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À Sombra das Palavras





Updated: 2017-06-16T22:53:43.004-07:00

 



Adónis, o cowboy

2011-06-14T10:17:36.929-07:00

Adónis levantou-se assim que o sono retalhado lhe permitiu ver a claridade que começava a tomar conta do quarto. Olhou satisfeito para a moldura em cima da mesinha de cabeceira com uma fotografia de Tom Mix, o cowboy lendário do cinema norte americano. Há meses que tinha substituído a foto da mãe por uma do homem com um chapéu branco de abas largas, dando nesse dia a dona Filomena mais um entre tantos outros desgostos e fazendo-a chorar baixinho a noite toda. Vestiu-se como se estivesse a ouvir alguém gritar fogo na rua. Enfiou as duas pernas na mesma perneira das calças e insistiu um pouco até ouvir as linhas estalarem. Depois de dar pelo erro meteu cada perna na respectiva perneira mas tentou andar ainda com as calças pelos joelhos enquanto as puxava para cima, o que o fez estatelar-se ao comprido no chão de terra batida. "Foda-se", pensou apenas, pois esqueceu-se de abrir a boca para verbalizar a palavra. “Mãe, é hoje mãe. A encomenda, mãe”, gritou ao passar a correr pela cozinha onde dona Filomena lhe preparava um pequeno-almoço de papas de aveia com mel. “Disparates! Olha, mas tu não comes? O correio só chega às dez horas”, gritou, mas ele já tinha saído para a rua. Tinha a mão estendida para abrir a cancela tosca do jardim quanto uma colher de pau voou de dentro de casa e lhe acertou em cheio na nuca. “Vem comer as papas de aveia, já”, guinchou-lhe a mãe, de mão na cintura e cabelo preso num rabo-de-cavalo quase desfeito. “Com que idade vais ganhar juízo, Adónis” perguntou. O filho voltou a entrar na cozinha a resmungar baixinho, curvando-se ligeiramente ao passar por debaixo da porta. Dona Filomena esticou-se toda para chegar à orelha do filho e puxou-a, levando-o de arrastão até à mesa. “Que disparate isso de quereres ser quebói” resmungava  ao mesmo tempo que lhe deitava as papas a ferver dentro de um prato de barro lascado. “Cowboy”, corrigiu-a ele entre dentes. A colher de pau ergueu-se no ao ar e caiu em voo picado acertando-lhe desta vez na testa. Engoliu as papas a escaldar, o que o fez queimar a língua e arfar como um cão exausto. “És tão desastrado. Que belo quebói vais tu dar”, disse a mãe no seu tom invarialmente jocoso. “Mãezinha, a próxima vez que passarem um filme no largo do coreto, quero que venha ver comigo. Vai ver que ser cowboy é o melhor dos destinos que um homem pode ter”, disse exaltado e de sorriso aberto. “Disparates”, resmungou ela enquanto varria o chão de terra batida.Desde há um mês que Adónis aguardava a chegada de um revólver, um chapéu de cowboy, um cinto com coldre e umas esporas, vindos dos Estados Unidos da América. Tinha feito a encomenda ao seu tio Inácio que tinha imigrado há dez anos para Nova Iorque. “Isto aqui é um chiqueiro. Uma salada de gente que não se entende”, tinha ele escrito uma vez numa carta, assustado com agressividade dos irlandeses após a terceira cerveja e enojado com as fossas a céu aberto que enfeitavam os bairros de emigrantes. A primeira vez que o tio Inácio viu um negro ser enforcado num poste e depois incendiado com as roupas empapadas em gasolina, caiu de cama durante duas semanas, perseguido pelos gritos de fúria da multidão e o cheiro a carne humana queimada, mas depois de mais cinco ou seis execuções públicas, a coisa já não o incomodava e passou a sentir até alguma excitação infantil sempre que o povo, equivocado ou não, fazia justiça pelas próprias mãos. O carteiro chegou duas horas atrasado e sem revólver, chapéu, esporas ou coldre. “Não há nada para mim”, perguntou Adónis num desalento. “Volta para a semana. A aldeia aguenta sem cowboy mais uns dias”, disse numa gargalhada. Adónis afagou com um ar preocupado as faces esburacadas pelas bexigas, “Espero bem que sim, senhor carteiro. Espero bem que sim.”, disse ele com toda a calma do mundo, contemplando um ponto imaginário no horizonte. “Não é tudo mau. Pelo caminho passei pela Companhia de Cinema. Devem chegar lá para a tardinha.” disse o carteiro fazendo Ad[...]



Alma vazia

2011-03-12T05:20:27.600-08:00

Os talheres batiam suavemente nos pratos e os guardanapos de linho iam e vinham num som abafado. Ninguém falava, pois era de mau tom falar com uma defunta à mesa. Há muitos anos que mal se ouvia uma palavra naquela casa. As vozes tinham-se calado quando o coração de Dona Eduarda foi ferido de morte pelo marido. Não se notou logo que Dona Eduarda tinha morrido, pois nos primeiros tempos ela parecia apenas triste. Mas o coração ferido apodreceu-lhe no peito, secou e fez-se pó. O seu corpo começou a cheirar a flores murchas e da sua boca emanava um ligeiro cheiro de águas mortas e fétidas.O marido tinha desde há muito declinado o seu lugar numa das pontas da mesa, e sentava-se sempre ao lado da mulher com os olhos vidrados na sua direcção e o peso da culpa a vergar-lhe a espinha. Ele falava-lhe, mas ela nunca lhe devolvia uma palavra. Nem a ele nem a ninguém. Os filhos, sentados à volta da mesa com as respectivas mulheres, tinham-se habituado desde crianças a ter como mãe uma defunta, e nada daquilo lhes parecia trágico, triste ou mesmo estranho.Todos os dias, antes da sobremesa, o marido de Dona Eduarda estendia-lhe um bilhetinho dobrado,  onde tinha escrito tristes e breves pedidos de desculpas. Escrevia-os à noite antes de ir para a cama e guardava-os debaixo do travesseiro. "Desculpa", balbuciava ele com voz tremente, enquanto lhe estendia o pedaço de papel branco. Fazia-o em frente de todos, como se assim conseguisse a absolvição pública do seu pecado. À mesa, acostumados já com aquele ritual de tanto anos, já ninguém reparava. A entrega dos bilhetes tinha-se transformado em mais um hábito mundano, e era encarado com tanta naturalidade como escovar o cabelo de manhã ou sacudir um tapete à janela. O pedaço de papel dobrado permanecia intocado ao lado da esposa até ao final da sobremesa. Ele voltava a pegar no bilhete e puxava um enorme embrulho do chão para cima da mesa. Desapertava-lhe o cordel encerado e abri-o como se fosse um presente. Colocava o pequeno pedaço de papel junto a centenas de outros, e voltava a fechar o embrulho. Levantava-se então da mesa e ia dar um longos passeios pela cidade, com o peso da  sua culpa amarrado firme e seguro debaixo do braço.Naquele dia o homem sentia-se mais cansado e derrotado que nunca. O peso de tantos anos de angústia  tinham-se condensado naquele momento. Tinha passado a hora do almoço a contemplar as amendoeiras em flor que os saudavam batendo com os longos ramos nas janelas. Sentiu o mundo pairar sobre ele, pesado e acusador. Uma tristeza esmagadora apoderou-se do seu ser deixando-o nauseado.Assim que a empregada começa a colocar os pratinhos com bolo de morango e creme na mesa, ele entrega à esposa o habitual bilhetinho, mas desta vez não era branco. Tinha-o escrito em papel roxo e salpicado com umas gotas da sua água de colónia. A mesma que usava desde que a mulher lha tinha oferecido pela primeira vez há cinquenta e cinco anos atrás."Eduarda, desculpa. Por favor...", inclinou-se para ela e olhou-a de frente, num derradeiro esforço de ver vida ali. Mas não encontrou nada. Estavam vazios os olhos e no seu peito apenas existia um montinho de pó que tinha sido outrora um coração. Engoliu em seco enquanto juntava o pedaço de papel roxo aos outros bilhetes. Deixou correr algumas lágrimas livremente enquanto saía de casa e fechava a porta sem ruído.Ao fim da tarde alguém toca à porta suavemente. A empregada dirigiu-se à saleta onde as mulheres bordavam e os homens liam o jornal e fumavam charutos. Com um ar afectado anuncia um jovem que diz ter uma entrega para fazer naquela morada. O rapaz entra, com uma expressão que podia ser lida como um misto de tristeza, consternação e desconforto. Debaixo dos braços carrega dois embrulhos. Um era de papel amarelo novo, mas o outro era extremamente familiar. "Há meses que me encontro com um senhor todas as tardes no parque. Oferecia-me sempre tabaco... conversávamos muito, eu e ele...", pára, visivelmente incomodado. "Ele hoje pedi[...]



O banco de jardim

2010-06-11T06:47:33.001-07:00

Não se lembrava de alguma vez ter sentido tanto frio. Sentado num banco de jardim prepara-se para inspirar profundamente, mesmo sabendo que isso iria ser doloroso. O ar entra dentro dele como uma avalanche que enche os pulmões de raspas de gelo e bloqueia-lhe a respiração por alguns segundos.Estica as pernas para frente enquanto une as mãos em concha atrás da nuca.Era a única pessoa à face da terra. Todos os que se cruzavam com ele não passavam de sombras esbatidas e apressadas que tentavam fintar o frio.Ao seu lado está pousado um envelope grande e amarelo, amassado pelas inúmeras viagens. Fica a olhar para o rio, perguntando-se quanto tempo demoraria a morrer naquelas aguas geladas que avançavam furiosamente até ao mar.Sente alguém aproximar-se de passo arrastado. "Boa tarde", ouve dizer. Não olha o desconhecido, mas pela voz percebeu que devia ser muito velho. Demasiado velho para estar ali numa tarde tão fria. "Boa tarde.", responde indiferente. Havia dezenas de brancos livres no jardim, mas o velho sentara-se ali, ao lado dele. Isso aborrece-o um pouco. O velho estende-lhe um pacote de tabaco e uma mortalha. "É servido?". Ele aceita, sem saber porquê.Olha para o velho de soslaio e para o seu fato bastante usado, mas de corte impecável. Na cabeça trazia um chapéu de feltro cinzento que deixava ver algumas madeixas de cabelo cor de prata.. Ao seu lado tem pousado um grosso embrulho amarelo atado com um cordel. O papel está bastante gasto e manchado, mas o cordel é novo. Ele sorri num esgar , pensando o quão caricato seria para quem passava ver ali sentados, numa tarde gelada, um jovem e um velho, ambos a fumar com gestos sincronizados, ambos com um embrulho amarelo ao lado, ambos a contemplar o rio com um vazio no olhar."Estou quase a morrer e nunca cheguei a viver", diz o velho de forma vaga e inexpressiva. "Poucos chegam verdadeiramente a viver", responde-lhe o rapaz, naturalmente, como se na vida já nada o pudesse surpreender. O tempo passa lento e silencioso. "Obrigado pelo cigarro.", diz enquanto se despede com um simples aceno e sem olhar para trás, de mãos nos bolsos das calças e o envelope amarelo preso debaixo do braço.Volta nos dias seguintes ao mesmo banco de jardim. O velho chega sempre pouco depois. Não se admira... vê a presença do homem como lógica, quase necessária. Aceita sempre o tabaco que ele lhe oferece. “O que tem nesse envelope?”, pergunta uma tarde o velho sem olhar para ele. O rapaz  demora mais de um minuto a responder, “Um manuscrito, um livro que escrevi.”, responde, ouvindo a sua voz sair tensa. “Porque anda com ele?”, insiste o velho com um ar estranhamente paternal. “Ando a tentar que mo publiquem. E o senhor, o que traz nesse embrulho?”, pergunta sentindo-se subitamente furioso com o velhote. “Hum”, é tudo o que ouve na boca do velho, que entretanto se levanta e vai embora sem proferir palavra, com passos lentos e dolorosos.Nessa noite ao deitar, deu-se conta de que iria sentir falta do velho caso ele deixasse de aparecer no banco do jardim todas as tardes.“O que tem nesse embrulho?”, pergunta-lhe uma tarde o rapaz novamente, tentado parecer casual. “As minhas culpas. Neste embrulho trago as minhas culpas.”, diz de voz sumida, enquanto fixa os olhos na ponte sobre o rio.A Primavera cobriu as amendoeiras do parque de pequenas flores brancas.O rapaz senta-se e pousa o eterno envelope amarelo. Nessa tarde o velho tarda em aparecer. O rapaz vai olhando impacientemente para a esquerda e para a direita. Fica ali a ouvir a água do rio chilreando alegremente, enquanto vai ficando cada vez mais impaciente. Quando está prestes a levantar-se para ir embora vê o velho chegar num passo mais lento que o normal. O homem senta-se sem o habitual “boa tarde” e sem lhe oferecer tabaco. “Trouxe-lhe uma tarte de groselha da pastelaria... o senhor oferece-me sempre tabaco e eu... nunca lhe trouxe nada... “, diz estendendo-lhe uma pequenina caixa de papel. O velho abre a caixa [...]



A casa dos rouxinóis

2011-03-12T05:20:59.745-08:00

 As várias centenas de rouxinóis acordavam o senhor Justino, como sempre, por volta das cinco horas da manhã. A musicalidade das pequenas aves perdia-se na quantidade de pios que tornavam o som insuportável. A passarada era a paixão da esposa, Dona Carlota Maria que, desde o primeiro dia de casada os começou a coleccionar, desalmadamente, em inúmeras gaiolas estrategicamente colocadas em todas as varandas e terraços da casa. Havia gaiolas em finas ripas de madeira simples, mas também gaiolas em arame trabalhado, madeira branca cheia de rendilhados, ou pintadas de dourado. Todos os Domingos aparecia uma romaria de gente para ver o espectáculo, incluindo estranhos de vilas e aldeias vizinhas que, tendo ouvido falar na “Casa dos Rouxinóis”, o queriam comprovar com os seus próprio olhos, visto ser certo e sabido que a língua que espalhava uma história normalmente exagerava na magnitude da mesma. Nunca ninguém saiu daquela casa desapontado. Dona Carlota Maria inchava de vaidade enquanto o marido se refugiava no quarto à beira de um colapso nervoso, a tremer e a roer almofadas.A mulher, tal como os rouxinóis, começava os seus monólogos por volta das cinco da manhã e só se calava para dormir, ou durante os breves instantes em que parava para tomar fôlego.“Levanta-te homem que o sol já vai alto! Mandei a criada comprar mais cera para o teu bigode, mas ela esqueceu-se. Eu até lhe escrevia uma lista de compras, mas de que lhe serviria se a desgraçada não sabe ler? Já pensei em perder algum tempo e ensiná-la, mas logo alguém a resgataria com um salário mais alto. Já não há lealdade nos serventes como antigamente. Não sei o que se passou com o colete do teu fato preto, tem uma mancha que não sai. Como é que fizeste aquilo? Não tens cuidado nenhum, é o que é! O que seria de ti sem mim, gostava eu de saber… sempre atrás de ti a emendar os teus disparates. Se não te acordasse eras bem capaz de dormir até morrer! És um preguiçoso, é o que é! A preguiça é o instrumento do Diabo! E os meus joelhos que há três dias não me dão descanso… aproxima-se uma tormenta, e das grandes! Escreve o que eu te digo. Nunca me enganaram, estes meus joelhos. E que desgastados que estão por causa do raio da escadaria em caracol que te lembraste de fazer nesta casa! Devias-me trazer ao colo até ao andar de cima! Isso sim. É o que merecias! Sabes quantos degraus tem? Aposto que não sabes. O que é que isso te interessa, se não és tu que tens problemas de joelhos, não é? Pois eu te digo que tem cento e cinquenta e três degraus! Achas bem que eu tenha de, até ao final dos meus dias, trepar cento e cinquenta e três degraus cerca de dez vezes por dia? É que para descer, todos os santos ajudam, mas e para subir? Oh suplicio! Deus me leve para o Paraíso, que no Inferno já eu estou há quinze anos! Amanhã é o baile dos fidalgos do Monte Branco. Como raio vou conseguir tirar a mancha do teu colete até lá? Imagina a nossa figura, tu de colete com uma nódoa, sem cera no bigode e eu a crepitar dos joelhos! É nisto que nos tornamos! As mais importantes famílias da região vão lá estar, e tu com uma nódoa no colete! Que vergonha! Oh tivesse eu ido para noviça! Teria mais animação num convento que com este casamento desgraçado! E larga esse cachimbo homem, que o cheiro me mete os pulmões numa aflição!  ”E assim continuava Dona Carlota Maria desde que o sol nascia até que o sol se punha. Aos seus monólogos torturantes juntava-se o incessante chilrear dos rouxinóis. O senhor Justino não sabia o que tinha acontecido à antiga Dona Carlota Maria, que nos tempos de noivado mal abria a boca, mas que após a noite de núpcias a abriu para não mais a fechar.Os bailes dados pelos fidalgos do Monte Branco já não eram novidade, mas causavam sempre uma alegria quase infantil ao senhor Justino, pois Dona Carlota Maria assim que lá chegava começava e espalhar a sua torturante verborreia pelos re[...]



A longa espera...

2010-09-14T02:39:06.400-07:00

Finalmente estava velha! Tinha esperado muitos anos pelo momento exacto em que sentiria mais para lá do que para cá, e quando esse momento chegou aceitou-o com júbilo e excitação.Espreitou a manhã radiosa pela janela do quarto e sorriu com os poucos dentes que lhe restavam. Olhou para o penico debaixo da cama e pela primeira vez desde que se conhecia, deixou-o ficar em vez de o ir despejar à latrina. Tomou essa decisão de forma travessa e triunfante.Foi buscar uma pá à arrecadação e dirigiu-se para o quintal. Caminhou pesadamente, com a dificuldade da idade até chegar ao pé de nove enormes vasos de roseiras alinhados em fila, que tinha coleccionado ao longo de mais de sessenta anos de trabalho árduo. Tentou mover um mas não conseguiu. Já não tinha forças para tanto. Empurrou-o até que tombasse para o chão em mil cacos. Começou a cavar no lugar do vaso até que a pá começou a fazer um som seco. Puxa um pesado pote para fora do buraco. Abre-o ali e mergulha as mãos velhas em centenas de moedas de ouro. Dá uma sonora gargalhada que culmina em risinhos nervosos. Olhou para os restantes vasos de rosas por uns momentos com visível satisfação.Voltou para casa e encheu a sua malinha de domingo de moedas. Guardou as restantes num buraco do soalho e com o seu melhor xaile aos ombros caminhou com os seus passinhos lentos de velha até à casa do ferreiro. Não se sabia porque chamavam ferreiro ao ferreiro, já que ninguém jamais o tinha visto a moldar o que quer que fosse, no entanto todos iam ter com ele quando precisavam de coisas mais complicadas de obter. A velha em breves minutos disse-lhe tudo o que pretendia. O homem olhava-a embasbacado à medida que ela ia falando. No final lança-lhe um olhar de dúvida, que a velha apagou ao virar a malinha cheia de moedas em cima da mesa. Apenas soltou um "Oh Deus!" enquanto a velha lhe piscou um olho, satisfeita.Na semana seguinte começa a chegar a enorme encomenda feita. Cria-se um enorme alvoroço em frente à casa da velha, enquanto de carroças, homens suados descarregam as mais variadas coisas. Uma enorme banheira de porcelana branca com pés em metal dourado, metros e metros de tecido de estampados garridos, caixas de madeira cheias de copos de cristal acomodados em palha, um piano de cauda, enormes braseiros de cobre, carpetes fofas enroladas e presas por um cordel, muitas caixas de conteúdo desconhecido e até objectos apenas cobertos por panos brancos mas sempre carregados com o maior dos cuidados.A noticia espalha-se por toda a vila até chegar a casa das filhas da velha. Eram sete no total, todas idênticas de aparência mas não de humores. Caminham esbaforidas para casa da mãe, perplexas, surpresas, comentando umas com as outras a notícia e questionando a sua veracidade.As filhas passaram por caixas e mais caixas largadas no jardim da mãe e entraram na casa aos tropeções."Minha mãe!", disse a mais velha, "Que se passa aqui? O que é tudo o isto? Enlouqueceu, minha mãe?". As outras acompanharam-na num coro lamuriento, "Enlouqueceu minha mãe?". A velha que já tinha previsto esta reacção, e que até tinha um pequeno discurso improvisado, exaltou-se e deixou o discurso entalado na garganta. "Como ousam?", grita subitamente. "Como se atrevem? Criaturas ingratas! Criei sete filhas e trinta e um netos, tantos netos que nem sei o nome de todos! Vivi para vocês mais de sessenta anos sem nunca soltar um único "ai"! Esperei toda a vida por isto. Finalmente o descanso! Agora é a minha vez de ser servida! Acabaram-se as couves da minha horta e os ovos dos meus poleiros. Acabaram-se os almoços de Domingo em minha casa! Até almoços de Páscoa e as Ceias de Natal!", pára arfando e de olhos a sair das órbitas. Aponta o dedo indicador à filha mais velha, "Este Domingo o almoço é em tua casa. No Domingo a seguir é em casa da segunda mais velha e assim sucessivamente e até chegarmos à mais nova. E depois começa-se do princípio[...]



Gustava

2010-01-30T01:35:43.301-08:00

Caminha descalça por entre os estábulos e os currais vazios. As pedras magoam-lhe os pés. De alguns dedos escorre sangue vivo e quente, noutros vêm-se crostas secas de outros dias.A sineta lá em baixo continua a tocar insistentemente. Está a tocar há já cinco minutos, calcula ela. É uma estupidez ser a única servente daquela família de loucos. Como podiam pensar que ela sozinha conseguia fazer tudo? Limpar, cozinhar, tratar da horta...! “Um dia vou-me embora daqui!”, prometia ela muitas vezes. Nem sequer lhe pagavam, de que lhe valia servir naquela casa? Aos trinta anos estava acabada. A juventude tinha-se esfumado no meio de tantos trabalhos pesados... às vezes pensava que nunca tinha sido jovem, que tinha tido sempre as mãos gretadas e a tez queimada do sol.A sineta continua imparável. Acelera o passo ao ver o vulto do jovem montado numa bicicleta, com uma enorme cesta de verga com rodas atada de atrelado.Ela pára, do lado de dentro do portão, de olhar furioso e cabelo em desalinho.- Tanta pressa!! Não estás farto de saber que trabalho sozinha aqui? – atira-lhe ela, mais em tom de afirmação que de pergunta.Ele olha para ela, chocado com o quanto aquela rapariga se degradava de mês para mês. Ainda se lembrava dela a correr pela quinta com um vestido de linho branco, lançando gargalhadas ao vento. Sente um nó de tristeza que lhe aperta o estômago e o coração a ficar um pouco mais vazio.- O que foi? Porque olhas assim para mim? Endoideceste, tu? Se me pagassem eu comprava umas tamancas novas, mas dinheiro nem vê-lo! Nem vê-lo! As que tinha partiram-se há uns dias. O merceeiro paga-te? – Pergunta mirando-o com um profundo interesse na resposta. Ele acena que sim ao mesmo tempo que lhe estende um pacotinho de caramelos.- Oh, trazes-me sempre um doce. Até parece que estás apaixonado por mim! - Ri-se ela deliciada, mostrando os dentes que outrora tinham sido da cor da porcelana.Ele cora e crava os olhos na terra. Sempre sem articular palavra, entra pelo portão e puxa até ao casarão, no topo do monte, a cesta carregada de pacotes de açúcar e arroz, frascos de café, pacotinhos de especiarias e farinha, destinadas a abastecer os móveis da cozinha. Fazia esta visita todos os meses. Ninguém daquela casa ia à vila há já muitos anos.O Conde, que nunca tivera cabeça para os negócios nem para o jogo, era apaixonado por essas duas actividades. Assim sendo, perdeu tudo o que tinha na roleta e nas cartas e em investimentos desastrosos na capital.Herdara o título aquando da morte de seu pai, que, completamente louco, costumava correr pelos campos a tentar apanhar borboletas, tropeçando em tudo quanto era pedra. É que se a paixão do filho eram os negócios e o jogo, a paixão do pai era a entomologia. Uma das pedras tinha sido fatal... e lá ficou o conde, estendido no chão com o crânio rachado ao meio. O filho assumiu o titulo com um ar pomposo... a primeira coisa que fez foi casar com uma prima abastada, afim de não dispersar fortuna. Infelizmente o gene da loucura corria pelas veias da família há muitas gerações... depois de perder tudo enlouqueceu, a seguir enlouqueceu a mulher e logo depois foram os filhos.Viviam então alienados do mundo, naquela mansão decrépita, levando vidas de faz-de-conta, como se vivessem num gigantesco palco de teatro.Está o rapaz a pousar as mercearias na mesa de mármore da gigantesca cozinha, quando o Conde entra, de bigode repenicado a fumar cachimbo.-Gustava! Ainda bem que a encontro! Olhe, queria pedir-lhe que sirva veado ao jantar... há imenso tempo que me anda a apetecer veado. Bem tenrinho! Tome providências! – diz de modo afectado, e de postura rígida que nem um cepo, enquanto uma traça lhe pousa na lapela do casaco. Sai da cozinha apressadamente, deixando um rasto de cheiro bafiento, e sem prestar a mínima atenção ao rapaz.- Veado! Oh... Veado! Eu lhe digo o veado! – Atira ela num grito [...]



O velho e o Chopin

2011-03-11T10:40:57.344-08:00

- Esta vila é muito bonita, não é Chopin? – Perguntou enquanto esfregava as mãos uma na outra, tentando aquecer-se.Chopin olhou para ele e deitou-se no chão, com o estômago colado às costas, de tanta fome.- Dantes, quando eu trabalhava aos fins-de-semana, e chegava cansado, a minha mulher tinha sempre à minha espera uma ceia de faisão. Já te tinha dito isto Chopin? – Disse, em jeito de afirmação vaga, enquanto olhava em volta com os olhos perdidos. Tosse de forma dolorosa durante um minuto e depois pára, de peito cansado.O banco de jardim estava gelado e húmido. O velho sentia o frio a atravessar-lhe a pele, a carne e por fim a chegar aos ossos gastos, onde doía como se lhe estivessem a espetar facas. Afaga os joelhos cansados… o tecido das calças, surrado e roto, ameaçava desfazer-se a qualquer momento, desprendendo-se daquele corpo humano, como fuligem que se solta de uma chaminé.- Vem Chopin, vamos tentar comer qualquer coisa. – Tosse novamente, em agonia… leva um lenço à boca para se limpar, e fica por uns momentos a olhar para o sangue. Suspira e volta a enfiar o lenço sujo num bolso ainda mais sujo. Caminham lado a lado, lentamente, ao ritmo da velhice e da doença que lhe corroía a carne. Passam por uma árvore de Natal da altura de dois homens, coberta de laços vermelhos e bolas de vidro coloridas. Por baixo, repousava um presépio, de estatuetas toscas esculpidas em madeira e de cores sumidas pela idade.A padaria estava envolta numa nuvem de fumo que cheirava a bolos e a pão quente. Na porta estava pendurada uma coroa de azevinho, carregada de bagas vermelho vivo.- Bom dia minha menina! Não me arranja nada com que entreter os dentes? A mim e ao Chopin… que ainda está com mais fome que eu. – Os seus olhos de raios cinzentos salpicados de verde, sorriem de forma amena, reflectindo uma bondade latente. A rapariga por detrás do balcão sorri-lhe com franqueza.- Ontem apanhei uma descompostura do meu pai! Não lhe posso dar comida todos os dias, senhor. Olhe, posso dar-lhe um pãozinho de leite com queijo e uma chávena de café quente, pode ser? – Ouviu a própria voz sair da garganta, carregada de culpa e pena.- E para o Chopin? – Perguntou com desalento e rugas tristes.Chopin, olhava ora para um, ora para outro, impávido.- Não posso, só lhe posso dar a si. Ao seu cão não pode ser… tenho muita pena. – Disse, enquanto preparava o pão-de-leite e chávena de café a ferver.O velho dividiu a preciosa iguaria em três partes iguais. Deu duas ao cão e comeu a outra lentamente, enquanto beberricava o café.- Onde vai passar a Consoada, senhor? – Perguntou a menina com tristeza. – Não pode ficar na rua na noite de Natal. Alguém tem de fazer alguma coisa!- A cabana abandonada ao pé do rio até que nem é má, se não me cair em cima antes – riu-se o homem - Eu fico bem, não se preocupe. Acha que me arranja dois pãezinhos-de-leite para Consoada, menina?- Oh, claro que sim! Passe aqui amanhã ao fim da tarde, que eu dou-lhe os pães-de-leite e um frasco de compota. Tenho algumas moedas guardadas. Se eu pagar, o meu pai não pode refilar… - disse algo divertida com a travessura. – Eu até o convidava para passar a consoada lá em casa, mas vamos passar o Natal a casa de uns primos, numa vila aqui perto.O velhote anui com um gesto lento da cabeça e volta para o frio da rua, sempre com o cão ao lado, que o olhava com gratidão por os dois terços de pão-de-leite que tinha no estômago.- Não há cão como tu, Chopin! Nunca te esqueças disso. – Disse emocionado, por entre mais um ataque de tosse violenta.Parou em frente à ourivesaria a apreciar os relógios de cordões de ouro reluzente que se exibiam na vitrina. O ourives saiu à rua, e acendeu um cachimbo.- Bom dia meu caro! Ainda por cá? Está a gostar disto, hein? – Perguntou o homem de fato engomado e barriga de frade, com um sorriso [...]



A Menina Preta e a Menina Branca

2011-03-11T11:18:01.522-08:00

As gémeas nasceram no dia treze de um mês chuvoso.Aquele parto provocou na vila um reboliço sem precedentes. O choque da parteira foi igual ao choque de todas as outras pessoas. Uma das meninas era branca, como a cal viva... a outra negra como carvão. Não havia diferenças de tonalidade entre os cabelos, a pele, e nem mesmo nos olhos. Eram ambas como uma faixa compacta de uma só cor.Tinham uma beleza serena, que era ao mesmo tempo tão assustadora quanto hipnotizante.O pai pediu satisfações à mãe, e a mãe não lhas soube dar. O médico interveio, dizendo que aquilo era uma fenómeno que ultrapassava os limites da ciência. O pai aceitou a explicação, algo relutante, mas a verdade é que a sua relação com a esposa nunca mais foi a mesma.Perante a incapacidade dos pais em lhes dar um nome, ficaram apenas conhecidas por Menina Branca e Menina Preta, o que causou uma grande dor de cabeça na hora de registar as crianças.As meninas foram criadas num isolamento quase total, e das poucas vezes que as levavam à rua, não podiam deixar de ser alvo de olhares embasbacados. "Olha para elas... têm menina do olho? Não dá para perceber...", "É negra, mas não tem feições de africana... é como se tivesse sido tingida, apenas...". As meninas eram imperturbáveis a estes comentários sussurrados, e continuavam, calmas, sempre de mãos dadas. Eram absolutamente normais em tudo o resto, mas a mãe às vezes apanhava-as a olhar uma para a outra... silenciosas, como se estivessem a falar telepaticamente.Ambas insistiam em vestir-se de acordo com o tom de pele, o que fazia com que parecessem, uma, uma sombra e a outra uma aparição.No dia em que fizeram quatro anos, a mãe levou-as ao parque, para uma volta de carrossel. Foram as três comprar os bilhetes, ao mesmo tempo que se deixavam deslumbrar pelos cavalinhos de madeira colorida, que rodopiavam embalados ao som da música alegre. O senhor da bilheteira, carrancudo e cansado, preparava-se para aceitar as moedas e entregar em troca os papelinhos rectangulares e coloridos, quando, sem aviso, a Menina Preta disse: "O senhor salvou um menino de morrer afogado num poço... e nunca contou a ninguém.". A Menina Branca disse de seguida: "Mas deixou morrer a sua mãe à fome e ao frio."O homem ficou a olhar para ambas... petrificado. Ora olhava para a Menina Branca, ora olhava para a Menina Preta, confuso, quase em choque. A mãe olhava também atónita, ora para uma, ora para a outra, acompanhando em sintonia a cabeça do vendedor de bilhetes. "Vão, esta volta é por minha conta, vão, vão." - disse o homem confuso. "Comportem-se!" - rosnou-lhes a mãe exasperada, e mandou-as subir no carrossel, enquanto o vendedor de bilhetes continuava a olhar para elas de boca aberta.Do céu começou a cair uma chuvinha peneirada e morna, que as deixou cobertas de um pó brilhante e húmido. A mãe levou-as à pastelaria, para que bebessem um chá quente e comessem uns pasteis recheados de creme de baunilha.Espreitaram a doçaria exposta numa vitrina, e entraram as três a salivar. A senhora atrás do balcão tinha uma beleza altiva. Uns óculos minúsculos, equilibravam-se precários na ponta do seu nariz, "Boa tarde, o que desejam as meninas?" - Perguntou delicadamente enquanto acomodava uns pastéis de creme ao lado de uma torta de chocolate e tentava fingir que as aquelas duas crianças tinham uma aparência normal. "A senhora todas as noites deixa comida à porta de uma viúva pobre com cinco filhos... e nunca disse a ninguém." - disse-lhe a Menina Preta, calmamente, numa voz neutra. "Mas foi a senhora que empurrou o seu irmão das escadas quando era pequena. Ele partiu o pescoço e morreu."-disse-lhe a Menina Branca fixamente. A senhora olhou para elas, agora menos bonita e menos altiva, de olhos marejados de lágrimas e de lábios a trementes. "Levem os vossos pastéis... vão... sen[...]



O magarefe

2010-04-30T07:25:44.152-07:00

Três crianças jogam ao berlinde na rua poeirenta. Riem alto enquanto dão saltinhos agachados. Ouvem passos pesados e viram-se, ainda com um resto de gargalhada na ponta da língua. Ao verem o homem calam-se, e divertidas fogem para trás de um enorme carvalho à beira da estrada. Esperam de respiração suspensa e entre risinhos nervosos que ele passe. O homem já está habituado a esta reacção. Não o incomoda, na medida em que muita pouca coisa o incomodava e ainda menos coisas lhe mereciam uma segunda reflexão. Era mais alto e entroncado que qualquer outro homem da aldeia. Nunca ninguém lhe tinha ouvido a voz... talvez apenas um grunhido numa ou outra rara ocasião. Volta a casa depois de mais um dia de trabalho no matadouro. Tem as calças salpicadas com o sangue dos borregos que tinha desmanchado naquela tarde... nas mãos traz um saco de serapilheira com aparas de borrego que o patrão lhe dispensou. O saco está húmido e pinga, deixando pequenos pontinhos vermelho vivo decorando as pedras e fazendo-as parecer joaninhas gigantes secas ao sol. Talvez a mulher pudesse fazer um estufado para o jantar. As botas de cabedal mal curtido arranham o chão áspero e o peso de um dia de trabalho verga-lhe as costas. Passa por três raparigas que regam uma sementeira... elas calam-se à sua passagem, num misto de embaraço e risos contidos. "Olha, é o magarefe!" - diz a mais nova, sufocando uma gargalhada com a mão. Acotovelam-se umas às outras na tontice própria da juventude. - Magarefe! Doem-me tanto as costas... podes ajudar-nos a trazer baldes de água? - Grita-lhe uma delas, divertida. Ele pára e vai ter com elas. Nunca dizia "não" a um pedido de ajuda... e naquela aldeia os pedidos de ajuda que lhe faziam era uma constante. Pega no pesado balde feito de ripas de madeira inchada e até ao pôr-do-sol faz incontáveis viagens entre a horta e o poço. Quando pára por falta de luz, repara que as meninas há muito que tinham ido embora. Não pensa sequer nisso. Antes de chegar a casa, ainda ajuda uma vizinha a guardar as galinhas no galinheiro. Toda a aldeia vivia dos favores daquele homem. Chegavam a acorda-lo a meio da noite para ir procurar cavalos fugidos e a maioria das vezes nem se lembravam de lhe agradecer a ajuda. No entanto ele era um homem genuinamente bom e ingénuo. Normalmente apelidavam-no de otário, pois é certo que a natureza humana tem destas crueldades injustificadas. Ele continua, exausto. O saco de serapilheira já não pinga. Como qualquer homem que aspira pelo final do dia para poder descansar, ver os filhos, ou fumar um mísero cigarro enrolado... também ele percorria todos os minutos do dia com um único propósito, voltar para a mulher. Ela não o sabia, mas não abandonava o pensamento do marido por um segundo sequer. A vila era tão no fim do mundo, que a expressão “fim do mundo” ganhava uma nova força quando se falava daquele lugar. Chegava a suceder o fenómeno de chover em toda a província, menos ali. No entanto ninguém estranhava o facto e compreendiam que Deus se tenha esquecido daquele lugar. Entra em casa, e o cheiro a sopa de feijão leva-o à cozinha. A mulher cirandava numa azáfama de um lado para o outro cantarolando. Uma das pontas da bainha da saia estava presa na cintura, deixando ver as coxas morenas e cheias. O cabelo mal apanhado em desalinho, as faces rosadas e a respiração ofegante. Olha-a com devoção... ela vira-se e ele baixa o olhar, tossicando... disfarçando a fraqueza. “Chegaste!”, cantarola ela alegremente, “Tens fome?”, e antes que ele respondesse, encheu um prato de sopa e colocou-o na mesa. Os longos dez anos de vida em comum com aquele homem que o pai lhe tinha arranjado, ensinaram-lhe que não valia a pena fazer perguntas. Ele raramente respondia e quase nunca proferia palavra. Estar casada com ele era o mes[...]



A menina que tinha medo de morrer

2009-11-30T10:07:02.810-08:00

Leva a ultima garfada de bolo de mel à boca com as mãos trementes pela antecipação da angustia que a espera. A sobremesa era a ante câmara dos horrores que marcava a sua iminente ida para a cama.Depois do jantar, o pai retirava-se para o salão onde fumava charutos e bebia brandy à lareira. A mãe sentava-se ao lado dele bordando paninhos e mais paninhos de linho, destinados ao esquecimento no fundo de baús que se iam empilhando no sótão.A governanta escoltava-a ao quarto. Caminhava à sua frente rasgando as trevas com uma pequena lamparina de azeite.Amortalhada nos lençóis rendados, ficava inerte, noites a fio, olhando as sombras das árvores que a lua projectava na janela.Há três anos que não dormia. Lembrava-se da noite em que tinha deixado de dormir. Costumava perder-se em devaneios antes de adormecer e naquela noite em particular, lembrou-se do enterro da bisavó, e como lhe obrigaram a depositar um derradeiro beijo na testa da defunta. Lembrava-se ainda da textura enrugada da sua testa, da pele gélida... do cheiro a corpo morto.Por um momento, aquela recordação permaneceu-lhe na boca, ganhando um travo amargo... e de um momento para outro, algo dentro de si enfrentou a certeza da efemeridade da vida, a certeza de que iria um dia iria ser engolida pelo solo húmido e frio e servir de alimento aos bichos que habitavam no solo. E foi assim, que com apenas treze anos, na escuridão do quarto, tomou consciência da sua própria mortalidade, o nada, o vazio, o fim. O estômago contorceu-se, as suas entranhas reviraram-se enlaçaram-se em nós impossíveis de desfazer... fisicamente, sentia que todos os seus órgãos se embrulhavam numa espiral de agonia. Começou com suores frios que lhe empapavam a camisa de dormir de algodão e toda ela tremia de medo. Aquele pensamento forrado de agulhas ácidas penetrou em todo o seu corpo, em cada célula, em cada centímetro de pele. Envolveu-lhe cada fio de cabelo, entrou-lhe pela boca forrando a língua de uma camada pastosa e acre.Na manhã seguinte encontraram-na a arder em febre, delirando, balbuciando palavras sem nexo... e assim passou seis meses.O médico não conseguiu encontrar razão física para o estado da menina, declarando por fim que ela deveria ter demónios no corpo e deveria ser exorcizada. Na manhã em que é esperada a vinda do padre, ela melhora inesperadamente. Levanta-se da cama, e pergunta se há pão-de-ló. Os pais perplexos, tomam o acontecimento como um milagre, e como agradecimento, doam à paróquia cinco hectares de terras férteis.Numa análise mais desatenta, ela parecia curada... mas ninguém reparou que não havia vida nos seus olhos e que parte dela está já morta.Não volta a dormir. Passa as noites a pensar na morte... esses pensamentos, apesar de estarem já sempre presentes durante o dia, ganhavam uma nova vida na escuridão do quarto. Ela pressentia a chegada daquela sensação de mortalidade que lhe revirava as entranhas e que quase lhe parava o coração com o choque. O baque que esses pensamentos lhe provocavam era sempre violento e intenso como no primeiro dia. Às vezes tentava afasta-los, mas eles voltavam com ainda mais força e ela acabou por desistir, entregando-se... completa, nas trevas.E desta forma, ela vivia o dia, temendo o cair da noite.As noites de lua cheia eram gentis para ela... a luz tépida do luar que penetrava os cortinados de organza brancos, quase lhe dava a sensação de que era dia, e nessas noites ela chegava a dormitar um pouco, entre pestanejos leves.Nas tardes de verão, o cheiro a rosas inundava todo jardim, em vagas de cheiro quase palpáveis. Ela adorava dar pequenos passeios, envolta naquele perfume das rosas e por entre a sombra fresca dos ciprestes centenários. Numa dessas tardes, enquanto observava o seu próprio reflexo nas margens do lago, [...]



A morte estúpida do Sr. Jarvas

2009-10-12T15:29:08.632-07:00

O Sr. Jarvas teve uma morte estúpida.O enterro, em vez de ter sido uma manifestação de pesar, tinha-se tornado num boca a boca de comentários sorrateiros e irónicos a respeito de quão estúpida tinha sido a morte do homem.O Sr. Jarvas tinha morrido no Domingo de manhã ao tentar queimar um vespeiro que tinha encontrado ao pé da estufa do jardim. A morte tinha ocorrido, por volta do meio dia, quando, ignorando os conselhos de Dona Antonieta, para que estivesse quieto e que esperasse que os empregados voltassem do casamento da filha da cozinheira, tinha resolvido, ele mesmo tratar do assunto. “Pára Jarvas! Os empregados depois tratam disso! Está muito alto... não chegas lá!”. Dona Antonieta exasperava-se e implorava que ele descesse do escadote. “Sou homem muito homem, mulher! Não me achas capaz de tão simples tarefa?”, perguntou-lhe ele quase com o orgulho ferido. “Não sejas tolo, sai daí! Ainda te picam!”, gritava a mulher de mãos unidas em punho, apertando o estômago, com o corpo rígido, antecipando a angústia de ver o vespeiro ganhar vida. “Homem que é homem não tem medo de umas picadazinhas, e eu sou muito homem!”. “Eu adoro-te Jarvas... sabes que te adoro, mas tu dás comigo em doida! Em doida!”Ordena então à mulher que se despache a ir buscar álcool e fósforos e que pare com a rezinguice, porque eram quase horas de almoço e ele estava a começar a ter fome... e homem que é homem não pode estar de barriga vazia.E é então que se dá a cadeia de acontecimentos estúpidos e fatídicos, que transformam o Sr. Jarvas num defunto.No topo das escadas, de frente a frente com o vespeiro adormecido, uma libelinha passa-lhe rente ao nariz o que o faz dar um sonoro e potente espirro. Um espirro tão forte que quase o faz perder o equilíbrio. Depois de alguns malabarismos, lá consegue manter-se no topo da escada, mas as vespas estavam agora acordadas. Começam a sair, atarantadas, procurando intrusos. O Sr. Jarvas leva com cinco picadas na testa, enquanto esbraceja apenas com um braço, como um pássaro com uma asa partida, mas que mesmo assim tenta voar. Com o choque do inesperado e a testa em fogo, desequilibra-se e cai de cabeça dentro de um balde meio de água que estava esquecido no chão. Tenta levantar-se, mas uma das vigas de madeira, que estavam apoiadas na parede, destinadas a fazer uma nova vedação para os cavalos, lhe cai em cima e o faz perder os sentidos.E é assim que D. Antonieta encontra o marido um minuto depois... de buços, com a cabeça enfiada dentro de um balde e afogado num palmo e meio de água.Findo o serviço fúnebre, (em que D. Antonieta jura ter ouvido rizadinhas contidas), volta para casa, numa carruagem abafada, abanando o leque vigorosamente, contendo a raiva e amaldiçoando o teimoso do marido, cuja azelhice e teimosia a tinham atirado para a condição de viúva.O calor apertava mais do que nunca, como se o sol tivesse decidido, sem dó nem piedade, incinerar a Terra naquela tarde. Entra em casa, desgostosa, furiosa, chispando raiva, e começa a arremessar bibelots de porcelana e jarrinhas de cristal para tudo quanto era lado. Os empregados fogem espavoridos, abrigando-se da patroa nos lugares mais recondidos da casa.Sobe para o quarto em passadas largas e iradas, fazendo a casa estremecer com os tacões do sapatos. Quando abre a porta, é atingida por um baque gelado que lhe tira a respiração. O quarto parece coberto de gelo... ela consegue mesmo ver uma névoa gelada a pairar, e vê sair da sua boca um bafo quente.Fica atónita, parada no meio do quarto, sem perceber o fenómeno. Vai até à janela para ver se as estações se tinham trocado repentinamente, tendo o Verão dado lugar ao Inverno. Mas não... lá fora o calor continua impiedoso.É então que se volta e d[...]



A viúva

2009-10-12T15:29:48.775-07:00

Os passos são imprecisos e sem pressas, a dor tirou-lhes a precisão e a falta de vontade de viver tirou-lhes a pressa.O marido deixara de existir... a dor era-lhe insuportável. A cada minuto ela esperava que o coração cedesse e parasse... mas o coração continuava a bater, e os minutos iam passando, cruéis e intermináveis, uns atrás dos outros, e ela continuava viva também. O coração não parava, por mais que ela o desejasse.Os filhos já crescidos viviam longe, na cidade. As visitas eram raras devido à distancia. Via os netos apenas no Verão, quando todos vinham passar o quente mês de Agosto à casa da sua infância, e as tardes se passavam a nadar no lago, a beber limonadas e a comer bolo de groselha.Não queria alarmar os filhos com a notícia, nem queria que chegassem precocemente. Mandaria um telegrama a informa-los da morte, e eles chegariam no dia a seguir. Tinha previsto tudo até ao mais ínfimo pormenor, e queria tratar de tudo sozinha para evitar dar trabalhos aos filhos.Continua a caminhar, evitando as estradas e cruzando os bosques... queria contornar a vila, onde todos a conheciam, e seguir até à vila seguinte.No dia anterior tinha despedido todos os empregados, entregando a cada um uma generosa porção de dinheiro, o que os deixou surdos de espanto, e ordenou-lhes que partissem. Queria estar só. Não queria ouvir um som. Abriu as portas das capoeiras, dos estábulos, a cancela da cerca das ovelhas e foi-os enxotando para fora da propriedade. O que mais ambicionava era o silencio total e amaldiçoava as aves que das árvores continuavam o seu alegre chilrear.Caminhava vagarosamente, deixando que as ervas selvagens lhe rasgassem as bainhas rendadas do vestido. A viagem acumulou pó no seu cabelo, no seu vestido, na sua na sua cara... duas linhas de lágrimas abriram caminho por entre o pó das faces, como pequenos ribeiros nascidos da mesma nascente, e que seguiram caminhos opostos.Os sapatos forrados de cetim revelaram-se muito pouco apropriados para a caminhada, pelo que os tirou e continuou de pés descalços.Avistou o vilarejo com um alivio agradecido... o seu corpo dizia-lhe que ela não conseguiria andar mais uma passo.Voltou a calçar os sapatinhos e penetrou nas ruas sinuosas. Quem passava olhava de soslaio para aquela estranha, de aparência burguesa. O vestido de renda inglesa marcava-lhe o corpo esguio que a idade não tinha atraiçoado.Era bonita a senhora.Não tinha mais de quarenta e cinco anos, a senhora.Tinha um ar perdido, a senhora.Caiam lágrimas silenciosas dos olhos da senhora.Perguntou onde era a casa funerária e uma mão confusa apontou-lhe uma rua.Seguiu na direcção que a mão lhe apontou, de cabeça erguida, enquanto mordia os lábios tentando controlar a dor.Empurrou uma porta adornada com arabescos de ferro enferrujado, que por sua vez fez tocar uma sineta algures nas entranhas da casa.Surgiu um senhor, vestido com um fato negro, como se estivesse preparado para partir para um funeral a qualquer momento. Deixou cair um aceno cordial e a sua boca desenhou um sorriso breve, frio e profissional.- Queria tratar de todos os aspectos que envolvem um funeral. - atirou ela de rompante sem sequer dizer boa tarde.- Com certeza minha senhora... deixe-me desde já dizer-lhe o quanto lamento a sua perda. - Disse ele num tom de quem já tinha repetido esta frase centenas de vezes, carregada com a certeza de que a iria repetir centenas de vezes mais.- Obrigada. - disse exausta, deixando-se cair num pequeno sofá forrado a veludo verde musgo. - É a primeira pessoa com quem falo... espero que possa tratar de tudo sozinho. Não tenho forças para mais. Pago-lhe tudo em avançado, e já. Acha que tem capacidades para isso?O homem de negro, que cheirava a morte, a falso pesar e a [...]



Marie

2009-10-12T15:36:10.779-07:00

A cadeira de baloiço dança suavemente para trás e para a frente enquanto Marie bordava, com gestos delicados, pequenas flores em fio de prata no decote de um vestido de seda preto. O seu olhar pousa enfastiado no tecido negro e sente saudades do tempo em que apenas vestia roupas garridas e cheias de vida. Esse tempo, o tempo em que colocava flores vermelhas no cabelo e corria à beira das falésias pelas praias da Normandia, não voltaria mais. A morte do marido ditou-lhe um luto eterno e regrado. Além do preto, também se permita ao branco, mas apenas aos Domingos. Tinha lido algures, que em certas culturas o branco era usado em sinal de luto... por isso achava que não era desrespeitoso vestir-se de branco uma vez por semana.Marie Godard sabia que não passava de apenas mais uma viúva de guerra igual a tantas outras... não se julgava especial ou mais infeliz, nem sequer pensava nisso. Não tinha chorado muitas lágrimas pela morte do marido, pois já conhecia aquela fatalidade de antemão. Aos doze anos, enquanto cirandava pela feira da vila, uma velha cigana sem dentes e enfeitada de inúmeras moedinhas de ouro, pegou-lhe na mão, sem que Marie se tivesse sequer apercebido da sua presença, e de olhos semi cerrados como em transe de pitonisa grega, lhe sibilou que iria casar cedo com um homem que não amava, que teria apenas um filho menino e que iria enviuvar cedo devido a um grande tumulto... ia para acrescentar mais qualquer coisa... mas a visão que se apoderou da cigana parece ter sido tão aterradora que esta apenas esbugalhou os olhos chocados de horror e disse apenas num murmúrio "Oh... oh minha menina...". Foi então que o pai de Marie se apercebeu daquela velha que agarrava a mão da filha, e furioso deu um empurrão à velhota atirando-a ao chão. "Ciganos malditos!!".Marie nunca mais esqueceu a cigana e o futuro que ela lhe leu nas linhas da mão. Acabou de facto por casar com o seu amigo de infância Pierre, o qual não amava, mas que era um bom homem e um bom marido. Daquela união nasceu de facto apenas um menino, Maurice. Na manhã em que o marido partiu para a guerra, ela já sabia que aquela seria a ultima vez que o veria e de facto, dois meses depois, chega a noticia de que Pierre tinha sido crivado para além do reconhecimento por uma mg42 alemã... Marie apenas soltou um suspiro de resignada tristeza.Voltou então para casa dos pais, uma bonita cottage no litoral da Normandia... passando o tempo a cozinhar compotas com a mãe, ler, bordar ou simplesmente deliciando-se com os risos do filho que brincava no jardim.O pai de Marie, Eugénie Godard, era um homem robusto e de ar prazenteiro... o facto de ter nascido no seio de família abonada e com negócios enraizados já há gerações, deu-lhe a despreocupação suficiente para se dedicar ao que mais amava... pintura, musica e escrita. Quando a França foi ocupada pelos nazis, Eugénie tornou-se num homem sisudo e calado... costumava sentar-se na biblioteca depois de jantar a saborear um brandy com um olhar carregado e pensativo. Não dirigia a palavra a ninguém, abrindo apenas uma excepção ao neto por quem nutria um amor que ele próprio não conseguia explicar. No ultimo ano tinha começado a receber estranhos a altas horas da noite com quem mantinhas breves conversas em surdina, e que partiam tão depressa quanto tinham chegado. Ás vezes ausentava-se durante dias seguidos, e quando lhe perguntavam onde tinha estado, ele apenas atirava ao ar uma breve justificação... "Negócios... fui a negócios..."As tropas alemãs, lideradas pelo monstruoso General Karl Heydrick, tinham tomado controlo de toda a Normandia... os ventos furiosos que anunciavam o Inverno espalhavam em todas as direcções terror e medo. Havia pes[...]



Abegayle

2009-10-12T15:36:47.120-07:00

Abegayle corria descalça por um campo de margaridas... não porque estivesse apressada em chegar a algum lado, mas apenas porque lhe sabia bem. Leve, sem preocupações, aceitava o sol que lhe acariciava as faces e lhe beijava a boca. Pára, arranca da terra quente um raminho de hortelã e leva-o ao nariz... inspira profundamente e fecha os olhos durante uns momentos, enquanto uma brisa leve faz os seus cabelos negros ganharem vida... Do alto do monte, contempla por momentos o vilarejo que se erguia em baixo e solta um suspiro de tédio.Continua a correr em direcção a casa. Não tem pai nem mãe à sua espera, apenas um velho casal de caseiros que já lá trabalhavam desde muito antes de ela nascer, três jardineiros e uma empregada quarentona e bem disposta.Aos vinte e dois anos, ainda não tinha casado. Não por ser feia ou por falta de dote, mas devido ao seu feitio tão peculiar. Por vezes saía de casa de manhã e só voltava à noite quando a fome se tornava insustentável. Os homens queriam uma mulher que os servisse e fosse a mãe dos seus filhos e não uma mulher assim, com espírito de criança rebelde, tola e mal comportada.Mas Abegayle era feliz mesmo sem homem, principalmente sem homem... pensava ela algumas vezes, não muitas vezes, pois não era dada a este género de devaneios.Entra pelos portões saltitando e cumprimenta quem encontra com sorrisos travessos.-Trouxe-te flores, Margareth!! - estende um ramo de margaridas à velha governanta com um sorriso carregado de apreço e ternura.-Oh menina... descalça outra vez!! - abana a cabeça tentando parecer zangada- Obrigada pelas margaridas... mas com as mais belas flores de Inglaterra a crescer no seu jardim, porque me tráz essas apanhadas nos montes?-Porque são livres Margareth... são selvagens. Têm outro encanto - pisca-lhe um olho e sorri.A brisa que lhes trazia o cheiro a bosques frescos e a flores do campo, começa a trazer-lhes um cheiro a queimado... a carne queimada.Os outros empregados reúnem-se-lhes silenciosos, todos de olhos voltados na direcção da vila.- Quem foi desta vez? - pergunta de voz neutra e olhar triste, o que nela era uma raridade. -Mary Atkins... a esposa do pastor. Acusaram-na de ter provocado a morte de todos os rebanhos dos outros pastores, de ter feito apodrecer os milheirais e de ter sido vista numa noite de nevoeiro cerrado, a pairar nua, montada numa vassoura numa clareira dos bosques. Disseram-me ontem, que desde que foi condenada, ninguém na vila consegue beber leite, pois ele azeda antes de chegar à boca. - Margareth diz tudo isto com um tom de voz monocórdico e pesaroso.-Ás vezes penso que estaríamos todos melhor fora deste país maldito! - diz Thomas, o marido de Margareth - fala baixinho e com uma voz inexpressiva - A Santa Inquisição tomou conta de Essex. Ninguém pode apanhar um raminho de ervas sem se tornar suspeito. -Pobres almas, pobre Mary... oh Deus. - diz Margareth de voz desfeita.A menina-mulher solta um grito de entusiasmo, completamente despropositado e pergunta o que é o almoço. A velha governanta dá-lhe um sermão para que se contenha porque o momento é de pesar.-Oh... pela pobre Mary nada podemos fazer... mais vale então almoçarmos, não lhe parece? Não seja assim. Estou esfomeada! - finge um beicinho e inclina-se sobre a velha anciã, dando-lhe um beijo na face seguido de uma risada.Corre para dentro de casa, aos saltinhos e pinotes, fazendo lembrar uma cabrita endiabrada.Todos na pequena vila sabiam que Abegayle era meio tola... após o terrível incidente há quinze anos atrás, a sua capacidade de amadurecer tinha secado. Perdeu o tino e o seu corpo foi crescendo, mas nunca acompanhado da razão.Os seus pais tinham-se tornad[...]



O porquê da Sombra

2009-10-13T02:52:46.449-07:00

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Pretendo criar aqui um cantinho para os meus contos... mesmo que fique à sombra.
Por não achar que faz muito sentido ver as historias ou pequenos textos que escrevo misturadas com as trivialidades e devaneios do meu dia a dia...
Por achar que ficam melhor aqui, todos juntos...
Os posts abaixo vêm do Gatas em Telhado de Zinco Quente.
Continuo assim no meu telhado, mas agora abrigada à sombra das palavras.
Posto isto... quero agradecer a ele por ter tirado a foto ás minhas tralhas e por a ter editado vezes sem conta até atingir o resultado pretendido.
Quero agradecer à Weee por me ter ajudado aqui com as "cenas". Para trás e prá frente, pra trás e prá frente.
Quero agradecer ao RIP por me ter ajudado a escolher o titulo para o blog.
Quero agradecer à Pi por me ter dito que o nome Contos de Uma Gata Vadia aqui para o blog mais parecia coisa de rameira.
E finalmente, quero agradecer ao Kosh (jaZuze) pela sua infinita paciência de Jó, pois sem ele este blog mais pareceria um acidente nuclear.
A todos vós... obrigado, obrigado, obrigado.
Quantos aos textos antigos aqui em baixo... vou deixar os coments em aberto, caso se dê a situação improvável de alguém os ler e querer opinar.
Posto isto... até ao meu próximo conto...



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2009-10-13T02:57:25.054-07:00

Vestido de Cetim Branco e Meia de SedaNo salão de chá do hotel ouve-se o som de um carro a chegar. Os olhares voltam-se. Ver um carro é ainda tão raro como pérolas negras. Olham abismados para aquela máquina estranha e barulhenta que só poderia ter sido inventada por um cérebro demente com um pacto com o demo.O carro faz uma travagem e pára bruscamente ao lado de várias carruagens puxadas a cavalo.Uma porta abre-se e uma perna de senhora envolta em meia de seda espreita para fora... aos olhares curiosos juntam-se sons incrédulos. Era estranho ver um carro... mas ainda mais estranho era ver uma mulher a conduzir um. Os sons incrédulos ganham nuances de reprovação.Dirige-se à recepção e pede um quarto. Pergunta onde pode tomar uma bebida. Caminha como uma pantera... elegante, sinuosa, altiva de cabelo curto orgulhoso.É impossível deixar de reparar nela. As senhoras e meninas sentadas nos banquinhos forrados a veludo lavanda olham indignadas e surpresas para a forasteira que lhes interrompeu o chá, os biscoitos de manteiga e a coscuvilhice de cidade pequena. Basta olhar de relance para o seu vestido de cetim pérola para se perceber que não está a usar espartilho... possivelmente nem está a usar nada, pelo menos é isso que acusam as duas minúsculas protuberâncias na zona dos seios.Senta-se ao balcão e tira uma cigarrilha da malinha. Novamente sons incrédulos a ganhar nuances de reprovação...Uma das senhoras sussurra em voz baixa que aquela mulher deve ser uma revolucionária daquelas que se julgam iguais aos homens em tudo. Vestia-se inapropriadamente para aquela hora da tarde e mesmo da noite, pois aquilo não eram trages de mulher decente. Talvez fosse mesmo uma sufragista! Uma rebelde! Como tal, não lhes merecia respeito nem qualquer tipo de atenção. As outras concordam com delicados acenos de cabeça mecânicos e continuam a sorver as infusões de cidreira e camomila.Ele observa-a de uma ponta do salão. Analisa-a e calcula a probabilidades. Nunca tinha tido uma mulher assim, mas também, nunca tinha visto uma mulher assim. Volta a olhar para uma donzela morena e de ar pudico, escondida atrás de um leque de renda espanhola, que esteve a admirar por longos minutos e decide que esta estranha é uma desafio muito maior, mas também muito mais recompensador. Por mais senhora de si que ela pudesse ser, ainda nenhuma mulher lhe tinha resistido aos encantos. Esta não seria com certeza a primeira.Dirige-se aquela visão de cetim branco enquanto afaga o bigode e passa um pequeno pente pelo cabelo untado de banha... a experiência é tal que o pequeno pente desaparece no bolso do casaco baratucho tão repentinamente como apareceu.- A senhora é extremamente bonita, sabia?Olha-a com um olhar sedutor e confiante... simpático, afável ao mesmo tempo que é apanhado com um choque por aqueles olhos azuis gelo... tão cristalinos que incomodavam.- Sou? Quão bonita? - lança-lhe um olhar genuinamente inquiridor, falando com uma voz de veludo enquanto exala fumo de cigarrilha por entre uns lábios escarlate.- Desculpe? ... pergunta ele confuso e meio atrapalhado.- Quão bonita?- Hmm... não sei. Muito.Engole em seco e arrepende-se de não ter escolhido antes a rapariga morena com ares de noviça.- Pois, não sabe. - sorri ironicamente.Faz-se silêncio enquanto ela inala mais uma vez.Vira-se para ele e pergunta se ele é casado. Ele pretende mentir, dizer que não... mas algo nos olhos dela, de um azul de gelo o obrigam a dizer a verdade.- Sou. E a senhora... é casada?- Tem dias.Ela sorri de uma forma afectada, impossível de decifrar.- Já ouviu falar num senhor chamado Sigmund Freud? - cruza e de[...]



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2009-10-12T15:38:14.624-07:00

Charlotte

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Once upon a time, in a place far far away... there was a cute little girl... her name was Charlotte... and she had the most beautiful cristal marble...
And it was a purple magical marble...
Everytime she looked at her marble... she'd feel a great happiness overcoming her...
But she would have to be very careful... for everytime she'd look into the marble... she would shrink a little.
And, because of that, she was taking a long time to grow up...
When she was 13 years old... she was only 1.2m tall... and everyone would say: "What a strange girl.... She just doesn't grow..."
Then one day... a great tragedy happened... something so horrible... that was talked about for years to come...
Her parents died, in a strange incident no one was able to explain. They both drowned in a river close to their home... Why they went there... And why they both died, it remains a mistery even today.
And then Charlotte... was alone... without anyone... just her and her magic purple cristal marble.
To escape from her sadness, she started to look more and more into the magical cristal marble... And she begun to shrink more and more... Shorter and shorter... But to her, the happiness that overwhelmed her as she looked was worth it...
After some time little Charlotte was already the size of a lady bug, but she didn't care.
Then one day, the inevitable happened...
"I'll look just one more time" she said... "just one more time"...
And she did, and the marble... moved a little... and crushed her.

And this was the tragic tale... of little Charlotte... and her magic purple cristal marble...



O Engano da Inocência

2010-11-29T06:10:52.970-08:00

Olhava pela janela observando o mar, no alto dos seus seis anos, com os braços caídos e de punhos cerrados... lábios entreabertos e com o fascínio típico da idade por tudo o que era desconhecido ou menos familiar.Era feia a menina. Por mais que a mãe lhe vestisse vestidinhos bordados, lhe atasse fitas de cetim nos cabelos ou lhe colocasse brincos de ouro e pérola, era indiscutível para toda a gente, que Leonor era de facto, uma menina feia. A própria criança possuía já a consciência semi-latente de que era feia.Tinha a pele macilenta e o cabelo demasiado espesso de um preto oleoso. Os olhos eram cinzentos e inexpressivos, como poços sem fundo, e nas suas mãozitas em forma de pequenas garras desajeitadas, segurava invariavelmente o seu brinquedo favorito, uma boneca de trapos vestida com um vestido vermelho tão berrante que fazia doer a vista.Na saleta, o sr. Simão lia o pasquim e fumava cachimbo.- Mais um assassínio! Ouviste Carlota? Mais um assassínio! Não apanham este demónio!A mulher sobressalta-se e leva as mãos á cabeça num movimento teatral.- Meus Deus! Mais um? Não leias essas coisas em frente à menina...- É bom que ela fique a saber como é o mundo! É o que te digo! Chamam-lhe já "O Eclético" por matar sempre de maneira diferente... Desta vez foi uma rapariga de dezanove anos!! Meus Deus! Tão nova ainda.- "O Eclético"?? Que piada de mau gosto! Meus Deus que horror! Um assassino à solta na provincia e ninguém lhe mete mão! Que horror, que horror! Não me contes essas coisas! Sabes que estou de esperanças... isso ainda faz mal ao bebé.E ia repetindo baixinho para si mesma, "que horror, que horror".D. Carlota ficava alterada durante horas sempre que alguém lhe mencionava qualquer tipo de violência... começava a transpirar como se estivesse a comer limões e normalmente acabava de cama com uma tremenda enxaqueca que as criadas tentavam atenuar com compressas mornas e sais. Como estava a pouco tempo de dar à luz o segundo filho que, esperava ela, viesse a ser mais agraciado pela beleza que Leonor, estes ataques davam-se com mais frequência e intensidade que o normal.Leonor, com a sua boquita de dentes retorcidos perguntou se quando se morria se poderia regressar mais tarde. Os pais respondem que não e proíbem-na de voltar a falar em mortes, que tal como é sabido, não é tema para criança tão pequena.Algumas semanas depois já se ouvem choros de bebé pela casa... uma linda menina de olhos verdes esmeralda desde o primeiro dia que nasceu. "Vai chamar-se Diana! Diana como a deusa romana!!", proferiu orgulhosamente o pai.Todas as atenções se voltam para aquele novo ser radioso.D. Carlota manda acender centenas de velas na Catedral como forma de agradecimento por a bebé ter nascido com aquela beleza tão doce e perfeita.Leonor... no abismo da sua fealdade e sob a sombra da beleza da irmã, remeteu-se a um canto de esquecimento e foi fechando o coração, tendo como única amiga a boneca de trapos de vestido garrido.O sr. Simão andava inchado de vaidade com aquela nova criança... mostrava-a a toda a gente com um orgulho transbordante que se realçava em cada palavra. "Que linda que é!! Já viu a minha filha?!? Que linda que é!"Leonor foi esquecida. Já ninguém se lembrava de lhe atar fitas de cetim nos cabelos, ou até de lhe fazer roupas e sapatos novos. Andava pela casa com vestidos apertados e de cabelos amaranhados, sufocada em sofrimento, rancor e tristeza. Passava tardes inteiras passeando à beira das escarpas que coroavam toda aquela zona costeira... hipnotizada por aquela altura fatal e pelas ondas viol[...]



Atalhando a vida...

2009-10-13T02:54:07.762-07:00

Sente-se sufocar pelo colarinho. Ajeita-o um pouco tentando em vão diminuir o desconforto. As mãos e os joelhos tremem-lhe descontroladamente fazendo lembrar os movimentos de uma marioneta, que na sua qualidade de marioneta, não tem vontade própria.A secretária fala numa voz austera:- Já pode entrar.Levanta-se da poltrona pensando que deve ser esta a sensação de uma vitima em direcção ao cadafalso.O patrão, no seu impecável fato de linho egípcio, olha-o como um touro prestes a fazer uma investida... o facto de estar a fazer um esforço brutal para não se descontrolar só o tornava ainda mais assustador.- A situação é muito grave!Rosna o patrão.- Eu sei... peço-lhe imensa desculpa. Jamais se voltará a repetir. Fugiu-me ao controle...- Os nossos clientes jamais poderão saber disto! Seria um escândalo para o Banco. A confiança na instituição seria irremediavelmente abalada! Onde é que você estava com a cabeça?Aqui já toda a compostura calculada o tinha abandonado, berrando agora em uivos que ressoavam por todo o gabinete.- Eu... eu lamento. É que tenho tanta divida de momento e a bebé nasceu com aquele problema, como sabe... precisa de tratamentos constantes... e a minha mulher está novamente grávida... eu... Não se voltará a repetir.- Milhares!!! Milhares perdidos ao jogo! Milhares que não eram seus! Milhares que o Banco vai ter de repor!! Como é que vocês pode ter feito uma coisa destas? Depositei tanta confiança em si!- Eu sei... eu... não se voltará a repetir.- Pare de repetir isso!! Seu estúpido!! Saiu-me cá uma besta!! Só estou aqui a falar consigo porque tenho o seu sogro em grande consideração. Se não fosse por ele, não só o teria despedido imediatamente como teria também chamado a policia!- Eu... não se voltará a...- Como é que um homem que ocupa um cargo tão importante na sociedade e que toda a gente tem em tão alta conta pode ter como um genro um paspalho como o senhor?!?- Não imagina como estou arrependido... a minha situação é desesperada! Eu sempre julguei que...- Cale-se!!! Cale-se e nunca mais me apareça à frente!! Imbecil!!!Sai de cabeça baixa, derrotado. O chão vai-lhe fugindo dos pés enquanto caminha. O peso do mundo sobe os seus ombros.Entra no carro... apoderado pela angustia, pelo desespero, pelo medo de contar à mulher que não têm nada... que vão perder a casa e o carro e que tem mais dividas de jogo do que as que alguma vez poderá pagar.A ideia em si é-lhe insuportável... o terror sufoca-o e arrasta-o para o fundo de um oceano negro e pegajoso.Vai passando pelas ruas daquela cidade cinzenta e fria.Começa a cair uma chuva miudinha que acaricia o pára-brisas.Olhares de estranhos...Olhares acusadores...Dedos apontados...Delira empapado em suor.Chega aos limites da cidade e continua por estradas secundárias que não conhece... vai alienado e sem destino tentando desesperadamente perder-se.Já não há pessoas, ou casas ou outros carros... Pára numa berma e contempla um campo em pousio. Sente uma enorme paz ao olhar para ele.Sai do carro e caminha em direcção aos campos sem fim... avança sentindo uma enorme paz que o invade a cada passo que dá.A noite começa a cair... sem pressas.Continua calmo e decidido.Nunca mais ninguém o vê.[...]



Da Alma...

2010-05-01T03:50:54.300-07:00

Entra na taberna de mão dada com o filho de dois anos. Segue, segura de si e indiferente aos olhares lascivos dos poucos clientes que se embebedavam pelas mesas ainda antes da hora do almoço. Caminha altiva apesar de estar apenas calçada com uns tamancos de madeira tosca e um velho vestido de xadrez surrado. Quem a visse iria pensar que se tratava de uma rainha caída em desgraça, desprovida de bens, mas não do seu orgulho.O frio quase não deixa respirar… aperta o cachecol ao menino e pede ao taberneiro dois caramelos. Não pode comprar mais. Pensa na malga de leite que não tomou de manhã para poder comprar a guloseima ao filho e sorri. Tem fome, mas ela afasta-a com o prazer de desgrenhar o cabelo ao menino com uma pequena risada. Pensa no marido que partiu há dois meses para as minas à procura de encontrar sustento para a família e sente um aperto de saudade.Está assim, encostada ao balcão e perdida nos seus pensamentos quando alguém entra na taberna. O forasteiro traz com ele o frio da rua, a neve empurrada por um vento descontrolado e a solidão das cordilheiras geladas e de escalada impossível que rodeiam toda a povoação.Tem um gorro de lã na cabeça, um casacão forrado com pele de marta e umas botas de cabedal feitas por medida, encomendadas no melhor sapateiro da capital.O desconhecido pousa uma mala com os utensílios de trabalho. Esquadros, fitas métricas e mapas que está a usar para cartografar a região. O seu olhar fixa-se magnetizado na silhueta da mulher.Ela sente-o. Sente o sangue dele a pulsar nas suas próprias veias. Vira-se tão lentamente que parece que nem se chega a mover. Os olhos dos dois encontram-se, perdidos e incrédulos. Ambos se sentem como que fulminados por um raio.Algo os trespassa… primeiro a certeza de já se terem visto antes, tal não é a familiaridade das formas. Mas ambos rejeitam essa hipótese passado uns segundos. Nunca se viram, mas conhecem-se. Conhecem-se desde o início dos tempos… almas antigas que vagueiam procurando encontrar-se uma à outra.Ambos os corações batem velozes e confusos.Ela pega apressada no filho, com os joelhos a tremerem-lhe e os olhos marejados de lágrimas e corre para o exterior de encontro à neve que os fustiga, impiedosa e cruel. A criança caminha aos tropeções tentando acompanhar a mãe. Volta-se para o filho subitamente: “Olha amor, a mãe vai levar-te a casa da avó, está bem?”. A criança acena alegremente. Em casa da avó há sempre uma lareira acesa e pão. Muitas vezes está duro, mas é pão, e pão é sempre bom… e ás vezes, muito raramente, a avó até tem mel!Ele volta a pegar na mala e sai atrás dela, não sabe porque a segue, apenas que tem de a seguir, e que tem de a ter, pois ela é dele. Gira com o polegar a aliança de casamento, e pensa na esposa e nas duas filhas que ficaram na capital à espera do seu regresso.Segue-a por ruas sinuosas e vê-a chegar a uma velha casa de madeira e a bater uma porta que se abre. Empurra a criança suavemente para dentro, dando uma explicação inaudível á figura que não chega a sair à rua e prossegue caminho.Sempre sem parar, volta-se ligeiramente, consciente de que ele a segue e o seu corpo começa a aquecer de tal forma que parece acometido por ataques de febre… e ali, a mais de trinta passos de distância, sente que o dele também fervilha.Entra numa praça larga, deserta e morta pelo Inverno… canteiros desnudes e uma fonte de água congelada. Pára a meio e volta-se para trás, decidida e corajosa. Ele abranda o passo mas continua a cami[...]



Beleza

2010-01-06T14:46:46.745-08:00

Nasceu durante um eclipse lunar. No preciso momento em que a noite ficou mais escura que nunca, ela sai de dentro de sua mãe.Dão-lhe a graça de Constança. Desde a mais tenra idade que se adivinhava que Constança ia ser possuidora de uma beleza extraordinária e por volta dos doze anos, esse facto tornou-se inegável. Era a mais nova de três irmãs e sem dúvida a mais bela. As suas irmãs no entanto não lhe tinham qualquer inveja, antes pelo contrário e ficavam consternadas na sua presença, como se aquela beleza as desconcertasse.Os próprios pais não sabiam porquê, mas a beleza da filha em nada os aprazia. Muitas vezes surpreendiam-se a si próprios a olhá-la como se fosse possuidora de uma qualquer malformação. Envergonhavam-se de tais sentimentos, mas não conseguiam evitá-los.O próprio padre da paróquia, durante um dos sumptuosos almoços de domingo que a família costumava dar, observou “Uma beleza assim é uma maldição!", o pai de Constança é atravessado por um calafrio e a mãe benze-se, desconcertada.Constança era inteligente e perspicaz, destacava-se das irmãs não só pela beleza mas também pelos imensos talentos que possuía. Tocava piano e harpa de forma excepcional, falava fluentemente três línguas, sabia bordar briosamente, cozinhava pratos deliciosos e pintava quadros a óleo de paisagens magníficas e improváveis que rebuscava na sua imaginação através de descrições que lia em livros.Era delicada de maneiras e o seu carácter era firme mas dócil.Normalmente, pessoas assim tão belas e talentosas estão rodeadas por uma aura susceptível de atrair os outros. Estranhamente, isso não sucedia com Constança. Não conseguia alcançar os outros, grande parte devido ao facto de outros não quererem ser alcançados por ela. Vivia sozinha pelos cantos, mendigando atenção e carinho, porém, nem o cãozinho de companhia da família queria nada com ela.Corriam pela cidade rumores de que ela levitava quando queria. Havia quem dissesse que ela, por debaixo das suas roupas rendadas tinha a pele translúcida, que caminhava nua e em transe pelos bosques nas noites de lua cheia e que não comia nunca, pois o seu corpo não necessitava de nenhum alimento terreno.Desta forma, Constança sentia-se só, apesar de viver rodeada por muita gente, angustiada pelo desejo de calor humano, de um toque, ou de um sorriso que não fosse de misericórdia mas sim de afecto. Ela era de facto, aprisionada na sua beleza, o mais infeliz dos seres.Quando chegou a idade de casar, ela alegrou-se. Não importava com quem a casavam, ela só queria alguém que a quisesse a ela também. Mas todos os supostos pretendentes que a conheciam durante os bailes e festas que os pais davam para o efeito, ficavam abismados com a sua beleza e acabavam por desviar os olhos como se queimasse. Saíam sempre apressados, balbuciantes, envergonhados.Constança sente o seu peito a esmaga-la cada vez mais de dia para dia. Não aguenta a solidão que parecia ser água que lhe entra pela boca e pelo nariz, afogando-a, matando-a, levando-a para um fundo escuro e frio com uma âncora atada à cintura.Um dia o mais absoluto inesperado aconteceu. Ao sair da missa de Domingo de braço dado com o pai, esbarra num rapaz que nunca tinha visto antes. Vinha a comer uma maçã distraído e não tinha reparado nela. Ela olha-o com um ar inquiridor, mas ele apenas sorri, com o sorriso mais aberto e franco que ela já tinha visto na vida. Ele leva a mão ao bolso e puxa de outra maçã: “Quer uma?”, pergun[...]



Requiem Contemplativo

2009-10-13T02:55:12.664-07:00

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Percorro as ruas ao sabor do vento frio de Inverno... um vento capaz de congelar pensamentos e corações...

Olho em redor... vejo pessoas caminhando nos passeios... tantas pessoas... cada uma fechada no seu próprio pequeno universo...
Pergunto-me no que estarão a pensar... não parecem estar a pensar em nada. Olhares vazios, sem fundo...
O vento frio levanta-se mais forte castigando os caracóis do meu cabelo... obriga-me a semicerrar os olhos e a alma.
Continuo a caminhar sem destino... vagamente.
Continuo a olhar para as pessoas... vagamente.
Imagino a morte de cada uma delas... Tudo é tão efémero... tão passageiro...
Daqui a cem anos nenhuma delas estará viva. Será que sabem isso?? Oh, eu sei que sabem! Mas será que têm ESSA consciencia? Passam-me diante dos olhos centenas de funerais, milhares de lágrimas...
Eu... eu daqui a cem anos não estarei viva.
Daqui a cem anos já ninguem se lembrará de que eu alguma vez existi...



Subjugação

2009-10-13T02:55:35.203-07:00

Logo depois de casar, largou o emprego para se dedicar inteiramente á casa e ao marido. Vivia para lhe agradar, para o servir, fazendo tudo para se tornar indispensável.Obcecada pela perfeição e por aquele amor, preparava cada refeição como se fosse um banquete, cada camisa que passava era tratada como uma escultura de arte, lavava, esfregava, perfumava, floria… A casa estava sempre num brio tal, que parecia que ninguém lá habitava.O marido era incólume a toda esta dedicação e afecto. Olhava para tudo friamente, nunca satisfeito com nada e sem lhe dirigir em vez alguma uma simples palavra de apreço. Para ele as camisas tinham sempre as golas mal passadas, as calças tinham sempre os vincos tortos, as gavetas estavam sempre em desordem, a comida estava sempre salgada ou insonsa e os bolos ficavam sempre muito enqueijados ou então muito secos.Ela encolhia-se perante a dureza dos seus comentários… e o seu coração foi mirrando ao mesmo tempo que os anos foram passando.O quadragésimo aniversário do marido estava a chegar e ela empenhou-se em tornar a ocasião mais especial que nunca.Comprou um lindo vestido de seda vermelho para a ocasião e passou duas horas no cabeleireiro a dar uma nova vida aos seus longos cabelos dourados.Preparou o prato favorito dele, Cordeiro no Forno, medindo cada condimento á milésima de grama. Fez um bolo de quatro camadas com um talento tal, que parecia feito por um pasteleiro profissional. Pôs uma toalha branca bordada na mesa com um jarro de flores ao centro e castiçais com velas em cada canto. Com as economias de quase um ano, comprou um magnífico relógio para oferecer ao marido, que segundo as palavras do próprio relojoeiro, se travava de “uma maravilha da tecnologia”.Tinha demorado todo o dia a preparar aquele jantar para que ficasse perfeito… está exausta mas feliz, contente com o resultado obtido.Sente o marido chegar e olha-se mais uma vez ao espelho… gosta do que vê e apressa-se a ir ao seu encontro.Olha-o com uma devoção de cachorrinho assim que ele entra na sala. “Parabéns amor!” e estica-se para lhe dar um beijo que ele aceita distraído ao mesmo tempo que pendura o casaco. Olha para ela, “Que roupa é essa? Sabes que o vermelho te faz mais gorda!”. Ela crava os olhos no chão, envergonhada. Talvez faça. Sim, é claro que o vermelho a faz mais gorda. Que tonta foi em ter escolhido um vestido daquela cor.Ela entrega-lhe o embrulho com um olhar tímido mas ao mesmo tempo seguro e com a alegria imensa da certeza de que ele vai adorar o presente. Ele desembrulha-o desajeitadamente: “Ah, um relógio! Sabes que já tenho três. Não havia qualquer necessidade de me teres comprado outro.” Ela pede desculpa e sorri nervosamente, tentando disfarçar a desilusão.“Vem jantar. Fiz o teu prato favorito! Tens fome?”, ele responde que nem por isso… lanchou tarde…Senta-se á mesa algo entediado. “Com estas velas aqui não consigo ver a televisão como deve de ser. Tens cada ideia mais disparatada! Tira-as da mesa se faz favor” Ela tira. “Estas flores são muito perfumadas! Mas que chatice! Não vou conseguir comer com este cheiro! Tira-as daqui se faz favor”. Ela tira.Olha de relance para o bolo de aniversário pousado em cima do balcão da cozinha. “Aquilo é cobertura de morango? Sabes que detesto morango!”. Ela engole em seco, afogando as lágrimas, “Eu raspo a cobertura então” diz com um esgar de dor disfarçado de sorriso. Não[...]



O Jardim

2009-10-13T02:56:00.047-07:00

O Dr. Afonso vivia desde sempre naquela pequena mas nobre cidade, escondida por trás de montes inóspitos e esquecida do resto do mundo. Todos os habitantes viviam segundo as mais rígidas regras de moral e decoro e qualquer escândalo pessoal que pingasse para o conhecimento do publico consternava toda a população, enquanto que, paradoxalmente, fazia as delícias de qualquer lanche da tarde, em que grupos de amigas se reuniam para comerem pastelinhos com creme entre chávenas de chá perfumado e gargalhadinhas maliciosas.Quatro anos antes, o Dr. Afonso sobrevivera ao escândalo social e ao repudio geral quando a sua esposa Violeta o abandonara levando consigo ambos os filhos do casal. Rosa de cinco anos e Jacinto de dois. Desapareceram os três da noite para o dia e ninguém duvidava que D. Violeta tinha fugido para o estrangeiro com um qualquer amante secreto.O facto de ser de famílias nobres e antiquíssimas garantia ao Dr. Afonso o status de partido muito requisitado pelas mais belas donzelas da cidade. Tanto não fosse pelas suas origens, a sua enorme fortuna teria bastado.No entanto ele parecia muito pouco ou nada interessado em voltar a casar. Isolou-se no seu palacete secular de onde recusava amavelmente os convites para eventos sociais e de onde só saía para atender pacientes no seu consultório no centro da cidade. Nada dava mais prazer a este homem que sentar-se num dos varandins da casa enquanto contemplava o seu magnífico e magistral jardim que florescia de forma frondosa e inexplicável e em que as espécies de flores e plantas eram tantas que se ficava inebriado só de olhar.Tinha enfrentado o desaparecimento da mulher com uma altivez e uma compostura surpreendentes e todos lamentavam a sorte daquele homem de bondoso, que trabalhava apesar de não precisar de o fazer e que a maioria dos pacientes que tinha eram pessoas de parcas posses ás quais não cobrava consulta, salvando assim muitas vidas naqueles tempos em que as doenças fomentavam e as hipóteses de cura eram escassas.Certo dia chega á cidade uma nova professora primária, a D. Íris, com sua filha Margarida de quatro anos. Ainda não tinha trinta anos e já era viúva, tendo ficado nessa condição quando o marido partiu para o Brasil na esperança de voltar com fortuna, mas que morreu no próprio dia em que chegou ao país, trespassado pela seta de um índio foragido e selvagem.De uma beleza simples mas extraordinária, a D. Íris era de gostos requintados mas sem exigências e dona de uma personalidade dócil e de grande sentido moral.O Dr. Afonso reparou imediatamente nela, e ela, por sua vez, reparou imediatamente no bondoso médico.Eram de personalidades compatíveis e de gostos similares. Assim que se conheceram tornaram-se inseparáveis. Três meses após se terem visto pela primeira vez, ficaram noivos e um ano depois estavam casados. No dia do casamento o que mais se comentava entre sussuros era o facto do quanto D. Íris era parecida com a desaparecida D. Violeta. A pequena Margarida, coroada de flores saltitava feliz á volta da mãe, com uma adoração que enternecia os convidados.D. Íris adorava o novo marido. Adorava a sua nova casa com o seu fértil jardim e em que ás vezes se perdia por entre os jacintos e as rosas que cresciam por todo o lado... e adorava toda a rotina daquele antigo palacete mantido com regras rígidas por uma pequeno batalhão de empregados silenciosos e corteses.Vivia feliz com a su[...]



Entre Mundos

2009-10-13T02:56:16.801-07:00

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Todas as noites ela se deita à meia-noite. Nem um minuto antes... nem um minuto depois... Mergulha na doce calma acetinada dos lençóis e deixa-se adormecer placidamente.
Todas as noites ele espera pacientemente que ela adormeça. Quando ouve a sua respiração regular, de quem partiu para o mundo dos sonhos, entra no quarto, calçado de nuvem, e sem um som, aproxima-se da cama e senta-se ao seu lado. Contempla o rosto dela que quase sempre dorme a sorrir... e olhar aquele sorriso, fá-lo sorrir também.
Com as pontas dos dedos percorre ao de leve as suas faces e as madeixas soltas de cabelo que se espalhavam rebeldemente pela almofada.
Debruça-se sobre o seu rosto e sussurra-lhe doces palavras ao ouvido. Ela sorri ao ouvir essas palavras, que a ela lhe chegam em forma de sonho.
Ele levanta-se num impulso quase religioso e percorre todo o quarto... com gestos de quem já o fez mil vezes e de quem o vai fazer mil vezes mais.
Toca nas suas roupas penduradas no armário... abre cada uma das gavetas e acaricia as roupas dobradas. Dirige-se à cómoda... contempla os brincos favoritos dela, as pulseiras... os anéis... Pega no pequeno frasco de perfume lilás semi vazio. Sente o frio do vidro nas suas mãos e inspira um pouco daquela essência adocicada que o faz desejar beijá-la mais do que nunca...
Olha de relance para a cama, a respiração regular dela faz com que o peito levante os lençóis para cima e para baixo, quase imperceptivelmente.
A noite passa devagar, sem pressas, como se o próprio tempo tivesse adormecido também.
Como todas as noites ele permanece ao lado dela, tocando-lhe ocasionalmente na mão adormecida ou na face, percorrendo todo o ângulo e terminando na linha do pescoço. Deseja ardentemente que aquela noite não acabe nunca e que aquele momento permaneça para sempre congelado no tempo.
A madrugada, que aos olhos dele é algo de aterrador, acaba inevitavelmente por chegar...
Ele inclina-se resignado e encosta os seus lábios suavemente aos dela. "Até logo à noite", sussurra em jeito de despedida. Ela sorri e aconchega-se mais um pouco.
Quando o primeiro raio de sol penetra no quarto... já ele se foi embora... silencioso... calçado de nuvem.