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POEMAS & POETAS



POEMAS,OBRAS E BIOGRAFIAS DE GRANDES POETAS PORTUGUESES E OUTROS



Updated: 2016-11-23T12:16:28.703+00:00

 



Manuel Alegre

2009-04-27T10:09:29.507+01:00

 

ABRIL DE ABRIL

Era um Abril de amigo Abril de trigo
Abril de trevo e trégua e vinho e húmus
Abril de novos ritmos novos rumos.

Era um Abril comigo Abril contigo
ainda só ardor e sem ardil
Abril sem adjectivo Abril de Abril.

Era um Abril na praça Abril de massas
era um Abril na rua Abril a rodos
Abril de sol que nasce para todos.

Abril de vinho e sonho em nossas taças
era um Abril de clava Abril em acto
em mil novecentos e setenta e quatro.

Era um Abril viril Abril tão bravo
Abril de boca a abrir-se Abril palavra
esse Abril em que Abril se libertava.

Era um Abril de clava Abril de cravo
Abril de mão na mão e sem fantasmas
esse Abril em que Abril floriu nas armas.

30 Anos de Poesia - Publicações Dom Quixote




Sophia de Mello Breyner Andresen

2009-04-27T10:07:03.260+01:00

 

CANTATA DA PAZ


Vemos, ouvimos e lemos
Não podemos ignorar
Vemos, ouvimos e lemos
Não podemos ignorar

Vemos, ouvimos e lemos
Relatórios da fome
O caminho da injustiça
A linguagem do terror

A bomba de Hiroshima
Vergonha de nós todos
Reduziu a cinzas
A carne das crianças

D'África e Vietname
Sobe a lamentação
Dos povos destruídos
Dos povos destroçados

Nada pode apagar
O concerto dos gritos
O nosso tempo é
Pecado organizado

 

(CD Canções Com Aroma de Abril, Strauss, 1994)




Alexandre Vargas

2009-04-25T01:24:00.488+01:00

 

Primeira oração a Cyborg

Senhor já vos chamei e novamente
as vossas luzes nas colunas e o povo
que não fala pelas ruas deambula,
com a boca entreaberta, os braços fixos
no trajecto-paraíso sem igual
descreve a longa via engenhosa que percorre o seu caudal.

Mas vós, Cyborg, tão alto estais exposto
aos ventos que a vosso encontro se encaminham
que a cidade agonizante toda une os seus esforços
e canta sibilante a melodia
dos vossos templos de quiosques enfeitados,
entre as cascatas o som puro dos seus passos.

Sim, tu Cyborg, és tudo o que desejo
e estou na treva observando o teu fulgor,
serás apenas a miragem ou o grito
que de noite atormenta o meu furor,
desta loucura agora todo eu me quero entranhar
até em parte alguma jamais de novo poder estar.




CYBORG - Livros Horizonte 1978




Alexandre Vargas

2009-04-25T01:22:00.388+01:00

 

Nas mãos sinto a luz

Nas mãos sinto a luz, a êxul luz
que vem das paliçadas da mansão,
a luz azul em clarificada zona então
aproxima de mim o seu facho de horizonte.

E logo eu a lembrar o querido monte
em que pousada estava sobracente a ramaria,
e logo eu então a pedir à maresia
que nos brilhos unos do futuro aproximasse

esse rumor de aves onde os raios enfeitasse
e eu oco no caminho que me guia
contivesse as minhas mágoas do passado,

e surgisse ali a minha alma em fogo-fátuo
estivesse eu em toda a dimensão do brusco
a nascer das folhas com a boca em luz arado.






CYBORG - Livros Horizonte 1978




Alexandre Vargas

2009-04-24T01:20:00.548+01:00

 Ma Blonde

Ouve, vagueio num espaço de luz cercado dum silêncio. é um silêncio e não o teu... vejo claramente olhando, as [mesas

o meu perfil que se volta docemente e não és tu, em que braços te suspendes e flutuas os teus lábios rigorosos de planície quando voas?..

Olha, fixa e furtivamente olha superiormente, ó Cyborg que enorme já te ergues no teu luto, a boca entreaberta como um ovo que é olhado na doce e fresca idade que em breve nos espera entoa já o canto dos fantasmas que dão fruto.



CYBORG - Livros Horizonte 1978




Alexandre Vargas

2009-04-24T01:15:00.078+01:00

 

THE PALACE

Ainda estás de pé, ó meu velho palácio,

restaurado até no sítio onde um mausoléu

imaginei em que o meu corpo deitado

jazesse de dia e também, debaixo do céu

Nocturno, o fantasma da minha alma ao léu

volteasse por entre os túmulos etruscos

e os bustos romanos desse grande hotel

morada de ingleses que, ao lusco-fusco,

Nela terão dado belos passeios românticos

a que sempre regresso ao jardim da infância

antiga capela de Virgem da Catalunha.

Aqui terá Beckford gerado o seu Vathek

e cavaleiro cristão contra xeque

mouro combatido: valsa lua esconde a sombra.




Alexandre Vargas

2009-04-23T10:12:52.301+01:00

 

Exílio

É noite e Cyborg dorme o seu sono de morte,
os dois acordes do som, na noite repetem:«Cyb-org,
Cyb-org) Cyb-org) Cyb-org...» e os autómatos crescem
na sombra funérea e ígnea dos luzes horizontes,
alguns ainda acendem os seus fachos claridade
para o descair ligeiro das placas violeta.

Irrompeu a cidade com um tremer de fumo de miragem
e toda se inflamou na sua tristeza sem igual,
com a cor do cimento, do ,branco e das vigas sobre o mar
aqui se implantou, aqui para sempre a luz paragem.
E nunca nenhum deus a jamais tentou vencer
e ninguém sem respeito para ela pode olhar.

É noite agora, o palácio adormecido onde de lado eu estaria
no estar sem espera, fecham as janelas e as grades
dos muros ainda porventura sem lembrança,
mas anoitece ainda a minha infância e sem correr,
eu, fantasma do que fui, procuro estar
na morte tão etérea de uma ave de metal.






CYBORG - Livros Horizonte 1978




Alexandre Vargas

2009-04-23T10:10:41.482+01:00

 

Espectros que vêm das estrelas

Na noite vidro, um brilho de fósforo: azul.
Ouvi dizer que as estrelas são as moradas dos mortos,
irradiam assim alguma possibilidade?..
De qualquer modo saem dos nichos os algozes
que nos torturarão ao longo de uma vida inteira...
«Como te chamas ?», pergunta-se para haver resposta.
Descem com os grandes farricocos de Lua esgazeada,
sem O. V. N. I. de seda que lá nos possam flutuar
e vogam só as capas de morcego sobre os olhos.
Sigo-os eu até às suas pernas clandestinas,
dançam já e cortam-me a cabeça-
para quê voar dêem-me aquele pouco de loucura
de ser mais um zombie por aqui,
pois a minha vida é apenas «for the moment»
e todo o meu destino-1800
é navegar de cartola e bengala na mão de ferro
com castão lunar na gravidade destes sonhos.
Penso, penso em ti, como é o teu nome de cabelos?
Como procuras a tua morada sob as pontes
ou espreitas nas chaminés da grande fábrica
que se ergue no teu castelo de colina?
Mas danças, mas não ris, eu pelo meu lado
já vendi a minha alma a Belzebu,
e as crateras dos teus olhos são tão belas...
muito mais do que um olhar se espelha nelas,
os espectros que assim descem das estrelas
lá os vejo a bailar, a afeição
que um dia a mim também me deu a mão...


 

CYBORG - Livros Horizonte 1978



Hernâni Correia

2009-04-22T13:46:58.350+01:00

LONGE DAQUI 

Em sonho lá vou de fugida,
Tão longe daqui, tão longe.
É triste viver tendo a vida,
Tão longe daqui, tão longe.
Mais triste será quem não sofre,
Do amor a prisão sem grades.
No meu coração há um cofre,
Com jóias que são saudades.
Tenho o meu amor para além do rio,
E eu cá deste lado cheiinha de frio.
Tenho o meu amor para além do mar,
E tantos abraços e beijos pra dar.
Ó bem que me dá mil cuidados,
Tão longe daqui, tão longe.
A lua me leva recados,
Tão longe daqui, tão longe.
Quem me dera este céu adiante,
Correndo veloz no vento.
Irás a chegar num instante,
Onde está o meu pensamento.
Tenho o meu amor para além do rio,
E eu cá deste lado cheiinha de frio.
Tenho o meu amor para além do mar,
E tantos abraços e beijos pra dar,
Tenho o meu amor para além do mar




Hernâni Correia

2009-04-22T13:30:29.237+01:00

 

Hernâni Sebastião Paixão Correia, mais conhecido por Hernâni Correia (Lagos, 25 de Janeiro de 1925 - ( ? ) 2 de Fevereiro de 1998) foi um compositor e poeta português.

Biografia

Nasceu na freguesia de Santa Maria, em Lagos, filho de Hernâni Eduardo Correia e de Maria Cândida Paixão. Enquanto estudava na Escola Comercial Rodrigues Sampaio, em Lisboa, começou a laborar na Emissora Nacional. Tornar-se-ia, mais tarde, chefe de secção da Secretaria e Arquivo Geral e vogal do Conselho Fiscal da Radiodifusão Portuguesa. Frequentou, igualmente, o Instituto Superior de Económicas e Financeiras de Lisboa.

Foi 1.º secretário da direcção e vogal efectivo da direcção da Casa do Algarve, tendo representado o concelho de Vila do Bispo nesta organização. Foi também vogal no Centro de Arte e Cultura Teixeira Gomes.

Escreveu diversos poemas e letras para canções populares, entre os quais se destacam "Fado de Quem Ama", "Meu Amor, Minha Cidade", Pressentimento", "Sol de Pouca Dura", "Amar Lisboa", "Ao Ver Lisboa" e "Lisboa das Varinas".

Bibliografia

Ferro, S. (2002). Vultos na Toponímia de Lagos. Lagos: Câmara Municipal de Lagos

Obtido na Wikiopédia




António Cabral

2009-04-21T09:38:07.838+01:00

A UMA OLIVEIRA 

Velha oliveira,  ó irmã do tempo e do silêncio,
algo de ti se me tornou hoje perceptível;
algo que eu não conhecia e me fez parar
na ténue sombra que teces no caminho;
algo que é uma doce corola de contacto.


Já os passos da luz se afastam na colina
e um rumor de pérolas quebradas
desce, lentamente desce por toda a serrania.
Já as aves tuas amigas procuram na folhagem
a doçura acumulada nos favos da noite.
E  também já são horas
de nós os homens, nós os que passamos,
suspendermos as cítaras do pensamento.


Entretanto, ó canção do crepúsculo, velha oliveira,
eu paro sob os longos cílios da tua ramagem.
Paro e, ao sentir nas mãos o teu enrugado tronco,
e, nos olhos, a serenidade das tuas folhas,
começo a entender uma bela mensagem:
a paz, ah a paz!, a rosa da paz.


É como se uma gota de azeite descesse,
brandamente descesse pelas coisas.



In Poemas Durienses




António Cabral

2009-04-21T09:34:54.954+01:00

SOLIDÃO

A maior parte das vezes não abre a janela:
senta-se no velho poial, como um resto de musgo,
e deixa que os olhos passem no vidro,
visitando-se mais uma vez. As coisas,


gradualmente, configuram-na, desde aquela hora,
e quem a procura, sentindo-a no fundo das águas,
não lhe pergunta pelo marido.
O relicário de pau-santo fere-lhe

a solidão de semente abolida,
já o arco de si própria.
Pudesse ao menos saber para onde irão varrer


o que ficar da sua sombra, quando vender a quinta.
Para junto dos limoeiros, sonha.
enquanto a alma escorrega, docemente.


in ANTOLOGIA DOS POEMAS DURIENSES




António Cabral

2009-04-20T13:42:39.457+01:00

 

A Solidão

(O Isolamento da Condição Humana) II

Vem, meu amor. Estamos
numa terra de paz.
Aqui somos irmãos
daquela cotovia.

Esquecidos de tudo,
esquecidos da morte,
acendemos no tempo
o lume original.

Meu doce amor, a chama
branca, muito branca,
que se ateia, enleia
o que resta do mundo.

Somos livres. A vida
recupera as origens.
Que bom é estarmos sós
nas muralhas da luz!
Que bom é confundir
as mãos com as urtigas
e dizer: Oh Senhor,
obrigado por tudo!
          


in Quando o Silêncio Reverdece




António Cabral

2009-04-20T13:39:05.676+01:00

E AGORA não sei se estás a descer as escadas e vens abrir a porta. Vi-te à janela quando começou a chover nesta árvore e não eras apenas um ramo. Bem sei que às vezes confundimos o que se vê com o ver, semelhantes que somos a bolinhas de sabão. É assim bem provável que já tenhas vindo à porta e passasses por mim sem eu te ver. Uma vez que a chuva se foi embora, acho então melhor prosseguir a caminho do olival onde mais facilmente te reencontrarei no voo das aves migratórias. Pelo sim, pelo não, fico também aqui, onde começa o rasto do teu olhar.


in O RIO QUE PERDEU AS MARGENS







António Gonçalves de Bandarra

2009-04-12T01:59:00.799+01:00

Dedicatória a Dom João de Portugal, bispo da Guarda SENTE BANDARRA AS MALDADES DO MUNDO E PARTICULARMENTE AS DE PORTUGAL I Como nas Alcaçarias Andam os couros às voltas, Assim vejo grandes revoltas Agora nas Cleresias. II Como usam de Simonias E adoram os dinheiros, As Igrejas, pardieiros, Os corporais por mais vias. III O sumagre com a cal Faz os couros ser mociços, Ah! Quantos há maus noviços Nessa Ordem Episcopal! (...) SONHO SEGUNDO Oh! Quem tivera poder Para dizer, Os sonhos que o homem sonha! Mas hei medo, que me ponha Grão vergonha De mos não quererem crer. Vi um grão Leão correr Sem se deter Levar sua viagem, Tomar passagem, Sem nada lho defender. Tirará toda a escória Será paz em todo o Mundo, De quatro Reis o segundo Haverá todo a vitória. Será dele tal memória Por ser guardador da lei, Polas armas deste Rei Lhe darão triunfo, e glória. Trinta e dois anos e meio Haverá sinais na terra; A Escritura não era; Que aqui faz o conto cheio. Um dos três que vão arreio Demonstrar ser grão perigo; Haverá açoite, e castigo Em gente que não meneio. Já o tempo desejado É chegado Segundo o firmal assenta Já se passam os quarenta Que se ementa Por Doutor já passado. O Rei novo é acordado Já dá brado: Já arressoa o seu pregão Já Levi lhe dá a mão Contra Siquém desmandado. E segundo tenho ouvido, E bem sabido, Agora se cumprirá: A desonra de Dina Se vingará Como está prometido. O Rei novo és escolhido E elegido, Já alevanta a bandeira Contra a Grifa parideira Que tais pastos tem comido; Porque haveis de notas, E assentar Aprazendo ao Rei dos Céus Trará por ambas as Leis, E nestes seis Vereis coisas de espantar. O néscio quer afirmar, E declarar Desde seis até setenta Que se ementa, Do Rei que irá livrar. Louvemos este Barão Do coração, Porque é Rei de Direito; Deus o fez todo perfeito Dotado de perfeição. Este Rei tem um Irmão, Bom capitão. Não se sabe a irmandade? Todo é nobre, em bondade; E na verdade Que sairá com o pendão. Muitos estão desejando, E altercando, Se o meu dito será certo, Se de longe, se de perto? E sobre o tal praticando Aquele grão Patriarca No-lo mostra, e está falando, E declara o grão Monarca: Ser das terras, e comarca, Semente del Rei Fernando. Este Rei de grão primor, Com furor, Passará o mar salgado Em um cavalo enfreado, E não selado, Com gente de grão valor. Este diz, socorrerá, E tirará, Aos que estão em tristura, Desde, conta a Escritura, Que o campo despejará, Os Fidalgos estimados, E desprezados, Que até agora são corrigidos, Com o tal serão erguidos, E mui queridos, E com os Reis estimados. Se lerdes as Profecias De Jeremias, Irão dos cabos da terra Tomar os Vales, e Serra, Pondo guerra, E tirar as heresias, Derrubar as Monarquias, E fantasias Serão bem apontoadas, Serão todas derrubadas, [...]



António Gonçalves de Bandarra

2009-04-12T01:53:00.487+01:00

 

(image)

António Gonçalves de Bandarra (1500-1556) nasceu e faleceu em Trancoso. Tendo exercido a profissão de sapateiro, dedicou-se à divulgação em verso de profecias de cariz messiânico. Por causa disso, foi acusado pela Inquisição de judaísmo e as suas trovas foram incluídas no Catálogo de Livros Proibidos. D. João de Castro foi o editor da primeira edição conjunta das trovas, com o título Paráfrase e Concordância de Algumas Profecias de Bandarra, publicadas provavelmente em Paris no ano de 1603. A obra foi bem recebida pelos nacionalistas portugueses que aspiravam libertar-se do jugo de Espanha, interpretando as trovas como uma profecia ao regresso do Rei D. Sebastião. Em 1802, as trovas tiveram uma segunda edição, na cidade francesa de Nantes, patrocinada pelo Marquês de Nisa. São reimpressas em 1809 (Barcelona e Londres), aquando das invasões francesas, com prefácio de Frei José Leonardo da Silva. Em 1815, com o título Trovas Inéditas do Bandarra sai uma nova edição. Entre 1822-1823, com o título Verdade e Complemento das Profecias, uma outra. As Trovas do Bandarra influenciaram o pensamento sebastianisma e messiánico de Padre António Vieira e de Fernando Pessoa.

Fonte : Projecto Vercial




António Feliciano de Castilho

2009-04-11T02:09:00.205+01:00

A TOMADA DE COIMBRA


(Xácara)


I


Caminhavam frades bentos
do mosteiro de Lorvão,
quando acharam Dom Fernando
no meio de Carrião:
era Dom Fernando o Rei,
e seu reino era Leão.


– D. Fernando, D. Fernando,
novas de consolação!
cavaleiros não nos oiçam;
manda sair quantos são.
Deus te nos manda dizer
que tens Coimbra na mão.


«Descuidados estão Moiros
do poderio cristão;
deles o havemos sabido
por sua conversação,
quando nos vêm de Coimbra
a montear em Lorvão.


«Fingimos uma romagem
por livrar de suspeição,
e viemos dar-te aviso,
grão Rei, senhor de Leão.
Manda logo fazer prestes
todo o ginete e peão.


Como três meses passaram,
era por Janeiro então,
el-Rei é sobre Coimbra,
e os de dentro em confusão;
mas vale o muro à cidade,
que é mui boa defensão.


Em que traz muitos vassalos
de caldeira e de pendão,
em que traz o Cid Rui Dias,
mais forte que quantos são,
não acaba de a tomar,
sete meses já lá vão.


..........................


Cristãos, ganhastes Coimbra,
mais que jóia oriental;
mais tu, Coimbra, ganhaste,
que tens fonte baptismal,
e a tua mesquita grande
verás logo em catedral.


Dar meia cidade aos monges
queria o Rei liberal,
mas os monges só quiseram
uma casa monacal,
contentes com Lorvão santo,
seu paraíso terreal.


Foi-se el-Rei a Compostela
com sua gente leal.
De atabales e trombetas
soa estrondo festival;
abrem-se as portas do templo
bem armado e triunfal.


Todos co'o joelho em terra
como cumpre em caso tal,
diziam de agradecidos
ao valedor imortal:
– «Santiago, Santiago,
salvaste o nosso arraial;
salva sempre os Leoneses,
e a gente de Portugal.»


Escavações Poéticas; 1844




António Feliciano de Castilho

2009-04-11T02:06:00.801+01:00

OS TREZE ANOS (Cantilena) Já tenho treze anos, que os fiz por Janeiro: Madrinha, casai-me com Pedro Gaiteiro. Já sou mulherzinha, já trago sombreiro, já bailo ao domingo com as mais no terreiro. Já não sou Anita, como era primeiro; sou a Senhora Ana, que mora no outeiro. Nos serões já canto, nas feiras já feiro, já não me dá beijos qualquer passageiro. Quando levo as patas, e as deito ao ribeiro, olho tudo à roda, de cima do outeiro. E só se não vejo ninguém pelo arneiro, me banho co'as patas Ao pé do salgueiro. Miro-me nas águas, rostinho trigueiro, que mata de amores a muito vaqueiro. Miro-me, olhos pretos e um riso fagueiro, que diz a cantiga que são cativeiro. Em tudo, madrinha, já por derradeiro me vejo mui outra da que era primeiro. O meu gibão largo, de arminho e cordeiro, já o dei à neta do Brás cabaneiro, dizendo-lhe: «Toma gibão, domingueiro, de ilhoses de prata, de arminho e cordeiro. A mim já me aperta, e a ti te é laceiro; tu brincas co'as outras e eu danço em terreiro». Já sou mulherzinha, já trago sombreiro, já tenho treze anos, que os fiz por Janeiro. Já não sou Anita, sou a Ana do outeiro; Madrinha, casai-me com Pedro Gaiteiro. Não quero o sargento, que é muito guerreiro, de barbas mui feras e olhar sobranceiro. O mineiro é velho, não quero o mineiro: Mais valem treze anos que todo o dinheiro. Tão-pouco me agrado do pobre moleiro, que vive na azenha como um prisioneiro. Marido pretendo de humor galhofeiro, que viva por festas, que brilhe em terreiro. Que em ele assomando co'o tamborileiro, logo se alvorote o lugar inteiro. Que todos acorram por vê-lo primeiro, e todas perguntem se ainda é solteiro. E eu sempre com ele, romeira e romeiro, vivendo de bodas, bailando ao pandeiro. Ai, vida de gostos! Ai, céu verdadeiro! Ai, páscoa florida, que dura ano inteiro! Da parte, madrinha, de Deus vos requeiro: Casai-me hoje mesmo com Pedro Gaiteiro. Escavações Poéticas; 1844 [...]



António Feliciano de Castilho

2009-04-10T02:03:00.368+01:00

DEUCALIÃO E PIRRA Enfim, renasce o mundo. Vendo o triste, o bom Deucalião vazia a Terra e alto silêncio derramado em tudo, a Pirra diz, chorando: – Ó doce esposa, doce irmã e hoje única de tantas habitantes do Mundo, e que ligada pelo amor, pelo sangue estás comigo. e ao presente inda mais pelo infortúnio, – do Nascente ao Poente, em toda a Terra. só habitamos nós; só nós vivemos: tudo o mais pelas ondas foi tragado, e cuido que não tens inda segura tua existência tu, nem eu a minha. Estas nuvens que observo inda me aterram: Ah, triste! Que farias, se arrancada ao fado universal, sem mim te visses? Onde, fria de susto, onde levaras a planta vacilante, e quem seria tua consolação na dor, no pranto? Crê. minha amada, que, se o mar sanhudo te escondesse nas sôfregas entranhas, te houvera de seguir o aflito esposo: sócio te fora em vida e sócio em morte. Oh! Não ter eu de um pai herdado a indústria? Renovaria agora a Humanidade. alma infundindo na formada Terra. Todo o género humano em nós se inclui. Isto aos fados apraz, apraz aos deuses. Ficámos para exemplo de que o Mundo morada de homens foi. Disse, e choravam. Depois, tornando em si, resolvem ambos recorrer aos oráculos sagrados, da deusa Témis invocar o auxílio. Não tardam: vão-se à margem do Cefiso, inda revolto, sim, mas já com margens; e, apenas pelas frontes, pelas vestes os libados licores desparziram. para o templo da deusa os passos torcem. Manchava torpe musgo a frente, os tectos da estância venerável, e jaziam sem ministro, sem luz, sem culto as aras. Como as sacros degraus tocado houvessem, sobre a mádida terra os dois se prostram e dão nas pedras ósculo medroso. Oram depois assim: – Se justas preces tornam benignos os irados numes; se a cólera dos Céus com ais se adoça, dize-nos, deusa, dize-nos de que arte podemos restaurar a espécie humana e socorre, piedosa, o triste mundo. Movendo-se a deidade, assim lhes fala: – Do meu templo saí cobrindo as frontes: soltai as vestiduras que vos cingem e para trás depois lançai os ossos da vossa grande mãe. Tendo ficado atónitos as dois espaço grande, Pirra primeiro enfim rompe o silêncio. Da divindade as leis cumprir não ousa e, com trémula voz, perdão lhe roga, porque teme, espalhando os ossos frios, aos Manes maternais fazer injúria. Depois disto, repetem, pesam, notam as palavras do oráculo sombrio, 'té que Deucalião, o venerando filho de Prometeu, com brandas vozes serena a cara esposa e diz: Se acaso não revolvo ilusões no pensamento, o oráculo da deusa é justo, é pio: não nos ordena o mal, não quer um crime. A grande mãe que ouviste, a mãe de todos, é a Terra; a meu ver, são dela os ossos as pedras; e essas diz que atrás lancemos. Bem que esta inteligência agrade a Pirra, esperanças com dúvidas se envolvem, e ambos das ordens santas desconfiam. Mas que mal faz tentar? Descem do templo: cobrem a fronte;[...]



António Feliciano de Castilho

2009-04-10T02:00:00.854+01:00

O AVARENTO ROUBADO


Harpagão

(Vindo a gritar desde o quintal até entrar em cena, com as feições desconcertadas, e no auge do terror)

Aqui de el-rei, ladrões! Ladrões, aqui de el-rei!
Querem-me assassinar. Mataram-me. Acabei.
Justiça, Deus do céu! Ó da ronda! Ó da guarda!
Estou perdido e morto! um chuço! uma espingarda!
Roubaram-me o meu sangue, os meus dez mil cruzados!
Quem seria? Quem foi? Persigam-me os malvados!
Quem mos trouxer co roubo of'reço-lhe um quartinho...
meia moeda... mais, que eu nunca fui mesquinho.
Para onde fugiu? Onde está ele? Aonde?
Corram, vasculhem tudo, a ver onde se esconde.
Ali não!... Aqui não!.. Agarra o bandoleiro!
Vê-lo cá vai... Agarra, agarra o meu dinheiro!


(Agita-se bracejando à doida, e agarra com a mão direita o braço esquerdo)


Filei-te, mariolão! Larga o que não é teu!...
Estou perdido e doido: o que apanhei fui eu.
E eu quem sou? Onde estou? Que hei-de fazer? Que posso?
Ah, meus ricos dobrões, se eu era todo vosso,
como pudestes vós deixar-me só no mundo?
Que situação! Que horror! Que inferno tão profundo!
Ninguém tem dó de mim; sou Lázaro; sou Job.


(Chora e soluça despropositadamente)


Perdi tudo, e ninguém de mim tem dó.


(Numa explosão de delírio)


Enforcar tudo a esmo, até que surda alguém
co meu cofre; aliás enforco-me eu também.


............................


De que me hei-de valer? Demónio, eu te requeiro:
leva-me um olho... e as dois, mas dá-me o meu dinheiro!




António Feliciano de Castilho

2009-04-09T01:54:00.566+01:00

  FESTA DO DEUS TÉRMINO Finda a noite, alvoreça a costumada festa do deus que nos comparte os campos. Quer tosca pedra, ó Término, te embleme, quer tronco informe pela mão de antigos enterrado no chão, sempre és deidade. Para ti donos dois, de opostas partes, coroa e coroa te cingem; bolo e bolo te vem de cá, de lá; como à porfia, aí se te engenhou ara campestre. Lá nos traz a açodada fazendeira no seu testo quebrado as áscuas vivas que apurou do borralho. O bom do velho racha a lenha miúda, ergue-a em pirâmide; sua a cravar no chão ramos festivos. Agora em cascas secas ceva o fogo, tendo em pé ao seu lado, em quanto assopra, o filhinho abraçado a largo cesto. Três vezes dali tira a lança ao fogo punhados de áurea Ceres. Toma os favos, que a filha pequenina lhe apresenta pelo meio cortados. Trazem outros o vinho; tudo aqui se liba às chamas. Alvitrajada a turba espectadora religioso silêncio atenta observa. Com o sangue quente de imolada ovelha que ufano purpureja o vulto informe do comum velador, o honrado Término! e quando, em vez de ovelha, haja leitoa, não temais que se anoje. O bródio é franco aos bons vizinhos, corações lavados, que o celebram com fé, que jubilosos vão tecendo um louvor a cada prato. Ouvi, ouvi seu rústico descante; é do deus do festejo o panegírico: Salve, ó Término sacro, ó tu, que extremas bairros, cidades, reinos! cada campo fora sem ti um campo de batalha. Manténs, desambicioso, insubornável, as herdades em paz das Leis à sombra. Se a terra Thireátide te houvera, não ceifaria a morte heróis seiscentos de Argos e Esparta no fatal duelo; não se lera de Othriades o nome num vão troféu de mentirosas armas, que inda à Pátria infeliz custou mais sangue. Capitolino Júpiter que diga que invencível te achou, quando ao fundar-se-lhe a área do templo, ao passo que os mais numes para dar-lhe lugar retrocediam, tu só, qual no-lo conta anosa fama, ousas te resistir, ficar, ter parte no templo augusto, e adorações com Jove; e inda lá, por que nada alfim te ensombre, sobre ti ao céu livre é rota a abóbada. Nume de tão gentil perseverança, em qualquer a leveza achará vénia; contradição em ti suicídio fora. Mantêm pois sempre, ó sacra sentinela, mantém pois sempre, ó Término, teu posto. Despreza os rogos do vizinho avaro; não lhe concedas do terreno um ponto. Ceder a humanos quem resiste a Jove?! Vem bater-te enxadão, pulsar-te arado? proclama a vozes: "Meus confins são estes; "de além, tu; de aquém, ele; ambos coíbo. "e em coibir aos dois aos dois protejo." Uma estrada une Roma aos Laurentinos, reino que o Teucro prófugo buscara; lá, dos marcos o sexto em honra tua vê que lanosa vítima se imola. Término, já que aceitas cultos nossos, ampara-nos; sustenta o nosso Império. De cada povo o espaço é circunscrito; são de Roma os confins confins do globo [...]



António Feliciano de Castilho

2009-04-09T01:49:00.635+01:00

FESTA DAS SEMENTEIRAS: Nos Anais, onde as festas vêm marcadas, festas em vão busquei das sementeiras. Vendo-me a folhear, cuidoso, assíduo, e entendendo-me o empenho, – "Em balde as buscas rindo a Musa me diz; – "festas mudáveis "das fixas no registro achar querias? "Têm marcada estação, e o dia incerto; "celebram-se no prazo em que estão prenhes "de sementes os chãos. Gozai do ócio "à farta manjedoira, ó bois coroados; "lá virá logo a activa Primavera, "à cerviz repoisada impondo jugo, "com a renascente lida afadigar-vos. "No abrigo do casal durma por ora "a cansada charrua; a terra fria "não deseja, não sofre, o ser rasgada." Agora, que jaz finda a sementeira, lavradores, dai folga ao solo, aos braços; lustrem colonos sua aldeia em festa, dêem a seus fogos a anual fogaça. Télus e Ceres, madres das searas já com seus mesmos grãos se propiciem, já com as entranhas da suína fêmea. De entre ambas nasce o grão que nos sustenta: Ceres no-lo produz; mantém-no a Terra. Ó consócias em dádiva tão rica, deusas, por quem a rude antiguidade se abrandou, se poliu, deixada a glande por mais nobre manjar, dai aos colonos, em prémio a seu trabalho e a seus desvelos, colheita sem medida, e que os sacie. Dai aumento contínuo aos germes tenros, e que a neve à nascença os não destrua. Em quanto disparzirmos as sementes, alimpai-nos o céu com ventos brandos; mal que enterrada for, mandai-lhe as chuvas; e, pois são glória vossa as pingues messes, que em vagas de oiro, ao longo dessas veigas, rumorejam fartura, eia, salve-as do ávido bico das aladas hostes! Por ora, que inda a terra o grão recata, vós, formigas povoai-o; usura grande havereis dele, se aguardais a ceifa. Livre de torpe alforra a messe vingue e cor de palma saúde o Céu lhe influa; que nem definhe pálida, nem perca por excesso de viço e nímia pompa. Joio, à vista nocivo, os chãos não brotem, nem torpe aveia as sementeiras mescle. Só se vejam medrar profusamente as cevadas, o trigo, e a rija escándia, a escándia, a fogos dois predestinada. Lavradores, por vós tais são meus rogos. Com os rogos meus os vossos se misturem, por que uma e outra deusa os ratifiquem. Ferina longo tempo a humanidade só nutriu belicosos pensamentos. Mais apreço que a relha a espada tinha, e em foros de nobreza era anteposto o corcel que peleja, ao boi que lavra. Não trabalhava a enxada; ia-se em lanças dos alviões o ferro; o ancinho em elmos. Graças deusas, a vós, a vós, ó Césares o Génio marcial agrilhoado já sob os pés de Roma em vão se extorce. O toiro aceite o jugo; o solo, os germes; Ceres, filha da paz, com a paz triunfe. [...]



António Feliciano de Castilho

2009-04-09T01:46:01.168+01:00

António Feliciano de Castilho (1800-1875) nasceu e faleceu em Lisboa. Aos seis anos, por motivo do sarampo, cegou. Não obstante isso, seguiu estudos regulares, graças ao auxílio de seu irmão Augusto Frederico. Em 1817, matriculou-se na Universidade e em 1826 estava formado em Cânones. A seguir, fixou-se com o irmão em Castanheira do Vouga, perto de Águeda, e aí se conservou uns oito anos, em situação que muito favoreceu o estudo e a produção literária. Esteve na Madeira e nos Açores e visitou o Brasil. – Dedicou-se à tradução de obras em latim, francês e inglês. Obras Principais: Cartas de Eco e Narciso (1821); A Primavera (1822); Amor e Melancolia (1828); A Chave do Enigma; A Noite do Castelo (1836); Os Ciúmes do Bardo (1836); Crónica Certa e muito Verdadeira de Maria da Fonte (1846); Felicidade pela Agricultura (1849); Escavações Poéticas (1844); Presbitério da Montanha; Quadros da História de Portugal (1838); O Outono (1863). Traduções: A Lírica de Anacreonte; Metamorfoses e Amores, de Ovídio; Geórgicas, de Virgílio; Médico à Força, Tartufo, O Avarento, Doente de Cisma, Sabichonas e Misantropo, de Molière; O Sonho de uma Noite de S. João, de Shakespeare; Fausto, de Goethe.; D. Quixote de La Mancha, de Cervantes. Fonte: Projecto Vercial Outros Links: Obras de António Feliciano de Castilho na Biblioteca Nacional Digital António Feliciano de Castilho no Dicionário Histórico de Portugal António Feliciano de Castilho na wikipedia António Feliciano de Castilho no Projecto Vercial António Feliciano de Castlho na Wikisource [...]



António Dinis da Cruz e Silva

2009-04-08T02:22:00.709+01:00

Soneto

Que aziago que foi, que dia infausto

Aquele, em que vi tua formosura!

Em que cheio de amor e de ternura

Esta alma te ofertei em holocausto!

Teus olhos m'o fizeram ter por fausto,

Teus belos olhos cheios de doçura,

Mas logo me fez ver minha loucura

Teu peito de rigores nunca exausto.

Ai! e quão mesquinho é, quão desgraçado

Aquele, que como as mostras vão se engana

De um angélico rosto sossegado!

 

Pois mil vezes encobre a vista humana

Qual áspide cruel florido prado,

Um coração uma alma desumana.