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Felicidade Clandestina



espécies e variações



Updated: 2017-10-13T01:48:11.298-07:00

 



O tempo em cores e punhos fechados.

2016-12-26T10:16:41.710-08:00


Meu avô já não habita a casa
costumo pensar que o mundo ficou pequeno demais para ele existir,
já que certas existências exigem imensidão e cores vivas para funcionar
soubesse disso
teria usado um estoque de tintas
mas não se pôde prever o desbotamento.

Corro ao atravessar os portões enferrujados
que protegem a memória
tomo fôlego para continuar o caminho
me convenço como num susto de quem levou um belisco
que a vida o aposentou
por conta do bom trabalho que fez a todos nós.

Não adianta
o silêncio passou a ofender
mas parece uma ofensa aceitável
àqueles que não admitem a permanência do luto.

A saudade é mesmo essa casa abandonada
que a gente quer voltar a morar, já sabendo a inexistência.
É aquela cadeira de madeira na cozinha com a perna um pouco torta,
a carteira de couro com fotos de netos ainda meninos,
o cacho de bananas já passadas na fruteira,
a rede na sala que o vento balança vazia,
um quarto com cheiro de naftalina e alfazema.

Tudo leva a mão do abandono mas o tempo cura, o tempo cura tudo,
eles dizem para eles mesmos e para os outros.
A mentira repetida muitas vezes convence a verdade a se tornar parte dela
eu também fiz um mantra
é uma espécie de remédio que não cura mas distrai.

Sou incapaz de aconselhar atalhos se pego caminhos mais longos
só para entender que o tempo não saberia curar
um golpe que ele próprio desferiu.

Por isso pesa uma tonelada e meia beijar as fotografias,
redobra o peso com o esforço para agarrar
vozes, cores e cheiros
e o mar da memória não tem cabelos
nem corpo que dê para sustentar o meu corpo sobre o que não existe mais
nestes planos daqui.

Fui tragada,
sem querer debati braços, pernas
esperneei com a força de mil recém-nascidos
para ficarmos leves, vulneráveis
eu, meu avô, os portões, a casa abandonada
foi preciso
o conjunto da falta que mais me visita
dizer de fora para dentro não se preocupe
vai ficar tudo bem
depois na mesma ordem de dentro para fora
dizer não se preocupe vai ficar tudo bem
ainda que não escute palavra de conforto da boca dos outros
eu juro
meu coração em segredo fala diariamente seu nome.



Palpitações

2017-07-05T11:42:49.187-07:00


 

Meu seio esquerdo em tua mão
terreno desconhecido
isolado na linguagem
tua visão logo se volta
muda contra a minha
e as duas desarmoniosas
convivem na mesma casa.



Se a vida for mesmo essa pressa que ao menos os poemas sejam vividos com calma.

2016-07-10T18:00:57.631-07:00

Jean-Luc Godard, Band of Outsiders, 1964.                I.Dividimos o mesmo chãono mundo impenetráveldos que aparentamcerto atrasopara compromissosinadiáveis.Não nos cumprimentamos embora já tenhamos tido questionamentos parecidosnunca antes ditosem alto e bom som.Na fila da padariaou dos supermercadosque dividimos suados em horário de almoçotomamos precauçõespara evitar o toquea pele tímidana pele dos outrosentre nós nunca existiu contato visualse existiu não há registrosalém de câmeras de segurançaassistidas por ninguémpuxamos a falha na memória seletiva por gostos mais hostis.                      II.Somos os mesmos embora nascidosde outras mulheresalimentados da mesma ganânciaengordamos para girar capitalengravatadosou à paisanapossuímos traseiros arrojadosem confortáveis carros do ano motocas ou bicicletastambém no acessível modelo popularesquecemos que andarainda funciona na selva de concretoprestes a nos engolir.Respiramos poeira de escritórionos adaptamos a sobreviverde coração silenciadojunto aos telefones móveisem ambientes mais sériosavisos espalhados: não se pode incomodar!Bom dia brevenos elevadores abafados cabeças inclinadas acenos e perguntas superficiaisensaiadas para não querer saberoi como vainão prolongue respostasaceitável é o automático e a falta de detalhesé a cordialidade do século XXI.               III.É preciso forçar certas revoluçõesburlar o sistema sem se preocupar em ser vistose a vida for mesmo essa pressaque ao menos os poemas sejam vividos com calma.Achamos escrever deliciosomas é uma delícia abafada entre os relatórios urgentes da mesa.Nos amassamos e jogamos foranão nos mostramos pra ninguém.Se a vida for mesmo esse vencimentoacho melhor não irmos de carrovamos começar do começo: encostamos nossos braçossuados e rimospedindo desculpaé que viemos a pélogo nos oferecemos simpáticospara carregar objetoscom licença posso ajudariniciamos conversaignorando possíveis estranhamentoscom interesse demonstradosatisfeitos em trapacearno jogo de passos contadosestreitamos laços nas filas mais cheias.            IV.Espalhamos os olhos bastante atentos ao que vai sendo deixado gravamos rostos e figuras aquilo que for de mais sensívelé ganhofica entre nósdelicadeza como moeda de trocanos torna os novos ricos do não material.Escolhemos o quadro torto na parede do corredor infiltradocomo souvenir de exercícios pessoaissaudosismo em território neutro contendo umidade e cheiro de café.Lá permanece pendurado contra luzemitindo chamados inaudíveisnuma língua que nós já tão prontos traduzimos e não há relógio algum que faça o antigo trajeto.[...]



Alinhamento.

2015-05-20T19:46:17.089-07:00




Quanto custa
a procura
da cosmogonia que rege
esse encaixe
explicando em minúcias
semelhanças
que nos afastam
ou
diferenças
que nos aproximam?    

Quando será fabricado
repelente próprio
para fantasmas românticos
que assombram corações descrentes?

Ando tão confusa
inverti nossa ordem
sem alterar resultados
desaprendi sonetos
antes favoritos.
                               
Pedi calma e passagem
ao fim das contas
na esquina
das coisas                              
que nos permanecem atravessadas  
quem nunca na vida
converteu o coração em pedra
que atire a primeira saudade.



Te confesso

2014-11-16T22:44:54.255-08:00




Eu queria ir até aí te derramar palavra
molhar as tuas maçãs 
fazer de conta que é de lágrima
que se regam as incertezas
que é de carne e músculo
esse coração
que encostava no dela
até dias atrás
distraído
involuntariamente instável
pra amenizar
os ais secretos
e toda a falta de tato
deixar correr o tempo
bicho solto nos quintais
que é pra fazer de conta
pelo menos um dia
ou dois
que a gente tambem é livre
pra sentir o que quiser

e na hora de partir
que existe
como morte
que é certa mas sem previsão

não se partisse ao meio a menina

justamente porque
do alto do meu egoísmo
me jogaria
me ralaria
me cortaria
pra sarar
os joelhos dela

sopraria
dando tempo
ao tempo
sem dar ponto
métrica
vírgula


por isso e mais
queria ir até aí 
te vomitar enjôos 
que não são meus
te encher de bile os sapatos
pra 
quem sabe assim
talvez
(re)tirar reações jamais vistas
do teu universo de homem
bem vestido e sério
findar esperas 
que se tornaram minhas
sem querer.










Continuações variáveis do não entender.

2014-02-08T20:08:13.799-08:00




O aborrecimento em estar viva, sem ter tido previsão ou convite  para vir até aqui, grita em todos os meus silêncios. Creio que desse aborrecimento, com o qual sou obrigada a conviver, só receberei sinais confusos. No pouco que tento descobrir me confundo, minha  intuição vazia de sentidos nunca foi de ajudar.

Com o peso dos dias ruins, na beira dos meus nervos, não há beijo que me cale, nem amor que me faça enternecer. Só o que resta é o egoísmo de saber ser e doer sem pausas.

O incômodo dará a entender ser a última aparição. Talvez me renda algumas páginas encharcadas do meu sal, muito provavelmente, nas situações inesperadas, vai me forçar a engolir o que sou e resolver, não  questionando ou alertando o eu sem gosto.

E continuarei provando insosa do cansaço
na agonia de caçar respostas.

Quantas vidas me serão impostas até enlouquecer?



Fragmentando a carta de um amor inteiro.

2013-05-20T21:48:01.751-07:00

Acho interessante registrar o quanto me deixas intrigada com essa "espécie de filtro" que tens nos olhos. Sim, passei a chamar dessa forma mas nem comentei nada a respeito, até por previamente imaginar como seria tua reação diante do comentário. Revirarias os olhos e pedirias pra que eu não contestasse contigo, que parasse de proferir ofensas gratuitas à minha própria imagem, por ser a tua imagem predileta de mulher. Provavelmente irias formular uma outra teoria pra desbancar a minha, mas não importa, porque mesmo em desacordo existe amor entre nós, um amor tão antigo e confortável, com sensação térmica de roupa de estimação em dias de frio.Dia desses pensei em agradecer por muito que tenho na vida, até pelo tanto que perdi, porque também acho que se deva agradecer por isso. Mas sabe o que é engraçado parar pra pensar? Que tem "obrigado" que é gigante e precisa logo ser colocado pra fora por não ter onde caber. Não parece que o agradecimento se torna ainda maior quando se trata de amor e seus derivados?Acho que essa palavra amplia as coisas, até o meu tamanho diante do enfrentamento que significa se propor a amar e ser amado de volta por uma pessoa. Na minha cabeça, durante esses espaços de tempo, isso ficou vagando sem achar destino. Minha vontade se embaralhava junto de tantas outras possibilidades, se perdia. Talvez, inconscientemente, eu estivesse mesmo te esperando voltar, mesmo sem a garantia de varrer o pó dos dias que passei sem ti. Porque sozinha não sabia onde tinha largado minha disposição de entrega. Era como se eu só soubesse estar momentaneamente viva, presa a permanecer pela metade, no imóvel das coisas mortas de coragem.Pois então, escrevi pra agradecer o retorno.Teu paradeiro foi minha fuga desses labirintos.Minha devolução.[...]



Os dias são todos nossos.

2013-05-04T17:08:05.062-07:00

Teu nome já não é o de batismo.
Desde que me entendo por gente
se converteu em palavra curta
que passou de Amélia pra ti.
Transferindo amor e responsabilidades
ainda que, a princípio, não houvessem planos.

Tua vida foi criando a nossa,
liquidificando duras esperas
em amor com leite Ninho

pra fortalecer.

Não deixando nada a desejar
até porque
os cuidados foram e ainda são
tão maiores do que essa moderna proximidade distante
tipo coisa de gente grande que trabalha demais.

Poderia viver mil vidas
e acho que não conseguiria dissertar corretamente
sobre os eternos ''38 anos''
ou os panos da tua saia
que transformei em vestido
no último verão.

Comentei contigo,
que acho incrível quando perdes a fala
ou o jeito com que choras baixinho
nos fins dos filmes de animação?

Tua risada alta que tempo ruim não abafa,
devia tocar na rádio
pro mundo girar melhor
sem dor nas costas
por carregar silêncios.

Tem muito quatro de maio
fantasiado de dia qualquer
esperando.

Regando o que já foi plantado
pra ver flor-e-ser feliz.

Tu és a raiz de tudo
e eu vivo
a partir
de ti.



Endereçado assim.

2013-05-03T17:19:59.868-07:00






Transcendo o físico com a perenidade dos gestos,
gastos ou pensados
seguem calculadamente leves e engatilhados
pra balear o esquecimento.


Venho sangrando as más lembranças nos últimos dez meses,
por falar em esquecer.
Escrevo menos, digo mais.
Te provo e comprovo que esgotei de ser eu
pra ser (re)feita de nós
fisgados
como o meu peito.


Como evitaria ser tua, nua e lúcida
ainda que me fosse opcional,
se são tuas as mãos que me folgam todo o peso de viver?


Quero muito e peço pouco,
pra começar bem devagar
a divagar a boca nas prisões feitas de carne.
Abrir poros até os ossos,
que sustentam o cativeiro do teu corpo.


Pra atravessar tuas esquinas
não foi preciso olhar pros lados,
já reservada a diretriz.


Sigo teus sinais
revestida da vida que me cabia,
desprendida de resistências ou objeções.
Depois de desencontros infiltrados e ironias a fio,
resgatei nosso começo
pra que existisse um meio
de riscar os fins.


Flerto os mesmos olhos castanhos que iluminam meus escuros.
abarrotados dos sonhos
que guardei em segurança.

Dilatados de vontades embaladas pra presente,
contendo formas renováveis
do mesmo amor
pra gente usar.




Saudade tem nome, endereço e telefone.

2013-04-04T01:34:11.032-07:00

Para  Ronny, com imenso e genuíno amor.''Que canto há de cantar o indefinível?O toque sem tocar, o olhar sem verA alma, amor, entrelaçada dos indescritíveis.Como te amar, sem nunca merecer?Amar o perecível,o nada,o pó,é sempre despedir-se.''(Hilda Hilst)''Os meses passaram e me levaram a poesia'', foi o que pensei por ter ficado tanto tempo estacionada nessa quase certeza, digo ''quase'' pelo pavor desse furto, do meu descuido em ser menos gente e mais verdade e por querer tanto que o quase desaparecesse logo e me deixasse de uma vez, só com as palavras na sala, soltas comigo pra ver o que podia acontecer. Digo ''quase'' por ter te escrito aquela  carta e chorado, desejado teu bem e um abraço que me fizesse lembrar.O sal da despedida me trouxe o gosto da tua vida, sempre tão vizinha da minha, já se mudando daqui.  Saí do teu abraço pra me retornar e ter absoluta certeza de que não fui violada, talvez seja melhor afirmar que a poesia ficou adormecida nessa linha entre a sensibilidade das situações e a nossa dificuldade em (trans)passar por cada uma delas, na sutileza em recusar o novo ou em perceber que nossas pernas se esticam em passos opostos e, às vezes, impossíveis de acompanhar.O fato de ter pegado nas tuas mãos de menina e ser compelida a soltá-las enquanto mulher, me dói até agora feito um papel que me corta as peles. Abri aspas na confusão, respirei fundo e escrevi pra esquecer das distâncias. Pinto sempre a gente na memória, só que hoje achei melhor fazer assim, pra (re)lembrar quão valiosos são os registros e a amplitude dos limites que a gente ainda pode desbancar.Meu despreparo surge quase irreparável, intimidado pelas ausências, carente de aceitação. Pelo visto vou mesmo ter que me ajustar com a impossibilidade de encontros ocasionais, treinar a rotina sem incluir o ''te ver a qualquer hora na rua de trás'', mesmo sabendo que ainda vou passar várias vezes por lá, de olhos compridos, coração nas mãos e cabeça na lua, por não ter caído a ficha nessas condições.Ser ciente da obrigação de ir e querer continuar no mesmo lugar, ter o corpo inteiro do lado de lá e, ainda assim, continuar pulsando o coração aqui. Das minhas inúmeras definições de saudade, nenhuma  cabe ou se aproxima da gente, talvez funcionem  no máximo como um aceno, perto dessa coisa sem nome ou reprise, que é o privilégio de se torturar com recordações por ter vivido tão bem.[...]



Árida

2013-01-04T15:12:25.601-08:00




Tenho certeza de que, nos intervalos entre um dia e outro, deixei meu texto adormecer. Coloquei em mim tão fundo, como quem baixa a guarda e dá permissão. O medo passa e rumina a vida, empurra o tempo e engole o mundo. Já não sobra nada, além de velar palavras, até que o peso da existência rompa o fio que a memória sustenta. Suspendi inconsciente todas as formas de expressão, num varal de ideias que tomei por secas, um corpo todo de palavras mortas, golpeadas pelo tempo.

Nunca soube digerir isso da forma mais sensata, tudo que passa por mim demora a ser processado, acho que meu coração mastiga muito devagar. Desde que me entendo, me desmistifico, dei pra reunir em mim todas as complicações do mundo, míope de beleza ou explicação. Queria estabelecer um ponto fixo pra alcançar,  sem ter que chegar no de interrogação, sem ter que lidar com a carência de gestos, pequenos ou grandes, demorados ou não, mas irrevogavelmente significativos.

Do gesto errado à omissão, são dois extremos. Um passo comum e iminente ao erro, embalado por uma consciência sempre ignorante ao pavor da expressão. É a falta de conhecimento que traga a tentativa, frustrando todo e qualquer esclarecimento, extinguindo futuros gestos, secando todos os poços. No caminho olho uma pedra e já não vejo nada além dela, respiro imersa nessas tristezas que não interessam aos jornais. Me engravido do que falar e aborto logo em seguida, todo esse ceticismo poético me aborrece demais.

Fico no aguardo de aprender a viver e quanto mais vivo, menos sei de tudo. Quero imenso aquele amor pra mitigar meu cansaço, mas ando tão seca pra me derramar assim, por cima das vontades dos outros. Se eu mesma estou alheia, sem sequer saber levar minha palavra pra passear do lado de fora das frases, como então esperar que alguém consiga depositar suas esperas em mim?



Minhas anotações bagunçadas de saudade.

2012-11-14T22:11:14.151-08:00

Dobrando papéis                                                 pra poupar minhas unhas, de tão roídas que estão.              Só.                    Pra driblar os dias em que não te vejo.                           Encontrar distração e não morrer de amor, daqui pro final da semana.   Daqui pros teus olhos é um pulo.                                                                                                 Nos teus braços.    Quase um absurdo,                                      como dissertar sobre um tiro no escuro que deu certo demais.                                                                                                                                       Proximidade distante.      Já que meu coração é tua casa                                                                                                                e o que nos separa são dois quarteirões. [...]



Das coisas que deveria dizer, antes de te ver ir embora.

2012-10-19T12:31:13.786-07:00





Talvez eu não queira me acomodar, mas como agir diante do conforto da minha solidão macia, de menina com voz de silêncio abafado, com bafo de mofo que repele os outros até quando não quer? Peço licença, pois se me inclino é pra alcançar as palavras que ainda me são esquivas. Na danação da minha vida, escapam escorregadias através dos dedos. Se me falta papel, me sobram as entraves ao tentar dizer. Até movimento os músculos orofaciais, mas o gelado da língua afundada na boca não favorece a tentativa. Naufragam todas as minhas falas, quando teus olhos, teimosos que são, ancoram nos meus.

De que outra forma evidenciaria, que meu coração sedado pelas tuas chegadas, vai te gritando rouco por todos os cantos da cidade, enquanto resiste roto pelas tuas esperas? Me aguarda o amor, e junto com ele o pavor da vulnerabilidade. Mas se nenhuma espera é vã, então devo mesmo é guardar o pavor pra mais tarde, pra uma outra ocasionalidade, ao invés de atirá-lo violento pra dentro dos teus braços, espatifando futuros abraços, como quem não quer amor nenhum. Sou toda ao contrário, por isso tenho procurado contornar os meus avessos, como quem ensaia na frente do espelho, um apelo mudo pra não te fazer desistir.

Tantos anos esperando a boca, que me tirasse o gosto de palavra que se perdeu. Só quem prova sabe, quão trabalhoso é tirar o azedo de papilas gustativas habituadas à ilusão. Depois de todo esse esforço, agora que (re)encontro teu gosto, ainda me faço de tola, pra depois soltar reclamações sobre o pavor em te perder. Contraditória, a mesma mente que trabalha na tentativa de ser concisa, ativa no corpo o modo de saudade de arder junto ao teu.

Ainda é cedo, encosto a cabeça no teu seio esquerdo. No que permaneço com o nariz sob teu queixo, te sinto respirar como quem gostaria de inalar todo o ar dos teus pulmões. Passado o descontentamento, transponho meus olhos das brigas tão comuns, experimentando uma felicidade maciça, talvez masoquista, de quem admite o gozo no deletério do amor. Acreditando que posso tentar te ensinar a procurar minhas vontades escondidas, por detrás dessas constantes mudanças de humor.







Tua carta.

2012-09-30T09:26:21.689-07:00






Enquanto te escrevo já não me escapo, não existe nenhum espaço onde eu possa caber, tamanha a vergonha iminente de te fazer infeliz. Quem me dera  rasgar as palavras suspensas latejando em ti, usando caneta, papel e cola. Grudar uma aquarela nos intervalos de nós dois, pra em seguida retirar o cinza das palavras inflamadas. Por isso sigo encostada no papel, pra não correr o risco de nos tropeçar falando. Sem modos de te pedir favores, ainda me atrevo a nos arredar com calma pro amor passar, carregando todo o peso da memória e levando nosso cansaço pra passear, só mais essa vez.


Antes, talvez, existisse o susto. A insistência alva dessa tua imagem pregada, na parede negra dos meus olhos fechados.  Sim, digo ''antes'' porque o agora é outro, os anos bem que podem ser de ouro, amor, se a gente quiser. Só mais dois dedos cruzados de paciência, nessa nossa mistura, e podemos nos danar a mexer. Pra sair do fundo desses meus deslizes de final de mês, do meu pecado-desmaiado-de-te-machucar-sem-querer.


O mundo contido dessa cidade não me desce, nada aqui me percorre ou invade. É um ovo, quente e hostil. Estamos todos fritos. Me viro de novo. Onde quer que lance meus olhos, eles acabam em cima dos teus. Naquele eterno cabo de guerra entre te procurar ou não, posso concluir que jamais se trata de ''qual devo escolher''. Não tenho escolha alguma. Desde que te conheci, deixei meu brio na porta e entrei.


Não paro pra pensar porque durmo e acordo já pensando, o difícil mesmo é conseguir desviar o fluxo do mar de pensamentos. Pra evitar o afogamento, fiz pequenos barcos de papel. Distâncias reais me atormentam, em igual proporção que palavras mal proferidas me ferem, mesmo saídas de mim. Por isso  (re)li meus escritos e tudo o que foi dito, repetidas vezes. Com os olhos salgados de esperar os teus.


E por falar nisso, vovó me disse mais cedo que de salgado basta o suor, a gente tem que ir se adoçando como pode e quem não pode se sacode, porque Deus perdoa quem erra por amor.



































Tem um grito desvelado de saudade no meio dos meus erros,
será que dá pra escutar daí?






Palavras (des)dobradas.

2012-08-30T02:32:36.196-07:00








E o que me importa encostar na palavra vizinha, se o esbarro não for proposital?
E se for, amor?
Quanto será que nos custa o atrevimento de esbarrar?
Pra quem mesmo que importa?
Será um (des)caminho soltar esse sim no nosso quintal?

O que será que tem de errado nos meus olhos de cansaço,
por nunca terem deixado, de caçar palavra no castanho lar dos teus?

Os anos atropelaram expectativas passadas,
e o nosso amor escapou na contramão.
São e salvo, desencadeando uma série de (des)encontros, até aqui.
Teus olhos desencardem as máculas espalhadas na minha sala-de-estar-só.

Haviam crostas de poeira e exaustão, da minha mesa até a cabeceira,
antes da proximidade das tuas mãos.
Antes da tua respiração se confundir com a minha,
e conseguir aspirar velhos medos entocados.

Chegou há tanto tempo, ainda vivo e escancarado esse nosso amor.
Ficou sem pressa, sem ter pavor, de conhecer esses úmidos porões trancados.
Fazendo questão de encontrar as chaves perdidas na bagunça que sou eu.

A vontade que a gente calça é suficiente pra andar além da calçada,
sem receio de sair pisando nos dias mais sem graças.
Esticar os dois cantos da boca que quer ficar grudada na tua,
sem se importar com a ponta da língua cortante de quem só sabe falar mal.
E continuo a dizer baixinho, no pé do teu ouvido,
tudo quanto sei que gostas de ouvir.
Só um aviso aos que se recolhem dentro de si:
O amor é mais do que se acomodar por auto proteção.

Acho que preciso de um quarteirão inteiro de paredes brancas,
pra rabiscar todos os versos que guardei pra nós.
Tenho colecionado notas mentais.
Tudo tem pulsado, desde a hora que acordo até a hora em que vou dormir.
Não deve ser nada grave, mas toma conta de mim.

Parece até jura um por um dos teus modos,
desde o teu andar até teus olhos.
O desequilíbrio que me causa sustentar meu próprio corpo,
só pra te ter como desculpa, te fazer me segurar por mim.

Eles dizem que jurar é pecado,
mas continuo jurando por tudo o que for mais sagrado.
Ainda caço qualquer palavra que caiba entre as peles,
faço relicário na ponta do abismo de existir.
O perecível vai embalar cada letra no comprido do tempo,
com pretensão de nos guardar.
Perpetuar o espaço cuidado da minha vida na tua.
Sem obrigação de ter sentindo.
Sem amarras porque voa.
Sendo mais continuidade e menos fim.



Na rua da saudade não existe contramão.

2012-08-11T12:59:33.680-07:00





Tô naqueles dias de revirar arquivos infinitivamente pessoais.
Remexendo o misto de saudade e amor,
Pra ver se consigo dissolver a falta que fica no fundo.
Essa falta que acho ser de pedra.

(Re)ver sorrisos divididos, caretas, 
birras e choros de felicidade ou não.
Tudo assim, congelado.
Mas nunca frio.
Pra que ainda possa nos esquentar por dentro, só de lembrar.
Caber no tempo.
Até porque ainda tem muito amor pra colocar lá dentro.
E a gente sabe que amor nunca pode ser demais.

Nos intervalos apressados entre um ano e outro,
o salto do consolo é a certeza de que a gente ainda se tem.
E ainda dizem que a única certeza que se tem na vida é a morte.
Se for mesmo assim, tenho duas.
Sou sortuda, sempre achei.

Guardo nossa presença com gosto de sorvete,
numa caixa de cartas e flores azuis.
Onde me trouxeram pelúcias e um gato.
Naquele aniversário, 
acho que nunca fui tão feliz.

Continuo cabeça dura de coração mole.
Mania de guardar detalhes.
Basta ler pra saber.
A diferença é que agora aprendi a assumir.
Encontrei nossas memórias acordadas num mundo que não cabe em caixas. 
E saí correndo pra escrever aqui.

Estamos sempre a um telefonema de distância.
Mensagens no meio da madrugada.
Visitas cada vez mais raras,
Encontros em que sempre tem um que vai faltar.
Palavras soltas giram ao redor da minha boca.
Fico tonta com tanta coisa que tinha pra contar.
E só um pensamento me ocorre.
O que seria o espaço entre dois pontos,
pra quem se cruza por acaso no meio da rua,
como quem nunca deixou de se ver todas as manhãs?



Ainda assim.

2012-06-13T19:14:39.037-07:00




Sabe, uma vez ouvi mamãe dizendo que crescer tem um pouco disso, da gente começar a esticar e perder muito do que antes tinha. Lembro dela dizendo como o preço de tudo aumenta e com ele o tanto que a gente tem que pagar (em todos os sentidos que possam existir), que ser adulto é ter que aprender a se contentar. Não sei dizer quantos anos tinha, mas foi antes do meu irmão nascer.


Mas desde muito antes também, eu sei que ela sabia, que nenhuma diferença fazia, porque nada do que ela dissesse iria me convencer. Que sou assim desde o berço, a personificação do desassossego, com inclinamento pra todos os lados que não deveria ter.


De qualquer forma fico lembrando, do modo que nós duas achávamos que iria passar, que era coisa de vó que acostuma os netos mal, faz todas as vontades, tipo mãe com açúcar pra adoçar a vida na época em que nem azeda é.


Acredito que fizemos de tudo um pouco com o andar dos anos,  teve uma tarde que até na grama da praça deitamos, e ela brincou comigo dizendo que via de regra as coisas são como nuvens, porque passam. E olha só, nem passou.


Depois disso ela nem precisou dizer nada, acho que agora ela sabe que tem filho que nasce do lado contrário do que a gente é. Que tem pessoas que tem mania de insistir no que geralmente pode dar errado,  provando que pode ser que dê certo pelo menos dessa vez. E caso não dê mesmo certo, o jeito é sugar até a última gota de sangue da porrada que a vida te deu, pegar o rumo de casa e ouvir dela um ''eu te avisei'', sossegar, se recuperar e seguir. O negócio é tentar, mesmo que a trilha seja acabar retornando.


 Eu sei que nem sempre a gente pode fazer o que tem vontade, e isso já virou até um cliché, mas se doar pro que for nunca pode ser demais. Eu digo isso em voz alta, ela me puxa pra sala e me dá um daqueles conselhos-de-quem-só-quer-me-ver-bem, diz que eu sou nova demais pra sentir tanto assim, que eu deveria usar a cabeça tanto quanto uso o coração. É ela que dá o consolo do choro, me tira do poço mais fundo e com as mãos consegue me tirar da ciranda louca que é esse mundo, quando sinto cansaço por brincar de rodar.


E até hoje a gente tem dessa, de se surpreender, eu comigo, ela sozinha, nós duas juntas na cozinha cor de xadrez. Cometemos erros diferentes em situações diferentes, mas aprendemos do mesmo jeito. Eu sendo aos extremos, ela não. Tem vezes que o descaminho é tanto que a gente acaba estacionando a vontade de ir adiante em qualquer lugar por aí, deixa assim  empoeirando, a Deus dará pelos quatro cantos da casa.


No fundo vovó e eu achamos que foi por isso mesmo que nasci, pra tirar toda a poeira dos dias em que ela usou bem mais a razão.




Não tem mesmo jeito.

2012-06-11T11:31:04.967-07:00




Reconheço pelo cheiro, gosto, gesto.
Tato, olfato e paladar.
Um vôo interno, por todos os sentidos que você me faz querer usar.

Segura assim, como agora, com amor e zelo o que te entrego.
Que nunca é tarde demais pros que sabem sentir.
Que é frágil demais pra gente querer fugir.
Corre o risco de deixar cair o que se tem nas mãos.

Entende, que teus olhos me viram do avesso.
Que nas tuas paredes quero atar uma rede, pra poder descansar.

Me lê, me sente, antes que a gente corra o risco de se perder.
Outra vez.

Segura aqui, te prometo, é a última coisa que me atrevo a pedir.
Tô na beirada do precipício que é sentir, quase caindo, na ponta dos pés.


Eu sei, já fazem tantos anos que a gente nem sabe mais contar.
No fundo a gente se tem, sem necessidade de gritar por certeza,
sem ter que sair à procura de afirmação.

Só.
Sei que ainda sinto,
essa coisa que se alastra bem dentro, todas as vezes que vens até mim.

Esse formigamento adolescente,
que me faz querer jurar por tudo o que é mais sagrado
que um dia desses, em qualquer horário, vou morrer de amor.



Entenda.

2012-05-30T10:08:04.824-07:00

Amor não é uma espécie de autoajuda.
Amor te fode, te lasca.
Mastiga ossos e retinas.
Suja nomes e lençóis.

Entra vestido em contradição.
O mesmo amor que te maltrata.
Também te lambe a alma, os pêlos, a carne.
Te faz querer viver, te desata.
Te faz ser tão melhor.



Acentuando presentes com pontos finais pra libertar.

2012-05-28T10:20:26.357-07:00





Escrevi na tua cara, por detrás de toda a capa que a gente insiste em fazer:

''Você e eu
João e Maria
Zé e ninguém
Sem a parte da fantasia 


História sem pé pra começo nem cuca pro fim
Coisa mais cansativa
Uma canção que já não faz nem boi dormir.''

Eu sei, você vai revirar os olhos, sair fora sem se despedir.
Dizer que o amor é esse absurdo.
Se jogar em outros braços, pixar afeto em outros muros que é pra todo mundo ver.
O quanto o tempo nos devora,  te muda, entorta.
De dentro pra fora te impedindo de crescer.
Camuflando nossos sentidos, fingindo subverter.

Pra mim já não cabe a espera vã, dessa nossa eterna novela.
Entra e sai de anos.
Desencontro de nós dois.


Amanheci sem querer te esperar provar o mundo num só gozo.
Sem ter que te segurar na queda das tuas inquietações.

Eu sei, vai dizer que é carma.
Querer fazer cena, dizer que não vale a pena, partir ao meio o meu coração.
Vais ser não quem és, mas quem achas mais viável ser.
Se aproximar aos poucos e sussurar assim:
''Meu bem você é rosa, as outras eram manjericão.''

Engula todas as frases decoradas, que ja não vejo verdade em mais nada.
Em nenhum canto das tuas palavras, em nada que saia de ti.

Eu sei, vai me chamar de hipócrita, pegar as coisas que esqueceu aqui.
Ir embora de uma vez por todas.
Beber em algum canto com gente que não conheci.
Vai se encher de prazeres agudos.
Voltar com a alma rasgada e esquecer que existi.


Da boca que te beijava, hoje salta toda a palavra que te corta e te afaga.
Te aproxima e te afasta, te faz oscilar em procurar saber de mim.


Talvez o sossego finalmente venha sem meu dia pra encostar no teu.
Deixar o tempo devorar a carne dura do passado,
e torcer pra que ele faça a digestão.












Guardo

2012-05-07T22:48:04.220-07:00





Gravei teu cheiro e teus olhos,
falando das feridas que a gente não cuida.
Das coisas que a gente não diz.
E você foi a-coisa-mais-especial-que-quase-me-aconteceu.
Das poucas coisas que sei.
Só.
Sei que devia ter falado contigo antes daquele Natal.
E quantas outras coisas a gente deve e não paga?
A gente quer e não faz?


Embrulhei o coração pra presente sem cartão nenhum.
Enderecei assim:  ''Pra ninguém abrir''

Joguei sujo nas escolhas.
Fiz do tempo um muro e me escondi.
Extraviei meu pensamento pra escapar do teu.
Te deixar passar.
Sem reagir.
Quis esquecer.
Sumir.


Tanto que fiz e me arrependo.
Ter me jogado nos braços,
de quem só me fez colecionar cansaços.
Tantos anos gastos,
que às vezes acho que esgotei do amor que era pra ti.
Que era pra ter sido contigo,
aquilo tudo e mais um pouco que eu vivi.
Mas entre nós não há culpados.
Porque ''nós'' talvez não há.




Me diz se é  possível continuar amando antes de sequer saber que sabia/podia/queria amar?



Só.
Acho que ainda quero.
Do lado certo.
Sem ser do avesso.
Pra ser melhor.
Pra ser de vez.



Da natureza encharcada de erros.

2012-05-06T15:29:39.506-07:00




Dias cinzas,
ontem quase comprei tinta
na tentativa de nos colorir.

Cadê que eu sei pintar?
Cadê que eu sei me despedir?

O tropeço da tentativa.
O frio da distância como o abismo entre o calor dos corpos.
Congela, te rompe e esmaga todas as possibilidades de aproximação.
Todos os vícios amenizando a dor, como válvula de escape ao avesso.
Nossa saída imaginária do cativeiro que nós somos.

Pior do que a ressaca é o gosto amargo da palavra não dita,
é o pulo do gato que a gente dá por não querer tentar.
O comodismo, que gruda como limo se a gente deixar.
O nó que o erro dá nos teus sapatos, te impedindo de andar.
É a falta de crédito em si e nos outros.
Falta de pulso, mergulhada  na hipocrisia maior de julgar os erros todos.

Cadê os olhos mansos de quem me aceitava,
antes da descoberta óbvia de que tambem posso errar?
Cadê a palavra que eu guardei todo esse tempo pra aprender a usar?

Escorre aos litros a falta,
só um pingo de vontade de ser humana.
Hipócrita, racio anal, crua,  insana.

Lá fora choveu saudade, de manhã até a tarde
e eu saí de guarda chuva, só pra não ter que me molhar.



Em banho-maria.

2012-05-06T15:28:16.529-07:00

 
 
Então vem, me canta qualquer coisa bonita, me cuida, me abriga.
Abre esses braços por detrás de mim,
me cobre inteira desse teu cheiro pra grudar no meu.
Aproveita enquanto cai a tarde e ainda não chove,
tira uma fotografia comigo na sombra dos teus olhos.
Me eterniza assim, distante e fria,
ao lado da janela daquela cozinha,
onde a gente já cansou de se cozinhar.



Dois sóis.

2012-02-22T22:12:09.351-08:00




Precisava te escrever, não só porque hoje faz um mês de sol dentro de nós, mas também pra deixar registrado que ontem foi um dia um bocado bonito. Tu sempre vens e me adoças como podes e aos pouquinhos vais me tirando o gosto amargo impregnado no céu da boca que viver tem me deixado. Contigo qualquer coisa fica mais doce aliás, tens essa coisa que faz a gente ir aguçando as papilas gustativas sem receio, provocando aquele desejo de provar sempre um pouco de tudo. E (re)viver de repente passa a ter  gosto de sonho, ganha um sabor agridoce viciante que o ato rotineiro de sonhar contem, e espantosamente vamos nos  permitindo, com cuidado diluindo aquelas incertezas uma a uma e deixando que fique aqui em nosso meio somente aquilo que possa vigorar.  É rapaz, querendo ou não é exatamente essa pontinha de desejo e gosto pela vida que vem (re)aparecendo  quase que  imperceptivel através de algo ou alguém, e quando a gente menos espera se torna maior do que nós mesmos, maior até mesmo que os prédios que se levantam rígidos no centro da cidade. E isso tudo se intensifica ainda mais quando há aquela unificação tão significativa em que um vira complemento do outro, em que o que era dois se resume em um.  

Vê bem,  és essa parte considerável de mim que eu achei ter perdido no meio do caminho, a perda que eu me orgulho em não ter permitido acontecer, eu era tão cheia de ‘achismos’ e coisas desnecessárias, e a falta de afeto que eu achava não sentir me empurrou atras daquilo que a gente sente que vai vigorar, porque o que é pra ser vigora. Que bom que ainda te tenho ao meu alcance, que bom que me vens e me preenches e me fazes querer abrir um riso sem sombra alguma de dúvidas, livre de qualquer simulacro, esse sorriso desajeitado, arreganhar de dentes que ecoa sempre verdadeiro assim como essa imensidão de coisas tão maravilhosas que eu desejo pra ti e pra nós ao mesmo tempo naquela unificação de sermos complemento um do outro. Eu só queria te fazer lembrar mais esta vez que somos esse gosto doce, somos essa saudade que não cessa, a sede de vida com gosto de quem dorme e sonha, adiando e se salvando por alguns instantes. Somos essas duas vidas que se preenchem sem nenhum esforço, dando braçadas pra não se afogar no comodismo, duas vidas que se tocam e se recolhem no calor de uma só.

Para sempre tua,

Giovanna M.



Mur de vos yeux

2012-01-30T17:38:06.410-08:00



Desligamos,
você de lá e eu daqui,
mas ainda assim restavam promessas de sonhos sinônimos.
Sobravam nossos cheiros tão invasivos,
tomando conta de todos os cômodos.

Nossas mãos que se procuram distantes,
na tentativa de ir guardando o que somos.
O caso é que não nos desligamos inteiramente,
somos feitos de carne, pecado louco de sombra e de luz.
Com as mesmas mãos que nos tocamos e nos recolhemos,
recebemos os toques de milhares de outros que não somos nós, e sabemos.

Somos apalpados continuamente pelo mesmo amor que eles dizem ser cego,
mas que sei que consigo ver e ser vista, todo o santo dia,
na parede clara do teu par de olhos.