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ardotempo - SAPO Blogs



Last Build Date: Fri, 24 Feb 2012 06:17:27 GMT

 



Tempo em que os blogs estavam na moda

Fri, 24 Feb 2012 06:08:37 GMT

Los viejos blogueros nunca mueren   Enrique Vila-Matas   “Me acuerdo de los gorros tipo Davy Crockett, y de cuando todo era Davy Crockett por aquí y Davy Crockett por allá”, leo en el libro que Joe Brainard dedicó a sus recuerdos. Si un día me propusiera abordar los míos, empezaría así: “Me acuerdo de Internet”.   Y es que han pasado sólo once años desde que los ordenadores cambiaron mis hábitos, pero tengo la impresión de que han transcurrido muchísimos más. Me acuerdo de cuando los blogs estaban de moda. Después, Facebook y Twitter los fueron arrinconando, aunque algunos de ellos, como Vano oficio (Ivan Thays) o el tan justamente célebre El lamento de Portnoy (Javier Avilés), mantienen intactos su interés. En su último post, Avilés cita una entrada de Rango finito (Javier Moreno), que comenta el problema creado por el uso generalizado de las redes sociales: entre unas y otras han logrado que disminuyan el número de enlaces entre blogs y, por consiguiente, que se contraiga el contenido en la Red.   Son los propios blogueros quienes están haciendo que el dinámico entramado de la Red que les unía sea cada vez más débil. Y es que los enlaces en las redes sociales no sólo tienen ahí una permanencia fugaz, sino que, además, no generan contenido dentro de Internet, ya que son obviados por los buscadores.   Es curioso: creíamos que Internet era un lugar temible para la calidad literaria y ahora incluso añoramos la antigua pujanza de los enlaces y contenidos de los blogs. En todo caso, los mejores resisten.   El lamento de Portnoy se vale de su comentario sobre la caída bloguera para crear nuevos vínculos. “Es evidente que este post pretende generar enlaces y contenido”, dice Avilés alias Portnoy. Y conecta conBolmangani, blog que en su entrada del 10 de febrero ofrece, en traducción de Jose Luis Amores, el prólogo a The novel, an alternative history, libro de Steven Moore donde se ensalza a la “literatura de la dificultad” (o de la complejidad) y se arremete “contra la estrechez de miras de los Myers, Peck y Franzen, defensores de la historia estándar del género de la novela”.   Podremos estar de acuerdo o no con la embestida, pero el prólogo de Moore es interesante. Para él, “todos los desarrollos significativos en nuestra historia cósmica” pueden verse como saltos hacia nuevos niveles de complejidad. Y se acuerda de cuando los Beatles lanzaron Sgt. Pepper´s Lonely Hearts Club Band y hubo quienes criticaron la irrupción de la complejidad en las canciones del grupo. Moore se plantea si los Beatles, de haberse atascado en su simpleza inicial, serían los iconos culturales de ahora.   Dado que hasta los fans más antiguos aplaudieron la evolución del grupo, se pregunta también por qué a los autores literarios no se les ha permitido lo mismo que a los músicos pop. ¿Por qué, por ejemplo, se vapuleó tanto a Joyce por haber intentado ir de Dublineses hasta Finnegans Wake? Me ha parecido que Moore no contempla que se pueda evolucionar a la inversa, es decir, la llamada “innovación anacrónica”. Pero creo que en el fondo su escritura, tan deliberadamente legible, entrevé que sólo se puede renovar con eficacia la narrativa reformándola con gran paciencia desde dentro (“¡Pero muy ligeramente! Porque si te pasas, caes en el gran error, ¿no es así?”, decía Céline).   Por mi parte, me siento próximo a este estilo de renovación, aunque entiendo que no hay ninguno que posea la fórmula perfecta. Tal vez en todo esto una sola certeza: el ensayo de Moore habla en realidad de temas muy habituales en nuestros blogs más activos, plantea dilemas que históricamente han sido centrales en ellos. Dilemas en los que el tenso diálogo entre lo convencional y lo supuestamente nuevo ha dado siempre gran variedad de ideas y enlaces. Y un cierto heroísmo cotidiano. La leyenda dice que los grandes blogueros llevan siempre las botas puestas.   Enrique Vila-Matas [...]



Mito é a palavra

Sun, 12 Feb 2012 13:09:20 GMT

Olhos no bastidor do jogo   Luiz Zanin Oricchio - O Estado de São Paulo   Você vai ao Museu do Futebol cheio de paixão e sai de lá repleto de perguntas, o que não quer dizer que o amor pelo seu clube ou pelo jogo tenha diminuído. Pelo contrário. Talvez apenas tenha ficado mais complexo e rico. É essa a intenção de um museu que se deseja antipedagógico e, com desculpas pela da contradição, muito pouco museológico. É assim que o espectador deve se postar diante da exposição temporária Vestiário, que será inaugurada na terça-feira, às 19h30.     Com espanto, aberto a um olhar fresco e a uma nova perspectiva em relação ao esporte que ele crê conhecer tão bem. A exposição consta de 56 fotos de Gilberto Perin e 28 obras do artista plástico Felipe Barbosa, que dialogam com a técnica de video mapping do VJ Spetto. Isso quer dizer que esse espaço íntimo, os vestiários dos clubes de futebol, recebem não um tratamento realista, ou jornalístico, mas uma interpretação artística, que permite ao público vislumbrá-lo como espaço mítico. Mito é a palavra.   Como diz o curador Leonel Kaz, "trabalhamos aqui como no filme de John Ford, O Homem Que Matou o Facínora, no qual se a lenda é melhor que a realidade, que se imprima a lenda". Qual a melhor maneira de abordar essa lenda?   Não poderia ser de maneira tradicional. E, de fato, não se trata de uma exposição como outras, mas visa levar o espectador a uma experiência desse espaço exclusivo do mundo do futebol, onde muitas vezes se decide a vitória ou a derrota, que é o vestiário. As fotos de Perin seriam como o aspecto mais palpável desse "espaço sagrado" do futebol, ao qual apenas os jogadores e o técnico têm acesso. As obras do artista plástico Felipe Barbosa, compostas por bolas, chuteiras, caneleiras e outros utensílios do mundo do jogo, dispostos em forma de instalação que reproduz os armários de um vestiário, enfatizam o caráter um tanto lúdico do espaço. Assim como essa impressão fica acentuada pelas animações criadas por Spetto em computador e que serão projetadas em cima das obras dos outros artistas e nas paredes da Sala Osmar Santos, onde está montada a exposição que deve ficar em cartaz por cerca de cinco meses.   Essas três modalidades de percepção - as fotos, as instalações, os vídeos - são conjugadas de modo a proporcionar uma experiência única ao visitante. "Uma das sacadas da exposição é essa articulação entre três artes, fotografia, mapping e artes plásticas, que, sobrepostas, permitem trazer alguns dos imaginários que flutuam em torno do espaço íntimo do vestiário", diz Clara Azevedo, diretora de conteúdo do museu. De fato, cada uma dessas modalidades se articula com a outra, como numa jogada bem urdida de um grande time. Tudo para sugerir, de maneira poética, o que é indevassável por definição e constitui, ainda, o último reduto intransponível do futebol em meio à sociedade do espetáculo e sua vocação de tudo mostrar e transformar em show. O espaço mais escondido, o vestiário, é o que pode revelar mais a fundo a natureza do esporte. Se hoje ele é tão profissional, tão mercantilizado e pragmático, é no vestiário que seus aspectos mais essenciais se revelam. A coesão do grupo é enfatizada nos gritos de guerra, nas rodinhas de incentivo mútuo e nas palavras do "professor".       Mas há também espaço para as crenças, para velas acesas, ramos de arruda atrás da orelha, imagens de devoção. Conta-se que, no vestiário do Santos, todos os ruídos cessavam um pouco antes do início do jogo, quando Pelé, já inteiramente paramentado com seu uniforme, meias e chuteiras, se estendia sobre um banco, cobria o rosto com uma toalha e permanecia alguns minutos em silêncio. O que fazia? Tirava um pequeno cochilo antes da partida decisiva? Rezaria uma prece? Pensaria no adversário, na tática a ser empregada para vencê-lo? Ou apenas buscaria seu vazio interior, aquele silêncio de paz que o preparava para o jogo? Nun[...]



Grande Exposição no Museu do Futebol - São Paulo

Sun, 12 Feb 2012 00:12:39 GMT

Dia 14 de fevereiro - 19h30 horas - Estádio do Pacaembu - Praça Charles Miller, s/nº

Abertura da mostra de Fotografias de Gilberto Perin

Livro: CAMISA BRASILEIRA - Imagens dos bastidores do futebol

 

VESTIÁRIO

 

 




A utilidade misteriosa

Sun, 12 Feb 2012 00:08:55 GMT

Lo moderno   Enrique Vila-Matas   "Hay que ser absolutamente moderno”, dijo Rimbaud. Y siglo y medio después sufrimos aún las consecuencias. Esa frase, además de intimidatoria, comenta Calasso en La Folie Baudelaire, ha dejado innumerables víctimas, numerosos “escritores con frecuencia mediocres, pero decididos a todo, con tal de seguir la consigna de lo que los había cegado”.   En los últimos tiempos recibimos noticia constante de gente no consciente de que de nada sirve que sean ellos mismos quienes digan que son innovadores, pues a la larga, si son revolucionarios o tecnoplastas, lo habrá de juzgar el digital tribunal del tiempo, siempre implacable.   Dickens o Kafka nunca presumieron de cambiar la historia de la literatura ni la historia de nada y sin embargo la cambiaron. Es una prueba de que para transformarla no se necesita ir vestido al último grito. El futurista Julien Gaul presumió de ponerlo todo patas arriba y hoy nadie le recuerda. Si mi generación murió de Thomas Bernhard, algunos sectores de las siguientes van camino de asfixiarse de tanta pesadez, inercia y opacidad del mundo que se adhiere a la escritura de sus campanudos teóricos de lo nuevo.   En su momento, solo Baudelaire estuvo a la altura de las circunstancias y quizás por eso hoy es el único moderno que no nos parece anticuado. Brummell nos enseñó que la cumbre de la elegancia es la “simplicidad absoluta”. Y Baudelaire que la modernidad máxima se alcanza no siendo moderno y limitándose uno a aborrecer el movimiento interno del mundo en el que vive, aunque reconociéndole una “utilidad misteriosa”.   De hecho, la revolución de Baudelaire, sugiere Calasso, fue de carácter “conservador”. Baudelaire había leído a Joseph de Maistre y a Chateaubriand, y de ellos aprendió, como ha escrito Christopher Domínguez Michael, “el secreto de la innovación anacrónica, la capacidad de traducir aquello que parece provenir de una lengua muerta”. De hecho, mentalmente, fue más fiel al pintor Ingres y a la Edad Media que al romántico Delacroix.   Y no puede decirse que teorizara demasiado sobre la modernidad, más bien buscó averiguar su esencia, aislarla como elemento químico, registrar el peculiar, incesante bramido nervioso que la corroía y exaltaba desde siempre. No la leyenda de los siglos, sino la leyenda del instante, en su volatilidad precariedad; la leyenda de un presente que percibía que cada vez comunicaba más con la decadencia y el vacío. Y en el vacío, ya es sabido, siempre acaba uno topándose con algún célebre desconocido.   Un día, le mostraron a Baudelaire un fetiche africano, una pequeña cabeza monstruosa tallada en un trozo de madera por un pobre negro. “Es realmente fea”, le dijo alguien. “¡Cuidado!”, dijo él, inquieto. “¡Podría ser el verdadero Dios!”.   En la última página de La Folie Baudelaire (Anagrama, excelente traducción de Edgardo Dobry), en la descripción de un instante, Calasso parece apresar el secreto de “la innovación anacrónica” y la estremecedora y verdadera índole de lo moderno: “El rumor continuo de los troncos cayendo sobre el empedrado de los patios. Eran descargados de las carretas, casa por casa, ante la inminencia del frío. La leña cae al suelo y anuncia el invierno. Baudelaire vela. No tiene necesidad de ninguna otra cosa que no sea ese sonido, sordo, repetido…”.   Casi oímos ahí, mezclada con la caída ahogada de los leños, la laboriosa respiración del poeta ante el invierno. Baudelaire vela y se prepara para escribir —con el nervio de su elegante simplicidad absoluta— unos versos que hoy son leyenda, pero también —por pertenecer a nuestro más rabioso y patético presente— lo más moderno que uno puede leer en estos días en los que comprobamos que nada es nuevo y todo se repite trágicamente en el incesante bramido que nos exalta desde siempre: “Escucho temblando cada tronco que cae. El patíbulo que erigen no tie[...]



A barbárie previsível

Sat, 11 Feb 2012 23:37:49 GMT

A barbárie é um mundo sem livros

 

 

Existe uma nova maneira de se queimar livros sem a utilização do fogo.

 

Um mundo sem arte, sem poesia, sem literatura, sem memória, sem cultura.

Um mundo concentrado exclusivamente no entretenimento frívolo, midiático (cada vez mais superficial, cada vez com menos palavras), no consumo demencial e na desenfreada especulação financeira, construindo um cenário idealizado em engenharia de gestão não-social que privilegia o desemprego como uma ideia de austeridade.




O que cada vez mais se parece

Sat, 11 Feb 2012 22:59:20 GMT

Tempos difíceis   João Ventura   Por estes dias, celebram-se 200 anos do nascimento de Charles Dickens, e o mundo fora dos livros, desgraçadamente, vai-se parecendo, cada vez mais, com o mesmo mundo que ele retratou em romances como David Copperfield, Oliver Twist,   Tempos Difíceis ou História de Duas Cidades, que contribuíram para a minha formação literária e de algum modo, ajudaram a moldar as minhas convicções políticas. A actualidade da sua obra pode ver-se, por exemplo, no começo de História de Duas Cidades: "Era o melhor dos tempos, era o pior dos tempos; a idade da sabedora, e também da loucura; a época das crenças e da incredulidade; a era da luz e das trevas; a primavera da esperança e o inverno do desespero".   Em Tempos Difíceis, Dickens, critica com acidez as deploráveis condições de vida dos operários ingleses e o fosso abismal que existia entre a sua vida precária e o fausto obsceno dos ricos da Inglaterra vitoriana. Nestes tempos difíceis de crise que assola a Europa, com os impostos a aumentar e os salários a diminuir, com o desemprego a disparar para números impossíveis, com sucessivos cortes nas prestações sociais dos estados, enfim, com cada vez mais amplos sectores das populações a empobrecer, e com a Grécia, seguida de Portugal - onde, de acordo, com números do Eurostat, mais de 2.500 milhões de pessoas sobrevivem em estado de pobreza e de exclusão social - e de outros países europeus, caminhando à beira do abismo para onde os sucessivos desgovernos e os especuladores financeiros nos vão empurrando, impossível não nos assombrarmos ao constatar como este romance publicado em 1854 descreve a realidade actual.   É que a obscena desigualdade entre os miseráveis lares proletários, retratados por Dickens na sua frieza, obscuridade e pobreza extremas, e as luxuosas mansões dos capitalistas da época que tratavam os seus assalariados como bestas de carga, parece reproduzir-se nestes nossos tempos difíceis em que que aos magros salários de muitos se contrapõem aos altos salários de uns tantos gestores transitados da política para as empresas e para os bancos. A única diferença entre os privilegiados dos tempos difíceis de Dickens e os privilegiados de agora, é que os de antes se chamavam utilitaristas e os de hoje são neo-liberais, e que uns se reviam em Stuart Miller e os outros revêm-se em Milton Friedman.   Vale a pena recordar um acontecimento catastrófico vivido por Dickens, num início de Verão de 1865, quando viu despenhar-se num precipício sete carruagens do comboio em que viajava. Premonitória metáfora de uma Europa, primeiro a Grécia, depois a Irlanda e Portugal e logo as restantes carruagens deste comboio europeu - sem maquinista mas com maquinadores - que hoje vai descarrilando arriscando uma queda sem fim no abismo que se abre sob o seu gasto e destravado rodado metálico.   Talvez seja, ainda, possível evitar a queda se os maquinadores que nos conduzem para a catástrofe forem capazes de imitar o mesquinho senhor Scrooge de Um conto de Natal, que ao ver o futuro sombrio anunciado pelos espíritos do Passado, do Presente e do Futuro, onde podia ver-se um túmulo com o seu epitáfio e nenhuma flor flor, soube redimir-se a tempo e converter-se num homem generoso. Uma parábola, afinal, que a senhora Merkel deveria recordar se quiser, ainda, ter remissão.   João Ventura - Publicado no blog O que cai dos dias [...]



Sem medo

Sat, 11 Feb 2012 22:24:12 GMT

Os gigantes

 

 

Gilberto Perin - Fotografia - Sem título (Uruguaiana RS Brasil), 2010




Ausência de mim mesmo em mim mesmo

Sat, 11 Feb 2012 22:07:36 GMT

Sem sofrimento nem dor   António Lobo Antunes   Ontem, a meio da tarde, o meu pai disse   - Ai filho   e ficou-se como um passarinho, sem sofrimento nem dor. Não aborreceu ninguém. Aliás, durante toda a vida, pelo menos desde que o conheço, nunca aborreceu ninguém. Antes calculo que também não, era a paz em pessoa: gritos, zangas, impaciências foram coisas que não lhe vi. Passava as tardes na sua cadeira, a olhar a janela, quase não comia, quase não falava a não ser para garantir   - Estou bem   a minha mãe foi-se embora com o irmão dele, era eu pequeno, informou   - Vou viver com o Zé   e até hoje, não houve cenas, partes-gagas, discussões, o meu pai e o meu tio levaram-lhe, a meias, a bagagem, despediram-se no passeio e não tornei a vê-los. Não fiz perguntas e o meu pai não me explicou nada, deixou falar os factos. De início ainda pensei que mais dia menos dia se casasse outra vez. Não casou. E, tirando a madrinha dele, não nos entrou qualquer mulher no apartamento. À parte um bocadinho de pó a mais e umas nódoas por aqui e por ali as coisas continuaram na mesma: o meu pai na oficina e eu na escola, a seguir o meu pai e eu na oficina, a seguir o meu pai reformado e eu na oficina, aos domingos um passeiozeco a ver o rio, lado a lado, em silêncio, não me apareceram namoradas em condições, não éramos pessoas de criar amizades, um de nós preparava qualquer coisa para o jantar, o que não preparava qualquer coisa para o jantar tratava da loiça, um bocadinho de televisão antes da cama, coloquei uma cadeira ao lado da sua para olhar a janela com ele, as árvores, os pombos, os prédios, essas coisas e o tempo foi passando sem a gente dar por isso e, tirando um ou outro   - Ai filho   da sua parte não necessitávamos de conversas. Volta e meia a vizinha de baixo, viúva, oferecia-nos uns enchidos que trazia da terra, uma senhora que uma tarde me abraçou nas escadas   - Não te sentes sozinho?   e, como não me sentia sozinho, ficámos por ali mas ainda me lembro do perfume e de pegar na minha mão e a espalhar no seu peito. Nem sequer a tirei, acabou por cair por si quando ela se afastou, do mesmo modo que os enchidos acabaram a partir dessa altura e, pouco depois, um homem começou a morar com ela, empregado na drogaria à esquerda da oficina.   De vez em quando escutavam-se uns barulhos, a vizinha pedia   - Não me batas mais Jorge   os barulhos iam cessando a pouco e pouco, o homem saía a encontrar-se com a dona da papelaria, um de cada lado do balcão, a murmurarem sorrisos e dava-me ideia que a vizinha a chorar. Posso estar enganado mas dava-me ideia que a vizinha a chorar, queixando-se ao marido defunto. Que eu tenha reparado o marido defunto não a protegeu, em regra os maridos defuntos não se metem nesse género de problemas, preferem não sair das molduras. Por acaso ainda não esqueci o perfume nem o peito.   Não é que pense muito nisso mas continuam presentes. O homem da vizinha mudou para a cave da dona da capelista, isto há cinco ou seis anos. Não sei se lhe bate também porque os barulhos não chegam aqui, mas há meses a mulher trazia gesso no braço, o que não é suficiente para tirar ilações visto haver dúzias de maneiras de partir braços, se for a pensar acho, sem esforço, uma porção delas e, juntar a isso, a dona da capelista não parecia infeliz.   O meu pai comentou uma ocasião   - Não se me davam uns enchidos   eu continuei a olhar a janela e a história acabou dessa forma, embora a mim também não se me dessem uns enchidos. São um bocado indigestos porém na família temos bom estômago, até parafusos, se fosse preciso, a gente almoçava.   Bom. Portanto ontem, a meio da tarde, o meu pai disse   - Ai filho   sem alarme, tranquilo, e ficou-se como um passarinho.   O funeral é amanhã, às três horas e, pelas m[...]



“Que triste a noite sem lua”

Sat, 11 Feb 2012 20:33:26 GMT

A arca perdida (e encontrada) de Fernando Pessoa   António Jiménez Barca    A lo largo de toda su vida, Fernando Pessoa acarreó siempre de acá para allá un arcón que le acompañó en sus muchas mudanzas y en el que iba guardando, en un orden a veces indescifrable, los miles de papeles que contenían escritos suyos que no publicó.   Tras su muerte en 1935 el baúl quedó en la casa de su hermana, en Lisboa, que lo conservó casi intacto durante décadas. Allí, a la casa de la hermana, acudían los investigadores portugueses en los años cincuenta y sesenta —muchos casi de tapadillo a causa de la dictadura de Salazar— a expurgar entre los papeles del poeta en busca de tesoros literarios.   Los había: Pessoa dejó cerca de 25.000 documentos en ese baúl mágico. Entre otras cosas, el arca encerraba hojas sueltas, cartas, carpetas con libros inconclusos, poemarios, escritos inclasificables, reflexiones, cuadernos, semidiarios, confesiones, estrofas, los sobres que contenían el Libro del desasosiego y hasta un arranque de novela policiaca que Pessoa no terminó, inspirada en cuando, en 1930, ayudó a un mago famoso de la época a fingir un suicidio para que éste recuperara a su mujer.   El arcón de Pessoa permaneció décadas en casa de la hermana del escritor. Cartas, libros sin terminar, poemarios y diarios conforman este ‘tesoro’ literario El baúl aún esconde aparentes joyas: hace dos semanas dos especialistas de la obra del poeta editaron el — por ahora — último libro de Pessoa, con medio centenar de textos inéditos, titulado Sebastianismo e Quinto Império. El volumen es temático y reúne, según los compiladores, el portugués Jerónimo Pizarro y el colombiano Jorge Uribe, algunos escritos en prosa sobre "la dimensión mítica de la nacionalidad portuguesa".   Los estudiosos de la obra de Pessoa ya no tienen que ir a la casa de la hermana del escritor, abrir el arca y rebuscar. La herencia se encuentra ordenada en la Biblioteca Nacional de Portugal desde 1979 y el arcón fue subastado hace tres años y vendido a un particular anónimo por 60.000 euros.   Pero los papeles del poeta presentan las mismas dificultades para descifrarlos y ordenarlos que en los años sesenta: en una misma hoja, Pessoa solía escribir — con una letra intrincada y diminuta, además — un poema y al lado un bosquejo de ensayo; o una carta y por detrás la corrección del anterior poema citado; o varias versiones del mismo poema.   Según recuerda uno de los mayores especialistas actuales de Pessoa, Richard Zenith, el poeta solía comenzar proyectos de libros que luego se ramificaban en principios de obras distintas que a la vez se metamorfoseaban en otra cosa y que, la mayoría de las veces, quedaban inconclusas pero con descubrimientos bellísimos por el camino. Dentro de esta actualidad pessoana, la Fundación Gulbenkian, en Lisboa, organiza una exposición sobre el poeta, titulada Pessoa, plural como o universo, que se inaugura ahora. La muestra reúne algunos de esos cuadernitos suyos que comenzaban como diarios y poemarios y que acababan siendo, por ejemplo, libros de contabilidad donde anotar las deudas de las casas comerciales para las que el escritor trabajaba.     En la Gulbenkian se incluyen muchas referencias a los otros yo del poeta, a sus heterónimos, a los varios poetas distintos para los que el mismo Pessoa inventó estilo, biografía y carácter. Hay páginas memorables, como aquella en la que, al lado de un poema, figura este apunte premonitorio: Título: Desasosiego.   Richard Zenith conoce bien el legado de Pessoa: "Aún hay inéditas muchas de sus páginas en prosa, sobre todo las referentes a la política. En verso no tanto. El problema es clasificarlo todo. ¿Cómo ordenas esas hojas que están imbuidas de ese caos creativo en el que vivía Pessoa, en don[...]



Um ídolo e seu templo

Sat, 11 Feb 2012 20:31:11 GMT

Religião

 

 

 

 

Giacomo Favretto - Fotografia - Sem título (São Paulo SP Brasil), 2012

 




Beijos interditados

Sat, 11 Feb 2012 20:25:59 GMT

A tumba dos beijos proibidos

 

 

O acesso à tumba-monumento dedicada ao poeta Oscar Wilde, no cemitério de Père Lachaise, em Paris, será bloqueado com altos vidros blindados para impedir a continuidade da profusão de beijos (e os seus vestígios de batom) sobre a pedra esculpida. A alegação alarmada das autoridades do patrimônio da cidade de Paris é que os beijos (poderosos) das moças estão causando danos irreversíveis ao monumento.

 

 

A justificativa oficial afirma que os produtos químicos contidos nos pigmentos e colorantes dos atuais cosméticos para os lábios femininos (e em alguns casos, masculinos) tornaram-se potentes demais com seus fixadores cromáticos e tão eficazes que as cores são absorvidas pela pedra e a tal profundidade que já não podem ser removidas por detergentes e produtos de limpeza convencionais.

 

 

 

O monumento deverá passar por uma restauração demorada para retornar à sua cor branca de giz original - e a partir deste início de ano de 2012 os beijos destinados à alma do grande poeta e às superfícies porosas da escultura estão desde já definitivamente interditados.




Diário

Sat, 21 Jan 2012 23:44:31 GMT

¿Qué gato?   Ricardo Piglia   Aterrizo a la mañana en Buenos Aires después de meses de ausencia. Doy vueltas por la casa, abro las ventanas, hago algunas llamadas.   En el estudio está cristalizado el día en que me fui, como si hubiera salido huyendo. Un diario La Nación del mes de mayo en el sillón; fichas, diagramas y notas sueltas pegadas en la pared (Hombres de impermeable blanco, con lentes negros, la amenazan. La muchacha piensa: Si miro las armas estoy perdida. / Kilómetro 36: la casa de W. H. Hudson.     / Hay mujeres que en lugar de envejecer, enloquecen.)   Sobre la mesa los libros que quizá estaba leyendo: El sol que declina de Osamu Dazai, Terrorism and Modern Literature de Alex Houen, Plotting Terror de Margaret Scanlan, El amparo de Gustavo Ferreyra. ¿En qué andaba yo en aquel tiempo? Ella se ha quedado en Filadelfia, espera seguir a Los Ángeles y luego a Tokio. Viaja sin equipaje. “Solamente voy a llevar mi máquina de fotos y las píldoras para dormir”, dice.   Sábado   Paso Nochebuena solo en la ciudad vacía. No hay automóviles en la calle, pocas luces, los negocios cerrados, una extraña penumbra.   Bajo por Corrientes buscando un lugar abierto para comer y al final termino en una parrilla improvisada en un boliche con mesas en la vereda. Al fondo, atrás del obelisco, un juego de luces que parecen venir del río. Cada tanto estallidos y fuegos artificiales. De a poco el lugar se va llenando con los náufragos de la noche, gente sola, alemanes, belgas, norteamericanos, viajeros que salieron como yo a buscar un lugar donde comer. Pido una tira de asado con ensalada y una botella de vino. Al rato entro en conversación con un inglés sentado a la mesa vecina. Es de Liverpool, vino a buscar —él dice a pescar— jugadores de fútbol de las divisiones inferiores.   Sábado   Escribir a mano es una práctica arcaica, anterior incluso al lenguaje oral. Los instrumentos han cambiado a lo largo de los siglos pero el gesto es el mismo: se usa la mano más hábil para trazar las letras y la otra como ayuda ocasional. Soy un zurdo contrariado, solo uso la derecha para escribir y en todo lo demás la mano izquierda. La inolvidable señorita Tumini, maestra de primer grado inferior, me obligaba a escribir con la mano derecha. Me veo en el aula vacía copiando palabras con el furor de un pequeño disléxico demente.   Miércoles   Antes, cada dos por tres entraba en una polémica pública. Ahora no le encuentro sentido a ese murmullo incesante de opiniones y de pronósticos. Sin embargo, a veces, todavía, a la mañana temprano, bajo la ducha, escribo indignadas cartas imaginarias a los periódicos contestando argumentos idiotas. (Señor Director, Cuando estuve en Madrid hace unos meses le sugerí a los indignados de Puerta del Sol que le pidieran una audiencia al rey.) No bien salgo del agua las réplicas se disuelven. Una mendiga mató a otra en la recova de Plaza Once porque le robó una manzana.   Jueves   Leo en un viejo número de The Magazine of Fantasy and Science Fiction sobre la persistencia del tigre en la literatura inglesa: el tigre que arde luminoso en la foresta de la noche de W. Blake, el Shere Khan de Rudyard Kipling, el tigre de Yucatán de Hilaire Belloc, el tigre overo de las llanuras del paraíso de Ian MacKenzie y entonces pienso que también el tigre ha sido robado de las bibliotecas por el hacedor ciego que quiso soñarlos, pero sin suerte porque los tigres le salían “tirando a perro o a pájaro”.   Viernes   Escribo un prólogo a la novela de Sylvia Molloy En breve cárcel.   Cuando decimos que no podemos dejar de leer una novela es porque queremos seguir escuchando la voz que narra. Más allá de la intriga y de las peripecias, hay un t[...]



Botero e os limites da violência

Sat, 21 Jan 2012 16:15:43 GMT

Exposição de Fernando Botero em Porto Alegre   Pinturas em óleo sobre tela, aquarelas e desenhos.       Fernando Botero completará 80 anos em 19 de abril como um dos artistas mais prestigiados — e, acima de tudo, populares — em atividade no mundo.   O colombiano parece surpreendentemente próximo de nós, em parte devido à herança da Renascença, que ainda hoje representa uma das principais referências do público não especializado. No entanto, há mais para ser descoberto sobre Botero. A exposição individual que será aberta para visitação neste sábado, no Centro Cultural CEEE Erico Verissimo, na Capital, traz obras criadas entre o final da década de 1990 e meados dos anos 2000, doadas pelo artista ao Museu Nacional da Colômbia, instituição que assina a curadoria. Intitulada Dores da Colômbia, a mostra conta com 36 desenhos, 25 pinturas e seis aquarelas com cenas da violência que tomou conta do país especialmente na década de 1990, com o narcotráfico, as guerrilhas e os grupos paramilitares.   — É como uma representação de todos os estados da violência, um tema com o qual Botero se identifica nos anos 2000, período em que também fez uma série sobre o que se passou nas prisões do Iraque — observa Natalia Bonilla Maldonado, comissária do Museu Nacional da Colômbia para a exposição. Botero tem formação cosmopolita.   Nascido em Medellín, se destacou a partir da década de 1960 e morou na França, na Itália, nos Estados Unidos e no México. Hoje, está radicado na França. Suas figuras rechonchudas não são exatamente gordas, mas volumosas, característica que aparece nos personagens, nos objetos e nos cenários. É um reflexo da influência de Giotto (1266 – 1337) e dos artistas florentinos que ele traduziu em linguagem moderna. Há uma graça, até mesmo certo humor, em boa parte de suas obras, o que contrasta com o viés político — embora ele tenha rejeitado o termo — de outros segmentos fundamentais de sua produção.   Exemplos significativos estão na mostra em cartaz até 8 de março na Capital e que já passou por Brasília, Curitiba, Rio de Janeiro e São Paulo (depois, seguirá para Belo Horizonte). Em Porto Alegre, a exposição dá início às comemorações de 10 anos do Centro Cultural CEEE Erico Verissimo.   — Embora o contexto das obras seja a situação da Colômbia, o que está em jogo é a opressão do homem pelo próprio homem — diz Regina Leitão Ungaretti, coordenadora geral do espaço cultural.     Publicado no jornal Zero Hora        [...]



Retrato do poeta

Wed, 18 Jan 2012 19:37:00 GMT

Charles Baudelaire

(dessin en cahier de travail - après Fantin-Latour)

 

 

 

 

Desenho do retrato do poeta e crítico de arte Charles Baudelaire a partir da pintura em grande formato, com os retratos de vários amigos do pintor Eugène Delacroix, em óleo sobre tela de "Hommage a Eugène Delacroix", de autoria de Fantin-Latour em mostra atual no Musée Eugène Delacroix, Place Furstenberg, Paris.




Cemitério americano na Normandia

Mon, 16 Jan 2012 17:36:18 GMT

 

Utah, Pointe-du-Hoc, Omaha, Cemitério...

 

 

 

 

 

© Gilberto Perin - Cemitério Americano na Normandia - Fotografia (Normandia, França) 2011




Mãos iluminadas

Mon, 16 Jan 2012 17:21:15 GMT

 

escrevo estes versos

 

 

escrevo estes versos para o amigo que mesmo condenado

descobriu que ainda havia tempo para encontrar o amor

 

escrevo estes versos para a mulher que um dia abandonei

a quem desejo que encontre o filho que nunca pude lhe dar

 

escrevo estes versos para o meu quitandeiro da esquina

por beber um litro de graspa e erguer caixas às 6 da manhã

 

escrevo estes versos para aquele velho professor de latim

por me ensinar que a poesia é basicamente um desperdício

 

escrevo estes versos para o conforto de um poeta do campo

longe de sua lisboa que foi o mundo antes mesmo de camões

 

escrevo estes versos para as flores da última primavera

cantada pelos mestres chineses tantos séculos antes de mim

 

escrevo estes versos para uma menina perdida no futuro

que há de lê-los com as mãos iluminadas de tocar sua carne

 

 

© Pedro Gonzaga, 2012




O Brasil secreto

Mon, 16 Jan 2012 15:53:06 GMT

Um herói popular brasileiro   Isa Ferraz conta com emoção a História que não se conta         "Um dia, faz 40 anos, eu estava indo com meu pai para a escola e ele disse: 'Vou te contar um segredo: seu tio Carlos é o Carlos Marighella'".   Assim começa o documentário "Marighella", de Isa Grinspum Ferraz, com estreia prevista para outubro. Marighella lembra Public Enemy e Racionais, diz Mano Brown   Em uma hora e 40 minutos, "Marighella" desfia a trajetória do ícone da esquerda brasileira que acabou baleado e morto dentro de um Fusca em 1969, em São Paulo.   Meio século da história do país pode ser contado a partir dos acontecimentos em sua vida: a gênese do comunismo baiano, mulato, do qual Jorge Amado era partidário; o conflito entre integralistas e comunistas; a legalização do Partidão; a clandestinidade; a frustração com Stálin; o golpe militar e, por fim, a luta armada. Mas o que torna "Marighella" único é o olhar íntimo que só quem era de dentro da família seria capaz de documentar: "Tio Carlos era casado com tia Clara. Eles estavam sempre aparecendo e desaparecendo de casa. Era carinhoso, brincalhão, escrevia poemas pra gente. Nunca tinha associado o rosto dele aos cartazes de 'Procura-se' espalhados pela cidade", continua a voz em off da própria Isa, que assina direção e roteiro do filme. Marighella com a sobrinha Isa no ombro, ao lado da companheira Clara Charf e do resto da família Grinspum em 1962       "A ideia é desfazer o preconceito que até pouco tempo atrás havia contra meu tio. Era um nome amaldiçoado, sinônimo de horror. Além da vida clandestina e do ciclo de prisões e torturas, procuramos mostrar também o poeta, estudioso, amante de samba, praia e futebol, e acima de tudo o grande homem de ideias que ele foi", diz Isa, socióloga formada na USP.   Na esteira da pesquisa que foi feita, surgiram algumas revelações. Clara Charf, companheira de Marighella de 1945 até sua morte, hoje aos 86, desenterrou uma pasta que pertencia a ele, na qual aparecem correspondências, mapas e esboços de ações guerrilheiras.   A produção também descobriu uma gravação de Marighella para a rádio Havana, de Cuba. Em sua fala tipicamente cadenciada, ele anuncia o rompimento com o Partido Comunista e a adesão à luta armada. Mesma época em que intelectuais europeus como o cineasta francês Jean-Luc Godard passam a enviar remessas de dinheiro em apoio à sua causa. O filme ainda traz trilha sonora de Marco Antônio Guimarães e Mano Brown e depoimentos esclarecedores de militantes históricos, como o crítico literário Antonio Candido: "Marighella encarnava moral e psicologicamente o seu povo. Ele era pobre e não abandonou sua classe".       Já a judia Clara enfrentaria resistência do pai ao assumir o relacionamento, no que acabou se transformando numa versão tropical de "Romeu e Julieta". "Carlos era preto, comunista e gói (não judeu)", lembra Clara, aos risos. "Mas era muito doce e, no fim, conquistou a todos."   (Publicado na Folha de São Paulo)    Nota do Editor:  É um filme extraordinário, revelador de uma imensa sombra oculta, perene e mistificada da História do Brasil - que permanece ainda como um bunker secreto, construido em  preconceitos e alicerçado em mentiras sussurradas - o lado que se teima em esconder em silêncio reprovador e no medo sistemático: as atrocidades cometidas pela cruel ditadura brasileira contra a liberdade política, artística, cultural e de expressão genuinamente popular  dos brasileiros.   [...]



Pointe-du-Hoc, Dia D+1 e hoje

Sun, 15 Jan 2012 12:43:32 GMT

As crateras, o concreto e os insetos

 

As crateras estão todas lá, assombrosas, centenas, formando ondulações ritmadas cobertas de relva, há toneladas de concreto em escombros, estranhos túneis voltados para o céu (para o sol e para a lua) como entranhas expostas em cimento, pedra e ferro retorcido; e milhares de minúsculos insetos a zunirem por todo lado como almas sem guarda. Um monumento doloroso a propor uma reflexão sobre o valor e a essência da liberdade.

 

 

 

 





Pointe-du-Hoc, Normandie

Sat, 14 Jan 2012 18:15:36 GMT

Pointe-du-Hoc

 

 

 

 

 

Gilberto Perin - Liberdade - Fotografia - Pointe-du-Hoc, Normandie (França), 2011

 

Pointe-du-Hoc , campo de batalha estratégico do Dia D, Normandie, France




Rumo a uma outra estação

Sat, 14 Jan 2012 17:38:42 GMT

A batalha poética de encantar   Mariana Ianelli   Estreia do gaúcho Pedro Gonzaga na poesia, “A última temporada” prenuncia no título a fina ironia do livro, visível, antes de tudo, no fato de um poeta surgir aos 35 anos para inaugurar um fim. Desde uma juventude que termina, e com ela certa exultação e certa irresponsabilibidade, os poemas de “A última temporada” têm o poder de atravessar esta sutil ironia do título para ir à poesia propriamente dita.   Chega, portanto, aonde poucos chamados jovens poetas costumam chegar, a um ponto de suspensão em que a cotidianidade não desencanta o verso. Ao que se perde de uma geração para outra de uma família, ao “misterioso exoesqueleto abandonado” de algumas roupas, à morte de um amigo, o poeta responde com a força de imagens que ficam, com uma fantasia que não se deixa intimidar pela aspereza da verdade de “inquisidores e síndicos”.   Se há um imperativo que move o poeta, esse imperativo é “uma ilusão adamantina, não a verdade”, pois “se puderes fechar os olhos para o real/ fecha agora/ não te preocupes,/ antes,/ aproveita/ hão de acordar-te os credores/ a dor no ciático/ o fingimento da mulher que nunca se entrega”.   Defender e fazer durar essa ilusão requer nada menos que uma batalha poética, afinal, encantar tanto perdeu valor que “quase já não há mais garotas sentimentais/ e por isso o mundo está perdido/ por isso o mundo só poderá ser salvo/ quando armado de alaúdes/ voltar à provença/ um novo exército de trovadores”. É assim que os poemas de Pedro Gonzaga respondem à cotidianidade com o poder da fantasia. O amor entre dois bêbados de vinho, o erotismo da mulher transmudada em ave mítica, a lembrança de dois corpos jovens tingidos de azul e vermelho sustentam, no poema, um instante fora do tempo. Até mesmo “a macabra fantasia” dos mortos, “de permanecerem iguais/ em nossa memória”, participa desse estado poético de suspensão, de encantamento, que não se decompõe como acontece ao efeito da ironia.   A batalha poética de “A última temporada” se faz desde dentro da poesia e também à poesia se dirige, à expressão de uma época desencantada que marca presença na estética contemporânea tanto no seu apreço pelo coloquialismo quanto na expressão de uma poesia autorreferente, instilada pela teoria.   Em seu “poema em linha torta”, Pedro Gonzaga fala daqueles que “de todos os lados/ armam-se de teses/ (futuristas cansados)”, os que “debatem o fim da lira/ locupletam-se com artigos/ em revistas indexadas”, os que “alegam ser capazes de ler na tela/ 300 páginas mas não vencem uma quadra/ de quevedo”. Já farto “da maçada de lhes dar combate”, o poeta apenas ergue seus versos e os mantém suspensos – porque esta sim é a sua batalha – sem pretender enfrentar o que não seja o próprio alcance da poesia no seu benefício de envolver “num delírio (dolorosamente necessário)” quem dela se aproxima.   O teor irônico que sutilmente compõe o livro serve como um reflexo do rosto que o espelho devolve e que o poeta confronta com outra visão, aquela que não envelhece na memória. Mas Pedro Gonzaga não ri apenas de sua nostalgia como ainda ironiza sua condição de poeta num mundo onde o que importa é estar preso ao chão e às coisas chãs: “mais uma vez deliraste/ feito um adolescente/ com a solidão sem par de marco aurélio/ o que não se deixava alegrar/ nem pelo império indiviso/ nem pela admiração renitente dos soldados/ a[...]



Os escritores de culto

Sat, 14 Jan 2012 14:11:23 GMT

Un secreto de dioses     Leila Guerriero   Si hay culto es porque hay un dios.   Enrique Vila-Matas, Alan Pauls, Yuri Herrera, Rafael Gumucio, Jorge Herralde, Pilar Reyes, Elena Ramírez, Manuel Borrás... Autores y editores explican una categoría sagrada llena de matices, aristas y contradicciones.   Primero, las definiciones. Pero eso es un problema cuando se trata de una categoría esquiva, viciosamente escurridiza, llena de aristas, de matices, de contradicciones.   Cuando se trata, como ahora, de encontrar respuesta a esta pregunta: ¿qué es un escritor de culto? ¿Alguien con gran prestigio y un grupo ínfimo de lectores; alguien que, más que lectores, tiene devotos; alguien que capturó los retorcijones más o menos angustiosos de toda una generación y supo cómo traducirlos en una obra; alguien que es producto de una estrategia editorial? ¿Todo eso, más que eso, nada de todo eso?   La primera acepción de la palabra culto que da el diccionario María Moliner es esta: "Respeto, veneración y acatamiento tributados a Dios o a los dioses". Antes que nada, entonces, esto: si hay culto es porque hay un dios. La noticia en otros webs webs en español en otros idiomas Vila-Matas: "En este país, 'autor de culto' siempre ha sonado a escritor bueno y disparejo, pero también a autor al que le falta algo" Abad Faciolince: "Kundera lo fue hasta que todo el mundo empezó a leerlo. El éxito es imperdonable en un escritor de culto" Herralde: "Un escritor de culto es un escritor con una voz propia, que sorprende, exige y excita al lector"    - Autor de culto es un concepto ligado a lo religioso - dice Enrique Vila-Matas, autor de Dublinesca -. A ese autor le salen adoradores, lectores que no quieren perderse ni un folio suelto del autor, lectores que le siguen en todo lo que hace. Ser seguidor -lo digo por propia experiencia- es apasionante. Ser seguido - también tengo la experiencia - no lo es tanto, porque a muchos adoradores sólo les interesa lo que un día leyeron de ti y quieren encontrar siempre eso en lo que haces. Pueden llegar a impedir al autor ser libre a nivel creativo y machacarle su capacidad de sorprender continuamente, de hacer con sus escritos lo que le dé la gana en todo momento. Nada admiro tanto como ese día en la vida de Bob Dylan, en Newport, en 1965, cuando todo el mundo le consideraba un cantante de folk y se presentó con una ruidosa banda eléctrica que ninguno de sus adoradores comprendió.   - El nombre tiene mucho de religioso - dice el escritor Tomás González, autor de la novela Primero estaba el mar, a quien se menciona como el secreto mejor guardado de Colombia-. Es un escritor del que se podría tener la imagen en una repisa, como la de un santo. Los escritores de culto son como santos con pocos aunque muy fervientes devotos. Si te llaman escritor de culto y lo aceptas, tienes cierto prestigio y puedes escribir en paz lo que te dé la gana, pues te dieron y te diste por perdido en cuanto a ventas se refiere.   - Es un término más usado por editores o críticos - dice el escritor venezolano Alberto Barrera Tyszka, autor de la novela La enfermedad-. Los escritores somos muy vanidosos y la categoría puede ser una forma de matizar un fracaso con los lectores. Los escritores lo queremos todo: crítica y público. También puede ser una definición provisional. Hace más de veinte años, tal vez Robert Walser era considerado un escritor de culto. Bolaño también. Hoy es casi una civilización.   - T. S. Eliot - dice el escritor ar[...]



Poema de Pedro Gonzaga

Sat, 14 Jan 2012 12:13:49 GMT

soneto

 

tormentoso desejo agora vivo

só por vos ter tão perto, doce amiga

conturba-se-me ardente o sangue à briga

que com malícia ergueu amor esquivo

 

encontro e logo perco meu juízo

quis razão evitar minha desdita

mas se ao vos ver um não sei quê se agita

sois perdição e incêndio e paraíso

 

encarnação da dádiva primeira

semideia que um árabe cantava

em vós respira a flor da laranjeira

 

primavera que esconde a verde fava

aniquilai-me a paz, feroz cegueira

toda nudez que vossa mão guardava 

 

 

© Pedro Gonzaga, 2012




Felicidade

Fri, 13 Jan 2012 20:38:28 GMT

Domingo com Verdi   Domingo é o dia mais difícil da semana: ruas sem ninguém, persianas descidas, quase nenhum automóvel, em que sítio andarão as pessoas? Horas lentas, pesadas, esta casa ao mesmo tempo igual e diferente, a dizer-me qualquer coisa que não entendo. O que será? Uma espécie de sol na varanda, até à mesa, um brilhozito na jarra.   O maluco do costume não dança no passeio a gritar   - Sou feliz   a estrangeira sem abrigo não passeia nos semáforos o saco de plástico, a estender a mão para carros indiferentes. Parece que só eu no bairro. De certeza que só eu no bairro.   Amanhã a agência de viagens aberta de novo, a farmácia, o restaurante que perdeu quase todos os clientes, com o dono à porta, vencido. Tem mais rugas dos lados da boca, dos lados dos olhos. Para além do restaurante uma mercearia, um sítio onde fazem tatuagens, uma sucursal de banco. Até há pouco havia duas, uma delas fechou. Vão fechando coisas por aqui. O minimercado, por exemplo. Lojas. O maluco usa barbas, farrapos. Continua feliz. Mais do que o senhor que andou na guerra em África e, de vez em quando, dá pontapés nos caixotes, terrível de ordens militares. Mete uns copos ao bucho e voltam-lhe os tiros.   - Quatro mortos em cinco minutos, seus cabrões   afiança ele   - Quatro mortos em cinco minutos   e a gente calados. O sujeito do estabelecimento de telemóveis encolhe os ombros, uma velhota assusta-se em pulitos de galinha, passa de largo, aflita. Tirando a velhota ninguém liga ao guerreiro. O senhor que andou na guerra em África faz continências, amansa, some-se numa esquina. Daqui a nada regressa, mais feroz ainda. Há um outro que me mostra análises   - Que tal o meu fígado?   tiradas de um envelope usado   - O médico mandou-me ir lá daqui a três meses   e a mão treme-lhe enquanto vejo, de esguelha, os papéis. Explica   - Eu o fígado e a minha esposa   os nervos apontando uma criatura de expressão sofrida que já não sabe o que é dormir   - Há mais de sei lá quanto tempo que não descanso   esclarece a esposa numa vozita murcha   - Há mais de sei lá quanto tempo, senhor doutor   lembrada de que fui doutor.   - Nem o chá de tília me vale, palavra de honra.   Tília, lucialima, camomila, já bebeu a ervanária inteira. O filho polícia, a filha e o genro desempregados, três netos. E inicia, com a vozita murcha, uma digressão longuíssima acerca da miséria do subsídio de desemprego. No final da digressão levanta o queixo até mim   - E quando o subsídio acabar?   enquanto o marido concorda, a guardar o fígado no envelope.   - Não entendo estes exames   conta-me ele, antigamente era com cruzes, percebia-se.   - Mais de três cruzes e encomendava-se o caixão.   Hoje, domingo, devem trancar-se no seu primeiro andar, com o peso do fígado e dos nervos às costas e um bulezito de menta entre eles, fitando-se:   - E se chamássemos a ambulância?   com a filha e o genro desempregado, de lápis em riste, à cata de anúncios, nem que seja de limpezas   - Os dois com estudos, senhor doutor, já viu? no jornal. Comem o quê?   E a miséria escondida: ele de gravata, ela de cabelo pintado. A esposa dos nervos orgulhosa   - Asseadíssimos e não só asseadíssimos, pinocas, a infelicidade não é para mostrar.   Na cave do prédio em que habitam um velhote magrinho que tocava clarinete na banda da Guarda (clarinete ou flauta) e elogia Ver[...]



Flores de Favretto

Thu, 12 Jan 2012 16:03:19 GMT

Fotografia

 

 

 

Giacomo Favretto - Flores - Fotografia (São Paulo), 2012




Bonjour Paris

Thu, 12 Jan 2012 09:06:43 GMT

Fotografia

 

 

 

Pierre Yves Refalo - Inverno - O rio atravessa a cidade - Fotografia (Paris, France), 2012