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Arte Photographica



a sépia ou a píxeis - as imagens que ficam



Last Build Date: Fri, 06 Oct 2017 02:06:31 +0000

 



"Photobooth: A Biography" - dentro da máquina

Thu, 13 Aug 2015 12:11:00 +0000

Photobooth: A Biography, de Meags FitzgeraldPedro MouraO encontro interdisciplinar entre a banda desenhada e a fotografia não é de forma alguma uma experiência nova, remetendo mesmo às primeiras transformações internas tecnologicamente determinadas de ambas as artes, como estudado por Thierry Smolderen. Todavia, para que surja uma nova convergência é necessária que tenha sido lavrada na mente dos leitores-espectadores uma separação aparentemente intransponível, ou pelo menos ontologicamente sólida, a chamada “especificidade dos meios”, em vez de se considerar um “contínuo pictural”, na frase de Diarmuid Costello.Mesmo que não se desejem quaisquer consensos indiscutíveis, que se tornassem axiomáticos, há uma compreensão primeira que remeterá as imagens fotográficas para um campo mecânico, uma “transferência do real” (Rosalind Krauss), e as imagens desenhadas como sendo “eminentemente auto-reflexivas e auto-referenciais” (Philippe Marion). Contemporaneamente, a prática dessa nova convergência é de tal modo intensa – através de remediações, hipermediações, traduções, elaboração de figuração ou estruturações análogas, contaminações, etc. - que será possível desde logo encontrar uma tipologia desse encontro variegada. Os termos de representação previstos entre um e outro meio poderão ser vistos tanto como complementares como opostos, ora por razões técnicas ora por razões ontológicas e mesmo estéticas. A crença numa genuinidade representacional nos elementos extra-pictóricos da fotografia e a sua circunstância “histórica”, por oposição à constructabilidade do desenho, cria logo à partida formas de colocar as questões incompatíveis e, muito provavelmente, erróneas. Afinal de contas, uma fotografia é desde logo sempre uma construção ela-mesma, informada pela técnica e pela ideologia, ao passo que a banda desenhada, enquanto linguagem estruturada com as suas próprias especificidades expressivas, consegue aceder igualmente a formas de autenticidade.Photobooth: A Biography é uma pesquisa paciente sobre a história de uma tecnologia específica, mas articula-se através de uma mescla coesa de várias linhas de inquirição. A um só tempo, a autora, Meags Fitzgerald, está a agregar vários géneros num só projecto. Tal qual o título indica, Photobooth é uma biografia, no seu pleno sentido etimológico, de “vida”. Porém, se o objecto dessa vida é na verdade uma tecnologia - as máquinas automáticas e baratas de fotografia (e revelação das mesmas) -, não há menos vida a discorrer nela, já que é uma linha que se vai encetar com as dos seus inventores, inovadores, cultores, assim como, mais importantemente, com a da autora destas páginas, que encontra em vários passos da sua própria biografia pontos de entrada. A autora não se limita porém a uma concatenação de curtos episódios relativos à sua vida ou a observações e impressões mundanas, próprias e alheias, mas executa uma longa e aturada demanda, que implica igualmente viagens pela Europa e Austrália, além dos Estados Unidos e Canadá, sobre os photomatons. Existindo alguns livros dedicados a esse capítulo da fotografia – a discussão da sua menoridade artística não pode ser aqui perseguida, mas a sua menção deve alertar para um desequilíbrio da atenção crítica no interior da disciplina da fotografia, que replica princípios de hierarquização advindos das disciplinas mais velhas e mais “nobres” da arte; um outro sub-campo da fotografia sub-explorado (ambos “sub” reflectem-se), e ainda mais aparentado com a banda desenhada, é o da fotonovela, recentemente estudada por Jan Baetens -, essa pesquisa leva-a também a aprender a mexer na “parte de trás” destas máquinas, da manipulação dos químicos a aspectos da sua instalação. As entrevistas, ainda que não sejam do mesmo modo “directo” do que no trabalho de banda desenhada jornalística de Joe Sacco ou Philippe Squarzoni, por exemplo, também criam uma camada importante de informaç[...]



PHE em Portugal (outra vez)

Sun, 10 May 2015 21:56:00 +0000

  Martín Guerra, s/t, 2014 PHotoEspaña regressa a Portugal (com a latino-américa no bolso)Durante os anos em que Sérgio Mah foi comissário geral do PHotoEspaña, o Museu Colecção Berardo, em Lisboa, acolheu sempre exposições relacionadas com este festival internacional de fotografia madrileno, que se tornou paragem obrigatória no roteiro europeu das artes visuais. Foi assim entre 2008 e 2010 e, depois disso, o silêncio. Agora, no segundo ano de direcção artística de María García Yelo, o festival volta a estender-se até Portugal com exposições no espaço Carpe Diem, em Lisboa, e na Fundação Dom Luís I/Centro Cultural de Cascais.No dia 30 de Maio, data em que o Carpe Diem celebra seis anos, inaugura-se a colectiva Instantânea: Fotógrafos latino-americanos da colecção Carpe Diem, uma escolha da comissária Pilar Soler, que revisitará trabalhos de artistas daquele continente que nos últimos anos mantiveram algum tipo de contacto com o espaço instalado no Palácio Pombal, no Bairro Alto, em Lisboa. Serão mostradas obras de Albano Afonso, Marcio Vilela, Ding Musa, Martín Guerra, Mariano Rennella, Julia Kater, Paula Scamparini, Christina Meirelles e Helena Martins Costa. A diversidade das propostas criativas da fotografia latino-americana da actualidade será a pedra de toque da exposição. As imagens provêm da colecção de mais de 130 peças do Carpe Diem.No Centro Cultural de Cascais, a 18 de Dezembro, será inaugurada uma retrospectiva de Nicolás Muller (1913-2000), fotógrafo judeu nascido na Hungria e naturalizado espanhol com um percurso ligado às imagens de denúncia e de reportagem social.Muller (um fotógrafo praticamente desconhecido até há pouco tempo) sofreu com a exaltação nacionalista húngara nos tempos de ascensão do nazismo. Influenciado pela estética da Bauhaus e do construtivismo soviético, começou por mostrar as duras condições de vida e trabalho dos agricultores húngaros. Depois da divulgação de uma dessas reportagens onde revelava a condição quase feudal em que assentava a actividade agrícola no país, foi classificado como antipatriótico. Em 1938, vê-se obrigado a abandonar a sua terra natal, rumo a França. Com o estalar da II Guerra Mundial, em 1939, foge para Portugal, onde fotografa (no Porto e na Nazaré) com a mesma preocupação social a dureza do trabalho e as fracas condições de vida. É preso pela PIDE, que o solta com a condição de não regressar. Viaja então para Marrocos, onde conhece Fernando Vela, secretário do filósofo e intelectual espanhol Ortega y Gasset. Fixa-se em Espanha em 1947. Mas dentro deste país inicia uma vivência nómada através da qual traça uma longa panorâmica sobre a ruralidade. A exposição de Cascais propõe uma retrospectiva destas andanças, onde se incluirão imagens captadas em Portugal.Ding Musa, Fronteira, 2012[...]



o poder - EI 2015

Sun, 10 May 2015 21:45:00 +0000

  
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Afronauts: Christina de Middel, Zâmbia, 1964



O poder é uma ilusão nos próximos Encontros da Imagem de Braga

Samuel Silva (ípsilon, Público, 01.05.2015)


Depois da edição de 2011 ter sido dedicada às Novas Visões na Fotografia Social, apresentada na fase inicial da intervenção da troika em Portugal, o olha agora para Poder e Ilusão, questionando a produção dos artistas contemporâneos num ambiente social de mudança. É como quem fecha um ciclo, regressando aos temas políticos, num contexto que não é desligado do ciclo eleitoral o país enfrentará nos meses seguintes aos dos encontros da Imagem – com Legislativas no Outono e Presidenciais no início de 2016. “Este é num tempo em que as lutas pelo poder tendem a ser cada vez mais acesas, mas também de refrescar a consciência política, demonstrando o poder que a imagem tem de cativar e iludir”, explica a directora do festival, Ângela Ferreira”. O festival deste ano realiza-se entre 25 de Setembro e 31 de Outubro naquela que será a sua 25ª edição. Para assinalar a data redonda lança um prémio internacional de fotografia, o EI Award, que vais premiar o melhor portfólio de fotografia contemporânea. Os artistas podem apresentar a sua candidatura com um projecto fotográfico que não exceda as 20 imagens, que deve ser enviado até 24 de Julho. A leitura dos portfólios dos 70 candidatos selecionados acontece na semana de abertura do festival, a 24 e 25 de Setembro. O vencedor será anunciado no dia seguinte.
O festival deste ano também terá um prémio de fotografia para utilizadores do Instagram. Para concorrerem ao EI Ground Control, os “instragamers” devem fazer o upload das imagens diariamente na rede social com a tag #eigroundcontrol, até 1 de Setembro. A melhor série de fotografia será exposta nos encontros da imagem deste ano.
À semelhança do que aconteceu no ano passado – em que passaram mais de 50 mil visitantes pelas exposições em Braga – o festival voltou a lançar uma “open cal” destinada a autores emergentes que pretendem integrar a sua próxima edição. O prazo de candidaturas estende-se por mais uma semana, até ao dia 8 de Maio. No final do mês serão anunciados os nomes dos autores selecionados para expor nos próximos Encontros da Imagem.




algo mais do que história (até que enfim!)

Sun, 10 May 2015 20:37:00 +0000

Um homem descansa numa escarpa rochosa, junto ao mar, na ilha da Madeira. Quem é? Um viajante? Um eremita? O próprio fotógrafo, João Francisco Camacho? Não se sabePara ver e quase tocarJosé Marmeleira (ípsilon, Público, 24.04.2015)É um álbum de família que Emília Tavares folheia. No interior, estão fotografias de crianças, mulheres e homens. Têm os cabelos penteados, vestidos a rigor, os rostos virados para a câmara. Avós, bisavôs, pais, mães, filhos, netos, primos afastados, cujas alegrias, tristezas, sofrimentos e aspirações a fotografia terá um dia fixado. Chegamos à última página, uma surpresa. “Aqui está uma caixinha de música. Faz parte do livro. As pessoas ouviam esta música enquanto viam as fotografias”, diz a curadora do Museu Chiado.Este pequeno e comovente objecto pode ser um portal para Tesouros da Fotografia Portuguesa do Século XIX, momentos significativo de 2015 no domínio das artes visuais. O propósito desta mostra, que inaugura na quinta-feira (dia 30), não é modesto: reunindo um conjunto impressionante de autores e obras provenientes de acervos de colecções públicas e privadas, visa revisitar o legado da fotografia produzida em Portugal entre 1840 e 1900. Um escopo quase inesgotável e que se desdobará pelo espaço da Galeria Municipal Almeida Garrett, no Porto, a partir do dia 23 de Maio.Até lá, as duas comissárias, Emília Tavares e Margarida Medeiros, continuarão a abrir caixas, a confirmar informações, a pensar sobre a fotografia para a mostrar. No piso 1 do Museu do Chiado, a exposição vai ganhando forma, com mistérios e incertezas. “De algumas imagens, só sabemos as datas através dos processos usados, e pouco mais. Algumas são de factos desconhecidas. Não sabemos o que foi fotografado, nem quem fotografou”. O comentário de Emília Tavares ressoa no entusiasmo de Margarida Medeiros: “Conseguimos, ao fim de muitos dias, encontrar uma data provável de uma fotografia do Jardim do Príncipe Real, sem árvores, sem grades. E descobrimos uma fotografia do Mosteiro de Jerónimos junto à água, antes de ganhar aquela parte ao rio. E imagens com o claustro fechado. Creio que nunca foram mostradas”.O trabalho é de constante descoberta. Afinal não faltam tesouros, como o título, convincente, sugere. “É um bocado ambíguo”, atalha Emília Tavares. “Tem a ver com a falta de visibilidade deste património fotográfico. Está a ser cada vez mais estudado, felizmente, mas essa actividade poucas vezes transparece publicamente. Em termos de divulgação há muito pouco investimento. As instituições têm esse património, zelam por ele, mas a verdade é que depois não há uma mostra pública. Portanto, o termo ‘tesouro’ é, também no sentido de um certo entesouramento que também é confundido como preservação”.Emílio Biel. Porto, Ponte D. Luís. Tabuleiro central em construçãoColecção Palácio Nacional da AjudaUma câmara escuraFeita a ressalva, as imagens e os objectos da exposição são, de facto, tesouros, do melhor que a fotografia portuguesa produziu ao longo do século XIX. E para a sua reunião no Museu do Chiado contribuiu, decisivamente, a colaboração de várias instituições públicas e colecionadores particulares. “Sem dúvida”, sublinha Margarida Medeiros. “Vamos ter dez a quinze acervos públicos e cinco particulares. Algumas fotografias nunca foram mostradas, nomeadamente as dos colecionadores. E ainda havia mais para mostrar. Há coisas incríveis, por exemplo, no Arquivo de Documentação Fotográfica da Ajuda e no Centro Português de Fotografia, no Porto”.O espanto não protege todas as fotografias da erosão do tempo, pelo que as comissárias asseguraram a criação de uma sala especial. “Dada a sua fragilidade, algumas vão estar numa câmara escura especial. Têm sido ciosamente guardadas e, por exigência dos seus proprietários, vão estar protegidas, com iluminação própria”. Desse conjunto, destaca-se u[...]



há photo no Novo Banco

Thu, 29 Jan 2015 10:28:00 +0000

Da série Bori Oxum© Ayrson Heráclito Ângela Ferreira, Ayrson Heráclito e Edson Chagas finalistas do Novo Banco PhotoO fim do BES (o banco que criou e patrocinava o prémio BESPhoto) fez crescer a dúvida sobre se o maior prémio de arte contemporânea atribuído em Portugal se manteria. A resposta é “sim”, vai manter-se e os nomeados para a edição de 2015 são: Ângela Ferreira (Portugal), Ayrson Heráclito (Brasil) e Edson Chagas (Angola).Nesta aposta pela continuidade, o Novo Banco manterá o seu principal parceiro — o Museu Colecção Berardo —, o formato e o valor pecuniário do prémio. Ou seja, prossegue a ambição de internacionalização, com a selecção dos artistas que podem ser de nacionalidade portuguesa, brasileira ou dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa, bem como os 40 mil euros para o vencedor que será anunciado em Setembro.Um mês depois da inauguração da exposição que marcou o décimo aniversário do prémio, em Junho do ano passado, começou o colapso e o calvário da marca BES, remetida para o universo do “banco mau”, colocando num limbo todas as iniciativas mecenáticas a que o banco liderado por Ricardo Salgado estava associado. Sem nunca ter havido um anúncio formal da continuidade do prémio, foram surgindo sinais de que este poderia continuar, como a atribuição do novo nome (Novo Banco Photo) à exposição dos finalistas de 2014 que foi levada para o Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo, Brasil, inaugurada já depois do anúncio do fim do BES.A manutenção do prémio na sua essência significa que, nesta fase, os artistas são nomeados por uma exposição de obras em suporte fotográfico e/ou a edição de uma publicação durante 2014.Ângela Ferreira foi nomeada pela exposição Indépendance Cha Cha, apresentada em 2014 na galeria Lumiar Cité, em Lisboa. O júri explica que esta mostra surge “como uma continuação do projecto que a artista desenvolveu para a Bienal de Lubumbashi, justapondo uma forma escultórica reminiscente da arquitectura colonial do centro de Lubumbashi e dois vídeos”. Um destes trabalhos videográficos “documenta uma performance, apresentada na bienal, que lida com narrativas de trabalho forçado nas minas daquela zona”; o outro “mostra a interpretação de Indépendance Cha Cha, um hino emblemático dos movimentos independentistas da África francófona na década de 1960”.A exposição Luanda, Encyclopedic City, que representou Angola na 55.ª Bienal de Veneza (2013), onde conquistou o Leão de Ouro pela melhor participação nacional, e a exposição na galeria Belfast Exposed Photography (2014), onde apresentou a série em curso Found Not Taken, valeram a Edson Chagas a nomeação para o prémio deste ano. No seu trabalho, este artista angolano “usa o contexto urbano de cidades como Luanda, Londres ou Newport como cenário para criar um ‘arquivo’ de objectos banais”. Uma das motivações destas deambulações é “captar a forma como os objectos abandonados, dispersos pela cidade, oferecem um olhar sobre os hábitos de consumo de um determinado local”.O brasileiro Ayrson Heráclito usa o vídeo e a fotografia como principais suportes de trabalho. De acordo com o júri, ao longo da sua obra tem investigado “as ricas relações entre África e o Brasil, explorando as ligações políticas, sociais e culturais entre estes dois territórios, demonstrando um interesse especial na história da escravatura e nas religiões afro-brasileiras”. A perspectiva a partir da qual desenvolve esta reflexão “é privilegiada”: Salvador, Bahia, a capital do Brasil africano, onde vive e trabalha. Ao longo de 2014, Heráclito participou em várias exposições, entre as quais o júri destaca Segredos Internos (1999-2009), Do Valongo à Favela (Museu de Arte do Rio, Rio de Janeiro), Múltiplo II em Histórias Mestiças (Instituto Tomie Ohtake, São Paulo), bem como o vídeo Barrueco (2004) em[...]



o império aos bocados

Mon, 05 Jan 2015 23:57:00 +0000

Autoretrato do fotógrafo Elmano Cunha e Costa com o padre Estermann, Moxico, Angola, 1935-1939© Arquivo Histórico UltramarinoAs fotografias são objectos difíceis e as dos impérios coloniais ainda maisLucinda Canelas(Público, 13.12.2014)Fotografias soltas numa caixa de cartão. Há de casamentos, baptizados, trabalhadores no campo, desfiles de minhotas trajadas a preceito e muitos retratos de crianças com dedicatórias, daqueles que era costume enviar a tios e avós na altura das festas. Na banca seguinte são os álbuns de guerra que guardam as imagens de um império que começava a deixar de o ser de forma irreversível. Num e noutro caso é de pessoas desconhecidas que se trata. Num e noutro caso é de memória que falamos, de um património visual de onde se pode partir para reescrever histórias privadas que fazem parte de uma narrativa partilhada.Filipa Lowndes Vicente já percorreu muitas vezes a Feira da Ladra atrás de fotografias como estas, mas também já passou horas, dias, em arquivos, bibliotecas e museus à procura do tipo de imagens que hoje podemos encontrar na obra que coordenou e que acaba de ser publicada pelas Edições 70, O Império da Visão. Fotografia no Contexto Colonial Português (1860-1960). O ambicioso volume de 500 páginas, com 28 artigos de temas muito diversos organizados em quatro grandes capítulos, conta com historiadores, antropólogos e biólogos entre os seus autores e é a primeira história da fotografia do império com metrópole em Lisboa e que, como explica James R. Ryan na introdução, tinha das mais longas relações de uma potência europeia com África, baseada primeiro no tráfico de escravos e, mais tarde, num sistema de trabalhos forçados que alimentava a desigualdade e a injustiça e que se manteve até 1961.“As fotografias são preciosas para os historiadores do império tanto pelo que escondem como pelo que revelam”, escreve este historiador, autor de livros como Picturing Empire: Photography and the Visualization of the British Empire. Como? Mostram, por exemplo, uma economia colonial em crescimento através de imagens das grandes plantações da África ocidental ou dos caminhos de ferro, mas apagam o trabalho escravo que a tornou possível.O Império da Visão, explica Filipa Vicente, é uma primeira tentativa de reunir uma série de contributos numa área de investigação que, embora tivesse já produzido conhecimento, não estava ainda consolidada: “Não há em Portugal uma genealogia, uma historiografia da fotografia no império. Há, sim, estudos fragmentados. Na Grã-Bretanha este trabalho de olhar para a fotografia como instrumento de poder e de colonização começou a ser feito no início da década de 1990.”E começou a ser feito, como em Portugal, pelos antropólogos, mais habituados a problematizar a imagem do que os historiadores que, cruzando-se com ela entre os múltiplos materiais das suas investigações, tendem a tratá-la mais como uma ilustração do que como um documento em nome próprio, admite esta investigadora do Instituto de Ciências Sociais (ICS) da Universidade de Lisboa: “Os antropólogos têm mais capacidade crítica quando pegam numa fotografia. As imagens são objectos difíceis, complicados. E nós, os historiadores, estamos pouco preparados para lidar com essa complexidade.”Alguns dos autores que aqui escrevem sobre fotografia fazem-no pela primeira vez para este volume que acaba precisamente antes do começo da guerra colonial - há artigos que reflectem sobre realidades posteriores como o de Afonso Ramos (“Angola 1961, o horror das imagens”, sobre as fotografias atribuídas aos massacres da UPA no Norte e todas as questões, éticas ou de autenticidade, que levantam) e de Susana Martins/António Pinto Ribeiro (“A fotografia artística contemporânea como identidade pós-colonial”), mas são residuais. O trabalho que conduziu ao livro foi feito em apenas dois[...]



helena flores

Tue, 30 Dec 2014 00:56:00 +0000

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© Helena Flores


(Público, 23.12.2014)

Helena Flores é a vencedora da edição 2014 do Prémio Novo Talento FNAC Fotografia com o portfólio "Luz Interior", um trabalho onde aborda a cegueira através da forma como uma invisual explorou as esculturas contemporâneas do Parque de Serralves, no Porto, e as transmitiu em desenhos, onde a escuridão dá lugar à luz.

O trabalho de Helena Flores, 35 anos, enfermeira de profissão e aluna do curso profissional de fotografia do IPF, foi escolhido entre os 174 que chegaram às mãos do júri formado por Margarida Medeiros, professora universitária e crítica de fotografia, Augusto Brázio, fotógrafo, Mário Teixeira da Silva, director da galeria Módulo-Centro Difusor de Arte, e Sérgio B. Gomes, jornalista do PÚBLICO e autor do blogue Arte Photographica.

"Luz Interior" é um misto de fotografias e desenhos feitos por Ana, invisual desde o nascimento, que transmite o que “vê” e sente com os outros sentidos em desenhos criados a linhas brancas em folhas de papel negro, “provando que a imagem e a memória dependem tanto destes como da visão”, como escreve Helena Flores na descrição do seu trabalho.

O júri distinguiu ainda com uma menção honrosa Rita Pinheiro Braga, por "A Água da Luz", um trabalho fotográfico que cruza histórias de vida dos moradores da nova Aldeia da Luz, e Márcia Nascimento, por "Viaggio in Lapponia", resultado de um projecto em torno da obra do artista Tapio Wirkkala e que teve como uma das suas principais componentes uma expedição à Lapónia.

O Prémio Novo Talento FNAC Fotografia é atribuído desde 2003 e procura “consagrar jovens fotógrafos que apresentem trabalhos inéditos, originais e com uma escrita fotográfica coerente”. Nas edições anteriores os vencedores foram Pedro Guimarães, Francisco Kessler, António Lucas Soares, Virgílio Ferreira, João Margalha, Nelson d'Aires, Inês d'Orey, Hugo Rodrigues Cunha, Miguel Godinho, Frederico Azevedo, Lara Jacinto, Nuno Tavares e Tânia Cadima.




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ouvir Guido

Wed, 10 Dec 2014 11:20:00 +0000

Carlo Scarpa's Tomba Brion 17134/17144, Looking Southwest, 2011© Guido GuidiE, de repente, duas exposições de Guido Guidi em Portugal (e de seguida). Depois da Galeria Pedro Alfacinha, Lisboa, o espaço Garagem Sul, no Centro Cultural de Belém, acolhe a exposição Guido Guidi/Carlo Scarpa, Tomba Brion, naquela que é uma das facetas mais conhecidas da obra do mestre italiano - a fotografia de arquitectura.Depois da inauguração da mostra, o Atelier de Lisboa organiza uma conversa com Guido Guidi a propósito das fotografias de Marcello Galvani (1975), aluno de Guidi na Academia de Belas Artes de Ravenna e profundamente inspirado na sua maneira de estar na fotografia contemporânea.Esta sessão, organizada pelo Atelier de Lisboa e por Paulo Catrica, faz parte dos Cursos de Projecto do Atelier. É aberta ao público e de entrada livre, no limite dos lugares disponíveis. O encontro está marcado para as 19h00, na Av. de Berna, 31 – 2.º Dto., Lisboa.Este é o texto dos curadores sobre a exposição na Garagem Sul:“O tempo eterno da modernidade é o tempo das imagens. A imagem fotográfica é o centro imóvel do vórtice do novo, o mesmo novo que dessacralizou a vida eterna e engendrou a materialização física de lugares do nada para sempre, os cemitérios modernos. Projectar um cemitério encerra o absurdo funcionalista de projectar para a eternidade, para uma singular função mais perene que a sua materialização. São lugares outros da modernidade e da sua aparente superação, lugares que se descobrem nas imagens. Guido Guidi fotografou obsessivamente um destes campos de imagens eternas, o que Carlo Scarpa desenhou para a família Brion. As várias campanhas fotográficas que Guido Guidi tem conduzido desde 1996 no cemitério Brion desvendam a temporalidade cíclica deste campo sagrado, levando a pensar numa inversão de vectores, hipotizando que o projecto aprendeu das imagens. De facto, se a função dura mais que a arquitectura, são as imagens e não os usos que mudam a arquitectura. As imagens de Guidi revelam as modulações e os ciclos desta mutação: a assonância, a variação, a fuga, a lateralização, ou o salto entre narrativas. Nesta exposição, as imagens de Guidi são o modo de expor, de colocar em diálogo a arquitectura de Scarpa.”Joaquim Moreno e Paula Pinto, curadoria de Guido Guidi/Carlo Scarpa, Tomba Brion© Marcello Galvani[...]



os melhores I

Tue, 09 Dec 2014 19:36:00 +0000

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Sequester (Fw Books), Awoiska van der Molen

Os melhores fotolivros de 2014 para o crítico de fotografia Sean O'Hagan do The Guardian estão aqui



Cecil Beaton

Thu, 04 Dec 2014 23:37:00 +0000

Cecil Beaton, Marilyn Monroe, Portraits & ProfilesRetratos com câmara e caneta(Lucinda Canelas, Público, 03.12.2014)A avaliar pela quantidade (e qualidade) das exposições e livros que lhe têm sido dedicados nos últimos anos, talvez não seja exagero dizer que o britânico Cecil Beaton (1904-1980) se tornou tão famoso como as estrelas que fotografou durante mais de 50 anos. Estrelas do cinema e da música, das artes plásticas e da literatura, como Marilyn Monroe, Greta Garbo, Grace Kelly, Mick Jagger, Colette, Francis Bacon, Aldous Huxley ou Lucian Freud passaram pela sua câmara e também pelas páginas do seu diário tantas vezes cínico e corrosivo, que manteve entre 1922 e 1980.Cecil Beaton: Portraits & Profiles (edição Frances Lincoln, 2014), compilação organizada pelo seu biógrafo, Hugo Vickers, já tem uns meses nas prateleiras das livrarias mas merece bem um olhar mais atento e pode ser uma boa sugestão para as festas que se aproximam. Porquê? Porque é um volume que combina a fotografia sofisticada de Beaton, tantas vezes elogiosa para o modelo, com excertos dos seus textos cuidados e francos – é o mínimo que se pode dizer – que chegam a raiar o insulto quando se trata de falar, por exemplo, da designer de moda Coco Chanel ou da actriz Elizabeth Taylor. Comum aos dois registos - o da câmara e o da caneta, ambos reflexo de um autor talentoso – é o olhar incisivo do homem a quem se devem retratos icónicos do século XX e a quem, graças aos comentários verrinosos e cheio de duplos sentidos, o poeta francês Jean Cocteau chamava “Malice in Wonderland”. “Ele era um homem de grande inteligência visual”, escreve Hugo Vickers na introdução de Portraits & Profiles, um texto curto em que fala um pouco do seu método de trabalho quando fotografava em estúdio – foi também repórter de guerra (norte de África, Médio Oriente e Índia), escritor, figurinista, cenógrafo e decorador de interiores – e do seu hábito de registar em palavras os seus modelos, fosse em frases soltas, fosse em forma de pequenas biografias. “Cecil identificava as falhas de cada um e trabalhava para as eliminar”, explica, acrescentado que o britânico fotografava quem queria e que foram poucos os que lhe disseram “não” (a escritora Virginia Woolf está entre eles).Com Audrey Hepburn, por exemplo, Beaton escolheu uma pose para lhe esconder o pescoço demasiado fino, o queixo pontiagudo e o nariz longo, escreve o biógrafo e organizador do volume. Com Marilyn Monroe decidiu persegui-la pelo seu quarto de hotel durante 45 minutos, disparando sem parar. Quando se sentou para escrever sobre ela, mal deu por terminada a sessão, fez notar a sua ingenuidade, falou de uma criança a brincar no mundo dos adultos e vaticinou-lhe um fim triste: “A sua voz tem a sensualidade da seda ou do veludo”, diz, e a “verdade desconcertante é que Miss Monroe é uma sereia de faz-de-conta, tão pouco sofisticada como uma criada do Reno, tão inocente como um sonâmbulo”.Já com Liz Taylor, Cecil Beaton foi tudo menos complacente - “Ela é tudo o que eu não gosto”, escreveu. “Sempre abominei os Burton [Liz e o marido, o actor Richard Burton] pela sua vulgaridade”, admite, indo ainda mais longe: “Os seus seios, enormes e caídos, eram como os de uma camponesa a amamentar o filho no Peru”, “comparada com ela, qualquer pessoa é delicada”.Mas nem só as actrizes passam pelos seus settings elaborados – para Beaton, pensar a fotografia é, antes de mais, pensar o cenário em que ela acontece - nem pelas páginas dos seus cadernos. O artista plástico Salvador Dalí tinha mau hálito, o pintor Lucian Freud revelou-se um “ser humano profundamente vibrante” e o amigo Francis Bacon era de um “charme tremendo”; Aldous Huxley, como acontece[...]



Deutsche Börse 2015 - Os nomeados

Wed, 03 Dec 2014 14:05:00 +0000

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Nikolai Bakharev, s/t #70, da série Relation, 1991-1993
© MAMM, Moscow/Nikolai Bakharev


Já são conhecidos os quatro finalistas do Deutsche Börse Photography Prize 2015: Zanele Muholi (África do Sul); Mikhael Subotzky (África do Sul); Viviane Sassen (Holanda); e Nikolay Bakharev (Rússia).
Resultado da importância dos fotolivros na cena fotográfica contemporânea, há dois artistas nomeados pela publicação de novas obras: Muholi, pela publicação de Faces and Phrases (retratos da comunidade LBGT sul-africana acompanhados por relatos de violência e discriminação), e Subotzky, pelo monumental Ponte City, trabalho hercúleo levado a cabo com o editor da revista Colors, Patrick Waterhouse, que se centra no quotidiano daquela que foi uma torre de habitação de elite em Joanesburgo, o edifício residencial mais alto do país, e que hoje está votada ao quase abandono. São mais dois trabalhos que lidam com o legado post-apartheid, um universo que tem ocupado muitos fotógrafos sul-africanos, como Pieter Hugo.
Viviane Sassen, uma das mais talentosas fotógrafas de moda da actualidade e criadora de ambiciosos fotolivros, foi nomeada pela exposição Umbra, que esteve no Nederlands Fotomuseum.
O antigo mecânico Nikolai Bakharev foi nomeado por uma exposição na Bienal de Veneza que mostra banhistas em praias russas. As imagens, com um pendor ambíguo entre o erotismo e os limites dos costumes, foram captadas nos anos 80, quando os nus eram proibidos e o quotidiano um tema pouco documentado.
Os trabalhos dos finalistas será mostrado na Photographers’ Gallery de 17 de Abril a 7 de Junho de 2015. O vencedor, que ganhará um prémio de 38 mil euros, será anunciado a 28 de Maio.
O júri é composto por Chris Boot (Aperture Foundation); Rineke Dijkstra (artista); Peter Gorschlüter (MMK Museum für Moderne Kunst); e Anne Marie Beckmann (curadora, Art Collection Deutsche Börse).
O Deutsche Börse Photography Prize (antes designado Citigroup Photography Prize) foi lançado em 1996 pela Photographers’ Gallery, de Londres. Desde 2005 que conta com a parceria do Deutsche Börse Group. O seu principal objectivo é reconhecer e recompensar o trabalho de um fotógrafo vivo, de qualquer nacionalidade, que tenha contribuído de forma significativa para a fotografia na Europa nos doze meses do ao anterior. É um dos mais prestigiados galardões do mundo e já atribuiu prémios a nomes reconhecidos da fotografia contemporânea como Paul Graham, Jüergen Teller, Rineke Dijkstra, Richard Billingham ou John Stezaker.





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vamos à feira

Fri, 28 Nov 2014 17:05:00 +0000



Não é a black friday (ainda bem), não haverá multidões sôfregas à porta, nem atropelos. Mas haverá muitos livros de fotografia à venda. Começa hoje a 5.ª Feira do Livro de Fotografia na Fábrica Braço de Prata, em Lisboa. Criada em 2010 por iniciativa do colectivo de fotógrafos "Os Suspeitos" e do espaço de exposições da Fábrica Braço de Prata, esta feira tem sabido cativar gente interessanda por livros de fotografia: novas publicações, livros em segunda mão, dummys e publicações de autor. A organização anuncia acertadamente que até ao dia 30, a Fábrica Braço de Prata "converte-se na maior livraria em Portugal especializada em fotografia, apresentando novidades editoriais, projectos independentes, edições raras ou fora de catálogo, maquetes e edições de autor".
Para que não se esgote num faceta puramente comercial, durante todo o fim-de-semana, a feira de Braço de Prata organiza várias mesas redondas em torno das mais diversas questões do universo da fotografia.
Algumas mesas redondas:

Sexta, 28, 19h
>Como se ensina a fotografia hoje? Qual são as especificidades e a missão das escolas?
António Lopes, Diretor Pedagógico da APAF, fotógrafo, Professor e Crítico de Arte
Rogério Taveira, Coordenador do Mestrado em Arte Multimédia, Vice-Presidente da Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa
José Fabião, ETIC, Gestor Pedagógico da Área, FOTOGRAFIA // HND In Art and Design
Bruno Santos, Professor de Projeto e Tecnologias (Fotografia), Escola Artística António Arroio
Bruno Pelletier Sequeira, Coordenador do Atelier de Lisboa

Sábado, 29, 16h
>Dinâmica e sinergia no campo da fotografia e da edição e novos serviços de produção editorial para os autores
Rui Poças, Pickpocket Gallery
Téo Pitella, Galeria/Livraria 1359
Luís Henriques, Homem do Saco

Domingo, 30, 16h
>Sobre o Anuário da Tipo.pt, o Portuguese Small Press Yearbook 2014
Conversa a volta do livro “Imprisoned Spaces/Espaços Aprisionados” do fotógrafo Pedro Lobo
Pedro Lobo (autor)
Alexandre Pomar, jornalista e crítico de arte co-fundador da Pequena Galeria
Filipa Valladares, curadora e produtora independente, co-fundadora da livraria Stet

A entrada na feira é livre.
A programação completa pode ser consultada aqui

Fábrica de Braço Prata
Rua da Fábrica de Material de Guerra, Nº 1
1950-128 Lisboa
Horário:
Sexta-feira 28: 18h - 23h
Sábado 29: 15h - 23h
Domingo 30: 15h - 20h




Alfred Wertheimer 1929 - 2014

Sun, 02 Nov 2014 23:12:00 +0000

The KissAlfred WertheimerEle não fazia ideia quem era Elvis, mas apanhou-o melhor do que ninguém"Elvis who?". Quando a assessora de imprensa da editora RCA Anne Fulchino pediu a Alfred Wertheimer para acompanhar uma nova estrela da editora, em 1956, o fotógrafo não fazia ideia quem era Elvis Presley. Wertheimer andava nessa altura a tentar a sua sorte como fotógrafo de moda, mas não era isso que queria fazer. O fotojornalismo era o seu principal objectivo. Através de um fotógrafo da revista Life foi apresentado a Fulchino. A assessora gostou do seu trabalho e propôs-lhe que acompanhasse Elvis durante alguns dias. Décadas depois, por causa dessas imagens, Wertheimer tornou-se mundialmente famoso. O fotógrafo que conseguiu captar algumas das imagens mais icónicas do rei, morreu na semana passada, aos 85 anos, em Nova Iorque.“Não houve nenhum fotógrafo que Elvis tivesse deixado chegar tão perto da sua vida e da sua intimidade como o fez Alfred”, disse Priscilla Presley, mulher de Elvis.As fotografias captadas durante as sessões de 1956 seriam usadas nas contra-capas de discos e algumas seriam distribuídas pelos jornais. A ideia era passar facilmente a imagem de Elvis em acção nos concertos, nos bastidores e em alguns aspectos da sua vida privada. O dinheiro que Wertheimer receberia em troca deste trabalho daria para pagar os rolos a preto e branco, as provas de contacto e as deslocações e, de vez em quando, uma ou outra refeição. Quando quis retratar Elvis a cores, a RCA achou que não era boa ideia e o fotógrafo teve de pagar os rolos do seu bolso. Em contrapartida, ficou com os direitos sobre os negativos e com o dinheiro da venda destas imagens para outras publicações. Um negócio que veio a revelar-se bem mais lucrativo para o homem da máquina fotográfica do que as duas partes alguma vez podiam imaginar. Com acesso privilegiado a locais onde o comum dos fotógrafos nunca poderia estar, Wertheimer acompanhou Elvis durante apenas dez dias, em diferentes ocasiões. Durante essas sessões captou cerca de 450 fotografias. Essas imagens são talvez as que melhor transmitem todo o caldeirão de sentimentos e situações que envolveram o cantor no ano em que foi definitivamente catapultado para a fama. O ano em que gravou Hound Dog e Don’t Be Cruel, o 45 rotações mais vendido da década. O ano em que Elvis se tornou um ídolo para os adolescentes americanos. O ano em que deu os primeiros passos rumo ao estatuto de celebridade. Um tempo em que se entregava sem receios à objectiva. Uma proximidade que ficou demonstrada enquanto Elvis gravava Hound Dog e Don’t Be Cruel, enquanto lia correspondência de admiradoras, enquanto comia sozinho ou olhava pela janela do comboio. Uma proximidade que chegou à intimidade com The Kiss, a imagem mais conhecida de Wertheimer que mostra Elvis de língua colada a uma rapariga nos bastidores.Pouco depois de uma grande exposição dedicada ao trabalho de Wertheimer sobre Elvis no Smithsonian Institution’s National Portrait Gallery, em 2010, a rapariga do beijo haveria de se revelar através de uma reportagem publicada na revista Vanity Fair. Na altura, Junho de 1956, Alfred Wertheimer não perguntou quem era aquela mulher que enfeitiçou Elvis e garante que ninguém do círculo restrito do rei sabia. Nem ele. A incógnita durou muito tempo, mas não foi por causa das feições da rapariga se esconderem na perspectiva. Entre as fotografias onde aparece a mulher que encantou Elvis na noite em que estava prestes a actuar para milhares de pessoas no Mosque Theatre, em Richmond, há muitas em que esta enfrenta a câmara sem rodeios. Apenas três meses depois do beijo na ponta da língua, The Kiss foi parar às páginas de uma publicação e[...]



BESPhoto - balanço

Thu, 09 Oct 2014 20:31:00 +0000

BESPhoto 2014© David RatoO que se ganhou (e o que se perdeu) (crónica, ípsilon, 06.06.2014, sendo que, entretanto, já mudaram algumas coisas)Isto desde que o Jorge Jesus e a Paula Rego deram as mãos e trocaram piropos dentro de uma chaminé gigante em Cascais, futebol e arte são um só. Por isso, vamos lá.Aqui há dias, a conquista da décima orelhuda pelo Real Madrid deu-nos um pouco de tudo. Foi uma final da Liga dos Campeões memorável a vários níveis: houve espectáculo, intensidade, drama, surpresa, reviravolta, imprevisibilidade, nervos e espanto. Houve vários momentos fotográficos (incluindo, claro, o de Ronaldo a exibir sem pudor a massa de que é feito) e um ou outro cinematográfico (como o de Sérgio Ramos a marcar milimetricamente o golo do empate a segundos do fim). Houve um duelo titânico de dois rivais muito próximos, que perceberam que só o facto de terem chegado aonde chegaram os transformaria em heróis. Seria a décima taça orelhuda para uns, a primeira para outros. Ficou o Real com ela, como bem sabemos, e agora dizem que foi ultrapassada uma pequena maldição — a da décima, que escapava aos merengues desde 2002. Pelo grito de raiva que significou, e como a arte da bola tem estado tão ligada a outras artes ditas belas, a conquista da décima pelo Real Madrid talvez seja um bom exemplo para outras décimas. Ainda que o campeonato seja outro, a décima do BESPhoto, que este ano se cumpre, bem pode olhar para o que se passou no Estádio da Luz e de lá tirar a inspiração para chegar à 11.ª, à 12.ª… (momento terapia de casal: parece que o que custa mais são os primeiros dez anos). Sou pela diversidade. Acho que o Prémio BESPhoto faz falta. Ao longo dos anos, o verniz estalou várias vezes. Houve quem recusasse a nomeação (João Maria Gusmão/Pedro Paiva, Paulo Nozolino, Luísa Cunha). Houve quem questionasse se havia photo no BESPhoto, houve quem duvidasse se o carro do júri de nomeação tinha gasolina suficiente para ir até ao Porto. Quem pusesse em causa os critérios (ou questionasse se haveria mesmo critérios…). E, claro, não podia faltar quem falasse em compadrios. No BESPhoto vi trabalhos muito bons e trabalhos muito maus. Paciência, o prémio não foi feito para me agradar. Nem a mim, nem ao meu dentista. Foi feito para distinguir criação artística com base na linguagem fotográfica (em sentido muito amplo, como se tem notado). E eu, nesta fase do campeonato, prefiro olhar para o que se ganhou: ganhou-se estímulo para as práticas fotográficas que se situam fora da tradição documental; ganharam-se boas exposições; ganharam-se bons catálogos de fotografia; ganharam-se discussões sobre a imagem fotográfica e não só (coisa que raramente se faz em Portugal); ganhámos artistas que desconhecíamos; ganharam artistas muito bons que nunca tinham ganho quase nada; ganharam as galerias dos nomeados e dos premiados… ganhou a fotografia (em sentido muito amplo, como se tem notado).Durante a última inauguração no Museu Berardo, retive duas palavras ditas a propósito desta décima: “perseverança” e “coragem”. Acho que são qualidades que se podem colar a um prémio que tem sabido ser teimoso em relação a um país onde tudo acaba prematuramente, e onde, por estranho que pareça, se desdenha o que é, em geral, bem feito.Para já, no placard do BESPhoto a arte está a ganhar ao dinheiro. Oxalá o resultado neste jogo se mantenha e o árbitro não faça soar o apito final.E o que se perdeu? Pouca coisa. Quase nada.BESPhoto 2014© David Rato[...]



o último BESPhoto?

Tue, 07 Oct 2014 20:29:00 +0000

Vostok© Letícia RamosO BESPhoto tem 10 anos e vai ser o que tem sido (ípsilon, 06.06.2014)Já não há grandes dúvidas, mas quem ainda as tenha só precisa de olhar para o enfiamento das três salas que abrigam as exposições do BESPhoto 2014 no Museu Berardo, em Lisboa, para ter a certeza de que é muito mais do que fotografia o que aqui se mostra. O que vemos a partir da porta de entrada é a exploração dos limites plásticos e cénicos das práticas fotográficas que, passo a passo, vão esboroando aqueles que foram durante décadas os seus formatos criativos tradicionais. As propostas de José Pedro Cortes, Délio Jasse e Letícia Ramos (os três nomeados de uma edição que comemora um número redondo, dez anos) não defraudam a imagem de marca de um prémio que escolheu, para além do nome, o suporte, a linguagem e a prática fotográficas como ponto de partida. E que, ao longo destes últimos dez anos, tem procurado mostrar como são infinitas as possibilidades da fotografia e como com ela se podem percorrer múltiplos caminhos, vias alternativas, todo o tipo de paragens e apeadeiros desse imenso caldeirão onde fervem as artes plásticas.O anfitrião do Museu Berardo, Pedro Lapa, chamou exactamente pela riqueza dessa diversidade quando, na inauguração das exposições, chegou o momento de fazer o elogio do percurso até aqui traçado. Pouco depois, em conversa com o Ípsilon, lembraria um dos principais propósitos do BESPhoto, que ao longo do tempo tem sido alvo de críticas justamente por se “desviar” das propostas fotográficas mais clássicas. “O que encontramos neste prémio são trabalhos sobre as possibilidades e as tecnologias da imagem. E a relação que essas tecnologias têm ora com a própria história da arte, ora com os seus protagonistas, como a memória, o arquivo, o documento, as convenções ou as subversões das convenções. Esta diversidade é constitutiva do que são hoje as práticas fotográficas. Já não podemos pensar na fotografia como um papel onde é impressa — se calhar de forma analógica — uma imagem. Esse mundo teve o seu tempo.”Num país onde escasseiam as distinções capazes de potenciar trabalhos que tenham a fotografia como base criativa na sua prática conceptualmente mais ampla (excepção talvez para os Encontros da Imagem de Braga), Pedro Lapa destaca ainda a persistência com que o principal mecenas do BESPhoto, um banco, tem encarado o prémio e tentado encontrar formas de garantir a sua continuidade e expansão. Em 2010, a abertura a países de língua oficial portuguesa foi uma delas. “Um prémio que chega aos dez anos merece que se sublinhe a sua perseverança. É de louvar, porque em Portugal este tipo de iniciativas tende sempre a desfalecer ao fim de um certo tempo. Esta, não. Tem continuado. E não só tem continuado como tem expandido o seu programa.”O som vai estar altoUm sinal de como esta teia de relacionamento e de prestígio além-Atlântico vai dando os seus frutos é a maneira como a brasileira Letícia Ramos (S. Antônio da Patrulha, 1976) vê a sua presença no prémio. Num momento em que afirma estar a abandonar as câmaras fotográficas (umas construídas por si, outras oferecidas, outras compradas…), Letícia afirma-se “surpreendida” pela nomeação e elogia a forma “corajosa” como o prémio tem apresentado “um tipo de fotografia que não é convencional”. “A fotografia é um dos suportes do meu trabalho, que é sobre a natureza da imagem, mas eu não sou fotógrafa — sou uma artista que trabalha com fotografia. Fico feliz com este tipo de escolha, porque revela o que o prémio tem sido e o que vai ser.”Como que a lembrar p[...]



recomeçar

Tue, 07 Oct 2014 19:56:00 +0000

(image)
©  Arquivo Municipal de Lisboa

...então, vamos lá outra vez...



*À conversa com...

Wed, 04 Jun 2014 09:59:00 +0000

António Júlio Duarte, Japan Drug, 1997© António Júlio Duarte...António Júlio DuarteDizem que houve casa cheia na livraria STET no lançamento de Japan Drug, o novo livro de António Júlio Duarte, mais um com a chancela da Pierre von Kleist. Foi um livro de gestação demorada, ritmo lento e caminhos em ziguezague, tudo coisas ao gosto do autor. Relato de dois dedos de conversa com um inimigo à mistura – o relógio.(…)Este livro teve um processo de edição demorado, com paragens pelo meio. Passou por rever todo o material que tinha……e foi desta viagem ao Japão que nasceu também o Deviation of the Sun…Sim, os trabalhos do Japão não estavam resolvidos. Faltava fazer qualquer coisa com eles, só que ainda não tinha encontrado uma forma definitiva. Acho que agora estão fechados. Estes livros obrigaram-te a rever o teu percurso?Foi interessante. Todo o processo foi interessante, era uma coisa que nunca tinha feito – rever um corpo de trabalho que tinha mais de 15 anos. Voltar atrás, ver o que fiz o que não fiz, perceber de onde é que vieram muitas das coisas que estou a fazer agora. E mais curioso do que isso foi encontrar imagens que, na altura, não tinha compreendido. Fazem todo o sentido agora e apontam para coisas que fiz depois. Na altura não soube olhar para elas ou por qualquer circunstância não reparei nelas. Ou então não as sabia mesmo ver. Ainda estou a pensar nisto. Foi muito curioso. Havia imagens de que já não tinha recordação - foi como fotografar outra vez. Tenho a sensação de que os fotógrafos gostam pouco de regressar a trabalhos antigos, muitas vezes porque sentem vergonha deles…É verdade, mas às vezes também é porque já se afastaram muito deles. Mas acho que 15 anos é pouco. Temos uma relação estranha com o tempo agora. É tudo demasiado rápido. Quinze anos não é muito. Há trabalhos que precisam desse tempo. Outros são mais imediatos. Isto faz-me pensar também que os trabalhos nunca estão realmente fechados. Dá sempre para voltar atrás. Pelo menos foi o que senti em relação a este corpo de trabalho. Era um trabalho especial. Foi muito importante para mim. O facto de estar sozinho, de ter trabalhado intensamente durante três meses.Mas esta não foi a tua primeira experiência no oriente...Não, não. Mas foi a mais intensa. Estar sozinho, tanto tempo. E de ter esse luxo de estar ali só para fotografar, sem pensar noutras coisas.Partiste para este trabalho de revisitação com algum preconceito?Não. Isto começou por um convite do Centro Cultural Vila Flor de Guimarães para fazer uma exposição. Eles queriam algo retrospectivo. De momentos que eu achasse importantes. Pensei então que faria mais sentido pegar num único corpo de trabalho. Neste exercício era possível fazer uma coisa que queria ter feito há já algum tempo que era expor apenas provas de contacto, uma coisa que os fotógrafos nunca mostram ou que têm muita relutância em mostrar. Este trabalho prestava-se a isso porque tem um volume grande – são seiscentas provas de trabalho. Sempre as quis ver numa sala. Mas por variadas circunstâncias este livro não saiu na mesma altura que a exposição de parte dessas provas. Fazia todo o sentido que esta escolha fosse confrontada com as provas de contacto. Era isso que estava previsto. Se isso tivesse acontecido era possível ver a maneira como penso, como edito, como escolho a partir de qualquer coisa. Era jogo aberto estaria tudo às claras. Teria feito todo sentido…Ao longo do livro damo-nos conta de um jogo entre artificial e real ou entre aquilo que parece artificial e aquilo que não pode[...]



HCB

Sun, 01 Jun 2014 12:01:00 +0000

George Hoyningen-Huene, Henri Cartier-Bresson, Nova Iorque, 1935© The Museum of Modern Art, Nova Iorque/Scala, FlorençaEntre o antes e o depois da fotografia, Henri Cartier-Bresson(ípsilon, Público, 14.05.2014)Uma retrospectiva entre Paris e Madrid põe um fotógrafo fundamental — a quem devemos boa parte da iconografia mais reconhecível do século XX — em contexto. E acaba de vez com a conversa do “instante decisivo”.“Il ballerino!”, disse em voz alta um italiano. E num ecrã um homem parecia bailar. Punha-se em bicos de pés. Esticava-se, contorcia-se, levantava ligeiramente um pé, outro, até encontrar uma zona de equilíbrio. Fazia movimentos repentinos (meio contorcionistas, meio apalhaçados), erguia o pescoço, espreitava, talvez no encalço de um enquadramento capaz de juntar na mesma linha “cabeça, olhar, e coração”. E, caso esse momento se lhe oferecesse, disparava.O palco deste “bailarino”, deste caçador — fato completo, alto, esguio —, é a rua em bulício, no meio de muitas pessoas, carros a passar, caixas de fruta empilhadas. E o nome é Henri Cartier-Bresson (1908-2004), o fotógrafo superlativo, o dono do olhar que nos deixou boa parte da iconografia fotográfica mais reconhecível (mais matricial e inovadora também) do século XX.Esta amostra da frenética coreografia que Cartier-Bresson punha em prática no seu trabalho foi retirada do documentário-entrevista L’Aventure Moderne (1962), de Roger Kahane, e é-nos mostrada já perto do fim da grande retrospectiva que o Centro Pompidou, em Paris, dedica ao fotógrafo francês (a primeira na Europa depois da sua morte). À frente do ecrã, juntam-se pequenos grupos, que, entre risos pela forma desconcertante como este homem se movimentava de Leica na mão, descobrem um modo de actuação afinal cheio de hesitações, longe da imagem de “fotógrafo-matador” (implacável na caça) que se foi construindo à volta de Henri Cartier-Bresson, talvez o nome que mais se confunde com o da arte a que mais se dedicou: “Observar, observar, observar”. “É pelos olhos que compreendo”, disse um dia o fotógrafo que detestava ser fotografado (e de aparecer em público, de ser reconhecido).Até se chegar ao complexo (e divertido) jogo de pernas cartierbressoniano da exposição (que fica em Paris até 9 de Junho e depois se aproxima de nós: estará na Fundación Mapfre de Madrid de 28 de Junho até 8 de Setembro), é preciso passar por centenas de fotografias (a maior parte cópias de época), muitas das quais imediatamente reconhecíveis por quem tenha o mínimo de cultura visual (não necessariamente ligada à fotografia). Esta opção de manter um bom número de imagens-cliché não é só inevitável — é também consciente e serve para sublinhar uma selecção mais secreta (e politizada), verdadeiro contraforte na interpretação de uma obra que pode não ser assim tão conhecida como se pensa que é. Uma obra conceptualmente muito diversificada, também contrariamente ao que se pensava, e isto muito por culpa do autor, que sempre lutou por dar a máxima unidade formal ao seu trabalho, por si controlado meticulosamente (em reproduções, exposições e livros) ao longo da vida.Até à sua morte, Cartier-Bresson fez questão de supervisionar todas as mostras que incluíssem imagens suas, garantindo que as tiragens eram feitas apenas para essas ocasiões, em um ou dois formatos e utilizando papéis fotográficos com a mesma qualidade de grão, tonalidade e superfície. Sempre dedicou um cuidado extremo às exposições e, muitas vezes, foi enquanto as organizava qu[...]



HCB humanista?

Sun, 01 Jun 2014 11:30:00 +0000

António Pedro Ferreira, emigrantes portugueses em França© António Pedro FerreiraUm fotógrafo humanista pouco dado ao contacto humano(ípsilon, Público, 14.05.2014, com Sérgio C. Andrade)O tempo que baliza o nascimento, o auge e o declínio da fotografia dita humanista corresponde, grosso modo, ao tempo em que Henri Cartier-Bresson se manteve publicamente activo na fotografia, entre 1930 e 1970. A sua prática fotográfica é citada de forma recorrente entre os que se dedicaram a dar expressão a um movimento que privilegiava a pessoa, a sua dignidade e a sua relação com o meio. Mas há também quem duvide deste alinhamento de Cartier-Bresson. Apesar de se poder considerar que a abordagem humanista é intrínseca à fotografia e um dos seus objectos permanentes, é possível delimitá-la entre o momento em que se sentiu necessidade de regressar ao real e o momento em que a fotografia-documento deu lugar à fotografia-expressão (André Rouillé).No arranque dos anos 30, depois de uma década em que se manifestou todo o tipo de vanguardas (surrealistas, abstractas, construtivistas…), um número crescente de fotógrafos assume a vontade de voltar a olhar para o que se passa nas ruas, procurando a “precisão fotográfica” para através dela captar o espírito do tempo.Abalada pela Grande Depressão que estala nos EUA em 1929, a classe operária sofre e os fotógrafos usam as suas ferramentas para dar visibilidade a esse sofrimento. Para afirmar esse desígnio, há um meio que ganha cada vez mais importância: a imprensa fotográfica (entre muitas outras, a Vu, a Life e a Paris-Match, fundada em 1949, que tornou célebre o lema “le poids des mots, le choc des photos”, ou seja “o peso das palavras, o choque das imagens”). E também meios técnicos de fácil manuseamento (Leica, Rolleiflex), que fixam o quotidiano de uma maneira inovadora e vívida.A primeira década de produção de Cartier-Bresson enquadra-se nesta corrente que procura um “realismo poético”, nomeadamente com imagens que mostram a descoberta do tempo livre, as várias faces da pobreza ou o quotidiano das cidades. Apesar desta escolha de temas sociais, o fotógrafo Paulo Nozolino, que conheceu Cartier-Bresson em Paris, não identifica na sua obra nenhum traço da fotografia humanista. “Era um esteta, um formal e um dogmático. Encontro uma prática humanista em W. Eugene Smith (1918-1978) ou em Robert Capa (1913-1954), mas em Henri Cartier-Bresson não.” Para Nozolino, Cartier-Bresson “não era um fotógrafo da emoção”, e o facto de fotografar com uma lente de 50 mm colocava-o “longe do sujeito, sem contacto com ele”. “Há algumas fotografias dos primeiros tempos, sobretudo as que fez em Espanha, que ainda podem ter algum calor, mas o resto não.”O fotojornalista do semanário Expresso António Pedro Ferreira, que estagiou entre 1982 e 1984 na Magnum, onde se cruzou com o fotógrafo francês, reconhece em Cartier-Bresson um pendor humanista, mas sublinha “a frieza, às vezes desconcertante”, de muitas das suas imagens mais conhecidas. “Ele é um virtuoso. Quem olha para as suas fotografias dirá que tem o poder da máquina do tempo, que consegue fazê-lo parar no auge de um gesto escolhendo com uma precisão matemática a abertura certa, a composição perfeita, tudo.” Apesar desta destreza, António Pedro Ferreira lembra um lado de Cartier-Bresson pouco dado a contactos pessoais: “Na Magnum, só me davam orientações se eu as pedisse. Como o meu trabalho era sobre emigrantes, fui ver todas as fotografias que tinham s[...]



saramago

Sun, 01 Jun 2014 11:02:00 +0000

© João Francisco VilhenaE Saramago tornou-se paisagem(revista 2, Público, 11.05.2014)Como quer que me vista?— De preto.— De preto, João?— Sim.[silêncio, como quem diz “o fotógrafo é louco!”]— Mas pretos já são os vulcões… Bom, está bem.E José Saramago vestiu-se de preto para a objectiva de João Francisco Vilhena. O fotógrafo não queria que o escritor se destacasse na paisagem, queria que se confundisse com ela, que se perdesse nela. E partiram, em passeio, para a zona do Parque Nacional de Timanfaya, Lanzarote, onde quase tudo é vulcânico. Faltavam poucos dias para Saramago receber o Prémio Nobel da Literatura em Estocolmo (10 de Dezembro de 1998). Esse mega-acontecimento podia ser um peso a vergar a fotografia e a condicionar o olhar do fotógrafo ao culto da personalidade. Nas imagens que ficaram dessa sessão, fotógrafo e fotografado parecem conscientes disso. Dão-nos a simbiose. Dão-nos a terra crestada, a poeira e a solidão. E parece que tentam fugir ao brilho das salas douradas que se avizinha.Nesse dia incerto de Novembro, meteram-se a caminho dialogando, às vezes com uma câmara fotográfica à mistura, numa tentativa de captar um homem na paisagem e nunca um escritor galardoado com a mais alta distinção da sua arte, um nome que aparece nas capas de milhões de livros. Um homem na paisagem e “nas mãos de um fotógrafo”, tão-só (e tão difícil).Depois dessa caminhada fotográfica, trabalho que viria a ser exposto em Estocolmo por ocasião da entrega do prémio, João Francisco Vilhena sentiu que a ligação que tinha presenciado entre Saramago e a terra que adoptou como sua era de tal maneira forte que decidiu voltar. Queria aprofundar uma reflexão que mostrasse como um homem se pode fundir com o espaço, como pode entendê-lo, desafiá-lo. Respeitá-lo. A “inquietação” aumentou de ano para ano. O fotógrafo sentiu que alguma coisa tinha ficado por fazer. Queria mais. Mas aquele momento fotográfico não voltou a repetir-se (na verdade, nenhum momento fotográfico volta a repetir-se).Já depois da morte do escritor, em 2010, João Francisco Vilhena voltou, agora com um guia, os Cadernos de Lanzarote, os cinco diários que José Saramago escreveu entre 1993 e 1995 e onde foi anotando as suas reflexões sobre o quotidiano na ilha, sobre a vida, a morte e o amor. Neste regresso, o fotógrafo experimentou o vazio, apenas preenchido pelas palavras deixadas pelo escritor. “Senti-me a fazer uma viagem no tempo com ele através das paisagens da ilha, através do que escreveu sobre Lanzarote. Rever os mesmos lugares onde estive com Saramago foi violento e dei-me conta da sua ausência de uma forma muito profunda.”O desafio maior passou por encontrar inspiração nas palavras e, ao mesmo tempo, não ficar prisioneiro delas, sobretudo por terem sido escritas por alguém com o peso de um Nobel. “Não quis fazer um exercício mimético ou de simples ilustração dos escritos. Quis dar a força de uma relação e de um ambiente muito particular, que levou alguém a expor-se em termos sentimentais de uma forma absoluta e fantástica.”A relação que José Saramago tinha com Lanzarote era profunda. E João Francisco Vilhena compreendeu-a através das fotografias que captou, antes e depois do seu desaparecimento. “Saramago tornou-se paisagem através da sua vivência na ilha. Os habitantes relacionam Saramago com a ilha. São um”, diz o fotógrafo, que ontem apresentou em Matosinhos o livro Lanzarote — A Janela de Saramago (Porto Editora). Na Galeria[...]



cem

Fri, 30 May 2014 11:51:00 +0000

António Júlio Duarte é uma das escolhas da EXIT© Enric Vives-Rubio/PúblicoQuatro portugueses entre os cem que fazem da fotografia europeia o que ela é(ípsilon, Público, 30.05.2014)A ambição da editora espanhola EXIT (responsável pela publicação da revista EXIT, Imagen & Cultura) é fazer com que o livro 100 Fotógrafos Europeos se transforme num vade-mécum actualizado da fotografia do Velho Continente — uma espécie de farol para desorientações súbitas nas águas sempre saturadas da imagem fotográfica. E entre os cem nomes escolhidos pela editora dirigida por Rosa Olivares (jornalista, crítica, editora, curadora…) há quatro artistas portugueses: António Júlio Duarte (que lançou uma nova monografia recentemente, Japan Drug); Augusto Alves da Silva; Daniel Blaufuks (que deverá inaugurar uma individual em Dezembro, no Museu do Chiado); e Nuno Cera (que tem nova exposição de instalação-vídeo no mesmo museu). Para este “atlas básico”, como lhe chama a editora, foram seleccionados não só artistas cujo trabalho tenha alcançado “um papel essencial” na fotografia das últimas décadas (Thomas Demand, Rineke Dijkstra, JH Engström, Patrick Faigenbaum, Andreas Gursky, Loretta Lux, Martin Parr, Wolfgang Tillmans…), como também aqueles que “apesar de não terem alcançado muita visibilidade” foram “essenciais” para o desenvolvimento da linguagem fotográfica nas suas zonas de influência criativa (Jacob Aue Sobol, Carla Van de Puttelaar…). Todos nasceram a partir de 1950, o que quer dizer que a grande maioria terá começado a construir obra desde o final dos anos 70. E quer dizer também que terão contribuído para a afirmação definitiva da fotografia como disciplina das belas-artes e para sua entrada nas galerias e nos museus como um dos suportes plásticos mais poderosos do século XX. Mas como estas duas “vitórias” já pertencem ao século passado, 100 Fotógrafos Europeos (que custa 50 euros, tem mais de 400 páginas e pode ser encomendado pelo site www.cataclismo.net) procurou ainda os fotógrafos marcantes que podem considerar-se herdeiros de uma prática fotográfica que “não tenta convencer ninguém, nem sequer os próprios, de que aquilo que fazem também é arte”.Para a editora, o problema desta selecção não são as críticas que surgirão (“de ânimo leve”) pela falta de um ou outro nome que consideraríamos obrigatório, mas “as centenas de nomes” que não sabemos sequer que existem e que “estão a fazer um trabalho excelente”. A esses, a EXIT admite que não consegue chegar “por falta de informação” ou por “escassa ou nula” mobilidade dos seus trabalhos no mundo da arte. “São lugares que ainda não foram descobertos, ilhas isoladas, com rotas inexistentes” no movimento da arte actual. A esperança é que, a partir destes 100 nomes, outros cartógrafos possam descobrir outros 100. E talvez assim os consigamos colocar no mapa.[...]



PHE14

Mon, 26 May 2014 18:05:00 +0000

Gustavo Lacerda. Marcus, Andreza, y André. Da série Albinos, 2014© Gustavo LacerdaVemo-nos no PHotoEspañaMaria Paula Barreiros, com Sérgio B. Gomes(Público, ípsilon, 21.05.2014)O programa da 17.ª edição do PHotoEspaña foi anunciado oficialmente na última semana, no Círculo de Bellas Artes de Madrid, e a proposta para 2014 é deixar que Espanha olhe para Espanha. De 4 de Junho e até 27 de Julho (com exposições que se prolongam até Setembro) há 108 núcleos expositivos e 440 artistas, 317 deles espanhóis, para ver entre Madrid e as cinco cidades-satélite do Festival de Fotografia e Artes Visuais: Alcalá de Henares, Zaragoza, Alcobendas, Getafe e Cuenca.O carácter mais introspectivo do PHotoEspaña 2014 pode ser sinal dos danos colaterais da crise económica e financeira mas a programação é abrangente e estende-se da memória colectiva (na Biblioteca Nacional vai ser possível ver Fotografia en España 1850-1870 e na Fundación Telefónica Arissa, La sombra y el fotógrafo, 1922-1936) à emergência de novos autores (Fotografia 2.0 reúne mais de 20 fotógrafos nascidos após 1970, uma das exposições no Círculo de Bellas Artes com patrocínio da Fundación Banco Santander).Os retratos de Chema Conesa (jornalista, fotógrafo premiado, com uma carreira que começou em finais dos anos 70 no diário El País) vão abrir oficialmente as actividades do PHotoEspaña já a partir da próxima segunda-feira. É uma aposta sobretudo mediática a que vai estar nas paredes da Sala Comunidad Madrid-Alcalá 31. Retratos de Papel são 30 anos de uma sociedade que passou pelas páginas e revistas dos principais jornais espanhóis, de empresários a actores, de escritores a investigadores científicos, de pintores a políticos.Entre as mostras individuais está Autorretrato, de Alberto García-Alix. É talvez um dos fotógrafos mais populares e consagrados de Espanha e a primeira edição do PHotoEspaña, em 1998, já lhe tinha dedicado uma retrospectiva, momento que o próprio assumiu como tendo sido o motor para o reconhecimento futuro da sua carreira, que um ano depois era novamente premiada com o Prémio Nacional de Fotografia. O próprio festival, que distingue anualmente um fotógrafo, dedicou-lhe o prémio em 2012 (no ano passado, o Museu da Electricidade acolheu Pátria Querida, o olhar de García-Alix sobre as Astúrias e a primeira exposição do fotógrafo em Portugal).Outro dos grandes destaques da edição deste ano é a exposição Fotos y Libros. España 1905-1977, que percorre a história dos fotolivros espanhóis desde o início do século. O comissário desta mostra, Horacio Fernández, é um dos principais responsáveis pelo interesse crescente nas publicações que usam a fotografia como principal suporte criativo e plástico. Em 2000, publicou Fotografía Pública: Photography in Print 1919-1939, um dos primeiros estudos sistematizados sobre fotolivros à escala global, e, em 2011, lançou El Fotolibro Latinoamericano, depois de sete anos de estudo das principais publicações na América Latina. A exposição que se apresentará no Reina Sofia será vertida num catálogo.Diego Collado. Recuperación de Datos, 2010-2014©  Diego Collado[...]



japan

Fri, 23 May 2014 11:19:00 +0000



Japan Drug (ed. Pierre von Kleist) é a nova monografia de António Júlio Duarte. O lançamento é hoje na livraria STET, Rua do Norte, 14-1º andar (ao Camões), Lisboa, entre as 18h30 e as 21h.

It was 1997 and the new millennium was imminent, one could feel the tense anticipation about what was to come next. I was alone in Japan, a place I had never been before. During the day I would go out looking for my own sense of the place, photographing, exploring notions of center, a place of convergence, as the world expanded before me in its uncertain course. Many years have passed and I felt a need to go back to these images.The millennium is long gone but the vertigo of uncertainty is yet to disappear.

António Júlio Duarte






Fauna & Flora

Fri, 23 May 2014 08:30:00 +0000

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© Ricardo Cases


Vale a pena conhecer o trabalho de reflexão que tem sido desenvolvido no projecto Fauna & Flora, à volta da representação de animais e plantas na fotografia. João Bento escreve sobre o que o move neste tema no segundo número da plataforma portuguesa Animalia Vegetalia Mineralia.



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© Helen Sear



Paolo Pellegrin

Thu, 22 May 2014 18:05:00 +0000

© Paolo Pellegrin/Magnum Photos"Sempre que pressionamos o botão da câmara damos voz a uma impressão do mundo"Vera Moutinho, Sérgio B. Gomes(Público, 19.04.2014)O italiano Paolo Pellegrin (Roma, 1964) é um dos fotojornalistas mais premiados do mundo. As distinções e as bolsas de trabalho que lhe foram atribuídas ao longo dos últimos 25 anos impressionam não só pela quantidade (soma dez World Press Photo) mas sobretudo pela sua origem, um currículo onde aparecem algumas das mais reputadas instituições ligadas à fotografia: Leica Medal of Excellence, Robert Capa Gold Medal Award, W. Eugene Smith Grant in Humanistic Photography...Decidiu estudar fotografia em meados dos anos 80, depois de ter abandonado um curso de arquitectura. Em 1991, comprou um carro em segunda mão, encheu-o com todo o trabalho que tinha feito e guiou até Paris, onde convenceu o patrão da Agence VU’, Christian Caujolle. "Não foi difícil entrar", revela-nos numa conversa telefónica. A dificuldade veio depois: não queria defraudar expectativas. A região dos Balcãs esteve várias vezes sob escrutínio do seu olhar, que procura sobretudo um tipo de fotografia que permanece “inacabada”. Em 2000, tornou-se fotógrafo nomeado pela cooperativa Magnum, e, em 2005, passou a ser membro efectivo da agência.Nos últimos dois dias, esteve em Portugal para presidir ao júri da quinta edição do Prémio de Fotojornalismo Estação Imagem/Mora 2014 (único do género em Portugal), ao lado de Alessandra Mauro, curadora de fotografia, Christopher Morris, fotojornalista da agência VII, Pablo Juliá, director do Centro Andaluz da Fotografia, e Jérôme Sessini, fotojornalista da Magnum. Os prémios serão hoje revelados, em Mora, no Alentejo.Com uma carreira de quase 25 anos, está cansado de imagens?A fotografia, como a linguagem, está em constante evolução. Sou um fotógrafo diferente hoje do que era há alguns anos. Nesta evolução, nesta mudança da minha linguagem visual, há um interesse contínuo na investigação.Lembra-se do último trabalho de fotojornalismo que o impressionou?O fotojornalismo é uma das formas - não a única, certamente – de me relacionar com os acontecimentos. Jornalismo e fotojornalismo. E não só, literatura, cinema... Interesso-me por exemplo pelo Médio Oriente, pela Síria, pela questão dos direitos humanos, ambientais... Mas especificamente, entre outros exemplos, um trabalho que me vem imediatamente à cabeça é o do Jérôme Sessini em Kiev, na Praça Maidan, de fotografia e vídeo. Impressionou-me profundamente.Estudou arquitectura antes de estudar fotografia. Isso deu-lhe alguma vantagem como fotojornalista?Tudo o que fazemos traduz-se na voz fotográfica. Os livros que lemos, os filmes que vemos, as pessoas que amamos. Tudo se torna a nossa voz. A arquitectura, sobretudo nesses anos de formação, ajudou-me com certeza a pensar em termos espaciais. A organizar elementos no espaço, que é obviamente uma das coisas que a fotografia faz.E o que o fez estudar fotografia? Era algo que já estava presente nessa altura?Os meus pais são arquitectos. A certa altura senti que tinha de encontrar o meu próprio caminho. Romper, de certo modo, com um "ofício" de família. A fotografia combinava uma série de coisas que me interessavam. A fotografia documental, enraizada em questões humanas. O meu pai sempre teve máquinas fotográficas. Estive numa esc[...]