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antologia do esquecimento





Updated: 2018-01-17T02:56:33.236+00:00

 



POESIA NO TEATRO

2018-01-15T19:41:21.887+00:00


Mais informações: aqui.



Dolores O'Riordan (1971-2018)

2018-01-15T19:39:09.215+00:00

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CONTEMSPOILERS

2018-01-14T22:21:36.380+00:00

   Um pássaro bate asas contra o vento, olhamo-lo incrédulos. O vento é muito mais forte do que o pássaro, não nos espantaria que o pássaro fosse arrastado para fora do campo de acção do vento. Mas ele insiste em bater asas. Passa-nos pela cabeça que para o pássaro seja muito mais divertido bater as asas contra o vento do que para nós é remar contra a maré. Para o pássaro, bater asas contra o vento é um divertimento. Não é instinto, nem teimosia, que o pássaro não tem, nem obstinação, palavra que o pássaro desconhece. É pura diversão. Como a água em pedra dura.   O fotógrafo lituano Antanas Sutkus podia ser o pássaro. Vem fotografando pessoas comuns do seu país, em cenas ordinárias, desde meados da década de 1970. Os entendidos dizem que com tamanha ousadia combateu os modelos de perfeição impostos pela estética soviética, mas não estamos certos de que para Sutkus se tenha tratado de um combate. Por sua vez, o compositor György Kurtág, nascido na Roménia, mostrou-se solidário para com os coreanos do norte que combateram os americanos na Guerra da Coreia. Mas quando Bartók foi proscrito na Hungria, Kurtág mudou-se para Paris e procurou Olivier Messiaen. Já Julius Neubronner foi um farmacêutico alemão interessado na química das imagens. Servia-se de pombos para tirar fotografias aéreas, registadas em pequenas máquinas transportadas em pleno voo. Os pombos batiam as asas contra o vento, do seu esforço surdiam divertidas imagens que eram rapidamente transformadas em magníficos postais.    Antanas Sutkus, György Kurtág e Julius Neubronner são três nomes estranhos referidos em CONTEMSPOILERS (Mia Soave, Agosto de 2017), do músico e poeta brasileiro Luca Argel (n. 1988). Neste caso, o poeta também bate asas contra o vento. Não por instinto, que há nele uma terrível cabeça pensante a tornar misteriosas as conexões fonéticas, os divertimentos formais, o aspecto lúdico do poema na síntese irónica que faz de um postal, como na secção intitulada Coroa de Patas de Caranguejo, ou nos cruzamentos que opera entre som e significado alongando a palavra textual até àquele ponto em que ela se torna figura. Não figurada, não figurativa, mas corpo que surge da intersecção das linguagens poética e musical.    Luca Argel, licenciado em música, com mestrado em literatura, como se encontra por aí reproduzido na imprensa, é o pássaro que bate asas contra o vento no sentido de uma linguagem própria e singular. Ele não se deixa ir na onda nem se deixa levar pelo vento, tem no horizonte um núcleo sem fronteiras onde versos e prosa dialogam como na palavra escrita dialogam imagem e som. E então os idiomas misturam-se como as artes, como as disciplinas, e tudo fica mais indisciplinado, et voilà, mais poético.   No CD com o título Livro de Reclamações, ele mesmo irónico se o entendermos enquanto bónus editorial do livro que acompanha, “replica” a estranheza com movimentos de um rock algo roufenho, ao antiquado modo gravador de quatro pistas, desmentindo radicalmente as expectativas da palavra embalada por violão ao estilo eventualmente conhecido de youtubes e afins. Esta voz é de uma provocação à qual somos incapazes de resistir, tal como não resistimos a pássaros que batam asas contra o vento. A meio do CD, o único texto do livro, e o mais improvável, é dito sobre uma guitarra minimalista, minimalíssima, sem pontuação na cadência.    O livro, que abre com uma secção intitulada Antífonas Cafonas, não enjeitaria, aqui e acolá, melodias orelhudas ao estilo  contemporâneo. Luca Argel faz questão de subverter, isto é, de bater asas contra o vento:A PARTE ESCRITAa parte escrita deste poemasofreu alterações irreversíveis.embora ninguém saiba exactamente quais são elas,a parte escrita deste poemahá muito já não é a mesma.das cinco palavras do títulonenhuma foi aproveitada.os verbos e os pronomesforam todos substituídos.[...]



TAMBÉM ARTEMISIA

2018-01-12T21:44:22.521+00:00

Santa Catarina de Alexandria   Em 1611, Orazio Gentileschi contratou Agostino Tassi como tutor da filha Artemisia. Nascida na cidade de Roma, esta aprendeu a desenhar, a misturar cores, a pintar, na companhia do pai. Desde cedo revelou um enorme talento, inevitavelmente ostracizado por não ser de um tempo em que a pintura fosse coisa de ou para mulheres. Numa sociedade altamente machista, Artemisia Gentileschi era uma ameaça. Seria certamente considerada uma ameaça. Por mais inquestionável que fosse o seu talento, a condição feminina num meio dominado por homens era fragilidade que a obrigaria a extrema e inimaginável superação.    Tudo se agravou quando Artemisia foi violada pelo tutor. As versões do acontecimento, como seria de esperar, são díspares. Crê-se que continuou a ter relações com Tassi na esperança de que casariam, vindo este a negar tais promessas quando confrontado por Orazio. Após a acusação de violação, Artemisia foi sujeita, durante um julgamento que durou sete meses, a diversos exames ginecológicos e a sessões de tortura. A veracidade do seu testemunho estava dependente da sua capacidade de resistência, que nunca cedeu. Tassi foi obrigado a abandonar Roma. Artemisia casou com um modesto artista de Florença, mudando-se para lá.    Foi em Florença que pintou algumas das suas obras mais emblemáticas, entre as quais a versão nobre da cena de Judite a decapitar Holofernes. O contraste com a conhecida obra de Caravaggio é óbvio, sobretudo na força conferida à personagem de Judite. Há na figura pintada por Artemisia uma clara projecção da sua situação pessoal, uma espécie de vingança ensaiada com raiva e determinação. As mulheres de Artemisia são, de resto, figuras invariavelmente poderosas e imponentes, capazes de subjugar os homens e de projectarem sobre eles uma violência indescritível. Assim é também na cena que recria a relação de Jabim, rei de Canaã, e Sísera. E que dizer das opulentas mamas de Santa Catarina de Alexandria ou do olhar deleitoso lançado por Salomé à cabeça de São João Baptista?    Ao que parece, esta inspiradora do feminismo mais castrante teve, com consentimento do marido, um amante rico e bem colocado nos salões de Florença. Nesta história mistura-se de tudo um pouco daquilo que agora nos visita diariamente, a propósito de movimentos e contramovimentos de libertação de actrizes oprimidas, abusadas, assediadas. Actrizes e actores, conforme tendências. Há duas formas de olhar para isto, e nenhuma delas, felizmente, nos pede que façamos uso de instrumentos de tortura medievais como métodos de alcançar a verdade. Uma das formas de olhar para isto faz com que facilmente cedamos à tentação de julgar conforme estejamos do lado de vítimas autoproclamadas ou de confessados agressores. Depois, desculpamos ou condenamos para sempre a imagem que temos das celebridades em antena. A outra forma de olharmos para isto é um pouco mais exigente e até algo perigosa, obriga ao cada vez mais raro exercício de não tomarmos como definitiva toda e qualquer proclamação vitimadora. Mais do que histórias picantes de abuso, sedução ou assédio, temos perante nós a porca máquina das relações de poder. Quem está por cima serve-se do poder que tem para obter lucro, quem está por baixo deixa-se por vezes servir para lucrar. A porcaria surge de termos construído uma sociedade onde é cada vez menos normal quem não tem poder ter, pelo menos, a cabeça de dizer a quem o tem uma coisa tão simples como: põe-te nas putas. Como foi possível calar durante tantos anos reiteradas situações hoje consideradas abusivas? Dizer a alguém poderoso “põe-te nas putas” tem os seus custos, é certo. Mas nunca borra a pintura. Não estou, com isto, a pôr o ónus da maldade em nenhuma das partes. Muito menos no das autoproclamadas vítimas. Prefiro pô-lo no contexto social, nesta ânsia de vencer que c[...]



BANDA SONORA ESSENCIAL #32

2018-01-11T20:14:31.181+00:00

   1997, passaram mais de 20 anos. Damos por isso ao mergulhar num lugar-comum que não pára de nos atormentar, como o tempo passa. Rodrigo Leão, Gabriel Gomes e Francisco Ribeiro, membros fundadores dos Madredeus, voltavam a reunir-se após o mercado de transferências que atacou os Madredeus em meados da década de 1990. Em boa verdade, Rodrigo Leão e o acordeonista Gabriel Gomes já haviam trabalhado nos Sétima Legião. A reaproximação deu-se com naturalidade, e foi das melhores coisas que a música portuguesa tinha para oferecer no final do século XX.    Por detrás do projecto que levou o nome de “os poetas” esteve igualmente um saudoso editor, Manuel Hermínio Monteiro da Assírio & Alvim. Mas convém sublinhar a marca do violoncelista Francisco Ribeiro, precocemente desaparecido deste mundo em 2010, que tão bem ficou sob a voz de Herberto Helder a ler No Sorriso Louco das Mãesou sob a sua própria voz no tema Quem Me Dera (Amanhã). Al Berto, que se fosse vivo faria hoje, 11/Janeiro/2018, 70 anos, é outra das vozes poéticas contempladas, num grupo onde se incluem ainda Mário Cesariny, António Franco Alexandre e Luiza Neto Jorge.    Entre Nós e as Palavras (1997) não é, por todas e mais algumas razões, um disco qualquer. Nele a música aproximou-se da poesia para um diálogo arriscado, sobretudo tendo em conta que as gravações das vozes dos poetas são anteriores à composição musical, a qual surge tanto na forma de suporte como resposta melodiosa à palavra poética. Veja-se o que sucede com Pastelaria, de Mário Cesariny, lido sem acompanhamento, logo seguido de um instrumental, assinado por Rodrigo Leão e Gabriel Gomes, intitulado O Café dos Poetas. O diálogo dá-se com o equilíbrio da boa conversa, nenhuma voz tenta sobrepor-se à outra com argumentos contraditórios. Não é um debate, é um diálogo. Não é guerra, não há guerra.   Entre nós e as palavras há metal fundente, diz o primeiro verso de You Are Welcome to Elsinore. Esse metal fundente pode ser o som vibrante na voz agitada, é o canto que anima a alma e ajuda o corpo a respirar, é o poderoso mantra que a palavra escrita materializa mas a dicção ergue à condição imaterial de energia. Diz-se que as palavras têm força, vigor, que emitem uma radiação própria capaz de matar, capaz de seduzir, capaz de transformar. A música é essa palavra onde o som absorve o significado mais concreto e definitivo, comunicando connosco através do que faz sentir: alegria, tristeza, nostalgia, raiva, euforia, espanto, melancolia… A música é uma provocação. Entre nós e as palavras há perfis ardentes. E há o silêncio sincopado deste diálogo tão feliz, tão feliz, tão feliz que deixa saudade. allow="autoplay; encrypted-media" allowfullscreen="" frameborder="0" height="315" src="https://www.youtube.com/embed/yN-rwpZob54" width="560">[...]



DIGA 33 ÀS TERÇAS

2018-01-11T20:29:34.334+00:00

ÀS TERÇASNO TEATRO   Por onde anda a poesia? Quem a escreve? Quem a publica? Quem a lê? Quem são os poetas do nosso tempo? Terá a poesia leitores? Que motivações alimentam os editores de poesia?   A ideia de organizar um ciclo de poesia no Teatro da Rainha surgiu de uma vontade de explorar territórios pouco explorados, fazer-lhes o reconhecimento e dá-los a conhecer. Propõe-se, numa fase inicial, uma digressão pela poesia contemporânea portuguesa. Queremos ouvir poetas e editores, queremos tentar perceber como mantêm viva a chama de Orfeu numa época em que a vertigem de imagens parece deixar pouco espaço à palavra.   Condenada à morte por uns, odiada por outros, a poesia foi desde sempre uma arte controversa. Talvez hoje o seja ainda mais, pelo carácter de resistência de que se faz valer. Resistência ao imediatismo, resistência ao mediatismo, resistência ao espectáculo, entendido não como transfiguração, expressão, representação, mas antes como mera exibição de luzes capazes de levar à cegueira.    Avessa ao deslumbramento, a poesia espanta, subverte, baralha, desconstrói, a poesia exige daquele a quem se dirige uma predisposição para aceitar o diverso. Ora, estaremos ainda dispostos a aceitar o diverso? Como conciliar tamanha exigência com o quotidiano reducionista das redes sociais? Como manter no pensamento níveis de exigência constantemente traídos pela infantilização social?   O espaço teatral surge-nos, pois, como um espaço privilegiado para a exploração do território poético. Também hoje o teatro nos surge enquanto modo de resistência. Com a poesia, ele partilha a inquietação e o fingimento de que falava Pessoa. Um fingimento que é a dimensão mais profunda da verdade. O actor, tal como o poeta, vê aparecer a manhã sobre a cama. Citamos Herberto, que foi poeta, que foi actor.    Não nos move qualquer veleidade do conhecimento. Sabemos que muitas das perguntas a que tentaremos responder não têm resposta. Não têm, pelo menos, uma resposta definitiva. Mas sabemos também que nunca o infinito foi impedimento à caminhada. Queremos ouvir quem insiste na caminhada, perceber em que direcções seguem os passos de quem caminha, queremos escutar o som das palavras directamente saídas da boca de quem as escreveu.    Uma vez por mês, à terceira terça-feira de cada mês, teremos um poeta e um editor de poesia, ou alguém que seja ambas as coisas, ou alguém que, não sendo nenhuma delas, insista em escrever como se fosse poeta e em publicar como se fosse editor. Privilegiaremos o contacto directo e informal através da conversa, do diálogo, da partilha de histórias e, sobretudo, da escuta de poemas. Porque a escrita e a escuta, articuladas uma com a outra, veiculam a aprendizagem. Ao cabo, outra coisa não pretendemos que não seja aprender. Henrique Manuel Bento Fialho16 de Janeiro às 21h30 Na Sala Estúdio do Teatro da Rainha1ª sessão com Nuno Moura (autor e editor nas editoras Mia Soave e Douda Correria) e João Paulo Esteves da Silva (músico, autor, tradutor)(fotografia copiada daqui)guardião do estiloa dinâmica sonora e colorida da sua obranão esconde a água no pântanopenetra sem recorrer adelicadas construções etéreassem recorrer à ajudada famíliaas delicadas construções etéreas servemapenas para te esconder ó guardião do estiloa loucura lamenta ter eclipsadoo guardião do estilomas é de eriçaros pêlos dos braços, a sua obra, fatalmente marginal,sempre presente nas fases de luto para meter o dedona ferida, a sua obra, com aquela infame tendênciade repetir, a sua obraó guardião do estiloNuno Moura, in “Cavalo Alucinado”, Douda Correria, Setembro de 2017.Nuno Moura (Lisboa, 1970) é poeta, editor, recitador profissional. Começou a publicar em 1993. Em 1997, ganhou uma bolsa de criação literária do[...]



CALDAS

2018-01-10T22:20:28.683+00:00


"Yah, eu não sou muito de ver futebol", disse um jogador do Caldas à Sport TV. E isto é bonito pa' caralho.



UM POEMA DE JOHANNES BOBROWSKI

2018-01-10T11:48:31.065+00:00

SOB A ORLA DA NOITESob a orla da noite as pequenascidades ao vento, de labirínticostelhados, paredes amarelecidas,torres. Afundando-se na paisagem.Tendas, a desfazer-se contra o céu,com o eco de vozes mortas,de bocas de sinos rasgadas,caídas e geladas da idade.E a planície entrapelas suas ruelas, detém-senas praças em frente deportas abertas, sobre as fontes.Mas é de noite que elasdescem os rios, na hirtafloresta das velas nos mastros,húmidas, bandeiras pintadasesvoaçando. Eu chegueisob a orla da noite, lá fora,acocorada à entrada dafloresta, uma aldeia, igualà cigana morena que roda a frigideirano reflexo da luz, no meiodas faúlhas do fogo, o fumoa traçar-lhe o risco do cabelo.Johannes Bobrowski (n. 9 de Abril de 1917, Sovetsk, Rússia, antiga Tilsit, Prússia Oriental - m. 2 de Setembro de 1965, Berlim Leste, República Democrática Alemã), in Como Um Respirar - Antologia Poética, trad. João Barrento, Cotovia, Abril de 1990, p. 55.[...]



O MELHOR DOS LIVROS EM 2017

2018-01-09T16:32:31.289+00:00

Dando continuidade à opção tomada em 2015, voltarei a elencar aqueles que foram, para mim, os melhores livros do ano, de acordo com categorias que fogem às tradicionais listas da imprensa especializada. Dessas, confesso, não fiz qualquer leitura. Chegaram-me, via amigos, brevíssimos ecos, por nelas se incluir um livro muito querido acerca do qual, curiosamente, ainda não tive o prazer de ler uma única recensão crítica. A vida como ela é, como diria o outro. Este não deverá ser considerado, porém, um momento de balanço, quer-se antes um momento de celebração do livro enquanto objecto mais do que comercializável. É também um momento de expurgação na existência do singelo livreiro que vos escreve, passado mais um ano rodeado de papéis imprimidos ao desbarato. Acrescentei algumas categorias, deixei cair no olvido outras tantas. Vou já adiantando que foi um ano fraquíssimo em sobrecapas.Melhor cinta/Melhor Reedição“Poemas Quotidianos”, de António Reis (Tinta-da-china, Julho de 2017)Assim como foi um ano fraco em sobrecapas, podemos também dizer que foi parco em boas cintas. A excepção será a cinta que acompanhou a saudada reedição dos "Poemas Quotidianos", de António Reis (n. 1927 – m. 1991), com uma citação de Manuel António Pina a colocar no devido lugar a relevância desta obra. É ainda da colecção de poesia da Tinta-da-china, que tem vindo a impor-se como uma das melhores, o livro seguinte. Melhor dedicatória“Alguma Coisa Negro”, de Jacques Roubaud (Tinta-da-china, Fevereiro de 2017)Não abuso se disser que todo este livro é uma extensa e pungente dedicatória a Alix Cléo Roubaud, companheira de Jacques Roubaud levada pela morte, aos 31 anos, na sequência de uma embolia pulmonar. Caído “num profundo estado de afasia”, o poeta recuperou-se nos poemas em diálogo com as memórias e os objectos de uma relação abruptamente interrompida. Foi o livro de poesia traduzida que mais apreciei em 2017.Melhor primeira orelha/badana & Melhor Tradução“Leviatã ou O Melhor dos Mundos seguido de Espelhos Negros”, de Arno Schmidt (Abysmo, Outubro de 2017)Arno Schmidt chegou finalmente à língua portuguesa, através de um exigente trabalho de tradução levado a cabo por Mário Gomes. O pormenor gráfico da primeira badana, onde não se lê senão o nome do tradutor, é uma rara mas merecidíssima homenagem a quem teve o trabalho de mudar para o idioma de Camões palavras que resistem altamente a essa mudança. Uma nota, ainda no campo da tradução, para “Nada Natural”, a pequena antologia de Gary Snyder que Nuno Marques e Margarida Vale de Gato traduziram e a Douda Correria publicou.Melhor capa“Antro”, de Rui Baião (Averno, Outubro de 2017)Não é de agora a colaboração do poeta Rui Baião com o fotógrafo Paulo Nozolino, inquestionavelmente um dos melhores fotógrafos portugueses. A capa de "Antro" é uma fotografia de Nozolino, à qual inteligentemente não se sobrepôs absolutamente nada. Nem o nome do autor, nem o título do livro, nem a assinatura da editora. Impossível reproduzir aqui a luminosidade originalMelhor guarda“Um Útero é do Tamanho de um Punho”, de Angélica Freitas (Douda Correria, Setembro de 2017)Poderá não ser exactamente uma guarda, mas é como se fosse. No verso de capa e sobrecapa, as ilustrações de Xueh Magrini Troll adquirem uma relevância à qual será difícil escapar. São uma espécie de introdução visual ao texto, neste caso com especial pertinência. Transpõem, deste modo, o papel decorativo tantas vezes exigido à ilustração. Angélica Freitas é uma poeta e tradutora brasileira nascida em 1973. Em Portugal, tinha já publicado “Rilke Shake” (Douda Correria, Agosto de 2015).Melhor folha de guarda/Melhor lombada“Assassinos da Lua das Flores”, de David Grann (Quetzal, Julho de 2017)O p[...]



BANDA SONORA ESSENCIAL #31

2018-01-08T11:57:17.601+00:00

   Morreu France Gall. Quem foi France Gall? Os jornais apresentam-na como rainha do yéyé, estilo de música pop vindo a lume em França durante a década de 1960. Nascida em Paris, France Gall representou o Luxemburgo no Festival da Eurovisão em 1965. Cantou Poupée de cire, poupée de son, composição de Serge Gainsbourg. Maldito entre os malditos, Gainsbourg é hoje inquestionavelmente considerado um dos nomes maiores da popfrancesa. A influência exercida sobre inúmeros músicos, de nacionalidades diversas e estilos distintos, garante-lhe imortalidade.    Para perceber tamanha influência, bastará ouvir uma colectânea de homenagem como o voume 16 de Great Jewish Music. Estão lá Mike Patton, dos Faith No More, o percussionista brasileiro Cyro Baptista, o mestre da improvisação Fred Frith, o saxofonista norte-americano John Zorn, o ecléctico guitarrista Marc Ribot, a banda de rock alternativo Blonde Redhead. Os franceses Air, os britânicos Black Box Recorder ou, mais recentemente, os Warhaus do belga Maarten Devoldere, são herdeiros directos do exotismo sensual e do erotismo legados por Serge Gainsbourg. Mick Harvey, para dar mais um exemplo, parte integrante dos The Bad Seeds que acompanham Nick Cave, publicou em 1995 um excelente álbum intitulado Intoxicated Man, todo ele composto por canções de Gainsbourg vertidas para a língua inglesa.    O génio musical de Serge Gainsbourg pode ser apreciado numa antologia como Comic Strip (1996), colecção de 20 canções, três versões inéditas (Comic Strip, Chatterton, Torrey Canyon), gravadas entre 1965 e 1968. Muitas vezes limitando-se a falar como quem canta, Gainsbourg faz-se acompanhar de vozes femininas com as quais proporcionou duetos inesquecíveis. Com Brigitte Bardot e Jane Birkin chegou a proporcionar mais que meros duetos, afrontando costumes, desbravando o mato grosso do conservadorismo, provocando, causando escândalo. Je T’Aime… Moi Non Plus, canção que em 1976 viria a marcar a estreia cinematográfica do compositor francês, foi proibida em diversos países. Inspirada numa citação de Salvador Dalí, foi inicialmente dedicada a Bardot. O conteúdo sexualmente explícito, com Birkin a simular um orgasmo no decorrer da melodia, foi denunciado pelo Vaticano. A nação portuguesa, sempre obediente e reverencial, acarretou as recomendações banindo o tema das rádios.    Arranjos de cordas e de sopros para temas tais como Bonni and Clyde, Initials B.B., 69 Année Érotique(título que é todo um programa), também fizeram história. São a imagem de marca de uma música descomplexada, abraçando o ar dos tempos de uma revolução sexual que então marchava pelos quatro cantos do mundo. Les Sucettes também foi escrita para France Gall, que mais tarde viria a dizer que jamais a teria cantado se tivesse percebido o conteúdo da letra: a nobre prática da felação. allow="encrypted-media" allowfullscreen="" frameborder="0" gesture="media" height="315" src="https://www.youtube.com/embed/9yWALE1IFbM" width="560">[...]



UM POEMA DE PHILIP LARKIN

2018-01-08T10:54:56.667+00:00

TRISTES PASSOSTropeçando de volta à cama depois de uma mijaAfasto as grossas cortinas e surpreendo-meCom as nuvens que correm, com a lua tão limpa.Quatro da manhã: jardins de sombras oblíquas, jazendoSob um céu cavernoso e rasgado pelo vento.Há nisto uma faceta ridícula,Na lua a lançar-se através de nuvens fugazesE soltas como fumo de canhão, para logo se apartar(A luz pétrea aguçando, cá em baixo, os telhados)Alta e soberba e separada — Pastilha de amor! Medalhão de arte!Ó lobos da memória! Imensidões! É certo,Há um leve arrepio, quando se olha para o alto.A dureza e a claridade e o alcance,A singularidade de tão vasto e fixo olharÉ lembrança da força e da dorDe ser jovem; do que não se pode ter de novo,Mas que é vivido por outros, em pleno, nalgum lugar.Philip Larkin (n. 9 de Agosto de 1922, Radford, Coventry, Reino Unido - m. 2 de Dezembro de 1985, Kingston upon Hull, Reino Unido), in Janelas Altas, trad. Rui Carvalho Homem, Cotovia, Março de 2004, p. 77.[...]



MULHERES

2018-01-07T12:14:12.914+00:00

Por esta altura do ano, já todos os balanços foram realizados. Cada ser humano deste mundo encarrega-se de colocar o ano que passou num lugar distante, guardando factos, acontecimentos, situações, recalcando outras tantas ocorrências, procurando esquecer o que é do esquecimento e recordar o que é da memória. Uns listam filmes, cds, espectáculos, livros, outros listam palavras, homens, imagens, lugares, os feitos, as realizações, as pessoas, os eventos. Listam-se acidentes, tragédias e crimes, ficam de fora as vítimas. Tudo pode servir o nosso gosto de organizar ou o nosso pesadelo de lembrar. Os resumos das redes sociais são especialmente reveladores de uma ausência de lágrimas na história do mundo, a qual é cada vez mais feita de sorrisos e de poses artificiais. Mesmo quando aparecem, as lágrimas são de uma comoção de tal modo plástica que não deixa espaço à reflexão. E tudo fogo de artifício e alegria e bom viver. Assim filtrado, o mundo até parece aprazível, um sítio onde apetece estar, não aquele lugar distante que passou e é bom que tenha passado. Em 2017, a editora Antígona anunciou que iria publicar uma colecção de obras de Eduardo Galeano. Foi uma das melhores notícias que tive. Galeano é um Mestre, em maiúscula. Saíram As Veias Abertas da América Latina, O Caçador de Histórias e Mulheres. Noutros tempos, chamaríamos a isto um acontecimento literário. Seria celebrado com gosto e inumeráveis razões. O uruguaio Galeano não é um escritor qualquer, estar acessível em língua portuguesa é um bem inestimável. Nasceu em Montevideu no dia 3 de Setembro de 1940, e na mesma cidade despediu-se desta vida a 13 de Abril de 2015. Falaram dele para Nobel da Literatura. Não aconteceu, como quase sempre sucede aos melhores. Ficção, história, jornalismo, filosofia política, misturam-se nos seus livros com naturalidade, elegância, clareza. As Veias Abertas da América Latina (1971) valeram-lhe prisão e exílio durante o golpe militar que tomou conta do Uruguai entre 1973 e 1985. Estava na lista dos esquadrões da morte, uma dessas que raramente se faz em época de ano novo.Mulheres é um volume especial. Resulta da compilação de vários textos que foram surgindo em diversas obras do autor, tendo por tema central a mulher. São pequenas histórias, verbetes biográficos, um inventário de mulheres que por alguma razão se destacaram num mundo regido por homens. Algures entre a lenda e a verdade histórica, estes textos não são mero panegírico do feminino. São, antes, o retrato cru da realidade machista que desde sempre nos governa. Lá estão Safo e Joana d’Arc, Mata Hari e Eva Perón, mulheres que tiveram de disfarçar-se de homens para poderem fazer o que lhes era proibido enquanto mulheres, mulheres que obedeceram e se sujeitaram ou que recusaram e desobedeceram, pagando cada uma delas com as mesmas consequências: o ostracismo dos homens. Estão a escrava María de la Cruz, cubana anónima que agradece a Fidel ter podido aprender a ler e escrever aos 106 anos, porque antes da revolução «os patrões mandavam para o cepo os negros que queriam letras» (p. 43), Alexandra Kollontai, «a única mulher com cargo de ministro no governo de Lenine», graças a quem «a homossexualidade e o aborto deixaram de ser crime, o matrimónio deixou de ser uma condenação perpétua» (p. 95), Rosa Maria, levada de África para o Brasil num navio negreiro, violada por donos e patronos, comprada, vendida, a primeira negra alfabetizada do Brasil, que acabou por desaparecer em Lisboa nos cárceres da Santa Inquisição.Num excerto destacado de Patas arriba. La escula del mundo al revés (1998), os números não desmentem a tradição do monopólio masculino: mulher é sinónimo de menti[...]



INTRODUÇÃO AO MACHISMO

2018-01-06T11:52:15.992+00:00

DESALMADAS   Aristóteles sabia o que dizia:   — A fêmea é como um macho disforme. Falta-lhe um elemento essencial: a alma.   As artes plásticas eram reinos proibidos aos seres sem alma.   No século XVI, havia em Bolonha quinhentos e vinte e quatro pintores e uma pintora.   No século XVII, havia na Academia de Paris quatrocentos e trinta e cinco pintores e quinze pintoras, todas esposas ou filhas de pintores.   No século XIX, Suzanne Valadon foi vendedeira de hortaliça, acrobata e modelo de Toulouse-Lautrec. Usava corpetes feitos de cenouras e partilhava o seu estúdio com uma cabra. Ninguém se surpreendeu que ela tivesse sido a primeira artista que se atreveu a pintar homens nus. Tinha de ser uma chanfrada.   Erasmo de Roterdão sabia o que dizia:   — Uma mulher é sempre mulher, o que é o mesmo que dizer: é louca.Imagem ao alto: pormenor do atelier de Suzanne Valadon, que pode hoje ser visitado no Museu de Montmartre.Le Déjeuner sur l'herbe, 1863FORA DE SÍTIO   Uma cena típica de domingo é o quadro que dá fama a Édouard Manet: dois homens e duas mulheres num piquenique na relva, nos arredores de Paris.   Nada de estranho, salvo um pormenor. Eles estão vestidos, impecáveis cavalheiros, e elas estão completamente nuas. Eles conversam entre si, algum tema sério, coisa de homens, e elas têm menos importância do que as árvores da paisagem.   A mulher que aparece em primeiro plano está a olhar para nós. Talvez nos pergunte, do alto do seu alheamento, onde estou, o que faço aqui.   Elas estão a mais. E não é só no quadro.NOITES DE HARÉM   A escritora Fátima Mernissi viu, nos museus de Paris, as odaliscas turcas pintadas por Henri Matisse.   Eram carne de Harém: voluptuosas, indolentes, obedientes.   Fátima viu as datas dos quadros, comparou, comprovou: ao mesmo tempo que Matisse as pintava assim, nos anos vinte e trinta, as mulheres turcas tornavam-se cidadãs, entravam na universidade e no parlamento, conquistavam o divórcio e arrancavam o véu.   O harém, prisão de mulheres, tinha sido proibido na Turquia, mas não na imaginação europeia. Os virtuosos cavalheiros, monogâmicos na vigília, mas polígamos no sonho, tinham entrada livre nesse exótico paraíso, onde as fêmeas, tontas e mudas, estavam encarregadas de dar prazer ao macho carcereiro. Qualquer medíocre burocrata fechava os olhos e via-se logo transformado num poderoso califa, acariciado por uma multidão de virgens desnudadas que, fazendo a dança do ventre, suplicavam a dádiva de uma noite junto do seu dono e senhor.   Fátima tinha nascido e crescido num harém.Eduardo Galeano, in Mulheres, tradução de José Colaço Barreiros, Antígona, Novembro de 2017, pp. 122, 213, 222. Sobre Fatema Mernissi: aqui.[...]



INTERVALO DOLOROSO

2018-01-08T09:19:56.862+00:00


Gazeta das Caldas, n.º 5207, sexta-feira, 5 de Janeiro de 2018
(também aqui)



CONCEPCIÓN

2018-01-05T16:46:08.781+00:00


   Passou a vida a lutar, com alma e vida, contra o inferno das prisões e pela dignidade das mulheres, presas em cárceres disfarçados de lares.
   Contra o hábito de absolver por generalização, ela chamava pão ao pão e vinho ao vinho:
   — Quando a culpa é de todos, não é de ninguém — dizia.
   Assim arranjou uns quantos inimigos.
   E embora a longevidade do seu prestígio fosse já indiscutível, no seu país ninguém acreditava. E não só no seu país: na sua época também não.
   Por volta de 1840, Concepción Arenal tinha frequentado o curso da Faculdade de Direito, disfarçada de homem, com o peito esmagado por uma cinta dupla.
   Por volta de 1850, continuava a disfarçar-se de homem para poder frequentar as tertúlias madrilenas, onde se debatiam temas impróprios a horas impróprias.
   E por volta de 1870, uma prestigiosa organização inglesa, a Sociedade Howard para a Reforma das Prisões, nomeou-a sua representante em Espanha. O documento que a credenciou foi expedido em nome de Sir Concepción Arenal.
   Quarenta anos depois, outra galega, Emilia Pardo Bazán, foi a primeira mulher catedrática numa universidade espanhola. Nenhum aluno se dignava ouvi-la. Dava aulas para ninguém.

Eduardo Galeano, in Mulheres, tradução de José Colaço Barreiros, Antígona, Novembro de 2017, pp. 50-51.



UM POEMA DE MEDBH MCGUCKIAN

2018-01-05T13:33:40.616+00:00


FUMO

Deitaram fogo às silvas ao longo da estrada.
Interrogo-me sobre o que o domina, pode o vento
Segurar aquela fulva cobra nas colinas,
Longe das casas?

Parecem tão seguros do que conseguem fazer.
Eu sou incapaz inclusive
De me conter a mim própria, corro
Até que o fumo alaranjado se fixe na terra.


Medbh McGuckian (n. 12 de Agosto de 1950, Belfast, Irlanda do Norte), Contemporary Irish Poetry, edited by Paul Muldoon, Faber and Faber, 2006, p. 373. Versão de HMBF.



UM CONTO, UMA LIÇÃO

2018-01-05T11:20:52.091+00:00

LIÇÃO IIMICRO-CONTO DESPACHADO CURRENTE CALAMO COM UMAAVENA LACÓNICA, DEPURADA, SIMPLES, CLARA, TÃO LÍMPIDAQUANTO LIMPA, ESCORREITA, ECONÓMICA E SEM NECESSIDADEDE RECURSO A CIFRANTE, SEM GORDURAS NEM ANTEROLOGIASESPICLONDRÍFICAS, NEM ESCOS ANFIGURIS, NEM ÉCFRASESINTERMINÁVEIS, NEM AUXESES PEDANTES, NEM BRAQUILOGIASMARINISTAS, NEM CIRCUNLÓQUIOS GONGÓRICOS, NEM SEQUERUMAS ALUSÕES EUFUÍSTAS A PLÍNIO, MAS REDUZIDO AOSDETALHES ESSENCIALMENTE ESSENCIAIS, PORÉM INOBSTANTE ISSOCOMPLEXO E FERVILHANDO DE VASTAS NUANCES E GIGANTESCOSSUBTEXTOS, COMPROVANDO DERRADEIRAMENTE QUE MENOS ÉSEMPRE MUITÍSSIMO  MAIS; OU O AUTOR TENTA SER UM ESCRITORCONTEMPORÂNEO BEM-COMPORTADO E FAZ UM ESFORÇO GENUÍNOPARA ESCREVER À MODA DA MODA LITERÁRIA DESTA QUADRA.Não sou eu o primeiro que o disse, que já o poeta se quei-xou que, quando queria ser breve, ficava escuro.Francisco Rodrigues Lobo, Corte na Aldeia— Cê gostou paca — ronronou Dalton.       Lydia, looking up, nodded ambiguously.Luís Miguel Rosa, in Nova arte de conceitos. Contos, Companhia das Ilhas, Julho de 2017, pp. 51-53.[...]



5 Comentários

2017-12-28T20:58:14.766+00:00

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A caminho de umas curtas férias, aproveito para desejar a todos os leitores e a todas as leitoras boas entradas em 2018. Queira a mãe Natureza, cá estarei em Janeiro com as minhas escolhas dos melhores livrinhos em 2017. Até lá, fiquem com a Édith Piaf. Saúde,



ANTOLOGIA DA POESIA ERÓTICA BRASILEIRA

2017-12-28T18:10:54.647+00:00

Não vale a pena elaborar teses sobre o assunto, há muito estamos fartos de saber que uma antologia será sempre obra incompleta. Estão uns, não estão outros. Nesta, por razões que se explicam, não está Manuel Bandeira, e, por razões inexplicáveis, não se encontra Manoel de Barros. Sobre para o que serve, remeto o leitor para a mais radical das dúvidas: para que serve a nossa vida? Serve, em última análise, para andarmos por cá a passear orelhas. As antologias como que registam quem andou por cá, seria estúpido exigir-lhes mais do que darem conta dessa passagem segundo critério previamente definido. Outra questão é o princípio a partir do qual damos conta, ou seja, o critério. E nisso, há umas que importam e outras que não importam para nada. Na Antologia da Poesia Erótica Brasileira organizada por Eliane Robert Morais, com edição portuguesa da Tinta-da-china (Novembro de 2017), o princípio foi o tema anunciado no título. Desde sempre o erotismo foi assunto de poetas, desde Safo na Grécia, desde o Cântico dos Cânticos no Médio Oriente, desde Vatsyayana na Índia, desde Ovídio, Marcial, Omar Khayyam… Para o caso em apreço, desde Gregório de Matos (1623-1696). Ouvimos falar dele, pela primeira vez, num voluminho da colecção Contramargem da &etc. Data de nascimento incerta — 1633? 1636? —, embora no índice do volume que agora nos prende se atribua ao “Boca do Inferno”, assim ficou para sempre conhecido, a data de 1623 como ano de nascimento. Não é relevante, conquanto saibamos ter sido lá pelo século XVII que o bardo deu à lira. Queremos, pois, perceber como foi tratado o erotismo na poesia brasileira ao longo dos séculos. E esta antologia oferece-nos uma panorâmica generosa, diversificada e extremamente inteligente. Basta ler o posfácio da organizadora para o constatarmos. Entre Gregório de Matos, lá do século XVII, e Claudia Roquette-Pinto (1963), com muitos anónimos pelo meio, são diversas as vozes, percorrendo movimentos que vão dos parnasianos aos modernistas, destes aos concretistas, dos concretistas aos marginais, aos tropicalistas, à poesia popular, de cariz fescenino, e de cordel, sem esquecer movimentos e colectivos menos relevantes para a história da literatura, mas interessantes para uma sociologia literária, como a Sociedade Epicureia de Álvares de Azevedo (1831-1852) e de Bernardo Guimarães (1825-1884), autor de A escrava Isaura.Como linhas de força da poesia erótica brasileira, Eliane Robert Moraes aponta a alusão escatológica enquanto forma de minar o sentimentalismo, de desconstruir o romantismo, de subverter o tom idealista da lírica amorosa tradicional. Poemas que descem à carne, pondo em xeque o amor enquanto emoção platonicamente idealizada, transgredindo o cânone moralizante e contrariando um lugar comum de poesia amorosa. Neste sentido, parece-me da mais alta relevância citar uma ideia explanada no posfácio: «antes de ser um modo de pensar o sexo, o erotismo literário é um modo de pensar a partir do sexo» (p. 292). O que certamente chocará certos leitores mais pudicos, conservadores ou convencionais, é precisamente esta linha transgressora do erotismo (seja ele brasileiro ou português), eticamente suportada pelos ensinamentos cínicos, pela “sabedoria do carpe diem”, pelo lado satânico do riso. Eis uma outra linha de força consagrada nesta antologia, a do riso, a da comicidade, a do exagero que, aliados à fantasia erótica, potenciam o gozo da vida e espantam a morte. Tudo pouco cristão, como se nota, mesmo quando[...]



BRASIL VERSUS PORTUGAL OU LÍNGUA PORTUGUESA INCULTA E BELA

2017-12-28T14:08:10.514+00:00

Vós tendes tetasnós temos peitosvós tendes conastemos bocetasvós tendes cusnós temos bundase uma profundasinonímiado que é cupara nós outros:boga, boscofefrinfa, ceguinholorto, ciobacibió, fobaabre-e-fecha-sem-cordãofranzido, pisca-piscaolho-da-goiabaalvado, fiobópevide, viegaszé-do-ózé-das-pregaszé-do-peidoescurinhofim de espinhaçorego, poçoe eticétera.A nossa línguatal como a vossausa a francesafaz o minete.Mas a trombadada nossa línguanão é trombadaé mais lambidaé mais chupada.Vós tendes vóstemos vocêspor não sabermosmais concordarnossos plurais.Vós e vossa excelênciasabem a ruibarbosaou indecência.Neil de Castro (n. 30 de Maio de 1940, Caicó, Brasil), in Antologia da Poesia Erótica Brasileira, org. Eliane Robert Moraes, Tinta-da-China, Novembro de 2017, pp. 230-231.[...]



BANDA SONORA ESSENCIAL #30

2017-12-27T17:50:46.800+00:00

   Quem poderia prever que do encontro entre o produtor “Rick” Rubin e Johnny Cash resultariam as pérolas coligidas nas American Recordings, inauguradas em 1994 e continuadas em cinco volumes posteriores? Johnny Cash (1932-2003), ícone da música country, pioneiro do rockabilly, cuja vida foi eternizada no filme Walk the Line (2005), de James Mangold, tinha mais de 60 anos quando começou a trabalhar com Rubin. A este, conhecido pela produção de bandas de hip-hop ou de heavy metal como os Beastie Boys e os Slayer, devemos a iniciativa de registar o génio musical de Cash da forma mais simples, recorrendo a pouco mais do que uma viola acústica e um teclado.    A voz de Johnny Cash impõe-se com uma clareza impressionante nos seis volumes das American Recordings, interpretando temas próprios ou de músicos tão distintos tais como Leonard Cohen, Tom Waits, Depeche Mode, U2, Beck, Tom Petty, Nine Inch Nails, Nick Cave, Will Oldham, Paul Simon, Sting, The Beatles, Hank Williams, Bruce Springsteen… Daqui resultaram colaborações e momentos solitários onde se afirmam tanto a universalidade da música countrycomo as capacidades interpretativas de Cash. Ouvimos o dueto com Nick Cave para um original de Hank Williams e percebemos como as canções podem abrir caminhos diversos numa mesma direcção, a de um sentimento representado pela combinação da palavra com a melodia.    Estas gravações são testemunhos autênticos de um valor atribuído à canção enquanto obra de arte, valor esse amiudadamente menosprezado por quem tenha das artes uma concepção elitista. A tradição norte-americana prova-nos o quão rico pode ser um cancioneiro popular, com as suas nuances e as suas especificidades erguidas sobre fundamentos sólidos capazes de aguentar as maiores tempestades criativas. Só esta riqueza explica que de uma banda de rockindustrial como os Nine Inch Nails possa sair um tema convertido, pelas mãos de Cash, numa das mais lindíssimas baladas country de que temos memória.    É óbvio que a plasticidade do mito “cashiano” ajuda à festa. O homem de negro é desde há muito a lenda de uma certa América melancólica e obscura, temente a Deus, com raízes num mundo rural perdido para o progresso e afogado em anfetaminas. As drogas, a tentativa de suicídio, a conversão, são os condimentos de uma vida de que a música é viva expressão. As American Recordings reabilitaram o músico, mas conquistaram também para a eternidade o mito. Assim é por terem permitido que a música de Johnny Cash chegasse a públicos que, de outra forma, muito dificilmente lhe prestariam qualquer atenção. allow="encrypted-media" allowfullscreen="" frameborder="0" gesture="media" height="315" src="https://www.youtube.com/embed/vt1Pwfnh5pc" width="560">[...]



DOIS SONETOS ERÓTICOS

2017-12-27T13:25:26.978+00:00

PROFISSÃO DE FÉOdeio as virgens pálidas, cloróticas,Belezas de missal que o romantismoHidrófobo apregoa em peças góticas,Escritas nuns acessos de histerismo.Sofismas de mulher, ilusões ópticas,Raquíticos abortos do lirismo,Sonhos de carne, compleições exóticas,Desfazem-se perante o realismo.Não servem-me esses vagos ideaisDa fina transparência dos cristais,Almas de santa e corpo de alfenim.Prefiro a exuberância dos contornos,As belezas da forma, seus adornos,A saúde, a matéria, a vida enfim.Carvalho Junior (1855-1879), in Antologia da Poesia Erótica Brasileira, org. Eliane Robert Moraes, Tinta-da-china, Novembro de 2017, p. 81.PLENA NUDEZEu amo os gregos tipos de escultura:Pagãs nuas no mármore entalhadas;Não essas produções que a estufa escuraDas modas cria, tortas e enfezadas.Quero um pleno esplendor, viço e frescuraOs corpos nus; as linhas onduladasLivres: de carne exuberante e puraTodas as saliências destacadas...Não quero, a Vênus opulenta e belaDe luxuriantes formas, entrevê-laDe transparente túnica através:Quero vê-la, sem pejo, sem receios,Os braços nus, o dorso nu, os seiosNus... toda nua, da cabeça aos pés!Raimundo Correia (1859-1911), in Antologia da Poesia Erótica Brasileira, org. Eliane Robert Moraes, Tinta-da-china, Novembro de 2017, p. 94.[...]



OTIMISMO E NÃO DESESPERO

2017-12-27T11:02:39.813+00:00

A filosofia política de Noam Chomsky (n. 1928) define-se pela conjugação do anarquismo, enquanto promotor do instinto humano para a liberdade, com o socialismo libertário, termo que apesar de gasto e muito mal-entendido continua a servir uma ideia de solidariedade mútua entre os homens. Em síntese, o seu pensamento reflecte com inabalável constância esse esforço de aproximação. As entrevistas coligidas em Otimismo e não Desespero (Elsinore, Novembro de 2017) são exemplo disso mesmo, quer quando tenta responder a questões genéricas sobre a essência da humanidade, quer quando se concentra nos problemas da actualidade.Chomsky é inspirador, como Gramsci o conseguiu ser, quando a um muito apreciável pessimismo da inteligência contrapõe o vigoroso optimismo da vontade. Nisso nada acrescenta de especialmente novo. O interesse renovado por esta fórmula tem hoje outras implicações. Chomsky ultrapassa as fronteiras de um mero pessimismo metódico, sugerindo cenários de catástrofe no diagnóstico levado a cabo: «Acredito que a sobrevivência humana decente está em jogo. As primeiras vítimas serão, como sempre, os mais fracos e vulneráveis»(p. 87); «A destruição da espécie está ao nível de há 65 milhões de anos, a Quinta Extinção, que acabou com a era dos dinossauros» (p. 128); «Há boas razões para crer que já entrámos na Sexta Extinção, um período de destruição de espécies a uma escala monumental» (p. 148).Se o diagnóstico é catastrofista, as conclusões revelam-se apocalípticas. Que espaço resta, então, para o optimismo? O espaço para o optimismo da vontade num cenário como o traçado é o da fina linha do horizonte para o qual pretendemos caminhar. Entre nada fazer e tentar alguma coisa, são poucas as opções. E manda a inteligência, mesmo a mais pessimista, que se tente alguma coisa. Os dois fundamentos deste discurso são as duas grandes questões que se colocam à humanidade nos nossos dias: o problema do aquecimento global e a eminência de uma guerra nuclear, que Noam Chomsky considera milagre ainda não ter acontecido. Sobre o segundo problema, não podia ser mais explícito: «As armas nucleares já estão nas mãos de grupos terroristas: terroristas estatais, com os Estados Unidos na liderança» (p. 96). O que fazer? Organizar as massas no sentido de gerar movimentos de pressão que forcem os governos a verem-se livres desse tipo de armamento como outrora nos libertámos da varíola. O primeiro dos problemas, porventura mais complexo nas soluções a que obriga, aparenta uma irreversibilidade desanimadora. Há muito que pode ser feito, assim queira quem o pode fazer. Sucede que, como bem aponta o filósofo, será sempre muito difícil avançar nesta matéria das alterações climáticas quando na maior potência mundial «40% da população não o considera um problema, pois Cristo regressará nas próximas décadas» (p. 186). Não são poucas as ocasiões em que nestas entrevistas se sublinha o fundamentalismo religioso da sociedade norte-americana, em muitos aspectos semelhante a outras formas de fundamentalismo religioso, como um dos maiores entraves à razão e, por consequência, ao progresso social. A crença é inimiga da razão, logo o é também do progresso. De resto, este fundamentalismo tem as suas implicações directas na economia e, por consequência, na sangria democrática do sistema político: «Os Estados Unido dizem-se uma democracia, mas já clara[...]



HIPOCRISIA

2017-12-26T22:05:43.729+00:00

Em que mundo julgarão viver certas pessoas? 
Uma empresa portuguesa volta a ser centro de polémica nas redes sociais por causa de bolos rei deitados para o lixo. Em que mundo viverão as pessoas? 
Lembrei-me do documentário de  Agnés Varda, Os Respigadores e a Respigadora, que os meus formandos viam com espanto. Como era possível tanto desperdício? Não só é possível, como é regra no mundo que abraçámos. Já nesse filme, com 17 anos, se falava de uma produção de batatas desperdiçada em França que daria para minimizar a fome em África. Tudo porque as batatas não tinham as dimensões ideais para captarem a atenção dos consumidores nos hipermercados. 
O mundo em que vivemos é de uma hipocrisia ilimitada, incompreensível. Só mesmo a hipocrisia é incompreensível nesse mundo, pois tudo o resto é facilmente explicável. 
Quando vou vazar o lixo no fim de um dia de trabalho, deparo-me frequentemente com produtos que as lojas do shopping deitam para o lixo. Há dias, uma colega levou para casa um par de sapatos sem atacadores, um saco de boxe ligeiramente rasgado e umas luvas, uma mochila com ligeiro defeito numa asa. 
Circularam por aí imagens do recinto onde foi realizado um festival de música, com sacos cama, mesas, chinelos, tendas, toneladas de adereços de campismo ao abandono. 
Há tempos, eu próprio fiquei estupefacto com o número de paletes carregadas com pães-de-leite e de croissants directamente deitados para o lixo por causa da validade. Validade. 
É assim o dia-a-dia dos grandes negócios alimentados pela nossa sociedade de hipócritas, a horda de consumidores insaciáveis para quem muito é sempre pouco. 
Estavam à espera de quê? Que fosse feito às escondidas para não chocar tanto a sensibilidade de merda das redes sociais?
Grata estará a rede de pastelarias em causa pela publicidade inusitada que lhe fazem. Mesmo sendo negativa, por certo renderá mais visitas para o brioche do dia. 
País de hipócritas. Aposto que tiveram todos um natal austero.



BOCAS

2017-12-26T21:39:02.001+00:00


Ah, que saudade dos grandes mestres.