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PRA VARIAR



por SORAYA MAGALHÃES . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . ANÁLISE ONLINE



Updated: 2018-03-05T10:37:05.330-08:00

 



AUTOCONHECIMENTO?

2016-08-30T17:54:59.546-07:00


"Você, quando faz essa cara, eu já sei. Te conheço muito bem"!

Como não havia espelhos por perto, ele jamais soube que cara era aquela, tão fácil de decifrar. À qual expressão ela se referia como sendo a personificação perfeita do seu mais íntimo ser. Aquilo que seria a auto (dele)- definição (dela).
Logo ele, que já passeara tanto pelos mundos. Que já vira tanta coisa, tanta gente, tanta história. Que era mesmo chegado a um devaneio e a uma contemplação, mas que se misturava, também, muito bem à multidão... 
Logo ele que, como quase todo mundo, já mudara suas convicções e pratos preferidos tantas vezes... Que já usara cada máscara tão diferente uma da outra, para mostrar e para esconder o que pensava...
Não teve jeito. 
Desta vez, — ela alegava: —  fora descoberto em praça pública. Por um simples olhar e morder de lábios. 
O interessante é que, à medida que ela narrava e descrevia aquele que deveria ser perfeitamente apreensível num instante, ele de nada sabia. Não se reconhecia mais naquela roupa que, um dia, já parecera lhe caber bem. 
A mesma expressão de outrora, hoje era usada para outros assuntos. E por mais que, na fotografia, ela insistisse, no canto do olho se podia perceber tudo muito diverso.
Ela, inquisidora, ordenava-lhe a confissão. 
Ele, estranhando, só sabia-se EM CONSTRUÇÃO.

E continua...







ESTÁVEL

2016-05-03T18:31:48.031-07:00



A samambaia de minha tia nunca deu trabalho. Não secou por falta de água, não murchou ao sol, não reclamou da sombra, nem uma lagarta sequer tentou comê-la.
Ela estava lá, sempre lá. Onde quer que fosse, ela estaria sempre ali onde a colocássemos. Sem nada a dizer, gemer ou blasfemar.
Assim eram os deprimidos sob controle. Os que tomam medicamentos há 15 ou 20 anos. Sem dar trabalho e sem trabalhar também. Sem sorrir ou chorar ou tentar cortar os pulsos. Sempre ali. Sob o sol, sob a chuva ou mesmo a fome.
Tudo sob controle. Devidamente medicados. Mas e o resto da vida?
Aquele resto que espirra? Que reclama do calor e do frio? Aquele que agradece o calor ou o frio? Aquele que liga pros amigos, xinga, ri, e levanta e dança quando toca aquela música? Não qualquer uma. Aquela!!!!
Ah, mas para isso tem que fazer terapia. Custa caro - não importa quanto, o preço é muito alto. É longe. Mal se tem tempo.
Deixa pra lá. 
Vamos ficar assim, samambaias. Choronas por dentro. Mas estáveis por fora.




DA ORDEM DO IMPOSSÍVEL

2016-05-31T06:27:20.231-07:00

Diante do imperativo atual de só ter pensamentos positivos, ela se deitou em feto e se perguntou, ao estilo Jorge Luís Borges: "De quem eram os pensamentos, afinal"?!?
Quase em revolta. Quase. Choramingava, se debatendo.
"Eu? Ter pensamentos positivos? Mas há momentos em que não penso. 
É o pensamento quem me tem. É ele quem me possui. É ele quem toma conta e dá as ordens. Às vezes, o único fator positivo e certo é a certeza de que um dia será o fim."

Onde foi que li historinhas que suprimiram a madrasta, o lobo mau, a bruxa, ou mesmo a bagunça que o Saci Pererê fez? Acho que não cheguei ao final, dormi no meio. Ficou assim sem emoção. Não consegui me identificar com nada.
Onde será que existe este pensamento limpinho, embalado à vácuo?

Se eu purificar meu pensamento, chego ao ponto de exterminar pessoas, alegando que algumas sujam o meu planeta fantástico. 
Então será um pouco problemático, pois estabelecerei critérios de assepsia que variarão de acordo com meu humor do dia. Hoje brigo com um velhinho na fila do banco. Amanhã estabeleço que velhos são sujos e inúteis, e os elimino. Roubo sua aposentadoria. Enveneno sua comida e está feito. 
Já na semana que vem digo que um menor de idade tentou me assaltar e... Está tudo limpo. Saio atirando pela rua de madrugada, Explodo escolas, escondo os livros escolares, saboto as aulas e pronto. Em pouco tempo não haverá um que atravesse a rua e passe por mim. Não haverá um sequer. Termino assim o serviço de Herodes, desta vez sem deixar falhas. Faxina bem feita.
Limpinho assim, né?!? Puro e branco como a neve!
Mas não resolve. Nem adianta.
Você - e todo mundo - terá que se haver com o lado negro da força. E seu pensamento sabe muito bem disto. 
Ah, sabe!



REVISTA CARAS ou INTIMIDADE

2016-05-31T06:30:17.007-07:00

No princípio era o verbo...
Então vieram os jornais, revistas, informativos da igreja, aplicativos just in time... e os livros ficaram pesados demais.
A máxima de adquirir informação como instrumento primordial para a construção de sabedoria ou estratégia de ação foi divulgada aos ventos. Mas de que informação estou falando?
O que me faz comprar uma revista e me deparar com milhares de babados e taças de champanhe se não estou lá naquelas ilhas?
Ora bolas, se eu souber tudinho da vida do outro, fico tão íntima dele, mas tão íntima, que é capaz até de ele me chamar pra próxima feijoada ou batizado na família. 
Por isso eu tenho que saber direitinho a metragem da bunda da mulher do ministro, por isso eu defendo o uso da força e do "atira depois pergunta" como forma de me defender da bala.
Outro dia ouvi de uma pessoa que admiro bastante: "O político X tem boas ideias, mas não gosto dele pois sei muito bem que ele tem uma amante".
Ora bolas de novo, mas isso é problema dele com a Hillary dele. Não meu. é particular demais eu querer saber detalhes tão pequenos de vós dois, se não formamos o "nós".
Meu único interesse nesse caso é: Qual verba ele gasta com isso, se a dele ou a minha? Se a privada, ou se a pública. 
No mais, ele que faça o que bem entender com seu corpo, contanto que não agrida ninguém.
Onde foi que a exigência de castidade começou a vigorar sobre ideias e ações? 
Quando foi que a linha que separa vida íntima de vida pública foi apagada?
Por que me exponho e acompanho, sem piscar, a exposição dos outros sobre o que não me diz respeito?





AUTO IMUNE

2015-09-08T12:39:04.740-07:00


Depois do tratamento começado, remédios tomados, efeitos colaterais controlados, veio a inversão da ordem.
O corpo, afinal, ataca a doença? A doença, afinal, é cria do corpo?
Quem começou essa briga de criança? Quem se defende e quem ataca?
Qual dos dois merece castigo?
Diante do empate, o embate derradeiro:
"Agora sou eu ou você! Um de nós tem que morrer."
Ameaçou o velho menino , debaixo da cama, escondido no escuro.
O barulho lá fora, de pegada forte, de porta sendo forçada, era um conforto diante dos lobos e bruxas lá dentro.
Dentro de onde?
Dentro do corpo, ora bolas. Onde mais?
No lugar mais escondido e protegido possível.
De onde mais viria o ataque? Naquela hora da madrugada?




EM NOME DO AMOR ou VAMOS NOMEAR OS BOIS

2015-09-08T12:13:32.483-07:00


Eu posso até chamar pimenta de sal. 
Rebatizá-la. Fazer cerimônia. Molhar as pontas em água benta e renomear.
Posso registrar em cartório e mudar a filiação. Posso adulterar as datas, falsificar assinaturas, recontar a verdadeira história e dizer que foram descobertos documentos antigos. Que foram feitas pesquisas. Que os cientistas aprovaram.

Mas quando eu colocar na boca...
... vai arder!
Certeza!!!

Eu posso até ouvir gritos e socos na mesa, dizendo que é por amor. Posso aceitar que o dragão lá fora está só prezando por segurança e por isso não deixa ninguém entrar ou sair.  Que é por cuidado que ele sai de casa e volta trôpego, guardando o ruim para a rua. Que é por distração que urubu vira meu loro e o nome é trocado na noite. 

Mas vai ferir!

Posso até dizer que é por limpeza de honra as ofensas e agravos cometidos. Que o ciúme é a maior prova de amor, e das mais puras. E que os escândalos descabidos são por busca de sanidade, para evitar o pior.

Mas machuca do mesmo jeito!

Posso estudar muito e fazer cursos de extensão. Conhecer o mundo e experimentar comidas estranhas. Aprender a negociar e regatear em outra língua. Mas sem nomear as coisas como são, sou nada além de analfabeto. 
Espécie de comida pastosa para quem não desenvolve o maxilar.
O choro contrariado dos bebês e dos bêbados sonolentos.
A contagem atropelada da cantora que pulou o jardim de infância, sem contato com ábaco, entrando na hora do solo.

Mas faltará o básico!
Faltará o nome!
E caberá qualquer palavra errônea, só pra completar a lacuna, preencher a ficha, encher o vazio, empilhar o lixo.

Mas vai faltar espaço!



TUDO

2015-03-25T05:04:39.154-07:00



Na ânsia de enumerar seus feitos, orgulhosa do novo recorde, ela resumiu assim, numa só palavra, o que esperava como recompensa.

Um reconhecimento merecido a quem tanto dedicara a uma só causa.
Um troféu. Uma tatuagem no braço. Uma declaração...
Mas NADA vinha!

Desespero diante de tanta ingratidão. Contas a receber. Cálculos sempre injustos. Desfeita do não-retorno.

Parecia até poesia, se não doesse na carne. Se não doasse. 
Para tanto feito, tanta desfeita:
- Eu fiz TUDO por ele - Repetia. TUDO.

Assim ela sintetizava, poupando-se de enumerar o que nem cabia no mundo mais, de tão imenso.
'Tudo' é sempre muita coisa. É sempre excessivo e aterrador. Plenitude falsa, que inflige grandiosidade e restringe qualquer detalhe. O Tudo finge! 
Qualquer coisa menor, mais simples, coisa de gente mesmo, enfim, perde a importância. Passa despercebido.

Ora bolas, o Tudo é para super-heróis. 
Para quem salva o mundo todo. Para quem tem poderes demais. Não pra quem pega resfriado. Não para quem fica feliz pregando um novo quadro na parede, fazendo um desenho ou um bolo. Para quem se alivia bebendo um simples copo d´água nesse tempo de escassez.
Tudo é muito grande. É muita coisa. Não há mensuração que dê conta.
Impossível mastigar e engolir. Sobra. Cai da boca. Quebra os dentes.
Sobra o que de nada serve. O que ocupa muito espaço e invade. Casa entulhada de coisas pra disfarçar vazios.
No tudo há tanto que falta.
Falta a troca justa e milagrosa do fazer junto.

O que espera receber em troca quem faz tudo por alguém ?
Como se paga? Como se faz também?

Resta só um NADA a se fazer. 
Impotência aterradora. 
Não-ser como única forma de existir.

- Você entra com esse tudo. E me sobra esse nada aqui para colaborar.

Assim foi feita a prova dos nove, contabilizando a relação.



UM CASO ESPECIAL

2014-10-27T04:31:43.799-07:00


"É que no meu caso é diferente". 
- Garantiu!
"Mereço atenção especial e tratamento personalizado. Não que eu seja mais do que alguém, ou me ache o supra-sumo da geração. Isso não. Sempre fui boa de coração e humilde com o próximo. Nasci assim. Foi isso desde pequena. Mas é que sou diferente. De verdade.
Dizem até que sou espírito evoluído.  Talvez por isso, quem sabe, meu caso seja outro.
É que comigo o problema não é meu. Eu nada tenho com eles, que chegam sem serem convidados e se instauram na minha vida sem que eu possa controlar. Eles tomam de assalto meu cotidiano. Enquanto eu simplesmente mudo a TV de canal, enquanto pisco, enquanto nada tenho a ver com isso.
São os outros que me deixam assim. São eles quem provocam minha insônia, minha taquicardia, meus pesadelos. Meus, meus, meus,..., meus pensamentos mais pueris e sujos. 
Não fosse o resto do mundo, eu, que sou especial e diferente, estaria simplesmente em perfeitas condições".




BOM SENSO

2014-11-11T05:53:38.840-08:00

Eu, como Fernando Pessoa, nunca conheci quem tivesse levado porrada.Talvez seja a única coisa em comum. Talvez não.Mas de quem cometesse um deslize,  ou um mau gosto sequer, jamais tive notícias.Todas, e não algumas, mas todas as pessoas que já passaram por mim na vida. Na rua, na chuva, na calçada. Que já puxaram conversa na fila da padaria, ou com quem tive uma aproximação um pouco mais duradoura do que um só momento apenas, talvez uns quatro ou nove, talvez rotina, são dotadas de razão, inquestionável, e de todos os motivos do mundo para agirem desta ou daquela forma.É lógico!É claro!É óbvio!Ó pá, só não vê quem é burro.E nisso formamos times que jamais se modificam, a não ser que um pensamento estranho o corte, condenando-o à exclusão do grupo.É incrível como a droga do outro é sempre mais pesada do que a minha.Como o outro jamais saberá a verdadeira história do rock´n roll.É unânime como uma pessoa dotada de clareza e informações críticas possa chegar a mesma linha de raciocínio que eu. Ou melhor, possa "alcançar" a minha lógica, pois é uma questão de aptidão. Aptidão para poucos.O resto?Ah, o resto é corja. É atraso. É o fim do caminho.Em tempos de eleição, ou mesmo em qualquer tempo, o outro, que pensa diferente de mim, por mais que eu defenda diferenças, é um monstro ignorante e ingênuo. Obtuso mesmo, coitado. Diria até que atrasado. Alguém tão desprezível que não merece nem um microfone aberto. Nem a expressão da dor nem a do amor.Só pode ser maluco. Ou, em tempos de maniqueísmo, só pode ser um "ente do mal".O mais irônico é que, dizem, não se deve contrariar os malucos. Eles, os loucos, os outros, os que não foram dotados com a graça do (meu) bom senso nem da (minha) sensatez, não merecem a contradição. Nem perca tempo!Afinal, ninguém conseguirá demovê-los de suas certezas. E se tem algo que diferencia os malucos de nós, os normais, é que eles não se engajam num diálogo onde valha a minha opinião, já que Possuem sempre a certeza. Seja a de um chip implantado, seja das vozes da tv que se direcionam aos escolhidos, seja do envenenamento da comida. É questão de crença inabalável. E é isto o que os classifica como desprovidos da razão: Não há dúvida. Não há conflito. Não há sequer a bipolaridade. Um "as vezes", um "de vez em quando", um "quando chove",... nada disso existe. É sempre, sempre aquele ser "autêntico e verdadeiro". Indubitavelmente.Esse negócio de saber de tudo... Maluco isso, né?" Não concordo com uma palavra do que dizes, mas defenderei até o ultimo instante seu direito de dizê-la." (Voltaire)[...]



Entre

2015-01-30T18:21:02.741-08:00

Entre a depressão e a falta de educação há um espaço imenso.




COMO VAI VOCÊ?

2014-09-26T17:50:53.756-07:00

A conversa começou assim:Despretensiosa! Quase como um bocejo. Como quem está no elevador e pergunta, só pra passar o tempo, até que se chegue ao destino desejado.Como quem fala do clima, mal preenchendo espaços vazios, e evitando assim qualquer olhar mais demorado, reclama-se do sol que castiga, da chuva que castiga, da seca que castiga, do vento. Um horror! Um horror!... Enfim, em termos de meteorologia, o ambiente é sempre castigo! Afinal, quem mandou comer maçã??? Deu nisso. A sorte é que, como dizia Mario Quintana, no paraíso não haverá este assunto, pois lá a temperatura está sempre agradável.A resposta, no entanto, se fez longa, minuciosa e interminável...Infinita mesmo!Já que infinito é o que não tem início ou fim. É o que não se sabe bem como começa, e por isso não se tem a menor ideia de como, e se, terminará um dia.Repetição eterna do que não faz sentido.Por mais que se sinta, e muito.Resposta detalhada, prolixa, sem fio condutor ou causalidade. Nada do "Era uma vez...", "...Foram felizes", ou mesmo "foram encontrados mortos e abraçados" que tanto encantam. Não há história, estória ou parábola. Não há lição de moral, chiste ou sermão. Não há nada. Nada além das queixas: - Pressão alterada, arritmia cardíaca, dor no ciático que irradia, vesícula preguiçosa, humor alterado, ansiedade crescente, e por aí vai. Descrição total do metabolismo, desde o acordar, repleto de efeitos rebotes, até a insone madrugada, dependente de remédios que nunca, nunca fazem efeito. Eita corpo resistente!!! Há que ser muito saudável pra suportar tudo isso. Tanta prova de que se está vivo, mesmo que vida não haja.E não adianta mudar de assunto pra ver se muda a resposta, não. Se perguntar "O que tem feito?", a resposta será, inequivocamente, uma lista de especialistas que tomam o lugar do inglês, da natação, das viagens e encontros, dos cursos de artesanato, de música ou de teatro. Em troca destes há o Cardio..., o Pneumo..., o Neuro... e o Hemato... Todos com letra maiúscula. Todos com abreviações tomando o lugar dos apelidos amorosos de outros tempos. E um pronome possessivo denotando total intimidade e demarcação de território. Afinal, o doutor não é qualquer um, é O MEU. Ele é quem sabe tudo de mim. Ele conhece exatamente como eu (não) funciono. Do outro lado a pergunta gritando no peito, sem vontade nenhuma de ser falada:"Mas quando foi que nos transformamos em meras descrições nosológicas? Meros efeitos colaterais de nós mesmos?"[...]



NOSSA SENHORA DESATADORA DOS NÓS

2014-04-01T06:23:03.361-07:00

Quando a cabeça fica mais perto dos joelhos do que dos braços, é de se preocupar.
Quando um ombro fica perto do outro, protegendo a garganta, quase em arco, é de chamar o doutor.
Se o doutor ajuda ou não, só Deus sabe. Afinal, doutor é que nem cartomante: a gente nunca sabe se vai acertar ou não na previsão ou na dosagem. A única certeza que temos é que uma bronca virá. Fatalmente!
Mas e nó? O que fazer com ele?
Rubem Alves tem um texto belíssimo sobre o surgimento da pipoca:
Daquele milho duro e pequeno que ninguém queria, houve uma tentativa de destruição definitiva. Jogaram-no ao fogo,  elemento designado como único destino ao que é danoso ou inútil, para que o que não presta queime, incinerado até sua total extinção, talvez até por toda a eternidade. 
É o que dizem...
Mas eis que uma barulheira danada de tiroteio, de bang bang mesmo, mostrando que a guerra ainda persistia, por mais que fingissem que mais nada pudesse afligir, aconteceu. 
E daquilo que ninguém queria, sem serventia aparente alguma, surgiu este outro elemento, branquinho, macio e gostoso, que nos acompanha em cada sessão fantástica de cinema, e que é o alívio pras cenas insuportáveis, angustiantes, protegendo-nos da entrega ao total desamparo. Mesmo que "só" na ficção.
É mais ou menos esse o trabalho do psicanalista. O de transformação do fogo. Mistura de alquimista e cozinheiro, que ajuda a tornar os afetos duros e estéreis em algo melhor para a digestão.
Não me venham com desculpas de que já cuidam do corpo na academia ou no check up anual. De que já tomam toda a medicação prescrita. Ou que já rezam, e muito, para que o espírito não tropece em empecilhos ou tentações, acomodando-o à inércia aparente de quem tudo teme e nada faz. 
Seriam meras desculpas. E desculpas só servem para explicar o que não é feito a contendo.
Se ignorarmos todo esse milho duro e pequeno, esse tanto de nós que não desatamos, essas mágoas que crescem no escuro, como o medo infantil, fazendo de conta que não existem, jamais teremos a capacidade de, simplesmente, separar os grãos que nos alimentam daqueles outros que nos atormentam e estragam o gosto de tudo, se estes não forem tratados com o respeito e o cuidado que merecem.
Sem broncas.



QUESTÃO DE HONRA

2014-02-07T11:19:31.819-08:00


Houve um tempo - e já faz tempo - em que se media a honra de uma pessoa pela capacidade que ela tinha de ser vingativa e rancorosa, lavando o que estava "sujo" com sangue e mágoa eterna.
Pra não dar o braço a torcer, de que seu investimento estava furado, de que suas escolhas já estavam apodrecidas, de que havia um cheiro putrefato no ar de coisa vencida, ela se esquartejava inteira, alimentando monstros que carcomiam a alma feito metástases cancerosas (a redundância é exagero didático).
Não sei se as coisas mudaram. 
Não sei. 
Mas tento saber se há saídas outras, mais econômicas, afinal, o que é um braço preservado perto do corpo inteiro torturado?
Por que é preciso a ilusão de se manter na mão o que, inexoravelmente, foge ao controle?
Pra que se assemelhar aos coronéis daquele tempo antigo, os quais sequer se admira, nomeando o que pensas que te pertence e ampliando tuas posses imaginárias, se nada fará com tudo isso que acumulas?
Agora que o ano virou, arrumar o armário e ver o que serve, e o que só causa bolor, pode ser mais que útil. Pode ser mesmo questão de sobrevivência, arranjar espaços para as novidades e novas descobertas, fazendo um enterro decente para o que não cabe mais no agora.
Hei, você, que tenta agarrar e controlar o mundo todo, não tem mais o que fazer, não? 
Seu projeto é falido. Sinto muito!
A não ser que sejas uma centopéia, sempre faltarão braços.
Vamos arrumar a casa e desapegar do que não serve mais?



NA TV

2013-09-09T14:15:52.562-07:00


Detesto televisão por um motivo muito simples: Detesto ser roubada!
Em outros tempos eu me atreveria a dizer que ninguém gosta de ser roubado. Mas estaria equivocada... 
Seria como dizer que ninguém gosta de se matar, de não pensar, que o ser humano busca sempre a evolução e evita ser escravizado. No entanto, se fosse mesmo assim, não haveria drogas, lícitas ou ilícitas, espalhadas pelo planeta com esse sucesso absoluto de público e crítica.
Ficar zapeando com o controle, fazendo de conta que tenho O controle, para MATAR o tempo e não pensar em nada, pra mim, nem é mais roubo. É auto-latrocínio. Rouba a alma, pois rouba a vontade, o desejo, o movimento. Faz-nos esquecer nossa função de encarnados, deixando que escolham o que queremos ver. E ainda abusam em dizer que dão opções, ao invés de assumirem: nós limitamos suas escolhas. E no final você ainda diz que usou o livre-arbítrio para escolher.
Desligue a tv e pense: Quantas vezes você foi diagnosticado essa semana com uma doença incurável que deve ser tratada para todo o sempre? E por que será que a indicação de tratamento vem sempre como uma opção de controle da doença, e não de cura? De transformação? De evolução? Aquela que supostamente todo ser humano é capaz, mas se perde em frente à tv ou em frente a qualquer vício?
Você quer o controle da tv? 
Ou você quer uma vida que valha?
Espera o grito do programa de auditório anunciar que agora está "valendoooooooo"???
Pôxa vida. Que desperdício! Que roubo! Que crime mais hediondo esse suicídio cotidiano!!!





TOMA ESSE CORPO QUE TE PERTENCE

2013-07-22T12:33:24.135-07:00



Ah, esse corpo fardo! Farto de esperar quem o domine e o leve pra cama. 
Nem que seja a gripe...
Ah, esse corpo que dói e se ressente de não ser ele o dono de seu próprio corpo. Fascinado pelos fortes que se apropriam de tudo como fossem cobradores de impostos: 
"Você me deve! "
É tudo o que ouvem. 
É tudo o que dizem, enumerando os queixumes e agravos sofridos com resignação e esperanças alucinadas na vida após a morte: "Há de haver justiça e choro e ranger de dentes". Do outro, claro. 
Nós, os bons, os fracos e puros de coração, jamais sofreremos nessa projeção de futuro ensandecida que pune sempre quem se apropria de seu próprio corpo e mata de inveja quem abnega dele.
Ah, esse corpo que pulsa e muda o ritmo a cada vez que vê o pôr do sol ou que um carro avança o sinal nos forçando a ficarmos mais espertos. Repetindo um 'quase morri' pra garantir ao menos uma cicatriz da vida. Uma marca que seja.
Quase. Quase vivo nesse corpo. Quase respondo bem à medicação que me torna mero efeito colateral.
Ah, esse quase corpo. Quase sente que pode. Mas acaba resignado com medo do pastor exorcista perceber que há Vida além da vida.
Que há desejo e vontade chamados de demônios e um corpo que sofre, apanha, mas que também bate e estremece inteiro.
Ah, o que pode um corpo que não se contém???
Transbordar para o além. Para o antes e o depois. Sentindo que o que sente não se descreve. Não se desenha. Simplesmente não cabe em si. E assim vaza ao mundo quando a tv é desligada.
Todo cuidado é pouco pra um corpo que se afirma num descuido.
Toda gota d´água é um perigo de derrame, de luxúria, de apedrejamento.
Todo movimento ameaça ao inferno aqueles que deixam pra depois da morte o momento exato de se dizerem: Sim, eu sinto! Eu quero!



?????

2013-06-22T06:50:26.764-07:00


Outro dia li que a humanidade tem muitas perguntas e poucas respostas.
Discordo. E discordo completamente.

Não falta resposta alguma. Aliás, todas se parecem um bocado. É só questão de tradução.
Leia-se a interpretação da física quântica quanto a repulsão e a atração atômica e terás um corpo fechado ou uma predisposição genética para doenças.
As perguntas são as mesmas:

De onde viemos?

Para onde vamos? (E o que há por lá)

O que faremos nesse intervalo? 

e... a mais cruel de todas:
Isso faz algum sentido?

Mas os críticos e analistas da situação, acadêmicos e intelectuais, estão preocupados com uma pergunta que, para eles, parece fazer sentido total e absoluto:

"QUEM É O LÍDER???"





GAMBIARRA BLUES - UM AMOR LOUCO DE PEDRA

2013-06-14T06:53:48.651-07:00

- Vai quebrar o menino assim, cuidado com o bracinho!- E essa corrente de ar? Não dá pneumonia?- Mas tá um calor dos infernos. Tira esse casaco. Deixa o sol entrar!- O leite tá muito forte pra um recém-nascido.- Forte? só leite não dá "sustança". Dá logo vitamina...E assim chegamos ao mundo doidos pra aprender o que é o amor. Doidos pelas primeiras lições por mera questão de sobrevivência.Doidos. Amor daquele que não acaba nunca. Daquele aprendido na sessão da tarde. Incondicional  - e cheio de vontades - desde que se faça tudo direitinho. Milagre, cura, arrebatamento. Daquele que todo mundo sabe que existe, mas tal qual face de Deus, ninguém sabe descrever que diabos é isto.Bicho ruim é bicho-gente que não morre fácil. Afinal, com tanta barbeiragem na maternagem, era pra gente ser só os olhos revirando. Mas teimosos como só da raça humana mesmo, crescemos e vigamos.Relação é igualzinho. Todo mundo sabe dar pitaco. Dizer que isso sim e isso não e aquilo de jeito nenhum. Como usar para melhor manutenção. Dosagem, posologia e informações medicamentosas. Mas na hora de ver como funciona, para além da teoria, a prática é muito outra. O que é delírio pra uns é suplício pra outros. E nunca, nada, ninguém sabe exatamente como operar com garantias.Garanto!E é solda aqui, parafuso ali, cuspe, suor e música bagunçando a sala e escondendo as fitas isolantes. Nós de lençol e de cabelo embutidos no conduíte. Sem falar em banho de sal grosso, promessa, dia propício para o jantar, pro baralho ou pro cinema americano.Eita, que troço mais complicado esse aparelhinho de se relacionar!Que só funciona no tranco. No treino. Na incerteza...Eita, que às vezes dá vontade de desistir de tudo e trancar no quarto. "Quebrou. Tem mais conserto não."Mas basta um suspiro à toa pra dar vontade de se enterrar na garagem e desmontar o trambolho todo até ver onde é que emperra.E quem é teimoso de verdade insiste em tentar aprender o que ninguém sabe. Insiste em tentar o que ninguém descobre como. Teima em fazer de um jeito novo, autêntico. Sem manual, sem conselhos, sem modelos caricatos de outras modas imitadas (Mas livrai-nos dos pais, amém).Ou desiste. Compra uma de plástico. Enfeita a cozinha.Quem sabe funciona...Quem sabe???[...]



LOCALIZACIONISMO

2013-05-21T17:08:34.414-07:00

Há muito tempo atrás, quando a ciência era exata e precisa, descobertas incríveis foram feitas mapeando não só o cérebro como os campos em que os distúrbios psíquicos podiam ocorrer.Quem já viu "O Iluminado" sabe do que falo. Viu. E concluiu que a ciência de nada sabe. A não ser arrancar cisos, amídalas, vesícula, lóbo frontal ou o que quer que seja.Há muito mais tempo ainda, tentaram localizar a alma no corpo. E era um tal de coração versus mente prá cá, glândula pineal pra lá, que ninguém acertou até hoje.Há pouco tempo, localizaram o prazer imediato da mulher. Esqueceram-se de que a mulher é mistério - disso já se sabe desde a maçã roubada - e que não é um ponto só, só unzinho, onde a mulher tem prazer, mas no que ela mostra ou no que nem conta.Deixemos agora o passado para trás. Todas as previsões dessa grande cartomante charlatã que é a ciência estavam erradas.Hoje há métodos muito mais modernos, muito mais eficazes. Mas a pergunta que fica é: Para quê? Claro que tem horas que queremos um mapa astral, um mapa da retina, um mapa genético, um mapa até do quadro de luz do prédio. E depois? Faz-se o que com o tesouro da Emília, a boneca de pano que guardava poeira, cílio, botão?O importante aqui - pra quem tem mais a investir na saúde do que na doença - é: Aonde você localiza sua dor?Onde guarda a identificação com sua mãe junto com toda a ambivalência inerente a esta. Tanto amor e tanto ódio juntos - em geral por não conseguir amar como queria - TEM que estar em algum lugar.E o pai que nunca foi presente no momento em que se queria? O desaparecido, desconhecido ou simplesmente negligente? Onde estará?Sem falar no amigo que falha, na traição do ser amado, no cachorro morto pelo vizinho...Antigamente se tentava saber o local exato da alma. Mas alma hoje se salva com uns trocados. Quem se importa?E o rancor? Onde fica? E a mágoa? Ou, em termos biológicos e científicos: Onde está sua ameaça de câncer?Conheço gente que localiza tudo no celular. Quando briga com alguém espatifa o bicho na parede, joga no lago, e pronto. Zás. Ploft. Sock. Sonoplastia da série do Batman e tá dito tudo. Acabou-se o contato.Mas quando a mágoa fica dentro... Ai, ai, ai.Só falando com quem sabe escutar.Falando e falando, até elaborar tudo. Até dissolver o ódio. Até aceitar o amor - Cheio de defeitos, mas amor.Antes disso é corrosão. É tentativa de homicídio praticando suicídio. E está cientificamente provado que assim não funciona.Agora me diga: Pra que essa boca tão grande? Fala![...]



SILÊNCIO É MÚSICA

2013-03-05T08:56:29.984-08:00


"Eu simplesmente detesto quando mudam o tom do meu silêncio!"
Ele pensava, calado, mudando de assunto.
Afinal, desde muito antes de nascer acostumara-se a escutar seu próprio ritmo, antes compassado apenas com o tambor forte da mãe que o carregava.
Agia assim, visceralmente. Pensava com o sangue, com as artérias, com os órgãos. Sentia a vida e ainda tinha tempo de contemplar o barulho do sol quando nasce.
"Neurônios são para os fracos!"
Mas nesse free jazz todo cotidiano, de serra na janela do vizinho, de ônibus freando, de camelô gritando e gente falando muito sobre coisa nenhuma ele se perguntava onde se encaixar.
Sentia-se solo fora de hora, atrapalhando, tentando organizar a harmonia que se atropelava depois que o maestro criou tudo e se aposentou.
Esse jeito de viver dava trabalho. Mas era enfim, o único que sabia mais ou menos. Porque ninguém sabe viver completamente. 
Era nas nuances que ouvia os discursos. Era no ritmo da fala e da respiração que entendia o que realmente era pra ser entendido. Sem aquela encheção de linguiça de quem não tem o que dizer.
Algo assim feito cachorro que reconhece o afeto de longe. E tem ser mais sabido que os cachorros?
Ele sabia que um silêncio que contempla não é um silêncio cansado.
Que um silêncio pleno não é um silêncio cheio, ou de saco cheio. 
Há que se ouvir os suspiros, a respiração. Sob pena de interpretar uma pausa como depressão. Um momento solitário como agressão. Ou qualquer outra coisa que não esteja dita, mas esteja ali, pulsante.
O silêncio grita, pra quem não quiser ouvir. Fere. Sofre. E cria.
Noutra vez não diz mais nada. 
Acompanhar, sem quebrar o tom, aí já é coisa pra artista.



INDUMENTÁRIA

2013-02-07T10:50:15.977-08:00

Ela queria uma dessas paixões. Dessas que só se tem aos 15 anos.Dessas que quando chega ao fim, a certeza de que perdeu a última chance de ser feliz é a única que resta, mal sabendo que depois desta, puro treino, o jogo começará de verdade.E todos os especialistas no assunto darão conselhos sábios, esquecendo-se de olhar para o próprio umbigo, e perceber que conselho sábio, no amor, é a coisa mais imprestável que se pode dar. Absolutamente supérfluo, posto que a sabedoria é coisa de quem não sente. Ou de quem morre de inveja e de pavor.Ela queria e encontrou. Avisou antes:"Olha, já estou fora de linha, não tenho tanta peça pra reposição assim. Funciono meio na gambiarra, meio na fita isolante.Protejo o mindinho do pé só de ver uma mesinha de centro. Por favor, não se mova bruscamente."A nudez e entrega escondiam, no entanto, tanta ferida aberta, tanta mágoa de outras vidas, tantos romances mortos precocemente - e a morte sempre é precoce - que por baixo daquela nudez havia uma veste toda especial fabricada para o que chamava de amor.Mas o amor precisa de legenda explicativa pra ser diferenciado de orgulho, posse, vaidade... Ou qualquer outra coisa do gênero que se queira nomear de amor, só pra ter história pra contar.Afinal, se amar fosse fácil, não precisaria ser mandamento bíblico.Ele, bravo guerreiro, Herói de outro planeta, já que o amor não é pra qualquer um, estendeu a mão e disse:"Não se preocupe, linda dama. Lutarei por isto". E se preparou para o encontro, contrariando especialistas no assunto e expectativas pessimistas. Ora bolas. Amor numa hora dessas?Vestiu sua melhor armadura e jurou que dessa vez era pra valer.Lutou, lutou e lutou. Lutou com tanta gente, e por tanta coisa, que ao chegar em casa e reparar direitinho, a moça estava lá, sangrando.Nem reparou que as feridas acumuladas teimavam em abrir na hora errada.Que o passado putrefato de outros heróis era mexido e remexido até ganharem vida novamente.Que a proteção contra arranhão estava tão forte que a blindagem não deixava que as peles roçassem mais.E daí se morreu de novo. Como aos 15 anos.Os especialistas estão lendo a respeito e inventando um milhão de teses sobre. Preparam-se para quando o amor chegar.[...]



E SE...

2013-02-07T10:44:31.419-08:00


Se eu matar o tempo,
quem é que morre?
E se eu embromar, burlar, roubar o tempo enfim?
Estarei roubando de quem?




OS MISERÁVEIS

2012-12-06T04:34:18.067-08:00


Se tem uma coisa difícil de se falar é sobre a miséria nossa de cada dia. Aquela feia, mesquinha, que a gente esconde de tudo e de todos. E aquela que nos faz sentir tão pobres, mas tão pobres, que nem temos nada pra falar.
Reparem que me incluí aí sem sentar em meu próprio rabo pra falar da vida alheia. Humana que sou. Humanos que somos, eu, você, eles todos. Todos. Cada um com sua migalhinha bem alimentada.
Tem miséria pra todo mundo. Uma fartura só.
A miséria de optar investir na doença, e não na saúde. Essa é conhecida dos médicos, que entendem tudo da primeira, e absolutamente nada da segunda.
A miséria de reclamar da vida quando passa por um pobre coitado. De ter sempre uma dor ou cicatriz mais grave que a do outro quando a dele ainda sangra. "Ah, mas o meu caso é bem pior", repetem os mártires.
A miséria de não conseguir ver o sol, o mar, a montanha, as nuvens.Não mudar quando é lua cheia. E se achar tão grande que nada disso basta. E se saber tão ínfimo que nada disso alcança.
A miséria de chegar perto do Natal e sair comprando, investindo pesado, em bens duráveis. Plástico. Plástico de todo tamanho, toda cor, todo jeito. Plástico com luz colorida, com fita brilhante. Mas plástico. E não conseguir olhar o outro por 1 minuto sequer. Ai essa gente que se aproveita da miséria...
Falar de miséria é tão difícil que dá até uma certa depressão. Uma insuficiência. Uma sensação de falência. Aquele "eu não consigo, eu não posso, eu não tenho" tão característicos dessa danada que vai tomando conta da alma por mais que a pessoa tenha a conta bancária recheada. Fica sempre muito pouco.
Nem falo aqui de políticos que desviam verba e compram ilhas. e juntam quantias que, nem que o cara vivesse 480 anos, conseguiria gastar.
Nem falo aqui do lixão, dos que não tem o que comer e catam a sobra dos outros pra viver.
A miséria d´alma é a mais difícil de combater. A miséria da alma entorpecida de anestésicos, que repete aos quatro ventos uma sensibilidade além do suportável. "Ah, o meu caso... Ah, como eu sinto...Ah, como sofro.... Ai de mim, ai de mim." O coro grego repetindo o escolhido/esquecido dos deuses.
Em épocas de fim de ano, de fim de mundo, de fim dos tempos, é bom pensar no que se quer salvar. Ou deixar de lembrancinha.
Plástico? Plástica?





TIRE SUAS MÃOS DE MIM

2012-11-09T06:52:03.105-08:00

Sim. Eu ouvia Legião Urbana.Até porque crescer em Brasília nos anos 80 tinha como requisito ouvir Legião Urbana. E não só no show ou na rádio, mas em toda e qualquer rodinha insuportável onde houvesse um mísero violão tocando aqueles acordes infernais.Talvez por isso eu teime em citar errado, pois eu deveria beber na fonte de onde tudo foi chupado, já que é assim que se cita.Mas dessa música gosto particularmente do que ele afirma como incerteza, como não saber, como arrebatamento que mais se parece a um atropelamento que deixa a vítima estirada no chão tal qual música do João Bosco.Tá lá o corpo estendido no chão jurando que dessa vez é de verdade. Jurando que agora achou seu par de vaso por simples questão de cansaço, de não saber muito bem descrever se foi tsunami ou caminhão.É que as vezes as cosias acontecem assim. Sem quê nem porquê. Sem tempo de refletir ou de se distanciar do que realmente acontece. Daí a confusão diante de uma presença insistente e invasora, que preenche todos os espaços vazios - que assim deveriam ficar, já que os vazios precisam existir para que haja o silêncio, o sonho, o devaneio, a fantasia, o desejo, ... . Daí misturar urubu, meu louro e passarinho azul, tudo num saco de gatos, arrebatando o sujeito e tomando-o como objeto. Presa de guerra de aldeia saqueada.O colonizador chega e instaura suas leis: Não dance mais assim, pois é vulgar. Não gosto de seus amigos. Não precisa ler esses livros todos. Pra que sair de casa? Quer achar o que na rua? Até que vem a pergunta devastadora: No que você está pensando?Agora me responda, se você souber: como dizer o que se está pensando no exato momento em que se pensa?Se há um jeito de bloquear pensamento, pra mim, é este: Interrompendo-o como num estupro de crianças, onde se exige uma maturidade e preparação que o corpo simplesmente não pode acompanhar, não pode suprir ou responder como capaz.E tudo isso, para os apressados,vem como a alcunha enganadora do lema de guerra mais antigo que já existiu. Em nome do amor já se cometeu tanto massacre... Com ou sem sangue derramado.Acalmem-se. Não sou contra o amor. Pelo amor de Deus, não.Ao contrário, sou muito afeita a este. Mas será que tudo merece o mesmo nome?A personagem principal do livro "O perfume', espantado com o mesmo nome das coisas, se questionava por que chamar tudo de leite quando o leite tirado do gado que come determinado capim é completamente diferente do leite da ovelha que pasta por certos caminhos que as outras não pastam.Por que dar o mesmo nome a tudo?Por que arrebatamento se liga tão facilmente a palavra amor e não a catástrofe ou a acidente?Por que chamar de amor uma invasão de corpos em que o tempo de cada um é tão diferente que não há um ritmo ótimo das respirações? E um acaba sempre por ditar o comportamento do outro, numa batalha necrológica pra ver quem sobrevive a quem?Por que?Talvez, em qualquer esquina de Brasília se saiba disso, afinal, todo mundo por lá sabe cantar:"acho que isso não é amor!"Difícil por lá é só achar a tal esquina. Mas nada é perfeito mesmo não é?!?[...]



DO PÓ AO PÓ - O RESTO É LUCRO

2012-08-18T15:47:48.221-07:00

 "Existirmos/
A que será que se destina?"


Pergunta que não cala. Mas que nunca é falada, pois muito mais fácil é falar da morte do que de uma vida vivida. Afinal, como diria Oscar Wilde, "Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe."
Enquanto isso, semana da Rio + 20, chuva rala caindo lá fora,... e eu destruí nesta semana 2 guarda-chuvas chineses. 2 guarda-chuvas que se fizeram, cada 1, em 3 pedaços em minhas 2 mãos, desafiando qualquer lei da física que distribua a ação em forças.
Guarda-chuvas bonitos, plásticos, pintados do metal mais prateado como só os chineses sabem imitar.
E se tem uma coisa que chinês sabe fazer é o arremedo irremediável da utilidade, tornando fútil qualquer tentativa de proteção da natureza.
Parece haver uma palavra de ordem, do tipo sub-liminar, dizendo: "Se não pode com a natureza, destrua-a. Mostre do que você é capaz, seja seu próprio deus."
E vamos nós, aleijando peixes, tartarugas e matando Yemanjá intoxicada. Falência múltipla dos órgãos.
Vamos fingindo super-produção enquanto degradamos o desagradável. Afinal, se o mar é grande, somos maiores.
Enquanto isso, o menino em seu quarto brinca de fazer nada. De um nada imaginário ele cria heróis, fantasmas, castelos e reinos. Vilões perigosíssimos que querem destruir essa vida toda.
Enquanto isso, a mãe, da cozinha, pede ajuda do menino que nada faz, afinal, ele faz nada, e pode parar o nada a fazer para desembalar isopor e plástico pro jantar.
Enquanto isso, a culpa de nada se fazer faz com que saiamos correndo feito loucos, consumindo, produzindo, aumentando o lixo só para dizer que fazemos alguma coisa.
E nem percebemos que o nada que o menino faz é ele mesmo, que se cria e se inventa e se constrói assim, do nada. E vive de verdade o devaneio, enquanto devaneamos estar vivendo.

Ora bolas, se é pra fazer, vamos fazer direito. Com gosto, cheiro e textura. E com uma cabaninha forte pra proteção da chuva que é pro herói não ficar resfriado, com os olhos pequenininhos...




O Diabo TEM que existir!!!

2012-03-01T08:20:06.167-08:00

Ela tinha medo de magia. De macumba, mandinga e até de capoeira.
Dizia não crer em orações, mas nas religiões usadas para fazer o mal a alguém.
Do bem? Pouco sabia. Pouco viu ou ouviu falar.
Dizia: "Houve numa época, eu sei. Mas já passou! Hoje não cola mais."
E foi falando isso logo pra alguém meio cético, meio incrédulo, cheio de racionalizações e explicações embasadas em análises políticas das mais diversas.
Tinha seus rituais inventados. Claro. Mas eram só resquícios de um TOC mal curado - ou bem tratado - de infância. Coisa pouca. Coisa boba.
Até que um dia o "ceticão" se viu num ódio medonho. Não daqueles de xingar o ônibus que passa sem parar. Desses aí acabam logo. Logo que o ônibus vira a esquina.
Era ódio sério. Daqueles de uivar pra Lua com peito apertado. Daqueles de dar insônia e pensar em assassinatos usando objetos finos, tipo alicate de unha, faca de serra, ou simplesmente água fervendo.
Daqueles que a gente agradece aos buracos da calçada por darem um montão de ideias pra um peeling artesanal.
E o Cético teve que dar razão a sua amiga medrosa de alma. Já descrente da justiça dos homens, sem provas da justiça divina, acalmou seu espírito planejando o dia do enterro de quem lhe causara tanta mágoa.
Preparou a caixa de presente com o papel mais bonito que encontrou. Pôs laço, fita e flor, e perfumou tudo.
Dentro só um leque. E um bilhetinho singelo:
"Toma. Lá, pra onde você vai, deve ter serventia"!
E seguiu a vida, como quem vê o ônibus virar a esquina.