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Passarinhos e Borboletas





Updated: 2017-08-30T09:59:16.894-03:00

 



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2017-08-23T20:59:28.135-03:00

Era uma vez...

Era uma vez? Não. É uma vez, porque eu quero no presente, não no passado.  E no futuro também. É e Será uma vez.

Uma? Também não. Muitas. Muitas vezes.

São e Serão muitas vezes.

Vezes múltiplas, em sendo o conto de fadas um daqueles com final feliz. Em não sendo, ao contrário, quero somente o passado. Era. E uma vez apenas. Ou melhor, não quero nenhuma. Não foi. Não foi nenhuma vez.

Se é meu o conto, decido se aconteceu de fato. Ou se merece ter acontecido.

Não é vida. É conto. Conto como quero. Conto como percebo. Conto como sinto. Conto como pretendo. Conto como sorrio.

Se sorrio, quero contar. Muitas vezes. Quero que seja, quero que repita.

Repetir o conto que faz sorrir. Repetir, sorrindo.

Eram, Foram, São e Serão. Se for para sorrir, que seja.

Muito e sempre.





Ele.

2016-10-21T10:34:43.034-02:00

Ele conversa com a televisão. Emite opiniões, briga, concorda, se revolta. Mas também conversa comigo como poucos homens se dispõe a fazer.

Ele perde a paciência com o controle remoto, mas perde ainda mais diante de uma injustiça lançada às suas filhas.

Ele acha um absurdo eu comprar outra bolsa de mão, mas adora me dar uma de presente.

Ele morre de rir das Pegadinhas do Faustão, eu não acho graça. Mas a gente morre de rir, juntos, assistindo ao Bob Esponja.

Ele assiste Walkind Dead sozinho e com fones de ouvido, mas me espera para todos os episódios de Modern Family.

Ele briga comigo quando eu tropeço na rua, diz que eu ando “olhando pra cima”, mas é o primeiro a segurar a minha mão.

Ele reclama que ando devagar por causa do salto alto, mas dá uma volta enorme com o carro só para me deixar na porta do escritório.

Ele aprendeu a tomar café sem adoçar comigo, mas me ensinou a usar o certificado digital.

Ele não gosta de esperar, mas faz um curativo minucioso como ninguém.

Ele critica as músicas que gosto, mas as cantarola durante todo o dia.

Ele gosta de carne, mas faz um risoto maravilhoso, porque a gente adora.

Ele fala muito, mas faz ainda mais.


Ele reclama que eu falo pouco, não me expresso. Mas ele não sabe que o que eu sinto é tão grande, que, muitas vezes, nem sobra lugar para muitas palavras.



Reciclagem no meio da tarde de terça-feira.

2016-10-18T16:36:07.504-02:00

E daí que no meio da tarde, diante de, pelo menos, cinco arquivos abertos que aguardam, ansiosamente, serem finalizados, olho para baixo da mesa do escritório e enxergo, na lixeira, alguns papéis amassados. Por um momento, me pergunto: O que foi mesmo que joguei fora?

É que às vezes, no afã de enxergar uma mesa organizada, a gente acaba jogando fora um papel importante.  Em outras vezes, até reconhecemos a insignificância do bendito papelzinho naquele momento, e, dias mais tarde, nos deparamos com a sua necessidade. Amaldiçoamos o momento da decisão do descarte. Mas, na grande maioria das vezes, já foi. Não tem mais jeito. Afinal, o que foi descartado tem destino também. Não é certo, mas é um destino.

Naquela história de que o mundo dá voltas (algumas que aguardo ansiosa como os arquivos abertos no meu computador), quem sabe o papelzinho não volte para as nossas próprias mãos, cheio de status, como um bloquinho reciclado? Assim mesmo, quase que olhando de cima para baixo e dizendo: Viu? Ou quem sabe vire uma obra de arte, um caderno de criança, um enfeite de Natal?


Eles estão aqui ainda, na lixeira da minha sala. Mas já imaginei para eles um monte de desfechos diferentes. E quando penso assim, acabo me apegando. Apego a papeizinhos amassados jogados na lixeira? É...Preciso parar de olhar para baixo enquanto trabalho...



A Ganache do Le Manjue.

2016-10-10T17:38:50.057-03:00

Em tempos de "Desculpe o transtorno, preciso falar de Clarisse", peço licença aos descolados (ainda se pode utilizar essa palavra?) e orgânicos paulistanos para falar da Ganache do Le Manjue. Não, eu não fui ao restaurante, queridinho da geração gluten-lac-free. Mas ganhei a famosa Ganache de presente. Confesso que sou totalmente influenciável pela mídia, blogs,vlogs e toda sorte de afins, e muitas vezes até por rótulo de sabonete. Alvo fácil para os publicitários. Daquele tipo que sente sono quando a descrição do sabonete diz "sensação relaxante", que abre um sorriso diante das palavras "sinta o frescor da manhã" e que se sente instantaneamente mais magra e completamente desintoxicada depois de espremer um limão na água pela manhã.

Sim, eu já tornei a tapioca meu jantar de muitos dias por causa da Gabriela Pugliesi. Já fiz Jejum por causa da Laura Nesteruk, já fiz pão de oleaginosas por causa da Lilian Sá. Já fiz bala de chá de hibisco por influência dos meninos do Frango com Batata Doce, já desejei um óculos por causa da Cris Guerra e uma calça horrorosa que vi com a Thassia Naves. Já comprei um tênis por indicação da Paula Narvaez e uma paleta de contorno por causa de um tutorial da Camila Coelho. E, como dez entre dez modelos de vida saudável que nunca desejam um bom bife à milanesa, desejei a bendita Ganache do Le Manjue. 

Antes mesmo de colocá-la na boca,pensei em fazer uma foto para o Instagram ou até um vídeo para o Snapchat. Eu colocaria um filtro, um emoji, um textinho. Já tinha ensaiado algumas legendas e hashtags. Algo como: "Já pode querer para sempre?", "#vidasaudavel", "#essapode", #nopainnogain (essa é terrível!). Resolvi, na contramão, experimentar primeiro. Não que seja ruim, longe disso. Só não consegui entender o estardalhaço. Minha bananinha no microondas com canela e pasta de amendoim dá de dez a zero. O bolinho de caneca de cacau da Adelaide também. E dá  para fazer com biomassa de banana verde, inclusive. 

Bom, mas o que seria da nossa vida sem os "digital influencers", sem as hashtags da moda, sem a melhor dica de todos os tempos dos próximos cinco minutos? Sigo me perguntando, enquanto desejo, agora, um brownie funcional do Club Life To Go, um salada de quinoa do Frutaria São Paulo, um corte de cabelo com a BruFabricio, uma aula de dança com o Justin Neto, uma consulta com o Dr, Barakat e um fim de semana no Kenoa Resort, de onde eu certamente postaria uma foto #kenoalovers.



O último mês.

2016-09-26T17:33:33.312-03:00

Dizem que nada torna o ser humano mais produtivo do que o último minuto. Assim como também nada   torna o ser humano mais esperançoso do que o primeiro. Que o digam as promessas de ano-novo. Sempre são muitas. Sempre carregadas de esperança.
Promete que vai emagrecer.
Comer verduras em todas as refeições.
Controlar centavo por centavo de sua conta-corrente.
Praticar atividade física diariamente.
Vai à Igreja todos os domingos.
Visitar a avó toda semana.
Ter mais tempo para si mesmo.
Tomar mais água.
Vai aprender a dizer não.
Arrumar o guardar-roupas.
Aprender a cozinhar (sem usar glúten).
Doar os brinquedos que as crianças não usam mais.
Usar o cartão de crédito somente quando extremamente necessário.

A maioria delas sequer é lembrada antes mesmo da chegada do carnaval. O ser humano tem dessas. Vive prometendo. Planeja, deseja, promete.

É sempre no ano que vem que as coisas vão acontecer. Ano que vem eu vou encontrar o emprego que eu desejo. Vou correr a São Silvestre. Vou conhecer a Europa. Vou fazer a cirurgia que estou adiando. Vou aprender francês. Fazer um curso de teologia. Ou de fotografia. Ano que vem eu vou ter um filho, escrever um livro e plantar uma árvore. Ano que vem.

Como temos sempre o ano todo pela frente, é muito fácil deixar para o outro dia, para a próxima segunda-feira, para o início do segundo semestre. A sensação de ter muito tempo nos deixa preguiçosos, acomodados.

Se o ano tivesse menos tempo, talvez faríamos mais. Se 2014 fosse somente o dezembro que falta, talvez faríamos mais do que nos onze meses que já deixamos para trás. Não teríamos tempo de esquecer as promessas. Não teríamos as férias, o carnaval e nem a Páscoa entre os nossos desejos e as nossas ações. Pensando assim, resolvi antecipar minhas promessas de Ano Novo. Resolvi fazer minhas promessas ainda em 2014. Ainda tenho 35 dias pela frente. São 10 objetivos. Desde os menores, como comprar a vitamina D que deixei de tomar há três semanas até alguns desejos maiores, que tomam mais tempo do que atravessar a rua para passar na farmácia.

Dez promessas. Dez desejos. Dez realizações. Só dez. Ainda dá tempo.

Nada torna o ser humano mais produtivo do que o último minuto. Ou o último mês.

P.S. : Já comprei a Vitamina D ! ;-)

#10coisas35dias






Oração de Verdade.

2014-09-10T21:47:38.183-03:00

Algumas orações parecem egoístas. Sempre pedindo. Proteção, saúde, emprego. Que meu time ganhe, que meu professor falte, que alguém me perdoe. Que eu passe na prova, que eu encontre um amor pra vida toda. Que eu tenha fé, que eu seja feliz, que eu realize os meus sonhos. Que meu candidato se eleja, que eu ganhe na loteria. 

Em uma análise quase infantil, e se o meu time é diferente do time do meu vizinho? Ganha quem rezar mais? Ou quem tem mais fé? Encontra o amor somente aquele que pede por ele todas as noites? Tem saúde quem tem maior intimidade com Deus? Não soube rezar aquele que cuja dor é maior do que a minha? O meu sucesso pessoal depende da quantidade de versículos que eu ler, missas ou cultos que eu frequentar, novenas ou campanhas que eu terminar? 

A oração egoísta parece querer transformar as pessoas e o mundo para nos atender. Dedica-se a satisfazer as nossas vontades, os nossos desejos. Mas quem reza de verdade não precisa pedir. Quem reza de verdade nem precisa de palavras. 

Oração é sentimento, é alegria, é silêncio, é caminhada, é sorriso. Reza quem aceita, quem compreende, quem compartilha, quem entende. Reza quem doa, nem que seja um aperto de mão. Reza quem se coloca no lugar do outro, quem se compadece, mesmo sem dizer nada. Reza quem faz o certo, quem tem a consciência tranquila. Reza quem observa a lua, quem se alegra com a beleza de uma flor, quem trabalhou tanto que não teve tempo de olhar pela janela. Reza quem dá bom dia, quem diz obrigada, quem cochila depois do almoço. Reza quem tem um cachorro ou quem tem alergia a pelo. Reza quem toma remédio todo dia, pra preservar a saúde que lhe foi confiada. Reza quem esquece das coisas, porque tinha tanto pra pensar. 

Reza quem tem filhos, quem tem pais, quem sente saudade. Reza quem escreve e quem lê. Reza quem quer ser melhor a cada dia, quem acredita que um mundo melhor só vai existir quando cada um resolver ser melhor por dentro primeiro. A oração de verdade não transforma o mundo. Transforma quem reza.






Um Jogador de Baralho Flamenguista.

2014-08-05T20:46:08.766-03:00

Essa época do ano me leva sempre a agradecer. Agradecer o pai que eu tive, mesmo que o tenha tido por apenas oito anos. Às vezes me pego pensando em quantas coisas aprendi com ele, em tão pouco tempo. Talvez seja aquela ideia que a vida nos dá de  tornar heróis aqueles que já se foram. Eles não tem mais tempo de contradizer as nossas expectativas, tampouco de mostrar um outro lado que ainda não conhecemos. Tudo que era para ter sido, já foi. Ou talvez seja pela lente de amor e admiração que cobre os olhos de toda filha ao enxergar o pai. Ou ainda, talvez ele realmente foi aquela figura extraordinária da qual eu me lembro, e, por isso, tenha sido levado dessa vida tão estranha mais cedo.

Uma figura mansa, mas firme. Uma figura que inventava apelidos e fumava Charm. Que usava suéter azul marinho com gola V e cantarolava Beth Carvalho. Que brincava com a mesma facilidade que falava sério e tratava minha mãe com uma delicadeza e um amor que eu não saberia dizer que vi em outro casal. Generoso, espirituoso, grisalho desde muito cedo. Um jogador de baralho que eu nunca vi perder. Só o Flamengo lhe tirava a calma. Uma letra linda, que enfeitou as capas dos meus cadernos até a segunda série. Comprou um vídeo cassete quando grande parte dos aparelhos de TV ainda eram em preto e branco. Fez do vídeo game um companheiro para a solidão da doença que o consumiu. Nem doente parecia triste. Já em sua última vez no hospital, recebeu a mim e ao meu irmão com bombons. 

Uma figura que me ensinou a paciência. No baralho e na vida. Me ensinou que a maioria dos problemas da vida se resolve com boa-vontade e bom-humor. Me ensinou que a vida pode ser leve, que sorrisos e gentileza transformam o ser-humano. Me ensinou que precisamos cultivar o que nos faz bem.  Me ensinou a oração de São Francisco, que, até hoje, me conforta. Me ensinou que, às vezes, não há nada o que fazer, a não ser aceitar. E que, mesmo nessas horas, a gente ainda tem muito o que agradecer.



O que a minha filha aprendeu com a Copa do Mundo.

2014-07-14T08:39:05.399-03:00

Sem que eu fizesse qualquer esforço, minha filha mais nova tornou-se uma apaixonada pela Copa do Mundo.  Como em tantos outros casos, não se trata de paixão pelo futebol, como costumam atribuir a todo brasileiro. Mas paixão pela Copa do Mundo. Paixão por ver tanta gente envolvida em torno de um objetivo. Tanta festa, tanto motivo pra juntar todo mundo, pra celebrar, pra preparar. A gente acaba concordando que o melhor da festa é esperar por ela.Tentar completar o álbum de figurinhas, conhecer o nome dos jogadores, conhecer os países, descobrir de qual deles são os maiores craques. Foi com o álbum que ela descobriu que língua se fala na Croácia. Foi através dele que ela se interessou por saber se Portugal de Cristiano Ronaldo ficava perto da Holanda de Robben.  Descobriu que Brasil se escreve com Z em inglês e que quais são as cores da bandeira da França.Aprendeu a fazer conta para trocar as figurinhas repetidas. Aprendeu até sobre a lei da oferta e da procura quando decidiu pagar cinco reais pela rara W1, que custaria apenas vinte centavos em condições normais.  Aprendeu que temos que confiar nas pessoas, mas é preciso vigiar as suas figurinhas porque nem todo mundo pensa e age como a gente. Aprendeu que não importa quanto tempo você passe no troca-troca de figurinhas dos domingos de manhã na banca de revistas, às vezes a gente não acha a figurinha que falta para completar a seleção brasileira.Vestiu a camisa do Brasil, conscientemente e por vontade própria, pela primeira vez no jogo contra a Croácia. Aprendeu quantos minutos tem em cada tempo do jogo. Aprendeu que não é certo conseguir as coisas com a força e que isso pode levar a um cartão amarelo. No jogo e na vida. Aprendeu sobre falta, escanteio e intervalo.No jogo contra o México, aprendeu a ter paciência. Entendeu que, por mais que a gente tente, às vezes,  não é o dia. Mas que tem que continuar tentando.  No jogo contra Camarões, aprendeu com a irmã que até de uma comemoração a gente pode sair machucado. Com o Chile, aprendeu que não se pode “cantar” a vitória antes do tempo e que muitas vezes a gente passa muito aperto para conseguir o que quer.Começou o jogo contra a Colômbia odiando o prodígio James Rodriguez. Terminou nem lembrando quem ele era, por conta de um outro colombiano cujo joelho encontrou a vértebra do nosso camisa 10. Aprendeu, assim, que tudo muda, às vezes, de um minuto para o outro. Aprendeu que qualquer um pode errar. Até o capitão-ídolo Thiago Silva. E que a gente deve  pagar pelos nossos erros. No jogo contra a  Alemanha ela aprendeu a sofrer. Talvez tenha aprendido ali o sentido da palavra decepção. Chorou, reclamou, perdeu as esperanças depois do terceiro gol. Viu de perto o que é desistir. Mas aprendeu também que uma vitória precisa de muito mais do que torcida e vontade. Precisa de preparo, de estudo, de treino. Precisa de suor e às vezes até de dor. Precisa de um caminho, de orientação. Precisa de calma, precisa de equilíbrio. Precisa de ajuda, cooperação, integração. Aprendeu que nem sorrisos e nem lágrimas ganham jogo.Aprendeu que a sorte pode acordar com um lado ou com o outro, mas não faz quase nada sozinha. Aprendeu, ainda, que, por mais que se perca,  a gente deve continuar sonhando com a Vitória. E, principalmente, que a gente pode ganhar de maneiras diferentes, independentemente do placar final.[...]



Passeio de Bicicleta.

2014-04-09T08:07:28.891-03:00

Passeio de bicicleta no domingo de manhã parece  a vida. A gente começa super animado. Arruma tudo, prepara garrafinha de água, passa filtro solar, coloca boné. E então, na primeira subida a gente cansa. Quando chegam as descidas, a vontade é aproveitar o vento no rosto sem pensar no resto. Mas aí a gente lembra que, se está descendo e aproveitando, uma hora vai ter que subir. Sempre vai ter a volta.

Na volta,  a melhor descida vai representar a subida mais penosa.  E a gente quase desiste de descer quando pensa nisso.  Mas acaba indo. Depois a gente encontra força para voltar.

O problema é que, nessa hora, a água da garrafinha  já acabou, o calor já está castigando e as subidas ainda estão pela frente. Mas aí a gente lembra  que as subidas da ida agora serão descidas e acaba se agarrando nisso. E vai.

O engraçado é que ,às vezes , a gente  acha a subida tão grande, mas, quanto mais perto, menor ela fica.  Ou pelo menos parece ficar.  Ou a gente vai ficando mais forte.

 A cada domingo as distâncias vão ficando maiores, e o fôlego cresce na mesma proporção.  E aquela subida penosa, com o tempo, é somente um desafio a mais a ser superado.  Como na vida mesmo.  Os desafios podem ser grandes e altos, mas a gente sempre encontra força para conseguir.





Meu time.

2014-03-06T21:15:03.737-03:00

Nunca fui boa em esportes. Na escolha dos times, eu ficava sempre por último e era escolhida quando não existia mais opção. E sempre sob um  suspiro misto de desapontamento e resignação  das “capitãs”do time. Sempre foi assim. Acho que até hoje seria, se eu ainda me dispusesse a praticar algum esporte coletivo. Exímia torcedora e até crítica, mas nunca uma jogadora, ao menos, regular. Tinha medo da bola, da trave, da cesta, do adversário. Só nunca tive medo da caneta, das palavras,  dos cadernos, blocos, livros e hoje, das telas do computador. Talvez porque nesse jogo, eu enfrente apenas a mim mesma. Talvez porque nesse esporte eu não tenha adversários senão aqueles que eu mesma criei e, por isso, conheço exatamente a força e sei a hora que vão me jogar no chão.  Medo de gente? Acho que não é o caso.  Medo de conflitos?  Não. Até porque a palavra talvez os aproxime mais do que a bola.  É falta de jeito mesmo. Falta de coordenação motora. Noção de espaço físico. Melhor assim. Prefiro que a noção que me falte seja mesmo a de espaço físico. E que me sobre a noção do  tempo,  de cuidado, do que é razoável, e, principalmente, de felicidade. Que me faltem gols, mas não me faltem vitórias.Que me faltem cestas, mas não me faltem sorrisos.Que me faltem pontos, mas não me faltem palavras. Que eu continue torcendo. Que eu possa até tentar de novo, se sobrar coragem.Que eu possa me arrepender de ter tentado, se tudo for igual.Que eu possa vibrar, se tudo for diferente. Que eu não seja mais a última escolhida do time. Ou que seja. Mas que, no jogo de todos os dias, eu possa e saiba escolher. E que o placar, no fim das contas, continue me fazendo bem.[...]



No Plural.

2014-02-07T16:55:39.180-02:00

Não sei  os porquês, mas hoje acordei no plural. Nos plurais.
Horas passadas pensando em coisas que são mais de uma.
Em tudo hoje, quero mais de um. 
Hoje  os pensamentos serão exagerados.
Todos no coletivo.
Colmeia, Matilha, Biblioteca.
Exército, Enxame, Enxoval.
Coletânea, Cardume, Cambada.
Nenhuma unidade. Tudo em Cachos.
Nenhuma flor. Muitos buquês.
Antologia.
Arquipélago.
Muito de tudo.
Um bando de coisas.
Coletânea de sorrisos ou revoada de memórias.
O que for, desde que seja mais do que já foi.
O coletivo do que já é plural.
Plurais.
Tantos. Quantos.
Muitos. E sempre.
E se amanhã eu acordar singular, volto atrás.

Quantas, muitas e tantas vezes for preciso. 



Uma e Outra. E eu.

2014-02-02T17:20:41.439-02:00

Uma se preocupa com a dificuldade que a matemática vai apresentar nesse ano escolar que se avizinha (ou já tocou a campainha?) e em criar uma assinatura que possa usar em seus desenhos que me impressionam mais a cada dia.

A outra se preocupa com as horas que ainda faltam para chegar a próxima terça-feira, afinal,do alto de seus sete anos, esperar quarenta e oito horas já se mostra um grande exercício.

Uma escolheu a mochila da Bela para enfrentar as feras que todo ano aparecem para qualquer um de nós. A outra só colocou um lenço novo na mochila do ano passado, afinal, sustentabilidade e consumo consciente também estão no conteúdo programático do ano letivo.

Uma tem Miguel de Cervantes na lista de leitura complementar. A outra escolheu ursinhos com laços cor-de-rosa para enfeitar os cadernos. Uma já criou um quadro para deixar o horário de aulas a vista. A outra quer saber se a turma vai continuar a mesma.

O desafio de uma serão as equações. Da outra, a tabuada. O meu? Todos estes e mais alguns. Hoje somos três  ansiosas. Ao final da semana, provavelmente, só uma. Aquela cujo coração nunca mais se aquieta depois do exame positivo. Aquela que carrega todas as ansiedades e todas as alegrias de todas as idades. Aquela que aprende (de novo!) a resolver as mais complicadas equações para ajudar a estudar para as provas. Aquela que volta a conhecer os detalhes da era cenozóica e da capital do Amapá. Aquela que volta a saber de cor os afluentes do Rio Amazonas e o clima da região centro-oeste. E que descobre, a cada dia, que viver isso tudo de novo é ainda melhor.










Uma flor na mesa de centro.

2013-11-27T10:50:50.813-02:00

Tenho sentido meu coração apertado. Aquele tipo de sentimento que vira físico. Aquele tipo de sentimento que, muitas vezes, a gente nem sabe porque está sentindo. Aquele que a gente fica remoendo, tentando digerir, tentando explicar. Até que percebe que não tem explicação. E talvez seja melhor assim. 

Talvez um coração apertado funcione melhor. Quando o espaço é pequeno, a gente tende a escolher o que guarda. Um coração apertado não tem espaço para qualquer coisa. Não dá para guardar um entulho de emoções, de lembranças, de preocupações. A gente só guarda o essencial. Aquilo sem o qual não sobreviveríamos. Acabamos por escolher melhor o que será mantido. Guardamos o que usamos, de fato. Como numa arrumação de uma gaveta ou de um guarda roupas. Não adianta guardar aquela calça preta que, apesar de incrível, não veste mais como antes. Não dá para insistir no iluminador da Chanel comprado há dez anos atrás que já não ilumina mais e já causa até alergia. É Chanel, mas também estraga. 

Emoções também estragam. Passam do ponto. Preocupações, então...Arriscaria dizer que essas já nascem com prazo de validade expirado. É preciso passá-las pra frente, pra outros, pra ninguém. É preciso arrumar melhor um coração apertado. Como aqueles apartamentos Nova Iorquinos de trinta e cinco metros quadrados que parecem conseguir guardar o mundo e ainda ter um vaso flor na mesa de centro. 

É isso. Quero meu coração apertado, mas com flor na mesa de centro. Gérberas ou margaridas, de preferência. E tela colorida na parede. É aquela história de funcionalidade. 







Querido Sono,

2013-10-28T21:58:14.454-02:00



Sempre vivemos uma relação estranha. Desde sempre você não costumava cumprir seus horários comigo. Prometia e não cumpria. Quantas vezes te esperei, em claro, e você não aparecia. Crueldade isso, sabia? Enquanto te esperava, tantos pensamentos iam e viam, muitas vezes transformando brisas em tempestades, fabricando monstros e construindo diálogos intermináveis que nunca chegaram a acontecer.

Era ainda pior quando você aparecia pra todo mundo, menos pra mim. Eu me sentia como uma criança desobediente que não recebia a visita do Papai Noel. Eu acabava com todos os livros da casa, ouvia toda a programação da rádio até que o Benito de Paula cantasse "Sinal Verde" à meia-noite (era assim que a programação chegava ao fim) e assistia a TV até que ficasse fora do ar. Não tínhamos TV por assinatura naquela época e eu chegava a assistir um programa de vendas do Sílvio Santos chamado Tele Sisan. Olha a que ponto você me fazia chegar, Sono! 

Houve um época em que eu nem queria que você chegasse mesmo. Quando comecei a usar a internet. Ainda discada, conexão horrível.Um fio enorme que eu tinha que ligar na tomada do telefone. Mas tinha o tal do freetel. Acho que era isso mesmo. Um quadrado preto, em que a gente escrevia com letras verde fluorescente do lado esquerdo e a pessoa respondia no lado direito. E a conexão  sempre caía na melhor parte do papo. Sempre.

Mas mesmo com o freetel, uma hora você fazia falta. Muitas vezes, na hora errada. Quase sempre. Quando eu já não mais te esperava, você chegava. Me pegava desprevenida e acabava me seduzindo, mesmo sem eu querer. Outras vezes eu não podia te fazer companhia, não queria te ver nem pintado a outro. E parece que era nessas horas que você mais queria atenção. Lembra da época da dissertação do mestrado? E do nascimento das meninas? Era nessas horas que você fazia questão de chamar minha atenção, como uma criança mimada diante de pais viciados em trabalho. Acho que você precisa de terapia, Sono. 

Já está na hora de crescer. De respeitar regras, horários. Você já está bem grandinho para rebeldias. E já deveríamos ter passado da fase dos conflitos. Não é de bom tom aparecer sem avisar. Você conhece perfeitamente meus horários disponíveis. E não se deixa uma dama esperando. Combinou, apareça. No horário. Sem desculpas esfarrapadas. Não permita que as enxeridas da dona ansiedade ou da senhora preocupação te atrasem. Compromisso é compromisso, Sono. 

Te espero hoje à noite. Na mesma hora e no mesmo local. 

Estamos combinados?

Qualquer coisa, me ligue. Você tem meu telefone.

Um beijo,

Renata.




Caráter.

2013-10-16T16:52:56.332-03:00

Tenho medo do caráter das pessoas.
Será que muda? Será que cria?
Será que o mundo pode enfraquecer o caráter de alguém?
Será que o amor pode fortalecer?
O caráter é relativo?
É possível ter bom caráter com algumas pessoas e nem tão bom com outras?
É possível ter caráter pela metade?
É possível ter caráter por inteiro, o tempo todo?
Posso vender caráter? Mas quem tem, o venderia? Ou doaria?
Mas se alguém doar, corre o risco de ficar sem?
Caráter se ensina? Ou se aprende?
Um apaixonado pode ter bom caráter? E um faminto?
Devo ser mau-caráter com quem é mau-caráter?
O certo é ter bom-caráter ou ser bom-caráter?
Caráter tem a ver com justiça ou com bondade?
E com felicidade?
Caráter acaba? Funciona? Ajuda? Abre? Fecha?
É bom? É caro? É intenso? É hábito?
É consequência?
É de comer?






Rezando.

2013-10-09T16:35:51.224-03:00


Todos os dias, ao acordar, ele se senta na cama. Mesmo ainda deitada, naquele sofrido momento entre o acordar e o acordar de verdade, sinto que ele já acordou e, sentado na cama, reza. Fico pensando para o que e por quem ele reza, pelo que ele agradece. Fico rezando junto, pedindo também para que as preces dele sejam atendidas. Não penso, naquela hora, em pedir nada, além dos pedidos dele. Em um egoísmo reconhecido, sinto que se os pedidos dele forem atendidos, os meus também serão. Sinto que o que o faria feliz também me basta. Como se as felicidades se misturassem e eu já não pudesse mais identificar qual é a felicidade dele e qual é a minha. Talvez seja isso, o amor. Quando as felicidades coincidem, mesmo que a gente não saiba exatamente, o que faz o outro feliz.

Talvez ele não saiba, mas aquela prece também é minha. E a minha fé é alimentada pela fé dele, todos os dias de manhã.





Querida Lua,

2013-09-10T08:38:08.253-03:00

Querida Lua,

Ontem fiquei te olhando ao voltar para casa. Você parecia sorrir. Parecia, não. Sorria mesmo. E eu fiquei me perguntando o porquê do seu sorriso. Seria pra mim? Eu queria acreditar que sim. Como um prêmio pela segunda-feira vivida, trabalhada, aprendida, treinada, vencida. Gostei de saber que você estava ali comigo.

Sabe, Lua, eu sempre te admirei. Sua beleza e sua cor sempre me encantaram. Mas o que me encanta mesmo é a sua capacidade de se renovar tanto. Você está sempre crescendo. E quando cresce tudo o que pensa que poderia crescer, dá um jeito de se esvaziar novamente e se renovar. Como se quisesse tentar de novo, sempre. Como se estivesse ensinando ao mundo inteiro que mudar é necessário. E é bom. E é lindo. E as suas mudanças constantes conseguem fazer com que o mundo mude junto com você. Você muda o mar, muda a luz, muda o tempo. Alguns dizem que você consegue influenciar um corte de cabelo e até mesmo o nascimento de uma criança!

Transformar homens em lobisomens não seria nada perto de acompanhar cada suspiro, cada oração,  cada passo, cada beijo, cada lágrima e cada medo que a noite trás. Eu imagino os segredos que você não guarda, Lua... Imagino as pessoas que você já acompanhou de volta pra casa, os sonhos que você guardou, as insônias que você acompanhou. E mesmo com tudo isso, ou justamente por causa de tudo isso, você continua ali, conhecendo cada pensamentozinho que essa nossa mente humana é capaz de produzir. Talvez por isso suma às vezes, por detrás das nuvens que a noite forma. Mas sempre reaparece, reafimando o seu propósito de iluminar e deixar tudo mais bonito.

Sorria sempre para mim, Lua. Mesmo que eu não mereça tanto. Seu sorriso fez o meu, ontem. E mesmo que não sorria, esteja ali. Já basta para eu me lembrar de que as coisas continuam como sempre estiveram, apesar de todas as mudanças. Até a noite!

Um beijo,

Renata.









Querida Vida,

2013-08-21T14:37:07.452-03:00

Querida vida,

Agora vamos falar francamente. Sem clichês e sem lentes. Sejam elas de aumento ou redução. Acho que precisamos de um acerto de contas. E essa conversa já era para ter acontecido há muito tempo. Tempo que falta. Ou coragem que falta. Sim, Vida, coragem. Sabe por quê? Porque você sabe ser cruel quando quer. Você sabe exatamente aonde me pegar, aonde me atingir. E essa crueldade muitas vezes me faz recuar e deixar a conversa pra depois. Mas, uma hora, a gente tinha que se encarar. Eu e você. Uma hora a gente precisaria dizer, uma pra outra, tudo aquilo que ficou esquecido ou escondido por todos esses anos.

Eu sei, eu sei que muitas vezes não te tratei bem. Pensei em você como se fosse um dia apenas. Achei que pudesse fazer o que bem entendia com você e você não me cobraria. Ou pelo menos não me cobraria tão cedo. Também não posso negar que você foi muito boa comigo em grande parte desse tempo todo. Ah, Vida, mas eu também fiz por você, né? Tantas vezes te poupei, mesmo diante das minhas vontades tão diferentes. Fui negligente algumas vezes, mas posso dizer o mesmo de você. Fui impaciente, inoportuna, descrente, até. Mas, tantas outras vezes, acreditei demais em você. Acreditei demais na sua bondade, na sua cumplicidade. Acreditei que estivéssemos no mesmo barco e, na hora da tempestade, me vi sozinha. Talvez você estivesse apenas atrás de mim, longe do meu campo de visão. Mas o sentimento foi de solidão. E, às vezes, Vida, o que fica é o sentimento, e não a realidade.

E não me venha com essa de que estava “tentando me dar uma lição”. Aliás, Vida, você e o Sr. Tempo – que qualquer dia também vai receber uma cartinha – vivem propagando aos quatro tempos as suas habilidades didáticas e terapêuticas, mas nem sempre conseguem ser objetivos o bastante para ensinar de verdade. Você também tem muito o que aprender. Todos nós temos. Esse ar superior de intelectual experiente já deu, Vida. Tanta coisa nova e interessante para aprendermos juntas e você aí, me olhando de cima, como se eu fosse a pior aluna de todos os tempos. Eu sei que não sou, Vida! Pode descer do palco e se juntar à plateia. Pode segurar na minha mão e deixar que eu também segure a sua. Não tem problema se o medo, a insegurança, a monotonia ou o cansaço aparecerem. Juntas, fica mais fácil vencê-los.

Sim, juntas. Eu te perdôo, Vida. E também peço seu perdão. Pode vir que a gente se entende no caminho.

Um beijo grande,


Renata.



As coisas e a vontade das coisas.

2013-07-10T16:35:34.538-03:00



Sou consumista assumida. Uma blusinha nova sempre foi capaz de mudar o meu humor. Um perfume novo, então, nem se fala. Aí a gente se depara com uma vontade quase incontrolável de comprar um batom vermelho de edição limitada sem o qual não podemos mais viver. Aí a gente olha os outros -muitos- batons vermelhos que já tem e percebe que não tem diferença. Nenhuma. O novo batom-desejo é extremamente parecido (não vou dizer igual em respeito à vaidade feminina) com os outros dezoito que estão na penteadeira. O batom vermelho novo é exatamente o caso daquele perfume lançado no verão passado que foi usado umas três vezes e agora está lá, esquecido. Esquecido, não. Abandonado. Mesmo tendo custado o equivalente a meio salário mínimo. E também daquele sapato azul que era lindo de morrer na loja mas que não conseguiu conversar direito com nenhuma das roupas do closet. E da bolsa off-white que manchou na primeira vez em que foi usada com uma calça jeans. E dos maxi-brincos cortados a laser –seja lá o que isso significa – que seriam necessários naquela viagem que nunca foi feita.  E da máscara de caviar com ácido salicílico que o rosto nunca viu, afinal, não é fácil lavar o rosto com soro fisiológico, depois com água morna, passar a tal máscara e esperar quarenta minutos para depois retirar com água de côco fresca.

Precisaria ser uma maquiadora profissional chamada para todas as semanas de moda do ano para conseguir usar todas as sombras adquiridas nos últimos anos. Acho que nem assim. Em nenhuma semana de moda do universo eu usaria uma sombra vermelha com glitter. Sim, eu tenho uma sombra vermelha com glitter. E também um blush lilás e um pó bronzeador que nem depois de dois meses de céu aberto em Saint Tropez ele se adequaria à minha pele. E uma camiseta preta cheia de lacinhos que nem imagino como poderia ser usada. E tantas outras coisas. Tantas.


Coisa de mulher? Talvez. Mas acho que a minha porção masculina tem se pronunciado mais nos últimos tempos. Deixar de desejar tantas coisas? Acho que nem se eu nascesse de novo. Será que é a fase da lua? Os protestos nas ruas? Maturidade? Disciplina? Recessão? Sei não. Nem sobre a sombra vermelha com glitter eu tenho certeza. Afinal, vai que vira moda no inverno 2014 da Chanel? A única certeza nisso tudo é a de que o tal bronzer, de fato, não fica bem em mim. Masbem que eu podia tentar usá-lo como sombra... ;-)



Protesto.

2013-06-24T10:18:06.871-03:00

Manifestações acontecendo e eu, aqui na praça. Muitas vezes, nem dando milho aos pombos estou.  
Pensando, pensando e pensando, resolvi protestar também.
Mas, antes de mais nada, protesto contra mim mesma.
Por todas as vezes em que me falei demais e por tantas outras em que me calei.
Por todas as vezes em que disse ao “guardinha” da rua que iria ficar só um minutinho, e por isso não precisava comprar o cartão do estacionamento rotativo.
Por todas as vezes em que estacionei em fila dupla ou local proibido para esperar as filhas saírem do colégio.
Por todas as vezes em que não respeitei o limite de velocidade, não parei na faixa de pedestre ou dirigi falando ao celular.
Por ter usado carteirinha de estudante (sem ser) para pagar meia entrada no cinema.
Por todas as vezes em que não respeitei uma fila, ou dei um jeitinho de ser atendida antes.
Pelos filmes piratas que assisti e músicas que baixei.
Por não ter declarado as compras feitas no exterior. Por pedir à filha que dissesse que eu não estava em casa só para não atender alguém ao telefone.
Por gastar mais do que preciso. Por não economizar água. Por jogar comida fora.
Por desperdiçar tempo. Por sucumbir à preguiça. Por fingir que não vi. Por achar muita coisa normal.
Por não me posicionar. Por esquecer do outro.
Protesto contra (ou a favor) de mim mesma.
Quero ir pra rua e para a janela, manifestar a minha indignação comigo também.

Protestar e mudar. Mudar porque uma verdadeira democracia não se faz apenas com políticos honestos, mas antes de qualquer coisa, com cidadãos conscientes do seu próprio papel em casa, na rua, no trabalho e no país. 



Felicidade Grátis.

2013-06-06T10:32:21.982-03:00

Que atire a primeira pedra quem não sorri (nem que seja por dentro) depois de um banho demorado, de cabelo lavado e dente escovado?  Um filho correndo em nossa direção, feliz da vida, só porque chegamos. Alguém reparando o resultado do sacrifício da dieta. Roupa que volta a caber depois de muito tempo. Ouvir a música preferida e cantar junto. Sensação de dever cumprido na sexta-feira à noite.Solzinho da manhã em dia frio. Acordar à noite e descobrir que ainda falta muito para a hora de acordar. Os últimos dez segundos do treino de corrida. Tirar os sapatos ao chegar em casa. Acordar no meio de um pesadelo e descobrir que era só um sonho ruim. Receber um elogio.Acordar com beijo.Gargalhar com vontade.Matar a sede com água gelada.Sonhar com alguém querido.Chorar de rir.Vento fresco no rosto.Assistir ao pôr-do-sol, sem pressa. Com pressa também.Em um mundo no qual paga-se por quase tudo (e todos), alguns prazeres ainda mais maravilhosos do que uma Hermès Birkin Azul Turquesa ainda saem de graça.  Ainda.[...]



O outro.

2013-04-25T10:31:30.757-03:00

A minha verdade é sempre melhor do que a verdade do outro. Muito mais clara , mais correta, mais especial. A minha verdade é mais transparente, mais justa. A minha verdade deve prevalecer. Afinal, é a minha verdade. O meu sofrimento é sempre mais verdadeiro do que o sofrimento do outro. Muito mais intenso, mais adequado, mais fundamentado. O meu sofrimento é mais triste, mais profundo. O meu sofrimento deve ser respeitado. Afinal, é o meu sofrimento.A minha alegria é sempre mais bonita do que a do outro. Muito mais colorida, mais verdadeira, mais florida. A minha alegria é mais interessante, mais forte, mais duradoura. A minha alegria é mais merecida. Afinal, é a minha alegria.A minha amizade é sempre mais forte do que a do outro. Muito mais intensa, mais sincera, mais verdadeira. A minha amizade é mais especial, mais fraterna, mais altruísta. A minha amizade é mais querida. Afinal, é a minha amizade.A verdade do outro não me interessa, afinal, a minha me basta.O sofrimento do outro me arranca um suspiro. Só isso (ou tudo isso?).A alegria do outro não me comove, amanhã acaba.A amizade no outro só vale se a minha vier primeiro. Quando eu for o outro? Aí a gente vê o que faz. E não posta no instagram.[...]



O ideal.

2012-11-22T11:21:39.182-02:00

Foi definido que mãe que é mãe de verdade cuida dos filhos pessoalmente, acorda feliz da vida e abre a janela do quarto dos filhos com um otimista “Bom dia!”, com o café já na mesa, torradas quentinhas, queijo fresco, leite na temperatura decidida pelo filho e na exata proporção de café ou chocolate ditada pelo pequeno – ou nem tão pequeno assim. Ela também confere todo o material escolar, comparece a todas as reuniões oficiais e não oficiais, conhece todos os amiguinhos e respectivas famílias. Prepara o  prato preferido de sua cria como ninguém nunca conseguirá fazer, com ingredientes frescos adquiridos naquele mesmo dia, devidamente acompanhado de suco e sobremesa, sempre com um sorriso fácil nos lábios e, claro, de salto alto. Sim, porque ela é mãe e mulher. Recebe os amigos dos filhos da forma mais carinhosa possível com bolo quentinho, pipoca amanteigada e biscoitinhos delicadamente dispostos em uma toalha alegremente estampada com um vaso de flores coloridas no meio, constrastando com a cozinha imaculadamente branca e limpa. O excesso de adjetivos foi proposital. Uma mãe de verdade só tem qualidades  dessa natureza. Essa mesma mãe, depois de ter produzido o dia todo em um mercado competitivo – não me perguntem em que momento – usando palavras da moda como networking, MBA, múltiplos de Ebitda, sinergia, inserção, responsabilidade social, chega em casa a tempo de rever as tarefas com os filhos, preparar o banho, colocá-los na cama, contar estórias sentada na cama com uma camisola branca longa – também não posso responder a que horas a camisola foi colocada – e, por fim, tomar um vinhozinho com o marido enquanto ele reclama de como o seu dia foi exaustivo. Tudo isso devidamente maquiada, depilada, sobrancelha cuidadosamente delineada, cabelos brilhantes e domados à perfeição, unhas feitas e, claro, tendo corrido seus oito quilômetros diários seguidos de um treino de musculação mensalmente modificado pelo seu personal. Apenas para constar, ela também faz terapia uma vez por semana, massagem estética e relaxante e cuida pessoalmente de seu jardim como um hobby.Mas ela cuida mesmo é dos filhos, do marido e da casa. Sabe exatamente o que está faltando na geladeira, o que é melhor para tirar mancha de roupa branca, fiscaliza de perto a forma de lavar, de passar e de guardar as roupas, conhece o melhor lugar para comprar peixe, a melhor marca de macarrão e de amaciante, agenda dentista, médico, exames de rotina para todos os que dependem dela e os lembra um dia antes, com a precisão de um bisturi. Não esquece aniversários, telefones, datas importantes, recados e consegue planejar e executar um jantar para 40 pessoas sem aumentar dez por cento em seus batimentos cardíacos. Assim definiram. E nós acreditamos. Acreditamos e buscamos tudo isso. Mas ninguém escreveu um capítulo nessa encíclica com as dificuldades. Nem uma nota de rodapé. Ninguém cuidou de avisar às navegantes que é impossível. Àquelas que discordam, eu repito: É impossível. E não há exceção a essa regra. É impossível ser completamente feliz com sono atrasado há um mês, peito pingando leite e campainha tocando anunciando visitas extremamente formais. É impossível sorrir plenamente quando, depois de um dia exaustivo de trabalho, ao chegar em casa você se depara com crianças sem banho recortando o seu exemplar de assinante da Vogue que sequer tinha visto. Só se for de[...]



Pensando.

2012-11-08T10:57:21.778-02:00


Sinto o tempo nos meus olhos. Não enxergo como enxerguei um dia. Não vejo mais o que eu via. Talvez seja uma forma da natureza me dizer que o tempo passa. Que eu não sou mais a mesma e que não preciso ser a mesma. 

Caprichosa como sempre, a natureza nos deixa mais deficientes quando podemos ir mais longe. Nos tira vagarosamente a visão quando as coisas começam a parecer claras demais. Talvez na intenção de evitar o sofrimento. Talvez na intenção de nos permitir um descanso. A maturidade não nos deixaria descansar se continuássemos a ver tudo tão claramente. Então, a visão embaça. Fica mais difícil ver de muito perto, ou de muito longe. Melhor assim. 

Enxergar demais pode cegar de vez. Enxergar demais pensando demais e entendendo demais seria exagero e estamos na era da sustentabilidade. Exageros são proibidos, condenados. Nos resta enxergar cada vez menos. Mas pensar cada vez mais. Porque sustentabilidade também é equilíbrio.



Bem Acompanhadas.

2012-10-11T17:10:54.934-03:00


Era cedo ainda. Não tanto, mas cedo. As crianças já estavam na escola. Em uma cidade quente, o dia amanhecer branco é um acontecimento. Um friozinho bom, que, assim como tudo na vida, é relativo. Quando viro a primeira esquina, vejo que, lá em cima, ela continua brilhando. Como se não quisesse ir embora. Como se quisesse continuar observando o que nós, aqui, tão pequeninhos, fazemos durante o dia. Não sei se foi o sol quem permitiu, ou se ela sequer pediu permissão. Se foi um acordo ou uma briga de gigantes. Mas o fato é que ela ainda estava lá.
Me lembrei de quando as meninas eram menores e em uma noite estrelada, voltando para casa de carro, uma delas me perguntou:
- Mãe, por que a lua está seguindo a gente?
Eu respondi:
- Porque vocês são maravilhosas e ela quer levá-las até em casa, para ter certeza de que vocês chegaram bem e vão ter uma noite muito tranqüila.
Não houve réplica. Apenas dois sorrisos vistos pelo retrovisor. Sorrisos de segurança, de calma.
A mais nova chegou a ter medo de fazer alguma coisa errada em outras ocasiões e perder aquela companhia tão linda.
E hoje ela ficou até de manhã. Não consegui mostrá-las, mas, certamente, vou ignorar novamente qualquer traço científico, movimentos de translação e rotação e dizer que ela estava ali, e isso continua a significar uma proteção e um carinho que vem do céu só pra elas.