleiro ao vento, que logo vem
encher-lhe de som as formas,
os moldes, e cose-lhe à mão
vestidos justos, usados uma só noite
e arrancados entre amantes
O espaço de trabalho divide-o ainda
com as eternas noivas, aranhas
tecendo os seus enxovais de seda

Espia a composição do dia
igual numas coisas a tantos, noutras
tão enfático, como o vizinho miúdo
que entra saltando da garupa de um grito
cego da sua épica, aos pêros com a linguagem
incapaz de pôr ordem numa história simples
acaba apanhando pelas costas
uma frase absurda e viva como um relâmpago
caído num campo de trigo seco

Coze um ovo, vai às árvores
e às hortas vizinhas e passeia entre esses
inconscientes monumentos, as obras
públicas de seres gulosos, os melros
por exemplo, que se empanturram de figos,
e deixam às paredes escalavradas
do cemitério ou de alguma igreja abandonada
os excrementos crivados de sementes.
O sol e a chuva, depois, tratam do resto
Um dia passamos, e, à altura do peito,
cresce no muro uma figueira.

Eu que também as vi, só dei conta
do fenómeno quando Piqueras
o tornou claro, comparando-o
com os poemas de Tonino Guerra
Não basta, é evidente, vivê-la,
ainda é preciso a faca que a abra
de novo, a luz do que regressa,
esse grau desmesurado das coisas
tomadas pela música da memória
Escutar as voltas do sangue tendo,
em fundo, o assobio em que se revezam
os dois coveiros sempre bêbedos –
e não há anjos mais cães nem volta
mais resvaladiça, que torne tão chegados
o céu e o inferno.

Assim, entretenho uma longa fome;
estudo as horas que posso,
segundo as preferências de cada uma,
e volto aos livros empapados
de chuva e salvos do convento,
ando com o nariz entre as ciências
que os modernos ignoram,
contemplando a rosa fria, lábio desfeito,
corpo quase só espinho,
despindo-se no escuro, com uma dor
tão grande nos gestos que trocou
a beleza por um génio perfumista

Ciências realmente vitais
como ir até ao limite do olhar
à beirinha de cair noutros olhos,
a doce intromissão à luz
de nos sabermos expostos,
sermos alguém, ou não restar nada,
não haver buraco tão fundo nem
morte que chegue ao desejo imenso
de desaparecer





Os elementos da noite

Thu, 01 Feb 2018 14:50:19 PST


Sob o mínimo império que a noite roeu
desfazem-se os dias.
No último vale
a destruição sacia-se
em cidades vencidas que a cinza enfrenta.
A chuva extingue
o bosque iluminado pelo relâmpago.
As palavras quebram-se contra o ar.
Nada é restituído nem devolve
o viço à terra calcinada.
Nem a água no seu desterro há-de suceder à fonte
nem os ossos da águia voltarão a abrir asas.

- José Emilio Pacheco



Epic Prologue

Thu, 01 Feb 2018 10:59:00 PST


Here I am once more
sitting in front of the poetry audience
that is sitting benevolently in front of me
looks at me and is waiting for poetry
as always I have nothing to tell it
as always the poetry audience knows this very well
it certainly doesn’t expect an epic poem from me
seeing that it’s done nothing to inspire one in me
the ancient poet indeed as everyone knows
was not the one responsible for his poetry
it was his audience that was really responsible
since it had a direct relationship
with its poet
who depended on his audience
for his inspiration
and for his remuneration
his poetry developed therefore
according to the intentions of his audience
the poet was no more than the individual interpreter
of a collective voice that used to narrate and judge
this is certainly not our situation
this isn’t why you’re here today in this room
the person you’re listening to is unfortunately not
your epic poet.

- Nanni Balestrini


Media Files:
http://www.francobuffoni.it/files/pdf/anthology.pdf




Esboço

Thu, 01 Feb 2018 10:12:42 PST


Sentados nas esplanadas da margem ouvíamos
o grito das civilizações. Havia semanas de silêncio
nas cidades litorais. Eu beberia entretanto cerveja
após cerveja e lia the Sun also rises. Que
mais escrevera este homem no seu solar
em Davim? Ninguém gostou de um poema
que escrevi sobre o suave génio das gerações. E então
decidi partir para Bruxelas.

De todos os destinos o de Alice Toklas fora
o mais doloroso. Ela escrevera pacientemente
a biografia de todos os monges loucos e
por fim, enlouquecida pelos seus feitos, destruíra
os manuscritos enquanto dizia poemas de chaucer.

O seu olhar cintilava roxas estações, negros
campos de peste, livros e livros lidos pelas
insónias adiante.

E nós permanecemos sentados durante anos e
e anos nas esplanadas vazias, escrevendo loucamente
a incapacidade do tempo, a fúria dos dias e
das noites, a incansável desolação de cada palavra.

Repetimos o amor no interior das casas.
Recebemos um fulgor fácil das horas marítimas,
poemas vieram facilmente escritos aqui e ali.

Também da vida dissemos a alucinação exacta, os
motivos febris da inspiração, o ópio, o espaço
das flores de álcool, o olhar coincidindo
com a humilhação, os lábios distorcendo a mágoa
e a pouco e pouco já apenas o medo, o puro
medo de de repente em nós a voz se deteriorar.

- Rui Diniz 
in Ossuário (ou: a vida de James Whistler), & etc



Amor

Thu, 01 Feb 2018 08:44:14 PST


Desce do céu a endiabrada ponta
com que feres e enganas a carne mortal.
Untada vem de divinas manhas
e céu e terra seu veneno junta.

O sangue de homem que na ferida aponta
floresce nas selvas: suas crescidas canas
de sombras de ouro, afiam as estranhas
do céu escuro, e a sua ascensão pergunta.

Na sua vã espera pela resposta
as canas dobram a íngreme testa.
O céu flameja com sua gaze azul.

Ventos negros, atrás das janelas
das estrelas, movem grandes asas
de mundos mortos, pelos seus arrabaldes.

- Alfonsina Storni



...

Wed, 31 Jan 2018 09:43:59 PST


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Escavar

Wed, 31 Jan 2018 08:28:21 PST


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"O Bibliófago e mais historietas breves", de Abel Neves, Edições Adab

Wed, 31 Jan 2018 05:36:34 PST




(abre as imagens noutro separador para as ampliares)





Nicanor Parra, por Miguel Filipe Mochila

Wed, 31 Jan 2018 05:36:44 PST



(abre as imagens noutro separador para as ampliares)