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Armando Antenore Jornalismo



Blog das Perguntas e portflólio do jornalista Armando Antenore



Updated: 2017-10-16T23:48:37Z

 



Meu guri

2017-10-16T23:48:37Z

A mãe, a avó e a mulher de um dos 250 mil brasileiros presos antes do julgamento* Quando o celular tocou, Conceição sentiu uma fisgada no estômago. “Coisa boa não deve ser”, intuiu enquanto caçava o telefone. Não espiou o relógio, mas sabia que passava um pouco das cinco horas. Só notícia ruim chegaria tão […] O post Meu guri apareceu primeiro em Armando Antenore Jornalismo. A mãe, a avó e a mulher de um dos 250 mil brasileiros presos antes do julgamento* Quando o celular tocou, Conceição sentiu uma fisgada no estômago. “Coisa boa não deve ser”, intuiu enquanto caçava o telefone. Não espiou o relógio, mas sabia que passava um pouco das cinco horas. Só notícia ruim chegaria tão cedo. Como de hábito, a empregada doméstica já estava de pé. No banheiro da casa inacabada, aprontava-se para o demorado trajeto até o apartamento dos patrões, em Copacabana. “Um ônibus, dois metrôs e uma sandália de primeira”, gracejava sempre que lhe perguntavam quantas conduções tinha de enfrentar logo pela manhã. Moradora da Baixada Fluminense, dificilmente desembarcava no mais célebre dos bairros cariocas em menos de noventa minutos. “Ceição, prenderam o Jeremias”, disparou uma amiga mal a doméstica pegou o aparelho. “O meu filho? Não é possível! Tu se enganou.” A amiga confirmou: “O Jeremias, sim. Mas não me contaram o motivo.” Entre a vertigem e o desespero, Conceição acordou o marido: “Amor, tu não vai acreditar…” Na véspera, dia 2 de outubro de 2016, um domingo de eleições, a doméstica deixou o sobradinho em São João de Meriti e seguiu para Belford Roxo, outro município da Baixada, onde se criou. Iria votar. Num boteco de Belford, avistou o filho de 20 anos, que jogava conversa fora com um grupo de conhecidos. Não precisou se aproximar demais para perceber que o moço bebera além da conta. “Que horror, Jeremias! Encher a cara desse jeito… Vamos embora!”, pediu inúmeras vezes, sem conseguir dobrá-lo. Não por acaso, quando digeriu minimamente a notícia da detenção, imaginou que o rapaz se metera numa briga. “Trocou socos de madrugada e acabou preso”, comentou com o marido depois de avisar à patroa que iria faltar. O casal de negros sobressai pela discrepância física. Conceição, à época com 38 anos, é relativamente baixa e pesa 141 quilos. Já o marido, uma década mais novo, mede 2 metros de altura e se conserva magro. Segurança de um mercado, se casou com a doméstica em março de 2015. Apesar de não ser o pai do jovem aprisionado, fez questão de acompanhar a mulher à 64ª Delegacia de Polícia Civil, no Centro de Meriti. “Cadê meu filho? Quero ver o menino agora”, suplicou Conceição assim que a atenderam. “Não pode”, retrucaram os policiais. “Onde botaram o documento dele? Quem me garante que vocês não prenderam outro Jeremias?”, prosseguiu a mãe. Os policiais explicaram que se tratava mesmo do rapaz, mas não mostraram a carteira de identidade. “Ele cometeu que tipo de crime?”, indagou a doméstica. “Um cinco sete”, informaram. “É briga?”, assuntou. “Não, senhora. Artigo 157 do Código Penal. Roubo.” Roubo? “Deus do céu! Eu falhei…”, murmurou Conceição segundos antes de desmaiar. Emoji Como um autêntico representante da geração que cresceu sob a égide da internet, Jeremias gosta das redes sociais. No Facebook, reúne um número considerável de amigos (4 251) e publica diversos posts de caráter pessoal, ainda que telegráficos. Ora relata o próprio cotidiano, ora escreve sobre seus relacionamentos amorosos. No sábado, 1º de outubro de 2016, abriu a rotina digital com um anúncio: “Festinha da Árvore. Hoje, às 21 horas, mulherada que quiser brotar é só chamar no chat que a tropa busca em casa.” Gíria comum entre jovens fluminenses, “brotar” significa “aparecer”. E a expressão “festinha da árvore” provavelmente deriva de um funk: “Hoje é Festa da Árvore, tá?/Só vai quem trepa.” Mais tarde, Jeremias registrou: “Comecei, hein?” Associo[...]



O humor é meu pastor

2017-09-14T01:52:27Z

Nasce uma igreja no Baixo Augusta Será uma pegadinha? Impertinente, a pergunta teimava em me assombrar à medida que o roteirista e cineasta Newton Cannito discorria sobre religião. Estávamos em Ipanema, na Zona Sul carioca, e conversávamos havia quase trinta minutos. “Deus não perdoa ninguém”, apregoava o loiro grandalhão, de 43 anos e raízes sicilianas. […] O post O humor é meu pastor apareceu primeiro em Armando Antenore Jornalismo. Nasce uma igreja no Baixo Augusta Será uma pegadinha? Impertinente, a pergunta teimava em me assombrar à medida que o roteirista e cineasta Newton Cannito discorria sobre religião. Estávamos em Ipanema, na Zona Sul carioca, e conversávamos havia quase trinta minutos. “Deus não perdoa ninguém”, apregoava o loiro grandalhão, de 43 anos e raízes sicilianas. “Sabe por quê? Porque Ele jamais se enfurece. Quem fica sempre de boa não necessita perdoar porra nenhuma.” Entre uma argumentação e outra, Cannito aspirava um pozinho marrom que esparramava na palma da mão. “Tsunu”, informou, separando bem as sílabas: ti-su-nu. “É um tipo de rapé. Conhece? Um híbrido de tabaco com as cinzas de uma árvore, o pau-pereira.” Para inalar a substância, se valia de um kuripe, pequeno apetrecho em forma de V, que funciona como um canudo. Arranjou-o no Acre, junto à tribo Kuntanawa. “Os índios disseram que o confeccionaram com ossos de onça. Não duvido.” Toda vez que o rapé lhe atravessava a narina, o roteirista fechava os olhos e dava um tranco para trás. “Arde à beça, cara! Parece que jogaram um Halls dentro do meu cérebro.” Naquela tarde de julho, Cannito me contava que acabara de lançar uma igreja em São Paulo, onde mora. “Faz uns quatro meses”, calculou, enquanto manuseava o kuripe. Com absoluta naturalidade, declarou-se líder e apóstolo da tal congregação, ainda que rejeitasse o título de mestre ou guru. “Bregas demais… Terei de arranjar outra designação.” A notícia me soou inverossímil – e não apenas pelo nome esdrúxulo da igreja, Deus É Humor, que subverte o da evangélica Deus É Amor, concebida por David Miranda em 1962. Criador de séries televisivas premiadas, como Unidade Básica, coautor da novela Joia Rara, na Globo, e diretor do filme Magal e os Formigas, Cannito vive principalmente de ficção. Às vezes, conduz os devaneios para fora dos sets e, em reuniões com amigos, assume a persona de um palhaço obsessivo, o Doutor Caneta, que toma notas de tudo. Um sujeito assim poderia – por que não? – fundar uma igreja de mentirinha e alardeá-la sarcasticamente pelos quatro cantos. Seria uma espécie de performance, que divertiria os cínicos e ludibriaria os incautos, caso existam tolos o suficiente para fisgar a isca. Embora mil pulgas já se refestelassem atrás de minha orelha, preferi não dizer nada, receoso de azedar a conversa. “Nasci em São Bernardo do Campo, no AB paulista, e passei a infância com pavor do Lula”, prosseguiu o roteirista. “Ele despontava como líder sindical e me assustava muito, talvez por causa da barba negra e dos berros sobre os palanques. Naquela época, aliás, uma porção de coisas me amedrontava.” Não à toa, virou “fanático religioso”, um menino que precisava se cercar de rituais protetores. “Eu nunca perdia a missa e rezava o terço diversas vezes antes de dormir. Minha mãe, apesar de católica, não se mostrava tão fervorosa. E meu pai, um projetista de elevadores, transitava pelo extremo oposto. Era ateu convicto.” Na adolescência, o futuro cineasta descobriu o niilismo do filósofo Friedrich Nietzsche e se afastou das trilhas espirituais. Só as retomou em 2004, quando se tornou usuário da ayahuasca. O chá amazônico, empregado durante cerimônias xamânicas, provoca alucinações ou, segundo os adeptos, “mirações” – vislumbres místicos que favorecem o autoconhecimento. “Graças à bebida, que tomo semanalmente, fiquei menos depressivo, arrogante e rancoroso”, avaliou Cannito. “Sem nenhum exa[...]



Coxinha de mortadela

2017-07-20T20:19:35Z

Uma tentativa de unir o Brasil Não tem jeito. O Fla-Flu que toma conta do país vai continuar – inclusive sob o viés culinário. No momento em que Lula e Bolsonaro lideram as pesquisas eleitorais, o Ragazzo avisa: a coxinha de mortadela não voltará. A rede de fast-food italiano lançou o “salgadinho da união nacional” há pouco […] O post Coxinha de mortadela apareceu primeiro em Armando Antenore Jornalismo. Uma tentativa de unir o Brasil Não tem jeito. O Fla-Flu que toma conta do país vai continuar – inclusive sob o viés culinário. No momento em que Lula e Bolsonaro lideram as pesquisas eleitorais, o Ragazzo avisa: a coxinha de mortadela não voltará. A rede de fast-food italiano lançou o “salgadinho da união nacional” há pouco mais de um ano, logo depois que a Câmara dos Deputados autorizou o processo de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff. Na ocasião, a disputa entre “coxinhas” e “mortadelas” atingia o ápice. “A gente avaliou que aquela rivalidade não fazia sentido”, relembra André Marques, o executivo responsável pelo marketing da cadeia de restaurantes. “Quem ganhava com a cisão do Brasil? Ninguém!”, prossegue o diretor, esquecendo-se de todos os alguéns que se aproveitavam da animosidade reinante. “Decidimos, então, propor uma trégua à nossa clientela.” Em vez de hastear bandeiras brancas na porta de cada loja, o Ragazzo preferiu comercializar o inusitado tira-gosto de 60 gramas. Mal estreou, a coxinha de mortadela revelou-se um arraso. “Teve mais procura que as de frango, quatro queijos, calabresa, camarão e carne desfiada, os outros sabores oferecidos pela rede à época”, conta Marques, sem divulgar números. Durante algum tempo, a novata respondeu por praticamente metade das coxinhas vendidas no Ragazzo. O triunfo, porém, não resistiu muito. À ascensão meteórica seguiu-se uma derrocada igualmente vertiginosa. Os consumidores deixaram de ver graça no quitute, que acabou se retirando de cena. Foram apenas quatro meses de existência – entre maio e agosto de 2016. O apaziguamento da república via papilas gustativas não passou de ilusão. E agora, quando a Lava Jato desmascara os dois polos do maniqueísmo político e eleitores de ambos os lados convergem em frustração, não seria o caso de ressuscitar o petisco? “Negativo”, responde o diretor de marketing. “A coxinha de mortadela já deu o que tinha que dar.” Quibe Exibindo uma faixa verde-amarela no pescoço, o deputado faz um breve e ardoroso discurso antes de votar “sim”. “Por um Brasil sem divisões!”, justifica-se, sob os aplausos dos colegas que o rodeiam. Outro parlamentar – de gravata vermelha e tão exaltado quanto o primeiro – também vota “sim”. A cena remete à noite em que o plenário da Câmara, inflamadíssimo, aprovou a queda de Dilma. Só que, desta vez, o “sim” vai chancelar o advento de um novo salvador da pátria: a coxinha de mortadela. São 513 votos favoráveis à iguaria e nenhum contra. Criado pela PPM, agência publicitária do próprio grupo que controla o Ragazzo, o anúncio de trinta segundos apareceu na Globo, no SBT e na Record por um mês. Tudo indica que a propaganda contribuiu para o sucesso inicial do tira-gosto. Quando saiu do ar, as vendas caíram. A coxinha custava a bagatela de 1,98 real. Quem a comprasse às segundas, terças ou quartas-feiras recebia outra de graça. Vender barato é um dos trunfos que possibilitaram o crescimento do Ragazzo. Fundada há quase três décadas, a empresa soma 155 restaurantes, localizados em São Paulo, Goiás, Paraná, Santa Catarina, Amazonas e Rio de Janeiro. A holding que a comanda também administra o Habib’s, cadeia de fast-food árabe, notória por cobrar 99 centavos pelas esfirras. Como a similar italiana, a rede já produziu anúncios espirituosos que aludem à nossa barafunda política. Num deles, dois engravatados travam um diálogo telefônico para lá de suspeito: “Excelência, descobri um esquema em[...]



A volta

2017-06-06T20:53:55Z

O professor que decidiu lecionar no colégio onde sofreu bullying quando adolescente No último dia 9 de março, enquanto caminhava em direção à sala de aula, Thiago Ricardo Soares, o T. Angel, sentia que alunos e funcionários da escola o observavam com um híbrido de curiosidade e assombro, como se estivessem diante de um alienígena. […] O post A volta apareceu primeiro em Armando Antenore Jornalismo. O professor que decidiu lecionar no colégio onde sofreu bullying quando adolescente No último dia 9 de março, enquanto caminhava em direção à sala de aula, Thiago Ricardo Soares, o T. Angel, sentia que alunos e funcionários da escola o observavam com um híbrido de curiosidade e assombro, como se estivessem diante de um alienígena. Eram quase sete da manhã. Recém-contratado, o professor de história iria lecionar pela primeira vez no colégio estadual Doutor Américo Marco Antônio, em Osasco, a quinta maior cidade da Grande São Paulo. Ninguém ousava falar nada para o novato. Simplesmente o mediam dos pés à cabeça, talvez se perguntando de onde surgira uma figura tão exótica. Magro, alto e muito branco, com os longos cabelos presos num coque, T. Angel pertence à tribo dos que optaram por modificar radicalmente o corpo. Ele não apenas se tatuou do pescoço para baixo como espalhou piercings pelo rosto e pôs alargadores no nariz, nos lóbulos de ambas as orelhas e sob o lábio inferior. Também dividiu a ponta da língua em duas partes, deixando-a parecida com a das cobras, e queimou as costas para produzir cicatrizes similares às de um pássaro que teve as asas arrancadas. Não bastasse, colocou implantes subcutâneos de silicone no braço esquerdo e no meio do peito, que criaram relevos na pele em formato de esferas ou círculos. “Sou um campo de batalha, um terreno aberto às experimentações”, costuma explicar, com voz fina, gestual delicado e óculos de hastes azuis. Naquela quinta-feira, quando chegou à turma 7G, o professor se apresentou rapidamente e logo abriu espaço para que os cerca de trinta estudantes o inundassem de perguntas. Faria o mesmo nas outras quatro classes onde iria trabalhar, todas do 7º ano. As roupas inusitadas que trajava – uma camiseta bem comprida e uma calça feminina – em nada lembravam o uniforme comportado dos alunos. Por que você se enfeita desse jeito? Seus pais concordam? Doeu para botar os alargadores? E os piercings, estão machucando? Você sofre preconceito? Gosta de futebol? É bicha? Com bom humor e o máximo de sinceridade, T. Angel procurava esclarecer cada dúvida dos adolescentes, inclusive as mais indiscretas. “Bicha? Prefiro dizer que posso me apaixonar por qualquer tipo de pessoa, seja mulher ou não.” Numa das salas, dois meninos de cabelos descoloridos cismaram com as unhas verde-azuladas do professor de 35 anos. “Você pinta sempre? De que cores?”, indagou um deles. “Depende… De preto, marrom, prateado, rosa”, respondeu T. Angel. “Rosa?! É cor de menina!”, protestou o outro garoto. “A gente não acha certo um homem pintar as unhas”, resumiu. “Não acham? Vejam que curioso: vocês reclamam das minhas unhas, mas descoloriram os cabelos. Antigamente, meninos não podiam nem sonhar em fazer algo do gênero. Ganhariam fama de maricas. Dá para acreditar?” A dupla se entreolhou, sorriu sem graça e liquidou o assunto. Casulo Embora estivesse debutando como docente no colégio, T. Angel conhecia bem “o Américo”. “Estudei lá durante toda a infância e a maior parte da adolescência. Foi barra-pesada…”, recordou numa noite fria de maio. A escola fica perto do sobrado em que o professor cresceu e mora até hoje. “Entre a primeira e a última série do ensino fundamental, não enfrentei problemas graves. Era quietão e a galera me respeitava. Mas depois…” Tão logo começou o ensino médio, o rapaz – que ainda não ostentava tatuagens – descobriu os piercings e, desobrigado de usar uniforme, decidiu se vestir [...]



As três mosqueteiras

2017-05-10T01:31:44Z

Uma aventura teatral O espetáculo no pequeno teatro parisiense mal terminou e uma senhora refinada, que não desgrudara os olhos do palco durante oitenta minutos, sussurrou para si mesma, em bom português: “Que maravilha!” Logo depois, enquanto as luzes da plateia acendiam, subiu um pouco o tom de voz e anunciou: “Quero comprar, Rosa.” A amiga […] O post As três mosqueteiras apareceu primeiro em Armando Antenore Jornalismo. Uma aventura teatral O espetáculo no pequeno teatro parisiense mal terminou e uma senhora refinada, que não desgrudara os olhos do palco durante oitenta minutos, sussurrou para si mesma, em bom português: “Que maravilha!” Logo depois, enquanto as luzes da plateia acendiam, subiu um pouco o tom de voz e anunciou: “Quero comprar, Rosa.” A amiga que a acompanhava não entendeu: “Comprar o quê?” “A peça”, respondeu a senhora, sem interromper os aplausos inflamados. Erguendo-se da poltrona, Rosa esboçou um sorrisinho irônico e disparou: “Você enlouqueceu, Bia?” Era janeiro de 2015. Embora visitem Paris com regularidade, as cariocas Maria Beatriz Bley Martins Costa e Rosina Villemor Cordeiro Guerra ainda não conheciam o acolhedor Ciné 13 Théâtre, onde Jacques Mougenot acabara de encenar o monólogo L’Affaire Dussaert, que ele próprio escreveu. Foram parar ali por indicação de uma francesa. “Sério, Rosa! A gente compra a peça e dá um jeito de montá-la no Brasil”, reiterou Bia. Nenhuma das duas, porém, havia feito algo parecido antes. Não tinham nem sequer pisado numa coxia ou num camarim. “E como se compra uma peça?”, indagou Rosa. O protagonista do espetáculo certamente saberia. Decidiram aguardá-lo na porta do teatro. “Qual o telefone de vocês?”, pediu o ator, um tanto ressabiado, quando Bia e Rosa o abordaram. “Não se preocupem. Amanhã vou procurá-las”, garantiu. Em cartaz com L’Affaire Dussaert há quase uma década, Mougenot já a apresentou mais de 600 vezes. “Pronto! O homem arranjou um modo gentil de nos dispensar”, deduziram as amigas à medida que se afastavam do teatro. “Duvideodó que alguém irá nos procurar.” Enganaram-se. O ator não só ligou como as encaminhou à sua agente. Saíram do escritório dela com o negócio praticamente selado. Os direitos para a tradução e adaptação da peça custavam 3 mil euros ou cerca de 9,5 mil reais à época. “Vamos mesmo comprar?”, hesitou Rosa. “Claro! E ainda botaremos a Marilu na jogada”, retrucou Bia. Spa Diplomata aposentada, Marilu de Seixas Corrêa nasceu em Roma, mas tem raízes franco-brasileiras. Como já rodou o mundo, fala cinco idiomas fluentemente: português, espanhol, italiano, francês e inglês. Hoje mora em Copacabana, na Zona Sul do Rio, à semelhança de Rosa. Bia vive perto delas, no bairro de Ipanema. Com idades entre 64 e 71 anos, constituíram famílias numerosas, que somam nove filhos e dezesseis netos. Inseparáveis, gostam de conversar pelo WhatsApp, num grupo batizado de As Três Mosqueteiras. O trio, de início, era uma dupla. Rosa e Bia se tornaram sócias há muito tempo numa empresa que organiza eventos relacionados à sustentabilidade – ou à “economia verde”, como preferem dizer. Mais tarde, a parceria se ampliou e as duas inauguraram uma galeria de arte, a CorMovimento, especializada em obras modernistas. Um dia, vinte anos atrás, resolveram emagrecer e viajaram para o litoral fluminense. Trancafiaram-se num spa de Búzios, onde conheceram Marilu. Logo viraram cúmplices. Costumavam fugir da “prisão” com o intuito de “comer um peixinho” na cidade. Desde então, perambulam pelo circuito cultural do Rio, de Paris e de Nova York. Tentam ver um pouco de tudo: exposições, filmes, peças, musicais, óperas e concertos. Marilu, que toca violoncelo, é quem cuida da programação erudita. Ela também recebeu a incumbência de verter para o português o monólogo que as amigas cismaram de adquirir[...]



Bela, engajada e do laiá-laiá

2017-04-07T00:53:52Z

No Carnaval, com seios nus Enquanto se observava no espelho pela última vez antes de ganhar a rua, Andréia de Matos Rocha ainda sentia certa apreensão, mas já não tinha dúvidas: iria, sim, correr o risco de se misturar à multidão. Era sábado de Carnaval. Faltavam vinte minutos para o meio-dia e um mar de […] O post Bela, engajada e do laiá-laiá apareceu primeiro em Armando Antenore Jornalismo. No Carnaval, com seios nus Enquanto se observava no espelho pela última vez antes de ganhar a rua, Andréia de Matos Rocha ainda sentia certa apreensão, mas já não tinha dúvidas: iria, sim, correr o risco de se misturar à multidão. Era sábado de Carnaval. Faltavam vinte minutos para o meio-dia e um mar de foliões se espalhava por toda a cidade, em blocos ora gigantescos, ora paroquiais. Mignon, de pele clara e traços marcantes – os olhos castanhos e reluzentes, as sobrancelhas grossas, a boca sinuosa, o pescoço comprido –, a cientista social de 27 anos, que trabalha como pesquisadora de imagens e tendências comportamentais numa agência publicitária, gosta de metamorfoses. Vira e mexe, muda radicalmente o corte dos cabelos negros. Houve uma época em que os deixou à beira da cintura. Depois, os encurtou e alterou de tantos modos que, às vezes, parecia uma índia e, outras, uma egípcia ou uma melindrosa. Naquele sábado, exibia a cabeça raspada, à maneira da atriz Natalie Portman no filme V de Vingança. Usava botas de cano curto, um short cor de vinho, bastante apertado, e uma camiseta branca com o rosto estilizado da drag queen Ivana Wonder. Também portava dois piercings no nariz e vistosos brincos triangulares de acrílico. O batom preto e os longos cílios postiços lhe acentuavam a personalidade do rosto, salpicado de glitter. O visual carnavalesco se distinguia muito pouco do look que a jovem costuma ostentar em baladas noturnas. Apenas um detalhe tornava o conjunto inusual: sob a camiseta, sustentados pela parte superior de um biquíni, seus pequenos seios reluziam. O mesmo glitter dourado que lambuzava o rosto lhe cobria os mamilos. É que a moça pretendia desfilar nos blocos de São Paulo com os peitos nus. Se tudo corresse como planejara, sacaria a t-shirt e o biquíni em pleno asfalto e se juntaria à massa de corpos suados. Queria viver uma experiência semelhante à dos homens que se divertiam sem camisa. Quando saiu do apartamento que divide com uma amiga, lembrou mais uma vez que nunca fizera topless na praia ou num clube. Já protagonizara ensaios fotográficos em que mostrava os seios, mas as imagens resultavam invariavelmente de sessões privadas. Expor-se nas ruas e avenidas, sem a proteção de seguranças ou cordões de isolamento, seria bem diferente. Mesmo sob o peso de tais reflexões, não recuou. Sozinha, caminhou até a estação Fradique Coutinho do metrô, no bairro de Pinheiros, e embarcou rumo à Praça da República, no Centro. Ambiguidade “Lobisomem! Lobisomem!” Os gritos dos meninos ainda reverberam em Andréia Rocha, menos como um trauma e mais como um norte. Ela morava com os pais, o irmão e a irmã no Portal da Vila Prudente, condomínio paulistano de classe média. Caçula da família, herdou dos antepassados portugueses o excesso de pelos e uma cabeleira tão farta quanto repleta de caracóis. O legado em nada a incomodava até a chacota dos moleques. Uma menina cabeludíssima, com braços e pernas cobertos por uma penugem escura? Cruz-credo! Lembrava um homem. Pior: um lobisomem! O coro impiedoso a perseguiu durante meses e só findou depois que a garota seguiu o conselho da irmã: “Chute o saco dos babacas! Se gritarem bobagens, acerte um deles nos ‘países baixos’ e saia correndo.” O episódio poderia ter se diluído entre as infindáveis crueldades que a infância nos obriga a sofrer e praticar, mas virou um marco por duas razões. “Foi meu primeiro contato íntimo com o sexo oposto”, ironizou a jo[...]



A vez de Andréa

2017-02-03T21:16:36Z

Sobre o direito de morrer como travesti Em 1998, cercada de travestis e ativistas gays, Andréa de Mayo pediu o microfone na plateia do Programa Livre. Queria fazer uma pergunta para o convidado daquela tarde, o ultraconservador Afanasio Jazadji, então deputado estadual pelo PFL paulista. Ela estava furiosa. Com cabelos negros, crespos e longos, trajava calça […] O post A vez de Andréa apareceu primeiro em Armando Antenore Jornalismo. Sobre o direito de morrer como travesti Em 1998, cercada de travestis e ativistas gays, Andréa de Mayo pediu o microfone na plateia do Programa Livre. Queria fazer uma pergunta para o convidado daquela tarde, o ultraconservador Afanasio Jazadji, então deputado estadual pelo PFL paulista. Ela estava furiosa. Com cabelos negros, crespos e longos, trajava calça social e um camisão listrado de mangas curtas. Não usava maquiagem nem adereços, exceto um relógio de pulso, e tinha a voz fina. Era deliberadamente uma figura ambígua, que trafegava entre o masculino e o feminino. Transmitido pelo SBT, sob a batuta de Serginho Groisman, o Programa Livre se notabilizou por promover debates acalorados. Àquele dia, o apresentador e o público sabatinavam Jazadji sobre questões de gênero. O parlamentar, claro, defendia aguerridamente a tradição e achincalhava os que a colocavam em xeque. “Vi-aaa-do! Conversa de viadinho, de mariquinha!”, bradava, com sotaque italianado, apesar das origens romenas. Mal pegou o microfone, Andréa mirou o deputado e disparou: “Quando o senhor saiu às ruas angariando votos, disse para o indivíduo homossexual ‘Não vote em mim’?” Os aplausos e gritos da plateia quase abafaram a resposta do político. “Não, não, absolutamente…”, admitiu Jazadji. Ainda irritada, Andréa jogou o braço esquerdo para o alto e para trás, como se falasse: “Então vá se catar!” A cena encontra-se no YouTube e dura míseros onze segundos. Não deixa de ser uma relíquia, já que a internet reúne poucos vídeos com Andréa. Ela – que nasceu Ernani dos Santos Moreira Filho e se definia como travesti, embora nem sempre envergasse roupas ou acessórios de mulher – morreu em 2000, logo após comemorar 50 anos. Principalmente no underground de São Paulo, sua cidade natal, ficou conhecida pelas peripécias noturnas e por defender com unhas (às vezes, coloridérrimas) e dentes (bem cuidados) a dignidade dos LGBT. “O palhaço pinta o rosto para viver. O travesti também. Por que o travesti não trabalha? Quem dá trabalho para o travesti? Me conta isso! Se falta trabalho para pai de família, vão dar trabalho para travesti?”, resumiu em 1985, no programa Comando da Madrugada, conduzido pelo telejornalista Goulart de Andrade. Depois de um longo ostracismo, quando nem mesmo os movimentos gays costumavam evocar o legado de Andréa, a militante desbocada e pioneira está retornando às discussões sobre os direitos dos transgêneros. É que, em novembro de 2016, por iniciativa da prefeitura paulistana, o túmulo dela no cemitério da Consolação recebeu uma nova identificação. Agora, os que visitarem a sepultura descobrirão que ali jaz não apenas Ernani dos Santos Moreira Filho, como anuncia a placa de bronze original, mas também Andréa de Mayo, conforme indica a placa recém-afixada. As duas inscrições aparecem juntas, uma embaixo da outra. Já faz algum tempo que, em diferentes documentos, travestis e transexuais vêm conseguindo substituir seus nomes de batismo pelos adotados socialmente. O reconhecimento oficial, desta vez, se estende à seara dos mortos. Se a ativista decidiu viver como Andréa, gesto que lhe custou um bocado, por que haveria de morrer somente como Ernani? Prohibidu’s “Pai, vou operar logo. Preciso tirar a merda do silicone. Está dando rejeição.” Era uma sexta-feira quando Andréa comunicou por telefone que iria se submeter à delicada cirurgia. Av[...]






Sem álcool, com Jaguar

2016-12-08T18:13:20Z

Lembranças de um amnésico alcoólico que se tornou abstêmio De repente, após dar mais um gole na cerveja sem álcool, o homem de 84 anos vira um menino de 7 ou 8. “Não posso sair assim. Preciso avisar a fera”, diz, repousando a latinha de Brahma sobre um móvel da sala ampla e agradável. Ergue-se […] O post Sem álcool, com Jaguar apareceu primeiro em Armando Antenore Jornalismo. Lembranças de um amnésico alcoólico que se tornou abstêmio De repente, após dar mais um gole na cerveja sem álcool, o homem de 84 anos vira um menino de 7 ou 8. “Não posso sair assim. Preciso avisar a fera”, diz, repousando a latinha de Brahma sobre um móvel da sala ampla e agradável. Ergue-se vagarosamente da cadeira, arruma o boné azul-marinho que lhe esconde a calvície e caminha em direção à ala íntima do apartamento. Quase não tira os pés do chão. Arrasta-os como se deslizasse com patins invisíveis e lentíssimos. É magro, mas oculta sob a camiseta branca uma barriga avantajada, que o incomoda. “Costumava andar pela orla inteira, do Leblon até o Leme. Andava pra cacete, todos os dias, compreende? Quilômetros e quilômetros. Por isso, ficava enxutão. A barriguinha em ordem e tal. Só que agora… Arranjei uns calos plantares que me torram o saco. Nos dois pés, acredita? Uma dor infernal. Não consigo mais andar direito.” Expõe o drama sem fazer drama nenhum. Termina a explicação com uma gargalhada peculiar, que volta e meia o assalta, à semelhança de um cacoete, mesmo quando não está contando nada engraçado. “Vou descer”, grita diante de um quarto. Sua mulher responde lá de dentro, sem abrir a porta: “Descer? Por quê?” Ela tem a voz cavernosa de quem já fumou muito. “Vamos fugir do barulho, dessas marteladas de merda”, esclarece o marido. Uma reforma no vizinho de cima torna a sala pouco adequada para entrevistas. “Não se atrase, hein? Nem sonhe esquecer o nosso compromisso de hoje à tarde. Converse por uma hora e suba”, ordena a mulher. Observo os porta-retratos espalhados pelo ambiente e me pergunto qual das imagens femininas corresponde à da senhora linha-dura. Não consigo adivinhar, todas me parecem amistosas. “Ela é sempre brava?”, arrisco quando entramos no elevador que nos conduzirá do nono andar para o térreo, onde um hall iluminado (e silencioso) nos abrigará. “Brava? Pooorra!”, confirma o octogenário, alisando o cavanhaque inteiramente alvo e soltando outra gargalhada, que agora lhe avermelha o rosto. “Sangue quente! Filha de um italiano que fugiu da Úmbria por causa do fascismo. Faz o tipo aguerrida, sabe? Integrou o Partido Comunista no tempo em que ainda havia esquerda e direita. Pobre de mim se a contrariar. Ela…” Interrompe a frase e, depois de uns segundos, confessa: “No fundo, acho tudo uma curtição.” O lendário Jaguar – Sérgio de Magalhães Gomes Jaguaribe, um dos maiores cartunistas do país, anárquico, mordaz, sacana, à beira dos 65 anos de profissão – gosta mesmo é de rédeas curtas. Chapeuzinho Passa um pouco das onze e quinze. Naquela manhã de quinta-feira, em pleno outubro, a temperatura do Rio de Janeiro se revela mais baixa que de costume. Não à toa, por cima da camiseta, o desenhista veste uma jaqueta jeans. Tão logo se acomoda no sofá do hall, retoma o papo sobre a mulher, Celia Regina Pierantoni, e a cobre de elogios. “É médica das boas, professora universitária, uma sumidade em saúde pública. Carioca como eu, o que sempre me espanta – estão praticamente extintos os cariocas que não fugiram do Rio. Um brotinho, graças aos céus! Quase 20 anos mais nova que o Matusalém aqui. Moramos juntos desde 1989, e a louca ainda sente ciúme de mim. Imagine, amargar ciúme por uma ruína dessas… Às vezes, reclama da nossa relação, promete que vai embora. Eu boto panos quentes[...]



Nunca teremos tempo suficiente?

2016-10-20T22:36:11Z

Somos um instante.

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