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Ebbios





Updated: 2018-03-06T05:57:54.142-03:00

 



feliz ano novo

2013-12-31T01:50:58.067-02:00

Foto: http://www.flickr.com/photos/honeyuck/— cortar a hermeticidade do ano com um abridor de datas — eu disse ano passado do ano que viria, que é o que agora dobro e ponho na gaveta. Aquela roupa que não serve mais, e que verei em fotos pensando “olha, como eu gostava dessa camisa!”. E os anos que se foram? Eles eu. Existo disso que passou e me torna o é de agora. O tempo a gente veste mas o que se é caminha em nudez escondida. Cubra essa tua nudez, esse teu tanto ontem — é o que dizem por aí. E tudo vai acontecendo, e o que não acontece também se acumula. É que escolhi me apaixonar sempre, e guardo sempre uma desilusão na geladeira, que abro na fome das madrugadas silenciosas. A existência não é uma Brasília de Niemeyer. E se me alegra essa coisa sem parede, me entristecem as paredes, e rostos que não se veem perto por olhos imados às telas de celulares. Tecnologia touch é a pele do outro que quando toca, toca. E que seja dita a mentira, porque as verdades estão falhando nisso, ou que não se diga nada, é mais profundo assim. E nesse rito de passagem, uma ode aos mortos, morreram de tão vivos que foram. Os bons e os maus. Não é fácil. Gente querendo molhar os pés, e nos querem vender o mar. E o amor, que palavra cafona, meu deus! Por que foram dar nome à esse cafuné na nuca? Por que não só dizer de abraço, e os amantes se olhando balbuciariam — eu te rio, eu te sinto, eu te eu. Na periferia cantam “não existe amor em SP” e a alta escuta com os brancos fones de ouvidos a estalar os dedos. E é branco que se veste em pés na areia, depois de se tanto buzinar no cinza das rodovias. O tempo vai passando e eu sonho com minha filha, se chamará Maria Luiza, ou Cecília, ou Clarice. Quando ela surgir, já lhe pedirei desculpa por ter que ser aqui, não teve outro jeito. Mas mostrarei o que é bonito. Bonito mesmo, sem maquiagem e sem brilho, e que antes de tê-la eu já a tinha nascida em mim. Sonhar é sentir cheiro de comida que nem está no forno ainda. E no céu tantos fogos anunciam: estamos juntos desunidos. Se desejo algo mesmo é que ano que vem soltem afagos de artifício — mentira salvadora, com cheirinho de comida da vovó. Falando em vós, sinto falta das minhas, que moram lá num outro Brasil. A primeira com seus gatos — são mais de trinta, e quando me sento num sofá acabo sentando num rabo se esqueço de olhar, e ela me pede desculpa por ter tantos, isso é bonito pra mim, me lembrarei sempre e contarei para Malu/Cecília/Clarice. A outra tem um quintal bonito que tinha um coqueiro que quando eu observo com olhos de lembrança, penso nele coçando os pés de Deus de tão alto que era; ela, sempre sabida, sentada na cadeira de balanço contando coisas de fazer riso. Ô palavra cafona: Amor. Gosto da definição que meu sobrinho de dois anos dá às coisas, de tentar falar ele pronúncia tudo numa língua que é só dele. Não aprendi direito a dobrar as roupas, e a gente pensa que vai aprendendo a viver, quando viver já acontece no é. Esse ano eu vi um filme em que desde o começo se sabia que a personagem morreria, quando ela morre no entanto, o choro é igual ao de não saber. Passei dias com aquela dorzinha na garganta da morte da personagem inventada, ainda me martela esse silêncio das coisas não durarem. A gente corta a vida com garfo e faca pra caber na boca. Escrevo num único paragrafo porque o ano passou assim, num paragrafo só, e todo assunto se mistura. Escovar os dentes não tira o amarelo de coca-cola (então eles vendem sorrisos brancos). Quero comigo um violão, que a música é a loucura do raciocínio. E desaprender, desaprender, desaprender (ensina os princípios, disse o poeta). Não tenho o rancor do abandono, mas sei que seria melhor aqui. É sempre melhor aqui. Me ser é pleno de outro. Aprendi com uma amiga que quando se abraça, tem que ser de verdade, em quem quer que seja, e ela tem uns cachos que me fazem falta. Com a dança aprendi que as curvas do corpo são possibilidades de encaixe. É o que se aprende também nos tr[...]



Blecaute

2013-04-10T06:13:41.745-03:00

Ana passa os vestidos de sua filha Maria Luiza enquanto o céu Lua minguante e nuvem caindo água. A menina em noite brinca de lençol pendurando casa nova e pequena. O vapor do ferro sobe e a TV som de novela. Ana assiste, ora ao escândalo forjado, ora os pés de Jorge — que finge calma na agonia de esperar jogo — sobre a mesa de centro.

Lá fora o sujeito esconde o rosto e mostra o ferro que ameaça a vida de Gustavo, que acha que ama Patrícia e deixara sua foto em papel de parede do celular que entrega. Pessoas passam e fingem não ver — minguam. Uma rabiola de pipa, que um menino teve o cuidado de amarrar ponto a ponto do papel de seda que cortara parte a parte, balança ao vento do frio no fio. Já há uns minutos chove e Joana se lamenta de haver esquecido o guarda-chuva enquanto volta da faculdade e sente a franja ensopada grudar na testa — os pensamentos pingam.

A cidade dá esse respiro ultimo e as luzes se apagam.

Todas.

Ana procura velas e grita por Malu, o vestido sobre a tábua queima e não percebe. A menina acha graça e abre a janela para ver.Jorge finge calma na irritação da espera vã do jogo dessa quarta, retira os pés da mesa e respira fundo.

Os que fingiam não ver agora realmente não veem. O sujeito pega o celular e corre no escuro — no dentro de si e no de fora, ofegante. Deixa a arma cair no chão e respira fundo tateando o asfalto. Gustavo pensa no que Patrícia pensaria se o soubesse morto, e que na impossibilidade de dar amor, amaria deveras. Os pensamentos de Joana pingam cegos pelos fios grudados na testa, e ela percebe que a cidade só escuta chuva — sorri, apesar do medo. A rabiola de pipa balança ao vento frio no fio e ninguém vê, nem verá nunca, para sempre.   

Horas passam em breu. Desistidos de esperar, deitam-se e dormem nesse escuro. A chuva insiste no silêncio e todos sentem junto o que nunca será dito por ninguém. 



Outra noite

2013-04-09T22:15:35.026-03:00



Vemos uma mulher em seu quarto, a luz da luminária acesa insinua as coisas mais do que mostra deveras. A mulher tem a sua frente uma página em branco posta sobre a máquina de bater palavras. Tem um gosto moderno pelo antigo. Ela sabe que em seu filme haverá duas pessoas, um rapaz barbado e a menina de franja torta e sorriso entre parênteses. Ela não os inventou, estes personagens tão dela, nalgum canto eles vivem, adivinha. O mundo é que será feito peça a peça a se encaixar no que eles são. É que para eles serem o mundo teve que ser antes, daí todo o cuidado. Eles são criaturas que absorvem tudo com sede e fome. Há que se dar comida e água.


Ele deve se encaixar nela. A mulher no quarto bate isso na máquina — Ele se encaixa certinho nela. Isso não vai dito no filme, tem que se saber na respiração dos atores. Poderia até mesmo ser cinema mudo, de tanto que eles têm dito com os olhos. É que a mulher no quarto conheceu um dia o amor, sabe que ele não é de falar muito. Ela, a personagem do filme, gosta de Belle and Sebastian, portanto, Belle and Sebastian só existe para que ela goste e mostre para ele. Então a mulher bate na máquina — Eles ouvem músicas juntos. Ela tira o sapatos e ele então percebe o convite. Dançam. Ela ri do jeito dele, a câmera destaca o rosto dela, de ser a visão dele, e o resto todo é desfoque. Paixão tem esse desfoque nas coisas outras. Os olhos vêem no chão sapatos e a vontade enxerga mesmo os pés. Na parede dele, os quadros em destaque pintam o sorriso dela. Isso dá cena: eles no museu e invés de Klimt, enxerga-se a boca dele no pescoço dela.    



Poema Miúdo

2013-03-17T13:36:36.929-03:00

Asfalto me diz mudo, que não estou no alto.
Assim me desnudo, sem sentir o chão.
Atrevo-me pra cima.

Salto.

Voo, com os olhos fechados.
Do eu, que não me era, parto.
Reparto o que não foi me dado.

Sei das noites mal dormidas,
Dos silêncios de partida.
Decorei o nascer e o partir do sol.

Anoiteço-me em janelas.
Embebo o céu com nuvens de algodão.
O asfalto é concreta verdade pavimentada.
O céu, minha certeza anuviada.

Prefiro lá.





Por Aquela Porta

2013-03-10T22:26:15.091-03:00


Ela veste margaridas.


Enfeita-se de charme e brinco de penas. Seu sorriso é um perfume — sinto o cheiro dele na minha lembrança. Quando o relógio anuncia a noite vinda, eu sento numa cadeira e a espero entrar pela porta. Se chove, ela entra fechando o guarda-chuva molhado e antes de ajeita-lo corre para meu abraço. Pendura o chapéu e repousa seu cansaço de tanto dia em minha paixão travesseiro. É tão menina essa mulher. Peço que me cuide — me atrapalho fácil de viver. Ela se envergonha dessa minha ousadia e sorri perfume, a coisinha flor. Outro dia eu tentava lhe pintar um retrato. Na escola aprende-se cor quente e cor fria, deviam ensinar também que existem cores doces e salgadas — a dela é doce. O pincel insinua os cachos negros, a curvatura que sai do ombro para findar o pescoço, e que me finda. Não cabe na tela, ela; nem meia paixão minha. O que sinto inteiro só dá para entregar inteiro aos olhos vivos dela. Ela me atravessa — eu travesseiro. Ela entrará por aquela porta, perguntarei como foi seu dia, alguns dizeres, e vestiremos então nosso silêncio. Faremos amor com amor, chapéu e brincos de penas assistirão calados nossa dança. Finjo que é verdade isso tudo, digo a ela e ela ri. Peço novamente que me cuide. Sei que cuidarei bem dela e de sua meninice. Quando na rua, vejo vestido em vitrine caber solto nela. É amor isso, essa presença inda que ausente. Aprendi a me chover por ela — que é flor. Bem-me-quer, mal-me-quer, bem-me-quer... Repousa frágil a cabeça em meu colo enquanto ouvimos música. O pincel tenta seu sorriso. Infinito em mim. Nunca lhe disse, mas quando a vejo de cachecol, penso que eles foram feitos para ela. Ela se gabaria dessas verdades, então só vou soltando aos pedacinhos. Digo primeiro com as mãos, depois com os olhos, depois com o sorriso, só então a boca fala — se fala. Fico olhando para os sapatos que ela deixa sempre nalgum canto da casa. Descalça, alça voo. Os sapatinhos vazios dela, o chapéu vazio dela, os casacos, eu. Quanta falta e fome. Sinto de longe, ela entrará por aquela porta e então será tudo verdade.


Ela veste margaridas.


Eu a visto. 



Janela Aberta

2013-03-07T11:47:13.611-03:00


Era uma vez
um pescoço
e uma boca.
O pescoço era dela, por isso quase arrepio.
A boca dele, quase mordida.

Ela queria dormir,
ele, acorda-la.
mas acorda-la de sonho.
Haviam as mãos dele.
Passeavam no corpo dela — paisagem.
Como bicicleta no parque.
Ela em silêncio, dizia:
— Sou flor, toma o meu cheiro!
Ambos se noitavam.
Eram juntos no quarto.
O piso só tinha pés da cama.
pantufas dela,
e o lençol branco caído.
A boca dela, gemido.



Trecho inicial d'um livro que nunca será escrito — É Óbvio Que Foi Assim!

2013-03-06T22:58:33.352-03:00

A menina esfregou a noite que tinha nos olhos e se deitou. O pai estendeu a coberta por cima dela e lá fora era quase silêncio. — Amor, podem dizer qualquer coisa, mas estou convicto de que Deus é mulher. O mundo nasceu de nove meses. Pergunte à sua mãe.Antes do mundo havia essa mulher, que é Deus, e que estava grávida. Ela tinha uma máquina de costura. De linha e pano azul, fez um macacão de vestir seu filho. Os pés dela no pedal da máquina, ansiosos, iam para cima e viam repetindo-se em gesto bonito.  É muito amor essa espera. Ela olhava a barriga crescendo o mundo e lhe imaginava engatinhando no firmamento. Pendurou sol e estrelas no quarto dele. O mundo nasceu nu como você, filha — como a gente. Era uma brancura de isopor, vazio das coisas, nem música tinha. Cobriram-lhe de vento, verde e abismos — cheio de chão que era cachoeira não tinha passeio. O choro dele calado, as estrelinhas penduradas no teto e a Mãe sussurrando seu sono. Gira mundo, meu filho, dizia ela. O mundo foi a primeira criança. Antes mesmo de saber andar direito, dançava. A Mãe do mundo lhe contava também histórias antes de dormir. Foi aí que ela inventou a gente, e hoje a história que o mundo mais gosta de ouvir é você, minha filha. Só que para inventar a gente, ela teve que inventar antes os elefantes lá da África, inventou também que eles nunca se esqueciam, isso faltou um pouco em nós de tanto que sobrou neles, daí teu pai ser de esquecer onde colocou as chaves e os chinelos. Vieram antes também os gorjeios agudinhos dos passarinhos amarelos. Primeiro que a palavra veio o canto.  É dessa verdade o sorriso afinado de sua mãe. É, Maria Luiza, sua mãe mesmo, nossa vida! e não a Mãe do mundo que é Deus. Aquela musica que ela tem no sorriso é um refinamento do gorjeio. Presta atenção, amor, vê como faz sentido tudo: O que veio antes da gente foi inventado para que existíssemos assim. O avião, por exemplo, só existe porque antes deles existiam as aves. É como unha que cresce ou para gente roer ou para tocar violão, e as portas trancadas estão aí para caber chave. O mundo se entediava de ouvir as mesmas coisas, então Deus-Mãe inventava sempre em medidas diferentes, de trotes de cavalos à saia rodada de bailarina. Criança que era, ficava curioso de tudo, os olhos novinhos de verem coisas, indagavam das aparentes obviedades, tudo lhe fascinava. Havia o mar, e o mar cantava — enquanto o vento soprano, contralto. As águas insinuando cachos na beira, batendo em pedra até virar areia.Assim cresceu o mundo e restou de lhe caber gente. Os pés andando ligeiros tropeçam em coincidências. O que vou dizer soa bobo, e é lindo por isso: para que se faça música é que se inventa instrumento. Que obviedade! Repito assim para que seja claro. Mas há que se mergulhar lá no fundo da verdade. O primeiro instrumento não foi inventado, a música veio antes dele. Olha para a natureza — é tanta coisa que chega não dar pé. As coisas nascem de sussurro e a vida cresce mansinho. Bendito seja nosso polegar! Fruto da calma de mais de muitos séculos. Que uso para ajeitar carinhosamente tuas sobrancelhas, para segurar o lápis enquanto risco. Até chegar nessa perfeiçãozinha, a natureza errou convicta. Se faz necessário errar, é assim que a calma aperfeiçoa. Somos um erro constante rumo àquilo que há de ser. Uns dirão que é um erro amar. Mas agora que sabe disso, que seja! [...]



Deixa.

2013-02-25T01:08:45.499-03:00


Deixa-me que te veja,
sei que gostas de ser vista,
sente-se nuvem e passa.
Deixa-me que de ti me vista
Sei que te gostas nua.
Vestida de si
sendo-se sua,
Minha.  



O nascimento de Maria

2013-01-17T23:29:38.997-02:00


Há esta brancura, frágil brancura óssea de parede fina. Película hermética de separação do mundo — O ovo.

Vejo a verdade alva trincando nascimento. 

Hoje é dia de vida saindo da casca.

Vejo a menina sair das paredes do ovo e chorar o ar de fora. Vida tão frágil que chega a ter nisso sua força. Como me comove essa criaturinha de olhos sutilmente estrábicos — sou capaz de ler tais olhos como quem lê um livro de Fernando Pessoa. Esta que agora vejo, já renascida tantas vezes em vida, é resultado de tantos anos passados: os cabelos tantas vezes cortados, a suavidade no movimento das mãos, sem nunca ter sido bailarina pra isso. Fora criança no entanto, qual as bailarinas. Aposto que essa suavidade macia de movimento vem das pinturas cuidadosas em lápis de cor. Como se Deus houvesse colocado um feijãozinho no algodão a pedido da professora — ela nasceu. Nesse mesmo janeiro, como que previa o carnaval. Ela é de ombros retos, como tem que ser reta a estante de sustentar livros. É assim que nela tudo é: da única forma que deve ser. Todo ano é o mesmo nascimento. Sai a mulher pronta de dentro da casca do ovo alvo. O que quer que sinta, é precioso. Suas felicidades cintilam nas esquinas, suas tristezas ecoam feito salto no asfalto. É que vive longo, nascera de existência musicada e chora disso às vezes, mas também ri — como a gente ri e chora o silêncio de Chaplin.

Hoje é dia em que as coisas a cintilam — vejo a parede branca de ovo trincar do bico dela perquirindo o mundo. 




Poema de uma palavra só

2013-01-14T22:00:22.393-02:00

Sublimenina.



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2013-03-21T16:29:40.922-03:00

Todos os dias ele deixa o chinelo virado ao contrário.
Fico com raiva disso.
Do chinelo virado. 
Me tira a calma toda essa desatenção com as coisas.

Todos os dias, 
com a raiva que ele me dá de deixar os chinelos virados por estar ali,
Sou feliz.



Da Gaveta

2012-12-19T01:25:43.700-02:00

Chuva a noite tem o charme de só aparecer direito onde o poste quer. O olhar nosso completa o não visto. A gente adivinha o mundo que não conhece. Digo "sentir" mundo (ou o que a senhora quiser), que é um olho de enxergar a partir de dentro.A verdade da gaveta está dentro dela.É quando você percebe que a gaveta é meia, é camisa passada, saia com estampa florida, bilhete escondido. O amor está dentro do amor — adivinho. Há tanto diminuto nisso que a gente nomeia, e é cheio das coisas sem nome no entanto. A boca quer dizer e não diz — adivinhe.Tenho de pequena, lembranças assim fora de mim. Acho graça disso. Eu me vendo em terceira pessoa, com a certeza do acontecido. Deve ser amor pela criança que fui e na lembrança fico querendo olhar para ela. Se cito isso agora é porque me revisito sempre que escrevo. Abro a gaveta e retiro uns guardados. De hábito me aproximo para sentir o cheiro da roupa — cheiro de gaveta.Veja em minhas mãos esse vestido vermelho, ainda está perfumado!Minha primeira paixão, dessas de escola, foi inventada. Eu era moça de jeito calado, os dedinhos pintando silêncio nas folhas de caderno. O rosto do escolhido é nuvem em mim — não me lembro. Com memória é assim mesmo. É que não escolhi pelo rosto. Eu via nos desenhos da manhã: o moço de pullover cantando pela moça da saia lilás. Achava bonito. Era um sorriso em mim aquilo. Eu queria, e de não ter inventei que tinha.Agora, a paixão é que me inventa.[...]



Para guardar na prateleira

2012-11-18T01:04:30.743-02:00


Vejo a imagem da moça, coisa passarinho, do outro lado do meu encontro. Eu de tantas noites, poucas, no entanto — sabe-se lá do tempo nosso. Nem parece que é um ciclo. A gente conta idades por precisar de recomeço pra seguir, mas o que me parece mesmo é que a idade minha é só existir, me sou criança, me sou adulto, me sou velho, me sou das noites tantas. Até um dia morrer, acho que d’ela. — Agora a vejo ali do outro lado, vindo a mim. Passou um tempo escolhendo a roupa, colocou o cabelo por trás da orelha quando me viu, segurando a bolsa de guardar suas miudezas. Ela tem um acordeom no abraço — me toca. Fico com essa necessidade esmaltada. Nem sei o que quero dizer com isso. É que tem palavra que soa macia. A gente deita no colo da palavra essa, que é como o colo dela.

Comecei a escrever como se houvesse pegado no violão sem música na cabeça. Quem toca sabe. Às vezes é assim: não se pensa em tocar o instrumento, nem a composição tal, pensa-se em tocar o que sente. Esse é teu instrumento. O que sinto é ela. Ela que soa em mim no improviso. Dá essa vontade de aveludar as palavras. De colocar luz do Sol das dezesseis na janela — aquele de ver poeirinha caindo leve. Ai solidão, essa lembrança acompanhada. Essa dela vindo a mim, e as coisas ao redor desfeitas. Ela tem esse controle de alterar a realidade toda. Havia pessoas lá. Muitos rostos e passos, lugar publico que era. Havia também parede cinza, preferia dizer “gris” que soa bonito, mas que importa esta banalidade? O mais inusitado era o piano, e um rapaz de ares boêmios tocando qualquer coisa de Jobim.  Puxei essas imagens na memória do antes, pois no durante, que era o abraço dela, sei lá de mundo.

Ando caçando ar limpo. Quando encontro, coloco-o em um pote de vidro. As pessoas me perguntam “o que é isso?”. Ar limpo saibam todos. Uma prateleira cheia. É o que quero agora. Me pego sempre em suspiro co’a lembrança solitária de ter estado nós. 



Almado

2012-10-18T20:16:27.163-03:00

Amei cedo. A coisa na aurora de quando se conhece -- tratando o conhecer por dia, que vai até a noitinha estrelada e a gente dorme. É que já conhecia-mo-nos antes. Saber que existe foi só uma confirmação do óbvio. Eu sabia que nalgum canto do mundo, vasto mundo, havia uma pessoa inventada. Inventada de tanto me ser sendo só ela. é que na maneira de dizer as coisas ela me alcança. Ela captura na essência do que existe aquilo que é não-sei-o-quê e faz ditado da coisa. Como professora de primário -- parágrafo, dois dedinhos. Nisso, acabo ficando curioso das coisas que ela viu. Coisas mesmas, só que diferentes. Posso morrer disso.


Podemos.


Sensibilidade é doença sem cura, porque quem acha cura é a ciência que é dura. Pobre da ciência, não tem ciência de nada -- é só um jeito de ver, que é bonito e salva, sim, mas fica sempre o silêncio vago. Prefiro o silêncio dela que, de ser doente, diz. Fica o nariz coçando, escorrendo a gente. É que tem poeira no mundo, nas coisas belas e nas coisas feias. Mas isso no mundo humano que é à parte do mundo mundo. Na natureza não há espirros.Sei que ainda morro disso. Dos olhos dela, que inventei antes. Das perninhas finas que andam no chão torto e dos sapatinhos que ela cuidadosamente escolheu. Sapato tem que servir no pé, assim como a música que toca tem que servir n’alma. E tem gente que serve noutra gente. É assim que a vida vai indo. Deus pegou um vinil de nós e pôs a agulha pra tocar.    



Aqu(ar)ela

2012-09-24T22:10:11.219-03:00


Para viver comigo, não quero alguém com a limitação de me permitir ser o mesmo. Para que eu me seja a solidão basta. Quero ir além de mim no outro, pois me sei incompleto, me sei frágil coisa, cheio de defeitos. Ser-me é tão simples que não preciso de ninguém para isso, é tão simples que nem dá para explicar como — apenas vou lá e aconteço. E não é isso que quero: Quero ela, (aquela) que me faz mais.



Mágica Manhã

2012-09-22T00:46:56.975-03:00

Tivesse olhos o Sol, para lança-los atentos nas brechas de janelas entreabertas das manhãs, seria testemunha do despertar (o) doce do corpo.Verdades sussurradas nas paredes.



Da ode que farei

2012-08-25T21:36:36.239-03:00


Um dia haverei de escrever uma ode às vezes que renasço. É assim: Ela me olha — aquele olhar de desmantelar-me as partes — e lá estou no chão, desfeito. Então ela se aproxima em passos lentos, pega com as mãos cada pedaço de mim e me remonta — o resto da noite é noite. 



Constatação

2012-08-12T01:03:10.856-03:00

... Desde então, todas as minhas ações são uma impressão daquilo que você escreve em minha essência.



0 Comentários

2012-08-10T16:09:35.097-03:00

O furacão menina passa levando as telhas e paredes de minh'alma.



Cumpleaños

2012-06-05T03:12:41.127-03:00

A verdade está na roda de bicicleta — a vida gira.

O sorriso dela é entre vírgulas (aquela marquinha no rosto), antes e depois dele há sempre uma coisa. Quando a coisa sou eu, é quase como se inventássemos o agora juntos. Ela, que nasceu há um tanto de anos, alguns meses antes de mim, trás esse poder no sorriso. Quem vê a pedra, não imagina que dali pode surgir escultura, e quem vê escultura não imagina que ali um dia só se via a pedra. Ela veio assim meio uma coisa meio outra — escultura lisa e pedra a se talhar. Eu que também não sou inteiro me encaixo certinho no espaço dela. Preenchemo-nos.

Um quarto de século fez nascer infância dentro da infância. A menina de sorriso levado já é mãe. Tão menina, tão mulher. Nunca é cedo e nunca é tarde, é sempre agora carregado de antes e depois. Eu que não estive no antes, quero estar no agora em diante.

O Sol nasceu hoje de novo — eu vi — como a tantos anos, quando ela cabia em barriga e saiu. O mesmo sol, num hoje de outro ano. Então as coisas passaram a respirar o nome dela — existia.

Existe.

E amo.  



Menina Menina

2012-05-21T05:29:41.108-03:00


Ela não sabe que a vejo manhãs — toda alvorada para os olhos. Dulcíssimas manhãs. Não sabe e esconde o corpo nu, apaga a luz... Se esconde menina menina, como é. Eu que sei das flores que não se vê numa paisagem noite. Mesmo que seja noitinha estrelada lá no que a gente sente, que não se apague a lamparina. Não se apague menina! Vê-se com tanto defeito, coisa ali que não devia, coisa cá fora do eixo, que nem me vê sem sustentar o queixo.   



Do respiro das coisas - IV

2012-03-15T01:36:21.161-03:00

Chuá, chuá!
O chuveiro chia 
Imita chuva 
Eletrificada chuva
Me acha água, de alma cheia!
Enquanto eu canto desafinado
Um canto de qualquer sereia.



Cheio de tão pouco

2012-01-10T04:46:42.113-02:00

Escrevo pouco de tanto que vivo. Nisso de viver, sempre me sobra um pouco de existência, vou lá e a anoto. Em minhas anotações estão marcadas lembranças que não são inteiras, são sempre meias. Nunca cabe tudo de tanto que vivo.  



2 Comentários

2011-11-18T21:14:31.263-02:00

Conforto é deixar os pés ficarem nus.



Para que não se cale.

2011-11-02T05:18:02.299-02:00

Sei da mudez dos olhos dela.  Olhos tão cheios de tantas noites, tão encharcados de alma. Como amo esses olhos! Sempre assim: ecoando, cândidos, o silêncio. Nada sei de seus segredos, mas os compreendo. Vejo-a sempre no pensamento. Conhecíamo-nos, talvez, antes de nos sabermos.  Daí a vontade de tocar sua existência, de beijar suas tardes, de me sentar silente ao seu lado.

É difícil descrever a textura que o algodão-doce tem na boca. Como ele se desmancha em açúcar na língua. Alguém um dia teve a ousadia de colocar uma nuvem no palito. Falo coisas sem contexto, pois sei que ela vai entender. Ela, com seus olhos cheios de noite, entende a noite em mim. E eu entendo os segredos que ela não diz.

Deve ser açúcar.