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A Esquerda da Vírgula





Updated: 2017-10-25T10:11:28.480+01:00

 



Nova Arte de Conceitos, Contos

2017-09-05T21:27:36.225+01:00

Nova Arte de Conceitos, Contos, é o livro de estreia de Luís Miguel Rosa (n. Lisboa, 1984. Doravante LMR). Editou-o a Companhia das Ilhas em Julho do corrente ano. Esta é a segunda Nova Arte dos Conceitos na literatura portuguesa. O autor, porém, tinha conhecimento da primeira, do século XVIII, de Francisco Leitão Ferreira, que vem acrescentada de Lições no título, como informação ao leitor, tal qual a presente Nova Arte o faz com Contos. Não se trata de um desses acasos que sucedem por desconhecimento, falha de memória ou de vergonha, já que, em vez dos títulos das histórias, identifica cada narrativa no seu início por Lição, numerada em romano, confirmando-se assim a origem voluntária do título adoptado. Em contrapartida, logo na terceira página, o índice dá o título por nomes a cada um dos oito contos de que o volume se compõe. O livro abre com um soneto petrarquiano, formalmente perfeito na métrica, na acentuação tónica e no esquema rimático, intitulado Nota do Autor, em que LMR recusa energicamente, e bem, o Acordo Ortográfico de 1990. Seguem-se-lhe três epígrafes, a mais importante das quais me parece ser a de João Palma-Ferreira, que define as características do Cultismo, adoptado só na aparência pelo autor, bem visível no primeiro conto, ou pelos leitores numa interpretação à letra. Terá sido por isso que vi a obra classificada como barroca (a meu ver, nem sequer ao neobarroco pós-moderno pertence). Por mim, tenho-a por crítica e denúncia dos emaranhados literários como modo de tentar engordar a magreza de certa ficção e poesia dos anos noventa até hoje. Para tal utiliza com frequência características que pertencem ao Barroco, mas apenas se serve delas como meio, não as assumindo. Seria absurdo  se as assumisse quatro séculos depois. Para confirmação do que escrevo, socorro-me da epígrafe que encima cada um dos oito contos, definindo claramente o sentido dos textos respectivos.Inicia-se assim uma colectânea que é, toda ela, um jogo de ironia, por duas  vezes absorvendo a própria narrativa. Micro-conto é uma delas, com uma deliciosa explicação sobre o dito na página anterior ao texto, abaixo do título Lição II, explicação garantida pela epígrafe respectiva de Francisco Rodrigues Lobo. A explicação e a epígrafe são o que vale, pois não há micro-conto nenhum, apenas um diálogo ao acaso de duas linhas entre um casal, ele num português do Brasil de favela, ela em inglês, impresso na página 53 como que por engano, sem qualquer ligação ao título, mas atado com um nó cego à epígrafe respectiva. O outro conto, que também não o é, cuja narrativa se absorve no jogo simultaneamente lúdico e irónico que percorre o livro, é Neologíase, neologismo que LMR pode ter formado de  neo + log(ia) + íase, que significaria  novo estudo sobre a condição mórbida. Condição mórbida de quê ou de quem? Da Língua. Começa assim o que é a Lição III: «Talvez nunca conheçamos a origem da praga.» Esta lição é verdadeiramente abundante em neologismos, todos eles riscados, uns criados com ironia e gozo pessoal, outros deixando a frase por acabar, em virtude da sua simples rejeição com um traço por cima, sem olhar ao que se seguiria.Socorrendo-me  sempre da epígrafe de Francisco Rodrigues Lobo para cada conto, como chave necessária para ler correctamente os textos, distingo Lição I, Maqamat al-Usbuna, passado no tempo  do  Al-Andaluz e da Reconquista  Cristã, sob o ponto de vista moslém, como, imagino, escreveria LMR com um sorriso, em vez de muçulmano, conto em que o Cultismo surge de forma exacerbada e caricatural; Lição IV, Abaporu  (ou seja, antropófago, em tupi-guarani), passado no Brasil do século XVIII, entre colonos, aventureiros, homens de armas, negreiros, missionários, índios inadaptados à escravatura e escravos africanos; Lagor, Vogais, Tull decorre em Lisboa deste nosso tempo. Um diálogo em linguagem vulgar, levada ao extremo de palavras e frases incompleta[...]



As Pessoas do Drama, de H. G. Cancela

2017-09-05T13:46:34.436+01:00

O modo do discurso narrativo em As Pessoas do Drama (Relógio d’Água, 2017) é visivelmente mais denso do que nos romances anteriores de H. G. Cancela, ultrapassando-os na complexidade das personagens principais, o que obriga o autor a uma linguagem mais espessa do que nas obras anteriores, capaz de traduzir o intrincado psicológico das personagens principais e de lhes dar a vida virtual que é a ficção literária. Uma característica presente nos romances antecedentes de H. G. Cancela, bem como, nos casos de igual importância, em As Pessoas do Drama, é não revelar uma ou outra particularidade das personagens principais, deixando para o leitor as perguntas sobre o que não revela. Na generalidade, revelá-las não só nada acrescentaria à obra, como satisfaria uma curiosidade comodamente inútil  do leitor que o autor, a meu ver bem,  terá julgado dispensável.  Ora isto passa-se em As Pessoas do Drama também  a nível muito mais importante para a narrativa do que as simples omissões anteriores. Há uma indefinição da personagem do narrador que nos vai conduzindo a imaginação, durante a leitura, a hipotéticas resoluções da trama, em busca de chão firme. Não se sabe quem ele  é, sabe-se que foi condenado a uma pena de prisão de vinte e três anos e que cumpriu quinze, mas desconhece-se que crime cometeu. Da sua pessoa e passado, durante a narração, não se conhece mais nada. Chegámos a imputar-lhe, na nossa imaginativa, uma paixão tocada pelo desequilíbrio mental, porque teima em ir ver actuar, todas as noites, a actriz Laura Sperelli num teatro de Roma, interpretando Antígona, supõe-se que de Sófocles, no entanto uma Antígona cega e, como a atriz, grávida de seis meses que não existe em nenhuma  obra de arte. É um pormenor não só da liberdade criativa de H. G. Cancela, mas também um  meio de sublinhar com vigor a pessoa e o drama de Laura em palco e fora dele, com algo do Teatro do Absurdo, característica esta que se repete no texto em outras situações e noutros romances do autor, testemunhando o sem sentido básico da vida das suas personagens centrais.Laura Spirelli  acaba por aceitar falar com o narrador, que não desiste de a ver todas as noites na sua representação. Mas, nesse e nos sucessivos encontros a seguir, nada nos permite inferir uma vontade amorosa em ambos e, muito menos, um desejo de sexo, nem então nem depois, quando Laura vai viver com ele na herdade que este recebeu por herança, não se sabe de quem. Aí não se descobre sequer um olhar de atracção ou de desavença  entre eles. Não há nenhuma troca de palavras sobre um assunto que, afinal, não se põe. Parece-me inevitável a pergunta de quem lê: «Então, a que propósito ela está ali e ele o admite?» Podem aceitar-se saídas várias, mas nenhuma definitiva. O homem enquanto espécie é capaz de tudo, desde a grandeza à mais vil miséria do ser. O leitor, a cuja condição pertencemos, tende a buscar uma solução de compromisso. Talvez baste ao narrador a presença de Laura e depois do filho que lhe nasce e de quem ele cuida com frequência, apesar de o pai da criança ser Filippo Arboreo, o encenador de Antigona com quem Laura é casada e que depois abandona. No entanto, até final da narrativa, há algo que nos deixa a ideia de que a história não está bem resolvida, o que encarámos com estranheza, conhecendo bem como conhecemos a qualidade da obra de H. G. Cancela.É no virar da página final, já fora do texto, que o livro explode e se realiza como se fosse outro, chamando a si o segredo oculto da primeira à ultima página, e alargando com essa revelação o hausto do que ficou escrito. Não é um livro de fácil leitura, mas é uma grande surpresa, cujo meio de a conseguir merece, pelo seu arrojo e inventiva, o nosso  mais vivo aplauso, e não é apenas a descoberta do meio em si que o merece, é também a reconstrução mental do romance a que de imediato esse meio nos obriga, mudando-o numa saga trágic[...]



Os filmes que vou vendo ou revendo # 2

2017-02-26T23:46:05.849+00:00


allowfullscreen="" frameborder="0" height="344" src="https://www.youtube.com/embed/PNIYR6tGejg" width="459"> A Palavra, Ordet no título original, de Carl Theodor Dreyer, realizador dinamarquês (1889-1968), não consta da lista dos cem melhores filmes dos Cahiers du Cinéma citada aqui ontem, mas devia lá estar. Em sua vez estão dois filmes seus em lugares imerecidos, os 52.º e 64.º. Listas são listas, e esta, a meu ver, tem filmes franceses, e não só, claramente deslocados. A Palavra é uma obra-prima de um realizador de poucos filmes (14 em 45 anos), com elevada qualidade média, muito exigente consigo mesmo e com os actores. O rigor estético e a exigência na representação das personagens terão levado à depressão emocional Maria Falconetti, interprete principal de A Paixão de Joana d'Arc, outra obra-prima de Dreyer.



Os filmes que vou vendo ou revendo # 1

2017-02-25T20:19:45.799+00:00


allowfullscreen="" frameborder="0" height="270" src="https://www.youtube.com/embed/auccmqO45a8" width="480">
Uma obra-prima do Cinema, um fiasco na época, o único filme realizado pelo actor inglês Charles Laughton (1899-1962), que, por isso, se recusou a realizar mais filmes. A revista Cahiers du Cinéma deu-lhe o segundo lugar na sua lista dos cem melhores filmes da História do Cinema. O certo é que as obras-primas não entram em corridas. Coexistem lado a lado e há muitos que não se atrevem a preferir uma a outra. Dirão apenas são diferentes. O filme, de 1955, tomou entre nós o título A Sombra do Caçador, uma má tradução do título original The Night of the Hunter, como é  vulgar suceder nas distribuidoras.



Pequeno Réquiem com Bruxas

2017-02-25T20:20:22.682+00:00

Escusas de esperar notícias,ela perdeu-se algures num eclipsee não voltará mais.Perdeu-se com as bruxas, levaram-napara o sol que taparam com a lua.Não lamentes a falta que te faz.Numa noite propícia, as bruxas virão todascom as suas vassourasdançar e rir em volta da tua campa rasa.Nuno Dempster[...]



Campeonatos

2016-06-26T20:56:21.735+01:00

Os que exigem que Ronaldo salve a Pátria em terras de Hollande parecem-se com os que depositam toda a esperança em fulanos semelhantes em carácter ao presidente galo. Em Bruxelas capital, a equipa residente tem-se fartado de marcar golos, porque metade do campo está vazia, e a baliza adversária, escancarada. Aquilo a que chamam “democracia” não permite que a equipa da arraia-miúda ocupe o lugar a que tem direito no campo. A verdade é que nunca foi essa a intenção do desafio democrático, adjectivo oco que enche a boca dos mandaretes comunitários e seus coadjuvantes a nível de nação. Suponhamos que Ronaldo não tivesse estado em quatro dos cinco golos marcados até hoje pela equipa portuguesa no Europeu. Logo se ouviriam locutores a desclassificá-lo e claques a chamar-lhe traidor e mercenário. Assistir-se-ia a algo parecido às ofendidas reacções ao Brexit dos detentores de lugares de poder obtidos por cooptação, Junkers, Tusks & Cia, que exibiram à primeira vista grande pressa no cumprimento do resultado do referendo. Merkel veio dizer(-lhes) que era preciso calma, como se fosse necessário garantir que até ao lavar dos cestos é vindima. Dar o dito por não dito não é caso virgem, nem em referendos nem em coisa nenhuma, e os adeptos das Cinco Quinas estão sossegados, porque afinal Ronaldo tem jogado a contento e o poder do Goldman Sachs é grande na CE, por mão de Mário Draghi, seu antigo vice-presidente para a Europa, subido a presidente do Banco Central Europeu, pormenor que a maioria dos votantes no Brexit suponho ignorar. Tudo é possível, pois, inclusive irmos à final a 10 de Julho, uma vez que a seu tempo chegará o fim do resto. Não há império que dure mil anos, afirmo-o nem que fosse só para desmentir Hitler.[...]



A Aluna de Violino

2016-06-22T19:26:19.196+01:00


Com o arco a adolescente faz sair
das cordas um som de haste
e solta-o em direcção à Lua
e às cidades novas onde
os olhos dela pousam.
Não são minhas, como outras foram,
nem dela são ainda essas cidades.
A música, porém,
indica-lhe o caminho e não existe
convulsão que se oponha
ao som do violino,
enquanto as suas mãos
ignoram os timbales
que ouvimos inquietos no horizonte.

Nuno Dempster



Calendário, de Daniel Francoy

2015-09-18T00:58:24.764+01:00

Daniel Francoy nasceu em 1979 em Ribeirão Preto, cidade do Estado de S. Paulo, onde reside.  Em 2010, trouxe à estampa o livro de poemas Em Cidade Estranha seguido de Retratos de Mulheres, publicado pelas Edições Artefacto. Estas mulheres são jovens, traduzindo garotas no Brasil, miúdas em Portugal, e formam um friso de frescura que tive a sorte de ver formar-se. São poemas escritos em data bastante afastada da publicação, maiormente escritos em 2002, com alguns, poucos, em 2003 e 2004. Na mesma esteira e mais antigo, 20, um poema surpreendente, escrito com 20 anos, é a base do olhar juvenil que informa os retratos das raparigas. Por aqui poderíamos julgar enganosamente que são poemas da juvenília, com o sentido algo depreciativo de coisas da mocidade que por vezes o nome ganha. Este aspecto, é óbvio, não se repete no seu novo livro de poemas, Calendário, editado pela mesma Artefacto no mês passado, tem o poeta trinta e cinco anos, mas esses poemas da juventude chamaram-nos a atenção para o que poderia ser um livro novo de Daniel Francoy. Apesar disso, a semente perdurável, como continuação, encontra-se na primeira parte, Em Cidade Estranha, do livro de estreia. Que diferença então se nota em Calendário para o seu primeiro livro, o que se lê e sente nele de diverso, que evolução teve o poeta? Uma evolução profunda, com sensível perda da candura (mas não tanto de encantamento) e, de modo total, da ténue e subliminar sentimento religioso que julgo aflorar num ou noutro poema e com o ganho na firmeza dos versos, das palavras, das imagens que já vêm do livro inaugural e se mantêm como ADN do poeta. Dir-se-á que os olhos do autor se turvaram com o avanço dos anos e o afinar da consciência, mesmo quando se refere a sentimentos como a ternura: “Carrego a ternura como um vaso de flores / trazido dos lugares da infância / (a terra apodrecida, as raízes mal cheirosas). / Digo a ternura com um hálito de palavras mortas” [1]. O teor desta intercalação e verso seguinte, bem como o seu tom são marca da poesia de Daniel Francoy, algo impossível de não se reconhecer a autoria: “Saber escavar, escavar sempre / a terra podre e depois escavar / a sombra espessa. Respirar fundo / a noite escura, a noite sem vento, /sem vestígios argênteos do luar / (mesmo um luar imundo, encardido / de poeira e fumo, não se percebe)/e sem murmúrio de mar diluído / nas negras artérias da madrugada.” [2]Pode inferir-se que o poeta aspira a algo que não existe, que é da insatisfação resultante do seu embate com o mundo que nascem estas imagens turvas, criando, significantes, o ambiente do poema e o que ele nos diz. Porém, mais do que estas imagens simples, prevalecem as imagens fílmicas, como que encadeadas em fotolitos, de que aquelas com frequência fazem parte, constituindo o guião em que o poema se torna: “Tão baixo, possível, familiar, /o luar é apenas sujeira no céu. / Ainda mais abaixo, há grilos, mosquitos, / morcegos, a água barrenta / de um riacho, a doçura/ dos frutos rachados pelos vermes /e também a aspereza/ em rostos que o tempo tratou / como pedra que nunca foi movida./ Não fui uma ave migradora / e há rios que deixam de fluir /sem encontrar algo maior.” [3]Há também nesta linguagem o recurso sinérgico a oposições contraditórias, como escrever que luar é sujidade, lixo, sem que isso nos fira a leitura, porque aumenta a intensidade e se torna uma verdade violenta e inquestionável no poema. E há mais exemplos nos poemas que citei acima, em parte ou no seu todo, sem ter pensado ainda nesta particularidade potenciadora de tensão. A ternura que o poeta carrega  como  um vaso de flores que trouxe da infância contra a terra apodrecida, raízes mal cheirosas, o hálito das palavras mortas; ou sem vestígios argênteos de luar contra um luar imundo, encar[...]



Na morte de Herberto Helder

2015-03-24T22:54:02.236+00:00

Os poetas não morrem, dizem.É um lugar-comum.Morrem, sim, ou melhor, deixam a vida,devolvem  à matéria a sua vozque só em gravações se pode ouvir,extemporânea.É que a polissemia enganae quero ser exacto.Nos livros não se vive,o que ficou escrito escrito fica,e a vida que lhe deu o sopro foi-se embora.O poeta não diz mais nenhum verso seu.Ouvem-no os sobrevivose  pensam escutar a voz que se calou.© Nuno Dempster[...]



O 'Tempus Fugit'

2015-01-06T22:32:01.037+00:00

O meu primeiro carro. Um Fiat 850 Special T. Baptizo-o neste instante de "Tempus Fugit". Corria como correm agora os anos, com os seus 47 CV. Foi em 1969 que o comprei. Fiz-lhe uma rodagem supimpa. Subi e desci o Marão sempre em segunda, e outras desabilidades do género. Portou-se sempre como um valente. Troquei-o depois de percorrer 120.000 Km em todo o género de estradas e caminhos. As coisas duravam. Lembrei-me hoje dele e da minha juventude. A juventude é que não dura, e eu não sabia isso então. Parecia eterno, os olhos enchiam-se-me de sol, era o fototropismo juvenil de que não dava conta, só o vivia, e era tanto, e tudo, e não me vinham à cabeça como hoje as desrazões do Criador.



Choupos

2014-12-21T18:54:01.317+00:00

Depois do céu de nuvens o sol irrompe e cintila nos choupos de inverno.Ficamos sempre aquém dos fustesde belos ramos nus.Não importa. Podemos vê-los ascender.A manhã luminosa pertence-nos também. © Nuno DempsterFotografia anónima. Choupos no Parque das Caldas da Rainha.[...]



Berliner Mauer

2014-11-09T20:18:05.025+00:00

 Hoje é dia de festa.Os que empurram a roda trucidante,cheios de entusiasmo,celebram a passagem do muro com tiros de champanhee não lhes vem à ideia que a rodacomeçou a mover-se desde então.Nascia o tempo de hojee a liberdadede levantar novos muros,inermes porque erguidos no desertoe, além do mais, tão óbviose justos que ninguém repara neles,que é como quem diz,a TV não os lembra,e hoje só os pelintras falam disso.© Nuno Dempster[...]



Revista transeatlântico

2014-10-23T21:23:21.542+01:00

Clique para ver melhor  Saiu o número 0 da revista transeatlântico. A direcção é de Nuno Costa Santos,a cordenação editorial, de Carlos Alberto Machado,e a edição, de Companhia das Ilhas, Lda.Tem 112 páginas,é de distribuição nacionale custa 10 euros.O programa editorial vem na contracapa da revista e contém-se todo  no primeiro de três períodos: "Esta é uma revista que quer incentivar a escrever, de modo ficcional ou ensaístico, sobre o que são os Açores  hoje ― nas suas novas entranhas." Colaboram neste número zero Alexandre Borges, Bianca M, João Pedro Porto, Joel Neto, Leonardo, Luís Rego, Maria das Mercês Pacheco, Mariana Matos, Mário T Cabral, Paula de Sousa Lima, Renata Correia Botelho, Rogério Sousa e Rui Jorge Cabral.O design esteve a cargo de Pedro Ponciano, que se destaca aqui pela qualidade da publicação enquanto objecto.[...]



O último poema de uma suicida

2014-10-09T11:58:43.987+01:00

BARBITÚRICOSO dia chega ao fim quando o sol se põepara aqueles que apenas vêem com claridade.A alegria da noite é falsaou, se quiserem,efémera, e o silêncio alastracom desespero igual.Nos dois lados da Terra,em cada minutohá corpos que se anulam.A morte sem ruído é a mais digna,ninguém dá pelo gesto e suja menos. © Nuno Dempster  [...]



Como se escreve um poema excelente? Assim:

2014-09-16T14:53:58.523+01:00


 A lucidez de Sancho Pança

Ainda hoje, ao encontrar um inimigo
de outrora, abominável assassino,
cumprimentei-o alegremente:
Olá, moinho de vento! Reconheço
agora a tua verdadeira natureza
e não te enfrento porque já não carrego
as armas e as loucuras de um velho.
Funciona sempre, amigo, sê
o que verdadeiramente és: moinho
do amanhã, o que transforma a água
em fogo, o que torna leves e aprazíveis
estes nossos ares pestilentos.


                      Daniel Francoy



Romance ou Falência, de Luís Pedroso

2014-07-29T17:47:04.700+01:00

  Parece-me cada vez mais comum a poetas surgidos a partir do início do século XXI, ou um pouco antes, quererem-se testemunho deste tempo subvertido. Por isso, o que se põe de fundamental para individualizar uma voz é a ética que a informa, a experiência que se originou como matéria de poesia e a estética que suporta e realça a ética, já muito longe do conceito hegliano. De um modo prático, trata-se de distinguir o que se quer canónico do que nos agarra por todos os lados do poema, a convicção, necessariamente oriunda da experiência moral do poeta, os aspectos formais do poema e a capacidade inusitada da linguagem que nos surpreende e é substância sinérgica da revelação ética e da liberdade criativa.Luís Pedroso (n. 1977) está neste caso pouco vulgar, com o livro de poemas Romance Ou Falência, saído este mês com a chancela da Edições Artefacto. Depois de lido, abro o livro à sorte e parece ter sido de propósito calhar-me logo um pequeno poema revelador. Serve-me de exemplo precioso do carácter não canónico da poesia do autor. Não é de copos que fala, de decadentes balcões por onde se arrasta a vida desgraçada do fado lusitano. Distancia-se e faz-me recordar Omar Khayyām e os seus rubaiyat sobre vinho.“O GRATO BEBEDORBebo este vinho porque o desconheçoTraz-me paz seu silvo de sangue escuroSalino e vivo  e doce e quente e espessoVai para ele o meu voto moribundo”Pode parecer evidente o desencanto do último verso, embora os três versos anteriores levem, a meu ver, a uma interpretação menos linear (no sentido de fora do hábito de leitura, em que ao virar de cada página de certa poesia se encontra a metáfora, perfilada), com a definição do vinho próxima das palavras de um provador, que o poeta soube com leveza e segurança de ritmo levá-la para o campo poético “Traz-me paz seu silvo de sangue escuro / Salino e vivo e doce e quente e espesso”. O último verso “Vai para ele o meu voto moribundo”encerra, quanto a mim, uma declaração quase à letra do seu voto, um voto de vencido numa sessão de prova de vinhos, pois diz: “Traz-me paz seu silvo(…)”. Que silvo é este? Para mim é o silvo que os lábios fazem quando se aspira o ar com que se busca avivar os aromas retronasais na prova de boca de um vinho, desculpem-me os pormenores especializados que podem parecer uma bizarria interpretativa, no entanto calhou o acaso ter-me permitido aprendê-los e cultivá-los. Porque ― e é isto que interessa, bem mais do que qualquer interpretação ― quem louva assim o vinho não se sente nas vascas da agonia, nem perfilha nenhuma obediência canónica aos ditames epocais da infelicidade individual, em que as dores e falhanços do narrador poeta e o próprio poeta é que importam (a velha questão da aura de Baudelaire, cuja queda em poesia de hoje chegou a ser muito aplaudida e favoravelmente comentada, quando o que se pretendia era reavê-la e mantê-la, sim, mas numa suposta invisibilidade). Daí que nos deparemos com uma poesia muito viva em que as imagens descritivas da realidade se constituem com frequência em chaves claras da semântica da linguagem, e muito raramente – uma vez só, e se eu não tiver treslido – numa imagem metafórica próxima do surrealismo, e no entanto com um timbre novo e claro no que nos faz sentir, mas não compreender cabalmente: “ ‘Fim / do Mundo’ ― / expressão que há muito / perdeu o perfume ameaçador // O fim do mundo é um planalto / de onde se pesca à linha”. No entanto, pergunto-me agora, se os versos sublinhados não terão a ver com um putativo aspecto lúdico, no qual o poeta recolhesse o se[...]






Um pouco acima da miséria

2014-06-20T02:20:14.745+01:00

Da mão do autor para a minha, trouxe para casa o  livro de poemas de Amadeu Baptista, ganhador do XXIX Prémio de Poesia da Cidade de Ourense, para originais, 2013.

Venho com figuras de deuses no meu corpo
e estou a cantar. Na mão esquerda trago
uma camisa de linho e, na direita, uma bandeira
azul e a proa de um navio. Invoco os talismãs
propícios e sobre o promontório procuro a luz
de outrora e a que há-de vir. Eu e o meu povo
sabemos que desígnios transparecem
nos golpes que sofremos.

IRENE PAPAS ENTOA VERSOS DESCONHECIDOS NO EPIDAURO
AQUANDO DA INVASÃO ALEMÃ DA GRÉCIA  - p. 49 do livro.



Novo romance de H. G. Cancela

2014-06-13T02:08:39.462+01:00

Saiu com data do mês passado, publicado pela Relógio d'Água. Transcrevo o início de um parágrafo onde os meus olhos pararam. Pararam nesse, poderiam ter parado noutro. Não foi escolhido, mas parece. Adivinho assim a escrita de muitos parágrafos, tal como no romance anterior de H. G. Cancela. Cria ambientes com as próprias personagens, no que dizem, no que escondem, no que lhes é indiferença  ou abandono, uma humanidade que parece conduzida às últimas consequências de existir. 

«Ligava às vezes, vinha quando vinha, não tinha de lhe dar satisfações. Pagava-lhe. Ficou calada, de olhos no chão, movendo lentamente os pés sobre a superfície húmida. Tornou a sentar-se, descalçou-se, afastou as sandálias para debaixo do banco. perguntei-lhe se a mãe costumava ficar tanto tempo sem ver as crianças. Não respondeu. (...)»







2015-04-06T02:48:53.366+01:00




Fotografias

2014-04-13T13:11:11.406+01:00

 do Google, autor desconhecido.As fotos morrem lentamente atése tornarem intocáveisnos anos que fugiram.Não receies nem te doatudo ser matéria que se vai.Um dia depois do outro regenera-secom as mesmas diferenças.Disse-te a luz no planaltoé mais leve e brilha, e envolve-nosnuma sugestão silvestre.Deveria bastar-nos esse outro temposem medida possível. Respiramos.Os cães guardam-nos e ladram.Só o presente deles parece verdadeiro. © nd[...]



De hoje a uma semana

2014-03-14T11:12:20.947+00:00


(image)
 (clique)




11+7+7+11 = 36 poemas

2014-03-02T15:19:59.279+00:00


A luz inclinada é a das quatro estações do ano, mas não são poemas de inspiração temática. Na maior parte deles, as estações são o tempo em que o assunto decorre, como se fossem uma data.

É extensa a lista onde se podem comprar os livros da editora.













Leitura

O sol não findará nem as
manhãs de primavera
em que a erva se vê crescer,
e a hipótese de a Terra explodir
é coisa que ninguém admite,
só visionários loucos antevêem
cidades arrasadas
à deriva no espaço, transportando
sem destino os seus mortos.
Acabam eras, morrem deuses,
o sonho apunhala os justos,
o amor finda em cada homem ou mulher,
a Terra permanece,
isso sabemos todos. Não sabemos
é que os gráficos têm picos,
que a agulha do planeta,
entre um pico e outro, inscreve
na funda depressão
a leitura final dos vivos.




Recanto

2013-12-22T19:49:02.011+00:00




















Acampamento Cigano com Carroças , Van Gogh, óleo sobre tela, 1888.

Desconforto de pássaros molhados
nas árvores ao vento, talvez eu
pudesse partilhar da sua condição:
chegava uma barraca
semelhante à que vejo
sob o viaduto, à entrada da cidade:
fumo, gente aninhada dentro,
dois cavalos à chuva e um burro,
um recanto de esterco e paz.
É que me rio quando amigos chegam
e aconselham, ungidos de saber:
«A paz está em ti, fica a pairar
por sobre o teu telhado.»
Mas não me dizem
come e bebe o melhor que tenhas,
esgota a tua casa, suicida-te assim,
e eu acabo por ir
na mesma direcção em que já ia,
nem morro nem me mato,
nem tenho por vizinha a gente da barraca.


Nuno Dempster, in Elegias de Cronos, Edições Artefacto, 2012



Um texto fora do texto

2014-03-18T19:03:39.292+00:00

        Para pouca sorte minha, às oito já se vê uma longa fila no passeio para o centro de emprego, gente de todo o género, nova e menos nova, branca, preta, homens e mulheres, abundam calças de ganga e roupa barata e de muito uso; contraditoriamente, sou o mais bem vestido, há quem me olhe com desdém, ouço a um homem atarracado é mais um com a mania de que ainda é engenheiro, aqui somos todos iguais, mas eu, não, não sou nem me sinto igual aos da fila que se alonga cada vez mais. Não tenho nada a ver com eles por razões opostas, ter sido empresário e ter dormido na rua, nunca eles tocaram tão alto nem tão baixo, a diferença é essa, irreconciliável como a indumentária que comprei, parece que venho para uma reunião de negócios, na verdade desconhecia o que era um centro de emprego e a vida desta gente que, afinal, nasce de um chão raso e extenso que nunca pisei. A minha qualidade de sem-abrigo é como seja aqui uma desvantagem, de algum modo a expiação de um erro inadmissível que pressentirão em mim, no qual prevalece o empresário que fui, basta olhar a roupa discordante que trago, aqueles homens e mulheres taciturnos e pardos no rosto e no vestir vêm de longe, carregam geração após geração essa marca que a vida trata de espalhar como uma nódoa cancerígena, ensombrecendo-lhes os olhos e deformando-lhes o corpo. Um doutor, como me chamava Mateus, não pode falhar, andou a estudar então para quê? Eles sabem para quê, para saírem do limbo em que todos vivem do nascimento à morte. Nos últimos cinquenta anos, um ou outro irmão foi estudar para uma universidade com a renúncia dos que ficaram, por isso não podem fracassar, é injusto para os que se viram preteridos, de modo que eu serei sempre, para eles, uma excrescência, um tumor na longa fila à procura de trabalho.© Nuno Dempster[...]