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tyler bazz.





Updated: 2017-11-13T11:27:46.767-02:00

 



A remontada

2017-11-13T11:25:27.774-02:00

                “Lá vai o esquisitão da letras!”, Fábio sabia que era com ele quando ouviu o grito ao passar pela área aberta de um dos prédios do campus. Continuou em frente, sem olhar ou diminuir o passo, deixando para trás as risadas masculinas de seis ou oito pessoas. Já estava acostumado. Fazia parte de sua rotina. Logo ali, onde pensou que as coisas seriam diferentes.                Nos primeiros dias de curso, em uma festa de recepção – chamar de boas-vindas seria exagero – Fábio tomou uma atitude que se mostraria equivocada, ainda que não tivesse feito nada de errado. Com a timidez diluída em álcool, encontrou coragem para falar com uma das garotas que antes estava do lado de lá do bar. Fernanda sorriu, foi simpática e em nenhum momento demonstrou incômodo. Seu namorado, porém, reagiu de outra forma. Meio bêbado, Fábio foi surpreendido pelo empurrão que o derrubou, acompanhado por uma tempestade de xingamentos. Do chão, viu um borrão enorme ser contido por alguns amigos e a namorada, e logo depois foi tirado dali por duas garotas que reconheceu de sua sala e que tinham visto a coisa toda.                O agressor era Rafael – alto, forte, grande, estudante do terceiro ano de física e o mais conhecido membro da Atlética no campus. A partir daquela festa, decidiu tornar um inferno a vida de Fábio na faculdade. O apelido favorito, “esquisito da letras”, surgiu na mesma semana entre os amigos de Rafael e as moscas que costumavam rodeá-los. Geralmente era ele, às vezes outro, que gritava “E vai o esquisito da Letras!” cada vez que viam Fábio.                Entre outros nomes, era chamado de esquisito, mongol, espantalho, idiota e veadinho quase todos os dias. Por ter se sentido atraído por uma garota. Se passasse algum tempo no mesmo ambiente que os outros, sabia que ouviria comentários, ofensas e pseudo-ofensas até que fosse embora. E era frequente Fábio ter um livro arrancado de suas mãos com um encontrão disfarçado de acidente ou mesmo tapas diretos e propositais.                Fernanda tentava controlar Rafael quando as coisas lhe pareciam começar a sair do controle, e um ou outro de seus amigos deixava transparecer certo constrangimento sempre que os ataques começavam. Nunca o bastante, porém, para levar alguém a agir, ou deixar de agir. A perspectiva de sair das graças de Rafael e ocupar o lugar de Fábio não agradava a ninguém.                Nada daquilo era novidade para Fábio. Aos sete anos, era tão magro que as crianças maiores pareciam incapazes de deixá-lo em paz. Aos onze, sem saber que não podia, ousou gostar de coisas (artistas, novelas) que as meninas gostavam e logo virou o “bicha” da escola. Aos dezesseis, lia todos os livros das aulas de literatura e tentava escrever poesias, um alvo fácil para os mais alunos populares. Entre muitos outros casos. Nas quatro turmas diferentes de que fez parte entre a infância e a adolescência, resultado de mudanças de cidade e escolas, Fábio sempre foi humilhado, perseguido e ameaçado em maior ou menor medida. Quando passou no vestibular, sonhou com anos mais tranquilos, mais livres. Conheceria gente nova, sem dúvida mais madura, com outras preocupações. Não durou uma semana.                “Por que você nunca faz nada?”, as amigas e amigos de Fábio, além de outras pessoas que conheciam a situação, perguntavam, principalmente Lorena e Daniela, as mesmas que o tinham ajudado no início do ano. “Ele não pode tratar as pessoas desse jeito sem motivo nenhum!” [...]



Terminal

2017-11-13T11:25:27.777-02:00

                Acordou e encontrou o espaço a seu lado na cama vazio. Ela já tinha se levantado, feito café, escolhido um dos livros novos sobre a cômoda e puxado uma cadeira da sala para o quarto. Tinham passado algumas noites juntos nas três semanas em que se conheciam, mas ela nunca tinha saído da cama sem ele, explorado o apartamento, feito café. Era sábado e ela se sentiu à vontade em sua casa. Aquilo não o incomodou.                Ela levou uma xícara de café para ele. Colocou-a sobre o criado-mudo e pegou um dos livros da pequena pilha que havia ali.                “Eu adorei esse livro. Você gostou?”                “Eu parei antes da metade. Não curti.”                Foi numa livraria que se conheceram. Conversaram entre cafés e estenderam aquele fim de tarde o máximo que puderam. Quando ele foi embora, depois de marcarem uma saída juntos na noite seguinte, ela comprou uma cópia do livro que ele estava levando. Parecia ser bom – e era! Ela leu em três dias e se apaixonou.                “Acho que você devia dar outra chance pra ele.”                “Eu também acho. Daqui uns dias, talvez.”                Não era muito de dar segundas chances para livros dos quais desistia, principalmente tão cedo, mas não teve dificuldades para se convencer. Beijou-a na perna, terminou a xícara e foi até a cozinha buscar mais.                Na sala, o telefone tocou. Voltou para o quarto minutos depois.                “Aconteceu alguma coisa?”, ela perguntou ao ver seu rosto um pouco assustado, quase em choque, e triste.                “O seu Antônio morreu.”                “Quem?”                “O seu Antônio da estação. Acho que não te contei a história.”                “Não.”                Ele começou a contar a história, mais ou menos assim:                “Eu cresci numa cidade de quarenta, cinquenta mil habitantes. Saí de lá pra fazer faculdade aqui. Quando eu tinha uns dez anos, inventaram de construir uma nova estação de trem. Seria mais moderna, mais segura, boa para a cidade. Disseram que ia aumentar o turismo. Pra ver o quê, eu até hoje não sei.                “A construção foi bem rápida, que eu me lembre. Fizeram a estação em um bairro novo da cidade, que foi crescendo junto com a obra. Abriram lojas, lanchonetes, alguns mercados, um hotelzinho, e muita gente resolveu morar por lá. Um pouco mais de dois anos depois do anúncio da obra, a nova estação tinha data de entrega e inauguração marcada. E quando esse dia chegou, o seu Antônio arrumou uma mala pequena e foi pra lá. Queria viajar no primeiro trem da estação nova.                “Só faltava um detalhe. Os[...]



Processo de composição

2017-11-13T11:25:27.828-02:00

                Mateus conferiu mais uma vez a afinação da guitarra e olhou a seu redor, gesto que repetia com frequência quase obsessivo-compulsiva na última hora. A cada poucos minutos, às vezes segundos, corria os olhos pelo ambiente, reparando a presença de pessoas esperadas e inesperadas, e principalmente a ausência das que ainda não tinham chegado, algumas das quais não chegariam. Suas mãos transpiravam e seu corpo parecia vacilar, reações que já conhecia. Esses efeitos da ansiedade desapareciam assim que respirava fundo antes da primeira música.                Abriu uma segunda cerveja, embora preferisse evitar beber antes de subir ao palco. Gostava da experiência mais pura, dizia, de poder ler o público sem filtros. Sentia-se mais nervoso do que achava normal. Sempre se sentia mais nervoso do que achava normal. Verificou a configuração dos pedais. Cada rosto familiar que encontrava – alguns amigos, cerca de três dezenas de conhecidos e até duas ex-namoradas – aumentava sua ansiedade.                Conferiu mais uma vez a afinação da guitarra, a configuração dos pedais, a conexão dos cabos. Mexeu nos cabelos, respirou fundo e o nervosismo desapareceu. Era hora. Os outros dois terços da banda juntaram-se a ele. Começaram.                As luzes do palco nunca lhe agradaram, e nunca esteve à vontade com toda a atenção de uma apresentação ao vivo. Nesta noite, porém, tocou com a cabeça ainda mais baixa do que de costume, dois passos mais próximo da bateria, como se a qualquer momento fosse saltar e se esconder atrás dela. Os olhares o perseguiam, tinha certeza, e apesar de ver que cabeças e corpos se deixavam levar pela música, estava convencido de que todos na plateia tinham incontáveis motivos para não gostar dele – inclusive o punhado de amigos, os quase cinquenta conhecidos e as agora três ex-namoradas.                Tentou se lembrar de quando havia escrito as melodias que agora tocava. Não fazia tanto, mas elas lhe soavam como outro idioma, incapazes de dizer algo a qualquer uma daquelas pessoas que as ouviam. Era como se ele saísse do palco e passasse a falar esloveno em um bar no centro de São Paulo. Sentiu o distanciamento, seu peso, e sentiu falta de falar a mesma língua de quem o rodeava. Quando terminaram, esforçou um sorriso, acenou e demorou o quanto pôde para guardar seu equipamento, a ponto de irritar o artista que tocaria em seguida. Saiu escondido pelos fundos, escapando de qualquer olhar de aprovação, abraço ou elogio que não saberia dizer se era ou não sincero.                Comprou um maço de cigarros e duas garrafas de vinho. Foi direto para casa. Tinha tanto a dizer àquelas pessoas, tanto às presentes quanto às ausentes. Precisava agradecer, cobrar, tirar pesos das costas, questionar e muito mais. Queria voltar a falar com cada uma delas, individualmente ou não, em sua própria língua. Sentou-se no colchão em que dormia na sala, caderno e lápis em mãos, conferiu a afinação do violão. Estava decidido e entusiasmado como há tempos não ficava. Escreveria um disco de cartas para as pessoas de sua vida, conseguiria de fato falar com cada uma delas. Um gênero diferente do seu, cara nova, tudo, e algo que todas elas entenderiam.                Fumava na janela, alternando a vista entre o céu nublado e os prédios de janelas estreladas que formavam o horizonte. O vinho descia macio, deixando as canções mais claras, simples e prontas em sua cabeça. Ouviu[...]



Cinco histórias de seis palavras (sobre os sentidos)

2017-03-02T20:30:04.447-03:00


Audição: a Filarmônica não lhe emocionava.

     * * *

Olfato: nariz em pé, perfume falsificado.

     * * *

Paladar: sem sal, mesmo assim, cardíaco.

     * * *

Tato: pretenso Midas, Medusa do toque.

     * * *

Visão: míope, daltônico e ainda conservador.



Tyler Bazz



A última parada

2017-11-13T11:25:27.804-02:00

As batidas na porta de casa aumentavam em frequência e intensidade, como os raios e trovões distantes que eu observava pela janela. Em cidades muito grandes – e poucas são maiores que a minha –, sempre fico imaginando onde é a chuva quando começo a ver relâmpagos. Em um bairro pode cair o mundo, enquanto em outro está nublado e num terceiro pode até fazer sol.Três dias antes, eu estava em uma cidade tão pequena que qualquer chuva banharia seus quatro cantos ao mesmo tempo. Cheguei à hospedaria, que se anunciava como hotel e deve ser o menor que já vi, um sobrado com três suítes no andar de cima, a sala no andar de baixo funcionando como recepção e a cozinha indisponível para hóspedes. Ocupei o maior dos dois quartos com vista para a rua, não havia outro cliente. O cômodo tinha um banheiro simples e limpo, um armário pequeno – que abri com cuidado redobrado ao guardar a mochila – uma cama de casal e uma escrivaninha com cadeira em estilo antigo, onde passei um par de horas concentrado, traçando possíveis planos a lápis em papel de rascunho. Era isso que tinha feito durante boa parte do meu tempo acordado nesses últimos dias. Eu precisava me distrair.Rasguei os papéis de rascunho, queimei com um isqueiro e joguei as cinzas pela descarga. O dia ainda estava claro, embora o relógio já indicasse noite, e saí em busca de uma cerveja. Andei até uma ponta da cidade e não achei nenhum tipo de comércio aberto, bar, nada, e com a perspectiva de não encontrar uma cerveja que fosse, comecei a ser tomado por uma preocupação que poderia ser vista como desproporcional, considerando minha situação.A preocupação, porém, só aumentou meu alívio quando vi, já perto do canto oposto da cidade, um bar pequeno, com decoração que tentava se passar por moderna e mesinhas redondas na calçada. Fazia parte do segundo e maior hotel dali – este, numa casa de três andares! Me sentei do lado de fora, pedi um chope para a senhora simpática que cuidava tanto do bar quanto da recepção do hotel e tentei relaxar enquanto o sol se aproximava lentamente do horizonte.O relaxamento durou pouco. Na metade da bebida, um táxi virou a esquina e veio em minha direção. Desloquei um pouco o corpo para fora da mesa e segurei firme o copo de vidro, por via das dúvidas. Também durou pouco minha tensão. Uma garota que não devia ter muito mais que vinte anos desceu do carro. Usava uma camiseta que dizia “Really good at bad decisions” e, enquanto entrava no hotel, me olhou como se estivesse pronta para tomar mais uma.Eu poderia dizer que não me lembrava da última vez que tinha visto uma mulher tão linda, mas seria apenas força de expressão. Eu sabia cada detalhe, quando, onde, quem. Quando você perde tudo, fica difícil se esquecer das últimas vezes.Pouco tempo depois ela saiu do hotel e parou na calçada por alguns segundos, observando a queda tardia da noite, antes de ir até a mesa onde eu estava e oferecer companhia. Aceitei e estava pronto para perguntar o que beberíamos quando a dona do hotel nos trouxe duas taças de vinho, que ela já havia pedido. De todos os planos que eu andava traçando em papel de rascunho, nenhum deles envolvia me apaixonar por alguém, nem mesmo me deixar encantar, mas ela já começava dificultando muito as coisas.“E o que te traz aqui?”, perguntei, depois de nos apresentarmos.Ela respirou fundo e bebeu um gole antes de responder: “Eu estive aqui por uns dias, três anos atrás. Aí quando as coisas não estão muito boas, ou sempre que eu posso, eu volto pra tentar viver um pouco daquela felicidade. Eu tenho lembranças muito boas daqui.”Era mentira, eu sabia. Já tinha usado uma versão muito parecida da história em vários hotéis, hostels e cafés pelo mundo. É o tipo de coisa que você diz quando quer pegar alguém – porque se você convence a pessoa de que um lugar é especial para você, cheio de memórias felizes, e então convida essa p[...]



Luzes

2017-11-13T11:25:27.816-02:00

O celular vibrou no bolso de dentro da minha jaqueta e eu fingi que não era comigo. Ainda estava puto com ele por causa das notícias que tinha recebido mais cedo. Ele, o celular. Tenho certeza de que eu não sou o único que faz isso, associar sentimentos e acontecimentos a objetos e lugares e comidas. Sorte de quem não faz. E foi meio por isso, meio por burrice que, dez minutos antes de o celular me deixar puto, eu fui parar naquele bar que cheirava a fritura e pedi uma taça de vinho que custava mais do que deveria. Não que eu entenda alguma coisa de vinhos, mas eu sei que quando pago o que paguei pela taça, o vinho costuma ter um gosto melhor. Essa é uma das coisas que boas lembranças provocam, elas fazem a gente gastar dinheiro em tentativas ridículas de recordar ou reviver qualquer coisa, por menor que seja, de uma época, um evento, uma noite especial. O meu gasto desnecessário era para lembrar a sensação de estar no centro das atenções de alguém por algumas horas, esse tipo de coisa que faz a gente se sentir interessante.Minha tentativa envolvia beber sozinho num bar praticamente vazio e frequentado por gente de quem eu não queria atenção nenhuma, mas isso não vem ao caso.E eu não queria de fato reviver o que tinha acontecido. Mas eu estava tendo um dia difícil, a data trazia memórias demais à cabeça.Meses antes, na noite com as sensações das quais eu queria me lembrar, ela e eu chegamos ali já meio bêbados. Eu mais que ela, desconfio até hoje. Fomos pela comida, um clássico, barato e que “não fica muito melhor que isso”. O vinho, apesar de não ser a harmonização ideal, por assim dizer, foi escolhido porque queríamos tirar a dúvida de tantas noites: é vinho depois de cerveja ou cerveja depois de vinho que te deixa mal? Não chegamos a nenhuma conclusão, esquecemos o assunto antes mesmo de a primeira taça acabar.O celular vibrou outra vez, agora, insistindo. Atendi depois de ver quem era.“É dois mil e dezesseis. Você é a única pessoa que ainda liga pra falar com alguém.”“E uma das poucas que conseguem falar com quem quer, quando quer”, o João respondeu.“Justo”, aceitei, enquanto pagava a conta com uma nota de vinte e deixava o troco para trás.“Fala.”“Onde você tá?”“Tomando uma, na Augusta.”“Boa. A gente tá indo pro Central. Passamos aí em três.”“Cara, eu não sei se vai rolar.”“Vai rolar sim.”“Tá frio, tá chovendo e...”“Eu não vou deixar você não ir. Eu sei que dia é hoje.”O reflexo dos sinais de trânsito no chão molhado era bonito e me deixou um pouco menos deprimido. Uma onda de quase otimismo passou por mim. Talvez a noite acabasse melhor do que eu esperava, talvez eu não precisasse me sentir tão mal. Perceber que alguém se importava comigo o suficiente para ligar numa sexta à noite, naquela sexta à noite, e me obrigar a não ficar sozinho e triste chegou a me comover. Deixei de resistir e fui.Era cedo e a entrada estava tranquila no Central, sem filas. Paulo, o segurança, perguntou como estávamos e jogou um pouco de conversa fora. Nós entrávamos sem ser revistados, um privilégio de poucos, mas que não fazia diferença alguma. Marina, a hostess, não me reconheceu, nem nos deu qualquer tipo de tratamento especial. O atendente do bar acenou assim que nos viu entrar, estendeu a cerveja quando cheguei ao balcão e me cumprimentou enquanto tomava o número da comanda.Amigo do segurança, amigo do cara do bar, completamente ignorado pela hostess. Talvez isso seja um ótimo retrato de como andava minha relação com as mulheres.Mas, em minha defesa, não é todo mundo que conversa com o segurança da balada, que só ouve a voz de muita gente em forma de desaforo. Não é todo mundo que passa boa parte da noite, toda semana, com os cotovelos apoiados no balcão do bar. Já a hostess tem que aturar, de cada homem que passa por ela, uma frase desnecessária, um sorriso en[...]



Six Word Story #3

2015-05-25T13:43:55.351-03:00

Hoje eu sonhei com ela. Acordados.

Tyler Bazz



Notinha segoviana

2017-11-13T11:27:46.857-02:00

Tem um episódio do Chapolin em que ele vai parar em Vênus. Lá, descobre que as pedras venusianas são um tanto diferentes das da Terra. Algumas voam, algumas são invisíveis, algumas mudam de tamanho e, se não me engano, algumas até falam. Lembrei disso esses dias, sentado ao sol enquanto olhava o Aqueduto de Segovia. A parada foi construída pelos romanos há mais de dois mil anos, e quantas histórias não teriam suas pedras? Poderiam falar com propriedade de guerras ali travadas, reis que subiram ao poder e caíram, um amplo relato da cultura, sociedade e economia da região e, por que não, da Espanha. Além dos tantos amores nascidos e terminados sob os arcos. Fiquei me perguntando o que uma daquelas pedras diria pra mim se eu encostasse pra bater um papo, e é possível que eu tenha sonhado, mas me lembro de estar apoiado em uma das enormes colunas e ouvir uma voz grave, vinda de cima: "Tyler, seu puto inútil. Não consegue empilhar nem três latinhas sem derrubar tudo."

Fiquei tão chateado que voltei pra São Paulo, a desaguada.


Tyler Bazz



Manhã em Saint-Ambroise

2017-11-13T11:25:27.825-02:00

“Dá pra você apagar essa merda?”, pediu Marie, ainda trêmula, ao ver Jean com um cigarro aceso no meio da sala. “Depois a casa inteira fica fedendo.”“Acho que o cheiro do cigarro não devia ser sua maior preocupação agora, porra,” ele respondeu.No sofá, coberto por um lençol, o corpo sem vida de Karim, que até poucas horas antes era o morador do apartamento em frente ao do casal. Pouco mais de um metro e meio separava suas portas. Na noite anterior, a música alta que Jean ouvia invadia o apartamento de Karim, que depois de muito tentar dormir decidiu que no dia seguinte tentaria mais uma vez argumentar e pedir ao vizinho que respeitasse o horário avançado. Jean não era um vizinho fácil, mas Karim sempre fora paciente e educado ao tentar resolver os problemas com ele.Naquela manhã, porém, depois de dormir muito pouco e acordar mais cedo, Karim se exaltou. Foi Marie quem atendeu à porta, convidou-o a entrar e ofereceu café, que ele agradeceu, mas recusou. Jean veio do banheiro em seguida, acordado há alguns minutos pela luz do sol que penetrava na sala. Mal começou a falar, Karim foi interrompido, respirou fundo, tentou se manter calmo, mas na quarta ou quinta ofensa feita em poucos segundos à sua cor de pele, sua religião e sua “origem”, apesar de ser francês, perdeu a cabeça e foi para cima de Jean. Péssima decisão.Jean era muito mais forte e, ao contrário de Karim, era um homem de natureza violenta. Com dois socos de revide Karim já estava praticamente desacordado e não ofereceu resistência alguma quando foi estrangulado até a morte por Jean, que agora apagava seu cigarro em um pires na pequena mesa que ficava encostada no balcão que separava sala e cozinha.“O que a gente vai fazer?”, Marie perguntou.“Não sei, caralho. Me deixa pensar.”Depois de alguns segundos de silêncio total, Marie sugeriu que levassem o corpo até o apartamento de Karim, ou à entrada do prédio, e chamassem a polícia. Pensariam que foi um assalto, talvez.“Isso, muito esperta! Você esqueceu como eu ganho dinheiro, porra? Você quer mesmo a polícia xeretando por aqui e fazendo perguntas?”Jean vendia umas drogas. Não era um grande traficante, não chamava atenção nem tinha registro criminal por isso, mas vendia o suficiente para viver razoavelmente bem sem trabalhar. Mantinha em casa um pequeno estoque de maconha, cocaína e outras substâncias, além de um revólver pouco maior que uma tesoura de cozinha. O trabalho de Marie, como instrutora de hidromassagem, era uma boa fachada, além de mantê-la ocupada e fora de casa durante o dia.“A gente coloca ele no porta-malas do carro e joga em algum terreno, ou no rio, bem longe daqui,” disse em voz baixa, mais para si mesmo, pensando alto, do que para responder a Marie. “Duvido que alguém vá dar falta dele logo,” – não era verdade – “e quando a polícia achar o corpo, vai perder um bom tempo tentando descobrir se o cara era terrorista. Devia ser mesmo. Eles todos são.”Não era verdade. Karim levantava cedo todas as manhãs para trabalhar em uma empresa de tecnologia. À noite, ia à faculdade ou estudava em casa para completar sua pós-graduação. Boa parte do que ganhava era para ajudar a mãe e pagar os estudos da irmã, que viviam na periferia de Paris. Dormia cedo, tentava se alimentar bem e sempre prometia a si mesmo que começaria a fazer trabalho voluntário, embora nunca encontrasse tempo. Seu maior arrependimento era ter se afastado dos costumes da religião, que já não praticava, apesar de sentir que isso fazia falta em sua vida.“E se a gente fosse para fora da cidade? Ele podia ter um enterro digno.”“Haha! O que mais? Flores e uma bênção, como um bom cristão?” Jean respondeu quase saltando da cadeira, a corrente metálica com o crucifixo pulando junto em seu pescoço. Então se[...]



Six Word Story #2

2015-01-10T18:10:55.896-02:00

"Feliz Ano Novo," disseram, dia três.

Tyler Bazz



Transa, casa ou mata?

2017-11-13T11:25:27.858-02:00

Muitos de vocês devem estar familiarizados com “Transa, casa ou mata?”, um jogo bastante simples que, como a maioria de seu tipo, provoca questões filosóficas e sociais e grandes revelações pessoais. Uma brincadeira que nos propõe exames de consciência e dilemas éticos que poucas outras situações seriam capazes de criar.A única regra explícita do jogo dita que devem ser indicadas três pessoas (geralmente, personalidades das artes, do entretenimento, dos esportes, etc. e celebridades), entre as quais o jogador da vez deverá apontar uma com quem transaria – verbo em desuso, que significa “fazer sexo” – uma com quem casaria – ato que curiosamente não cai em desuso; aqui, o mesmo que “morar junto” – e uma a quem ele mataria – que pode variar de um “nem fodendo” a um descarte com muito pesar.Há também uma regra implícita, mas fundamental: NUNCA inclua amigos – seus ou do jogador – entre as pessoas indicadas.Foi essa a regra quebrada em uma noite de sexta-feira, quando um grupo de amigos se reuniu na casa de um deles para comer, beber e bater papo até que acabasse a comida, a bebida ou o assunto. O jogo, iniciado havia pouco, fluía sem dramas, com trincas mais ou menos desafiadoras e respostas mais ou menos surpreendentes.“Ok, João. Pra você,” anunciou Luíza. “Jennifer Aniston...”“Hmm. Friends?”, disse Pedro para si mesmo, tentando adivinhar um tema para a trinca.“Angeline Jolie...”“Mulheres do Brad Pitt?!”, Heloísa também tentou.“...e Brad Pitt.”“Caramba, essa é foda! Haha! Vamos ver... Eu treparia com a Angelina, casaria com o Brad e mataria a Jennifer.”“O quê?!”, alguém quase engasgou.“Como assim?!”, e não foi sozinho.“Você quer matar a Rachel!”, foi meio que uma surpresa geral.“Desculpa, galera, mas eu tenho que escolher. E ele parece ser um ótimo marido.”“Não pra Jennifer, né?”E em meio ao riso geral João tomou a palavra. “Beleza, minha vez. Ricardo, Bruna, Maitê e Luíza.”Todos estranharam a escolha. As três ali na sala, amigas há anos, entre si e de todos os presentes. Talvez João estivesse querendo criar polêmica, embora não fosse um tipo provocador. Ou talvez procurasse uma reação em alguma das meninas, quem sabe depois de conversar com Ricardo, que poderia ter mencionado uma vontade ou outra. Todos especularam em silêncio por alguns segundos.Ricardo, que não havia pedido nada a João e estranhava aquilo tanto quanto qualquer um dos outros, decidiu que o melhor seria responder logo para levar o jogo adiante. “Mancada, mas vamos lá. Eu casaria com a Luíza, que ganha bem, mataria a Bruna, porque pegou meu último cigarro.”“Porra!”, Bruna interrompeu. “Por causa de um cigarro?”“Um últimocigarro. E, bom, a Maitê...”“Tá, sobrou a Maitê,” foi a vez de João interromper. “Você, Maitê. Paulo, Jorge e eu,” disse, com um meio sorriso no rosto.Não fosse o fato de João não beber, alguém poderia achar que havia exagerado nas cervejas. Mas aquilo não era exatamente uma atitude de quem fica bêbado e faz merda, aquela era uma atitude de filho da puta.Acontece que Maitê era casada com Paulo, que não estava presente, e se quebrar a regra #2 já era complicado, fazê-lo colocando a amiga em uma enorme saia justa beirava o mau-caratismo.O desconforto na sala era visível. Olhares significativos foram trocados, outros foram desviados, e mais de uma pessoa achou o momento oportuno para um gole mais longo. Maitê agiu rápido, e antes que alguém pudesse interromper e terminar a não tão inofensiva brincadeira, fez o possível para aliviar o clima. “Nem fodendo eu vou responder,” sorriu. “Vai, Pedro: Jô Soares, Gugu e Faustão.”“Porra! O que eu te fiz?”“Ok. Ana Maria Braga, Marta Suplicy e-[...]



A diferença

2017-11-13T11:25:27.799-02:00

E quando o ônibus começou a andar, um rapaz surgiu correndo, ofegante e vermelho ao seu lado, batendo desesperado na porta. "Espera! Espera!", gritava. O motorista, que parou e abriu a porta a contragosto, atrasou trinta segundos em sua rota. Uma mulher que reclamou que aquilo era falta de consideração com os outros chegou ao trabalho no mesmo horário de sempre. E um senhor que xingou essa juventude de hoje em dia não se atrasou, porque estava apenas passeando pela cidade. Mas o rapaz, ele viu seu filho nascer.


Tyler Bazz



1 Comentários

2017-11-13T11:27:46.785-02:00

Um comentariozinho grande demais para o Twitter, e que eu vou postar aqui porque, bom, porque eu posso: esses dias eu estou lendo July, July, do Tim O'Brien. O livro é bom pra caralho. Mesmo. É realisticamente trágico e melancólico e, lendo, eu sou totalmente transportado para perto da vida dos personagens, com seus erros, dramas pessoais e derrotas para a vida. O problema é que, com a menor distração, eu lembro do título escrito na capa do livro, e aí é questão de meio segundo para que minha cabeça esteja cantando o tal título no ritmo do refrão de Ruby, dos Kaiser Chiefs. E esses são uns dos raros momentos em que eu queria muito mesmo ser normal.

Tyler Bazz



Porque...

2017-11-13T11:25:27.780-02:00

Faz quase seis anos que não falo com meu irmão. Os dois primeiros porque eu e ele sempre fomos teimosos, orgulhosos e esquentadinhos demais. Começou com uma discussão dessas bobas que tivemos quando fui visitar minha família em um feriado no começo do meu segundo ano de faculdade, ou no fim do primeiro, tenho certeza de que alguns meses depois já não nos lembrávamos do motivo. Depois disso, fugimos da presença um do outro por um tempo – ele casado e cada vez mais próximo da família da esposa, eu estudando longe demais e cada vez menos disposta a encarar horas de estrada para voltar à cidade em que nasci – e quando não conseguíamos escapar, fingíamos que o outro não existia.O resto do tempo é porque eu não costumo falar com os mortos, e meu irmão morreu há três anos e meio. Era o começo de uma madrugada de quarta-feira e ele voltava de uma curta viagem de trabalho. Não quis passar a noite em um hotel, gostava de dormir em casa e estava economizando para comprar um carro novo. Não encontraram sinais de outro carro, nada. Só ele e sua moto destruída. Até hoje não sabemos se ele cochilou, cansado, ou se tentou desviar de algum animal pequeno, pego tão de surpresa quanto ele à luz do farol, ou se simplesmente perdeu o controle, como às vezes acontece. Fui ao enterro não porque queria, mas porque precisava. Nunca deixei de amar meu irmão, mas era importante mostrar isso ao resto da família antes que pensassem que nunca nos perdoamos seja lá porque fosse que tínhamos nos afastado. Passei horas em pé em seu velório e ajudei a baixar seu caixão, sabendo o tempo todo que ele odiaria aquilo, que sempre quisera ser cremado.Passei um tempo na casa dos meus pais depois disso. Menos pelo meu pai, que sofria em silêncio, mas aceitava a perda com mais naturalidade, como algo inevitável, que pela minha mãe, que ainda não havia se recuperado da gravidez frustrada da minha cunhada e precisava urgentemente de companhia, movimento, ocupação. Deixá-la sozinha com seus pensamentos naquela situação seria um convite à loucura, e já tínhamos atingido nossa cota de tragédias por um bom tempo. Foram dois meses que sofri para evitar maiores sofrimentos. Depois de enterrar meu irmão, me vi enterrada em uma cidade pequena, atrasada, que eu suportava cada vez menos desde minha adolescência. Tinha dificuldades até em resgatar memórias da infância que tive ali, quando as fronteiras da cidade ainda ficavam fora do meu alcance.Seria difícil encontrar outro lugar tão bom para ser criança. Corríamos pelos quatro cantos da cidade e conhecíamos rigorosamente todos os moradores, dos velhinhos aposentados que às vezes brigavam com a gente, só porque essa era sua função como velhinhos aposentados, ao prefeito, que nos recebia sempre de sorriso aberto em seu gabinete, atento às nossas importantes reivindicações – uma pista de bicicleta na praça da Matriz (negada), bloquear a entrada de carros em uma das ruas uma vez por mês, para brincadeiras (concedida), uma pracinha com quadra de esportes (negada, mas a quadra da escola passou a poder ser usada quando não tinha aula), entre outras. Para nós, o mundo todo ficava ali, nos poucos blocos que rodeavam a praça central, estendendo-se até o sítio da minha avó, aonde chegávamos depois de quinze minutos pedalando sem parar por uma estrada de terra e onde passamos incontáveis tardes nos pendurando em árvores, mergulhando no lago, caçando passarinho para nunca colocar em gaiola, até a agridoce hora de ir embora, sempre antes de o sol se pôr. Nunca ninguém queria pedalar o caminho de volta, principalmente depois dos bolos (de fubá, laranja, chocolate) e do suco espremido na hora que a v[...]



Six Word Story

2014-04-07T19:01:13.488-03:00

"Ainda isso, meu?"
"Ainda isso, meu."

Tyler Bazz



Resgate

2017-11-13T11:25:27.831-02:00

“Quem é?”, a voz dela soou irritada pelo interfone.“Sou eu. Me deixa entrar, por favor?”Ir até lá foi difícil demais. Eu sabia disso, mas ela provavelmente não pensava assim, nem qualquer outra pessoa que soubesse nossa história. O apartamento ficava no segundo andar, mas subi de elevador. Antes mesmo de começar a procurar o 216 entre o que me parecia uma dezena de portas, ela abriu a dela quando percebeu que a luz do lado de fora se acendeu com a minha presença.“Eu preciso muitopassar a noite aqui hoje.”Ela deixou a porta aberta para que eu entrasse e me deu as costas em direção à sala. Apesar da noite quase fria, usava um pijama curto, que eu conhecia. Ainda me lembrava em detalhes de suas pernas bastante brancas, cheias de pintas, e dos pés finos, delicados, com pequenas manchas vermelhas das sapatilhas que usava, mas meus olhos me traíram e ela, ao se dar conta, manteve discretamente em frente ao corpo uma das almofadas que tirou do sofá enquanto falava.“Esse é o sofá. Ali é o banheiro. Ali a cozinha. Você precisa de alguma coisa?”“Não, eu-““Então boa noite.”“Nossa,” deixei escapar, em um sussurro alto demais.“O quê?”“Nada, deixa.”“Puta que... porra, meu! Você esperava o quê? Do nada você aparece às duas da manhã me pedindo pra ficar aqui, depois de tudo o que você me fez, e achava que eu ia te receber com chá quentinho e flores?”“Desculpa, mesmo. Obrigado por me deixar ficar.”“Boa noite.” Ela bateu a mão no interruptor e foi para o quarto. Eu me sentei no sofá ainda com a camisa úmida da chuva de algumas horas antes, a camiseta que usava por baixo seca, mas fria, me incomodava, e naquele momento eu sentia que merecia. Fiquei imóvel por alguns minutos, tentando relaxar e absorver a sensação de segurança enquanto repassava a noite na minha cabeça, quando ouvi seus passos de volta à sala.Ela vinha enrolada em um grosso edredom, que jogou sobre o meu ombro quando se sentou ao meu lado, passou-o sobre as nossas cabeças e nos cobriu completamente.“O que aconteceu?”, ela agora falava baixo, quase no tom das nossas melhores épocas.“Eu vim resolver umas coisas do trabalho, jantar com um dos chefes. A coisa acabou se estendendo, quando saí, eu tentei pegar o metrô, mas já estava fechado. Perdi o ônibus de volta porque não tinha dinheiro para ir de táxi até a rodoviária, meu cartão não anda muito no azul ultimamente. Tomei uma puta chuva e, tentando resolver o que fazer, quase fui assaltado, foi sorte eu conseguir fugir.”“Mas por que você não foi pra casa do seu irmão?”“Ele mudou daqui faz uns três meses.”“E aqueles seus amigos, suas amigas?”“Não tem ninguém. Só um monte de conhecidos de redes sociais, não sei nem telefone de ninguém. Você realmente era minha última opção.”“Ah, estou lisonjeada.”“Não é isso. Eu só não queria aparecer aqui...”“...depois de tudo que você fez.”“É. Mas sei lá. Eu fiquei pensando... se fosse o inverso, se você realmente estivesse precisando...”“Você faria o mesmo, você me ajudaria e me salvaria. Porque na sua cabeça você é o cavaleiro real que vai salvar a pobre dama.”“Talvez seja um pouco isso.”“Não é. É culpa, na verdade. Você se imagina me ajudando, cheio de boa vontade, porque sabe que foi filho da puta comigo. Mas eu acho que não... Eu acho que você ficaria extremamente incomodado com a situação, daria um jeito de escapar, ou de se livrar de mim logo que eu chegasse...”“Também não é assim.”“...e eu só não faço isso porque ainda gosto de você.”“Eu sei,” disse, mas me expliquei antes que ela se[...]



Uma proposta decente

2017-11-13T11:25:27.813-02:00

Eu já tinha entrado e estava guardando uma mesa na pizzaria (não exatamente, era só um lugar que vende pizzas a pedaço) onde tinha combinado de comer com a Natália antes de irmos para o bar. Minha cerveja estava gelada e a noite de sexta prometia ser legal, para compensar o fiasco da noite anterior.Foi quando a Natália entrou a passos largos, tão nervosa quanto a Joan Cusack naquela cena de Alta Fidelidade, mas não gritou. Sentou à minha frente e usou quase as mesmas palavras da Joan/Liz, praticamente me dando tiros com os olhos: “Tyler, seu puta babaca!”“Oi pra você também,” eu tentei descontrair, porque imaginava do que ela estava falando.“Eu to falando sério! Por isso que eu nunca apresento minhas amigas pra você!”“Ok, o que foi que eu fiz?”“Eu falei com a Maria hoje já. Ela disse que você não conversou nem cinco minutos com ela ontem e tentou levar ela pra cama!”Era verdade, mas não tinha sido exatamente isso que aconteceu. “Não foi bem isso que aconteceu,” expliquei.“Ah, não foi bem isso que aconteceu?”, a falta de paciência da Natália pra papo furado era mundialmente conhecida, e como ela parecia estar ficando cada vez mais puta comigo, resolvi explicar logo a coisa toda.“Não. Quer dizer, foi. Mas não assim sem mais nem menos.”Pra contextualizar vocês: na semana anterior a Natália fez aniversário e chamou todo mundo para o bar. Todo mundo mesmo, tinha gente pra cacete lá. Inclusive essa amiga dela, a Maria. Ela tinha outro compromisso e já estava de saída quando eu cheguei atrasado, então a gente só se conheceu e não trocou duas frases, mas eu comentei a Maria com a Natália no dia seguinte, a Maria me comentou com a Natália também, e acabou que nos encontramos – Maria e eu, sem Natália – em um café dias depois, no fim da tarde. Era isso que a Natália sabia. Isso e a versão da Maria de que eu tentei levá-la para a cama com nem cinco minutos de conversa. E a minha versão – o que realmente aconteceu – eu contei para a Natália assim:“Nós entramos no café juntos e, como o lugar estava meio cheio, eu resolvi guardar a única mesa vazia, uma dessas com uma poltroninha de cada lado, enquanto ela entrou na fila pra pegar uma bebida. Foi bom isso, porque dois minutinhos sozinho com ar-condicionado me fizeram bem. Eu estava ansioso, ela estava ainda mais bonita que aquele dia no seu aniversário e eu queria muito que as coisas dessem certo.“Ela voltou para a mesa e falou: ‘Isso aqui tá sempre tão cheio. Faz tempo que eu não sento e tomo um café sem fazer mais nada, é sempre uma correria! Ainda bem que você achou essa mesa,’ e se sentou à minha frente. ‘Pega algo lá pra você, eu espero.’“Eu levantei, fui, comprei, voltei, sentei e sorri. Tudo certinho. Mas a cara dela era de que eu tinha feito algo errado, algo que ela não tinha entendido muito bem.“Ela perguntou: ‘É um livro no seu bolso?’“Eu respondi: ‘É,’ estendendo o livro para ela, ela não pegou. ‘Conhece?’“Ela respondeu: ‘Não. Mas tipo... você trouxe um livro?’E eu respondi: ‘Uhum. Eu carrego um sempre. Quase sempre, vai.’“Ela falou: ‘Você saiu comigo e trouxe um livro, é isso?. Por acaso você acha que eu vou te entediar e você vai precisar de alguma coisa pra se distrair?’“Eu expliquei: ‘Não! Mas assim, ok, a gente se encontrou na porta aqui, puta coincidência, mas imagina se eu chego dez minutos antes, eu teria algo pra ler. Ou se a gente vai pra algum lugar depois e eu tenho que pegar metrô pra voltar, ou ônibus.’“E ela falou: ‘Ainda assim. É estranho você sair com uma pessoa [...]



Ressaca

2017-11-13T11:25:27.764-02:00

"Preciso procurar aquela menina que eu tava ficando no facebook. Não peguei o telefone dela nem nada."

"Qual?"

"Aquela menina, porra. Você viu, eu tava com ela lá no meio da galera."

"Sim, mas qual das duas?"

"Hã?"

"Você ficou com duas meninas ontem."

"Não!"

"Tá brincando que você não lembra?! Você tava lá com uma, dançando estranhamente."

"Eu danço estranhamente."

"Foco. Aí vocês saíram. Ela foi no banheiro, você saiu pra fumar, acho. Voltou sozinho, passou um tempinho e você começou a beijar uma outra, que tava ali por perto."

"Cara..."

"Você achou que era a mesma?"

"Cara!"

"Ok, elas eram meio parecidas. Mas oitenta e três por cento das mulheres da sua vida são meio parecidas."

"Mas eu até continuei uma conversa que tava tendo antes com ela. Com a outra. Sei lá."

"HAHAHA tá brincando?"

"É sério!"

"Suas conversas andam muito genéricas. Gostei de ver."

"Ok, é oficial. Isso tem que mudar."

"Vai parar de beber?"

"Não! Por que você diria isso? Que que eu te fiz?"

"O quê, então?"

"Post-its."

"Discretamente colados na moça com quem você estiver?"

"Exato."

"Vai dar merda."

"Vai."


Tyler Bazz



Previsão

2017-11-13T11:25:27.914-02:00

Prometia chover.E muito, ambos viram de suas janelas, que ficavam uma de frente para a outra, mas separadas por um pedação de cidade. Decidiram deixar o cinema e a cerveja para outro dia, para escapar do caos, e passaram a noite se falando pela internet, sonhando em como deve ser agitada a vida noturna, ironicamente, em Londres.Acabaram não se apaixonando. Se tivessem saído, ele estaria fascinante, com o timing perfeito para qualquer comentário e dominando a conversa com equilíbrio, no ponto exato entre respeitar a timidez dela e não parecer um chato egocêntrico que não deixa ninguém falar. Ela estaria encantadora, com cada sorriso, movimento e observação se encaixando perfeitamente na noite, como se o mundo a habitasse, e não o contrário. Quando conseguiram remarcar, coisa de quinze dias depois, já não foi assim. Ela, estressada e com a cabeça nas bombas que haviam explodido aquele dia no trabalho, ele já com pouco foco, pensando mais na amiga de uma amiga, que conhecera dias antes em um bar.O filme escolhido se tornaria um dos favoritos dela, meses depois, quando o assistiu sozinha, em casa, no computador. Mas sem nenhuma lembrança especial para a primeira vez que o viu, como teria se tivessem saído aquela noite, apesar da chuva que prometia cair. Ele nunca chegou a ver o filme, que com ela, entre pequenos comentários na sala de cinema, lhe abriria os olhos, daria um tapa e o faria mudar uma ou outra coisa em sua vida, incluindo perder o medo e deixar alguém fazer parte dela, e por que não aquela moça de cabelos curtos que ria com tanto gosto?Como ficaram em casa porque prometia chover, não saíram do cinema com fome, e em vez de um bar decidiram tomar aquela cerveja em uma lanchonete pequena e simpática, de comida excelente e que passava quase despercebida. Ali, sendo dois dos pouquíssimos clientes, acabariam engatando uma conversa com o dono do lugar, que os faria trocar olhares tímidos ao comentar que formavam um bonito casal antes de lhes dar um desconto na hora do pagamento, pelo papo bom e para garantir o boca-a-boca. Ela daria a dica a uma amiga que escrevia sobre culinária, e a lanchonete aos poucos ganharia fama, viraria um dos lugares da moda, e ele seria o primeiro artista a ter várias de suas pinturas exibidas nas paredes, uma parceria com o dono-amigo que daria certo e mudaria de vez sua sorte como artista.Mas prometia chover, e eles não se conheceram em um dia tão bom para os dois, não viram juntos aquele filme tão importante, não comeram um hambúrguer tão incrível feito por um cara tão legal que merecia ser conhecido por mais e mais gente, não se abriram e falaram mais de si mesmos do que estavam acostumados ao andar pela cidade, não se beijaram antes de ela sair do metrô e não chegaram em casa com a sensação de terem tido uma noite perfeita.E no fim das contas, nem choveu.Tyler Bazz[...]



Musa, #2

2017-11-13T11:25:27.864-02:00

Nós nunca chegamos a nos tocar.Ela se mudou três semanas depois de mim. Do dia para a noite, a sala vazia que eu via quando fumava ou bebia um café no parapeito da janela apareceu cheia de caixas de papelão, e de novo do dia para a noite tudo virou uma casa, ou pelo menos uma sala de estar bem arrumada. Nossas janelas se encontravam, formando um ângulo de noventa graus, mas por alguma manobra arquitetônica do prédio antigo nossas portas ficavam em blocos diferentes, não compartilhávamos nem mesmo a entrada da rua.“Bom dia, vizinho”, ouvi sua voz por volta das 11 da manhã, enquanto eu lia um rascunho num bloco de papel e ela bebia chá.“Oi... oi!”, seus cabelos eram de um castanho claro que eu não me lembrava de ter visto em outro lugar, os olhos eram escuríssimos e a pele branca exibia uma ou outra pinta – na maçã do rosto, no pescoço, nos braços.“Eu finalmente consegui colocar a casa em ordem, acho que o próximo passo é conhecer os vizinhos, né? Bom, meu nome é Maria, e eu preciso saber o seu pra parar de me referir mentalmente a você como ‘o vizinho escritor’.”Arregalei os olhos. Ela riu.“Desculpa. É que sempre que eu te vi sem querer você estava escrevendo ou lendo alguma coisa, aí entre as coisas que você poderia ser, escritor era a mais legal. Acertei?”“Dá pra dizer que sim”, eu já tentava encaixá-la em toda e qualquer história que eu já tivesse escrito ou começado.“E o que você escreve?”“Contos, e crônicas,” acenei com o bloco na minha mão direita, “essa aqui, por exemplo, é pra um site.”“E deixa eu adivinhar: você tá escrevendo seu primeiro livro, e o protagonista é um jovem escritor.”“Não,” respondi, apertando um pouco os olhos, franzindo ligeiramente a testa, balançando levemente a cabeça, como se a ideia fosse absurda, como se pelo menos 83% dos caras escritores mais ou menos da minha idade não estivessem trabalhando em seus primeiros livros cujos protagonistas eram jovens escritores. Mas minha resposta era sincera, eu estava satisfeito com meus contos, minhas crônicas, meus textos curtos metidos a engraçadinhos que saiam aqui e ali de vez em quando e que, se não me sustentavam –eu dava aulas para pagar as contas– ajudavam a tomar umas cervejas. É claro que eu pensava em escrever um livro, um romance, mas pensava nisso sempre no futuro.“Ok. Erro meu. Posso ler esse aí?”“É só um rascunho.”“Não tem problema.”Estiquei o bloco, na mão direita, o máximo que pude. Ela fez o mesmo com sua mão esquerda. A distância parecia ter sido definida de propósito – era curta o bastante para que conseguíssemos passar objetos um para o outro, mas não o suficiente para que nossas mãos se tocassem. Desde que jogava basquete na escola eu não queria tanto ser cinco centímetros mais alto.Ela passou os olhos pelo texto, assentiu com a cabeça aqui, deixou escapar um risinho ali, me devolveu o bloco com um sorriso. “Olha! Gostei.”“É isso que eu escrevo.”“Vou querer ler mais, mas agora eu preciso ir.”“Eu também. Entrego isso aqui meio-dia.”“Nos falamos depois, então. Tchau.”“Tchau.” Eu quase saí da janela, mas desisti. “Maria.”“Oi.”“A gente podia tomar um café ou uma cerveja qualquer dia.”“Hmm... Eu adoraria, mas melhor não.”Meu rosto deve ter implorado por uma explicação.“Dá pra ver que você é legal, mas você é um cara de textos curtos. Talvez você seja com pessoas igual é com textos: prefere coisas rápidas, que não exigem tanta dedicação, acho, [...]



Resoluções de ano velho

2017-11-13T11:27:46.782-02:00

Hoje, bem cedinho, fui dar o segundo ou terceiro "soneca" no despertador quando reparei na data e pulei da cama, assustado: o ano acabou!Fui até a cozinha e liguei a cafeteira, lavei o rosto, passei o shampoo de criança nos olhos (recomendação médica (sim, eu tenho receita médica pra shampoo Johnson's Baby), cochilei escovando os dentes, apoiado na parede do banheiro, e só depois do terceiro gole de café, quando tive o primeiro pensamento consciente do dia, me dei conta de que já estava listando resoluções para o Ano Novo.Sério. Por que a gente faz isso?Fiquei incomodado a tal ponto que tomei um banho e saí pra dar uma volta, ver gente indo trabalhar, tentar me distrair, ocupar a cabeça. Entrei em uma dessas lojas de café americanas que ninguém gosta, mas vivem cheias, e enquanto esperava na fila, me perguntando o quanto eu realmente precisava daquela caneca térmica toda bonita que eu estava quase comprando, peguei um pedaço da conversa do pessoal à minha frente.A moça dizia que precisava voltar à forma que tinha antes da gravidez, mas que não adiantava começar nada agora, com os perus de Natal já no forno, mas que janeiro "tá aí pra isso. E você, vai voltar a estudar ano que vem?" Ele ia, pelo jeito. Já tinha pesquisado uma ou outra pós, mas talvez fizesse mais uma faculdade, em uma área diferente. Tinha tempo pra decidir e não queria pensar muito nisso agora, mas do começo do ano não passava.Talvez eu devesse ficar aliviado ao ver que não era o único, mas não foi bem assim.Então resolvi fazer logo algumas coisas, aquelas que eu já tinha decidido começar há tempos, mas por algum motivo fiquei enrolando e me peguei empurrando pra depois do Show da Virada. Comprei um par de tênis de corrida, reativei o cursinho de inglês online os estudos parados no 101, liguei no estúdio de tatuagem e abri um dos cadernos e escrevi em letras grandes, no alto de uma página, "Capítulo 1".Porque se é pra desistir das coisas e não cumprir resoluções, eu vou começar agora.Tyler Bazz[...]



Bom dia

2017-11-13T11:25:27.886-02:00

"Desde quando?"

"Desde sempre."

"Mesmo?"

"Desde a segunda vez que a gente se viu."

"Quer dizer que na primeira você não gostou de mim?"

"Na primeira a gente só disse 'oi' e eu vi que você era a pessoa mais linda que eu já tinha conhecido. Na segunda, a gente passou um tempo conversando e eu acabei apaixonado."

"Hmm. Sei."

"E você? Desde quando?"

"Desde antes de a gente se conhecer."

"Sério?"

"Sério. Eu já tinha ouvido muito sobre você e tal."

"Hm. As pessoas falam, né?"

"Falam, contam histórias, comentam... Como é que a gente demorou tanto tempo pra fazer isso, então?"

"Isso e aquilo, o de sempre."

"Você namorava."

"Você também!"

"Mas sempre parecia ter outras coisas."

"Sempre tinha. Timing, geografia, tudo dava errado. Parecia ensaiado."

"Verdade."

"Igual agora. Tudo deu certo."

"Deu mesmo. E o que a gente faz agora?"

"Bom, me dá cinco minutos e a gente faz tudo de novo."

"Não, tonto."

"Eu tô falando sério!"

"Eu também! O que a gente faz?"

"Como assim?"

"A gente fica junto? A gente para por aqui? Porque olha, vai ser difícil achar um casal tão complicado. A gente mora cada um em um canto, a gente tem vidas tão diferentes."

"A gente também pode não pensar nisso e ver no que dá."

"Não sei se consigo fazer isso com toda essa facilidade."

"Não é lá muito fácil, mas você mesma disse, tem muita complicação."

"E aí você resolve simplesmente não pensar nelas?"

"Mais ou menos. O que eu sei é que você tá aqui, e a gente não tem que ir pra lugar nenhum por mais algumas horas. E essa é a primeira vez em muito, muito tempo, que eu não estou pensando em nada que está lá fora, longe. Você tá aqui, e eu não preciso pensar em mais nada."

"..."

"Que foi?"

"Você tem cinco minutos."


Tyler Bazz



Musa

2017-11-13T11:25:27.870-02:00

Eu estava com um livro que se esforçava para prender minha atenção, sob um sol que mais iluminava do que aquecia o banco do parque, quando ela passou correndo pela primeira vez e nossos olhares se encontraram. Fiquei encantado, observei-a ir por alguns segundos e tentei voltar ao livro. Logo ouvi seus passos se aproximando, os cabelos dourados, os olhos azuis. Nos achamos mais uma vez, sorrimos. Então, quando ela passou pela terceira vez, desconfiei que suas voltas estavam curtas demais, fechei o livro e não tirei os olhos dela. Dessa vez ela chegou em poucos segundos e parou:“Oi. Meu nome é Maria, e o seu?”Fomos tomar um café em um quiosque no próprio parque. Assim que nos sentamos ela disse:“Acho que não vai dar muito certo, Tyler.”“O quê?”“A gente. Quer dizer... estamos os dois em um parque, numa manhã de terça-feira. Quem é que vai pagar as contas?”Eu ri.Poucas semanas depois ela estava morando extraoficialmente no meu apartamento. Fazia sentido, era perto de onde ela trabalhava e só tínhamos que dividir as contas. Além disso, sua presença no dia a dia me fazia bem. Ela era prática, organizada, produtiva, e sem querer me levava a ser tudo isso. E eu precisava ser prático, organizado e produtivo, porque já estava ficando patético.Uns meses antes eu havia decidido pelo famoso “largar tudo”. Consegui ser demitido por justa causa (outra história) de um emprego que eu não gostava e nem pensei em procurar outro. Eu contava com o Marcello, e era hora de virar escritor.O Marcello vivia no meu pé por causa dessa coisa de escrever. “Cara, solta um livro seu na minha mão, pode ser uma short novel, que eu arranjo quem publica. Ou uns contos, tanto faz. Eu não sou louco pelo meu trampo também. Você assume a vida de escritor, eu assumo a de agente literário,” me dizia, sempre que podia, e podia muito. Sério, que tipo de gente faz essa pressão toda sem parar? Eu te digo: um amigo. Mas eu sou do tipo de gente que pega as boas atitudes e intenções que as pessoas têm comigo e transformo em algo ruim, incômodo. Porque é muito mais fácil assim.Eu não falei para o Marcello quando larguei tudo que ia tentar escrever um livro. Primeiro porque isso causaria pressão e expectativa, segundo porque eu precisava do Marcello no trampo que ele tinha e não gostava tanto assim. E deu certo. Marcello era publicitário, cuidava da preparação de uns catálogos comerciais e vivia contratando freelas para escrever ali. Falei com ele e logo eu tinha prioridade para fazer os textos, com trabalho sempre que precisasse, ou quisesse. Como não pagava aluguel (herança), eu precisava de pouco para me virar, e com alguns dias de trabalho garantia o bastante para não fazer nada o resto do mês – isso e uns relógios e bijuterias que eu comprava na 25 de Março e vendia com um lucro retardado para as amigas da minha mãe.E ainda bem que eu não falei para o Marcello que queria escrever, porque nos meses que seguiram eu relaxei na aparência, desencanei de arrumar o apartamento, comecei a aprender uma língua nova, li livros pra caralho e desenvolvi novos gostos e dotes culinários, mas não escrevi mais que fragmentos perdidos. Então a Maria chegou e mudou tudo.Maria não fazia pressão. Ela sabia que eu queria escrever, me encorajava e me lembrava disso quando eu começava a perder o rumo. Mas eu raramente perdia o rumo. Não sei se era a rotina mais definida, as sugestões que ela me dava a qualquer mo[...]



"Não é exatamente um Clube, né? Quer dizer, parece mais uma aglomeração..."

2017-11-13T11:25:27.810-02:00

“A primeira regra do Clube da Luta é: você não fala sobre o Clube da Luta. Qual é a da mão levantada, você aí?”“Eu queria fazer uma pergunta.”“Isso aqui não é a porra do jardim de infância. Pode abaixar a mão, Hermione.”“Na verdade, meu nome é Br–““A pergunta, anda.”“Bom. Se a primeira regra é-““Você não fala sobre o Clube da Luta!”, todos, em uníssono.“...então, isso, você já quebrou a regra, não quebrou?”“Não é hora de piadas, garoto.”“Não é piada. Pensa, se a primeira regra é... não? Ninguém? Ok. Se a primeira regra é que você não pode falar sobre o Clube da Luta, e a primeira regra fala sobre o Clube da Luta, quando você fala sobre a regra...”“Eu vou fingir que os últimos minutos foram um fruto da minha imaginação, ok?”“Mas faz sentido, não faz?”, sussurrou para o homem a seu lado.“Fica quieto. Eu estou tentando ouvir as regras.”“É sua primeira vez aqui também?”“Não.”“Ah, então você já conhece as regras.”“...você NÃO fala sobre o Clube da Luta.”“A segunda é igual à primeira? Então essavocê não precisa ouvir mesmo.”“Cala a boca!”“Terceira regra do Clube da Luta: se alguém gritar ‘Para!’, fraquejar, sinalizar, a luta está terminada.”‘Essa até que faz sentido,’ pensou, reparando que a maioria dos homens no lugar movia os lábios conforme as regras eram anunciadas, repetindo-as em absoluto silêncio.“Quarta regra: apenas dois caras numa luta.”‘Essa é boa também, pra não virar bagunça. Se bem que nas ruas não tem essa de dois por luta, não. A briga é generalizada mesmo. Melhor eu não falar nada agora, mas talvez eu possa sugerir uma mudança depois.’“Quinta regra: uma luta de cada vez, pessoal.”“Hã?”“Hermione?”“Hm. Desculpa, senhor...”“Tyler.”“Senhor Tyler. Uma luta de cada vez? Tem certeza? Quer dizer, é o Clube da Luta. Você não cria um Clube da Sinuca e coloca só uma mesa e dois tacos lá. Eu fazia parte de um clube de xadrez no colegial e–““Uma luta por vez!”“É que com esse tanto de gente... sei lá, eu não gostaria de vir para o Clube da Luta e acabar não lutando porque não deu tempo, porque só pode uma luta por vez.”“Ah, você vai lutar sim. Fica tranquilo. Sexta regra: sem camisas, sem sapatos.”“Ah não!”“O quê, agora?”“Imagina um juiz de boxe falando ‘sem luvas’ antes da luta. Ou todo mundo parando para tirar os tênis numa briga de rua. Não é assim que funciona.”“Você tá vendo algum ringue aqui? Ou carros passando?”“Ok, ok. Mas essa coisa de sem camisa... meio estranho, não? Imagina só, você conta pra alguém–““A primeira regra do Clube da Luta é: você não fala sobre o Clube da Luta!”, todos, em uníssono.“Tá bom, tá bom. Se alguém, por algum acaso, de alguma forma, fica sabendo disso aqui. Essa coisa de um monte de homem se agarrando sem camisa, meio bicha, né?”“Você é bicha?”“Eu? Não! Haha! Tá maluco? Eu não. Mas as pessoas são meio maldosas, sabe como é.”“É o seguinte, garoto, as regras estão definidas e eu não estou aberto a sugestões. Foda-se se o mundo é malvado e você tem medo de ser chamado de bicha. O que eu estou é perdendo a paciência, então eu sugiroque você fique na sua.”“Certo, desculpa. Eu só estava–““Sétima regra: as lutas duram o tempo que for necessário.”‘Como se ninguém tivesse mais [...]



Primeiro encontro

2017-11-13T11:25:27.793-02:00

Fazia um frio próximo de zero em Madrid quando voltamos ao hostel no centro da cidade. Uma névoa branca cobria o céu, que devia receber os primeiros raios de sol em pouco tempo. Meus amigos – ou as três pessoas que conheci na tarde anterior, no próprio hostel – foram para seus quartos e eu, sem sono, coloquei um pouco de água para esquentar na chaleira elétrica da cozinha.As janelas eram todas para dentro do prédio e eu não veria o amanhecer. Peguei um saquinho de chá em um vidro com vários deles, sortidos, coloquei-o em uma caneca grande, com a asa quebrada, e fui para a sala comum, onde fiquei sozinho em um dos confortáveis sofás azuis, de costas para um grande mapa da Espanha, ouvindo o movimento nos quartos diminuir, as pessoas caindo no sono depois de uma noite de festa.Ela chegou poucos minutos depois, com mais três ou quatro pessoas que foram para os quartos enquanto ela foi até a cozinha, voltou e se jogou na poltrona vermelha à minha frente, poucos metros e uma mesa de centro entre nós. Olhamos fixamente um para o outro por um momento, como se não houvesse mais nada ali para olhar. Ela fez menção de dizer algo, mas fui rápido em impedi-la com um gesto. Alcancei uma caneta perto da televisão no rack à minha direita e fiz um sinal para que viesse se sentar ao meu lado. Peguei sua mão de dedos longos, morna, recém-saída dos bolsos do casaco e escrevi: “Enjoy the silence.” Ela sorriu e assentiu.Ficamos assim por alguns minutos, lado a lado no sofá, quietos. Ouvindo nada mais que a respiração um do outro e observando; eu, o vapor que saía da caneca, as linhas das mãos dela, a forma como cruzava as pernas; ela, quem sabe? Quando outro grupo de gente chegou, perguntei, em inglês: “Então, qual é seu nome?”“Você falou!”“Eles estragaram tudo,” apontei meio para a porta, meio para os corredores do hostel, de onde vinham vozes e risos e sons. Girei um pouco o corpo para ficarmos de frente, ela fez o mesmo.“Hm. Ok. Marie, e o seu?”“Tyler.”“Certo, Tyler, e como você sabia que eu falo inglês?”, ela tentava lutar contra um sotaque forte e delicioso.“Vi você falando, ontem. E como eu não sei uma palavra de francês...”“E sabe que eu falo francês, também?”, seu sorriso lento parecia me surpreender fazendo algo errado.“Não finge que não sabe que eu estava prestando atenção em você.”“Verdade. Nós dois deixamos bem clara nossa atenção.”E tínhamos mesmo deixado. Enquanto meu grupo fazia macarrão para um exército e bebia vinho como se o mundo fosse acabar, ela começava frases em inglês e as terminava em francês em uma mesa com pelo menos dez pessoas e um falatório agitadíssimo. Foram várias as vezes em que nos encaramos e perdemos um pedaço de conversa, ou fomos chamados de volta à Terra por uma pergunta qualquer.“E eu adorei o jeito como você fala Belgique.”“Eu falo normal!”, ela agora ria e me cutucava de leve com a mão.“Pode ser. Mas eu nunca tinha visto alguém falar. E você fala de um jeito que eu gosto.”“Ok. Ok. Quer vinho?” Ela tirou uma garrafa da bolsa, ainda cheia, mas já sem rolha. Aceitei estendendo a mão após ela dar o primeiro gole. “Como foi sua noite?”, perguntou.“Foi ótima. Nós fomos pra um lugar com música dos anos 60 e 70, um pessoal meio vestido à época, legal demais. Em Malasaña.”“Eu passei por Malasaña também.”“Então s[...]