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Quebrantos, relances e abismos ao relento



Wilson Torres Nanini



Updated: 2017-07-23T07:57:50.009-03:00

 



um elemento da minha alcateia

2013-10-25T17:57:46.819-02:00


agreste

o mar nunca vi
mais belo deus

meu peito estava sem
sentinelas mas

– não te preocupes – não
doeu introvertê-lo

fechei meus (de espanto)
olhos porque deus
– até então – nunca
me havia sido
tanto

ao longe – na
areia? em
mim (avesso)? – ouvia-se
o rosnar da festa
– embora para a sede
(acumulada em décadas)
o mar me fosse
– pouco? – estéril

(wilson torres nanini
alcateia: Editora Patuá, 2013)




sabotar o automuro

2013-10-11T20:57:49.255-03:00




-livre
servir napalm no jantar
agir como uma
planta que não floresce um
panda que não procria um
anjo da guarda
que deu o fora
antes da queda-



ornitorrinco em formação

2013-05-13T15:10:50.083-03:00





fauna de missa, fauna de feira-livre

2013-05-03T19:49:25.487-03:00



a invenção do céu

dente de ouro cariado
me decreta menino-rindo um mendigo
“redemunho é a palavra mais 
bonita que (in)existe”
paisagem de presépio
hora dos desquebrantos
me receita o bento em suas
defeituosas palavras
me acena restos amputados a lepra
até ser ele todo por dentro
rosário roseira relógio a corda
vitrola viola cata-vento


wilson torres nanini



poeta em passes

2013-04-21T19:52:59.977-03:00

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A vida dura o quanto dura/caminha com sede/até um copo d'água

2013-03-07T21:50:27.453-03:00





Foto: Marília Garcia





asilo

ela cerne de cicuta
velhinha vestida de alarido
ciranda presépio e disparates
rumina rindo-se uma
cantilena hieroglífica

em nós dói ela
ninar perene boneca-
de-pano simulacro de seu
bebê fenecido de infância

em comércio de afetos decrépitos
afagam (roem) um velho suas relíquias
(relógio a corda rádio a pilha)
as fotografias de seus entes
(coágulos fantasmas) já sem nome

e uma solidão que
nunca foi mansa

(wilson torres nanini)




Meu livro alcateia em pré-vnda

2013-01-13T10:53:08.221-02:00



Queridos amigos e amigas,

após um longo e tenebroso inverno, finalmente meu livro “alcateia” será lançado. O lançamento será dia 21/02/2013, no Cine Teatro São José, em Botelhos/MG.

Para aqueles (as) que não puderem comparecer, o livro também poderá ser adquirido através do site da Editora Patuá (http://www.editorapatua.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=150), onde se encontra em pré-venda.

Abraços!



na (a)horta da leoa

2012-11-10T16:16:01.317-02:00








anestésico

canto andrógino de febre-em-mel
a sereia arisca arpeja
: seu arpão oculto
na vulva

“silêncio me
fronteiriça”
eu esfinge
esquecida da pergunta

beijos
filtrar
com acidentes
as epidemias
até deixá-las
potáveis

enquanto isso
você me
nina

você me
conta
de fadas


(wilson torres nanini)



penumbra rosa/cerâmica inepta do canto

2012-10-08T14:21:38.916-03:00




cor de rosa

te dou desdonzelice
o doer que apascenta
algo em ti a um só tempo
noiva e bicho

doer
(pupilas sequestram
o céu o
convertem
em escuridão filtrada)

busco agasalho ou homizio?
vestido querendo
transmutar-se em
pássaros para
adocicar bueiros e óbitos

: a vida de
volvida do
fóssil









"por ora só posso/pensar hieróglifos"

2012-08-08T17:19:51.657-03:00



fóssil

nos vamos deixamos os
restos mortais
de um lugar

cadela com lepra
nos fareja a fuga

árdua asa lambe
no ar a chaga
do apedrejado voo

: ainda lateja a
língua extinta

escrever então só para
evitar
escaras na
linguagem –

desmetrificar a sede
abrasiva – ir-se
por seco leito
(bem cerzida cicatriz
de
subsolado rio)




menininhos malcriados (sequenciando)

2012-07-21T12:23:33.912-03:00

imagem: Jereme Decalf

(série sabotagens)

molestador
amorarame
caricia de a
belha na virilha
mas – ah! – o
febril tato incauto
do falo encontra uma
taturana-bezerra
na vagina

#

bullying

1. frivolidade
vestido de fezes frescas
atravessar ferocinica
mente valsa de debutantes

2. patricinha
cuspir limão no exato
instante em que o
hímen for rompido

#

intoxicação alimentar
a fila que se forma
de alienados leigos
e a bactéria letal no trigo
das ora
consagradas hóstias

#

riso lascivo de
(alcateia de)
pedófilos à solta
no berçário repleto
– porém “não o sabias?”
a ninadora ri-se
vingativa
“eis o berçário
de bebês-bomba”




pudim de leite em pétalas

2012-07-20T07:51:09.833-03:00

imagem: Igor Mudrov



dócil

penso gérberas teus
cabelos – cerzir
pudim de leite em pétalas
fotografar o abandono
do olhar de cães caídos da mudança

seios cor e gosto
de arroz-doce
olhos cor de rosa filtram
escurezas – dão de cântaro
relento (ado
cicada febre)

ninar com reza o
precipício sempre prestes –
açude de
assombro e ferrugem

penso paz teu riso
varal com teu vestido
de cambraia ao vento
com um (po)
mar ao fundo




Poet(os)(as) insípid(os)(as)

2012-11-09T16:10:36.726-02:00

Imagem: Herr Buchta

travesti

o ser
centauro singelo
em riste – o perfume? o falo? – a estranha
ternura: uivo brando de camélias
cântico de sereia: júbilo atípico
singeleza de navalha

o híbrido ata-se a uma
catástrofe mais abrangente

à luz do dia
porque, noturna, toda
nudez é tão
clichê

acoplar seios (signos): ser
um quase
enigma – amputar-se não não não pois
o fantasma os desejos mutilados lhe
assombrariam
com sussurruídos esculpidos
em línguas extintas

é na fratura canhota que se tece
um destro gesto liberal, obsceno

: alguns poetas prescindem de leitura: se
fartam, onanísmicos

: algumas poetas não procuram vênia: lhes
basta febre via cunilingus

abolir, então, as carícias: ir
direto ao fosso oblíquo onde
o nome se enviesa
e a honra se meretriza

ir expor ao público
as tripas de que se fia
a democracia




Exuberância

2012-03-29T11:40:31.349-03:00

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enxame

de longe era quando
chegou perto não
era era
uma revoada



Menininhos malcriados

2012-03-27T10:02:24.419-03:00

Imagem: Hermin Abramovitch da rapina telemarketing moça se soubessesque me masturbo enquanto te tolero#experimentalpássaros e borboletas já são clichêsé tempo de acasalaráguas-vivas libélulas e ornitorrincos #vidas – sedentas – fossilizadasfósseis – nostálgicos – retrógrados retrocessos – permanentes – progressivos#meu ânus virgem/minha fé promíscua#eu deveria te comover mas meu diabo ainda é um ovo de anjo encruadoesta lua é um antiácidoe este conhaque falsificado#último espécimelobo-guará no radiadorararinha-azul no para-brisameu mustang meia cinco#a solidão é um inferno particularo inferno é uma solidão compartilhada#as chuvas que as nuvens prenhes prometeme abortam longe da sede (da gente)#ainda hei de inventarum relógio anti-horário#uma febre tão intensa que acenda uma lâmpada#poema mudodesde que os silêncios sejam bem metrificados#despaisagensos copos de plástico na praiao leite azedando na piaa mosca encravada no resto de café na xícaraas mãos macias do obstetra abortífero#barrocoteus olhos me televisionam o marmeu olhar te lamparinana seminoiteo odor morno de penumbra despida#puro como um cântico depois do gozoalegre como um gozo depois de outropleno como cantar e gozar a um só tempo#neurótico como um boi depois da castraçãopianinho como um cão depois da surra[...]



Na penumbra é que se esculpem os perfumes

2011-11-24T10:35:01.021-02:00



peças íntimas

no varal agora à brisa
dança um resto da alegria
de ontem à noite



Entre a brisa e o redemunho

2011-11-15T21:44:17.669-02:00


Ninguém nunca soube sua idade, mas quando os primeiros habitantes chegaram aqui, aqui ela já estava.
Fugia do asilo sempre, sempre.
Vizinha da gente, ela entrava de assalto em nossa casa – achasse a porta destrancada.
Ninava, perene, uma boneca de pano. Especula-se que era um simulacro de sua filhinha falecida de infância.
Sua roupa de chita multiflorida lhe dava um aspecto de personagem de presépio maluco, de folia de reis extraviada do ofício.
A gente comentava que, invés de alma, ela tinha ventania: às vezes, uma ciranda alegre; outras, um circo demoníaco.
Balbuciava-nos declarações de amor incondicional. E como ríamos porque não entendíamos seu idioma de alarido, machucada profunda, grunhia-nos impropérios ininteligíveis. Depois, se ria, banguelamente.
Certas ocasiões, batia à porta, mesmo encontrando-a aberta. Trazia no cenho uma doçura aureolar de quem visita uma viúva recente. Acomodava sua cabecinha no peito da gente e nos supra-olhava sorrindo, afetuosíssima. E, então, chorava, mansinha. Um chorinho garoado, quase relento. Talvez, por seu interno deserto vasto, seus rios intransponíveis.
Após ir-se embora, ou ser reconduzida ao asilo, borboletas multicores saiam de debaixo dos móveis, como se tivessem se gestando lá há séculos. E objetos perdidos, procurados pela casa há semanas, eram imediatamente encontrados nos lugares mais óbvios.



Mundo animal

2011-11-06T11:30:33.691-02:00

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poema do boi morto sob aplausos

à beira do riacho urubus
(afluentes do relógio) pastam
boi pré-morto
boi pré-morto ruge “serei
só um deus-de-carne desperdiçado?”

sabes – alguém
sabe? – quanto de viola
(deslumbre) e espin
garda habita
os intestinos de um mosquito?

fosse de só-seda... mas tão lâmina,
essa poesia me (nos) requer estômago



Drummond me desrimbaudiou

2011-10-31T21:14:45.544-02:00

cda (reinterpretado)

essa pedra no meio do caminho
essa pedra no meio do caminho
se não fosse pela fadiga
se não fosse pela fadiga
eu chegaria ao outro lado dela
eu chegaria ao outro lado dela
através de um túnel
através de um túnel
esculpido
(inventado)
com a minha própria língua



Para Mirze Souza

2011-11-07T10:44:08.951-02:00

Fotografia: Kelvin Carter

social

às vezes, bem no meio da meia-
noite doce e bárbara do orgasmo,
pousa, sem cheiro, sem canto,
uma ave negra no âmago
: atravessa-me o cerne uma
lembrança canhota,
que me põe poeta
e, então, me ocupo
de toda ausência e dor do mundo

às vezes, em meio à meia-
febre álacre e explosiva da festa
– vaidade das vaidades –
fico sem nudez, sem riso,
e um silêncio pétreo feito de
cânticos endurecidos me grita
áfricas e nordestes,
orfanatos e asilos
: uma vontade como a de uma
serra leoa de devorar os eua
e a de uma capelinha de roça
de engolir catedrais vaticanas



Para Nydia Bonetti

2011-10-21T13:10:21.334-02:00

Sompob Sasimit viola com sotaque ribanceiro desde as pontas dos dedos rumino um céu estrelado alma adentro sanfona valso inebrio-me a alma de repente vem habitar sobre a pele aleluia ao pôr-da-tarde cheiro de chuva vestida para a eucaristia a menina caça aladas tanajuras goiabeira vidraça quebrada o estilingue preso num galho e o cheiro em fuga são indícios de um assalto infância (fim da) da mão precária o vento desata o catavento que (devagar) (rápido) se evade álbum a sépia salienta a nódoa (lembrança dor ou delícia) que lateja função tal um catavento afere alegre o labor do vento a poesia afere os meios-instantes os meios-gestos poeta (razão de ser) pasto espinhaços rumino cernes desidratados talvez uma flor inefável nasça poetave II não me dói não ser pássaro contanto que o céu esteja sempre rente ao solo quente em que semeio meus passos adão tão tênue sutil sopro (por dentro do bruto barro) eva a carne é mera via para que o desejo voe papel de arroz inscrita na pedra a nudez ah a nudez plena inscrita até na pele (do avesso) revoada não deixa rastros no céu poente o canto migratório descalço haverá pétalas? por enquanto esse caminho de pedras retirante ambulante textura árida tatuagem de árduo sol nos olhos ele um náufrago ao avesso flores ásperas nas mãos da noiva a espera (estéril) sangra janela aberta a cortina ao vento aprende a ter a leveza de um riacho com asas matéria basta um resvalo da cortina embebida em vento para que o vaso não mais seja travessia ficar devagar coisa tal cantiga entoada por folha seca à brisa renovação folha caída no riacho descubro um súbito destino de barco para a travessia de formigas [...]



vidas em singeleza II

2011-10-03T09:32:15.257-03:00

(image)

O anjo

Perdeu-se de seu bando numa revoada vespertina. Então, perambulou ocioso por campos, revivendo carcaças, desviando enchentes dos vilarejos, curando a peste do gado e a febre da lavoura, até chegar à cidade. Entretato, só as crianças ainda sem batismo o viam. E ele, em dialeto de bicho de pelúcia, lhes falava de coisas que ainda não tinham nome. Passou a habitar empoleirado no ombro de uma menina cega. Quando ninguém estava olhando, o anjo interrompia sua cegueira, e a menininha, disfarçadamente deslumbrada, podia ver até através das pessoas.




Oficina para purificar sedes artesianas

2011-09-23T10:43:31.359-03:00

Robert e Shana Parkeharrison ceramista para Assis Freitas arquitetura de fraturas – mãos brutas modulam um caos conciso : sabem borboletamente metrificar silên cios desentrelinhar afetos apaziguar o cio corrosivo de um escafandro no deserto me pensam com moringa me penso com cuspe: coo o brejo até ao ponto de potável – mas minha água ainda é crua e a gasto com tanta inútil sede boi poeta polícia só sei ser – sei ser? – pasto para rapina chão para procissão e me esmerilho me rio tão rio tal o rio cujo barro sonha ser nunca ruínas se me de repente estendes uma dessas tuas canecas de café-com-(de)leite[...]