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Casa de Cacela



Textos e imagens de José Carlos Barros. Perguntas: blogcacela@gmail.com



Updated: 2016-06-22T23:07:30.110+01:00

 



[um outro lugar]

2015-10-26T17:12:47.725+00:00

Nasci em 1963 e saí de casa dezasseis anos depois. Na minha família quase não existiam lágrimas nem risos. Desconhecíamos o sobressalto. O mundo corria tão devagar que nos era possível surpreender o momento exacto em que as flores brancas das acácias-bastardas, erguidas do outro lado da rua, numa plataforma mais elevada, irrompiam para anunciar o fim do Inverno. Os meus pais quase nunca falavam; e quando falavam, entre eles e connosco, era em voz baixa, num tom que parecia misturar o apaziguamento e a melancolia. O silêncio de dentro era o mesmo silêncio de fora. Vivíamos numa rua larga de terra batida que não levava a lado nenhum, como se a Vila terminasse ali. Enxertada em ângulo recto na estrada nacional, em frente ao edifício do Grémio da Lavoura, a rua subia por entre propriedades agrícolas até a uma curva a partir da qual se bifurcavam dois caminhos: um seguia para a banda do nascente e o outro para noroeste, que era de onde, quase sempre, soprava o vento e chegavam as chuvas. Mas nunca ultrapassávamos esse ponto e nunca nos interrogámos sobre as razões que levavam a isso. Nas nossas brincadeiras de infância, quando passávamos tardes inteiras a brincar aos cobóis, ou ao guarda e ao pilha, era como se houvesse um acordo tácito de demarcação de fronteiras que nos impedia de passar além desse lugar. O mesmo havia de acontecer mais tarde, já adolescentes: não recordo ninguém, de carro ou a pé, de motorizada ou de bicicleta, que, subindo a rua, não tivesse dado meia volta ao chegar à Curva da Mina. . . A biblioteca do meu pai ia crescendo ao ritmo de um ou dois livros por ano. Em 1979, quando saí de casa, constava de cinquenta e sete títulos. Nas duas prateleiras de baixo, por autores, quarenta e nove livros alinhavam-se numa rigorosa ordem alfabética, de Manuel Asturias a Jonathan Wilde. Na prateleira de cima, onde havia apenas oito volumes, dir-se-ia, não se dando o caso de ocuparem sempre a mesma posição ao longo do tempo, que a ordenação era arbitrária. O primeiro, a contar da esquerda para a direita, era o tomo VIII de uma edição em castelhano dos Sermões do Padre Luys Burdalue (en el que se contienen los SERMONES para los Domingos, Lunes, Miercoles, Jueves, y Viernes, desde el Jueves de la Segunda Semana de Quaresma, asta à el Viernes de la Quarta Semana, inclusivamente). Publicado em Amberes, em 1740, a custas de Marcos-Miguel Bousquet, devia ser uma relíquia de família trazida pela minha bisavó, uma espanhola muito católica, que já não cheguei a conhecer, nascida num pueblo dos arredores de Valladolid e que, conta-se, passava o tempo a chorar e a rezar. Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, vinha logo a seguir. Cervantes, nesta prateleira, era o único autor com direito a dois volumes: do Quixote constava uma edição portuguesa, com tradução dos Viscondes de Castilho e de Azevedo e as conhecidas ilustrações de Gustavo Doré gravadas por H. Pisan, e outra, em castelhano, publicada em Buenos Aires no ano de 1943 pela Editoral Sopena Argentina. Seguiam-se-lhe Ficções, de Jorge Luis Borges (na aclamada tradução de Carlos Nejas), Anna Karenina, de Tolstoi, O Vermelho e o Negro, de Stendhal, e Alegria Breve, de Vergílio Ferreira. Foi nesta estante de três prateleiras que aprendi a ler e era nesta estante que estavam todos os livros, cinquenta e sete, que li até fazer dezasseis anos e sair de casa. . .Eu estava sentado numa manta, a jogar ao monopólio com o Ramiro e o Sérgio, quando vi o meu irmão pela última vez. Era uma tarde muito quente de fins de Junho de 1977 e nós estávamos assim, a aproveitar a sombra das acácias-bastardas, quando o meu irmão, de quem raramente se ouvia uma palavra, passou por nós, parou por instantes e, olhando por cima do ombro, disse: "O futuro já existe." Achei, sem nenhuma razão plausível, que era imprescindível fixar os olhos do meu irmão nesse brevíssimo instante em que nos olhou por cima do ombro. Olhei: e vi que os seus olhos estavam vazados. Quando ele se virou e recomeçou a caminhar pela rua[...]



2. riscar o que não interessa

2015-08-19T17:56:51.885+01:00



ter presente que
a realidade é não é quer
dizer é
o que é



1. tempo de caça

2015-08-09T17:30:13.847+01:00

atira-lhe
a ver
se
cai



[as palavras]

2015-07-09T12:02:54.760+01:00

jcb


 
 
As palavras
lama
e
alma
escrevem-se
com as mesmas
letras.



a ponte de carvalhelhos

2015-02-01T22:30:21.194+00:00

fotografia de jcb




vilarinho seco

2015-02-01T00:33:21.988+00:00

jcb




Não davam cabo de tudo

2015-01-24T02:25:25.617+00:00

A minha avó explicava no seu jeito
simples: "é que assim ao menos não davam cabo
de tudo ao mesmo tempo". Por isso as raparigas
diziam antigamente ao deitar as flores sobre

os recém-casados (e mais tarde o arroz, escolhido
por ao cozer aumentar tanto a porção inicial
que sobre quase todas as
restantes coisas podia simbolizar

a abastança): "eu deito flores para vos abençoar
[ou arroz, na versão tardia],
e deito e torno a deitar,

e que seja a mulher em casa
sempre a governar". Que eles era mais boa-vai-ela
e lances arrojados: matarem um javali

com zagalotes ou desaparecerem para os brasis
ou as franças a ganharem o sustento
da família e já-gora a verem o mundo. Ou passarem
manhãs e tardes de domingo inteiras

na bêbeda com o pretexto do malhão
ou do jogo do fito. E eram elas sempre
que tratavam da casa.
Aí, em o marido não metendo

excessivamente a colher, sempre era certo
haver uma toalha de linho em cima da mesa
ou na corte um animal que se vendesse

gordo em véspera de dias diferenciados.
E tratavam da horta com aquele modo
prosaico de desejarem apenas

que os frutos ou os legumes crescessem
enquanto eles nas feiras faziam
mirabolantes negócios que se não metessem gajedo
metiam vacas e espingardas ou uma 6.35

de defesa pessoal antes de rumarem
a uma taberna a encharcarem-se
com o pretexto de selarem negócios. Que ao menos lhes
fosse dado a elas tratarem da casa: que assim

ficava garantido esse governo
enquanto os homens faziam apostas de vararem
a tiro as tábuas de madeira ou os sinais de trânsito

ou subiam em padiola a escada
de pedra que levava da adega
aos aposentos de dormir

às quatro da manhã. Eles
mandavam nas mulheres e no mundo
e as mulheres deixavam que eles
mandassem nelas e no mundo

desde que na casa não tomassem conta de nada
para não darem cabo de tudo
ao mesmo tempo. Por isso as amigas
não desejavam mais à noiva

no dia do casamento
do que Deus permitir que em casa
fosse a mulher a governar

enquanto os homens andassem no destino deles
de serem felizes e conquistarem o universo
e foderem tudo.



A girafa

2015-01-24T01:29:58.798+00:00

A girafa olha o relvado
com uma sensação filha da puta de que
vai ter que vergar a mola.



Mateus 4:18

2015-01-21T16:00:36.468+00:00

Elas vinham contra a mim. Andava
com o arrasto metia-lhes à frente e
as suspindia. Em junho vêm para terra
à desova. O pessoal as pisa
e leva um esticai. Investem contra a gente
maganas. Vão-se ao cimo da água a
invistirem. Apanhava-as com o arrasto
mas não podia tocar no ferro do arrasto
impenas na parte do pau. Mesmo só dos pés
no chão sentia o estremução delas.
Depois chegava à praia e as
descarregava. As punha na areia
pareciam mortas as putas
e ainda a darem-nos choque.
Por aí se vê a admiração de na Galileia
aos que lançavam as redes dizer-se que dizia
Jesus que o seguissem
que fazia deles pescadores
de homens. Pois me admirava eu mó
era se dissesse aos discípulos
que pescassem tremelgas.



Adormecer longe de casa

2015-01-12T16:54:38.119+00:00

jcb.
 





Caderno de andar. La Habana.

2015-01-12T16:40:05.092+00:00




Secret Story

2015-01-10T03:08:42.248+00:00

É duvidoso que, atendendo aos termos
contratuais, possa revelar o
segredo. O meu advogado diz-me que
tal-e-não sei quê. Arrisco
e digo a verdade: não entrei no Desafio
Final 3 porque tinha pêlos no corpo
e nenhumas tatuagens nos braços. Nem
no pescoço. Nem nas pernas.
Mostrei, em último recurso, erguendo
a meia manga da t-shirt, uma
mancha escura no ombro
de nascença que quase parece
uma tatuagem. Nada. Não era suficiente.
Ainda chamaram lá um assessor a decidir --
mas nada. E assim se vê como
é tão ténue a fronteira entre
o anonimato e a
glória. Continuarei a escrever
poemas que ninguém lê
até me depilar e,
não obstante o exposto no
Levítico 19:28, tatuar-me.



outra vez

2015-01-09T18:56:44.150+00:00

UM ROSTO ESTRANGEIRO

não chegavam a olhá-los de frente
olhos nos olhos
com receio de que uma qualquer forma de afecto acabasse por aproximá-los
limitavam-se a dar-lhes água e a inventar uma desculpa
para se fecharem de novo e
ficarem a olhá-los por detrás dos vidros das
janelas das casas enquanto eles vagarosamente se afastavam
era assim que estava escrito
nenhum sentimento nos deve ligar aos que estão de passagem
nenhum sentimento nos deve ligar aos que desconhecemos
por isso não os olhavam de frente e não faziam perguntas
até a esse dia em que alguém decidiu ficar por mais tempo na rua
e olhou de frente um rosto estrangeiro
até ao sobressalto de compreender que
havia alguma coisa nesse rosto que pertencia ao seu próprio rosto
que havia alguma coisa nos seus gestos que
era já parte dos seus próprios gestos
e fumaram juntos e falaram de lugares diferentes do mundo
como se ambos fossem estrangeiros e
assim começassem aos poucos a deixar de sê-lo
ou pelo menos a deixarem de
ser estrangeiros um do outro
como se ambos andassem há muito tempo perdidos
e agora se encontrassem para a possibilidade fabulosa de
caminharem juntos
e se perderem juntos
nos caminhos do mundo



ISTO SÓ EM VILARINHO

2015-01-09T18:11:39.680+00:00

Foi há seis anos que dona Marquinhas anunciou o propósito de recuperar a tradição do presépio de Vilarinho que antigamente se montava no Largo da Escola. Fez as contas à reforma e às poupanças e começou por adquirir a imagem do Menino Jesus em tamanho natural. E, passados quatro meses, a Nossa Senhora. E depois, espaçadamente, o São José, o burro, os Reis Magos, o pastor, as ovelhas. Seis anos nisto até que a 12 de Dezembro último, enfim, se começou a montagem. Todos muito rendidos à emoção, quase a epifania, quando se dá um revés. Diz a Lena: «Ó Marquinhas, carai, então os teus Reis Magos, os três, são brancos co-má-gente? Não saberás que um era preto retinto?»

Lá teve, pois, que se encomendar a Braga, com pedido de urgência, um preto. A temer-se, tão em cima da hora, que já nem chegasse a tempo. Quis Deus que chegasse: a 23. E logo nessa tarde, sem demoras, se recomeçaram os trabalhos de colocação das figuras: já o serrim nos caminhos, já o papel azul de lustro nas ribeiras, já o musgo no resto.

Até que a Lena se apercebeu da falta da vaca: «Olha-me um presépio só com o burro.»

Outro revés. Este pior: anunciada a inauguração, o padre Martins convidado à bênção, as rabanadas e as filhoses de jerimum à espera.

Mas foi então que o Tó Maluco, o único declarado no nome de entre os doze que existem na terra, se fez ouvir: «Descansem. Eu é falar com o doutor e resolve-se tudo.»

Diz-se que em todas as terras há um maluco. Em Vilarinho são doze. Quem o afirma é o doutor Augusto, que parece que se inclui nas contas. A Marquinhas também ninguém a tira do rol. Isto, somado ao Tó, é ver-se a quem a coisa começava a ficar entregue.

O certo é que a 24, ao anoitecer, o Artur Vicente estacionou a camioneta no Largo da Escola e viu-se a descarregar e a fazer deslizar sobre o musgo, ajudado pelo doutor Augusto e o Tó Maluco, um vulto de pescoço alto.

E hoje, 25 de Dezembro, não sendo ainda meio-dia, já o povo das aldeias à volta, e mesmo de Chaves, pois tão longe e rapidamente andou a notícia, se acotovela em redor do presépio.

É quando alguém diz: «Isto só os malucos de Vilarinho.»

Inveja. Porque o certo é haver acima de duzentas pessoas a olhar, deslumbradas, o único presépio do mundo com quatro Reis Magos e uma girafa, desaparafusada na noite anterior do carrossel que o Artur Vicente estaciona durante o Inverno no jardim do doutor Augusto, a fazer de vaca.


[Texto publicado originalmente na revista SÁBADO, nº 556, edição de 23 a 29 de Dezembro de 2014]



[O amor]

2015-01-03T04:34:12.062+00:00

Se não lhe faltasse
o sentido de orientação
era uma ave
o amor.



dos poemas

2015-01-02T00:52:59.235+00:00

Eu dava tudo por escrever alexandrinos.



a literatura é sobretudo o enredo, a mensagem

2015-01-01T18:45:24.654+00:00

- E não tens vergonha, pá? Então bateste na tua mãe?
- Não, levava-as eu.



ainda sobre a literatura 2

2015-01-01T18:43:24.665+00:00

A minha tia Almerinda mandou-me uma SMS a desejar um foliz ano nobo. Não se pode dizer que a minha tia Almerinda seja particularmente devotada às letras. Mas eu emocionei-me e quase me vieram as lágrimas aos olhos. É que sou dos que acham que o importante é a história, o enredo, a mensagem que se quer transmitir. A linguagem é o menos.



ainda o caso espírito santo

2015-01-02T01:03:14.318+00:00

O meu tio António ficou de pé-atrás. E disse-lhe:
- Ó Estriga, mas assim perdes dinheiro. Se compras a cinquenta e vendes a quarenta e sete e quinhentos...
E ele:
- Mas perco pouco.



ainda sobre a literatura

2015-01-01T18:31:28.253+00:00

Brilhem mais, brilhem menos, há estrelas que pernanecem o ano todo acima do horizonte. Não é como aquelas totós, cheias de brilhozinho e aparente grandeza, que, vai-se a ver, deixam de ver-se quando menos-se-espera. O Sporting, com estrelas das que brilham pouco, mas que são circumpolares, foi a Guimarães e deu-lhes duas batatas. Isto podia ser uma metáfora. Mas não é: é só porque alguém tem que dizer estas coisas.



é páprenderes

2015-01-01T18:10:51.119+00:00

Eu:
- E o tipo isto e aquilo, e ó carai, que já nem o posso ver.
Ele:
- Mas tens assim tanta admiração pelo gajo?
E eu:
- O quê, mó? Mau que não-te-percebo. E à-mor-de-quê é que dizes isso?
E ele:
- É que eu só falo mal de quem admiro.



ainda O Uso dos Venenos

2014-12-27T17:20:12.196+00:00

O meu livro de poesia "O Uso dos Venenos", edições Língua Morta, foi referenciado, nas habituais escolhas dos melhores livros publicados em Portugal durante o ano, por dois críticos literários do jornal Público (José Riço Direitinho e Luís Miguel Queirós) e por dois do Expresso (Pedro Mexia e José Mário Silva). O livro, que se vende ao preço de 13 euros e que saiu numa tiragem de duzentos exemplares, deve estar longe de se encontrar esgotado. Além dessas referências na imprensa, que valem o que valem, acrescente-se a opinião do meu tio Alberto e da minha prima Esmeralda, que consideram "O Uso dos Venenos", respectivamente, "um livro que tem ali umas coisas que dá que pensar" e "uma obra que, não fosse a gente não entender metade do que lá se diz, tinha que se lhe dissesse".

O livro pode ser adquirido, por exemplo, na Livraria Letra Livre (www.letralivre.com), ou pedido directamente à editora através do mail edlinguamorta@gmail.com.



um disco dos doors

2014-11-02T03:02:06.313+00:00

Coisas que chegámos a pensar
que guardaríamos para sempre. Um disco
dos Doors. Umas calças de ganga. Um seixo
rolado da Presa das Tílias. Um livro

de Teixeira de Pascoaes. Uma
carta de amor com a letra ainda trémula
de os sentimentos de quem escrevia
se sobreporem aos cuidados

da caligrafia. Um mapa das estradas.
Coisas assim. A vereda a caminho do rio
onde pela primeira vez as nossas mãos

por um momento tão breve
chegaram a tocar-se. Uma dança
num baile de aldeia. Uma viagem de automóvel

sem gps. O odor húmido
dos pinheiros bravos depois dos incêndios.
Coisas assim

que um dia julgámos
que havíamos de guardar como tesouros
inconsumíveis. E no entanto

fomos perdendo tudo
até os bolsos ficarem vazios
e o coração apagado como num incidente
de inverno. E nem a memória

de tudo isso pode agora valer-nos.
Porque a memória
recupera sempre o que não temos
ou já não podemos ter.



notas do caderno de apontamentos do meu avô francisco

2014-10-26T03:23:29.453+00:00

Os
que entram no mundo
pelo silêncio das florestas.
Os que vêem apenas
quando a luz
os cega.
Os que repetem
em voz alta
os nomes dos frutos.
Os que procuram até ao fim
a árvore
dos significados.
Os
que não
acreditam.
Os que não temem
o frio
do inverno.
Os
que não têm
contas a prazo.
Os que chegam sempre
tarde
às paragens dos autocarros.
Os que se esquecem
de riscar os dias
nos calendários.
Os que se recusam
a serem jovens
para sempre.
Os que guardam
as sementes
nas gavetas das cómodas.
Os
que não têm
pátria.
Os que deixam
entre as folhas dos livros
os retratos antigos.
Os
que enlouquecem
devagar.
Os
que têm
a obsessão dos mapas.
Os
que se rendem
à linguagem.
Os que crêem
no poder obscuro
dos acasos.
Os
que olham
as estrelas.
Os
que se
perdem.
Os
que não esperam nada
do mundo.
Os
que não têm nada
a perder.



(poema antigo)

2014-10-15T02:17:27.578+01:00

FADO

Gostava de escrever letras de fado.
Falar de um coração que não existe
se a dor o não tocar ou não for triste,
se o mundo não ruir, desmoronado

de tanta vil angústia e desalento.
Gostava desses temas nos meus versos:
de ter todos os dias mil pretextos
pra invocar um crime ou um lamento,

a insídia, um aneurisma, um anexim
antigo, um nó fatal na coronária,
traições, o luto, as penas do inferno.

Gostava tanto de escrever assim.
Detesto a minha obra literária.
Detesto ser poeta e ser moderno.