Subscribe: FAQ(er)
http://thefaqer.blogspot.com/feeds/posts/default
Added By: Feedage Forager Feedage Grade B rated
Language:
Tags:
apenas  aqui  era  imagem  isso  mais  mundo  não sei  não  onde  quando  queres  sei  sem  ser  são    teu  vida 
Rate this Feed
Rate this feedRate this feedRate this feedRate this feedRate this feed
Rate this feed 1 starRate this feed 2 starRate this feed 3 starRate this feed 4 starRate this feed 5 star

Comments (0)

Feed Details and Statistics Feed Statistics
Preview: FAQ(er)

FAQ(er)





Updated: 2014-10-03T08:27:12.172+01:00

 



Dás-me raiva?

2010-10-14T00:40:29.068+01:00

(image) imagem de addicted2cyanide

Odeio-te.
Sem ponto de exclamação.
Não é um ponto que expressa a emoção.
Os sinais da raiva são muitos mais. São a vontade de te sangrar.
Matar.
De te enlaçar as mãos à volta do pescoço, e afundar-te a cabeça na água gelada do poço, até sentir a vida a ir por entre os dedos que não te deixam respirar.
É isso, e mais. Muito mais. Dos crimes horríveis às pequenas coisas risíveis.
Até a mesquinha vontade de sorrir de cada vez que cais.
A raiva é descarnada.
É um monstro sem corpo, feito de veias e mais nada.
O ódio é o vencedor dessa disputa. É aquilo que sobe ao lugar mais alto do pódio quando termina a luta.
É uma batalha sem vencedor. É a dança no fio da navalha, onde cada desequilíbrio é má sorte. É corte. É dor.
Odiar é amar ao contrário.
É uma vida pervertida que sai morta da barriga.
É uma oração infindável que não precisa de contas nem rosário.
É, no fim do dia, a falta de uma voz amiga.
Raiva de verdade é morrer de saudade.
É raiva pelo tempo que passa, como se os dias fossem lobos e nós a caça.
É a mancha de sangue que fica no branco da neve, depois da matança da foca. Às vezes, é o terror que vem pelo escuro. É mortífero e breve. Os dentes do predador obscuro que vai buscar as crias à toca.
Ninguém está em segurança. Não adianta alimentar essa esperança.
Ninguém vive suficientemente alto, nem tão absolutamente lá no fundo.
Não há distância que nos deixe longe disso.
A raiva é um querer bicho.
É um verme que se alimenta de nós. Cresce-nos na voz.
Matar a raiva é calar o que se quer dizer de rancor.
Mas, matá-la mesmo, é deixá-la pensar que venceu e, depois, envenená-la com amor.



Lá em cima é muito alto?

2011-10-24T18:05:32.770+01:00

E se não chegares lá?
E se o coração que queres apanhar tiver asas para voar?
Ainda há vontade?
Ainda há, de verdade?
Há?
Não se pode subir numa escada até ao céu.
A distância não é só saudade, nem o sacrifício da verdade. É a cortina do teatro que desce sobre o último acto. É a face mascarada sob o véu.
É o avançar do último passo. O teu e o meu.
É o fim do caminho quando o coração se sente sozinho.
Lá, no topo da sua escada mágica, como se subisse ao pico da mais alta montanha, com a intenção de uma descida trágica, carregando no peito aquela tristeza que o acompanha.
É assim o coração que vive lá em cima.
Mundos de distância acima de um tecto.
Para além de qualquer afecto.
Um querer impossível para quem o estima.
E se pudesses subir a escada?
E se cada degrau fosse só um pequeno nada?
Subias ao céu?
Reclamavas o que é teu?



E se o chão te oferecer uma flor?

2010-09-18T17:18:55.842+01:00


Aceita.
Se da pedra surgir vida, não deixes que o destino decida.
Aceita.
Faz desse gesto um romance que começou com um pequeno nada.
Aceita-a do chão. Diz que sim. Antes que, no próximo passo, fique esmagada.
Colhe essa flor. Dá-lhe água e calor. Vais ver. Deixa-a crescer.
Dar-te-á um jardim. E, à sua volta, uma floresta encantada.
Uma vez, aceitei uma flor vinda do ar.
Bastou-me estender a mão para aceitar.
Não parece um esforço impossível, é verdade.
Mas, às vezes, a flor é invisível quando o chão é a crua vaidade.
Algumas flores caem como se ouvissem um não.
É a recusa da cegueira das pessoas que não vêem à primeira.
Não faz mal.
Quando não se vê, não vale.
A flor só está pronta a colher quando os olhos estão prontos para a ver.
Se a flor te falar e disser o teu nome, não te assustes.
É só até o pensamento se acostumar. Depois, o coração faz os ajustes.
Colher uma flor é um gesto de amor.
É um sorriso de cor.
É um beijo de carinho.
É um abraço que deixa de estar sozinho.
Se, um dia, o chão te oferecer uma flor, aceita esse gesto de impossível valor.
Pega-lhe com delicadeza. Respeita-lhe a leveza.
O afecto não é uma causa perdida.
Nem uma ilusão diluída.
O futuro é uma espécie de amor prometido por um adivinho.
Aceita essa flor e leva-a contigo o resto do caminho.
Guarda-a para a vida.



Esse é o teu beijo?

2010-09-13T08:39:21.892+01:00


Queres-me assim?
Dás-me um simples beijo e dizes que é só desejo?
Se um beijo é apenas isso, não quero.
Quero sentir-me a melhor pessoa do mundo, na flor da inocência, a descobrir a vida, numa noite limpa de céu estrelado. Quero fechar os olhos e sentir aquela fraqueza nas pernas que dá receio de cair para o lado.
Se o teu beijo não é isso, eu espero.
Espero por quem beije melhor.
Não vou esperar que aprendas, por muito que essa mágoa me arraste para o fundo da dor.
A vida tem o seu jeito de nos encontrar outras pessoas. É nosso o erro se pensarmos que essas pessoas serão todas boas.
O passado foi o que foi.
E não importa se ainda dói.
O presente é como é.
Um breve instante de fé.
O futuro será como for.
O eterno sonhador.
Haverá beijos que se colam a mim sem princípio, meio nem fim. Uns serão contos de fadas, outros não passarão de tentativas falhadas.
Não vou esperar por ti sem saber se existes, porque é procurar para não encontrar.
Isso é um beijo desencontrado em que, a meio, desistes e eu fico sem saber o que é beijar.
Por agora, enquanto a minha sorte se demora, penso em coisas boas para não desesperar para além da hora.
Penso no meu beijo que vai além do desejo.



O que se faz por amor?

2010-10-21T18:13:34.595+01:00

imagem de zjester88Vivi em ti.Na tua pele. No teu coração. Para além dele.Dei-te a mão quando precisavas.Esperei-te, até tarde, enquanto não chegavas.Tantas vezes fiquei de olhos cansados depois de chorar. Não era tristeza. Era a mágoa da certeza de saber que tudo tem de acabar.Felizmente, choraste comigo. Pelo mesmo motivo.A vida passou e o nosso tempo acabou. O teu relógio gastou-se primeiro.Faltam poucos minutos para a hora certa. Aquela para além da qual o corpo já não desperta.Ou talvez seja a hora errada. Aquela a partir da qual a vida fica parada.Dei-te banho.Envolvi-te na toalha e sequei-te o corpo que se arrepiava.Passei-te o pente no cabelo molhado.Vesti-te o fato do nosso casamento.Foi como se regressássemos ao momento.Lembro-me das tardes de Verão. Do ar quente de cada serão.Do cão do vizinho que não se calava.Do cheiro das árvores depois de uma breve trovoada.As noites em que ficávamos abraçados, embalados na rede da varanda, à espera de ver chover uma chuva quente.O teu cabelo ainda era negro como a vista de um cego.Agora perdeu a cor. Ficou cinza. Ganhou valor.Os sinais do tempo valem pela vida vivida. E nós vivemos.Agora, olhamos um para o outro e sabemos o que temos.Olhas-me com um adeus no rosto.Tu sabes.Eu sei.Está na hora.É agora.É a tristeza do sol-posto.É o consentimento no teu rosto.Abri a lâmina.Fiz-te a barba.Morres velho mas bonito.Bonito para mim.Sabes que sim.Gostei de te ver sorrir quando te mostrei a tua cara ao espelho.Não tem mal nenhum ser velho.Mal é não te deixarem morrer quando o corpo se avariou e já não te deixa saber o que é viver.Pressionei dois dedos contra o teu pulso.Ainda te sentia o correr das veias.Era uma vida que não podia ser interrompida por decretos e leis de vontades que nos eram alheias.Essas pessoas não sabem nada de nós. Eu é que estou casada. Eu é que sei o quanto me custa encarar esse teu olhar que me quer falar mas que não me diz nada.E, a ti, ainda te custa mais. Estás aí, preso nesse corpo, sabendo que não sairás mais.Estás perdido para mim. E ambos prometemos, um ao outro, que nenhum de nós viveria assim.Ofereci-te esta lâmina.Com ela, veio o raspar da pele, o sangrar do corte. Mas eram sempre golpes pouco profundos. Sempre agradeci essa sorte.Agora, o último corte será profundo de morte.Dou-te um beijo na boca e deixo-te ir.Agradeço a transparência debilitada da tua pele.As veias são fáceis de encontrar.É o nosso desejo e não fugiremos dele.Corto-te os pulsos para te libertar.[...]



Qual é a cor dos teus sonhos?

2010-09-25T12:00:40.552+01:00

(image) imagem de LiveAndDieAgain

Voar.
Quebrar as leis e vencer o ar.
Subverter a realidade e transcender a razão da idade.
É um sonho de criança.
Um olá apetecido à arbitrariedade de, contra todas as previsões e sensações, acreditar na esperança.
Acreditar que será sempre a subir.
Sem desistir.
Sem recear que a vertigem acabe por vir.
Sem o balão rebentar para nos fazer cair.
Às vezes, a realidade precisa de uma facada de cor.
Uma pequena vingança contra o preto e branco da dor.
A cor é uma vontade que nos corre nas veias.
É o querer primordial. Animal. Sanguíneo.
É a linha cinzenta entre o bem e o mal. É o doce. O amargo. O picante. O Sal. É a irracionalidade senhora do seu domínio, onde nem toda experiência dos erros nos vale.
É viver sem medo de sofrer.
Se é o medo de sofrer que vive por nós, nessa vida, sofremos sós.
Assim não se descobre a cor do céu.
As nuvens serão sempre um véu.
Mas eu acho que não.
Acredito.
O ar é coisa que me pertence na palma da mão.
Como é que eu sei?
Se adivinhei?
Bem... foi-me dito.



Hum... é mesmo por aí?

2010-09-30T05:26:19.799+01:00

(image) imagem de webworm

Sim, sim, é mesmo por aqui. Por aqui, menina inocente,
disse a criatura maligna.
Os olhos do monstro espelharam o rosto redondo da menina com uma secreta e deliciosa malícia.
Para esconder a maldade, não basta ter idade; é preciso muita perícia.
Pois a criatura maligna era mais velha do que o mundo. E a sua maldade era um saco de truques sem fundo.

Mas eu não sei se quero ir, disse a menina inocente como quem não sabe reconhecer o perigo mas apenas o pressente.
Estava na hora de dormir, e a menina não sabia se estava acordada ou sonhava nas florestas encantadas do inconsciente.
Mas tu não vens comigo, disse a criatura maligna. Não é assim que funciona. Eu é que vou contigo. Eu sou o teu cachorrinho e tu és a minha dona. Vá, anda comigo. Vamos brincar nesta fantasia. Se eu fosse criança, era o que eu queria.
Prometes que é só a brincar?, perguntou a menina. Prometes que eu ainda vou ser eu quando a brincadeira acabar? E se eu não encontrar o caminho de volta? A minha mãe vai-se zangar. E depois eu vou chorar.
Não, não, menina inocente, discordou a criatura maligna. Vai ser muito diferente. Aqui, na nossa brincadeira, vamos fazer de conta que não há pais. E é fácil encontrar o caminho, sabes? Só tens de ver por onde vais. Olha, é por aqui. Anda comigo. Vais ver que ninguém te vai dar castigo.
Prometes?
Prometo.

Então, vou, disse a menina inocente. Mas, primeiro, tens de me dizer para onde vou.
Oh, isso não é importante, garantiu a criatura maligna. É um lugar especial, só para ti. Anda, é por aqui.



De onde nascem os fantasmas?

2010-09-25T12:01:42.085+01:00

(image) imagem de quelquechose


Eu sou a pessoa branca.
Saí de ti na escuridão do quarto. Ficaste na cama e eu fui embora.
Como se caminhasse em terra desconhecida, abandonei o coração que já não me adora.
A saudade feriu-me pelas costas. E não é uma faca de gume afiado que deixa um corte direito. Desfigura-nos a vida. Deixa-nos às postas.
É a mão grossa da mulher do campo que puxa e arranca o sustento da dor, levando tudo a eito por onde for.
É a parteira que rouba a criança após o parto e diz à mãe que o fruto da barriga nasceu murcho. Torto. Morto.
É a maldade da idade. Quanto mais vivo, menos sei o que isso é. A vida é uma causa perdida.
É uma doença venérea. Uma maldição à séria. Uma sida que se espalha impunemente ao ritmo que a palavra amor viaja no espaço vazio que separa a gente.
A palavra propaga-se e infecta a carne. Depois da carne, adoece o que está para além dela. O coração torna-se um prisioneiro e o corpo serve-lhe de cela.
O espírito torna-se um fantasma triste. A recordação de uma pessoa que já mal existe.
Agora, sou a pessoa negra.
Sem coração. Sem lei. Sem regra.
Fiquei aqui, no fim de tudo.
Para ti, finalmente, disse-te o sim para esse querer que mantinhas mudo.
Saí-te do peito.
Não sei de que tamanho deixei a ferida da partida.
Para ir embora, não tenho jeito.
E é difícil encontrar o rumo no campo de uma batalha que já começou perdida.



Esperar por quem?

2010-07-14T16:22:26.159+01:00

(image) imagem de Iznanka

Não te toquei no cabelo.
Os meus dedos ficaram longe, invisíveis. A uma cobardia de distância. A desejar toques impossíveis como se deseja o regresso à infância.
Não foi justo. A minha ausência apanhou-te de susto.
Ficaste ali, sentada a olhar para o futuro. À espera de mim. Como se a vida estivesse já ali, mas do outro lado do muro.
Agora estou aqui. Eu sei. Mas nessa altura não vim. Ainda não me perdoei.
Foi um medo estranho que não me deixou andar. Não sei explicar.
Tudo mete medo quando a vida acontece demasiado cedo e nada anda devagar.
E quando tudo acontece demasiado tarde?
Se a espera for longa o fogo ainda se mantém? A chama ainda arde?
E se ninguém espera por ninguém?
Esperar de verdade. Com a força da saudade.
Se ninguém espera assim, compreendo porque não esperaste por mim.
Mas se essa espera existe, agora estou aqui com um querer que não desiste.
Vou esperar, sentado no mesmo baloiço partido.
Um baloiço partido é um lugar avariado, onde algo aconteceu de modo errado.
Este lugar avariou-se com um desencontro.
Faz tempo que tu partiste.
Faz tempo que eu estou aqui sentado.
Eu sei que no início sorriste no vaivém deste lugar.
Mas fico triste por saber que, quando partiste, foste embora a chorar.
O tempo não obedece à vontade de emendar os erros cometidos.
As tentativas apenas aumentam os dias perdidos.
Olha, neste baloiço há lugar para dois.
Eu sei que está partido, mas pensamos nisso depois.




Crescem asas da vontade de voar?

2010-07-08T21:31:38.337+01:00


Estou de partida.
É já daqui a uns dias.
Se calhar, semanas.
Um mês, talvez.
Quando for, será o tempo de ir.
Acabou o espectáculo. Fechou a cortina. Estou de saída.
Se te pedisse para ires comigo, ias?
Não respondas. Estas coisas não se pedem como se fossem favores.
Convido-te. Gostarei se fores.
Olha, não sei, vou ver o mundo.
Aqui, sinto que nasci entre as paredes de um poço e que apenas lhe conheço o fundo.
Que me dizes de Paris?
De que te ris?
É um lugar como outro qualquer.
Não quero perder tempo a escolher.
É tempo de não estar aqui.
Se quiseres, espero por ti.
Não tem de ser agora.
Ainda não passou a hora.
Oh, não espero, não.
Estás longe, e já não me dás a mão.
Tu já partiste.
Eu sei que já, ouviste?
O pássaro ficou sozinho. Sem pouso. Sem telhado. Sem ninho.
Resta-lhe o céu. E nem isso tem de seu.
Agora, é tempo de abrir as asas e voar.
É a sua hora de sobrevoar os telhados das casas até encontrar o seu lugar.
Se não houver um pedaço de mundo que o queira, o pássaro voará sem eira nem beira.
Talvez nos voltemos a encontrar.
Talvez reencontre todas as pessoas e tu sejas a primeira.



As palavras também morrem?

2010-09-30T05:27:51.632+01:00

(image) imagem de wendydarling89

Os nossos escritores estão a morrer.
E agora, como vai ser?
O mundo fica mais triste a cada morte que assiste.
Fica pobre de ideias. As palavras que ficam rasgam-se contra as rochas, como barcos atraídos pelo canto das sereias.
Os novos escritores sabem escrever?
Tiveram tempo de crescer?
Oh, e agora, como vai ser?
Deixarei de ler?

Espero que não.
Espero que haja sempre uma nova letra para outra canção.
Espero que sim.
Que alguém continue a escrever novas palavras para mim.

Mesmo que eu não queira ler é bom saber que outros continuam a escrever.
A viver o seu tempo. A fazer o seu mundo e o dos outros. A esboçar sorrisos e a aceitar o choro. A inventar aquela criança com voz de anjo que fica na frente do coro.

Ser escritor é viver dentro de um coração sofredor. Não tem de ser uma vida sofrida. Apenas vivida. Escrever é fácil. Aprende-se na escola, ainda em tenra idade. Mas ser escritor... muitos dizem que são, e isso é uma grande maldade.
Mas esses não interessam. São vendedores de papel. Tanto lhes faz escrever sobre como é doce o mel ou como é amargo o fel. Esses são os que fazem com que se recordem os bons escritores e se sinta saudade. Escrever sobre um ponto final e conseguir que se leia ali o encontro de todo o bem e o mal, isso sim, é a marca de um escritor de verdade.



Consegues ouvir a música?

2010-07-03T14:47:45.055+01:00

imagem de Sugarock99Toca o teu violino para mim.Desliza o arco pelas cordas com a leveza de uma gueixa que serve chá no jardim.Deslumbra-me com tamanha beleza que me devolva os meus olhos de menino.Como se me oferecesses tudo o que me disseram que não há para além do risco do horizonte, do lado de lá.É a música de ti. Toca-te. Diante de mim. Aqui.O violino não é apenas um instrumento pequenino. É a voz poderosa que canta um país na letra de um hino. É o chifre mágico do unicórnio que permite apenas o toque da donzela. É o desejo avassalador de viver a vida em vez de esperar por ela.Toca o teu violino.Dá-lhe voz para ele cantar como a vida é bela.Canta-me essa melodia líquida que permeia a realidade de sons como se a audição fosse um paladar mais apurado que apenas saboreia os tons.Belisca as cordas com os dedos. Toca a vida sem medos.Vira a curvatura do arco e raspa a música com a madeira. Sem receio de errar a nota por não acertar à primeira.Digo-te que o coração, às vezes, é um violino que se põe de lado, no chão.Depois é difícil pegar-lhe novamente.Os dedos doem como tudo. O toque fica dormente.E o violino fica mudo porque a tristeza tira-lhe tudo e já não sabe tocar o que sente.Isso é tristeza de gente. Quando se toca o objecto, a música não mente.O violino quer ser tocado. Entristece-o ficar pousado.Toca o teu violino para ti.Mesmo que eu não possa escutar. Mesmo demasiado longe para me deslumbrar. Mesmo que o aí fique a uma imensidão do aqui.Toca a partitura de olhos fechados.Verás que, enquanto a música dura, alguns desejos são realizados.Nem que o desejo seja apenas esquecer. Sarar feridas. Resgatar sensações perdidas. Reviver.Quero para ti a folha em branco do começar de novo com vontade.Limpa o pó ao violino e mata essa saudade.[...]



Consegues imaginar um sorriso?

2010-07-02T22:53:07.333+01:00

(image) imagem de jadaography

Olá, disse a rapariga.
Ela falou para o ar. Era uma conversa invisível. É assim que se conversa sem mais alguém para escutar.
O ar não respondeu mas ouviu-a. O ar é bom ouvinte. Consegue manter uma conversa invisível como ninguém sem resmungar.
Sabes, ar, eu sei que estou a falar sozinha, disse a rapariga. Eu sei que não estás aqui. Quero dizer... estás, mas não és ninguém. Não faz mal. Eu também não quero falar com ninguém.
A rapariga sorriu e encostou-se à parede. Ajeitou o vestido e imaginou coisas sem sentido. A parede podia ser uma folha de papel onde se desenhavam balões de pensamento. Todas as tolices fariam um grande reboliço lá dentro. A rapariga seria um desenho animado e a parede ficaria cheia de balões-nuvem. Um deles teria um pensamento simples. Um sorriso.
É o que te digo, ar, sorriu a rapariga. Um sorriso é fácil de imaginar. Um traço com curva e duas ou três pintinhas. Tolices cá minhas.
O ar beijou o rosto da raparia com um sopro. Ela sorriu e baixou o rosto, como se tivesse acabado de conhecer o primeiro amor da sua vida. O ar fê-la corar. O ar sabia-lhe o pensamento. E em alguns deles havia muito descaramento.
Sabes, ar, gosto de te escolher para conversar, disse a rapariga. Ouves sem esperar pela tua vez de falar. Dás tempo de sorrir. De imaginar. E o que é mesmo bom é que não tenho de te pedir para ficar.
A rapariga encheu mais um balão de pensamento e deixou-se estar. Encostada à folha de papel-parede. A sorrir com toda a vontade que se pode imaginar.



Há encanto no canto?

2010-07-01T22:02:38.808+01:00

allowFullScreen='true' webkitallowfullscreen='true' mozallowfullscreen='true' width='320' height='266' src='https://www.blogger.com/video.g?token=AD6v5dxhtvhuQF8SWOBrK5w1h0Js-Nx_07ZqDwDCt3DClJlHzkZwcI0K0OmNLWW6C48TwrRM9EXxYzy70sBPDkkwjg' class='b-hbp-video b-uploaded' FRAMEBORDER='0' />
Jeff Buckley-Hallelujah


Quando falar não é suficiente cantamos com a voz que a alma nos sente.






Como queres aquilo que queres?

2010-07-01T21:55:35.861+01:00

imagem de digitalrebel-baselSabes o que queres dentro de ti.Mas sabes querer por fora?E se o quiseres aqui?E se eu to der agora?Certos gostos confundem-se com palavras feias.Mas e se não disseres nada?E se eu entender no teu olhar essas vontades alheias?Saberás que eu sei que a vontade não tem de ser falada?Os corpos querem para além do pensamento.Mas e se a cabeça complicar?E se passar o momento?E se o que queres ficar por dar?Há desejos que necessitam de se dizer.Mas e se essas vontades se mantiverem caladas?Saberás apenas querer e fazer?Guardarás para ti as coisas desejadas?Estamos a falar de desejo.E se o desejo for apenas sexo?Isso diminui o gosto do beijo?O afecto fica sem nexo?No fundo, no fundo, querer, queres o mundo. Mas o mundo é grande e não cabe em ti. O problema não é o teu tamanho. És grande. Só que o mundo tem obrigação de ser maior. Olha para mim. Ambos cabemos nele. Os nossos desejos serão sempre mais pequenos do que aquilo que temos. Aquilo que temos é real. Mesmo o banal. Os nossos desejos são o lado de lá. O longe daqui. Aquilo que a sorte não dá. Às vezes dá. Só às vezes. E quando não dá? Será que tens coragem de me pedir? Será que me dizes: "A tua língua é boa, não pares antes de eu me vir."? Será que dizes? Conheces-me dessa maneira? Quando te agarras ao meu corpo sabes que estou definitivamente contigo? Só contigo. Em ti. Aqui. Ali. Onde for. Gostas do cheiro da minha pele? E do calor?Sabes, eu sei-te mas não te adivinho. Às vezes tens de me dizer como queres aquilo que queres. De outra forma, alguns desejos não passam do querer. Ficam pelo caminho.Umas palmadas no traseiro? Se calhar sei que gostas. Mas são arriscadas estas apostas. E se tu me disseres primeiro? O saber não diminuiu o prazer. A descoberta é boa de se saborear, mas e se o tesouro não se encontrar? Entregar o prazer só ao calhas é cair em demasiadas falhas.Queres que a minha língua toque de levezinho nos cantos da tua boca? Gostas desse sabor no beijo? E aquele breve toque de lábios? E se eu fechar os olhos, como é que sei? E quais são os sinais? Como os vejo? São palpites sábios? Não te dizem que o que sentes lá em baixo é mesmo isso, desejo?Lá em baixo não é bem lá em baixo. É o meio. É o equador do corpo. É onde tudo vai dar, mesmo que o destino não seja esse. A bússola falha. Essas forças de atracção são mais fortes do que os pólos da Terra.E se quiseres foder? Dizes-me, ou matas isso com eufemismos? Com gestos que dão a entender mas sem dizer. E se eu quiser que me digas? E se eu quiser ouvir da tua boca: "Quero foder contigo."? Dás-me esse prazer? Não é só meu esse querer. Se mo disseres com vontade, partilhamos o fruto pela metade. Ambos comemos com o mesmo prazer. Se não adivinho o teu jogo, posso baixar as minhas cartas e passo. E isso não pode ser. Nunca me digas que queres só um abraço quando as tuas coxas tremem com a vontade de outro querer.[...]



Ainda estás aí?

2010-06-30T14:16:32.838+01:00

imagem de Oshrit182Não fiques triste. A sério.De verdade. Já a antecipar a saudade.Digo-te isto como se te dissesse tudo de uma vez.É coisa que nunca ninguém fez.É coisa para ter muitos erros e enganos. Erros de incerteza e enganos de não saber. Tudo coisas honestas de quem não faz por mal, ainda que o mal seja feito sem querer.Ainda assim, vou tentar fazer isto direito. Dizê-lo com o peito.Eu fui aquela pessoa. Fui mesmo!Viste?Sentiste?Uma recordação aquece tanto como um toque de mão?Sim?Não?Não sei.E nas tuas memórias... parti ou fiquei?Oh, não sei.Quero chorar como a morte quando leva uma criança. É duro colher um espírito ainda no início da esperança.Oh, mas não fiques triste.Sei que sorriste.Abraçaste-me quando me viste. Essa vez foi de vez. Fiquei logo em ti.Agora, não sei se ficaste ou se partiste.Eu sei que fiquei aqui.Não sei onde aqui é.Não sei onde aqui fica.Aqui pode ser um lugar ou uma ideia.Pode ser uma crença vazia ou uma certeza cheia.Tantas coisas que não sei.Tantas que não acertei.Espero ter acertado em mais.Não te perguntarei se ficas ou se vais.É a tua meia decisão. A outra metade pertence-me.Tenho aquele medo. É que, na solidão, se calhar, o esquecimento vence-me.E o que eu quero é olhar. Ver coisas. Muitas coisas. Tantas coisas que terei mesmo de lhes chamar coisas por não lhes saber os nomes todos.Quero comer a vida com as mãos, sem maneiras nem modos.Oh, não sei nada disto de ser.Existir é cair e levantar. Errar e acertar. Aproximar e afastar. É...Às vezes, também é apenas falar. Escrever. Inventar histórias. Deixar personagens sem lugar...[...]



9 Comentários

2010-05-29T22:55:20.312+01:00




No fim, encontramos isto.







Vivem demónios nas criancinhas?

2010-05-12T22:17:17.196+01:00


Era uma vez uma criancinha.
Não era apenas uma; era toda a infância do mundo, incluindo a minha.
A criancinha fez um corte no dedo.
Era sangue e sangue e mais sangue mas não lhe fazia medo.
"Ai que me dói! Ai que me dói!", berrou a criancinha endiabrada.
Não berrava porque lhe doía mas apenas para não ficar calada.
"Quero atenção! Quero atenção! Senão berro até mais não!"
A criancinha não disse isso em voz alta.
Não que fizesse falta.
Quem é pai e mãe sabe melhor do que ninguém.
É chantagem diabólica e frenética que já lhes vem na genética.
"Agora quero geladinho para não continuar com o choradinho!"
Um gelado?
E porque não?
Se é para ver o diabinho sossegado...
... e porque não um estaladão?
Oh, não, isso não!
Não se bate nas criancinhas!
Fazem-se mas é as vontadinhas.
"Havia de ser comigo!", disse de passagem um outro pai ou mãe.
Se fosse contigo, fazias igual também.
As criancinhas têm demónios nos neurónios.
A chantagem emocional é uma arma fatal.
Mas são criancinhas.
Coitadinhas!
São pequenos ser de inocência...
... ou a semente da demência.



Vai um abracinho?

2010-04-28T20:14:55.577+01:00

(image) foto de ruxydeva


Vai.
Vaivém.
Quando se dá também se tem.
Dar é uma forma de receber quando se escolhe bem.
Quando se escolhe alguém.
Outros braços para abraçar, que para um abraço inteiro não chega um par.
Um par e outro.
Um abraço é feito de dois.
É um encontro espontâneo entre o antes e o depois.
Quero o teu.
Queres o meu?
Dou-to.

Hah...

Apetece-me rir.
Rir, não... sorrir.
Sorrir e abraçar e partilhar.
Dar.
É que os abraços sozinhos também são bons mas... é como morar ao lado de uma casa vazia sem vizinhos.
Queres?
Queres o meu abracinho?
Olha, sabes que mais?
Não esperes.
Queres, queres, queres.
E daqui já não sais.
Hummmm... apertadinho!




O fim do mundo é já ali?

2010-09-30T05:31:33.505+01:00

imagem de ZerostoneSem poesia.A vida faz-se depois de nascer e vive-se até morrer.A criança nasce e morre.E é isso.Não há metáfora embelezada de vida igualada a ampulheta onde a areia escorre.Não há maior jogo onde toda a sorte e azar são os resultados de um acaso onde a vontade e o querer são escravos de um qualquer compromisso.É essa a verdade fria.O que se esperava?Uma vida mais elevada?Isso não é ser.É apenas querer.Vamos perguntar à montanha se em algum momento desejou tornar-se tamanha.Depois vamos escutar a resposta.A montanha não nos vai responder.Fará apenas um convite silencioso para subirmos a encosta.Chegando lá em cima, resta-nos descer.É assim que se conversa com as coisas maiores do que nós.Apenas nós, que somos pequenos, temos verdadeira voz.Mas nem sempre a voz é verdadeira.A mentira usa a mesma arma traiçoeira.Sem poesia.Era isso que eu dizia.Menti ou assim quis?Apenas decidi e assim o fiz.As moralidades importam a quem?São apenas banalidade de alguém.O fim do mundo não é um buraco fundo.O fim do mundo é um começo.É o lugar onde recordo e esqueço.É uma cama imunda que não me quer.É o suor que me inunda nos braços de uma mulher.O fim do mundo é já ali.Em ti.Aqui.Assim.Em mim.[...]



E quando o solo não dá nada?

2010-04-15T00:00:31.711+01:00


estéril

como o vento

do

deserto

o azar

é

um inimigo

esperto





E se eu te oferecer a Primavera?

2010-04-10T19:42:06.299+01:00

imagem de meaniebeanieAceitas?Diz que sim.Diz que não.Não digas nada.Ou diz o que quiseres.Não me feres.Preocupa-me só a pequena flor.Diz.Diz seja o que for.É para ti, de mim.Metes num vaso e só precisa de ser regada.Tem raiz.Jamais te ofereceria uma flor cortada.Diz.Vá, diz que é tua neste mesmo instante.Aceitares é importante.Salvas uma vida e consertas uma alma partida.Aceita.Aceita a minha Primavera.A flor é uma vida breve.Quando pede que alguém a leve não possui o luxo da espera.Não é impaciência.Não, não é.É tão-somente urgência.É isso, é.Leva a minha Primavera.Peço à vontade soberana onde o teu querer é rugido monarca de fera.Leva.Leva a minha Primavera.Esta flor que quero para ti não é só flor.É um útero virgem de Eva.É o primeiro homem que lhe sentiu amor.É a infinidade de crianças que saíram dessa cama como a chama sai do calor.É tudo isso na ponta de uma pequenina pétala que vive.Ou é um sonho que tive.Onde todas as palavras fazem caber um mundo inteiro na esfera de um grão de pólen dourado.Onde, de tudo o que se oferece, nada é alguma vez recusado.Olha, não vás.Estas idas são coisas más.Olha, espera.E se eu te oferecer a Primavera?[...]



O fumo tem corpo ou é um ser amorfo?

2010-04-07T01:24:30.396+01:00

(image) imagem de orsphoto

Ah, que bom que era o tempo de sair do corpo e tomar a altivez da fera!

Os de antigamente é que sabiam ser gente.
Nesse tempo é que era.
Era igual mas tão diferente.
O fumo era uma magia estranha muito para além do espírito ardente da lenha.
Muito mais. Era a selvajaria dos animais. O respirar da terra. O nevoeiro que vestia a serra.
Era muito, muito mais.
Agora, é apenas um sopro que se vai embora. Para um distante além.
É partida que não se chora. É um interesse de ninguém.
A mim, interessa-me o fumo. Apenas não sei explicar como.
É o que é.
Há qualquer coisa num dia de chuva onde, num telhado distante, fumega uma chaminé.



Crescer...?

2010-03-12T20:45:48.474+00:00

(image) imagem de france-wance

(fó-te, pah!)










Como se faz do mundo uma casa?

2010-03-11T15:06:15.258+00:00

(image) imagem de opportunistatlarge

Deitei-me.
Fiquei ali, na pedra fria do passeio. As pessoas a passarem e eu, alheio, deixei-me estar jogado no seu meio. Na minha cama. No meu drama. Nem sequer era de pedra. Era uma cama com muito menos poesia no existir. Era um coração apaixonado sem sentir. Era cimento. Era leito dado ao desconforto de me cobrir com lençóis feitos de vento.
As cidades são acolhimentos sem fundo para os desabrigados de todas as idades que envelhecem no mundo. Os prédios sabem acolher sem escolher. É tudo entulho para justificar a construção de mais um lote. A grande necessidade da cidade. Solidão. Saudade. Desilusão. Liberdade. Tudo serve de mote.
Os caminhos são deslizes de pavimento onde se cruzam pressas de sofrimento e sustento. Mas também há sorrisos e abraços. Há passeios divertidos, apesar de escassos.
Há amores e amizades. Há rumores e verdades.
Deitei-me, já cansado. De corpo marcado pela vida e esquecido da minha primeira partida.
De onde vim?
Como cheguei aqui?
A mim.
Não vi.
Mas vivi.
E a vida deixou-me assim.
Agora, deixo-me ficar por onde estou. O chão é frio mas descansa-me as pernas enquanto não vou.
Doem-me as costas. Doem-me como um par de mãos pregadas a uma cruz.
Dói-me a indiferença.
Mata-me não ter presença.
As pessoas olham-me e vêem apenas o passeio. Isso, eu sei-o.
Não sou vagabundo.
Apenas não gosto de paredes e vivo no mundo.