Subscribe: As mãos por dentro do corpo
http://penichecarlos.blogspot.com/feeds/posts/default
Added By: Feedage Forager Feedage Grade B rated
Language:
Tags:
aos  blogspot  boca  das  dentro  dias  dos  entre  mais  meu  noite  nos  não  olhos  onde  pela  pelo  seu  teu  ás 
Rate this Feed
Rate this feedRate this feedRate this feedRate this feedRate this feed
Rate this feed 1 starRate this feed 2 starRate this feed 3 starRate this feed 4 starRate this feed 5 star

Comments (0)

Feed Details and Statistics Feed Statistics
Preview: As mãos por dentro do corpo

As mãos por dentro do corpo



O teu desassombro está em ti -Sebastião Alba



Updated: 2014-10-03T08:48:40.500+01:00

 



Caminho

2009-07-30T09:48:14.162+01:00

(image)

Continuamos em: Infinitoatlantico.blogspot.com



O fim do principio

2009-07-08T14:44:56.569+01:00

Tarde e a más horas, mas ainda assim a tempo.

Agradeço sinceramente a todos, a ilimitada partilha e o prazer que ao longo de todo este tempo foi o vivermos este espaço fluído/fluxo/flexo/reflexo.

"Enquanto houver estrada para andar a gente vai continuar", brevemente noutro lugar....



A Tua Boca

2008-11-03T23:38:38.062+00:00

(image)

"Two Callas" - Imogem Cunningham

Escrevo para o vento
contra o odioso silêncio
os seus bichos milenares
e o vazio que ganha contornos de branca loucura
uma sanguessuga obscura e profunda
dentro das imagens incendiadas
onde recordo o rosto que nunca conheci
as pessoas solares afastaram-se de mim
as minhas feridas brilham
como vibrantes libélulas
por cima das águas estremecidas pela insónia
deixei de as lamber
porque sou um soldado com uma só dor original
erguida da fundura do meu nome
algo que não podes curar com o teu sexo
e o teu cheiro de laranjeira marinha
que se passa aqui?
devo carregar a noite nos ombros e nos olhos
devo ser fiel aos meus sentidos e sentir
abandonar e abandonar-me
ressuscitar morrendo
por dentro da Casa da beleza
I N U T I L
N
U
T
I
L
Esta cabeça fonética com caixas de musica
luzes precariamente equilibradas na linha do horizonte
venenos acessíveis a poucos
este mundo ligado ás artérias das madrugadas
aos compassos do poema que abre e fecha a paixão
as flores internas
acendem esta boca repentina de astros
estas mãos torrenciais de azul
esta pele levantada para que vejas a carne combustível
sobre o amplexo perfeito do sonho
um trompete arrancada à raiz da lua
transbordantes desastres pressentidos
na fluidez fotográfica dos corpos
este quarto cheio de ignorância de mim próprio
este coração que bate para trás
devora a memória que diz o gelo
de todas as noites em que não te encontrei
de todos os dias em que passas
e me deixas à chuva ardendo por uma palavra
não quero saber de mim
já não me importo
não tenho medo do eclipse
que alastra pelos dedos alucinados
sobe à cabeça esgotada pelo silencio
o nervo da solidão agreste pensa
essa mulher de pedra esmagada contra a eternidade
sinto a voz que minha Mãe me deu
ténue vaga
aparição
longínqua espuma movimentando-se
na pálpebra que fecha
a luz que me habitava
antes de me precipitar
que se passa?
não estou triste
não tenho ambições
guardo as coisas que importam
debaixo da língua
um lugar para a tua boca devorar
quando quiser.




Treva

2008-10-25T23:09:02.947+01:00

(image)


O poema move-se na obscuridade
Do seu escuro pensar
no jardim de negras flores onde o poeta sangra
Perde-se o nome na boca errada
o cansaço e a insónia crescem dos olhos metafóricos
cães fantasmas devoram a paixão
onde a vida ganha violentas formas
uma estranha águia rasga com o seu bico a têmpora febril
do homem que escreve
o seu abismo
a sua árvore
a sua melancolia
cravada na limpidez dos dedos da terra devastada
pelas avenidas desarrumadas onde deambulo
escurecido de beleza rudimentar
fixo a corda ao cais maternal
onde recordo a ternura completa
das roseiras de seda
a infância arrasada pelo crescimento do corpo
alimento o peixe estelar
trabalho para ti desde sempre
mesmo que não o entendas
mesmo que não o vejas
mesmo que não o sintas
espero em silencio
como o monge de Friedrich
esqueço as cores que me habitavam
entrego-me ao minucioso trabalho
das mãos por dentro do corpo
à colheita da luz que escorre das madrugadas
dos campos ferozes onde habitamos
a Casa de solar arquitectura
eu imagino com delicadeza essa claridade
as sementes preciosas do amor por germinar
veneno espalhado pelo sonho por sonhar
um alicerce suspenso na noite
que me toca o rosto iluminando-o de exuberante treva.



Verdadeiramente Teu

2008-10-21T22:45:03.286+01:00

(image)
Rodin - "The Walking Man"


Verdadeiramente teu
O que significa isso?
O chão onde se cai
é o lugar onde se desiste
O zero deserto
decerto
seres o meu centro
ou talvez salvares-me a vida
com a tua mão de estrela
e o teu vestido de negro infinito
cada coisa tem o seu peso propicio
e a tua ausência é o silencio que me queima o grito
uma melodia de quem se perde abraçando
o vermelho amargo das lágrimas dessa árvore
que cresce do meu rosto devorado
até ás indizíveis palavras por detrás do poema
o que te digo
é o que não escutas
o que te ofereço
é o que não queres
mas verdadeiramente teu
sou eu.

Não partas antes de chegares
não me deixes sem me tocares.




12 Comentários

2008-10-16T22:41:29.628+01:00

Este Blog foi agraciado com o prémio Dardos pela ASTRA, que tem também o link nos favoritos: "Outros Corpos". Seguindo as regras de atribuição, aqui fica, desde já o meu sincero agradecimento publico e também 15 dos meus amigos predilectos, a quem eu atribuo a distinção Dardos.

Relembro a este propósito que:

"se reconhecem os valores que cada blogueiro emprega ao transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais, etc. que, em suma, demonstram a sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre suas letras, entre suas palavras. Esses selos foram criados com a intenção de promover a confraternização entre os blogueiros, uma forma de demonstrar carinho e reconhecimento por um trabalho que agregue valor à Web.Quem recebe o “Prêmio Dardos” e o aceita deve seguir algumas regras:
1. - Exibir a distinta imagem;
2. - Linkar o blog pelo qual recebeu o prémio;
3. - Escolher quinze (15) outros blogs a que entregar o Prémio Dardos.


Ad Astra em http://almaversusmare.blogspot.com/
Joana em http://oitavaedicao.blogspot.com/
José Alexandre Ramos em http://quefarei.blogspot.com/
SMA em http://caminho-de-terra.blogspot.com/
Cláudia em http://bluemolleskin.blogspot.com/
Maria Quintela em http://dolugardemim.blogspot.com/
Luis Galego em http://infinito-pessoal.blogspot.com/
R. em http://a-minha-nuvem.blogspot.com/
Maria em http://ocheirodailha.blogspot.com/
Graça em http://ortografiadoolhar.blogspot.com/
Sofia em http://sofialisboa.blogspot.com/
Tchi em http://perolasdeouro.blogspot.com/
Vieira Calado em http://vieiracalado-poesia.blogspot.com/
Pi em http://pas-s-ages.blogspot.com/
PNS em http://4esq.blogspot.com/



Palavra

2008-10-13T22:47:00.164+01:00

(image)


Pudemos colocar a fé onde nos é permitido
ou seja a meio do caminho onde só passam as crianças
e os trespassados
e os desalojados
e os desprezados
e os que por abrigo escolheram o céu nocturno
para abrir os olhos da tempestade que é estar nu
e se transformaram em gente imensamente rica
porque puderam fechar os buracos negros da memória
transformar os erros em clarividentes metáforas
a sujidade em branco amanhecer
e esquecer…
a minha direcção é entre esse vento norte
e a verdade que tudo magnetiza
medusas estelares
cidades costeiras precipitas pelo grito oceânico
constelações iluminadas na intensidade
dos teus olhos boreais
os passos em volta do meu nome
levantado entre império nenhum e as mãos abertas
sobre as nossas frágeis vidas
atiro-me contra as paredes futuras de nossa Casa
sonho um coração felpudo feito de espuma estrutural
e asas de borboletas azuis
escrevo o canto do pássaro matinal cheio de folhas
e a ternura desmedida do meu cão
e sobretudo
o meus sangue sentido no afecto das tuas mãos de vidro crepuscular
e não preciso de metáforas
para escrever o que é centro no poema
onde suavemente irrompe o que sempre será
a boca encontrada no silencio da busca
um lugar onde se podem queimar os erros do passado
um ballet de intangíveis luzes para pernoitar no abandono do corpo
dias e noites demasiadas
numa única palavra
que não precisa de ser dita de tão evidente.




Questões Pertinentes

2008-10-08T13:09:49.346+01:00

(image)


Pergunto à porta fechada
Pergunto à madrugada
Pergunto ao sonho limpo
Pergunto aquilo que sinto
Pergunto ao bosque
E á língua que cospe
Pergunto à esperança
Porque é que não dança
Pergunto ao momento
Pergunto ao relento
Pergunto ás tuas pernas
Porque seguem esse caminho
Pergunto à verde folhagem
Onde se esconde a tua imagem
Pergunto à delicada baleia
E à aranha sem teia
Pergunto ao animal furtivo
E ao homem pensativo
Pergunto ao olhar azul
E ás aves do sul
Pergunto ao sem abrigo
Expulso cem mil vezes
Pergunto ao dono do paraíso
e aos vendedores de maçãs
Pergunto à santíssima trindade
onde está a caridade
Pergunto ao surrealistas
Pergunto aos trapezistas
Pergunto aos panfletários
Pergunto aos operários
Pergunto aos anarquistas
Pergunto aos perfumistas
Pergunto aos burros
especialmente ao de Bresson
Pergunto ás coisas vivas
Pergunto ás rugas lisas
Pergunto aos anjos loucos
Porque somos tão poucos
Pergunto aos corretores da bolsa
Pergunto aos superiores hierárquicos
Pergunto a minha mãe
á noite entre lágrimas
porquê?
Pergunto à cega visão que me acompanha
e a essa terra tão estranha
Pergunto ao turbilhão do sonho
e ao alimento que colho
Ao mar que esconde esta raiz
E à aberta cicatriz
Pergunto ao teu sorriso
Pergunto ao meu siso
Pergunto ao escorpião cósmico
Pergunto ao cigano bósnio
Pergunto ao louco
O que significa pouco
Pergunto ao coração nu
Onde estás tu
Pergunto ao cliente
Pergunto ao ausente
Pergunto aos desaparecidos
Pergunto aos maridos
Pergunto à mediocridade
Pergunto á solidariedade
Pergunto ao negro da noite
Porque se veste de branco
Pergunto ao meu corpo
Pergunto à máquina de barbear
Porque não sabe cantar
Pergunto à cidade
Pergunto à humanidade
Pergunto ao cruzamento
Pergunto ao desalento
Pergunto ao tribunal
se posso comemorar o Natal
Pergunto ao ódio
qual o seu próximo episódio
Pergunto ao sarcasmo
Pergunto ao orgasmo
Pergunto ao pateta
Pergunto ao poeta
Pergunto ao cão
Pergunto à mão
Pergunto à plasticina
Pergunto à cocaína
Pergunto ao diabo
Pergunto ao jurado
Pergunto ao canalha
Pergunto à navalha
Pergunto ao surdo
Pergunto ao uivo
Pergunto ao lobo
Pergunto ao bobo
Pergunto à boca
Pergunto à louca
Pergunto ao amor
Pergunto ao terror
Pergunto ao sono
Pergunto ao dono
Pergunto ao camaleão
Pergunto ao coração
Pergunto ao impossível
Pergunto ao risível
Pergunto ao cemitério
Pergunto ao mistério
Pergunto à ternura
Pergunto à loucura
Pergunto ao vinho tinto
porque ás vezes minto
Pergunto ao mundo
Pergunto ao fundo
Pergunto aos teus braços
Pergunto aos meus passos
Pergunto à beleza
Pergunto à tristeza
Pergunto à melancolia
Pergunto à poesia
Pergunto à ferida
Pergunto à vida
Pergunto ao beijo
Pergunto ao desejo
Pergunto à casa assombrada
Pergunto à infância roubada
Pergunto à lei
não sei…?
Pergunto à serpente
e a muito boa gente
Pergunto-te a ti
Pergunto por ti
porque não morri…



Estrela do Mar

2008-09-24T21:29:11.305+01:00

(image)
Klimt - "The Kiss"

Não faz sentido o meu coração
ao que parece fugiu deste corpo
estranho mas verdadeiro
verdadeiro mas estranho
estranho mas verdadeiro
eu posso tropeçar nas tuas veias
antes de me queimar
espero que não te importes
estrela do mar.




Ela

2008-09-24T21:18:05.713+01:00

(image)

Ela despiu-se e flutuou ao vento
Fez-me ver as serpentes de que é feito o meu corpo
uma paisagem bruta como o amanhecer do mundo




As coisas que não Cabem em Palavra Nenhuma

2008-09-14T22:51:53.100+01:00

(image)
Antony Gormley


As coisas que não cabem em palavra nenhuma
dormem no lado sombrio da colina
onde repousa a mais bela flor
com a sua haste de treva imprescindivel
e olhos maiores do que a salvação
a casa aonde não regressaremos
destaca-se nas copas das mais altas árvores
nos bicos translúcidos dos pássaros celestes
ou seja nos corpos naufragados um no outro
um para dentro do outro
vazados na luz desmesurada que trespassa as bocas
um que mostra o fora do outro
por dentro das nuvens lençóis
sobre as almofadas onde as cabeças sonham
o arder dos mesmos campos
vibrantes tempestades para enfrentar o medo de acordar
porque acordar não é realmente abrir os olhos
porque os olhos só fechados percorrem a viagem da grande significação
estamos tão unidos
neste ecrã de flores aquáticas
nenúfares de colocar o coração
que poderia dizer meu amor
mas tu não me pertences
e eu sou de ti uma breve cintilação
mas eu sei
porque as horas se transformaram em dias
e os dias em anos
eu sei
porque o fim não acabará com a nossa história.



Quando te Lembras de Mim

2008-09-07T17:39:39.481+01:00

(image)

Edward weston - "Clouds"

Senhora fantasma
Senhora de notas musicais divididas pelo vento
que translúcido passa na pele dos crentes
Senhora fantasma dentro dos meus livros
nas folhas diárias escritas pelos dedos desamparados
Senhora fantasma estou ao telefone
e todas as extensões estão ocupadas
cizem-me que serei atendido o mais breve possível
mas hoje é sexta á tarde
é assim desde que nasci
pleno de silêncio frágil e perturbado
das palavras acordadas pelos dias despovoados
dilatados por penumbras naufragadas
feridas antigas e futuras
pássaros pressentidos pelo fim do Inverno
queimados pela matéria solar de suas asas
senhora branca livre
aqui estou sentado com o meu casaco de ilusões
e o velho lápis à trela como um cão
não te espero nem te obedeço
sou apenas um peixe
na madrugada das águas destruídas pelo entardecer
um corpo onda espalhado na sonolência do areal
uma gota de chuva que trazes no teu olhar de açúcar
quando te lembras de mim.




Fantasma

2008-09-04T23:43:15.298+01:00

(image)
Giovanni Baldini


Esticar a pele ao máximo até que saia o fantasma que te procura
por sobre a luminosa ausência do teu florir
a noite assinala com seu inquietante rosto branco
A vida das cidades onde não passas
eu voo sobre os anos perdidos
marcados no corpo devastado pelo incêndio da busca
não sei como escrever as ondas melancólicas no seu azul continuado
azul de azul
azul para o azul dos olhos
terra mar
golpes de vento para melhor respirar
como se a casa quisesse subir aos mais altos astros
onde tu concerteza me esperas
porque eu sou o teu filho habitado de escuros sentidos
de escuros dedos e mel de Primavera
e um fio de sonho tecido pela aranha do coração.



Leptis

2008-09-02T23:32:34.439+01:00

(image)
Shifano - "Leptis Nasceu Aqui"

A noite mordida por debaixo do candeeiro da madrugada
abre os olhos ao sonho possível
dos dias inquietados
dir-se-ia pela tranquilidade aparente das águas do mês de Agosto
ou pelo traço que um sorriso pode deixar no azul da noite
estrelas cadentes esperam pelo seu destino
uma casa onde a infância não termina
sento-me á espera da memória intocada
matéria essencial da liberdade
para que liberte os amigos das horas da ausência
a visão memória como respiração absoluta
a centelha primordial para o fogo de um abraço
os instantes por dentro dos obscuros fragmentos luminosos
que cosem o passado ao devir
molduras
letras grandes
rosas púrpuras
pequenos milagres
fermentos no pão da boca que procura a língua
para dizer os teus passos na minha direcção
ou apenas um barco improvável na futura chuva
onde habitaremos intensamente um nome.

Agora as luzes são tão vagas
que não me importo de fechar os olhos e flutuar.



Godard?

2008-08-04T00:32:44.469+01:00

(image)
Patrick John Mills - "Sunflower Man"


Entra pela ínfima porta da alegria
pergunta quem é Godard?
um rio tranquilo
algumas maçãs no sossego de suas árvores respondem
Godard o construtor
Godard o sábio
Godard sobre a maçã sossegada
Godard a árvore
Godard que passa em frente à minha janela
Godard de chapéu vermelho
no braço esquerdo tapetes
no direito relógios e outros dourados
mais os planetas insuspeitos a rodopiarem á sua volta
ninguém vê
ninguém repara
na brancura dos seus gestos como as manhãs de Agosto
no seu passaporte escrito a sonho
e que esse não está à venda
Godard
no braço esquerdo tapetes
no direito relógios e outros dourados

Eras doce ainda
quando os teus olás tinham significado
agora tens o destino desfigurado
pelas implicações da longa desilusão dos minutos passados
e das horas que hão-de vir e magoar
tremes, mordes a língua do cão que és
um truque para a sobrevivência de estrangeiros
em lugares longínquos
Godard
ilegal
queria voar para o resto do mundo
exigindo a utopia
a viagem para um centro
onde se respirasse
um consenso comunicante de espíritos livres
uma arqueologia para um futuro in possível
a nossa música como diria
começa no purgatório e termina no paraíso
no braço esquerdo tapetes
no direito relógios e outros dourados
Godard segue o seu caminho
brilhando.



Minusculo Infinito

2008-07-13T20:49:13.518+01:00

(image)
Bacon - "Study From the Human Body"

A colher onde língua nenhuma
o guardanapo onde a boca talvez
as mãos onde uma pele qualquer
o olhar onde a cegueira é azul
o chão
a melhor cama para o fracasso
a voz de lamina
que carrega o nosso nome
gostaria de saber a fundura desses golpes
o aspecto urgente dessa ferida solar
nós esperamos por esse projecto
que marca a carne
nós esperamos pelo nosso verdadeiro baptismo
para sermos qualquer coisa semelhante a nós
qualquer coisa contra a morte
um passo
um cotovelo
uma madeixa loira
um mergulho na noite branca
um desperdício do pouco que nos resta
no meio do nada
tudo
no caminho para coisa nenhuma
tu
um movimento de penetração na terra
raiz para nos mantermos de pé
um sentimento onde me possas conhecer absolutamente
florires-me
ligares-me
destruíres-me
parires-me
ou o fim do jogo
fim do precisares de mim
fim do precisar de mim
fim do numero de porta
fim da casa
fim deste lugar
ou guitarra nos dedos das mulheres adormecidas
pelo amor longínquo
o amor correcto e certeiro
o amor lâmpada
o amor no coração do poema
sempre o amor à tarde
tarde demais...



Beautiful Present

2008-07-10T23:14:52.246+01:00

(image)
Robert Ketchum

Uma vírgula pode fazer todo o sentido
neste texto demasiado inútil
um sopro
onde persiste o teu silencio em cada osso
aves impossíveis à transparência do sonho
ondulações subtis
recados de espuma
desconcertante sinfonia
semeada a meus pés
mastros matinais de navios fantasmas
velas de pendurar as horas da tarde
um risco de luz
o teu verdadeiro nome
beijo de água
tu danças à minha volta
eu mergulho em ti
eu sou profundamente em ti
e estou no sitio certo para deixar de respirar.



Orquestra Utópica

2008-07-06T23:27:08.764+01:00

(image)

Mark Tobey

Estar descalço na noite
tomá-la pelo braço
trabalhá-la
numa visão para o sublime do sonho
por mais que desvie os olhos
a visão acrescenta-se ao iluminar dos objectos
dá-lhes forma e nomes e boca para o seu dizer
o encantamento pleno do sensível
e eu estou entre eles
no meio deles
num espaço/industria de absoluto rigor
estou na fome vertiginosa do pensar
sou uma cabeça poema
um coração
uma laranja com os seus gomos paradoxais
uma orquestra utópica
que interpreta com os olhos da liberdade os seus poemas
instrumentos movimentados pela mão que escolhe o sentido
uma cascata de águas límpidas
um caminho para a palavra
de nós a claridade de um movimento digno
uma paixão arlequim
um trompe d`oeil
um homem desmedido dentro do significar-se
na agudeza do dom

volto sempre a ti
volto da luz que sobrou dos dias
ao que resta da devastação
e a devastação não é não estares
a devastação é não existires.




Unicamente...

2008-07-01T22:46:07.466+01:00

(image)
Andy Waite - "The Weight of Wings"


As palavras pregadas aos pulsos do poeta
doem na paisagem branca onde se espreguiça o poema
um equilíbrio instável
brilha na ferocidade insegura do deslumbramento
esconde-se na agudeza do sonho
bate contra as pedras como os farrapos dos naufragados
é um torso de mármore
um corpo sublime para venerar
um ritmo dormente onde cresce a melancolia
pelos braços e pernas do poeta
o poema cresce como semente da carne
aranha louca
o poema indestrutivel
uma interferência para acordar a noite
uma porta com flores
uma praça imaterial onde te encontro inteiramente
uma página púrpura
uma máquina de pensar
porque tu és uma gota livre
sinfónica
polifónica
nuvem nos olhos de cristal dos peixes
asas de mar
asas imediatas no amadurecimento da luz
é manhã
é argila futura para as estátuas
onde sobressaem pequenas estrelas
com o céu das suas luzes
e não sei como dizer esse brilho
das coisas que me cercam e libertam
todos os rios que me transportam
no vagar do seu caminho
eu sou a margem da água por purificar
uma criança espantada pela noite
que escreve unicamente para ti.



Cicatriz

2008-06-26T22:56:03.068+01:00

(image)
"The Chemical Of Us" - Frank To

Escrever para a escuridão
é um ofício de luzes
e nós continuamos
à procura do sagrado dos dias
ou do chicote do amor
do inferno da graça
entre a permanência e a destruição
um movimento intenso para um nascer
um sentido para fora
uma contracção
um sentido como uma rosa altiva
uma boca metódica conceptual
uma flor de violenta paisagem
onde se presume a ausência da sombra
uma ilha desaparecida na plataforma do tempo
e uma canção para abraçar os extremos
a humanidade do teu rosto caído
essa grande cidade perfeita
como um talher que corta com simplicidade o meu peito
num piscar de olhos como um relâmpago
para ferir a carne desamparada
no cimo dos mais altos montes
a cor mais intensa da brilhante cicatriz.



Pássaro Azul

2008-06-25T00:15:42.767+01:00

(image)


O que brilha mais não é o teu dinheiro
podes deixá-lo à porta antes de entrares
aqui o que podes encontrar é o canto do pássaro azul
e isso não podes depositar em nenhuma conta bancária.



Desaparecidos

2008-06-22T17:29:15.462+01:00

(image)
"Remembrance" - Bill Viola

As asas começam a viagem
do voar dos dias futuros onde tudo perderemos
a crueldade da memória é um tesouro
vincado no rosto que diariamente aprofunda
o abandono da casa assombrada onde pernoitamos
um edifício destroçado tamanho do coração
é tudo o que podemos oferecer
à língua amarga dos desaparecidos.



Outra Canção

2008-06-18T23:56:48.126+01:00

(image)
Marnix De keukelaere

Outra canção para o ouvido triste
Outra vontade para o coração
Um violino para o lugar mais fundo
Que se chama tempestade
Uma algema para as asas do pássaro naufragado
Uma bala para a mentira
Uma caverna de laminas para o sangramento da solidão
E uma voz que não seja uma sombra de rasgados destinos
Tu conheces-me pelo fogo
Porque me viste crescer ao lado das magnólias de espuma.
Viste-me arder profundamente
E isso não cabe em nenhum papel.



Godot

2008-06-17T22:47:26.143+01:00

(image)



O poema começava com os lábios fechados
e a língua cosida ao coração
este ainda batia ao compasso das promessas por cumprir
a noite deitava-se ao lado do corpo insone
os dias acorrentavam-se ás horas das perturbadas penumbras
quando o sonho saía com o seu cão para o xixi matinal
Depois calçou os sapatos da memória
e esperou que uma dor o despertasse para a permanecia entre os vivos
e que do absoluto naufrágio
muito haveria ainda a perder
que não fosse só a pele e os ossos
do seu nome fictício.



Estrelas

2008-06-15T23:31:10.394+01:00

(image)
"The Dark River To Antares" - Maximo Ruiz

Os melhores dias afundados na medula do tempo
as ruas interiores sob as escondidas paisagens nocturnas
a viagem e o convite à viagem
as margens abertas no dentro de um ventre
o húmus primacial feminino
um deus na tonalidade do vento
que arrasta para a parábola a ferida
um corpo revelação para animais famintos
a ocultação do anunciado
o reencontro por entre flocos de neve perdidos
sob a mesa do olhar senta-se a cúpula celeste
A plenitude da noite deitada no esquecimento
do teu sorriso
puros fragmentos de luz
os teus olhos
estrelas…