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Quiet things that no one ever knows





Updated: 2017-02-09T02:49:13.353-02:00

 



Resumo da semana até agora:

2013-12-03T14:02:47.603-02:00

- Duas internets da Tim que não funcionam;

- Um site da Tim que me manda ligar para o número "xxxx" para resolver o problema;

- Uma janela da cozinha quebrada pelo pedreiro reformando o apartamento de cima;

- Um pedaço de vidro que despencou oito andares e não matou ninguém só porque Deus existe;

- Duas goteiras na cozinha;

- Um pedreiro que esqueceu que tinha reformas para fazer no meu apartamento, e não veio;

E ainda é só terça-feira.



Pareço legal, mas...

2013-11-15T11:08:42.560-02:00

- Usei a fonte Comic Sans no MSN;

- Tive uma fase indie em 2007;

- Gosto desta música;

- Uso a expressão "de boa" com frequência;

- ...bem como sua variante "de boas";

- Estou no nível 396 no Candy Crush.


Um pouco de autocrítica sempre faz bem.



Oz - A Saga

2013-11-13T20:12:06.030-02:00

Caso alguém ainda não saiba, eu conheci minha melhor amiga pela internet há sete anos. Nós nos descobrimos por acaso, nos encontramos pessoalmente após um ano, e nossa amizade continuou ótima mesmo depois de eu descobrir que, na verdade, ela era um senhor de 67 anos se passando por uma jovem estudante nas redes sociais.Tá, mentira. Ela era quem dizia ser, eu é que sou o senhorzinho. Sete longos anos de amizade à distância depois, nós finalmente estamos morando na mesma cidade. E, como se isso não bastasse, no mesmo apartamento. Hoje, lá no Tinha, mas esqueci (se você conhece a Thami, sabe que é o nome perfeito para um blog dela), ela contou o início da nossa saga para conseguir esse apartamento em São Paulo. Era uma história que eu queria contar, mas como ela já o fez muito bem, não vou conseguir escrever um texto diferente do dela, e por isso o reproduzo aqui. Aí está:Follow the Yellow Brick Road - parte1Talvez essa semana complete 2 meses que eu mudei de casa. Dois meses que o meu tempo de leitura (modo como eu meço meu tempo no transporte público) diminuiu de 2 horas para apenas 30 minutos. Dois meses que planos pensados há cinco anos se concretizaram. Dois meses que eu divido apartamento com a minha melhor amiga que conheci na internet 7 anos atrás. Yay.Dois meses que eu enrolo para dar início à saga maravilhosa de posts sobre como é minha vida agora que moro sozinha. Sozinha/acompanhada. Aliás, é estranho eu dizer que moro sozinha já que a Bel tá lá. Sempre que eu disser "sozinha" imaginem a Bel escondida lá no canto da narrativa. A menos que eu realmente queira dizer que estou sozinha fazendo algo. Enfim, deixemos isso de lado por enquanto. Como eu ia dizendo, estou morando sozinha/acompanhada em São Paulo e vou tentar compartilhar com vocês alguns dos melhores e piores momentos dessa nova fase da minha vida.  PARTE 1 - O APARTAMENTO (OZ, para os íntimos todos) Para começar é preciso dizer que mudar para São Paulo foi uma decisão fácil de se tomar mas incrivelmente difícil de realizar. Exigiu esforço de um batalhão de gente para tentar encontrar um lugar decente para se morar. No começo você parte para essa empreitada cheio de exigências: "Quero um apartamento que tenha varandinha, ia ser tão bonito colocar flores toda semana e tomar chá olhando para uma bela vista". Mas aos poucos você cai na realidade quando começa a ver o preço dos imóveis: "Não precisa ser uma varanda, pode ser só um lugar bacana com dois quartos.""Pode ser um lugar com um quarto só, com cozinha e sala grandes pra gente receber pessoas""Pode ser só um cômodo com uma vizinhança segura""Pode ser um lugar que eu divida com 15 pessoas e que tenha moradores de rua legais que me protejam de noite." Enfim, foi difícil e nós quase desistimos, mas depois de quase meio ano surgiu um lugar bacana no prédio de uma amiga e fomos visitar. Era incrível, depois de tantas porcarias que a gente tinha visto ver uma coisa bonitinha encheu nosso coração de esperança. Vizinhança ótima, pertíssimo do metrô!Entramos, fizemos planos e decoramos mentalmente o apartamento. Pronto, era esse.Era. Até a gente saber o preço do aluguel. Duraríamos exatos dois meses pagando esse aluguel e daí teríamos que ir pra rua cantar e tocar pandeiro.Voltamos à estaca 1. Digo 1 porque havia uma esperança: a mesma amiga sabia de um apartamento na rua de trás, marcamos com o corretor e lá fomos nós.Adoramos a vizinhança,  também fica perto do metrô (apesar de não ser tão perto como o anterior) e ainda tem aquelas luminárias gracinhas típicas do bairro da Liberdade. Era o lugar perfeito e nós estávamos tão cansadas de procurar (e também não dava mais pra enrolar porque a Bel já estava de mudança de Florianópolis pra cá e ia ter que morar na rua minha casa.) Foi com esse argumento da Bel moradora de rua que amolecemos o coração do zelado[...]



Segurança em Santa Catarina

2013-11-07T19:20:11.219-02:00

Eu saio de Santa Catarina por dois meses, e quando vejo isso aconteceu:

(image)
Daqui.

Nem vou comentar. É fácil demais.
Só vou abrir uma enquete:

Qual a sua parte preferida?
a) O título da notícia
b) A foto dos salgadinhos apreendidos tipo drogas e armas
c) O nome da operação policial.



Mãe,

2013-11-06T10:45:23.534-02:00

Estou ouvindo agora uma música nova do Andrew Bird. Chama Pulaski at Night. Você iria adorar.

Meu primeiro impulso foi pensar em te mostrar a música. Meu primeiro impulso sempre é querer te mostrar algo que gosto muito ou que sei que você iria gostar. E aí todas as vezes que isso acontece é como se alguém jogasse água gelada em mim. Ou como se alguém me empurrasse de cara contra uma parede. Ou como se alguém conseguisse segurar meus órgãos dentro da minha barriga e chacoalhasse todos eles. Ou como se todas essas coisas acontecessem ao mesmo tempo.

Mas não se preocupe, é rápido. Logo depois desse momento horrível no qual lembro o motivo de eu não poder mais te mostrar alguma coisa, eu sempre checo: meus órgãos estão intactos, minha cara está ilesa, e eu estou seca.

Eu queria que você ouvisse essa música do Andrew Bird. E queria que você visse comigo os vídeos de um show que ele fez com uma moça esquisita. Também queria que você ouvisse o cd novo da Sara Bareilles. Seria seu preferido. Tem uma música, Chasing the Sun, que eu sei que você iria adorar porque ela canta uma nota aguda num momento em que primeiro você imagina que seria uma nota grave. E você ia dizer que gosta dessa música porque gosta de músicas que sobem.

Já saiu o novo Thor. Eu não queria ir assistir sem você. Por isso não fui ainda. Fui ver Gravidade, e gostei, mas acho que você não ia gostar. Ficaria agoniada. Queria comentar o final de Breaking Bad com você, mas você não viu nem o começo. E achei o início de temporada de Once Upon a Time tão chato que nem consegui ver. Parece que você não está perdendo muita coisa.

O que você está perdendo é a gracinha que o apartamento aqui em São Paulo está ficando. Tem móveis bonitinhos e decoração, que, lógico, eu estou fazendo. A Versão diz que eu ando meio incontrolável com meus artesanatos. Mas a decoração da festa de Halloween que a gente teve aqui ficou ótima. Espero que você veja daí de onde você está. Já é alguma coisa. Mas eu queria que você viesse aqui conhecer, comigo. Você só não gostaria de subir os oito andares de elevador. Mas sempre tem algum senhorzinho japonês engraçado junto para distrair. Ou alguma senhora estranha agarrando meu braço para mostrar como as mãos dela são geladas. Aí os oito andares passam rápido.

Mas, nossa, você ficaria muito brava com a situação da internet aqui. Ainda não conseguimos resolver o problema, e você estaria agoniada pra conversar via Skype, coisa que esse modem da Tim realmente não permite. Mas eu iria te ligar todos os dias. Você não imagina a saudade que eu sinto de ligar e ouvir sua voz. Acho que eu nunca falei, mas você tinha a minha voz preferida no mundo.

Fico achando que eu devia ter várias coisas bonitas e profundas que gostaria de te dizer. Mas eu só queria uma conversa normal. Só queria um momento normal daqueles só nossos. Só queria rir da palavra “exigente” com você, e não ter que explicar pra ninguém.

Meu curso vai bem, São Paulo vai bem.
E eu... vou. Espero também ir bem alguma hora.



Há 152 anos.

2013-08-09T12:15:21.442-03:00

 Aí que em 1861 (mil oitocentos e sessenta e um, vejam bem), Dostoiévski publicava o seguinte desabafo:
De fato, julguem: sobre o que escrever? Chegou, por exemplo, Ristori [atriz dramática italiana que esteve em Petersburgo em 1860] e vejam só - tudo quanto é folhetinista começa a rabiscar a mesma coisa em todos os folhetins, em todos os jornais e revistas: Ristori, Ristori, Ristori chegou, Ristori vai representar; ela atua em Kamma, e logo em seguida Kamma, Kamma, qualquer que seja o jornal que se abra sempre aparece Kamma; ela está em Maria Stuart, e no mesmo instante Stuart, Stuart, etc. Assim as novidades irrompem uma atrás da outra! E o mais lamentável é que eles de fato imaginam que se trata de novidades. A gente pega um jornal, não tem vontade de ler: em toda parte é a mesma coisa, o desânimo se apodera do senhor, que apenas concorda que é preciso ser muito ladino, esperto, ter as mãos e o pensamento saturados de rotina para dizer ainda que seja a mesma coisa sobre a mesma coisa, mas dando um jeito de evitar as mesmas palavras. E os infelizes reviram a sua inteligenciazinha e amaldiçoam o seu destino. E quem sabe quantos dramas, até algo trágico, acontecem em algum canto úmido de um quinto andar, onde em um quarto se acomoda uma família inteira, com fome e frio, enquanto em outro um folhetinista treme em seu roupãozinho esfarrapado, escrevendo um folhetim à la Novo Poeta [pseudônimo de I. I. Panáiev (1812-1862), folhetinista famoso por suas paródias de vários escritores contemporâneos] sobre camélias [referência ao romance A dama das camélias (1848), que teve grande repercussão na Rússia, levando o termo "camélia" a entrar na moda em jornais e revistas], ostras e amigos, puxa os cabelos, arranha a pena e tudo isso num clima nada folhetinesco? (...) Será que o folhetim traz apenas uma lista das palpitantes novidades da cidade? Parece que se pode enforcar tudo com o próprio olhar, sedimentar com o próprio pensamento, dizer sua própria palavra, uma palavra nova. Mas, meu Deus! o que o senhor está dizendo! Uma palavra nova. Ora, por acaso é possível a gente dizer todo santo dia uma palavra nova, quando talvez passe a vida inteira sem consegui-la e, ao ouvi-la, ainda não a reconheça. "Sedimentar com o próprio pensamento", diz o senhor. Mas que pensamento, onde consegui-lo? Tente se afastar ao menos uma vírgula dos pensamentos do dono da revista e no mesmo instante ele o rejeitará e o dispensará. Pois bem, admitamos que até haja pensamento, mas a originalidade, mas a originalidade - onde consegui-la? Seja como for, a ideia não é sua. Para isso é preciso... sim, para isso é preciso inteligência, perspicácia, talento! O senhor está querendo exigir demais do nosso folhetinista! (...) A um rabiscador atual (tradução livre da palavra "folhetinista") nem passa pela cabeça que sem ardor, sem pensamento, sem ideias, sem vontade tudo vira rotina e repetição, repetição e rotina.

Gente, 1861.
Tirado do folhetim Sonhos de Petersburgo em verso e prosa, publicado no Brasil em 2012 pela Editora 34, no livro Dois Sonhos.



Don João

2013-08-05T17:40:45.229-03:00

Não era uma manhã comum. Eu já havia passado as últimas 12 horas dentro de um ônibus, voltando de São Paulo para Florianópolis. Já tinha quase terminado a leitura de A Aldeia de Stepántchikovo e Seus Habitantes, do Dostoiévski, durante essa madrugada de 700 km de insônia – aparentemente superando meu trauma com o autor russo, 14 anos após minha primeira tentativa frustrada de ler um livro seu. Tinha também conhecido uma alemã perdida e solitária mochilando por Florianópolis, e saído do meu caminho para levá-la até um Hostel. Àquela hora da manhã, não fui capaz de acessar a área do meu cérebro que armazena as indicações de caminho, e não consegui pensar em alternativa melhor do que andar por 20 minutos com uma desconhecida.Talvez fosse de se esperar que mais alguma coisa incomum ocorresse. Mas eu jamais teria antecipado os acontecimentos seguintes.Eis que estou sentada no terminal, concentrada no livro, enquanto aguardo o horário do ônibus. De repente, vejo uma sombra cambaleante vindo em minha direção. Levanto os olhos e me deparo com um homem em seus quarenta e tantos anos, parecendo mais fora da realidade do que bêbado. Não tiro meus fones de ouvido, o que não o impede de se aproximar, me entregar um bilhete amassado num guardanapo de lanchonete, e de fazer algum comentário lisonjeiro sobre minha aparência. (Pausa para recapitular que eu tinha acabado de passar as últimas 12 horas acordada numa viagem eterna de ônibus, e minha aparência estava de acordo com a situação, o que reforça minha impressão de que o homem cambaleante vive em outra realidade.)Tento abrir o bilhete, mas o homem me pede para deixar para depois. E então, inesperadamente, ele começa a cantar. Não consigo identificar a música. Algo sobre olhos? Olhos do senhor? Ah, olhos do Senhor meu Deus. É uma música de igreja. E é longa, interminavelmente longa, com várias estrofes, as quais ele segue cantando. Ele sabe todas as estrofes. As pessoas em volta nos encaram. Eu tento novamente abrir o bilhete, e outra vez ele não deixa. E continua cantando. E me olha diretamente nos olhos. Quando finalmente termina de cantar, emenda: “gostou?”. Sem coragem de ser grosseira, respondo educadamente que é uma música bonita. Ele parece satisfeito com o resultado, e começa a se afastar. Volto a olhar o bilhete, que ele deixou em cima da minha mala. Quando estico a mão para pegá-lo, ouço: “EI!”, ele grita. “Se eu fosse você, deixava para ler em casa”. Aceno com a cabeça e deixo o bilhete no mesmo lugar. Abro meu livro, e escuto outra vez: “EI!”. Olho. Mais ao longe, ele me aconselha: “você precisa controlar mais a sua ansiedade”. Vira as costas e vai embora, me deixando sozinha com o bilhete:* O número do celular dele foi censurado para evitar o assédio das fãs.Tem carro, casa, emprego, é sábio, quer compromisso, é experiente, não tem medo de assumir seus sentimentos, canta, e além de tudo, tem atitude. Talvez eu devesse ligar, hein.[...]



Meus pequenos.

2012-07-21T22:29:33.946-03:00

Não sei o que mais me faz amar vocês. Não sei se é a bagunça que fica no meu quarto quando vocês três me visitam. Não sei se é o barulho que vocês fazem, cada um querendo me contar uma coisa diferente na mesma hora. Não sei se são as letrinhas da sopa, que inexplicavelmente vão parar na escada da minha casa depois da janta.*Talvez seja a emoção de ouvir você me chamar de Bel pela primeira vez em um ano e meio, depois de eu passar um dia inteiro tentando te fazer falar. Pode ser o orgulho que sinto, disfarçado de cansaço, de saber que eu sou a pessoa que você escolhe para subir e descer as escadas de casa incontáveis e eternas vezes por dia. Talvez sejam as brincadeiras repetidas que te fazem rir cada vez mais, e o olhar de cumplicidade que você me dá quando só nós duas entendemos a graça de algum gesto que é um código não-verbal só nosso. Ou então a sua mania de olhar para a minha cara, e não para a câmera, quando eu quero tirar uma foto com você. E esse dedinho que você usa para apontar para mim e me cutucar... É, talvez seja isso.*Talvez seja a alegria de ver você começando a ler, a escrever, e a reclamar que nunca tem como saber se as palavras são acentuadas, se é com CH ou com X, ou se o S tem som de “ssss” ou de Z. Pode ser a identificação imediata que tive com você o dia que você me disse que se tivesse R$ 100, gastaria tudo na padaria e na locadora. Talvez seja essa sua cara esmagável, e o jeito que você me deixa te esmagar. É possível que seja o número de vezes que você me chamou de “MINHA Bel”, ou o fato de você dizer que sabe dançar hip hop. Ou então o jeito que você chama o Scar de “ininigo do Rei Leão”. Ou ainda quando você me pediu, preocupado, que eu não esquecesse de você quando eu fosse para o “Cadaná”. Na verdade, talvez seja absolutamente tudo que você diz:     Sua irmã: "ISABEL ao contrário é LEBASI. Diz outra palavra pra eu inverter."     Você: "Computador."     Eu: "Era bem essa palavra que eu tava pensando."     Você: "Acho que foi Deus que me disse o que você tava pensando no seu cérebro."*Talvez seja o fato de eu ter acompanhado o seu nascimento, seus primeiros passos, suas primeiras palavras, suas primeiras frases geniais. Pode ser porque, aos cinco anos, sua parte preferida de Procurando Nemo era aquela cena em que fica tudo escuro e a Dory pergunta “ô Consciência, eu morri?” para o Marlin. Talvez sejam as coreografias de dança que você costumava inventar. Ou, quem sabe, o seu gosto por música, a sua vontade insaciável de aprender, as inúmeras listas de palavras que você faz e me pede a tradução para o inglês. Talvez seja a sua independência, sua personalidade forte, seu senso de responsabilidade. Ou, ainda, os comentários que você faz enquanto vê Super Nanny, criticando os pais que não educam os filhos direito. É possível que seja porque agora, com quase 10 anos, você não me pede mais um papel para desenhar, mas sim que eu pinte as suas unhas. Acho que é porque enquanto pinto suas unhas, percebo que estou pensando em vocês três e implorando: por favor, não cresçam tão rápido.[...]



No ônibus

2012-06-29T22:46:12.355-03:00





À minha colega da pré-escola:

2012-06-25T13:55:37.661-03:00

Eu não sei quem você é. Não sei seu nome, não tenho nenhuma lembrança real da sua existência. Mas todas as vezes que eu olhar esta nossa foto da festa junina de 1993 vou pensar em você, e me perguntar se você se deu bem na vida, apesar deste começo conturbado:


Vendo essa imagem, eu imagino que a sua vida não tenha sido tão fácil. Talvez você tenha tido uma mãe que não se importava muito com você, sempre ocupada demais com outras coisas para reparar em como você saía em público. Ou talvez uma irmã mais velha cruel, que se ressentiu com a sua chegada ao mundo e te odiava, até descobrir que você seria um ótimo brinquedo vivo. Ou, quem sabe, um pai viúvo que sempre fazia o melhor possível, mas deixava a desejar quando as situações do dia-a-dia requeriam algum conhecimento feminino. Pode ser que seus pais tivessem o costume de largar você na casa da sua avó, e que ela te amasse demais para te dizer que não, sua maquiagem não estava bonita.
Ou você era a filha do meio.

Eu espero sinceramente que você tenha superado. Que o seu psicólogo tenha te ajudado a ser feliz sem a atenção da sua mãe. Que você tenha conseguido se vingar da sua irmã mais velha, entrando no quarto dela, mexendo em todas as coisas, e sendo insuportável quando ela começou a namorar. Que tenha encontrado uma figura materna para te guiar na vida, porque ser mulher não é fácil, e percebido ainda cedo que a casa da sua avó, aquele ambiente tão cheio de amor, carinho, alegria, tolerância e compreensão, é completamente diferente do mundo real.
Ou que você não fosse a filha do meio.

Enfim, eu espero que você seja uma pessoa feliz.



A menina do ponto.

2012-06-20T23:55:19.399-03:00


- Tu sabe que horas o ônibus passa aqui?

Olhei para o lado. Quem perguntava era uma moça que parecia ter mais ou menos a minha idade. Ela esperava agoniada pela resposta.

- Quatro e cinco – respondi.

Ela esboçou um sorriso. Eram 16h02. O sorriso foi curto, porque eu completei:

- Mas geralmente atrasa.

Me arrependi de ter acrescentado essa informação quando vi a tensão voltar ao olhar da moça.

- Eu to indo pro centro. Pra procurar emprego – anunciou, com um risinho nervoso.
- Boa sorte.

Ela ficou em silêncio, e eu coloquei meus fones de ouvido, achando que a conversa tinha acabado.

- Tu já trabalha? – Perguntou.

A conversa não tinha acabado.

- Já sim. Estou indo trabalhar agora.
- Você faz o que?
- Dou aulas numa escola de inglês – respondi, enfeitando um tanto meu emprego temporário de monitora e professora auxiliar de inglês.
- Ah, mas então tu já é...

“Velha”, completei mentalmente.

- Quantos anos tu tem?
- 23 – eu disse, após hesitar alguns segundos por ter acabado de sair dos 22.
- Nossa! Não parece. Tu já é bem mais...

“Velha.”

- E você, tem quantos anos?
- 15. Tô indo no PROMENOR pra conseguir emprego.

A conversa tomou um rumo de tópicos genéricos, como itinerários de ônibus, trânsito e afins. Depois de algum tempo, ela retomou o assunto:

- Tomara que eu não precise de um maior comigo lá hoje. Vou precisar, mas tomara que não hoje. Meu irmão não pode ir. Eu moro só com ele. Meus pais faleceram. Meu irmão trabalha o dia todo.
- Quantos anos seu irmão tem?

Foi a única coisa que eu soube dizer.

- 24.
- Ah.
- É uma grande responsabilidade, aos 24 anos.

Concordei.
Silêncio.

- Tu já tem filho?
- Não, não tenho filho – ri.

Ela não entendeu qual era a graça. Na minha cabeça, sou nova demais (despreparada demais, idiota demais, irresponsável demais) para ter um filho. Na cabeça dela, eu já passei a barreira dos 20, e 23 já é quase 25, que é praticamente como se eu tivesse 30 anos. Na cabeça dela, eu sou velha demais para morar com meus pais e não ter alguém para sustentar. Talvez a cabeça dela esteja certa.

- Ai, graças a Deus – exclamou, interrompendo minha auto-análise.

Era o ônibus que chegava.
Atrasado.




Razões pelas quais sou frustrada comigo mesma:

2012-06-13T14:45:53.238-03:00


  • Não posso ler durante viagens de carro ou ônibus porque fico enjoada. Invejo todos os que conseguem;
  • Não consigo prender meu cabelo com um nó;
  • Tenho vergonha de fazer movimentos bruscos em público (é, tenho);
  • Não consigo associar as letras C, D, E, F, G, A e B às respectivas notas musicais;
  • Tenho muita dificuldade para entender metáforas poéticas. "Explique o que o autor quis dizer com..." é uma frase que me aterroriza;
  • Minhas costas não se adaptam a colchões de cama box;
  • Não importa o quanto eu me esforce, não consigo entender acordes musicais;
  • Meu entendimento artístico se limita a obras de arte que se parecem com a realidade;
  • Não sei compor músicas;
  • Não sei fazer contas.



Para a minha irmã.

2012-03-05T03:11:25.589-03:00

Queria que você estivesse aqui.

Que visse a neve comigo, que sentisse o vento gelado e cortante que vem antes de nevar. Que você tivesse a chance, assim como eu e a Lorelai Gilmore, de saber que tudo vai dar certo quando neva. Que sentisse o frio que amortece, que machuca tanto a ponto de ser engraçado, porque todos os problemas da vida somem quando a sua maior preocupação é achar um lugar quentinho pra voltar a sentir as extremidades do corpo.

Queria que experimentasse o choque térmico de sair da neve e entrar no metrô, e o alívio que se transforma em agonia, de tanto calor. E que depois soubesse como é o alívio de sair do calor do metrô, e ser recebida do lado de fora pelo frio, pra ter outra vez o desespero por um lugar quente, e assim infinitamente.

Queria que estivesse aqui pra ver as pessoas de cabelo colorido. Que conseguisse identificar o punk do cabelo laranja, ou o cowboy da roupa azul. Que visse a mulher com a cara pintada de palhaço lendo jornal no metrô. Que conhecesse o mendigo da placa que diz “1 cent = smile”. Que gostasse da velhinha que precisa usar um andador, mas sempre está passeando pela rua.

Queria que fosse comigo em todos os shows de graça espalhados pela cidade. Que ouvisse a música tradicional do Québec, e que tentasse aprender a letra de La Ziguezon Zinzon, depois de ver como o povo daqui se diverte cantando aos berros aquela seqüência louca de palavras. Que visse como o frio não impede que as pessoas fiquem horas no relento, cantando, dançando, pulando, rindo, participando de todas as atividades noturnas ao ar livre (e fumando muita maconha).

Queria que você provasse o poutine, que fosse louca pelo beaver tail de chocolate com banana, que ficasse grudada na vitrine da Pekarna namorando os bolos e mousses mais lindos do mundo. Que soubesse que Quiznos é melhor que Subway, que A&W é melhor que McDonald’s, e que em qualquer lugar uma bebida pequena é maior que a bebida grande no Brasil – e que é bem fácil acostumar com o tamanho exagerado das coisas.

Queria que fosse comigo passear no Dollarama, feliz por saber que pode comprar qualquer coisa que quiser ali porque tudo custa $1, $1,50 ou $2. Que pegasse cupom de desconto de todos os lugares possíveis, e que descobrisse onde estão todas as promoções da cidade.

Queria que gostasse de Montreal tanto quanto eu gosto.


Mas queria que você soubesse, também, quanta saudade eu sinto de você, quanta falta você faz aqui, e como seria tudo melhor com você por perto, pra que você visse tudo que eu vejo. Queria que você entendesse a importância do seu incentivo pra eu criar coragem de acabar com esse bloqueio pra escrever, e como preciso de você aí pra me manter calma quando eu surto. E quanto eu gostaria de estar presente em todos os segundos da sua vida, e de saber o que dizer quando você precisa que eu diga alguma coisa.


E queria que você soubesse que esse pedaço de papel na árvore da Yoko Ono faz uma diferença enorme na minha vida, aqui em Montreal ou em qualquer lugar que eu esteja.



Metade.

2012-02-16T01:50:57.880-02:00

Depois de três meses de inverno no Canadá, 0°C é calor. Nada de casaco, cachecol, touca e luvas.  Frio mesmo é de -10 para baixo, se tiver vento. Já deu tempo de aprender que sol é sinônimo de frio, e que neve significa que a temperatura vai subir. Já não tenho dúvida de que um dia inteiro nevando é melhor que uma hora de chuva, porque a chuva congela no chão, e as calçadas se transformam em pistas gratuitas de patinação no gelo.Em 12 semanas andando por aí, raramente encontro algum animal de rua. Se em um primeiro momento isso se explica pelo povo consciente que não abandona seus bichinhos de estimação, logo se descobre que os animais de rua simplesmente não sobrevivem ao frio. Por outro lado, não é necessário mais que um dia para notar que a população de esquilos no Canadá é maior que a de seres humanos. Mas 12 semanas não são o suficiente para deixar de achar que esquilos são as coisas mais lindas do mundo, nem para aceitar o fato de que aquelas gracinhas são pragas transmissoras de doenças, quase equivalentes aos ratos no Brasil.Durante os 93 dias que passei em Montréal até agora, proporcionalmente convivi com mais brasileiros do que nos outros 8187 dias da minha vida (não vou enganar ninguém com esse “proporcionalmente” ali; realmente convivo com mais brasileiros aqui do que no Brasil). Na minha escola, só de Florianópolis, conheci seis. Do Campeche, dois. Do resto do país, perdi a conta quando passou de quarenta. E ficou muito claro que o que une todos os brasileiros no exterior é uma mesma paixão. Não, não é o amor pelo futebol, nem o carnaval, nem o calor, nem as praias, nem o churrasco, nem mesmo o feijão com arroz. É o brigadeiro.Em quase 2250 horas vividas aqui, devo ter passado por volta de 30 horas lendo os jornais de Montréal, que são gratuitos. Foi assim que eu aprendi a utilizar o verbo no modo condicional em francês, antes de me ensinarem na escola. Sim, a desgraça do condicional teria afetado a imprensa francófona também. Ninguém está imune.Três meses, já. Metade já foi.[...]



Coisas de Montreal

2011-12-01T03:47:29.636-02:00

Estou em Montreal há 18 dias. Nesse tempo percebi uma coisa meio estranha: a cidade está sempre molhada. Todas as vezes que eu vou pra rua tem aquele ar de que acabou de chover. A rua e a calçada molhadas, um pouco de água empoçada nos cantos, uns restos de gotas pingando das árvores... "Ok", você pensa. "Chove muito em Montreal, Isabel, qual é o problema?"O problema é que não chove muito em Montreal.Sim, os dias são quase todos cinzentos, e sim, a previsão sempre é de chuva, mas eu raramente vejo a chuva. Passo relativamente bastante tempo andando pela rua, de um lado pro outro, no trajeto casa - escola - loja nerd onde eu posso comprar balas numa latinha de cogumelo do super mario - casa. Até agora, acho que precisei abrir o guarda-chuva três vezes. Mas todo santo dia tem esse resquício de chuva espalhado por aí.Não que isso faça lá muita diferença na minha vida, mas eu queria saber por que a cidade vive molhada.***Em questão de uma semana e meia, a vista que eu tenho do meu quarto foi disso:Pra isso:É, nevou. Foi só uma neve fraquinha, durante um dia, e já ficou tudo branco e lindo. As ruas foram tomadas por centenas de tratorzinhos removendo o gelo da pista, e eu aprendi que em dia de neve preciso sair mais cedo de casa pra não chegar atrasada. Dois dias depois, não tinha mais neve nenhuma, e a cidade estava só molhada de novo.Aí essa semana, na escola, teve um cursinho básico de como sobreviver ao inverno canadense. "Não se assustem", a professora disse, "o frio de -35ºC é só de vez em quando. Geralmente, a temperatura fica só entre -15 e -20". Ah, bom. Se é assim tá tranquilo, né? Depois ela deu mais umas dicas de que sapato usar, que casaco vestir, como proceder quando o frio rasgar a sua pele, e seus dedos congelados caírem... Esse tipo de coisa. Foi útil e assustador, e meu cérebro ficava repetindo "brace yourselves, winter is coming" a cada nova informação que a professora dava.***Todo mundo fuma maconha aqui (menos eu, pai e mãe). Ok, eu sei que todo mundo fuma maconha no mundo inteiro. A diferença é que aqui ninguém liga. O povo fica fumando na rua, na frente das lojas, e no ponto de ônibus enquanto espera. Aí o vento leva todo o cheiro da maconha na sua cara, e nas suas roupas, mas não tem problema, porque ninguém liga.***Minha latinha de cogumelo do Super Mario, que vem com balas sabor maçã verde:Que ternura, né? $3,99 + taxas. Aceito encomendas.[...]



Oh Canada ♪

2011-11-22T03:00:01.395-02:00

Depois de mais de dois meses, eu volto aqui pra avisar que estou morando em Montreal. Vou passar meio ano aqui, no frio, estudando francês. Meu próximo verão será só em dezembro de 2012 (se o mundo não acabar).Minhas primeiras impressões de Montreal são ótimas. A cidade é toda organizada, as pessoas são super educadas, e o sistema de transporte público funciona muito bem. Não é impossível, viu, Florianópolis? Aqui você paga (meio caro, é verdade) por um determinado número de semanas, ou pelo mês todo, e tem um cartão que pode usar no ônibus e no metrô, quantas vezes por dia você quiser. No fim das contas, é mais barato e prático do que ficar pagando passagem por passagem, e facilita muito pra quem quer explorar a cidade e visitar vários lugares no mesmo dia.A vista super canadense que eu tenho do meu quarto.A faculdade Notre Dame, vista do santuário de São José.As coisas que mais me chocaram aqui foram que os ônibus não têm catraca, e as pessoas entram em fila, por ordem de chegada no ponto; que os carros não têm placa na frente, só atrás; e que troco de um centavo é troco de um centavo mesmo. Nada de balinha.Montreal é uma cidade linda, cheia de esquilos, de turistas, e de estudantes estrangeiros. Acho que eu vou voltar pro Brasil falando francês, inglês, e português com sotaque espanhol, de tanto mexicano, colombiano e venezuelano que tem por aqui. Faz só uma semana que cheguei, mas já me adaptei bem. É frio. Muito frio. E o inverno nem começou ainda. Já nevou um pouquinho um dia, mas isso não é nada, comparado ao inverno de -25ºC de Montreal. Por enquanto, nessas de -5º com sensação térmica de -11º, eu estou aguentando bem. Difícil é entrar no metrô, ou na escola, e ser recebida por uma temperatura de mais de 25ºC. Não deve fazer bem esse negócio de sair do gelo e entrar no forno. Se no Brasil eu aprendi a sempre levar um casaco, porque alguém vai ligar o ar condicionado em 13ºC no verão, em Montreal eu já aprendi a andar sempre com uma camiseta por baixo das mil blusas e casacos. Alguém vai ligar a calefação em quase 30ºC. Encontrem um meio termo, gente.Depois de uma semana de quatro horas de aula de francês por dia, e provas na quinta-feira, no domingo eu fui pra Ottawa com uma turma que conheci aqui na escola. Ottawa é uma graça de cidade, cheia de construções velhas e bonitas.Ottawa.Nós visitamos a casa do governador, o prédio do parlamento, e o Museu Canadense da Civilização, que é um lugar imenso cheio de coisas interessantes. Tem uma réplica de como era uma cidade no Canadá de 1800, e dá pra entrar nas lojas, na escola, nas casas. É tudo bonito.Parlamento.Réplicas das construções antigas do CanadáMas na verdade eu escrevi tudo isso aí em cima pra dar o contexto, e poder compartilhar essas próximas linhas com o mundo:Logo que eu entrei no museu e peguei um mapa do lugar, tive uma crise de riso meio duvidosa. Imaginem qual não foi minha surpresa ao abrir o mapa e dar de cara com esse formato, hm, peculiar do museu:Sou só eu, ou...?Cada um interpreta como quiser.[...]



Ciclo sem fim.

2011-09-14T14:03:10.973-03:00

Ao todo, vi O Rei Leão no cinema cinco vezes: uma em 1994, e quatro em 2011. Sim, quatro. Numa sexta-feira, depois na terça, na quarta, e na segunda-feira seguinte.

Admito que tenho problemas, e que, como bem disse minha professora de francês, na verdade uma parte de mim não cresceu. Mas, gente. O Rei Leão no cinema. Meu filme preferido de todos os tempos da humanidade no universo, de volta ao cinema depois de 17 anos. E o fato de ser em 3D, apesar de totalmente desnecessário ao longo da animação, deixou a abertura ainda mais linda e emocionante.


Eu decorei todas as falas. Todas as entonações, todos os detalhes. Devo ter assistido ao filme mais de duzentas vezes ao longo dos últimos 17 anos, sem brincadeira. Cheguei ao cúmulo do meu forever alone way of life aos 12 anos, quando via O Rei Leão uma vez por dia. Eu cito frases do filme em praticamente todas as situações da vida. Chego a ser insuportável, com meus "perdoe-me por não pular de alegria, mas minhas costas doem" e "eu estou cercado de idiotas".

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Minha cena preferida de todas.

O que ficou engraçado nessa exibição no cinema foi que no meio da música Hakuna Matata o Timão solta um "ei, Pumba, na frente das crianças, não". E aí você olha para os lados e só vê um bando de marmanjos nostálgicos de vinte e poucos anos, que dez minutos atrás estavam fungando e tentando esconder o choro na cena da morte do Mufasa.

Foi muito importante e significativo para mim poder rever o filme no cinema. Me emocionei, dei risada, fiquei triste, assustada, encantada, arrepiada, tudo como se fosse a primeira vez que eu assistia - isso nas quatro vezes que fui.

E se alguém me convidar pra ir mais uma vez, eu juro que vou.



Óculos.

2011-08-14T10:34:23.893-03:00

Meu primo de quatro anos foi ao McDonald's uns dias atrás. O brinde que ele escolheu foi o smurf Gênio:


Estranhei um pouco, porque ele ainda não tinha nenhum dos brinquedos e optou pelo smurf de óculos.

- Foi você que escolheu esse smurf?
- Aham.
- Por que esse?
- Porque eu vou ser pai um dia.

Segundos de silêncio.
Geralmente eu entendo a lógica infantil sem muito esforço, porque, convenhamos, eu tenho a idade mental de uma criança. Mas dessa vez foi além da minha capacidade.

Percebendo o ponto de interrogação que se formava na minha cara, meu primo explicou, com certa impaciência:

- Pais usam óculos.

É verdade. Mesmo que seja só pra ler, quando o comprimento do braço não é o suficiente para afastar o papel, pais usam óculos.


Feliz dia dos pais para o meu pai, que deveria estar usando seus óculos enquanto lê esse texto no meu blog. Caso não esteja, uso letras maiores: eu amo você.



Delírios de um pai sedado.

2011-08-14T10:38:05.788-03:00

Eu sumi um pouco do blog, de novo, porque duas semanas atrás meu pai foi parar no hospital. Ele teve crises renais quando uma pedrinha de cinco milímetros no rim dele resolveu dar sinal de vida. Depois de uma semana de procedimentos, remoções de pedras que não deram certo e muita dor, na quinta-feira meu pai foi até a clínica pra explodir o último fragmento de pedra.Não sei qual tipo de sedativo deram pra ele. Só sei que após o tal procedimento presenciei uma hora de delírios e diálogos nonsense, que eu, como boa filha que sou, anotei pra contar pra todo mundo e fazer piadas no futuro.- Quem é aquele?- É o soro que você tá tomando, pai.- Mas não tá na minha boca.- Não, tá na sua veia.- Ele tem um chapeuzinho. ♦♦♦♦♦- Eu tô vivo?- Tá, mas tá delirando.- Me deram maconha?- Olha, tá parecendo.- Mas não tá cheirando cocaína aqui.- É porque eles não te deram cocaína.♦♦♦♦♦- Aqui é a Sapopemba?- Não, aqui é a Ultralitho, na Rio Branco, em Florianópolis.- Não é em São Paulo?- Não, pai.- E você foi jogar bilhar?- Não, hoje não.♦♦♦♦♦- Ali naquela porta vai pro aeroporto?- Não, ali vai pra sala de cirurgia.♦♦♦♦♦- O chico já limpou a placenta?- O que, pai?- A placenta do bebê que nasceu.♦♦♦♦♦- O Rodrigo foi embora?- Quem, pai?- O Rodrigo.- Não sei quem é Rodrigo, pai.- Nem eu.- ...- Ele não veio?- Quem, o Rodrigo?- É.- Não, pai, não veio.♦♦♦♦♦- Os paparazzi já saíram?♦♦♦♦♦- Meu armário é o número nove, onde eu guardei meu charuto e o meu picolé.♦♦♦♦♦ - Eu tô de paletó?♦♦♦♦♦- Olha, tem formigas.♦♦♦♦♦- Cadê meu picolé?♦♦♦♦♦- O médico tava assobiando.- É?- Jazz.- E tava bom?- Não era jazz.- O que era?- “A noite do meu amor”.Se algum dia me sedarem, não quero ninguém por perto.[...]



I'm a terrible person.

2011-07-13T10:27:38.013-03:00

Estava passeando pela internet e me deparei com aquele tal caça-palavras psicológico: segundo os especialistas (adolescentes no tumblr), as primeiras três palavras que você encontrar definem sua personalidade.


Ok.


Minhas três primeiras palavras: inveja, preguiça e malícia.
Tem que ver isso aí.


Ps. Quase todo mundo diz que achou "amor". Estou olhando aquelas letrinhas ali desde ontem e não consegui encontrar ainda. Então talvez funcione mesmo esse negócio.



My precious.

2011-06-14T23:20:57.371-03:00




Meu relacionamento com A Banda Mais Bonita da Cidade:

2011-06-13T16:10:40.173-03:00

Dia 1: Ai gente, que lindo esse vídeo e essa música. Olha só!

Dia 2: Oun, gracinha.

Dia 3: Ok, agora todo mundo já viu, né?

Dia 4: Que legais essas paródias de Oração, haha.

Dia 5: Agora chega de paródias, né? Vão fazer suas próprias músicas.

Dia 6:  Meu amor essa é a última oração pra salvar seu coração, coração não é tão simples quanto pensa, nele cabe o que não cabe na despensa, cabe o meu amor, cabem três vidas inteiras, cabe uma penteadeira, cabe nós dois, cabe até o meu amor, essa é a última oração pra salvar seu coração, coração não é tão simples quanto pensa, nele cabe o que não cabe na despensa, cabe o meu amor, cabem três vidas inteiras, cabe uma penteadeira, cabe nós dois, cabe até o meu amor, essa é a última oração pra salvar seu coração, coração não é tão simples quanto pensa, nele cabe o que não cabe na despensa, cabe o meu amor, cabem três vidas inteiras, cabe uma penteadeira, cabe nós dois, cabe até o meu amor, essa é a última oração etc etc etc (em loop no cérebro por sete horas seguidas).

Dia 7: Estou lendo minha timeline no twitter, pensando em várias coisas diferentes, até que alguém a cita. Ela, a penteadeira. E eis que o Dia 6 se repete.

Dia 8: Idem ao Dia 7.

Dia 9: Idem ao Dia 8.

Dia 10, Dia 11, Dia 12: Idem aos dias anteriores.

Dia 13, Dia 14: NÃO AGÜENTO MAIS, ESTOU FICANDO MALUCA, PRECISO DE AJUDA, SAAAAAI DA MINHA CABEÇA.

Dia 15, Dia 16, Dia 17: Relativa calmaria. Uma pessoa ou outra ainda cita a despensa, mas não tem o mesmo efeito da penteadeira.

Dias atuais: Estou bem, superei. Recuperei minha sanidade, não tenho mais medo de abrir o twitter. Mas não vem me falar de penteadeira que eu surto.



Post orgânico.

2011-06-12T21:15:00.884-03:00

Até o final do ano passado, meu único contato com comida verdadeiramente natureba consistia nas minhas idas esporádicas ao Empório Natureba dois anos atrás, aquele lugar que cheira a gengibre com anis. Mas aí, depois do diagnóstico da minha mãe, minha casa virou um Lar Natureba.

Digo, sempre fomos pessoas relativamente saudáveis: nunca abusamos de frituras; frutas, verduras e cereais sempre fizeram parte da alimentação. Quando morávamos em Joaçaba, antes de vir pra Florianópolis, meu pai tinha uma horta imensa e bastante produtiva, e passávamos meses e mais meses comendo pepino. Muito pepino.

Apesar disso, fui uma criança feliz desfrutando os prazeres do chocolate, do refrigerante, da pizza, da pipoca e da batata frita. E vivia assim, nesse equilíbrio entre o natural e o gostoso (com a sorte de ter sido abençoada com um metabolismo rápido).

Mas quando uma pessoa na sua família mais próxima está com câncer, os costumes mudam. A rotina muda. As prioridades mudam. A vontade de mandar todo mundo parar de reclamar de besteira e calar a boca porque é tudo frescura aumenta. A vontade de reclamar de besteira aumenta também. Os tópicos de conversa durante o almoço mudam. E, sim, a alimentação muda.

Existe uma linha divisória imaginária entre o natural e o natureba. Comer arroz integral, alface, brócolis, tomate, peixe, laranja, manga, ameixa, faz de você uma pessoa natural. Comer quinoa, feijão azuki, frango orgânico, couve de bruxelas, carne de soja, passar geléia de mirtilo no pão integral de 18595638 grãos, usar açúcar demerara e xarope de agave, tomar suco de laranja com carambola e kiwi e beterraba e cenoura e couve, tudo orgânico e com uma pitada de gengibre, faz de você uma pessoa natureba.

Eu tento manter aquele antigo equilíbrio, agora entre o gostoso, o natural e o natureba. Batalhei pra poder usar açúcar cristal branco em casa, não me rendi ao pão integral, e continuo achando que gengibre só devia ser usado como castigo de crianças muito, muito más. Tipo "senta aí e masca esse gengibre enquanto pensa no que fez". As crianças seriam todas boazinhas. Mas esses dias percebi que gosto mais de quinoa do que de arroz, e que, por escolha própria, meu lanche da tarde eram umas bolachinhas de leite com aveia e de mel com cacau, e não pipoca ou chocolate, e que eu estava tomando chá, e não refrigerante.

Socorro.

Alguém me dá Sprite e uma barra de Diamante Negro, por favor.



Coisa linda de Deus:

2011-06-07T09:53:28.497-03:00


Um tempo atrás a Brandi Carlile disse no facebook que tinha autografado tantas centenas (mais de mil) de encartes de cd, que machucou a mão e ligaram pra ela do banco pra perguntar por que a assinatura dela estava diferente nos últimos cheques.
Bom, hoje chegou minha pequena contribuição para o machucado: o Brandi Carlile Live at Benaroya Hall with the Seattle Symphony, autografado. E a camiseta. Demorou um mês pra chegar, mas estou encantada.

O cd foi gravado durante dois shows, nos dias 19 e 21 de novembro do ano passado. A Brandi disse que a maioria das músicas escolhidas foram do primeiro show. Isso porque no dia 20 os membros da banda detonaram suas cordas vocais fazendo covers dos Ramones.

Aliás, cover é o que não falta nesse cd ao vivo. São quatro: Sixty Years On, do Elton John; The Sound of Silence, do Paul Simon, que os gêmeos Tim e Phil Hanseroth, guitarrista e baixista da Brandi, cantam sozinhos; Hallelujah, do Leonard Cohen; e Forever Young, uma hidden-track não tão hidden assim, do Alphaville.

As outras faixas são originais da Brandi e dos gêmeos: Looking Out, Before it Breaks, I Will, Shadow on the Wall, Dreams, Turpentine, The Story e Pride and Joy. Todas essas músicas são acompanhadas por uma orquestra de 30 pessoas, a Seattle Symphony. 

Eu, fã de tudo que a Brandi Carlile faz, e fã de música clássica, não poderia estar mais feliz.


Uma das minhas faixas preferidas do álbum, Shadow On The Wall:

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Lógica de criança.

2011-06-02T21:12:01.600-03:00

Minha prima, agora com dois anos e nove meses (a mesma do coelhinho pobre), estava aqui em casa esses dias, e me convocou para brincar no chão da sala. Na brincadeira, ela era uma médica receitando remédios para a boneca e para mim. Cada remédio tinha um nome, que ela inventava na hora, juntando sílabas aleatórias que não tinham semelhança nenhuma com palavras de verdade. Ou seja, mais ou menos como os remédios são mesmo.
Entre explicações de quais medicamentos a minha filha - a boneca - deveria tomar, caso tivesse dor de barriga ou de garganta, ela soltou essa:

- Esse remédio aqui é pra criança tomar e crescer bem forte. E esse outro é pra adulto tomar e ficar pequenininho.