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Logosfera



Um blogue de Filosofia para professores e alunos, filósofos e não-filósofos.



Updated: 2018-01-18T14:11:36.547+00:00

 



Natureza e Ética

2018-01-18T14:11:36.669+00:00

David Seymour, Nuremberga, 1947 "Crianças brincando na praia" A Natureza, Sr Allnut, é aquilo que viemos a este mundo para ultrapassar"Nature, Mr Allnut, is what we were put in the world to rise above.Frase de Katherine Hepburn para Humprey Bogart na Rainha Africana (1951) (...) Como decidimos o que é certo ou errado, bom ou mau? Muitos filósofos avisaram-nos de que nenhum facto sobre a natureza pode fornecer alguma base para discutir valores. No Tratado sobre a Natureza Humana (1739/40), David Hume formula um convincente argumento sobre o fosso intransponível entre facto e valor, entre “é” e “deve”. Numa tentativa de ultrapassar esse fosso comete-se a chamada “falácia naturalista”: nenhum argumento com premissas factuais pode fornecer-nos qualquer conclusão sobre o que tem valor, ou sobre o que devemos fazer. Na obra PrincipiaEthica (1903), o filósofo G. E. Moore aduziu o que ele chamou de “argumento de pergunta aberta" para uma restrição semelhante em qualquer discurso sobre o valor. Moore alega que qualquer tentativa para definir “bom” em termos naturalistas – tal como prazer, utilidade, ou, como um mandamento divino – tem de falhar, porque permanece sempre a questão em aberto se o prazer, ou a utilidade ou aquele particular mandamento divino, são realmente bons. Se essa definição naturalista fosse boa, como a definição de triângulo enquanto uma figura plana com três ângulos, então a questão “É o triângulo realmente uma figura com três lados?”, não faria sentido, o que apenas assinala o falhanço da definição de “bom”. A formulação de Moore deu origem a um enorme debate. É razoável objetar que ficou por formular a seguinte questão: se uma dessas definições estiver correta então já esta questão não está em aberto. Mas teremos que admitir que nenhuma definição de “bom” em termos de propriedades naturais é muito plausível. O fosso original “é- deves” de Hume permanece. Na prática é claro que seria impossível decidir o que é melhor sem referências a factos. Em medicina como nas políticas públicas, as decisões “baseadas em evidências” são os padrões por excelência a que até os políticos aspiram. Mas a evidência que esperamos só é relevante porque certos objetivos são considerados inquestionáveis: saúde, felicidade, vida. Estes são os valores que pressupomos mesmo que pareçam demasiado óbvios para serem articulados em qualquer argumento prático ou moral. Se o dinheiro compra a felicidade, então esforça-te para fazer dinheiro. Mas apenas se a felicidade for o tipo de coisas que deves perseguir. Se a comida sustém a vida, então come! Mas apenas se valorizas a vida. Então onde poderemos encontrar a justificação das premissas gerais sobre os valores? Se ir dos factos para os valores é uma falácia, então não poderemos fundamentar os juízos de valor nos factos. Mas se não nos factos, então em quê? Não-factos? “Factos alternativos”, talvez? Um tipo de verdades que se distinguem dos factos vulgares da experiência são os factos lógicos. E alguns filósofos, nomeadamente, Immanuel Kant, no século XVIII, pensava que podemos extrair os princípios morais puramente da razão. Isto parece reduzir a imoralidade a um mero erro lógico matemático. E, face a isto, parece absurdo, apesar dos sucessivos esforços dos seguidores de Kant, para considerar que o absurdo só o é porque não somos espertos o suficiente para o compreender. Há muito tempo que este tem sido o estratagema de filósofos e teólogos: se discordares do seu dogma então deves ser estúpido ou fraco. Prefiro continuar a pensar que não percebo. Então devemos admitir que tudo o que diz respeito a valores, bondade ou correção é arbitrário? Não. (...) Uma proposta de resposta é aquela que aponta para considerarmos as nossas vontades e desejos face ao valor. Querer qualquer coisa tem implícito que vejamos isso que queremos como valoroso. O nosso desejo é um facto sobre nós, mas parece aponta[...]



Camus, o homem revoltado

2018-01-07T09:49:10.230+00:00

Sorolla, 1894, Ainda dizem que o peixe é caro“Se os homens não conseguem referir- se a um valor comum, reconhecido por todos em cada um deles, então o Homem torna-se incompreensível para o próprio homem. O rebelde exige que esse valor seja claramente reconhecido em si mesmo, porque suspeita ou sabe que, sem ele, a desordem e o crime reinariam no mundo. O movimento de revolta surge nele como uma reivindicação de clareza e de unidade. A mais elementar rebelião exprime, paradoxalmente, a aspiração a uma ordem. Linha por linha, essa descrição convém ao revoltado metafísico. Este insurge-se contra um mundo fragmentado para dele reclamar a unidade. Contrapõe o princípio de justiça que nele existe ao princípio de injustiça que vê no mundo. Primitivamente, nada mais quer senão resolver essa contradição, instaurar o reino unitário da justiça, se puder, ou o da injustiça, se a isso for compelido. Enquanto espera, denuncia a contradição. Ao protestar contra a condição naquilo que tem de inacabado, pela morte, e de disperso, pelo mal, a revolta metafísica é a reivindicação motivada de uma unidade feliz contra o sofrimento de viver e de morrer. Se a dor da morte generalizada define a condição humana, a revolta, de certa forma, é dela contemporânea. Ao mesmo tempo em que recusa a sua condição mortal, o revoltado recusa-se a reconhecer o poder que o faria viver nessa condição. O revoltado metafísico, portanto, certamente não é ateu, como se poderia pensar, e sim obrigatoriamente blasfemo. Ele blasfema, simplesmente em nome da ordem, denunciando Deus como o pai da morte e o supremo escândalo. Voltemos ao escravo revoltado para esclarecer a questão. No seu protesto, ele estabelecia a existência do senhor contra o qual se revoltava. No entanto, demonstrava simultaneamente que o poder do senhor dependia de sua própria subordinação e afirmava o seu próprio poder: o de questionar permanentemente a superioridade que até então o dominava. Nesse sentido, senhor e escravo estão realmente no mesmo barco: a realeza temporária de um é tão relativa quanto a submissão do outro. As duas forças afirmam-se alternativamente, no instante da rebelião, até o momento em que se confrontarão para se destruírem, e uma das duas então desaparecerá provisoriamente. Da mesma forma, se o revoltado metafísico se volta contra um poder, cuja existência simultaneamente afirma, ele só reconhece a sua existência no próprio instante em que a contesta. Arrasta então esse ser superior para a mesma aventura humilhante do homem, com o seu vão poder equivalendo à nossa vã condição. Submete-o a essa força de recusa, inclina-o por sua vez diante da parte do homem que não se inclina, integra-o à força numa existência para nós absurda, retirando-o, enfim, do seu refúgio intemporal para compromete-lo na história, muito longe de uma estabilidade eterna (que só poderia encontrar no consentimento unânime dos homens). A revolta afirma desse modo que, no seu nível, qualquer existência superior é, pelo menos, contraditória.”Albert Camus, O Homem revoltado, S. Paulo, Record, 2011, p.30, 31,A escrita de Camus excessiva e desassombrada já não nos choca mas faz-nos esboçar um meio sorriso de condescendência, a nossa época intelectual prefere discutir argumentos, cansou-se de ideologias ou não as tem, perdeu-as ou não as quer, por demasiado espalhafatosas e condenadas a uma ruína inevitável e previsível. A questão que Camus faz ressurgir não é ideológica mas dialética. A dialética assegura-nos a passagem das contradições próprias do viver histórico e psicológico dos indivíduos e, ao mesmo tempo, eleva a contradição ao estatuto de duplamente necessária; necessária para a passagem a uma ordem diferente e necessária enquanto constante inevitável do percurso humano/histórico. A revolta exprime e resulta da vivência dessa contradição. Ora, quando analisamos filosoficamente a argumentação, vemos apenas uma perspetiva formal ou de conteúdos[...]



Bom Natal para todos! Fiquem com o Houellebecq.

2018-01-04T19:23:05.170+00:00


Pesellino, Trindade

"Em certas páginas da sua autobiografia, A Rota do Futuro, Bill Gates deixa às vezes transparecer aquilo que se poderia considerar ser um completo cinismo - em especial na passagem em que confessa muito singelamente que para uma empresa não é forçosamente vantajoso apresentar os produtos mais inovadores. A maior parte das vezes é preferível observar o que fazem as empresas concorrentes ( e então faz uma clara referência, sem a citar, à sua concorrente Apple), deixá-las  lançar os seus produtos, enfrentar as dificuldades inerentes a qualquer inovação, ser de certo modo o primeiro a experimentar; depois, numa segunda fase, inundar o mercado oferecendo cópias a baixo preço dos produtos da concorrência. Este cinismo aparente não é, contudo - sublinha Huellebecq  no seu texto -, a verdade profunda de Gates; exprime-se antes naquelas passagens surpreendentes, e quase tocantes, em que reafirma a sua fé no capitalismo, na misteriosa "mão invisível"; a sua convicção absoluta, inquebrantável, de que, sejam quais forem as vicissitudes e os exemplos aparentemente contrários, o mercado, ao fim ao cabo, tem sempre razão, de que o bem do mercado se identifica com o bem geral. É então que Bill Gates se apresenta na sua verdade profunda, como um ser de fé, e foi essa fé, essa candura do capitalista sincero, que Jed Martin soube traduzir quando o representou, de braços abertos de par em par, caloroso e amigável, com as lentes dos óculos a brilhar sobre os últimos raios do sol poente no Oceano Pacífico. Jobs, pelo contrário, emagrecido pela doença, com o seu rosto preocupado e pintalgado por uma barba rala, dolorosamente apoiado na mão direita, faz lembrar um daqueles evangelistas itinerantes no momento em que, dando consigo talvez pela décima vez a debitar as suas pregações perante uma assistência dispersa e indiferente, é de repente invadido pela dúvida."

Michell Houellebecq, O mapa e o território"p.170, 171


A curiosidade deste texto é o recurso de Houellebecq à posição de narrador e de personagem do que narra, assim como é também Jed Martin , o artista sobre o qual Houellebecq comentador, fala. Esta estratégia do artista comentador de si próprio e criador de vários alter egos que são assumidamente mais do mesmo, isto é, a mesma filosofia do Gates, a venda do produto como objetivo principal e para isso vale tudo, inclusive, estas roupagens aparentemente diferentes. A venda, o sucesso, é por si, o maior bem. Depois, este Gates de braços abertos e o Jobs evangelista, e o Jed artista, são a trindade do capitalismo como religião, duas santíssimas trindades, os autores e os empresários unidos pela nova religião. Cínico, iconoclasta, mas lúcido.






Porque precisamos da Retórica

2017-11-25T23:29:52.545+00:00

Garry Winogrand. NY, 1964

Ainda se pode objetar que a retórica só é útil para aqueles que querem enganar o público e ocultar os seus objetivos reais, já que alguém que apenas quer comunicar a verdade pode ser directo e não precisará de ferramentas retóricas. Isso, no entanto, não é o ponto de vista de Aristóteles: mesmo aqueles que apenas tentam estabelecer o que é justo e verdadeiro precisam da ajuda da retórica quando enfrentam uma audiência pública. Aristóteles diz-nos que é impossível ensinar essa audiência, mesmo que o falante tenha o conhecimento exato do assunto. Obviamente, Aristóteles considera que a audiência de um discurso público consiste em pessoas comuns que não conseguem seguir uma prova exata baseada nos princípios de uma ciência. Além disso, essa audiência pode ser facilmente distraída por fatores que não pertencem ao assunto; às vezes são recetivos a lisonjas ou apenas tentam estar em vantagem. Esta situação torna-se ainda pior se a constituição, as leis e os hábitos retóricos de uma cidade forem maus. Finalmente, a maioria dos tópicos que geralmente são discutidos em discursos públicos não permitem conhecimento exato, mas deixam espaço para dúvidas; especialmente em tais casos, é importante que o orador pareça ser uma pessoa credível e que o público esteja num clima de simpatia. Por todas essas razões, afetar as decisões de jurados e assembleias é uma questão de persuasão e não de conhecimento. É verdade que algumas pessoas conseguem ser persuasivas, seja ao acaso ou por hábito, mas é a retórica que nos dá um método para descobrir todos os meios de persuasão em qualquer assunto.

 Aristotle's Rhetoric Article First published Thu May 2, 2002; substantive revision Mon Feb 1, 2010
Stanford Encyclopedia of Philosophy





Citroën - Anuncio Citroën DS 3 - Desfile

2017-11-25T23:30:17.590+00:00

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A técnica adequa-se ao objetivo. Uma técnica adequada é bom, independentemente do que se diz ou conclui?

2017-11-25T23:30:51.287+00:00

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"Para convencer alguém de uma verdade ou desviá-lo de um erro (...), a primeira regra a seguir é fácil e natural: apresentar primeiro as premissas e em seguida a conclusão. E, contudo, esta regra raramente é respeitada, procedendo-se exatamente ao contrário. Um zelo impaciente e a necessidade de ter razão pressionam-nos a gritar bem alto a conclusão a quem erradamente defende o oposto. Este procedimento torna o nosso oponente respingão, e a partir daí a sua vontade mostra-se rebelde aos argumentos e às premissas de que ele, antecipadamente, conhece a conclusão.
Assim, devemos dissimular a conclusão e apresentar as premissas com clareza, e sob todos os seus aspetos. Se possível, não devemos sequer anunciar a conclusão. Ela acabará por se impor inevitavelmente, em virtude de leis necessárias, à razão dos auditores e a convicção que nasce assim espontaneamente neles, será mais sincera; além disso, em vez de os encher de confusão, ela será acompanhada de um sentimento de mérito pessoal.
Em casos difíceis, podemos mesmo fingir querer chegar a conclusões diferentes daquelas que realmente temos em mente (...)
Não devemos produzir argumentos excessivos. Por isso os chineses enunciam a seguinte máxima: "aquele que é eloquente e que tem a língua afiada só deverá enunciar metade de uma proposição; e aquele que tem a razão do seu lado pode voluntariamente sacrificar três décimas do seu discurso."

Shopenhauer, O mundo como vontade e representação



RETÓRICA, PROPAGANDA E MANIPULAÇÃO

2017-11-07T15:06:53.313+00:00

A manipulação conscienciosa e inteligente dos hábitos organizados e das opiniões é um elemento importante da sociedade democrática. Aqueles que manipulam este oculto mecanismo da sociedade constituem um governo invisível que é o verdadeiro poder regulador do nosso país.Somos governados, as nossas mentes moldadas, os nossos gostos formados, as nossas ideias sugeridas, em grande medida por homens dos quais nunca ouvimos falar. Este é o resultado lógico do modo com a nossa democracia está organizada. Um vasto número de seres humanos têm de cooperar desta maneira se querem viver em conjunto como uma sociedade que funcione tranquilamente. (...)Nos dias em que os reis eram reis, Luís XIV proferiu esta modesta observação: “O Estado sou eu”. Ele estava quase certo. Mas os tempos mudaram. A máquina a vapor, a impressão em série, a escola pública, este trio da revolução industrial, retirou o poder aos reis e deu-o ao povo. O povo hoje conquista o poder que o rei perdeu. O poder económico tende a ser arrastado pelo poder político; a história da revolução industrial mostra como o poder passou do rei e da aristocracia para a burguesia. O sufrágio universal e a escola universal reforçaram esta tendência, e por fim mesmo a burguesia sente-se ameaçada pelas pessoas comuns. As massas prometem ser o próximo rei.Hoje, contudo, surge uma reação. A minoria descobriu um poderoso auxiliar para influenciar as massas. Tornou-se então possível moldar a mentalidade das massas que se lançarão com o seu vigor recém-adquirido na direção desejada. Na actual estrutura da sociedade, esta prática é inevitável. Qualquer que seja a importância social que lhe é dada hoje, seja na política, finança, industria, agricultura, caridade, educação, ou noutros campos, deve ser feita com recurso à propaganda. A propaganda é o braço executor do governo invisível.Supunha-se que a literacia universal educaria o homem comum a controlar o meio ambiente. Uma vez que podia ler e escrever poderia ter uma mentalidade apta a governar. Mas em vez de uma mentalidade, a literacia universal ofereceu-lhe carimbos, carimbos esses pintados com slogans publicitários, com editoriais, com dados científicos, com as trivialidades dos tablóides e as vulgaridades da história, mas pouco inocentes no que respeita à originalidade. Cada carimbo humano é duplicado de milhões de outros, de modo que quando estes milhões são expostos aos mesmos estímulos, recebem todos impressões idênticas. (…)O mecanismo pelo qual as ideias são disseminadas em larga escala é a propaganda, no sentido lato de um esforço organizado para espalhar uma convicção ou uma doutrina.Estou consciente que a palavra propaganda provoca em muitas mentes uma conotação desagradável. De qualquer maneira, em qualquer circunstância, a propaganda ser boa ou má depende do mérito da causa advogada, e da correção da informação publicada.(…)Trotter e Le Bon concluíram que a mentalidade de grupo não pensa no sentido estrito da palavra. Em vez de pensamentos tem impulsos, hábitos, e emoções. Ao elaborar o seu pensamento o primeiro impulso geralmente é seguir o exemplo de um líder em que se confia. Este é um dos princípios mais firmemente estabelecidos da psicologia de massas. Funciona a subida ou diminuição de prestígio de uma estância estival, ao provocar uma corrida a um banco, ou o pânico na cotação de ações, ao criar um “best-seller” ou u êxito de bilheteira. Mas quando o exemplo do líder não está à mão e a multidão tem de pensar por si, fá-lo com o recurso a clichés, palavras ou imagens que permanecem na globalidade de um grupo de ideias e experiências. Não há muitos anos atrás, era somente preciso etiquetar um candidato político com a palavra interesses para fazer com que milhões de pessoas votassem contra ele, porque qualquer coisa associada a “o[...]



Como os filósofos são corporativistas.

2017-11-25T23:34:46.130+00:00



Quanto à Filosofia de Descartes, acerca da qual pergunta a minha opinião, não hesito em dizer, com firmeza, que leva ao ateísmo. Para mim, que considerei tudo atentamente, existem algumas coisas muito suspeitas como, por exemplo, estas duas passagens:
“A causa final não deve ser considerada na física." "A matéria leva sucessivamente todas as formas das quais é capaz.”
Há uma admirável passagem no Fédon, em que Platão culpa justamente Anaxágoras pela mesma coisa que me desagrada em  Descartes. Acredito que as leis da mecânica, que servem de base a todo o sistema físico, dependem de causas finais; o mesmo é dizer, da vontade de Deus determinado a fazer o que é mais perfeito, pois essa matéria não assume todas as formas possíveis, mas apenas a mais perfeita; caso contrário, seria necessário dizer que chegaria um momento em que tudo seria mau à vez, o que está muito distante da perfeição do autor das coisas. Quanto ao resto, se Descartes fosse menos dado a hipóteses imaginárias e mais ligado às experiências, acho que sua física teria sido digna de ser seguida. Pois devo admitir que ele tinha grande penetração. Quanto à sua geometria e análise está longe de ser tão perfeita quanto muitos o pretendem, mas é uma investigação de problemas insignificantes. Quanto à sua metafísica, tem vários erros e não conheceu a verdadeira fonte das verdades nem aquela análise geral de noções que Jung1, na minha opinião, entendeu melhor do que ele.  No entanto, confesso que a leitura de Descartes é muito útil e muito instrutiva, e que eu gosto incomparavelmente mais de o fazer com um cartesiano do que com um homem de alguma outra escola. Finalmente, considero esta filosofia como a antecâmara da verdadeira filosofia.


Leibniz, Extrato de uma carta a Philipp, 1679.

1. Joachim Jung ou Jungius (Lübeck, 22 de outubro de 1587 — Hamburgo, 7 de Setembro de 1657) foi um filósofo, matemático e naturalista alemão. Contemporâneo de Johannes Kepler (1571-1630) e de René Descartes (1596-1650), Jung tornou-se uma das principais figuras da ciência no século XVII.



A Lógica e a História

2017-11-28T16:23:48.607+00:00



Fotografia de Olivia Arthur

Primeiro tópico é que a Filosofia é tão subsidiária da Lógica e da Literatura como o é da Lógica. Sendo assim, seria importante estudar História, Literatura e Lógica quando se estuda Filosofia. A ordem seria aleatória, as três são estruturantes. Estruturantes como? Parecem palavras vazias e são, de tal modo são usadas sem freio pois adaptam-se a tudo; uso o termo como referindo aquilo sobre o qual se constrói, a partir do qual se constrói algo. Mas se a Filosofia é o edifício cujo tijolo é a História, as vigas de aço a Lógica e os pormenores ou acabamentos Literatura, então ela é uma casa que se torna habitável se não descurarmos nenhuma destas formas de análise e expressão. Ninguém chama casa a um conjunto de vigas, ou a um conjunto de acabamentos ou a um conjunto de tijolos. A disposição e o modo como se combinam e a necessidade da combinação é que fazem verdadeiramente a originalidade e beleza ou elegância da casa que construímos. Vem este preâmbulo a propósito da insistência no tratamento padronizado da Lógica  para todo o tipo de questões filosóficas. Trata-se  a "Linguagem" e os "Argumentos" como se fossem algo descontextualizado e possivelmente formalizado numa linguagem objectiva previamente convencionada. Ora, essa forma de "fazer" Filosofia ou de pensar filosoficamente é redutora e, na minha perspectiva, pouco adequada ao Ensino Secundário pois retira à Filosofia aquilo que a torna criadora e próxima do que verdadeiramente interessa, as ideias e os factos que nos são próximos e a forma plural e diversificada que temos de os pensar e de construir novas narrativas  sobre eles. Ora esta visão que está a ser imposta no Ensino Secundário, tanto nos novos programas das chamadas "Aprendizagens essenciais", como nos manuais que grassam por essas editoras está progressivamente a tomar o ensino da Filosofia e tende a unificar em práticas metodológicas estereotipadas essa capacidade de fazer mundos que, na minha perspetiva, é a Filosofia.

Helena Serrão



Reflexão sobre as"Aprendizagens essenciais" de Filosofia propostas para o 10ºAno.

2017-10-20T18:20:40.717+01:00

Pensar, falar, fazer. O trinómio parece viciado pelo juízo ético e o desperdício. Passo a explicar: há multiplicação de "Falares"e desta multiplicação fica o apagamento da força. Falar era forte quando não se podia dizer, agora ao poder dizer-se, falar parece estratégia de "mais do mesmo" perdendo a sua eficácia, tornando-se coisa para nada. Mas atenção, estou a falar do "falar crítico" que analisa, do falar que se vocaciona para a exceção, para a recusa, é do falar que recusa que estamos fartos.  Não do falar pró-activo, que apresenta soluções, que fala do que faz. Esse desejamo-lo. Ora esse falar que faz ou fez e que vai fazer, apresenta-se sob a forma de "grupinhos de influência" os únicos que têm forma de sair do anonimato e, pelos seus discursos, nos fazerem crer que as coisas são como eles fazem e pouco importa o que digam, pois não parece figurar-se no horizonte alternativa credível. Neste caso, o que parece é: Não há alternativa. Não há outros grupos a fazerem e a dizerem diferente, não existem ou não aparecem. Neste caso o que parece não é. Há de factos muitos a fazerem e a pensar diferente mas não têm visibilidade mediática, logo, não existem.Certos figurões que pertencem a "grupinhos de influência", ganham visibilidade pela sua azáfama de pequenas formiguinhas obreiras dessas mesmas forças de influência. A metáfora do insecto não é pura coincidência. Trata-se de um reino bem composto de seres minúsculos mas de grande persistência de Fazer.  Seja. Se o pensar é uma incógnita, o que pelo falar se dá do pensar é um discurso de circunstância e de interesse, nada de novo. Assim ficamos limpos para encarar o FAZER como inequivocamente objetivo e transformador.  À incógnita do pensar resta a supremacia do fazer. Este preâmbulo introduz o meu ceticismo em relação ao que estou a escrever neste momento, não acredito que tenha consequências senão servir de desabafo a uma anónima mas esforçada professora de filosofia do Ensino Secundário.Tudo isto por causa das "Aprendizagens essenciais de Filosofia" que duas ou três formigas "iluminadas", das que estão presentes em todos os eventos dignos desse nome e que - por razão obviamente desconhecida - representam a classe dos professores, visualizaram, propuseram, fizeram e lançaram como LEI geral para todos.  Esta lei não representa nada senão os interesses daquele quintal, o que as formiguinhas obreiras possuem e estimam.Ora o que é válido para esse  quintal não é válido para todos os quintais porque há muitos e diferentes quintais. Pensar que sim  é uma falácia e  a pior de todas. É uma generalização apressada. Pois bem, é do que se trata quando vemos que entre todas as aprendizagens possíveis de seleccionar para o 10ºAno, foram seleccionadas as aprendizagens relativas à "Lógica proposicional" que não constam do programa em vigor (embora este não tenha sido oficialmente alterado) e que apenas são essenciais para um quintal determinado vergando-se o termo "essencial" até ao absurdo do " que nos dá jeito". E meu Deus, que afazer frenético, queridas formiguinhas obreiras, a seguir monta-se esquema de Ações de Formação para os desgraçados dos professores para quem a "Lógica proposicional" não é essencial, mas que têm de a aprender mesmo assim, porque sim. É bonito, jeitoso, verdadeiramente plural e bastante rentável.Helena Serrão[...]



Um fenómeno ocorrido a milhares de Anos Luz afecta o nosso quintal! Magnífico! Queremos mais descobertas destas, mais cientistas convictos e apaixonados, mais dinheiro para investir nestes projectos! Queremos mais ciência!!

2017-10-05T09:53:49.635+01:00

Einstein não parou as suas investigações sobre a força da gravidade depois de ter chegado às equações da relatividade geral. Num artigo de 1916 conjeturou que existiam ondas gravitacionais, semelhantes às ondas eletromagnéticas (ou radiação ou luz), conhecidas desde meados do século XIX. Uma oscilação de uma massa deveria abanar a geometria do espaço e do tempo propagando-se a grandes distâncias, tal como uma oscilação de uma carga espalha luz em redor. Para o efeito ser apreciável era preciso que a massa em vibração fosse muito maior do que a do Sol. De início, Einstein não acreditou totalmente na realidade das suas ondas gravitacionais, pois receou tratar-se de um artifício matemático. Faleceu em 1955 sem ter a certeza da existência das ondas que tinha previsto.As ondas gravitacionais manifestaram-se indiretamente com a descoberta, em 1974, de um sistema binário formado por estrelas pesadas, chamadas estrelas de neutrões, pelos americanos Russel Hulse e Joseph Taylor Jr., que ganharam o Nobel da Física de 1993. Uma parte da energia escapava das estrelas provavelmente sob a forma de ondas gravitacionais. Mas, faltando uma observação direta, foram propostas engenhosas experiências.Verificou-se que as ondas gravitacionais eram mesmo reais precisamente cem anos após a ideia de Einstein. A 11 de Fevereiro de 2016, os media de todo o mundo anunciavam a extraordinária descoberta, fazendo eco de um artigo da equipa da experiência LIGO, com cerca de mil autores, que relatava a recolha das ondas em duas instalações gémeas no noroeste e no sul dos Estados Unidos, separadas por mais de 3000 quilómetros. Era precisa uma observação simultânea nos dois lados já que, como os sinais eram extremamente ténues, tinham se ser excluídas perturbações com uma origem terrestre e não extraterrestre. Cada instalação possui "antenas", em forma de L, com braços de quatro quilómetros, onde se pode medir através de um feixe laser o afastamento entre pares de espelhos. Ora esses espelhos abanaram um bocadinho durante uma fração de segundo, no dia 14 de Setembro de 2015. Ou melhor, o espaço entre eles oscilou. O sinal, que já foi comparado a um chilrear, foi o mesmo nos dois sítios: só um match perfeito permitiria concluir que a emissão era remota. Simulações computacionais indicaram que as ondas em causa eram devidas à fusão de dois buracos negros, cada um deles com cerca de 30 vezes a massa do Sol, à distância de mais de mil milhões de anos-luz de nós. Buracos negros, descritos pela teoria da relatividade geral, são as estrelas mais pesadas que se conhecem. A observação das ondas gravitacionais na Terra, revelando um acordo bastante bom entre teoria e experiência, é uma das proezas mais notáveis da física contemporânea. A Academia Sueca acaba de distinguir com o Nobel da Física os responsáveis maiores por essa observação pioneira, que já foi repetida por mais três vezes (uma das quais há poucos dias, com a participação de um observatório em Itália). O prémio foi para os americanos Brian Weiss, Barry Barish e Kip Thorne (o físico que ajudou no filme Interstellar). Até agora só víamos o céu através de luz, visível ou invisível. Mas agora passámos a recolher as vibrações do próprio espaço. Se antes só tínhamos olhos para o céu, passámos a ter também "ouvidos”.Carlos Fiolhais in Público, dia 4 de Outubro de 2017[...]



Os pré-socráticos

2017-10-18T07:58:28.424+01:00

Joaquin Sorolla "Estudo sobre o mar", Valencia, 1904Tales tentou compreender o mundo sem invocar a intervenção dos deuses. Como os babilónicos, acreditava que o mundo já tinha sido água. Para explicar a terra seca, os babilónicos diziam que Marduk tinha colocado uma esteira na face das águas e amontoado areia sobre ela. Sim, tudo tinha sido água, mas a Terra surgiu dos oceanos por um processo natural, similar, ele julgava, à obstrução que tinha observado no delta do Nilo. Pensava realmente que a água era um princípio comum subjacente a toda matéria, assim como hoje em dia dizemos o mesmo de eletrões, protões e neutrões, ou dos quarks. Se a conclusão de Tales estava ou não correta não importa, mas sim o seu lema: o mundo não era governado pelos deuses, mas sim pelo trabalho das forças materiais interagindo com a Natureza. Tales trouxe da Babilónia e do Egito as sementes das novas ciências, astronomia e geometria; ciências que germinaram e cresceram no solo fértil da Jónia. Muito pouco se sabe da vida pessoal de Tales, mas Aristóteles narra uma anedota reveladora na sua obra Política: [Tales] era censurado pela sua pobreza, que se supunha ser prova de que sua filosofia não tinha utilidade. De acordo com a história, sabia pela sua perícia [em interpretar os céus], enquanto ainda era inverno, que haveria uma grande colheita de azeitonas no ano seguinte, de modo que, tendo pouco dinheiro, fazia depósitos pelo uso das prensas de azeitonas em Quio e Mileto, as quais alugava a preços baixos porque ninguém lhe dava ouvidos. Quando chegava a colheita, e havia necessidade de muitas, cedia-as ao preço que lhe convinha e ganhava uma boa quantia de dinheiro. Assim provava que os filósofos do mundo podiam facilmente ficar ricos se quisessem, mas que a sua ambição era outra. Era famoso como sábio político, incitando com sucesso os Milesianos a resistir à assimilação por Creso, Rei da Lídia, mas não foi feliz ao apelar a uma federação de todos os estados insulares da Jónia contra os Lídios. Anaximandro de Mileto era amigo e colega de Tales, um dos primeiros, que se tem conhecimento, a fazer experiências. Examinando o movimento de uma sombra lançada por uma vareta vertical, determinou com precisão a duração do ano e das estações. Por anos os homens utilizaram varetas para lutar ou matar. Anaximandro utilizou-as para medir o tempo. Foi a primeira pessoa na Grécia a fazer um relógio de sol; um mapa do mundo conhecido e um globo celeste que mostrava os traços das constelações. Acreditava que o Sol, a Lua e as estrelas eram feitos de fogo vistos através de buracos que se moviam na abóbada do céu, provavelmente uma ideia bem mais antiga. Sustentou a opinião admirável de que a Terra não era suspensa ou sustentada mas, para ele, era o centro do universo; uma vez sendo equidistante de todos os pontos da "esfera celeste" não havia força capaz de movê-la. Argumentava que somos tão desamparados ao nascer, que se os primeiros bebés fossem colocados no mundo e deixados a sós, talvez morressem de imediato. Partindo daí, Anaximandro concluía que os seres humanos surgiram de outros animais com recém-nascidos mais capazes. Propôs a geração espontânea da vida na lama, os primeiros animais tinham sido peixes cobertos por espinhos. Alguns descendentes desses peixes abandonaram eventualmente a água e dirigiram-se para a terra seca, onde evoluíram para outros animais por transmutação de um tipo para outro. Acreditou num número infinito de mundos, todos habitados e sujeitos a ciclos de dissolução e regeneração. "Nem ele", queixou-se lamentavelmente Santo Agostinho, "nem Tales atribuíram a causa de toda esta atividade sem fim a uma mente divina."        &n[...]



Um pintor a descobrir

2017-09-22T13:03:35.547+01:00

                                                     
Sorolla, 1892, Otra Margarita





Começam hoje as aulas.

2017-09-13T09:35:22.596+01:00


Henri Cartier-Bresson, Saravejo, Jugoslávia,1965


A Logosfera agradece a todos os que por aqui passam, espera que este espaço vos seja útil (e simpático) e deseja-vos um BOM ANO! Novinho em folha!





As aprendizagens essenciais para Filosofia.

2017-08-12T09:43:35.916+01:00

 Foto: Rita AraújoPerfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória na disciplina de FilosofiaO Ministério da Educação traça, neste documento, o perfil do aluno do Secundário e as aprendizagens essenciais que este deve adquirir. Trabalho feito, perguntamos: O que adianta ao programa? Nada. A mesma linguagem abstrata que nada diz, objetivos reconhecíveis e generalistas sem conteúdo real, como exemplo, todos sabemos que o aluno deve ter espírito crítico, é já um lugar comum estafado, tão estafado que está vazio de gasto, sem sabermos nada sobre isso, senão mais generalizações gastas. A questão não é: “Criar espírito crítico” mas “como criar espírito crítico num aluno que não tem qualquer interesse por questões cognitivas, éticas ou outras”. Um documento com alternativas e estratégias práticas adequadas aos objetivos era muito mais desejável e necessário, não vos parece? [...]



Amor-de-si versus Amor-próprio

2017-08-02T10:04:20.723+01:00

Burt Glinn, Chicago 1968 As nossas paixões naturais estão muito bem delineadas; elas são o instrumento da nossa liberdade, elas tendem a conservar-nos. Todas aquelas paixões que nos subjugam e nos destroem vêm-nos de fora; não é a natureza que as dá mas apropriamo-nos delas para seu prejuízo.A fonte das nossas paixões, a origem e princípio de todas as outras paixões, a única que nasce com o homem e que nunca o abandona enquanto ele viver, é o amor-de-si: paixão primitiva, inata, anterior a qualquer outra, e da qual todas as outras são, num certo sentido, suas modificações. Neste sentido, todas são, se quisermos, naturais. Mas a maior parte destas paixões tem causas estrangeiras sem as quais nunca existiriam: e estas modificações longe de nos serem vantajosas, são-nos prejudiciais; alteram o primeiro objeto e vão contra o seu princípio: é assim que o homem se descobre fora da natureza, e inicia a contradição consigo mesmo.O amor de si é sempre bom, e sempre conforme com à ordem. Cada um estando encarregue especialmente da sua própria conservação, tem e deve ter como primeiro e mais importante dos seus cuidados vigiá-la constantemente: e como a poderia vigiar deste modo se não a tomasse como o seu maior interesse?Devemos portanto amar-nos para nos conservarmos, devemos amar-nos mais que a qualquer outra coisa; e, na sucessão imediata do mesmo sentimento, amamos o que nos conserva. A criança liga-se ao seu alimento: Rómulo devia-se ligar à loba que o aleitou. No princípio essa ligação é puramente maquinal. O que promove o bem-estar de um indivíduo atrai-o. O que lhe causa dano causa-lhe repulsa. O que transforma esse instinto em sentimento, a ligação em amor, a aversão em ódio, é a intenção manifestada de nos alimentarem e de nos serem úteis. Não nos apaixonamos por seres insensíveis que apenas seguem o impulso que lhes dão: mas aqueles do qual esperamos o bem ou mal pela sua disposição interior, pela sua vontade, aqueles que vemos agir livremente a favor ou contra, inspiram-nos sentimentos semelhantes aos que nos demonstram. O que nos serve, procuramo-lo, mas o que nos quer servir, amamo-lo. Fugimos do que nos causa dano: mas daquele que nos quer causar mal, odiamo-lo.O primeiro sentimento de uma criança é de se amar a si mesma; e o segundo que deriva do primeiro, é amar aqueles que dela se aproximam; dado que no estado de fraqueza em que se encontra reconhece as pessoas pelos cuidados que lhe proporcionam. (…)Uma criança é naturalmente dada à bondade porque vê que todos os que se aproximam são prestáveis, a partir dessa observação habitua-se a ter um sentimento favorável aos da sua espécie; mas à medida que alarga as suas relações, as suas necessidades, as suas dependências ativas ou passivas, o sentimento das suas relações com os outros, desperta, e produz sentimentos de dever e preferência. Então a criança torna-se dominadora, invejosa, falsa, reivindicativa. Se a vergamos à obediência, não vendo nenhuma utilidade no que lhe ordenamos, atribui ao capricho a intenção de a atormentar, e amotina-se. Mas se lhe obedecemos, quando qualquer coisa lhe resiste, vê nesse gesto uma rebelião, uma intenção de lhe resistir, bate na mesa ou na cadeira por lhe terem desobedecido. O amor-de -si , que tem apenas a ver connosco, fica contente quando as nossas verdadeiras necessidades são satisfeitas; mas o amor-próprio, que se compara, não está nunca contente e nunca estará, porque este sentimento de nos preferirmos aos outros exige que os outros nos prefiram a si próprios; o que é impossível. Vemos então como paixões doces e afetuosas n[...]






Da dúvida

2017-07-17T20:39:43.418+01:00

                                                Imagem: Laura Knight, Dark pool, 1908Estava naquele estado de espírito de incerteza e de dúvida que Descartes exige para a procura da verdade. Este estado não é feito para durar, é inquietante e penoso; deixa-nos apenas o interesse do vício e a preguiça na alma. Não tinha o coração tão corrompido para aí me comprazer; e nada preserva melhor o hábito de refletir que estar mais satisfeito consigo do que com o seu destino. Meditava então na triste sorte dos mortais flutuando sobre um mar de opiniões humanas, sem governo, sem bússola, e entregues às suas tempestuosas paixões, sem outro guia que um piloto inexperiente que conhece mal a sua rota, e que não sabe nem de onde vem nem para onde vai. Dizia a mim próprio: Amo a verdade, procuro-a, e não posso reconhecê-la; que ma mostrem e ficarei a ela ligado: porque será preciso que ela seja roubada à espontaneidade de um coração feito para a adorar? Apesar de ter provado muitas vezes grandes males, nunca levei uma vida tão desagradável como nesse tempo de desordem e ansiedade, onde, sem cessar, errando de dúvida em dúvida, só retirava, das minhas longas meditações, incerteza, obscuridade, contradições sobre a causa do meu ser e sobre a regulação dos meus deveres. Como poderemos ser sistematicamente céticos e estar de boa fé? Não podia compreendê-lo. Estes filósofos, ou não existem, ou são os mais infelizes dos homens. A dúvida sobre as coisas que nos importam conhecer é um estado demasiado violento para o espírito humano: ele não resiste aí muito tempo; decide-se, apesar de tudo, de um modo ou de outro, e prefere enganar-se a não crer em nada. O que redobrava o meu embaraço, era que tendo nascido numa Igreja que tudo decide, que não permite nenhuma dúvida, um único ponto rejeitado fazia-me rejeitar tudo o resto, e que a impossibilidade de admitir tantas decisões absurdas separava-me também das que não o eram. Ao dizer-me: Crê em tudo, impediam-me de crer em alguma coisa, e eu já não sabia onde me deter. Consultei os filósofos, folheei os seus livros, examinei a sua diferentes opiniões; pareceram-me todos orgulhosos, afirmativos, dogmáticos, mesmo pretendendo ser céticos, não ignorando nada, não provando nada, troçando uns dos outros; e este ponto comum a todos pareceu-me o único onde todos tinham razão. Triunfantes quando atacavam, não tinham qualquer vigor quando se defendiam. Se pensarmos nas razões, só as têm para destruir; se contarmos as vozes, cada um está reduzido à sua; só entram em acordo para se disputarem; escutá-los não era a forma de sair da minha incerteza. Conclui que a insuficiência do espírito é a primeira causa desta prodigiosa diversidade de sentimentos, e que o orgulho é a segunda.(…) Quando os filósofos estiverem em estado de descobrir a verdade, quantos terão interesse nela? Cada um sabe bem que o seu sistema não está melhor fundamentado que o dos outros; mas mantém-no porque é o seu sistema. Não há um único que chegando ao conhecimento do verdadeiro e do falso, não prefira a mentira que descobriu à verdade descoberta por um outro.  Onde está o filósofo que pela sua glória não enganaria voluntariamente o género humano? Onde está aquele que , no segredo do seu coração, tem outro objetivo senão distinguir-se? Desde que[...]



Textos essenciais

2017-06-29T12:17:06.855+01:00


 
Lewis Hine, (EUA 1874/1940)


Os estudos servem para passatempo, ornamento e habilitação. A sua principal utilidade para passatempo, é dada na solidão e no retiro; para ornamento,  no discurso; para habilitação, no juízo; porque os homens peritos podem executar, mas os instruídos são mais aptos para julgar e censurar. Despender demasiado tempo com eles é indolência; usá-los demasiado no ornamento é afetação; formular sentenças unicamente de acordo com as suas regras é defeito de escolar. Os estudos aperfeiçoam a natureza mas são, por sua vez  aperfeiçoados pela experiência. Os homens ladinos os condenam, os sábios os utilizam, os simples os admiram; porque tais homens não ensinam a estudar, apenas dizem que há uma sabedoria sem estudos e outra para além dos estudos, ganha por observação. Lede, não para contraditar nem para acreditar, mas para ponderar e para considerar. Livros há que são para gostar, outros que são para engolir, e só alguns para mastigar e digerir; quer dizer, há alguns que são só para ler em parte, outros por mera curiosidade, e só alguns merecem ser lidos inteiramente com diligência e atenção. Ler amadurece o espírito, conversar adestra-o, escrever torna-o exato; portanto, se o homem escreve pouco, necessita de grande memória; se conversa pouco, de muita astúcia para simular que conhece o que não conhece. A história faz o homem sábio; a poesia engenhoso; a matemática subtil; a física profundo; a moral grave; a lógica e a retórica apto a discutir.
Francis Bacon, Ensaios, Guimarães Editores, Lx, p.17,18
Tradução de Álvaro Ribeiro



Spice Girls explicam Foucault - Verdade & Poder

2017-05-30T23:28:59.565+01:00



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Vídeo realizado por um grupo de alunas de uma Universidade Brasileira. Como usar imagens e desconstruí-las para lhes dar novos e insuspeitos significados. Veja-se AQUI



Relatório -Debra 11A

2017-05-28T12:48:05.529+01:00

PORQUE É A EXISTÊNCIA HUMANA PREFERÍVEL À DE UM SEIXO?No século dezanove, Shopenhauer, conhecido como o 'filósofo do pessimismo', chamou a atenção para o sofrimento da vida humana: queremos algo que nos falta ou temos aquilo que queremos; mas sofremos de um modo ou de outro - quer com a falta do que queremos, quer com o tédio resultante da falta de querer quando alcançamos o que queremos. (…) Se Shopenhauer tem razão, não será melhor ser um simples seixo, que é imune a estas experiências? Se fôssemos apenas um seixo de uma praia, todas as ondas e agitações da vida (atrevo-me ao gracejo?) seriam levadas pela maré.Shopenhauer está errado, pelo menos nos pormenores. Em muitas coisas apreciamos simplesmente o prazer da actividade que nos faz esquecer as insatisfações. Como é costume dizer, é melhor a viagem com esperança do que a chegada ao destino.É um erro pensar que quando mobilizamos os meios para atingir um fim só o fim nos importa, sendo os meios irrelevantes e sem qualquer valor em si mesmos. O nosso objectivo pode ser atingir o topo do monte Evereste, mas isso não significa que o queiramos atingir de qualquer maneira. Queremos escalar a montanha, combater as tempestades de neve, lutar escalada acima. Quando (no meu caso, é melhor dizer 'se') queremos atingir o topo, queremos atingir o nosso objectivo como deve ser. Os feitos medem-se não somente pelos resultados, mas também pelo modo como são conseguidos. Vermo-nos no cume do Evereste largados por um helicóptero ou por ter carregado num botão não teria interesse, a não ser que o feito a atingir fosse ser capaz de pilotar um helicóptero ou construir uma máquina que pudesse levar pessoas do local A para o B premindo apenas um botão.Shopenhauer terá alguma razão no seu pessimismo, no sentido em que na maior parte das vidas humanas há mais sofrimento do que satisfações. Muitos sofrimentos parecem mais ou menos inevitáveis - mesmo para aqueles que vencem na vida. Perdemos familiares, amigos e amantes; temos consciência da crescente decadência que acompanha a velhice; com toda a probabilidade, viremos um dia a ter, durante anos, experiência directa dessa decadência - e, por fim, do sofrimento de morrer. Temos consciência de que milhões de outras pessoas sofrem, no passado, no presente e no futuro e também do sofrimento dos animais. Além disso, alguns de nós sentem-se apegados a certos objectos - um livro, um vestido, um carro muito amado - chegando por vezes a atribuir-lhes uma vida própria e sofrendo também quando eles entram em colapso. Estas reflexões podem bem levar-nos a concluir que os mais felizes são, por assim dizer, aqueles que nunca chegam a nascer.* * *Qual o sentido de tudo isto? Muitos não resistem a fazer esta pergunta. Há fins e propósitos na minha vida - mas qual o fim ou propósito da minha vida?Alguns respondem explicando que as suas vidas ganham sentido ao ajudarem os seus filhos, ao trabalharem para melhorar a vida dos pobres ou ao abraçarem uma causa política. Mas isto é jogar ao jogo do empurra: qual o sentido de ajudar as crianças ou de abraçar uma causa política? Qualquer que seja a resposta dada, podemos sempre continuar a fazer perguntas similares. Alguns voltam-se para a esperança de uma vida eterna no além, mas também ela não tem mais sentido do que uma vida finita. Se temos motivo para nos questionarmos genuinamente sobre o sentido de uma vida finita, também o teremos para nos questionarmos sobre o sentido de uma vida de dura[...]



Mistificação e facto.

2017-05-14T21:20:31.531+01:00

 Alex McLeanLá fora ouvem-se foguetes e as buzinas não páram de tocar. Hoje treze de Maio parece-me que foi mesmo o dia do milagre, os Pastorinhos tiveram a sua confirmação de santidade, e a prova está à vista, ganhámos o festival eurovisão da canção depois de cinquenta anos sempre nos últimos lugares!  Enchem-se praças de futebol e fé,  estamos em plena exacerbação emocional nacionalista. Ninguém se moveria assim por um presidente ou um chefe de Estado, nosso, eleito. A política está sentada numa cadeira pequenina, no trono parece estar o futebol e a religião. Lembro-me de Marx, mas não ouso...ouso, sim, aqui vai Marx, para encontrar um equilíbrio entre a mistificação e a realidade dos factos. "É este o fundamento da crítica irreligiosa: o homem faz a religião; a religião não faz o homem. E a religião é, de facto, a autoconsciência e o sentimento de si do homem, que ou ainda não se conquistou ou voltou a perder-se. Mas o homem não é um ser abstrato, acocorado fora do mundo. O homem é o mundo do homem, o Estado, a sociedade. Este Estado e esta sociedade produzem a religião, uma consciência invertida do mundo, porque eles são um mundo invertido. A religião é a teoria geral deste mundo, o seu resumo enciclopédico, a sua lógica em forma popular, o seu point d’honneur espiritualista, o seu entusiasmo, a sua sanção moral, o seu complemento solene, a sua base geral de consolação e de justificação. É a realização fantasmal da essência humana, porque a essência humana não possui verdadeira realidade. Por conseguinte, a luta contra a religião é indiretamente a luta contra aquele mundo cujo aroma espiritual é a religião. A miséria religiosa é, ao mesmo tempo, a expressão da miséria real e o protesto contra a miséria real. A religião é o suspiro da criatura oprimida, o âmago de um mundo sem coração e a alma de situações sem alma. É o ópio do povo. A abolição da religião enquanto felicidade ilusória dos homens é a exigência da sua felicidade real. O apelo para que eles deixem as ilusões a respeito da sua situação é o apelo para abandonarem uma situação que precisa de ilusões . A crítica da religião é, pois, em germe a crítica do vale de lágrimas de que a religião é a auréola. A crítica colheu nas cadeias as flores imaginárias, não para que o homem suporte as cadeias sem fantasia ou sem consolação, mas para que lance fora as cadeias e colha a flor viva. A crítica da religião liberta o homem da ilusão, de modo que ele pense, atue e configure a sua realidade como homem que perdeu as ilusões e recuperou o entendimento, a fim de que ele gire à volta de si mesmo e, assim, à volta do seu verdadeiro sol. A religião é apenas o sol ilusório que gira à volta do homem enquanto ele não gira à volta de si mesmo. Por isso, a tarefa da história , depois que o além da verdade se desvaneceu, é estabelecer a verdade do aquém. A imediata Tarefa da filosofia , que está ao serviço da história, é desmascarar a autoalienação humana nas suas formas não sagradas, agora que ela foi desmascarada na sua forma sagrada. A crítica do céu transforma- se deste modo em crítica da terra, a crítica da religião em crítica do direito, a crítica da teologia em crítica da política."Se a luta política e a sociedade ideal revelou-se, quando experimentada, tirânica e profundamente injusta, a sociedade cristã católica nunca poderá ser testada na história porque [...]



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2017-04-25T10:43:18.169+01:00


Lisboa, 25 de Abril de 1974

A democracia exige que todos participemos, para a melhorar, para entusiasmar também a classe dirigente ou expugná-la do seu reduto se esta for corrupta ou negligente. 






Cinema: a arte alargada às massas

2017-04-16T12:11:58.510+01:00

Fotograma do filme "Aurora" F.W. Murnau, EUA, 1927Porque quanto mais o significado social de uma arte diminui, tanto mais se afastam, no público, as atitudes, críticas e fruição. O convencional é apreciado acriticamente e o que é verdadeiramente novo é criticado com aversão. No cinema, coincidem as atitudes críticas e de fruição do público. Neste caso, a circunstância decisiva é que em nenhum outro lugar, como no cinema, a reação maciça do público, constituída pela soma das reações de cada de um dos indivíduos, é condicionada à partida pela audiência em massa. À medida que essas reações se manifestam, o público controla-as. A comparação com a pintura continua a ser útil. A pintura sempre foi apresentada para ser vista por uma, ou algumas pessoas. A observação simultânea de pinturas, por parte de um grande público, como sucede no século XIX, é um sintoma precoce da crise da pintura que, não só através da fotografia, mas também de modo relativamente independente dela, foi desencadeada pela pretensão da obra de arte, de dirigir-se às massas. A pintura não está, pois, em condições de ser objeto de uma receção coletiva simultânea, como sempre sucedeu com a arquitetura, outrora com a epopeia e atualmente com o cinema. E, por pouco que esta circunstância, em si, nos permita tirar conclusões sobre o papel social da pintura, é certo que isso institui uma séria limitação num momento em que, devido a uma série de circunstâncias particulares, e de um modo que até certo ponto contradiz a sua natureza, a pintura se vê diretamente confrontada com as massas. Nas igrejas e mosteiros medievais e nas cortes da nobreza, até finais do século XVIII, a receção coletiva da pintura não se terá verificado simultaneamente, sendo transmitida de uma forma gradual e hierárquica. Na mudança que entretanto se verificou, está contida a expressão do conflito particular causado pelo envolvimento da pintura na reprodutibilidade técnica da imagem. Mas, embora fosse exibida em público, em galerias e salões, não houve meio que permitisse às massas organizar ou controlar a sua receção. Assim, exatamente o mesmo público que reage com uma atitude progressista a um filme grotesco, tem de reagir de forma reacionária perante o surrealismo.(1) (...) ____________ De facto, o cinema enriqueceu o nosso horizonte de perceção com métodos que podem ser ilustrados pela teoria freudiana. Há cinquenta anos um lapso numa conversa passava, mais ou menos, despercebido. Podia considerar-se uma exceção que tal lapso abrisse perspetivas profundas, numa conversa que parecia decorrer superficialmente. Desde “Psicopatologia da Vida Quotidiana”, esse facto alterou-se. Esta obra isolou e, simultaneamente, tornou analisáveis coisas que, anteriormente, fluíam na corrente do que era naturalmente percecionado. O cinema, em toda a amplitude da perceção ótica, e agora também acústica, teve como consequência um aprofundamento semelhante da perceção. (…)Uma das funções revolucionárias do cinema será a de tornar reconhecíveis como idênticos os aproveitamentos artístico e científico da fotografia, até agora divergentes, na maioria dos casos. Isto porque o cinema, através de grandes planos, do realce de pormenores escondidos em aspetos que nos são familiares, da exploração de ambientes banais com uma direção genial objetiva, aumenta a c[...]