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antologia do esquecimento





Updated: 2017-11-17T17:33:14.939+00:00

 



VENHAM A DEUS OS MACHOS

2017-11-17T12:31:16.183+00:00


D. Manuel Clemente desaconselha o sacerdócio a jovens que manifestem inclinações homossexuais. Manifestar inclinações homossexuais é algo vago, pelo que deveríamos exigir a D. Manuel Clemente uma clarificação das recomendações. Aconselha-se o sacerdócio a garanhões? E a ninfomaníacos? E a pedófilos? E a predadores sexuais? As dúvidas são muitas, nesta matéria de difícil compreensão para um ateu. O que já não é tão difícil, e obriga o ateu a manifestar-se, é a constatação de que um discurso segregacionista, homofóbico, discriminatório, proferido por certas clemências não gera tanto asco social, tanta indignação e condenação, como se fosse proferido por outros Manuel. Fica a dúvida: porquê?



A HISTÓRIA DO CHECOSLOVACO

2017-11-17T12:16:22.093+00:00

   Entre a enxerga e as tábuas da cama, eu encontrara, com efeito, um velho bocado de jornal, amarelecido e transparente, quase colado ao pano. Relatava um acontecimento cujo início faltava, mas que devia ter sucedido na Checoslováquia. Um homem partira de uma aldeia para fazer fortuna. Ao fim de vinte e cinco anos, rico, regressara casado e com um filho. A mãe dele, juntamente com a irmã, tinham uma estalagem na aldeia. Para lhes fazer uma surpresa, deixara a mulher e o filho noutra estalagem e fora visitar a mãe, que não o reconheceu. Por brincadeira, tivera a ideia de se instalar num quarto como hóspede. Mostrara o dinheiro que trazia. De noite, a mãe e a irmã tinham-no assassinado à martelada e atirado o corpo para o rio. No dia seguinte de manhã, a mulher do desgraçado viera à estalagem e revelara, sem saber, a identidade do viajante. A mãe enforcara-se. A irmã atirara-se a um poço. Devo ter lido esta história milhares de vezes. Por um lado, era verosímil. Por outro lado, era natural. De todos os modos, achava que o viajante merecera até certo ponto a sua sorte e que nunca se deve brincar com estas coisas.

Albert Camus, in O Estrangeiro, trad. António Quadros, introdução de Jean-Paul Sartre, Livros do Brasil, s/d, pp. 161-162.



MEURSAULT

2017-11-17T12:06:35.973+00:00

Cúmplice do cansaço e do sono, aceito
a indolência a que, por ignorância, dão
o nome de indiferença. É castigo deste sol
a censura acomodada do suor, os braços

de Maria como um beco sem saída. Contra
a indiferença do Mundo, temos o torpor
do homem condenado a viver a morte
como cão sarnento levado pela trela. Sublinho

que então tenhas compreendido: “um homem
que houvesse vivido um único dia, poderia
sem custo passar cem anos numa prisão”. Sou,
no entanto, a mosca no rosto que não aceita

teres sido complacente para com o patrão.



#103

2017-11-16T12:44:54.038+00:00


Durante a década de 1990, os The Smashing Pumpkins foram uma das bandas que melhor soube aproveitar a vaga grunge em favor de um rock ambicioso na diversidade das suas propostas. Liderados por Billy Corgan, personagem perturbadora e, ao que se sabe, perturbada, nos The Smashing Pumpkins confluíam tanto a herança do heavy metal da década de 1970 como a pop neo-romântica, de inspiração gótica, da década seguinte. A perda de fôlego começou a desenhar-se já no séc. XXI, com Corgan a envolver-se em novos projectos onde ficavam patentes as mazelas de uma depressão profunda. Não será exacto considerar Ogilala (2017) o primeiro álbum a solo de William Patrick Corgan, embora o registo intimista e acústico, ao jeito mais tradicional de escritor de canções, o permita. Apoiado por um piano e pela guitarra folk, aceitando ocasionais arranjos de cordas e a colaboração de James Iha, guitarrista fundador dos The Smashing Pumpkins, Corgan esconjura em baladas simples e sem segredos, apesar da obscuridade das letras, os demónios de um universo pessoal serenado pela vida familiar. A produção do experimentadíssimo Rick Rubin, que trabalhou com Johnny Cash as American Recordings, dá uma ajuda:


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UM POEMA DE MANUEL FERNANDO GONÇALVES

2017-11-16T10:45:18.696+00:00

Esta alma de que falo, supercaraCostumava pensar que um subsídioé que era, dava um jeitão para escrever,o que significa, de forma mais fria, respondera esse apelo conforme o clima e a paisagem,um pouco na mesma onda do cinema,da responsabilidade política e, até, do crimeorganizado. Escreveria melhor, decerto,pensaria mais, ostentava outra ousadia,muito mais próxima da realidade, ora não?Como toda a poesia tem princípios, não sei o que mais tem, é bom que se saibaque o estado é meu devedor e que não relegoo direito de ser um poeta de luxo, de ninguémme ler o que, acredito, me torna, assim, universal:não admito a existência sem uma casa grande,cheia de segredos, impecável, sem uma empregadaque, além do resto, me trate da roupa, recebapequenos extras, me trate com respeitoe alguma estima. Sem telemóvel é que não!Senão como falarei para o infinito, para deus,para os outros poetas sobre a graçaque tem a fina desgraça deste mundo? E as contas,as contas têm de ser pagas, imaginem sóficar a dever alguma coisa a alguém! Não há sacopara autarcas e muito mais elegante é pagar,ao cêntimo, a esses que cobram preços exorbitantese, tolos, imaginam que sou eu ao pagá-los.Também não se suporta vinhos medíocres: fazem malao estômago e qualquer sagitário tem isso como adquirido,que vinhos só muito bons e libações só mesmo elegantes.Além de que gosto de guiar, de me precipitarpelas noites cerradas dos arredores, de passear nas avenidas,pequeno frisson de dar toques breves na morte:quase escândalo que comungo com os políticos,meus superiores e chefes, é que o mecânico me leve,sem pestanejar, cinquenta euros à hora. Não admira, pois, que só escreva se gastar dinheiro, paciênciae génio em símbolos o que, aliás, é congénito, não´resisto a caprichos desmedidos que me namorem a alma.Esta alma, de que falo, tornou-se complexa, letal:quando, por exemplo, trabalho nas coisas inúteis da nação,desacompanha-me, abandona o seu refúgio de nervose sangue e põe-se cá fora, ao lareú, a gozar com o respeitoque devo aos escritores, aos senhores doutoresdo poder em toda a instância e lá vou eu pararao hospital à mínima emoção, ao mais pequeno sinalde falta de ar. E falta tanto, o ar, em Portugal!Ora, isso paga-se, a saúde não é de graça,nem para graças, se bem que gosto de enfermeiras, étere de pequenas brochuras supercaras com cenasde campo e tratamentos ambulatórios.Se tivesse ocasião para me aconselhar com o médicoque escreve um dos outros livros, era contadoque a obra morria aqui mesmo e agora. Mas já tenhotítulo para o novo poema: «ponto de fusão baixo e volátil».Vou pedir-lhe um atestado para faltar ao trabalhosem ter de descontar no ordenadoe no tempo de férias.Manuel Fernando Gonçalves, in Romance Ardente, Frenesi, Setembro de 2017, pp 28-29.[...]



MAIS SILÊNCIO E MENOS TRETA

2017-11-15T18:45:33.213+00:00

Há uns meses, abrindo café novo nas imediações da casa portuguesa, vi que tinham umas prateleiras nas paredes com livros. Passei por lá e deixei uns exemplares que tinha repetidos em casa de Madame Bovary e de Moby Dick. Disse à jovem senhora, agradecida pela oferta e de uma polidez e simpatia irrepreensíveis, que a coisa fica mais composta com aqueles clássicos. De uma geração que fez o secundário e que provavelmente frequentou a universidade, disse que os desconhecia. Nada que surpreenda, nem eu a condeno por isso. É algo de perfeitamente normal entre nós. Todos nós conhecemos gente boa e bem formada que os desconhece.
Por outro lado, há qualquer coisa que falha no sistema de ensino português quando aqueles que o frequentaram chegam à idade adulta sem conhecerem (ainda que pela rama) esses romances fundamentais do sec. XIX. Há algo de errado numa sociedade que não os propaga e oferece, louvando-os, falando deles, aos geral dos indivíduos que a integram. De alguma forma, essa falha é colmatada à medida que nos deslocamos do sudoeste europeu até ao extremo nordeste. Há mais livros, mais leitores. Diria que mais bom-senso e empatia, mais silêncio e menos treta.


Ler o texto completo no Âncoras e Nefelibatas: aqui.



ESCOLA DE TAGARELAS

2017-11-15T12:18:39.264+00:00

   Jean-Paul Sarte introduz “O Estrangeiro”, de Albert Camus, afirmando que a noção de absurdo concebida pelo autor nada tem de original. Já antes, uma «espécie de razão seca, curta e contemplativa», de que Pascal seria exemplo, serviu de lugar-comum ao «pessimismo clássico». É o contexto do homem que aspira à eternidade sabendo-se finito. Tendo a morte por horizonte, a vida adquire o sentido do absurdo. O suicídio seria a solução lógica, não fosse a revolta o recurso mais à mão. O homem absurdo não se suicida, revolta-se. Também podia não se revoltar, acomodando-se. O que será mais próprio do homem absurdo: a revolta ou o conformismo? E neste conformismo não estará o gérmen de toda a transcendência? 
   Além de lhe retirar originalidade, Sartre afirma que «Camus cita textos de Jaspers, de Heidegger, de Kierkgaard, que, aliás, nem sempre parece compreender bem». Talvez não os tenha compreendido como Sartre compreendia, o que não determina que os tenha compreendido menos bem. Compreendeu-os de forma diferente. Um texto não aceita uma única compreensão. A crítica de Sartre é em si mesma absurda, na medida em que compreende «a inutilidade da razão que raciocina» sem lhe reconhecer o dado mais óbvio: o da subjectividade da interpretação. 
   Mais adiante, Sartre acrescenta: «será preciso não ver em “O Estrangeiro” uma obra inteiramente gratuita», como se houvesse nela alguma gratuitidade. O disparate vai ao ponto de lhe imputar uma supostamente perniciosa «familiaridade com o silêncio», para depois acrescentar: «Camus fala muito, em “O Mito de Sísiso” chega a tagarelar». Mas quem cumpre melhor o papel de tagarela senão Sartre com tal introdução? 
   O remate redutor, classificando “O Estrangeiro” como «um curto romance de moralista» ao nível de «um conto de Voltaire», é típico de uma leitura incapaz de olhar para o objecto sem ser em comparação, isto é, tagarelando. Muito do que hoje se produz em termos de crítica literária tem nesta introdução um exemplo antecipador. Sartre foi uma espécie de mensageiro isolado na ilha do pensamento. Críticos vários terão encontrado as garrafas que Sartre largou no mar, lendo-lhe as mensagens sem chegarem a perceber de onde e de quem vinham. Também não é imperioso que o saibam, pois mensagens tais enraízam-se sempre onde medra o ressentimento. Já nem sei se pior que isto é fingir que se ignora, fazer de conta que não se sabe ou omitir por calculismo.



UM POEMA DE RUI BAIÃO

2017-11-15T10:29:32.221+00:00

Memento moriO importante é saber se trabalhar cansa.Só de me rir continuo a morrer. Morto, e bem mortona morte — esse o teu chip romântico?... Trabalhar cansa,corrói tudo por dentro, como as ratazanas sabem.Euseilá, se sou meio cá meio lá, de encontro ao muro,no chão, ou no sofá. A dívida de tão infra humana, o termo--aquecimento, os drones a cert'altura, a geolocalização.É tudo tão triste, euseilá se um peregrino a fazer químiofaz toda a diferença? Euseilá se faz pena uma cidadecom berças. É só conversa, certos Estados democráticosidem idem, do wi-fi da tua alma que é tão fraco. Do viral terror,das doenças terminais. Enfim, morrer, morrer de mais cansa.Dá trabalho a muita gente, a fechadura romântica!?Trabalhar, dá vontade d'estar preso, d'abrir os portões ao paiol.Dar de cabra sem saber, se uma chamada caída,se um avião desviado. A um não-doente, a comichão política& exsudativa da nação. O prémio da montanhaé de louvar a descida aos infernos. Dá vontade de bazardaqui para fora. A correr, a saltar. A pular quandomorro a pedalar. Não trabalhar é imperioso.Rui Baião, in Barbearia Tiqqun, Frenesi, Setembro de 2017.[...]



VIVA O CAPITALISMO

2017-11-14T10:14:47.623+00:00

   A família de Mollie estava a atravessar uma ponte entre, não apenas dois séculos, mas também duas civilizações. A aflitiva situação da família piorou ainda mais em fins dos anos 1890, quando o governo americano intensificou a sua investida rumo ao auge da campanha de assimilação: a distribuição de lotes. De acordo com esta política, a reserva osage seria dividida em parcelas de sessenta e quatro hectares, em propriedade imobiliária; cada membro da tribo receberia um lote, e o resto do território seria aberto aos colonos. O sistema de lotes, que já fora imposto a muitas tribos, foi concebido para acabar com o antigo modo de vida comunitário e transformar os índios americanos em proprietários de terra - uma situação que, não por acaso, tornaria mais fácil a compra das suas terras.
   Os Osage tinham visto o que acontecera à Cherokee Outlet, uma vasta pradaria perto da fronteira ocidental da reserva osage. Depois de o Governo ter comprado a terra aos Cherokee e esvaziado de gente a região anunciou que, ao meio-dia de 16 de setembro de 1893, um colono poderia reivindicar uma das quarenta e duas mil parcelas de terra - desde que ele ou ela chegasse lá primeiro! Durante dias antes dessa data, dezenas de milhares de homens, mulheres e crianças tinham vindo de locais tão longínquos como a Califórnia ou Nova Iorque, aglomerando-se ao longo da fronteira; a massa andrajosa, imunda, desesperada, de seres humanos, estendia-se até se perder de vista, como um exército pronto a lutar contra si mesmo.
   Finalmente, depois de as autoridades terem abatido vários «apressados» que tentaram passar a fronteira antes do tempo, soou o tiro de partida - UMA CORRIDA PELA TERRA COMO NUNCA FOI VISTA NO MUNDO INTEIRO, como intitulava um jornal. Um repórter escreveu: «Homens desatavam ao murro até que os mais fracos ficavam por terra. Mulheres gritavam e caíam desmaiadas, correndo o risco de morrerem sob os pés da multidão.» E acrescentava: «Homens, mulheres e crianças jaziam por terra ao longo de toda a pradaria. Aqui e ali, homens lutavam até à morte, reclamando cada um que tinha chegado primeiro a determinado sítio. Navalhas e espingardas eram empunhadas - uma cena terrível e impressionante; não há nenhuma pena capaz de a descrever. (...) Era uma luta em que, de uma maneira muito clara, o que estava em causa era o salve-se quem puder e que valha a lei do mais forte.» Ao cair da noite, a pradaria cherokee estava já reatalhada em pedaços.

David Grann, in Assassinos da Lua das Flores - A Matança dos Índios Osage e o Nascimento do FBI, trad. José Vieira de Lima, Quetzal Editores, Julho de 2017, pp. 69-72. 



FALAR PARA O BONECO

2017-11-14T08:47:43.769+00:00


Blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá...



HERANÇA

2017-11-14T08:36:26.569+00:00

Foi no Teatro da Barraca, sentei-me
ao lado de teu pai para ouvir a Cláudia
e a Raquel dizerem os teus poemas.
Tinha anoitecido, o teu irmão estava

de pé com uma bebé ao colo. Ninava-a
ao som das tuas palavras. Poucas pessoas
terão entendido cada um dos versos
com que iluminaste a noite dos teus dias.

Por momentos, abstraí-me de tudo e
de todos. Olhei para o tampo da mesa
onde encontrei uma fralda usada pela tua
sobrinha: vi um suculento limão inteiro.



WC MAIS SEXY DO MUNDO

2017-11-13T20:02:17.696+00:00

“Querem fazer do Panteão sacrossanto? Muito bem. Então lembrem-se que este é o país cuja Assembleia da República aprovou a trasladação de Eusébio para o Panteão um ano após o seu falecimento, mas que ainda não conseguiu para lá levar Aristides de Sousa Mendes quase oitenta anos depois de ele ter salvado milhares de vidas na IIª Guerra Mundial. Mais: este é o país no qual, se acontecesse a desventura de falecer Cristiano Ronaldo, a AR teria em toda a coerência de levar o CR7 para o Panteão ainda antes de lá pôr um “justo entre as nações” como Aristides. E repetir-se-ia para muitos dos escandalizados de hoje o aplauso geral com que não falharam ontem.
Querem respeitar o simbolismo dos monumentos nacionais? Muito bem. Reparem então, de cada vez que passarem pela Praça do Comércio, espaço central da nossa simbólica de Estado, que a República mais visível que lá encontrarão é a República… da Cerveja. Reparem que um pedaço da mesma praça está ocupado por uma coisa chamada o “WC mais sexy do mundo”, concessionado para permanente propaganda de uma marca de papel higiénico (é ao lado do Ministério das Finanças; paga-se 50 cêntimos para usar os urinóis e passam fatura com número de contribuinte, portanto deve estar tudo certo). Isto nunca escandalizou ninguém em Portugal. Perguntem-se se o mesmo aconteceria na Praça de São Pedro, no Louvre ou no Kremlin.”


Rui Tavares, aqui.



BANDA SONORA ESSENCIAL #25

2017-11-13T20:08:42.808+00:00



   Entre as muitas canções popularizadas por Chet Baker, “Like Someone In Love” ocupa um lugar especial. Composta por Jimmy Van Heusen, com letra de Johnny Burke, foi ao longo dos anos objecto de inúmeras versões. Em 1993, a islandesa Björk Guðmundsdóttir incluiu-a no álbum que acabaria por catapultá-la para a fama internacional.
   Antes de Debut (1993), Björk já tinha editado dois álbuns a solo e colaborara com várias bandas. Os The Sugarcubes serão a mais conhecida. O gosto pela música jazz ficara patente no álbum Gling-Gló (1990), pelo que a versão de “Like Someone In Love” não espantou. Às vezes amo Björk, outras vezes odeio-a. Esta relação bipolar tem na sua origem um preconceito para com o deslumbramento visual que acompanha amiúde as suas produções. O engenho vocal ninguém lho tira, pelo que por vezes lamenta-se o excesso de parafernália visual que se lhe sobrepõe. É como pôr demasiada maquilhagem num rosto naturalmente belo.
   Em Debut, “Like Someone In Love” afirma-se como um momento de irresistível intimismo. Acompanhada por uma harpa, Bijörk canta sobre o som das ondas do mar, depois de no início do tema ouvirmos o sorriso de crianças e o motor de um carro a chegar e a partir. Canta para as estrelas, canta para o mar, canta para o pôr-do-sol, enquanto à sua volta finda mais um daqueles dias que Lou Reed classificaria de “perfect”. Ou será que faz testes de som antes de iniciar uma noite de trabalho num clube nocturno?
   “Like Someone In Love” surge a meio do álbum, como uma espécie de pausa entre temas que percorrem tanto os domínios da pop electrónica, perfeitamente dançáveis, tais como “Big Time Sensuality”, e a elegância de baladas com orquestrações românticas ao género de “Come To Me”. Outro momento igualmente intimista e desnudado no álbum é o tema final, “The Anchor Song”. Já este ano, Björk presta-se a reaparecer com um visual directamente inspirado em obras de literatura fantástica ao estilo nórdico. O disco chama-se Utopia. Prefiro-a desmaquilhada ou como no magnífico tema “Aeroplane”, em busca de um lugar que suplante a solidão de corações ao abandono. 


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PAI

2017-11-13T14:19:42.427+00:00

A poesia é não só, mas também, um discurso das emoções. Mais do que exprimir sentimentos, resvalando por vezes para o sentimental, o poema, como qualquer outra obra de arte, coloca-nos em contacto com a emoção. Um filme emociona-nos, uma canção emociona-nos, um quadro emociona-nos, uma peça teatral emociona-nos. Porque haveria de ser diferente com o poema? Mau seria que se esgotasse na emoção a razão de ser da obra de arte. Ela instiga a reflexão, aclara o obscuro, introduz-nos e inicia-nos no esotérico, exercita o pensamento, mas não podemos esquecer nunca esta ligação da obra de arte às emoções. Ainda para mais quando se torna evidente a conexão entre as emoções e o pensamento. Podemos julgar que na raiz deste contacto, no que respeita à obra de arte, reside uma ideia de beleza, conquanto aceitemos que essa ideia de beleza não recuse a fealdade enquanto contraponto que reforça o belo. A fealdade é aliada da beleza, na medida em que a sua exposição leva-nos a ansiar pelo seu contrário. Sentimentos tais como a raiva e o ódio exigem-nos um encontro com a solidariedade e com o amor. A tristeza, a alegria, a melancolia, que é mais um estado de alma do que um sentimento, surgem entre os mais universais dos estímulos para a concepção do poema: o amor e a morte. A elegia será, provavelmente, a forma poética que melhor interliga o amor e a morte. Carlos Bessa (n. 1967) publicou recentemente "uma elegia" de 33 poemas, em memória de seu pai, falecido no ano de 2016. O título Pai (do lado esquerdo, Maio de 2017) vai directo ao assunto, escusando apetrechos líricos que a situação de luto desvaloriza. Há neste livro poemas arriscados, como os intitulados Mesa Mediterrânica e Percursos, devedores in extremis de uma necessidade de clareza que o título do conjunto sugere. Noutros poemas, o autor ocupa-se na recuperação de memórias remexendo cofres ao abandono, capta as rotinas do pai falecido, caracteriza-lhe a personalidade e constrói-lhe uma história, expõe as últimas horas e rememora situações passadas, numa busca de sentido para a vida que é, ao mesmo tempo, uma tentativa de compreensão d’«O estupor da morte que nos assalta a razão» (p. 23). No que de melhor ofereceu à filosofia, Martin Heidegger desenvolveu a ideia do ser enquanto ser para a morte. Sabemos que não teremos a experiência da nossa própria morte, mas a experiência da morte dos outros é, de algum modo, a experiência limite que podemos ter da nossa morte. Tratando-se da morte de um pai, a relação de proximidade intensifica essa experiência. Isso mesmo surge sublinhado num pequeno e belíssimo poema intitulado Espelho: «Dizem que somos parecidos / como quando ao nascer se projectam / laços e afinidades. Devemos ser, / mau grado as tantas diferenças. / Somos de tempos distintos. / Na verdade, tu sempre foste melhor, / mais perto dos outros. Eu hesito, / ainda, como se o nome, o meu, / fosse todo o peso de uma herança» (p. 35). A herança não é aqui apenas a de um nome, nem a que os elos filiais determinam, é igualmente uma herança de valores que a perda obriga a reconhecer com a mesma clareza com que se reconhecem «laços e afinidades». Os momentos de tardia declaração de admiração que surgem em alguns destes poemas, sem nunca se perderem num sentimentalismo inócuo, são testemunhos pungentes de uma lição para a vida proferida pela experiência prática da morte: «O corpo está na capela mortuária, / tem de falar com uma funerária. Como / se nos piores momentos a morada da poesia / fosse o silêncio que rompe a noite num ah, / há que agir, que falar, que acordar, que pensar. / É preciso combater a anestesia e / arr[...]



UM POEMA DE CARLOS BESSA

2017-11-13T11:45:09.379+00:00

MESA MEDITERRÂNICAFigos, castanhas, laranjas, tangerinas.Nêsperas, pêssegos, cerejas, melancia.Uvas, pêras, bananas, kiwis.Nozes, avelãs, pinhões, amêndoas.Tripas, rancho, feijoada, chispe.Cabidela, leitão, lebre, cabrito.Agrião, alface, salsa, hortelã.Cozido e mil e uma maneiras de bacalhau.Robalo, badejo, solha, tainha.Enguia, lampreia, abrótea, faneca.Marmota, carapau, chicharro e sardinha.Salmão, cavala, truta, pescada.Salmonete, dourada, sargo, peixe-espada.Chocos, lulas, polvo, cavaco.Santola, sapateira, lagosta e camarão.Queijos, enchidos, mostardas e pão.Alvarinho, verde branco e tinto.Douro, Ribatejo, península de Setúbal, Alentejo.Madeira, Porto, aguardentes velhas.Moscatel, rum e gin. Prazeres simples.Carlos Bessa, in Pai, do lado esquerdo, Maio de 2017, p. 12.[...]



PROPOSTA PARA PALAVRA DO ANO

2017-11-13T08:38:40.302+00:00

Cativações.



PANTEÃO DE PAROLOS

2017-11-13T08:37:53.517+00:00

Subitamente, um sem número de gente acordou para os jantares no Panteão. Os telejornais abrem com o assunto, chamam a si os comentadores, insistem e persistem e é como se nunca antes se tivesse visto coisa assim. Isto só prova que os mortos que ali repousam são os menos mortos deste país de parolos e de parolices. Que tédio.



EPIFANIAS #33

2017-11-12T19:53:07.141+00:00

33

   Passam aos pares e em trios por entre a vida na avenida, caminhando como pessoas com tempo livre num espaço por eles iluminado. Estão na pastelaria, tagarelando, esmagando pequenas construções de pastelaria, ou silenciosamente sentados em mesas junto à porta do café, ou descendo de carruagens com agitados agasalhos suaves como a voz do adúltero. Passam num ar de perfumes: sob os perfumes os seus corpos têm um cheiro quente húmido. . . . . Nenhum homem os amou e eles não se amaram a si mesmos: nada deram por tudo quanto lhes foi dado.

James Joyce, in Shorter Writings.

Versão de HMBF.



«Do cavalo… Nada sabemos.»

2017-11-12T19:30:42.047+00:00


Nietzsche declarou a morte de Deus. E Deus vingou-se no filme de Béla Tarr. Da mesma maneira que criou o dia e a noite, o céu e a terra, o homem e a mulher, também os destruiu, em seis dias.

Rui Manuel Amaral, sobre O Cavalo de Turim, de Béla Tarr (aqui).



PROFECIA

2017-11-12T14:16:58.578+00:00

Que a vida digital sobrevive à vida física, já se tinha tornado evidente e por vezes inquietante. Por isso, o Facebook passou a oferecer um serviço que, mediante as provas do óbito, apaga o perfil dos mortos. Mas nem por isso o Facebook deixou de ser um gigantesco cemitério sempre em expansão, e chegará o momento em que terá mais mortos do que vivos.


António Guerreiro, no Público.



COMUNISMO HOJE

2017-11-11T19:12:31.718+00:00

   O maior problema com que o comunismo se confronta na actualidade não é o inegável anacronismo de muitos dos seus defensores, mas sim o insuportável anacronismo dos seus detractores. Não é possível falar de comunismo hoje como se falava há 100 anos. A crítica aos erros cometidos tem vindo a ser feita quer pela história, quer por muitos dos seus principais actores. Como qualquer outra ideologia, o comunismo presta-se a diversas interpretações e, disso podemos estar certos, será sempre mais fecundo enquanto força inspiradora da acção do que foi nas múltiplas tentativas de ser levado à prática literalmente.
   Certas pessoas falam dos crimes cometidos sob a bandeira do comunismo como se falassem de algo extraordinário. O crime não é próprio das ideologias, como nunca foi das religiões. Os crimes cometidos sob a cruz de Cristo esgotam o cristianismo? Alguma vez o comunismo lançou uma bomba atómica? Esteve o comunismo na origem das duas Grandes Guerras do séc. XX? A democracia burguesa não tem também as suas inumeráveis vítimas disseminadas pelos campos de concentração do capitalismo global, chamem-lhe fábricas ou oficinas terceiro-munditas? Os campos de concentração foram uma invenção comunista? Uns males não legitimam outros, o que é válido tanto para uns como para outros.
   Creio que o maior desafio colocado a um comunista na actualidade é o de levar a cabo um exercício crítico sobre o papel de uma ideologia cujo princípio fundamental é o de libertar o homem da exploração por outros homens, servindo-se das experiências do passado não como fardo mas como lição. A luta é pertinente e impõe-se cada vez mais enquanto necessidade absoluta, algo que a mais recente edição do Web Summit tornou claro com a exibição dos seus engraçados robots neoliberais.
   Também já não está apenas em causa deixarmos de ser explorados, está em causa a possibilidade de continuarmos a ser humanos. Os detractores do comunismo ainda não perceberam isso, encantados que andam com a sua cassete simplificadora da luta comunista. Dizem que é sempre a mesma a nossa cassete, como se, tragicamente, não fosse sempre a mesma a que lhes ouvimos quando pretendem desacreditar uma luta fundamental. A história dos comunistas é feita dessa desacreditação. Foi assim quando lutaram pela libertação dos povos em plenos regimes fascistas, é assim na luta pela dignificação de todos os seres humanos em plenos regimes pseudodemocráticos. 
   Pressentirmos que assim continuará a ser não pode desanimar quem se convença da justiça dos propósitos, antes oferece ao discurso um novo e exigente sentido de clareza. A Guerra Fria pode ter acabado, mas a de uma tacanha tepidez crítica ainda agora começou. 



ERIKA

2017-11-11T18:19:14.844+00:00

Para o Miguel de Carvalho

Quantos dedos, Erika, terão enrolado
os teus cabelos? Quantas redacções
terás dado à luz, quantas vezes de um
lado para o outro musicando as tardes

do escritor, do redactor, da secretária?
Estás em promoção no OLX com nome
de boneca, brinquedo antigo vencido
por ecrãs tácteis e outras modernices.

Ainda há quem te afague as barras e dê
uso aos tipos, insistindo na anacrónica
linguagem dos erros sob fitas correctivas.
Somos discípulos do mesmo declínio,


Erika.



PANTEÃO

2017-11-11T18:00:25.328+00:00

E depois foram todos para o Panteão rapar ossos.



LER, N.º147, OUTONO DE 2017

2017-11-10T20:22:11.696+00:00


Clique na imagem para ver melhor.



DÚVIDA QUE SE IMPÕE

2017-11-11T08:07:22.476+00:00

Uma aluna viu uma lagarta no prato da refeição escolar e resolveu filmá-la, para posteriormente divulgar o vídeo nas redes sociais. Por conta disso, está a ser alvo de um processo disciplinar. Quando irá Marcelo ao seu encontro para confortá-la?


Adenda: pela democracia, um abraço também ao desgraçado Duarte Marques. A felicidade não é com ele, que anda sempre a perder oportunidades para ficar calado. Veja-se aqui, via Maria.